A literatura erótica feminina contemporânea desafia e ressignifica as normas patriarcais, retratando o masoquismo feminino não como submissão passiva, mas como uma estratégia consciente de empoderamento e autoafirmação. Este artigo busca analisar como as protagonistas das trilogias Cinquenta Tons de Cinza, de E.L. James, e A Função do CEO, de Tatiana Amaral, utilizam a submissão como recurso estratégico para negociar desejo e poder, subvertendo as concepções tradicionais do masoquismo feminino.
Para alcançar o objetivo, esta pesquisa adota uma metodologia que combina investigação teórica de base psicanalítica às análises textuais e críticas literárias das narrativas selecionadas. O referencial teórico fundamenta-se nos seguintes textos de Freud sobre o masoquismo: Bate-se numa criança (1919) e O problema econômico do masoquismo (1924). Considera também as teorias de Lacan em Encore (1972-1973), O Seminário, livro 10: a angústia (1962-1963), Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960) e Televisão (1974), além de contribuições contemporâneas. Como ferramentas analíticas são aplicados os conceitos de “mascarada masoquista”, de Soler (2005), e “neiko-erotismo”, de Teodoro e Chaves (2023), para examinar a submissão como uma encenação performativa que manipula o olhar masculino e transforma a aparente vulnerabilidade em estratégias de resistência e autonomia. A análise foca nas interações das personagens, explorando a dinâmica de poder e as formas de tensão erótica presentes na construção dessas relações.
A dialética do desejo: o neiko-erotismo na escrita erótica feminina
A escrita feminina contemporânea surge como uma ferramenta de resistência ao patriarcado, que historicamente silenciou as vozes e os corpos das mulheres. Pelo menos, esta era a ideia de autoras como Hélène Cixous e Luce Irigaray quando criaram o conceito de escrita feminina para desafiar a linguagem patriarcal, ao defender uma escrita que permita às mulheres subverter amarras. Conforme Cixous (2022), em O Riso da Medusa, a écriture féminine deve emergir das experiências corporais das mulheres, criando novos significados para o eu, a sexualidade e a identidade, rompendo com a lógica masculina que categoriza e controla o corpo feminino. Irigaray (2017), por sua vez, propõe uma linguagem que reflita a pluralidade da experiência feminina, resgatando a complexidade do desejo reprimido pelas normas patriarcais.
Neste contexto, a escrita erótica feminina contemporânea, ilustrada pelas trilogias Cinquenta Tons de Cinza e A Função do CEO, insere-se em uma tradição de escrita que propõe uma perspectiva transformadora. Ao invés de simplesmente reforçar a objetificação do corpo feminino, estas narrativas projetam o erotismo como uma expressão de autoria e enunciação do próprio corpo. Embora estas obras sejam alvo de controvérsia por, à primeira vista, parecerem perpetuar estereótipos patriarcais com o feminino em posição submissa, e o masculino em posição dominadora, é essencial perceber nas entrelinhas uma reconfiguração desse modelo, o que contribui para consagrar essa literatura como um fenômeno cultural.
Assim, buscamos nas letras freudiana e lacaniana uma abordagem possível dessa literatura erótica contemporânea que vá além das interpretações convencionais da guerra entre os sexos. Para isso, recorremos ao conceito de neiko-erotismo, desenvolvido por Teodoro e Chaves (2023), para uma leitura que revela o eixo sombrio em torno do qual gira a sexualidade dos protagonistas destas narrativas. Em outras palavras, essa literatura erótica atual incorpora um caráter disruptivo que entrelaça “dis-córdia” e “con-córdia”, constituindo uma tensão fundamental entre o que Freud descreveu como pulsão de vida e pulsão de morte.
Inspirando-se também na dialética do desejo de Lacan (1960/1998), podemos compreender que o neiko-erotismo revela uma estrutura na qual o desejo das personagens permanece insatisfeito, tensionado pela busca incessante e pela falta. Dito de outra forma, o desenvolvimento da trama envolve uma disjunção necessária - uma discórdia ou antagonismo - que se torna indispensável para que Eros possa se manifestar (Teodoro & Chaves, 2023). Assim, o conceito de neiko-erotismo sugere uma interação complexa em que desejo e agressividade coexistem, formando uma dialética entre amor e ódio. Para Lacan (1960/1998), o desejo é marcado pela falta e pelo que escapa à realização plena, transformando o erotismo em um espaço de alternância e disputa de poder, no qual as protagonistas exercem sua autonomia e moldam as dinâmicas de poder conforme seus próprios termos.
Nas trilogias analisadas, Cinquenta Tons de Cinza e A Função do CEO, o neiko-erotismo redefine o papel da mulher: a submissão é performada com a intenção de controlar e intensificar o desejo, ao mesmo tempo em que desafia convenções patriarcais e promove a reapropriação da própria sexualidade. Neste contexto, Anastasia Steele e Melissa Simon não veem a submissão como um ato passivo, mas como uma estratégia para influenciar o desejo de seus parceiros e reconfigurar as dinâmicas de poder. Em ambos os casos, a submissão é uma escolha consciente que recentraliza o prazer feminino na relação e transforma a tensão entre submissão e controle em uma ferramenta de autonomia.
Essa reconfiguração do desejo feminino alinha-se à dialética lacaniana, na qual o desejo do sujeito está sempre em relação ao desejo do Outro e é permanentemente marcado pela incompletude, refletindo uma busca contínua (Lacan, 1960/1998). Esse paradoxo aparece nas trilogias analisadas: as protagonistas, ao performarem a submissão, reconstroem a aparente passividade e mobilizam a fantasia masculina de masoquismo como meio de capturar o desejo dos parceiros, recentralizando o prazer feminino na relação e reafirmando sua autonomia sexual.
Em suma, a escrita erótica feminina contemporânea, especialmente nas trilogias Cinquenta Tons de Cinza e A Função do CEO, emerge como um poderoso instrumento de transformação social. Ao romper com a opressão histórica que recai sobre o desejo feminino, ao seguir a estrutura dialética de um desejo e ao se estruturar em torno de uma dialética de desejo baseada na falta, estas narrativas possibilitam às mulheres renegociar suas relações com o corpo, o prazer e o poder. O conceito de neiko-erotismo intensifica essa dinâmica, introduzindo uma interação entre Eros e Tânatos, em que o desejo se alimenta de uma tensão contínua entre submissão e autonomia. Assim, essas histórias desafiam normas patriarcais e abrem caminho para novas formas de agência sexual, afirmando o prazer e a autonomia das protagonistas.
Do masoquismo freudiano à mascarada masoquista: evolução e subversão do desejo feminino
A publicação de O problema econômico do masoquismo, de Sigmund Freud, completou 100 anos e suas teorias permanecem centrais para a compreensão das relações psíquicas entre desejo, prazer e dor. Nesta obra, Freud (1924/2016) identificou três formas de masoquismo: erógeno, moral e feminino. O masoquismo erógeno envolve o prazer derivado da dor, relacionado às primeiras experiências infantis, enquanto o masoquismo moral está ligado à culpa e punição impostas pelo Supereu. O indivíduo usa o sofrimento autoprovocado como compensação psíquica para lidar com desejos reprimidos.
Contudo, o conceito de masoquismo feminino foi o que causou maior desconforto, especialmente entre feministas. Freud (1924/2016) o definiu como uma expressão de passividade inata à mulher, o que foi criticado por reforçar a subordinação do desejo feminino ao masculino. Autoras como Simone de Beauvoir (2009) argumentam que essa visão ignora as construções sociais e culturais que perpetuam a submissão feminina. Já autoras como Cixous (2022) e Irigaray (2017) desafiam a leitura freudiana, propondo que o prazer feminino não se limita à dor e submissão, mas se expressa de forma autônoma e criativa. Assim, Cixous (2022) redefine o prazer feminino como uma força criativa, enquanto Irigaray (2017) contesta a centralidade da submissão, destacando o desejo feminino como fluido e resistente à lógica patriarcal.
Embora estas críticas sejam importantes para reconsiderar o papel da sexualidade feminina na psicanálise, é essencial revisitar o estudo de Freud (1919/2016), Bate-se numa criança, no qual ele desenvolveu o conceito de masoquismo com base em fantasias de espancamento predominantes em sujeitos femininos. Nessas fantasias, Freud identificou uma satisfação que escapava ao princípio tradicional do prazer. Em meninas, essas fantasias revelam um prazer masoquista que, embora presente na vida erótica adulta, não constitui perversão. Freud constatou que fantasias com conteúdos sádicos ou masoquistas surgiam em quadros de histeria e neurose obsessiva, evidenciando uma intrincada relação entre desejo, culpa e punição, enraizada nas dinâmicas psíquicas dos neuróticos.
Freud (1919/2016) descreveu essas fantasias como um processo psíquico em três etapas. Destacamos a segunda fase, em que o sujeito assume o papel da criança espancada, transformando o sofrimento em prazer. Freud relacionou essa fase à atividade masturbatória, operando no campo das fantasias inconscientes, que mais tarde são substituídas por fantasias conscientes. Neste sentido, a fantasia masoquista pode ser vista como uma forma simbólica de masturbação, indicando que o masoquismo envolve uma atividade psíquica inconsciente, e não apenas passividade.
Esta atividade abre espaço para reformulações teóricas que identificam um elemento de controle e agência, desafiando a visão tradicional de passividade no masoquismo feminino. Lacan (19621963/2005) propõe que o masoquismo feminino é, na verdade, uma fantasia masculina projetada sobre o corpo da mulher. Para ele, o masoquismo está ligado à dinâmica fálica, na qual o falo simboliza a falta que organiza o desejo. O homem projeta na mulher um objeto de satisfação, e o masoquismo feminino se torna uma encenação desse desejo. Lacan argumenta que o masoquismo feminino é uma construção imaginária que serve ao gozo masculino, funcionando como metáfora da relação com o desejo do Outro.
Em Televisão, Lacan (1974/1993) sugere que as concessões que a mulher faz ao homem são uma forma de encenação, na qual a mulher performaria seu próprio desejo, que está além da compreensão masculina. Isso expõe o paradoxo do gozo feminino - o “gozo suplementar” ou “um gozo a mais” -, que transcende a lógica fálica e é inacessível ao homem, intensificando a assimetria nas concessões. Assim, as concessões ilimitadas que a mulher faz ao homem revelam o mistério do gozo feminino, que não se encaixa nas categorias fálicas do desejo masculino. Ao se posicionar como objeto de desejo, a mulher revela a impossibilidade de sua plena simbolização, expondo o paradoxo da subjetividade feminina e do desejo masculino (Lacan, 1972-1973/2010).
Colette Soler (2005) expande tal visão sobre o masoquismo feminino, afirmando que tanto o masoquista quanto a mulher, em suas relações com o parceiro desejante, colocam-se no lugar de objeto. Esse “bancar o objeto” implica um artifício que mostra que o ser para o Outro só se realiza por meio do semblante. A autora denomina uma dessas estratégias de mascarada masoquista, em que a mulher exibe a falta ou a dor, ou até mesmo a dor da falta, e, em certos casos, finge fraquezas ou insuficiências.
Soler (2005) explica ainda que a lógica da mascarada masoquista é uma adaptação inconsciente à implicação da castração no amor. Como a castração imaginária do objeto é central na escolha objetal masculina, a mulher, intuitivamente, encena a pobreza ou a submissão como estratégia. Se o homem prefere o “pobre”, que a mulher “banque a pobre”.
Assim, o masoquismo feminino, longe de ser simples passividade, é uma performance estratégica que subverte o olhar masculino, utilizando a submissão como ferramenta de controle e manipulação do desejo. É nesse ponto que Zizek (2008) afirma que o sujeito masoquista, em sua essência, é aquele que se faz assujeitado, perturbando o fluxo normal dos eventos.
Neste cenário, conforme Teodoro (2021), o papel ativo do masoquismo se revela. Embora o sujeito se apresente como passivo, é ele quem procura o torturador, invertendo as expectativas de passividade. Na fantasia masoquista feminina, a mulher, embora aparentemente submissa, age ativamente ao se colocar como objeto de desejo e sofrimento. Trata-se de uma dinâmica dialética, na qual fazer-se de objeto significa paradoxalmente assumir uma posição de sujeito na fantasia.
Gilles Deleuze (2014), em A Lógica do Sentido, explora o conceito de “contrato masoquista”, no qual o masoquismo não é apenas uma aceitação passiva da dor, mas uma dinâmica organizada entre dominador e submisso, com regras e limites que permitem ao submisso manter agência. O submisso, ao codificar as condições do jogo, transforma o sofrimento em uma prática deliberada de controle sobre o próprio prazer.
Por outro lado, Jennifer Komorowski (2022), em The Masochian Woman, amplia essa discussão ao reinterpretar o masoquismo feminino sob a ótica das tradições indígenas Haudenosaunee, contrastando com abordagens ocidentais como as de Freud, Deleuze e Lacan. Para ela, o masoquismo feminino vai além da simples submissão ou da fantasia masculina, sendo uma expressão de identidade cultural e agência. Ao examinar o caso de Santa Káteri Tekakwitha, a autora demonstra que o sofrimento feminino, em certos contextos, reflete significados mais profundos e culturais, desafiando a ideia de submissão passiva.
Tanto Deleuze (2014) quanto Komorowski (2022), apesar de suas abordagens distintas, sugerem que o masoquismo pode ser uma forma de negociar poder e identidade. Enquanto Deleuze vê o masoquismo como um jogo de controle interno à relação, Komorowski o compreende como parte de uma performance cultural e uma afirmação da autonomia feminina.
Evidenciamos, pois, que a formulação do conceito de masoquismo feminino freudiano marcou o início de uma exploração teórica que, com o tempo, passou a destacar a atividade psíquica e o papel da mulher como agente no próprio desejo, um movimento que encontra reflexo na literatura erótica contemporânea, na qual o masoquismo feminino é reinterpretado como uma ferramenta para a exploração de desejos, mas com as protagonistas assumindo o controle sobre seus próprios limites e prazeres. Assim, a teoria psicanalítica deu origem a uma narrativa em que o masoquismo não é mais uma aceitação passiva, mas sim um espaço de autonomia e negociação ativa, refletindo a evolução do tema nas narrativas contemporâneas.
Subversão do masoquismo na escrita erótica feminina contemporânea
A literatura erótica feminina contemporânea, especialmente no que se refere ao masoquismo, reformula a submissão como uma estratégia consciente de poder e autonomia, como mencionamos anteriormente. Autoras como E.L. James, em Cinquenta Tons de Cinza, e Tatiana Amaral, em A Função do CEO, exploram o masoquismo como algo além de simples passividade: ele é uma escolha estratégica, articulada por personagens que performam a submissão de maneira a desafiar as normas de gênero tradicionais. Aqui, entra o conceito de mascarada masoquista, proposto por Soler (2005), no qual a submissão se torna uma encenação consciente. As personagens femininas adotam uma postura de vulnerabilidade para manipular e subverter o olhar do outro, sem abrir mão do controle sobre seus desejos. Essa atuação mostra como a submissão pode ser utilizada como uma ferramenta de resistência e autoconhecimento, desafiando a ideia de que o poder é unidirecional.
Um exemplo claro dessa subversão mascarada está na negociação do contrato entre Anastasia Steele e Christian Grey, em Cinquenta Tons de Cinza. Esse contrato, inspirado pelo conceito do “contrato masoquista”, de Deleuze (2014), estabelece os limites claros da relação sadomasoquista. No entanto, o verdadeiro poder de Anastasia reside na forma como ela performa sua submissão, mantendo controle sobre os termos e sua própria subjetividade. A mascarada aqui não é uma aceitação passiva da posição de objeto; ao contrário, ela utiliza o papel de “submissa” como meio de conduzir a relação e reafirmar sua autonomia. Assim, a submissão torna-se uma estratégia para moldar o poder nas interações.
Um aspecto fundamental da dinâmica do masoquismo erótico que pode ser explorado é o conceito de olhar. Lacan (1949/1998) sugere que o olhar do outro é essencial na construção da identidade e do desejo. Nas narrativas de James (2012) e Amaral (2013, 2014, 2015), as protagonistas jogam com o olhar de seus parceiros e do próprio leitor, performando uma submissão que, à primeira vista, parece colocá-las como objetos. No entanto, ao longo das histórias, essas personagens subvertem o olhar que as posiciona como passivas, transformando-se em sujeitos que controlam e manipulam essa percepção. Anastasia Steele, por exemplo, desempenha o papel de submissa, mas ao mesmo tempo guia Christian Grey através de seus próprios limites e desejos, desconstruindo a ideia de que ela está apenas “sendo vista” ou dominada. Assim, o olhar do dominante se volta contra ele próprio, criando uma dinâmica na qual o objeto da submissão também é o agente que define os termos da interação.
Personagens como Anastasia e Melissa Simon, ao se envolverem em práticas masoquistas, não apenas reivindicam controle sobre suas experiências, mas também participam da mascarada ao usarem a submissão como performance estratégica. Segundo Komorowski (2022), o masoquismo pode ser interpretado como uma resistência ativa. Nessa perspectiva, ao se colocarem em posições de aparente submissão, as mulheres não estão renunciando ao poder, mas jogando com as expectativas patriarcais. A mascarada permite que elas transitem entre os papéis de objeto e sujeito, manipulando as dinâmicas de poder para garantir que seus desejos continuem sendo centrais na relação.
Essa ressignificação do masoquismo reformula as relações de poder. Nas interações entre Christian e Anastasia, ou entre Robert Carter e Melissa, o poder não é unilateral, mas constantemente negociado através da mascarada, cuja submissão é transformada em uma performance calculada. O controle, geralmente visto como algo desigual, é aqui reinventado como parte de um jogo de poder e desejo, no qual a tensão erótica define a dinâmica.
A comunicação e o consentimento, em obras como Cinquenta Tons de Cinza e A Função do CEO, também se conectam a essa mascarada masoquista. O consentimento vai além da simples aceitação: ele é parte de um processo contínuo de negociação performática, no qual as protagonistas refletem sobre seus próprios limites e desejos, ajustando-os conforme a relação evolui. Esse jogo constante de tensões e renegociações faz parte da estrutura neiko-erótica, que, segundo Teodoro e Chaves (2023), implica a presença de uma tensão essencial nas relações, que alimenta a própria afirmação de desejo e autonomia.
Do ponto de vista psicanalítico, essa transformação do masoquismo feminino pode ser entendida à luz da falta de representação do feminino no inconsciente evidenciada por Freud (1933/2018), que posteriormente Lacan (1972-1973/2010) postula como não-toda dada a simbolização. Soler (2005) desenvolve essa ideia ao sugerir que, na mascarada masoquista, as mulheres utilizam a performance da submissão para subverter as normas fálicas e desafiar o olhar masculino. Ao performar o papel de “objeto” de desejo, as personagens femininas afirmam sua subjetividade ao manipular a dinâmica da relação, nunca se limitando a um papel passivo. Essa mascarada revela a complexidade do desejo feminino, que não pode ser reduzido às normas patriarcais de poder.
Por fim, a subversão das normas patriarcais que associam submissão à fraqueza permite que as protagonistas assumam uma posição ativa nas relações, utilizando a mascarada e a tensão erótica para redefinir o desejo e as dinâmicas de poder. Assim, a submissão torna-se um recurso para transformar as relações eróticas, rompendo com a visão freudiana da submissão inerente à sexualidade feminina. Nestas narrativas, a mascarada masoquista revela-se multifacetada: ela permite que as protagonistas explorem vulnerabilidades e, ao mesmo tempo, ofereçam uma forma de resistência e autodefinição. Desta maneira, a literatura erótica contemporânea oferece novas formas de interpretar o masoquismo, sugerindo que ele pode ser tanto uma expressão de submissão quanto uma estratégia de resistência e autodescoberta.
Considerações finais
Este artigo analisou como a escrita erótica feminina contemporânea, particularmente em narrativas como Cinquenta Tons de Cinza e A Função do CEO, subverte o conceito tradicional de masoquismo, ressignificando-o como uma ferramenta de resistência e empoderamento feminino. Baseando-nos nas teorias de mascarada masoquista, de Soler, e no neiko-erotismo, de Teodoro e Chaves (2023), exploramos como as protagonistas destas obras encenam a submissão de forma consciente e estratégica, utilizando-a para negociar poder dentro de suas relações eróticas.
O conceito de mascarada revelou-se central ao demonstrar como as protagonistas, ao performarem o papel de submissa, subvertem as expectativas patriarcais e manipulam o desejo de seus parceiros, ao mesmo tempo em que mantêm controle sobre seus próprios limites. O neiko-erotismo, por sua vez, contribuiu para a compreensão das tensões emocionais e físicas que permeiam essas relações, nas quais submissão e controle se entrelaçam para criar um espaço de negociação contínua de poder e desejo.
Portanto, o masoquismo, longe de representar uma simples aceitação da passividade, emerge nestas narrativas como uma estratégia ativa de resistência, através da qual o prazer feminino é reposicionado no centro da relação. Em vez de ceder ao poder, as protagonistas redefinem as dinâmicas de poder e utilizam a submissão como uma ferramenta para explorar e afirmar sua própria autonomia.
Futuras pesquisas podem expandir a análise para além das narrativas heteronormativas e explorar como esses conceitos operam em outras formas de erotismo e em relações queer, ampliando o debate sobre as múltiplas maneiras pelas quais a submissão pode ser reinterpretada e reapropriada, uma vez que esse foi um dos limites desta pesquisa.













