O Zuider Zee foi um grande mar interior no território holandês, formado por volta de 1200, devido a uma série de inundações. Desde o século XVII, foram planejadas ações para recuperar as terras submersas, resultando na construção do Afsluitdijk - Dique de Fechamento, entre 1920 e 1932. O Zuider Zee foi transformado em um lago menor de água doce, com margens adequadas para a agricultura e comportas que permitem o acesso ao Mar do Norte. No ano seguinte à criação do Afsluitdijk, Freud menciona o grande feito na Conferência 31: A disseção da personalidade psíquica (1933/2010), ao proferir a conhecida expressão Wo Es war, soll Ich werden - “onde era isso, haveria de ser o eu1. É uma obra cultural, como o aterro do Zuider Zee, digamos” (p. 184).
Eliana Mendes (2011) demonstra que ao fazer desta obra uma metáfora, Freud marca a passagem do pulsional à criação cultural. A autora destaca, assim, a noção de sublimação que, como um dos destinos da pulsão, consiste no processo de desvio das forças pulsionais sexuais para um alvo não sexual. Ela afirma ainda que o sentido do aforismo freudiano nos revela que “o propósito da análise seria exatamente criar novos destinos pulsionais” (p. 67), tal como as terras férteis criadas a partir da secagem do lago salgado no território holandês.
Sua leitura nos permite aproximar a Conferência XXXI de Freud ao Seminário 7: A ética da psicanálise (Lacan,19591960/2008), em que a sublimação aparece como uma forma de tratamento do gozo impossível, relacionado à Coisa (das Ding). No início desse Seminário, Lacan retoma o aforismo Wo Es war... elegendo-o como uma síntese de toda a produção freudiana e relacionando-o aos objetivos de condução das análises.
Recordemos, contudo, que Lacan já havia recorrido, de diferentes modos, a esta fórmula extraída da Conferência XXXI, como no Seminário 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1954/1986), por exemplo, operando com seus três registros referenciais. Ele a aborda pela perspectiva do imaginário, dizendo que o eu que deve advir é diferente do eu da imagem especular. Frisa também que o termo de uma análise se dá pelo declínio do imaginário, no limite da despersonalização.
Já em A coisa freudiana, ou o sentido do retorno a Freud (1955/1998), Lacan critica a tradução do aforismo presente ao final da Conferência 31 - Where the Id was, there the Ego shall be - proposta por James Strachey para a língua inglesa. Segundo o psicanalista francês, tal tradução, ao sustentar o artigo definido the, corroborava uma orientação equivocadamente assimilada por grande parte do movimento psicanalítico: a ideia de que seria necessário restaurar a parte sadia do eu frente ao seu lado enfraquecido e adoecido, debilitado por conflitos internos. Ao apontar este equívoco, Lacan alertava para os perigos desta perspectiva, sobretudo, o risco de que o analista viesse a ocupar o lugar de aliado externo do analisando - uma posição de maestria, marcada pela autoridade ou mesmo pelo traço de um substituto parental. Naquele mesmo ano, no Seminário 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955/1992), afirma ainda que a máxima visa à grande obra analítica pelo atravessamento do “muro da linguagem”. Nesta perspectiva, o Es (o isso) é lido como S, ou seja, como “o sujeito que se conhece ou não conhece, que está ou não com a palavra” (p. 311).
Como bem observa Safatle (2007, p.167), nesta abordagem, Lacan “lê a pulsão de morte para além da repetição compulsiva do instinto de destruição”, elaborando o lugar onde estava o Es, como lugar do discurso do Outro, deixando o campo pulsional submetido à lógica dos significantes. Em decorrência desta posição, a análise, tal como explicitada naquele seminário, deveria visar uma “fala verdadeira, capaz de juntar um sujeito a um outro sujeito do outro lado do muro da linguagem” (Lacan, 1954-1955/1992, p. 310), com o intuito de que este, ao final da análise, estivesse com a palavra: “ali onde o S estava, lá tem de estar o Ich” (p. 311).
Entretanto, por estar advertido de que no trabalho analítico há sempre um resto que resiste à simbolização, no Seminário 6: O desejo e sua interpretação (1958-1959/2016), Lacan propõe uma reorientação na relação entre o Es e o lugar da linguagem. Afirmando buscar a reconquista do “campo perdido do ser do sujeito” - tarefa que caracteriza seu projeto de retorno à Freud - o psicanalista francês aborda a dinâmica “do desejo enquanto ele é função e termo disto do que se trata no inconsciente” (p. 401). Isto nos leva a um novo apontamento em relação ao lugar antevisto pela fórmula freudiana, pela qual o Ich deveria se estabelecer lá onde o Es se encontrava. O que está em jogo não é a ocupação ou substituição de um pelo outro, mas o reconhecimento deste lugar, que aparentemente parecia ser ocupado antes tão somente pelo Outro da linguagem, como o campo do desejo inconsciente, com seu núcleo inapreensível.
Neste aspecto, concordamos com Miller (2011), que afirma que Lacan realiza nesse momento uma espécie de autocrítica, “por ter confundido no seu ‘isso fala’, o isso e o inconsciente” (p. 16), sem distinguir do lugar da palavra, o lugar da pulsão.
O aforismo do fim ao começo
O Seminário: livro 7 leva a termo esse ponto de virada, de tal modo que o aforismo freudiano já não representa o final esperado de uma análise, senão pelo fato de ser, em suma, o motivo próprio pelo qual uma análise se inicia. De que maneira? Lacan (1959-1960/2008) articula o dever (sollen) ao sofrimento do obsessivo às voltas com uma culpa - um mal-estar - resultante de uma relação constitutiva e paradoxal entre a Lei e das Ding. Assim, a máxima mereceria o nome de experiência moral, situando-se
no próprio princípio da entrada do paciente na psicanálise. Afinal, esse (Je) que deve advir lá onde isso estava . . . não é outra coisa senão aquilo cuja raiz já temos no sujeito que se interroga sobre o que quer, colocando para si mesmo essa questão no lugar dos imperativos frequentemente estranhos, paradoxais, cruéis que lhe são propostos (p. 18).
É importante destacar que a noção de dever, aqui, é entendida como uma necessidade lógica, isto é, num sentido alético pelo qual o eu deve necessariamente advir, “ainda que não consiga, que não faça” (p. 18). Este caráter necessário é conferido pela Lei (Lei do desejo) por meio da qual cada indivíduo, pelos mais diversos caminhos e elaborações, tenta também “reencontrar, a certa altura, para além da Lei, a relação com das Ding” (p. 104).
Para fins práticos, podemos considerar das Ding como o objeto perdido e inacessível, bem como o núcleo irrepresentável do desejo, de que Lacan nos fala no Seminário 6 (1958-1959/2016). Das Ding está vinculada assim à noção da falta fundamental que estrutura o desejo, mas também à dimensão de um gozo absoluto e ilimitado, que ameaça o sujeito devido à sua potência mortífera. Disso decorre que a Lei, sustentada na noção de castração, barra o acesso pleno a das Ding, enquanto organiza o campo do desejo em torno da falta. Por meio dela, tanto a estrutura simbólica quanto a relação imaginária operam como defesas indispensáveis contra a aproximação direta de das Ding, cujo acesso seria possível apenas por meio de um ato de transgressão.
Por esta razão, a ética, elaborada no Seminário 7 (1959-1960/2008) aborda o campo da sublimação que, por meio de elaborações imaginárias e manifestações culturais, oferece possibilidades de satisfação parcial e substitutiva diante do gozo impossível que a noção das Ding representa. Neste seminário, retomando o grafo do desejo, Lacan diz que toda essa problemática em torno de das Ding se situa no nível do S(Ⱥ), o significante primordial da falta no Outro. Afinal, “se nada mais há senão a falta [manque], o Outro se esvai, e o significante [que resta] é o significante da morte” (1959-1960/2008, p. 231).
Nestes termos, é graças à função imaginária, “especialmente, aquela que a simbolização da fantasia ($ ◊ a) aponta . . . que os elementos imaginários da fantasia vêm recobrir, engodar o sujeito no ponto mesmo de das Ding” (p. 123). Vale ressaltar que anos mais tarde, retomando uma aproximação que aparece esboçada no Seminário 7, Lacan (1963) reforça em Kant com Sade a importância de que os sujeitos não se deixem enganar pela própria fantasia, formalizando mais adiante - no Seminário 14 (1966-1967/2023) - a lógica de uma travessia da fantasia com o final esperado de uma análise.
Nesta que pode ser considerada como uma primeira clínica lacaniana, a do desejo, Lacan propõe que os efeitos de verdade da interpretação analítica, longe de gerarem sentidos ilimitados, devem remeter-se ao vazio fundamental e à uma ausência primordial. Este trabalho não visa, portanto, preencher a falta ou oferecer um sentido pleno, mas provocar no indivíduo um deslocamento de suas fixações imaginárias, aproximando-o do núcleo real do desejo. Sob esta ótica, a máxima freudiana se revela como um convite à travessia em direção ao lugar em que o analisando se confronta com sua falta.
Uma revisão lacaniana
Na medida em que avança em seu ensino, Lacan sente a necessidade de revisar alguns pontos sobre a ética da psicanálise, tarefa reafirmada nas primeiras linhas do Seminário 20: Mais, ainda (19721973/2008). No percurso entre os dois seminários, o isolamento do gozo do campo da simbolização - representado pelo gozo proibido de das Ding - logo se apresentou como um impasse lógico, levando Lacan à formalização de um objeto fantasmático como um representante pulsional em relação com a Coisa.
Como aponta Miller (2011), esse reposicionamento é uma das mudanças paradigmáticas em relação ao gozo, pois, para além do gozo da Coisa (das Ding) alcançado somente por uma transgressão, a formalização deste objeto pequeno a traz à tona um suplemento de gozo vinculado a ele: “Entrar de fininho não é transgredir . . . não se trata aqui de transgressão, mas antes de irrupção, queda no campo de algo que é da ordem do gozo” (Lacan, 1969-1970/1992, p. 17).
Para muito autores, o início dos anos 1970 marca um ponto de virada definitivo para o estabelecimento de uma chamada clínica do gozo lacaniana (Cesarotto & Leite, 1993; Miller, 2012). O Seminário 20: Mais, ainda (1972-1973/2008) sintetiza este momento de virada, precisamente porque a linguagem deixa de ser abordada apenas pelo seu valor simbólico, passando a ser concebida como aquilo que se inscreve no corpo, produzindo um efeito de gozo fora do sentido dado pela concatenação dos significantes. Como apontam Alvarenga e Macedo (2023, p.88), aqui “Lacan não está mais às voltas com o desejo do Outro, mas com o gozo e com a fala que não se dirige ao Outro, mas que serve para gozar”
Umas das consequências deste reposicionamento é o estabelecimento, para além do gozo regido pela Lei - o gozo fálico - de um gozo suplementar, não-todo regulado pela Lei. Trata-se de um gozo referido ao Outro barrado, vazio, inconsistente, na condição de ser algo experimentado no corpo - em uma referência clara ao título do seminário em francês, Encore, homofônico à en corps (no corpo) - por não estar atrelado ao campo simbólico.
A nova abordagem conduz igualmente a um reposicionamento clínico em relação ao gozo impossível vinculado à Coisa. No Seminário 7 (1959-1960/2008), a sublimação aparecia como uma forma de tratamento a este gozo impossível. Mas o gozo que escapa, irrompe, invade - o gozo não todo regulado pela Lei - parece exigir um passo a mais.
Em suma, por um lado, a questão apontada no Seminário 6: O desejo e sua interpretação em relação ao desejo “sobre o qual devemos avançar ‘para a realização da grande obra analítica’ (Lacan, 1958-1959/2016, p. 401), abre o promissor caminho de um manejo clínico em relação ao real e ao gozo impossível, conduzindo-nos à travessia da fantasia. Já as formulações sobre o gozo no início dos anos 70, por outro lado, trazem novas luzes e ampliam as diretrizes iniciais do ensino de Lacan, especialmente no que tange ao real, sem, contudo, abandoná-las.
Para ilustrar as consequências práticas de tal ampliação, propomos o resgate de um trabalho publicado pela Reverso: “Que lo S(Ⱥ)?”
Em seu artigo da Reverso nº45 - Pulsão, seus destinos e final de análise - Maria Ângela Dayrell (1998) comenta o seguinte fragmento clínico: uma analisanda da área psi e próxima do término da análise lhe relata um sonho no qual seu tratamento não terminaria em vias da fórmula freudiana Wo Es war, mas pelos dizeres “que lo ça seja lo que és”.
Fazendo notar que o dito da analisante é composto por uma polissemia de significantes de diferentes idiomas, Dayrell (1988) nos apresenta algumas possíveis leituras sobre o dito, como uma forma didática de aclarar os argumentos por ela apresentados ao longo do artigo. A expressão seja lo que és lhe serve para frisar, por exemplo, o modo como numa análise “o paciente tem que se haver com este lugar que lhe foi designado, do qual ele é simples efeito - uma escolha forçada” (p. 103).
Numa outra leitura, em que comenta uma supervisão do caso com Célio Garcia, a autora aponta para a promessa de um impossível que passou a ser uma obrigação - “vocês vão ver, eu vou gozar!” (p. 101). Neste caso, ainda que os dizeres do sonho da analisante, - que lo ça seja lo que és” - possam ser interrogados na dimensão da fantasia, podemos nos indagar ainda sobre esta possibilidade que aparece na supervisão, a respeito deste algo que insiste, uma obrigação incessante de gozo.
Vimos há pouco que os avanços do ensino lacaniano demonstram que a própria existência da fala, para além de sua dimensão de utilidade, mantém uma ligação direta com o gozo resultante da inscrição - no corpo - de um significante sem sentido. Situada fora da cadeia simbólica, esta marca fixa um gozo que insiste, operando como um traço estruturante no sujeito.
A submissão à Lei do Desejo não elimina os efeitos deste gozo. No âmbito da experiência analítica somos instados a lidar com isso que insiste de forma mandatária e, muitas vezes, pouco sutil. Neste caso, nos lembra Dayrell (p.105), “a travessia do fantasma não esgota a questão da cura, embora seja um momento especial e privilegiado no exame do gozo”.
Nesta perspectiva, é digo de nota que Lacan se aproprie do aforismo freudiano uma última vez no Seminário 17: O avesso da psicanálise (1969-1970/1998) - neste momento que, como vimos, seu ensino passa por uma transformação:
É ao analista, e a ele somente, que se endereça a fórmula que tantas vezes comentei, Wo Es war, soll lch werden”. É lá onde estava o mais-de-gozar, o gozar do outro, que eu [o analista], na medida em que profiro o ato analítico, devo advir (Lacan, 1998, p. 50).
Embora não se refira ainda ao gozo do Outro, enquanto gozo não-todo, esse reposicionamento acerca da fórmula freudiana, ao privilegiar o ato analítico, parece sugerir aquilo que Eric Laurent (2020) chamou, em A interpretação: da verdade ao acontecimento, de “um passo para além da interpretação analítica” (p. 180), pela necessidade do reenvio de cada enunciado à sua inscrição, isto é, ao que “estava escrito no corpo” (, p. 180).
Frente ao exposto, nossa proposta é de que ao se confrontar com o gozo que aparece “como fragmento, como dispersão, como um construcionismo sem unidade” (Dayrell, 1988, p. 105), o analista deve (no sentido alético) advir em ato, ainda que não o faça. Ademais, cremos que os efeitos desta presentificação estão em sintonia com o que afirma Garcia (1997, citado por Dayrell), num escrito inédito, pensando a psicanálise de seu tempo: “de agora em diante, a cura analítica assim como o sujeito e a cultura terão que dar conta de um S barrado frente à incompletude de um outro, descontruindo, tal como exige nossa cultura atual.” Retomando tais dizeres, Dayrell nos propõe, em vista do trabalho de uma análise, o seguinte matema:
$ ◊ S(Ⱥ)
“onde se lê, S barrado articulado com a sua maneira própria de lidar com a contingência, isto é, o sujeito diante do Grande Outro, barrado, inexistente, inconsistente” (p. 106).
Considerações finais
Procuramos demonstrar no presente artigo como o questionamento ético de Lacan sobre o campo do gozo nos leva a considerar novas exigências para o trabalho das análises. Nesta mesma perspectiva, propomos que assim como o matema da fantasia ($ ◊ a) encaminha o trabalho analítico nos moldes da primeira clínica, o matema proposto por Dayrell (1988) aponta para um momento privilegiado do trabalho analítico baseado no ensino de Lacan dos anos 1970.
Com suas metáforas e conceitos fundamentais, Freud lançou as bases para um campo de estudo que Lacan, posteriormente, expandiu e adaptou às novas exigências teóricas e práticas. Neste sentido, os avanços na direção de uma clínica do gozo coincidem com uma tentativa lacaniana de preparar a psicanálise para novos tempos, diante do cenário antecipado por ele (1966-1967/2008), que se configura por um novo ordenamento em vista do declínio da metáfora paterna que instaura a Lei do Desejo. Em tal contexto, longe de propor uma visão desenvolvimentista para o ensino de Lacan, localizamos a função do analista na perspectiva de uma clínica que tem o desejo e o gozo como aspectos centrais para a condução do tratamento analítico.
Na atualidade, a metáfora freudiana do Zuider Zee, em referência ao trabalho das análises, se confronta com o fato de que o Afsluitdijk, que protegeu a Holanda durante décadas, não é suficiente para o cumprimento das normas de segurança atuais, nem faz frente às alterações climáticas que aumentam as águas dos rios e de seus entornos. Essa atualização da analogia de Freud sublinha a necessidade contínua de revisão e fortalecimento das técnicas e dos instrumentos frente aos desafios contemporâneos.
A ampliação do chamado campo do gozo preconiza algumas possibilidades e desafios para o trabalho analítico, convocando-nos não a uma clínica alheia à Lei, mas a um trabalho que se estenda àquilo que de gozo escapa, de saída, da lógica do desejo. Assim, tendo em vista o final de análise, sem lançar mão da condução do atravessamento da fantasia fundamental, ao relançarmos o matema proposto por Dayrell (1988), reforçamos a importância de se manter no horizonte, um passo a mais, visando proporcionar um saber fazer aí com um gozo que não cessa de brotar.













