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Reverso

Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.47 no.89 Belo Horizonte Jan./June 2025  Epub Oct 24, 2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v47n89.08 

CLÍNICA PSICANALÍTICA

Adoecer no adolescer. Um outro manejo transferencial

Falling ill while adolescenting. A different transference handling

Eduardo Henrique Ferreira Dias

Eduardo Henrique Ferreira Dias

Graduado em enfermagem pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC- Minas). Psicanalista.

Mestre em bioética pela Universidad del Museo Social Argentino. E-mail:dreduardodias@gmail.com

1 
http://orcid.org/0009-0000-6182-129X

1Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais


Resumo

Um desafio motivou a escrita deste artigo - em 2019, algo vivenciado na clínica com adolescentes, intrigava. Seriam, a princípio, novas formas sintomáticas? A pandemia, então, fez eclodir uma avalanche de saídas subjetivas atreladas a novos saberes, “alguma coisa está fora da ordem”. Diante desta inquietação, a proposta desta escrita será tentar fundamentar uma outra prática clínica no manejo da transferência com adolescentes, a partir de novas demandas identificadas.

Palavras-chave: adolescência; transferência; pulsão; extimidade; saber.

Abstract

Here’s a challenge - in 2019, something experienced in the clinic with adolescents intrigued me at first: new symptomatic forms? The pandemic has triggered an avalanche of subjective solutions linked to new knowledge, “something is out of order”. Faced with this concern, the purpose of this article will be to try to support another clinical practice in the management of transference with adolescents.

Keywords: adolescence; transference; trieb; extimacy; know.

Ir do nada a lugar algum

“Oh fase difícil!”, “Acham que sabem de tudo”, “Isso não vai passar não?” São frases constantemente ouvidas por analistas que se dispõem a atender adolescentes, por parte dos parentais1. Mas, afinal, o que é a adolescência?

Em termos gerais, poderíamos dizer que a adolescência se refere a uma temporalidade subjetiva, um tempo entre dois - dois modos de se fazer laço social. Ou seja, pode-se pensar esta fase de vida como uma passagem, que acima de tudo só se faz valer a posteriori, após o sujeito se conceituar, e, assim, assumir uma posição adulta diante de si, dos outros e da polis. Nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade infantil, Freud (1905/1996) nos revela que a vida sexual adulta só seria assegurada após duas correntes distintas se conciliarem: a primeira seria a do objeto com a meta sexual, enquanto a segunda seria a da ordem da ternura e da sensualidade.

Neste sentido, a adolescência é uma travessia que “liga nada a lugar algum”, e o Freud (1905/1996, p.196) ainda metaforiza tal colocação afirmando que se trata de um “túnel perfurado do início ao fim desde ambas as partes”. Porém, o mesmo nos adverte que se trata de uma temporalidade que possibilita novas combinações e composições, nos leva a mecanismos complexos e, sendo assim, existe a possibilidade de se abrir uma janela para perturbações psíquicas importantes.

No Seminário 10 - A angústia, Lacan (1962-1963) nos esclarece que esta passagem é marcada por uma reformulação periódica conceitual, que vai de um sistema a outro, com um pequeno contratempo: a resistência em que isso aconteça. Ainda conceituando, Viola e Vorcaro (2018) discorrem a respeito:... tarefa psíquica que precisa incluir, em uma mesma equação, a escolha do objeto sexual e a separação da família, com consequente encaminhamento do jovem em direção à sociedade mais ampla”.

Pois bem, aqui pretende-se articular esta fase de vida ao trabalho psicanalítico, apontando outros possíveis manejos transferenciais, e, para tal, iremos articular conceitos importantes para a psicanálise, em uma construção similar a uma colcha de retalhos.

Adolescer, tempo de maturar o objeto a, tempo da crise por saber

No capítulo XIX do Seminário 10 - A angústia, Lacan (p.282) esclarece que, sob uma certa vertente pedagógica, o ser humano só teria acesso a determinados conceitos, digamos complexos, a partir da puberdade2. O autor refuta tal colocação e acresce que: “...momento-limite complexual poderia ser situado de forma totalmente diversa, em função de um vínculo a ser estabelecido entre a maturação do objeto a, tal como eu defino, e a idade da puberdade”.

Justamente fundamentada nesta colocação lacaniana, a psicanalista Daniela Teixeira Dutra Viola, em sua tese de doutorado (2016), articula a adolescência a uma temporalidade subjetiva intimamente marcada pelo acesso ao saber. Aqui pretende-se, de forma resumida, apresentar a elaboração da autora, para então fundamentar nossa prática.

Viola (2016) parte de um caso de Freud - fazendo caminho análogo ao de Lacan - para demonstrar a intima relação da adolescência com o saber: o caso Ema (1895 [1950]/1996), presente no esboço Projeto para uma psicologia científica. Um fragmento foi exposto por Freud para ilustrar - sob circunstâncias específicas vigentes da época - fatores etiológicos da teoria da sedução na gênese das neuroses. Pois bem, não vamos nos adentrar de forma detalhada no caso descrito3, apenas utilizaremos dos fatos e conceitos que serão necessários para a construção deste pensamento.

No caso em questão, Emma se queixa de um sintoma: não consegue entrar, sozinha, em lojas. Em análise, associa tal sintoma à lembrança do que chamaremos de cena 01 (um): quando tinha 12 (doze) anos, pouco depois do início da puberdade, entrou em uma loja para comprar algo, avistou dois vendedores rindo juntos e saiu correndo, quando confessa que de um deles ainda se lembrava - tomada por um susto, memora que estavam rindo de suas roupas e acresce que um deles lhe interessou eroticamente. Em seguida, Emma rememora o que chamaremos de cena 02 (dois): tinha 08 (oito) anos e, ao visitar por 02 (duas) vezes uma confeitaria para comprar doces, relata que, na primeira ocasião, o proprietário tocou suas partes genitais por cima da roupa. Durante a análise, Freud relata que a paciente se recrimina ao relembrar e que retorna ao local onde tudo aconteceu, como se tivesse a intenção de provocar a investida.

Em toda elaboração Freudiana, observa-se uma criteriosa associação dos elementos (representantes/palavras) que se vinculam aos dizeres de Emma, tais como: roupas, risos, vendedores e assim por diante. Aqui vamos nos deter a dois tempos lógicos desta construção: em um primeiro plano, Viola (2016) tenta extrair deste fragmento a íntima relação do saber com a adolescência. Já, em um segundo momento, a autora aponta o enlaçamento da crise vivenciada na adolescência e indaga qual seria a relação desta crise com o saber.

Freud deixa bem demarcado que a puberdade ocorreu justamente entre as duas cenas mencionadas. Portanto, pode-se inferir que nesta fase algo aconteceu, relacionado à formação do sintoma. Viola (2016) deixa claro que o valioso, neste caso, não seria apenas a questão da teoria do trauma e/ou sedução articulada por Freud naquela ocasião. Um importante valor reside, também, na verificação de um movimento retroativo via repetição significante (referindo-se à teoria Lacaniana), que se dá entre a puberdade/adolescência e um ponto anterior desprovido de sentido, podendo remeter (em Lacan) ao real. Com a descoberta da sexualidade infantil (Freud,1905/1996), este conceito do “só depois” traumático será acrescido pelo esquema de uma constituição psíquica bifásica da sexualidade, interpolada por um período de latência.

É a partir desta articulação, portanto, que se relaciona a puberdade/ adolescência ao saber. O que se estabelece nesta fase de vida é justamente um empuxo pelo saber, pelo acesso aos conceitos, pois o que era vivenciado anteriormente no corpo (na infância), terá acesso (na puberdade/adolescência) a um novo sentido pela via de conceitos digamos simbólicos: um saber sobre si, um saber sobre o outro, um saber sobre o mundo e sobre a cultura e, acima de tudo, um saber sobre o sexual. Contudo, existe um grande adendo - a impossibilidade de tudo saber.

Como proposto anteriormente, no segundo tempo desta elaboração, questiona-se: a que se refere a crise do saber na adolescência? Voltando ao caso Emma, quando Freud tenta escandir todos os representantes, associando-os, na formação do sintoma de sua paciente, depara-se com um limite: um ponto em que não há mais vínculos associativos (Fig.01). Viola (2016) cita o trabalho de Sergio André (1998), “O que quer uma mulher?”, que, por sua vez, analisou um desenho esquemático de Freud. Em seu texto, André (1998) apresenta a seguinte pensamento: após o autor demonstrar a direção para o vértice inferior, para onde os sedimentos (representantes) se dirigem, há formação de uma espécie de umbigo, que se refere ao sintoma, associando então ao que Freud nomeia de descarga sexual. Conclui-se que Freud apresenta ali um ponto de voragem que, simultaneamente, representa a causa do sintoma, a fonte de liberação sexual. Portanto, o autor deduz haver, aqui, uma aproximação à teoria lacaniana, algo da dimensão do gozo. A seguir, na figura 1, uma contribuição ao entendimento da questão:

Figura 1 Esquema baseado no desenho original de Freud (1895 [1950]/1996, p. 409). 

Pode-se deduzir, portanto, a partir das elaborações de Freud no caso Emma, que o trauma diz respeito à convocação do real do corpo em sua função orgânica e que o corpo fora da sexualidade é também fora do significante, assim incognoscível. Não estaríamos fazendo referências ao objeto pequeno a?

Uma vez que Lacan nos esclarece que a puberdade/adolescência está intimamente ligada à maturação do objeto a, talvez possamos inferir que tal acesso aos conceitos aconteça pela via do saber, o que se torna um traço característico desta temporalidade subjetiva da vida humana. Assim, adolescer, digamos de uma certa forma, seria acessar o saber. Porém, não se pode tudo saber, não se pode tudo dizer, há algo na maturação do objeto a que cai, que foge e escapa à significação - significação fálica. Tal artificio desencadeia, nesta fase tão socrática, o que iremos chamar da crise do saber, crise da adolescência. Crise desencadeadora de angústia que faz com que o sujeito encontre saídas, algumas vezes mortíferas.

Pois bem, lembremos que o objeto pequeno a tem dupla essência: causa de angústia, mas também causa de desejo. Uma vez que, na adolescência, o sujeito se depara com esses impulsos que cintilam nesta etapa, ele encontrará saídas, por vezes fatais, e outras encharcadas de Eros. Quando, em processo de análise, neste ponto, é possível que o desejo de analista entre em cena.

Portanto, apresento um primeiro retalho, uma variante do conceito de êxtimo ou extimidade.

O êxtimo/extimidade enquanto método

Iannini (2024), em sua recente obra “Freud no século XXI”, apresenta uma proposta audaciosa, que seria: ler os escritos de Freud a partir do fenômeno psíquico que o conceito de extimidade se propõe. O que seria tal feito? O conceito de extimidade (que será elaborado a posteriori) seria utilizado como ferramenta de leitura dos textos freudianos, acolhendo aquilo que está aparentemente externo e alheio e que, surpreendentemente, poderia estar bem íntimo. Aqui uma indagação ao leitor: e se utilizássemos do mesmo método, não só para revistar Freud, mas também como ferramenta no manejo da transferência?

Em Das Unheimliche - o estranho ou infamiliar (1919/2019), Freud inicia seu ensaio com uma vasta e insistente investigação linguística e etimológica da palavra estranho; ao final do texto conclui que aquilo que aparece ao sujeito como algo externo ou estranho está intimamente ligado ao mesmo. Ou seja, após o processo de recalcamento, um determinado representante psíquico advém como algo que vem de fora, mas se trata de algo interno ou íntimo. É assim que Lacan (Lacan, 1959-60, p. 173), de forma análoga, trabalha e constrói o conceito de extimidade. Um processo psíquico que considera que aquilo percebido como algo externo está, no entanto, mais interior ou interno; mais longe e, contudo, mais perto; mais estranho e, ao mesmo tempo, mais familiar. Portanto, este processo psíquico nos dá uma mostra do que se trata o método de manejo transferencial a que me refiro. Trata-se de utilizar este fenômeno, que fisga um ou vários elementos ou saberes alhures, que, a princípio, seriam aquém ou além da psicanálise e tenta apropriar-se de algo que tem a possibilidade de se tornar íntimo ou valioso.

Porém, existe um adendo significativo, o objeto, primordial dos conhecimentos de outros campos, não era central para os psicanalistas, mas sim algo que não era significante e lhes parecia relevante e os interessavam. Exemplos claros estão em Freud na sua relação com a ciência de sua época e, em Lacan, com a linguística de Saussure. De forma mais clara, Freud escutou e valorizou muito a histeria, uma vez que a medicina de então a reconhecia como o diagnóstico e pouco fazia. O mesmo aconteceu com Lacan, ao trabalhar com a linguística. Esta valorizava o signo (significado), enquanto o psicanalista francês se “apropriou” do significante. Indo além, sabe-se que o inconsciente não era uma invenção freudiana, o que o tornava inédito era ser pulsional.

Não se trata de inventar a roda nesta proposta, trata-se de utilizar este método como uma possível alternativa no manejo da transferência na clínica. Para tal, não deveríamos considerar o que está em voga em nosso tempo?

Pertencer verdadeiramente ao seu tempo

“Deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época” (Lacan, 1953/1998, p. 322). Mas, enfim, do que se trata “alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”?

Agamben (2014, p.22) acredita que para estar minimamente ciente do que está ocorrendo no tempo que se vive, o sujeito teria que se acostumar a enxergar na penumbra. Quem de forma honesta pode dizer o que está acontecendo agora? Para este autor, estar no horizonte de seu tempo é, justamente, conseguir enxergar na escuridão e não na nitidez que a claridade proporciona. Imaginemos o seguinte exercício: de forma abrupta, você entra em um cômodo e a porta se fecha, não há luz e, consequentemente, não enxerga nada, mas com o passar do tempo, as pupilas dilatam e os contornos dos objetos que ali estão começam a surgir, isto é, a penumbra. É deste lugar que propomos analisar o que de fato está acontecendo hoje, dê tempo para entender melhor isso que se passa. Vejamos:

Pertence verdadeiramente ao seu tempo, aquele que não coincide perfeitamente com ele nem se adequa as suas exigências e é, por isso, nesse sentido, inatual, mas precisamente por isso, exatamente através dessa separação e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e de apreender o seu tempo. (Agamben, 2014, p.22, grifo nosso).

De forma surpreendente, este autor que vos escreve, ao revisitar um de seus textos, escrito em novembro de 2019 e publicado somente em julho de 2020 (na revista Estudos em psicanalise), pôde perceber que a intriga que sentia em função da utilização excessiva das tecnologias por parte dos adolescentes, talvez caracterizasse uma tentativa do analista de enxergar na penumbra. A proposta de então era tentar identificar os modi operandi contemporâneos de estabelecer laço social, se é que isto acontecia. O autor entendia, naquele momento, que o discurso em pauta seria uma mera evolução do discurso capitalista apresentado por Lacan (1968), com acréscimo de ser hipercapitalista, chamando-o de discurso da rede.

Sem saber do que viria - a pandemia -, dormimos em um mundo e acordamos em outro, e justamente esse fato contingencial fez eclodir o que ali era somente especulação. O texto propunha que a lógica da falta-ter (objetos de consumo, que consomem o sujeito), do discurso capitalista, tornou-se falta-usar, e é justamente isso que a clínica com adolescentes tem demonstrado de forma tão visceral. Novas inquietações surgem, são elas: Como os adolescentes têm lidado com tanta demanda de gozo? Tudo isto não nos soa muito estranho e paradoxalmente tão familiar? Quais as moções pulsionais diante deste perspicaz mestre agora hiper capitalista?

Passemos adiante, uma vez que o pulsional tem uma posição determinante na clínica, como iremos revisitar este conceito?

Pulsão, um conceito fronteiriço, litorâneo

O conceito de pulsão é muito caro à psicanálise, no sentido que sem ele não há especificidade deste saber; o inconsciente para nós analistas é pulsional, e esta é uma das importantes revoluções freudianas. Na releitura de: “As pulsões e suas vicissitudes” (Freud,1915), Iannini (2024) propõe uma outra aproximação deste texto, tão valioso, sob o método de extimidade. Iannini (2024) nos indaga: e se relermos Freud com e a partir do que temos no escopo dos saberes contemporâneos, encontraríamos novos caminhos? Mas, para tal, não se pode anular uma das características fundamentais do conceito de pulsão, aquela que trata de sua posição fronteiriça ou litorânea.

Diante da dualidade (meramente metafórica), o somático e o psíquico, a pulsão está no entre, no vão, no litoral ou, se preferir, na fronteira. Pois bem, na tentativa de elucidar, pensaremos o que é fronteiriço. Sejam as fronteiras naturais, políticas ou até mesmo concretas (muros e pontes) ou ainda imagináveis (geográficas), elas demarcam separações, mas também uniões ao passo que todas estas são extremamente móveis e incertas. Devemos também considerar que o corpo exige um trabalho ao psíquico e, justamente por habitarem um espaço indeterminado, só temos notícias desses conflitos pulsionais pela fala ou pelo ato. De forma análoga, podemos dizer que, no litoral, existem elementos heterogêneos disputando espaços, em uma composição una. Não se sabe ao certo onde começa ou termina o mar, a areia, o céu e o horizonte. Além do fato de que são extremamente instáveis: o litoral vai e vem e ,assim, podemos pensar o pulsional litorâneo, bem como sua relação com a clínica e seu manejo na transferência.

Freud (1933) avança nesta insistente característica da pulsão movediça, fazendo analogia a uma pintura moderna. Destaca o psicanalista vienense, que o difere, uma pintura primitiva (ou a um desenho) são as demarcações bem nítidas. Na pintura moderna, há borrões que marcam separações e concomitantes às junções. É assim que Freud pensa as moções pulsionais, borrões indeterminados que estão entre o sutil e o grosseiro, entre o corpo e o psíquico.

Neste hiato, nesta fresta está lalíngua, entre o ruído e a comunicação, entre o que consiste, se apresenta e o que se ausenta; “Nem no corpo, nem do corpo, mas entre os órgãos”, diz Vieira (2013, p. 103), referindo-se a Freud. O pulsional se caracterizará, acima de tudo, por sua indeterminação. Está na fronteira, nas trincheiras que são passiveis a deslocamentos, como nos sugere algo que acontece nas guerras.

Estas disputas são fundamentadas nas divisões subjetivas que cada ser vivencia em sua constituição psíquica. As escolhas, as ojerizas e o estatuto que se dá à voz e ao olhar são estritamente singulares. São cravados na alma, lá onde lalangue se presentificou ou não. E há um pormenor desde o Projeto para uma psicologia cientifica (1950[1895]): Freud sustenta que existem índices de realidade (fragmentos, vestígios) que têm pouca relação com mundo externo, pouco acesso direto imediato. Portanto, estes índices se sustentam em crenças e referências que existem no interior de um caldeirão identificatório. Nestas disputas devemos considerar as referências sociais que comportam uma dimensão histórica, elementos que acentuam ou amenizam a dinâmica pulsional.

Uma vez esclarecido de que lugar consideramos o conceito de pulsão e sua dinâmica, bem como os elementos que estão em jogo neste processo, não deveríamos nos ater também em como estamos escutando estas batalhas pulsionais em cada um de nossos analisandos? Na dinâmica transferencial, não poderíamos explorar os saberes que eles utilizam para seu (des)saber? Para tal, não seria possível utilizar estes mesmos saberes para acessar sua radical condição de divisão subjetiva?

Freud (1914b/1990) nos ensina que o pulsional é silencioso. Mas se considerarmos o (des)laço social atual, bem como as guerras pulsionais, podemos nos arriscar a dizer - com uma certa ousadia - que hoje o pulsional grita, berra, de forma escandalosa em uma forma de gozo que nos sugere uma invasão brutal, ora no corpo, ora no psíquico. Verifica-se tais especulações através das formas sintomáticas percebidas na clínica como: escarificações, relações demasiadamente imaginárias nas redes socias, medicalizações assustadoras do mal estar contemporâneo, cenas sexuais vendidas por valores pífios nas plataformas digitais, indeterminação de semblantes, nomes próprios como diagnósticos (eu sou autista, eu sou TDAH), e por ai vai.

A receita do adoecer no adolescer contemporâneo se resume em uma equação um tanto simples. O mal-estar, que é típico desta fase (a crise típica da adolescência), começa a ser tratado como inadequação. Em um mundo onde o gozo nos parece ser escandaloso, associado à rebeldia própria desta fase, não parece difícil tarefa perceber e descrever fenômenos comportamentais, tornando-os patológicos, nomeando-os como diagnósticos e, por fim, medicando-os, para então, acalmar o pulsional.

A proposta aqui seria: e se começássemos a utilizar dessas ferramentas, que são utensílios de gozo, para manejar a transferência com adolescentes?

“GG, F, deu de base e foi de arrasta pra cima”

Passamos a uma vinheta clínica. Gamer (nome fictício) é um adolescente de 14 anos. A mãe procura o analista queixando-se de total ausência de laço social, uma espécie de “prisão no próprio quarto” e se interrogava quanto a um possível diagnóstico de depressão. Vejamos um trecho do diálogo entre analista e analisando:

_Gamer: E aí GG?

_ Analista: De boa e você?

_Gamer: Sabe aquela parada da mina? Então chipar eu chipei, mas deu de base.

_ Analista: Então, foi de arrasta pra cima? E agora como se sente?

_Gamer: Cara, não tem o que fazer, foi F, mas segue o baile.

_ Analista: Você não quer falar do que sentiu e como foi?

_Gamer: Ou, estava pensando, você é velhão né? Como meu pai, mas você sabe do rolê.

Existe a possibilidade de o leitor estar se perguntando o que rolou (como diria Gamer) nesse diálogo? Gamer, quando interroga com a expressão GG, está perguntando ao analista como ele está? Quando se refere à mina (uma garota da escola por quem estava apaixonado) e diz que chipou, estava se referindo ao fato que se declarou para ela. “Mas foi de base”, ou seja, ela não correspondeu a suas investidas, o que equivale a “foi de arrasta para cima”, um termo geek (mundo gamer) que se refere ao fim (de uma partida ou de um jogo, uma espécie de game over). Quando um personagem morre, ele é arrastado para cima. F, por sua vez, quer dizer “foda” (difícil), algo que foi ruim, é muito comum neste tipo de linguagem entre adolescentes, a redução das palavras em letras.

Quando Gamer iniciou seus atendimentos, se apresentava resistente a ir ao consultório do analista, uma vez que a queixa de sua mãe era o isolamento. Lá em seu quarto “Gamer”, diga-se de passagem, existia um mundo; amigos que se reuniam diariamente no Dc (Discord), ferramenta de comunicação que permite áudio e visual conjunto); jogos múltiplos com temas diversos como guerras, esportes, construção de cidades e vidas. Havia uma rotina entre seus companheiros, horário marcado para encontros e desencontros, uma comida típica desta tribo (Cup Noodles), enfim por que Gamer sairia deste império gozoso?

Em uma das suas sessões iniciais, o analista percebe este confortável calabouço e começa a interrogar, nas sessões virtuais, o que gamer gosta de jogar? Revela ao adolescente: “eu tenho um PS5 (Console de videogame) em meu consultório”, Gamer surpreso diz: “Serio? GG, mas o que você joga?” Então o analista respondeu da seguinte forma: “_vamos fazer assim, venha até aqui e você poderá me conhecer pessoalmente, ver minha lista de games e de quebra jogamos umas partidas de COD (Call Of Dutyum simulador de guerra e conflitos)”. Gamer de imediato diz que irá ao encontro do analista, sozinho (acentua): “não quero minha mãe na minha cola”.

Este jovem, prisioneiro de seu gozo (que o isolava), tinha uma evidente dificuldade com o olhar do outro. Existem diversos desdobramentos no caso de Gamer, porém, para manter a inespecificidade sobre sua identidade, iremos nos ater ao que nos vale nesta fundamentação: o manejo da transferência. As ferramentas (uso excessivo das tecnologias associada ao isolamento), utilizadas para seu gozo, foram utilizadas como um outro caminho para que o sujeito do desejo surgisse.

O ponto alto desta prática consiste em sustentar que o analista talvez devesse inovar em sua prática para tentar escutar aquilo que não é dito nesta fase da vida. Ao fundamentar a crise da adolescência como a crise do saber, não poderíamos inferir que Gamer tenha utilizado do isolamento e da identificação ao mundo virtual “gamer” para encontrar uma saída diante da sua angústia? Ao adentrar, via puberdade, nas questões sobre o saber, sobre o sexual (um outro saber inconsciente), uma série de questões eclodiram, talvez essa seria nossa interpretação. Assim, a forma que Gamer encontrou de se sustentar diante da sua maturação do objeto a, foi seu sintoma. Não caberia ao analista escutar e manejar com o dito de Gamer (com os recursos que ele apresentava), para então surgir seu dizer? É um convite à reflexão que se faz aos colegas.

Considerações finais

Este autor se abstém de qualquer conclusão peremptória. Essa escrita, na verdade, tem a intenção de caminhar com a prática clínica da psicanálise. Mas fica para o leitor a seguinte questão: e se considerássemos a utilização do que há em nosso tempo - novos saberes - para manejar a transferência, não só com adolescentes, mas com sujeitos?

Diante das guerras pulsionais, que cada um de nós trava diariamente, não deveríamos utilizar de novas ferramentas para lidar com tais conflitos? Lacan (1958/1998, p. 595) nos orienta que a política do analista deve ser fundada no falta-ser, disso não se pode abrir mão. Já a estratégia despoja de uma certa liberdade, isso implica o manejo da transferência, ou seja, deve-se sempre ir na direção das manifestações do inconsciente. Seguindo este fio condutor, Lacan (1958/1998, p. 595) conclui que quanto à tática, o analista tem maior liberdade; suas intervenções podem se dar quando e quantas vezes forem necessárias, tendo sempre como norte a política em jogo: a da falta. Portanto, não teríamos a liberdade de manejar a transferência utilizando-nos das ferramentas que nos são apresentadas?

Não em toda parte, mas aqui e ali os ataques e críticas pejorativas à tecnologia, às novas linguagens, às novas formas de fazer laço social, às novas formas sintomáticas e aos novos semblantes têm ganhado escopo. Mas estes fenômenos não seriam, também, um outro caminho para o analista acessar o sujeito?

Christian Dunker (2019), em seu canal do YouTube, voltado ao público que se interessa pela psicanálise e a relação da mesma com questões atuais, em um episódio chamado “Tinder e redes sociais”, apresenta uma vinheta clínica em que uma de suas analisandas queixava-se da sua vida afetiva empobrecida, criticando e culpabilizando a ferramenta de relacionamentos (Tinder), dizendo que ali as pessoas só queriam sexo. Quando ela pede para descrever seu perfil, ele verifica que, ali, ela se dava a ver como um pedaço de carne. Então o psicanalista acrescenta, “não é a ferramenta, é como você a usa”. Em outros momentos ainda metaforiza, “não adianta chutar a impressora”.

Segue aqui um convite, não devíamos vislumbrar novos caminhos? Afinal, “...O que não podemos alcançar voando, devemos alcançar claudicando. Segundo as escrituras, não é pecado claudicar” (Freud, 1917-1920/2016).

1Optou-se pelo termo parentais e não por parental ou pais, pois o autor entende que a parentalidade contemporânea abrange um guarda-chuva muito mais extenso e complexo do que a família tradicional (pai, mãe e filhos), sendo assim, o termo parentalidade abrange todo sujeito que exerce alguma função na constituição subjetiva de outro sujeito.

2Pouco se encontra na literatura Freudiana o termo adolescência, porém, se encontra, com certa frequência, o termo puberdade. Viola (2016) esclarece que a puberdade é um fato universal, de origem biológica. Enquanto adolescência trata-se de uma construção cultural tipicamente ocidental. Neste artigo, adota-se o binômio puberdade/adolescência, pois entende-se que culturalmente ambos se referem a uma temporalidade subjetiva humana e que, nesta escrita, faz-se referências a ambos fenômenos.

3Recomenda-se ao leitor explorar detalhadamente o caso aqui proposto, que contribuiu de forma significativa para a construção desta articulação.

Referências

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Recebido: 12 de Março de 2025; Aceito: 22 de Abril de 2025

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