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Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.47 no.89 Belo Horizonte Jan./June 2025  Epub Oct 24, 2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v47n89.06 

PSICANÁLISE E CONTEMPORANEIDADE

O sujeito algorítmico: digitalização do trabalho, gozo e (des-)subjetivação

The algorithmic subject: work digitalization, jouissance, and (de-)subjectivation

Anderson de Souza Sant’Anna

Anderson de Souza Sant’Anna

Psicanalista-sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG). Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGVEAESP).

Pós-doutorando junto ao Programa de Pósgraduação em Psiquiatria (FMUSP). Pós-doutor em Teoria Psicanalítica (UFRJ). E-mail:anderson.santanna@fgv.br

1 
http://orcid.org/0000-0001-6537-6314

1Fundação Getúlio Vargas


Resumo

A digitalização do trabalho redefine o laço social e impacta a constituição subjetiva. Este artigo analisa esse cenário à luz do discurso do capitalista, que desloca o desejo ao privilegiar a lógica do mais-de-gozar e a maximização da performance. Examina-se a (des-)subjetivação promovida pelo monitoramento algorítmico e pela automação. Frente a essa economia discursiva, a psicanálise aponta o ato e a falta como operadores de deslocamento e reconfiguração subjetiva diante da saúde mental digital.

Palavras-chave: (des-)subjetivação; saúde mental digital; discurso do capitalista; mais-de-gozar; ato.

Abstract

The digitalization of work redefines social bonds and impacts subjective constitution. This article analyzes this scenario through the perspective of the capitalist discourse, which displaces desire by privileging the logic of jouissance surplus and performance maximization. It examines the (de-)subjectivation induced by algorithmic monitoring and automation. In response to this discursive economy, psychoanalysis highlights the act and lack as possible operators of displacement and subjective reconfiguration in the context of digital mental health.

Keywords: (de)subjectivation; digital mental health; capitalist discourse; jouissance surplus; act.

Introdução

A digitalização do trabalho tem reconfigurado profundamente as relações entre sujeito, técnica e mercado. Se, por um lado, as novas tecnologias impulsionam a conectividade, a automação e a eficiência operacional (Brynjolfsson & McAfee, 2014), por outro, impõem formas inéditas de monitoramento e controle, transformando as dinâmicas laborais e impactando diretamente a economia psíquica dos trabalhadores. A hiperconectividade dissolve as fronteiras entre vida profissional e pessoal, impondo um regime de disponibilidade contínua e intensificação da carga de trabalho (Seyfert & Roberge, 2020). Como consequência, observa-se um aumento expressivo da exaustão psíquica, do estresse ocupacional e de transtornos como ansiedade e depressão, fenômenos associados à lógica do desempenho e à exigência constante de produtividade (Williams et al., 2018; Pfeffer, 2018).

Além dos impactos individuais, este cenário reflete mudanças estruturais no funcionamento do laço social no contexto laboral. O trabalho digitalizado reorganiza a experiência subjetiva ao operar sob uma lógica algorítmica, que reduz o sujeito à quantificação de seu desempenho e à previsibilidade de suas ações. O monitoramento em tempo real e a análise de métricas automatizadas estabelecem um ambiente no qual o valor do trabalhador passa a ser determinado por índices de engajamento e eficiência, deslocando a avaliação do campo simbólico para a lógica da medição contínua (Couldry & Mejias, 2019). Este modelo enfraquece mediações discursivas que antes regulavam as relações de trabalho, intensificando a lógica da transparência e da vigilância (Lyon, 2018).

Diante do panorama, este artigo busca analisar os efeitos da digitalização do trabalho a partir de conceitos da psicanálise, particularmente os de discurso do capitalista, mais-de-gozar, (des-)subjetivação e ato. A partir da formulação lacaniana do discurso do capitalista (Lacan, 1972/2003), examina-se como a digitalização desloca as coordenadas do desejo, eliminando a falta e reforçando um circuito de gozo e produtividade ilimitada (Alemán, 2021). O conceito de mais-de-gozar (Lacan, 1968/1998) permite compreender como esse funcionamento sustenta uma compulsão pela maximização da performance, capturando subjetivamente o trabalhador em uma lógica de repetição e exaustão. Já a noção de (des-)subjetivação (Han, 2014) esclarece o impacto da digitalização na constituição do sujeito, à medida que ele é progressivamente reduzido a uma função operacional regulada por algoritmos. Por fim, interroga-se o estatuto do ato como possibilidade de ruptura frente à captura algorítmica (Laurent, 2002), questionando de que maneira a psicanálise pode oferecer subsídios para a construção de alternativas que não se restrinjam à adaptação aos imperativos da produtividade digital.

A partir desta articulação, propõe-se uma reflexão crítica sobre os desafios contemporâneos impostos pela digitalização do trabalho, evidenciando como esse processo reconfigura a subjetividade e os modos de regulação da vida psíquica. Ao invés de assumir uma perspectiva meramente adaptativa, este estudo aposta na importância da singularidade do sujeito e de sua relação com o desejo, buscando pensar possibilidades de deslocamento que resistam à lógica da automatização e da previsibilidade algorítmica.

Por fim, interroga-se o estatuto do ato como possibilidade de ruptura frente à captura algorítmica (Laurent, 2002), questionando de que maneira a psicanálise pode oferecer subsídios para a construção de alternativas que não se restrinjam à adaptação aos imperativos da produtividade digital. Este artigo sustenta que a digitalização do trabalho não apenas intensifica a lógica do gozo e da performance, mas também impõe um modelo de subjetivação que busca eliminar a falta, levando a um esgotamento psíquico. Frente a esse cenário, propõe-se que o ato psicanalítico pode operar como um deslocamento que resiste às tentativas de captura algorítmica.

Digitalização do trabalho e efeitos subjetivos

A digitalização do trabalho transforma não apenas os modos de produção, mas também a constituição subjetiva dos trabalhadores. A automação de tarefas, o trabalho remoto e o monitoramento algorítmico modificam as relações laborais ao substituir interações simbólicas por processos mediados por métricas e dados. Este cenário impacta diretamente o desejo, o gozo e a subjetivação, promovendo mutações mais profundas na economia psíquica do sujeito do que o mero cansaço ou estresse ocupacional (Zuboff, 2019; Han, 2017; Fleming, 2019).

A informatização dos processos decisórios reduz a margem de negociação, alterando a dinâmica simbólica do trabalho. Se antes o laço social no trabalho era sustentado por pactos discursivos e identificações mediadas pela linguagem, a automação e o gerenciamento algorítmico promovem uma relação estruturada pela quantificação do desempenho (Sadin, 2020). Dessa forma, o valor do trabalhador passa a ser definido por métricas de produtividade e engajamento, deslocando-se da esfera simbólica para a avaliação automatizada (Couldry & Mejias, 2019).

O monitoramento digital intensifica essa lógica, criando um regime de visibilidade permanente. Softwares de rastreamento e inteligência artificial aplicada à gestão organizam um ambiente no qual cada ação do trabalhador pode ser medida, analisada e comparada a padrões de eficiência previamente estabelecidos (Haggerty & Ericson, 2000; Lyon, 2018). Esse modelo reforça a internalização do imperativo da performance, levando o sujeito a adotar uma postura de autocontrole e autovigilância contínuos, sustentando a lógica do “empreendedor de si mesmo” (Moore, 2020).

A temporalidade do trabalho também é alterada. A hiperconectividade desfaz a separação entre tempo de trabalho e tempo de descanso, eliminando os intervalos necessários para a elaboração subjetiva e a emergência do desejo (Crary, 2013; Rosa, 2013). Nesse contexto, o trabalhador é imerso em um ciclo contínuo de maximização da performance, em que a ausência da falta como operador simbólico gera compulsão e esgotamento subjetivo (Han, 2014).

O discurso do capitalista e a lógica do mais-de-gozar

Lacan (1969-70/1992) concebe o discurso do capitalista como uma reformulação do discurso do mestre, caracterizada pela aceleração da circulação da mercadoria e pela recusa da falta como elemento estruturante. No discurso do mestre, a alienação e a divisão subjetiva são mediadas por um saber que organiza a relação do sujeito com o desejo e o trabalho. Já no discurso do capitalista, essa mediação é reduzida, instaurando um funcionamento no qual a produção e o consumo ocorrem sem intervalos, sustentando a ilusão de satisfação ilimitada (Alemán, 2021).

A digitalização do trabalho se insere nesse regime discursivo ao operar sob o paradigma da eficiência e da otimização contínua. Os processos laborais tornam-se cada vez mais automatizados, substituindo mediações simbólicas por métricas de produtividade e algoritmos preditivos. Assim, o trabalhador não apenas responde a demandas específicas, mas é continuamente impulsionado a maximizar sua performance, adaptando-se a metas que se renovam sem cessar (Laval, 2019).

Neste contexto, o conceito lacaniano de mais-de-gozar (Lacan, 1968/1998) emerge como chave para compreender a captura subjetiva pela lógica da maximização. Diferente da mais-valia marxista, que remete à exploração econômica do trabalho, o mais-de-gozar diz respeito ao excedente de gozo extraído do sujeito, um gozo que não se inscreve na falta e que, portanto, não encontra um ponto de corte. No ambiente digital, esse mecanismo se expressa na compulsão à produtividade contínua, onde cada tarefa cumprida dá lugar imediatamente a novas exigências, impossibilitando uma satisfação duradoura (Han, 2014).

A promessa de plenitude e autorrealização sustentada pelo discurso do capitalista intensifica essa compulsão ao desempenho. Ferramentas de monitoramento e plataformas digitais capturam o sujeito na lógica da maximização, promovendo um circuito de repetição no qual o gozo nunca se conclui (Ivanova et al., 2022). Dispositivos de rastreamento da produtividade, algoritmos de recomendação e sistemas de gamificação do trabalho reforçam a ideia de que sempre há um novo patamar a ser alcançado, eliminando a possibilidade de uma pausa simbólica que permita a elaboração subjetiva e a ressignificação da experiência laboral (Berardi, 2017).

Esse modelo produz um efeito paradoxal: ao mesmo tempo que impulsiona o trabalhador a superar seus próprios limites, ele o conduz ao esgotamento psíquico. A ausência de um mecanismo regulador da falta impede a simbolização da experiência e favorece a repetição compulsiva do desempenho, transformando a relação com o trabalho em uma busca incessante por produtividade, sem que haja um horizonte de satisfação real (Dardot & Laval, 2016).

O sujeito reduzido à operação algorítmica

A digitalização do trabalho insere o sujeito em um regime de previsibilidade e mensuração contínua, no qual sua atividade é regulada por métricas de desempenho e algoritmos que antecipam e ajustam seu comportamento em tempo real (Zuboff, 2019). A crescente automatização dos processos decisórios e a exigência de eficiência constante deslocam o sujeito de uma posição desejante para uma posição operacional, onde sua subjetividade é reduzida à lógica da função e do cálculo (Han, 2017).

Neste contexto, a experiência laboral torna-se inteiramente rastreável e quantificável. Sistemas de monitoramento registram cada ação do trabalhador, transformando seu esforço em dados de produtividade e eficiência (Couldry & Mejias, 2019). Relatórios automatizados, dashboards de desempenho e avaliações baseadas em inteligência artificial impõem um olhar ininterrupto sobre o sujeito, promovendo um estado de vigilância permanente no qual não há espaço para a imprevisibilidade ou a pausa reflexiva (Harcourt, 2015).

A transparência digital impõe um apagamento da opacidade subjetiva. O desejo e o inconsciente, elementos fundamentais para a constituição do sujeito na psicanálise, são progressivamente anulados em favor de uma lógica de visibilidade total, na qual o valor do trabalhador é medido exclusivamente por seu rendimento quantificável (Han, 2014). Essa eliminação da falta desestrutura a economia psíquica, pois suprime o intervalo necessário para que o sujeito se posicione em relação ao seu próprio trabalho e ao laço social que ele estabelece com os outros.

A integração de tecnologias que ajustam expectativas de desempenho em tempo real gera um paradoxo: ao mesmo tempo que impulsiona o trabalhador a produzir cada vez mais, impede que ele alcance um estado de satisfação duradouro. As metas são constantemente redefinidas, e o sucesso momentâneo é imediatamente seguido por novas exigências, impedindo qualquer sensação de completude ou reconhecimento simbólico (Pfeffer, 2018). Esse ciclo de otimização contínua resulta em um estado de exaustão psíquica, caracterizado pela compulsão ao desempenho, pelo esgotamento subjetivo e pela dificuldade de se situar fora da lógica da produtividade ininterrupta (Berardi, 2017).

A dissolução da subjetividade na operação algorítmica restringe a margem de agência do trabalhador, transformando-o em um operador subordinado a padrões preditivos e automatizados. A experiência do trabalho, antes atravessada por mediações simbólicas e identificações discursivas, passa a ser estruturada por mecanismos que reduzem o sujeito a um conjunto de respostas automatizadas, eliminando a possibilidade de um posicionamento singular diante do que lhe é demandado (Dardot & Laval, 2016).

O ato como possibilidade de deslocamento

A psicanálise sustenta que o sujeito não pode ser inteiramente capturado pelo discurso algorítmico, pois há sempre um ponto de opacidade que escapa à lógica da previsibilidade e da quantificação (Lacan, 1960/1998). Esse ponto irredutível se manifesta no real do gozo, uma dimensão que não pode ser traduzida em dados nem plenamente regulada por métricas de eficiência (Laurent, 2002). É nesse espaço que se situa o ato, entendido não como uma mera ação intencional, mas como um corte que interrompe a repetição compulsiva imposta pela lógica do desempenho contínuo.

A experiência digital estrutura-se na tentativa de eliminar a falta, promovendo um circuito de respostas imediatas, estímulos incessantes e maximização constante da performance. No entanto, o sujeito não se reduz a um conjunto de padrões preditivos, pois há sempre uma dimensão imprevisível que resiste ao cálculo (Han, 2017). Esse limite da captura algorítmica se manifesta nos sintomas contemporâneos, como fadiga digital, technostress, burnout, sensação de despersonalização e alienação no trabalho (Pfeffer, 2018). Tais fenômenos não são apenas efeitos colaterais da digitalização, mas indicam o fracasso estrutural do sistema em totalizar a experiência subjetiva.

O ato psicanalítico emerge como uma possibilidade de ruptura com esse automatismo, instaurando um intervalo na lógica da repetição e permitindo um reposicionamento do sujeito diante do trabalho e da tecnologia (Lordon, 2019). Diferentemente de uma resistência consciente ou de um protesto político, o ato não responde diretamente às demandas do Outro digital, mas opera uma torção na estrutura que mantém o sujeito preso à maximização. Ele pode se manifestar na recusa a métricas de produtividade que desconsideram a singularidade do trabalhador, na criação de espaços de pausa e silêncio dentro do fluxo hiperconectado ou mesmo na aposta em um tempo que não seja integralmente capturado pelo imperativo da transparência e da eficiência (Sadin, 2020).

Ao interromper a compulsão ao desempenho, o ato introduz uma dimensão de imprevisibilidade e desejo, permitindo ao sujeito reencontrar sua posição subjetiva para além do papel de mero executor de funções otimizáveis (Alemán, 2021). Em um contexto no qual a performance contínua é exigida como norma, a possibilidade de um deslocamento subjetivo passa pela sustentação da falta, pelo reconhecimento da impossibilidade de totalização e pela reabertura do campo do desejo. Se a digitalização do trabalho busca eliminar a opacidade da experiência humana, o ato resiste ao imperativo da maximização e reafirma que o sujeito não pode ser reduzido à transparência algorítmica.

Considerações finais

Ao examinarmos efeitos subjetivos da digitalização do trabalho a partir da perspectiva psicanalítica, interrogando modos pelos quais o discurso do capitalista, a lógica do mais-de-gozar e os processos de (des-)subjetivação estruturam a relação do sujeito com o trabalho no contexto digital, torna-se possível identificar que a digitalização não se limita a uma reorganização técnica ou econômica dos modos de produção e regulação do trabalho. Ao contrário, opera uma transformação discursiva que incide diretamente sobre a experiência subjetiva (Alemán, 2021). O avanço das tecnologias digitais e a introdução de métricas algorítmicas intensificam o regime de visibilidade e mensuração contínua, promovendo um apagamento dos intervalos simbólicos que sustentam a relação do sujeito com o desejo (Zuboff, 2019; Han, 2017).

Nesse contexto, a performance e a otimização reificam-se como imperativos, conduzindo o sujeito a uma posição em que a produção incessante se confunde com a própria constituição subjetiva (Moore, 2020). A captura algorítmica do gozo, ao operar pela eliminação da falta, produz um funcionamento compulsivo, no qual a única resposta possível à demanda do Outro é o desempenho máximo (Laurent, 2002). A exaustão, frequentemente tratada como efeito colateral da hiperconectividade, pode ser lida como sintoma que denuncia o impasse desse regime, evidenciando que o sujeito não pode ser inteiramente reduzido a uma lógica de previsibilidade e controle (Berardi, 2017; Crary, 2013).

A psicanálise, nesse cenário, oferece uma perspectiva que resiste à normatização e à adaptação do sujeito aos novos sistemas de trabalho. Em contraposição às abordagens que buscam regular o sofrimento psíquico por meio de estratégias de adaptação, autocontrole emocional ou de gestão do bem-estar, o discurso analítico sustenta a hipótese de que a falta, longe de ser um problema a ser solucionado, constitui o fundamento do desejo e da subjetivação (Lacan, 1968/1998). Se o trabalho digitalizado se estrutura na tentativa de eliminar a opacidade do sujeito, promovendo uma transparência total que permite a automação da experiência, a psicanálise insiste na irredutibilidade do sujeito ao cálculo e na impossibilidade de totalização da experiência subjetiva (Dardot & Laval, 2016).

Diante desse impasse, a noção de ato emerge como operador relevante de deslocamento, capaz de interromper a automatização do gozo e reinscrever o sujeito em sua posição desejante (Lacan, 1972/2003). Diferentemente de uma resistência consciente ou de uma decisão estratégica, o ato, na psicanálise, não responde a uma lógica adaptativa, mas instaura uma ruptura no automatismo da repetição (Laurent, 2002). Essa possibilidade não se traduz necessariamente em um enfrentamento direto ao sistema, mas se manifesta em momentos nos quais o sujeito recusa a se deixar capturar inteiramente pela exigência de desempenho, restabelecendo uma relação com a falta que sustenta sua singularidade (Han, 2014; Lordon, 2019).

As formulações aqui discutidas abrem caminhos para investigações futuras que articulem a psicanálise a outras disciplinas, permitindo um aprofundamento da reflexão sobre os impactos da digitalização do trabalho na subjetividade. O problema da automação, da inteligência artificial, da robótica e suas implicações sobre o desejo, a maneira como os sintomas contemporâneos se articulam à economia do gozo e as formas possíveis de deslocamento diante da captura algorítmica são questões que ainda carecem de amplo debate (Couldry & Mejias, 2019; Seyfert & Roberge, 2020). No campo clínico, essas reflexões reiteram a necessidade de uma escuta que não se limite a tratar o sofrimento como obstáculo a ser eliminado, mas que sustente o trabalho do sujeito na invenção de respostas que não se reduzam à lógica da adaptação, à criação de sinthomes singulares, no um-a-um e, muito provavelmente, na pontinha dos pés (Lacan, 2006; Laurent, 2002; Galano, 2017).

Ao situar a saúde mental digital como fenômeno discursivo e não apenas como uma questão técnica, este artigo propõe um deslocamento que permite interrogar as condições sob as quais o sujeito se constitui no mundo do trabalho. Se a digitalização promove uma tentativa de eliminação da falta e da opacidade subjetiva, a psicanálise sustenta que é justamente nessa dimensão que se encontram as possibilidades de invenção e deslocamento (Han, 2017). Assim, frente ao regime de mensuração e controle, a aposta na singularidade do desejo e na potência do ato surge como uma via possível para que o sujeito não se reduza à lógica algorítmica, mas possa encontrar espaços - ou, quem sabe, produzir sinthomes - por meio dos quais a subjetivação continue a ser uma experiência aberta, singular, não inteiramente capturada pelos dispositivos do discurso contemporâneo (Lacan, 2006; Sadin, 2020; Zuboff, 2019).

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Recebido: 09 de Fevereiro de 2025; Aceito: 22 de Abril de 2025

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