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Reverso

Print version ISSN 0102-7395

Reverso vol.47 no.89 Belo Horizonte Jan./June 2025  Epub Oct 24, 2025

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v47n89.10 

CLÍNICA PSICANALÍTICA

O que colher de um ato? O analista em seu ato, angústia imprevista do Real

What to harvest from an act? The analyst in his act, the unforeseen anguish of the Real

Paulo Victor Madureira Nunes Costa

Paulo Victor Madureira Nunes Costa

Psicanalista e psicólogo clínico (Universidade de Brasília)

Especialista em teorias psicanalíticas e em psicanálise lacaniana (Faculdade Inspirar) E-mail:psi.costapaulo@gmail.com

1 
http://orcid.org/0009-0003-4931-2742

1Universidade de Brasília


Resumo

Só depois do ato, o psicanalista poderá se interrogar sobre o quê o fez agir. Este artigo é uma forma de tentar trabalhar a construção e elaboração desse tempo a posteriori do ato, que não deixa de vir acompanhado de angústia. Lacan considera a práxis da psicanálise como uma experiência que toca e modifica o real, um tratamento do simbólico sobre o real. O ato analítico se propõe a contornar esse real e é também por onde o analista se instala. Sendo assim, esse artigo busca investigar a relação do analista com a angústia, no que diz respeito ao ato analítico.

Palavras-chave: angústia; ato analítico; real.

Abstract

Only after the act can the psychoanalyst question what led them to act. This article is an attempt to work on the construction and elaboration of this time that follows the act, which is inevitably accompanied by anguish. Lacan considers the praxis of psychoanalysis as an experience that touches and modifies the real, a treatment of the symbolic upon the real. The analytic act aims to navigate around this real, and it is also where the analyst positions themselves. Therefore, this article seeks to investigate the relationship between the analyst and anguish concerning the analytic act.

Keywords: anguish; analytic act; real.

As manifestações da angústia podem se dar de diversas formas, contudo, cada sujeito irá expressá-la à sua maneira, de forma singular. O trabalho de uma análise nos dá notícias disso, haja vista que o decorrer desse processo também é de angústia - obviamente, não a todo momento. Lacan (1962), logo nas lições iniciais do seu seminário sobre o tema, alerta aos analistas que possam fazer da angústia um móbil, ou seja, aquilo que poderia fazer com que se realize uma ação, um movimento. Assim sendo, considera-se valiosa a angústia no sentido de que ela pode permitir aos analistas uma orientação, em função dos momentos do seu aparecimento (p.15).

Contudo, há de se concordar que, aparentemente, existe um costume de pensar na angústia voltada apenas ao lado do analisante. Qual seria então a relação do analista com seus analisantes no que diz respeito à angústia? Lacan comenta que, na prática clínica, isto se coloca à prova a todo instante: sentir o que o sujeito pode suportar de angústia (p.13). De tal forma, este trabalho se dedicará a investigar a angústia do analista em sua práxis clínica.

Para tanto, serão considerados alguns fragmentos de um caso clínico, no qual a experiência imprevista do real se impôs em ato. Assim, endossando ainda mais a elaboração deste trabalho, é feita a pergunta: qual a relação do analista com a angústia no que diz respeito ao ato analítico? Na pretensão de algumas considerações em torno da questão, os textos que nortearão esta escrita partem de Freud a Lacan, como “Inibição, sintoma e angústia”, de Freud; e o Seminário X de Lacan sobre a angústia, assim como o seminário XV, o ato psicanalítico. Ao final, será apresentado um quadro-esquema que sintetiza essa tríade freudiana - inibição, sintoma e angústia -, além de algumas considerações trabalhadas ao longo deste artigo. Vale destacar que no Seminário da Angústia, Lacan privilegia uma lição na qual as discussões têm como tema central o actingout e a passagem ao ato. Angústia e ato parecem estar envolvidos - mas, e o analista? Como se envolve aí?

Alea jacta est, “o dado foi lançado” - O Ato no curso do Rubicão

A clínica do ato do analista é um acting cure; a do analisante é um talking cure. Para o analisante, a fala; para o analista, o ato (Quinet, 2013). Afinal, o ato analítico, o que é? Lacan (1967) abre seu seminário com esta pergunta aos ouvintes, conduzindo-os a pensar do que se trata. Ao ponto que nos parece possuir uma certa familiaridade com uma outra pergunta lançada logo no início de seu ensino: ‘o que fazemos quando fazemos análise?’ (Lacan, 1954, p.19). Será que o que fazemos é da dimensão do ato? Esse fazer implica um ato? Ou até mesmo a proposição inversa: um ato implicaria um fazer? Poderíamos pensar que o ato seria a própria sessão de uma análise? Seria uma interpretação? Um silêncio?

De fato, o debate se amplia para muitas questões. Não será o objetivo deste trabalho dar todas as respostas. Lembremos que a angústia se manifesta justamente aí: quando a falta, falta (Lacan, 1962b, p.52). Ainda que não sejam respostas, tais perguntas já nos auxiliam em apontar uma direção no que diz respeito à estrutura do ato, ou seja, este não se restringiria à noção de uma ação, uma motricidade. Para isso, Lacan fundamenta o ato a partir de uma concepção bastante interessante, a do arcoreflexo, do fisiologista russo Ian Pavlov.

A seguir, um exemplo para diferenciar uma ação de um ato a partir das elaborações do fisiologista: imagine que você está caminhando e do seu lado esquerdo está uma cerca, detrás dela, um cachorro. Você está distraído e, quando passa por esse cachorro que vem em sua direção rosnando, sem pensar, mesmo sabendo da existência daquela cerca que lhe protegeria, você automaticamente recua para a direita. Bom, esta ação, que não é mediada pelo pensamento, é o que chamamos de arco-reflexo. Ao ver o cachorro rosnando em sua direção, não foi preciso esperar que essa informação chegasse ao cérebro, que interpretasse a situação e, depois, voluntariamente, recuasse seu corpo para longe. Obviamente, no campo da psicanálise, a primazia não é do comportamento, mas, sim, do significante. Contudo, Lacan se serve do arco-reflexo justamente para diferenciar o que seria da ordem de uma ação e o que seria da ordem do ato, articulando-o com o registro do simbólico. É preciso encontrar num ato seu sentido de palavra, ou seja, um ato é uma palavra (Lacan, 1954b). Dessa maneira, a ambiguidade entre motricidade e ato assume um diferencial em que para este último existe uma articulação com o registro do simbólico, ao contrário da motricidade que parece estar associada à ação.

Nisso, vale pensar a relação do ato com o exemplo que Lacan se serve da história do romano Júlio César, no seu feito que foi levado à dignidade de um ato, a ponto de existir uma expressão “atravessar o Rubicão” para exprimir uma situação a qual, depois de realizada, não tem volta. A atitude de César violava a lei romana, que proibia qualquer pessoa de cruzar o rio. Ao desafiar o Senado, como consequência, uma guerra foi declarada. A travessia em si não é um grande feito; as margens do rio não são tão extensas. Contudo, para além da ação, está o que Lacan denominou por ponta significante (Lacan, 1967b), que caracteriza o ato dizendo justamente que a sua eficiência não tem relação nenhuma com a eficácia de um fazer. Nesse horizonte é que se articula a dimensão simbólica para o ato. Ao ultrapassar os limites estabelecidos pelo Senado, ao cruzar o Rubicão, César passa para a outra margem já em outras condições: de soldado da República passa a ser outra coisa, um rebelde. Passa a não ser mais o mesmo (Brodsky, 2004).

Logo, temos um horizonte que distingue ato e ação. Sendo este primeiro atrelado às coordenadas simbólicas, em que o significante exerce um papel fundamental. Lacan trabalha isso logo nas primeiras lições deste Seminário:”Não há nada que não seja introduzido em relação ao ato, senão isso: que ele é colocado como significante” (Lacan, 1967c, p. 36). Já Torres (2010) comenta que isso não reduz o ato ao campo simbólico, mas aponta a necessidade de que, para ser um ato, tenha uma dimensão simbólica.

No enquadre daquilo que não engana - angústia, não sem objeto

Freud (1926), em “Sintoma, inibição e angústia”, já nos adverte, no início de seu artigo, sobre a angústia ser um sinal de desprazer emitido pelo Eu frente a uma exigência pulsional do Isso. Ao retomar o caso do pequeno Hans, ilustra as particularidades desses componentes enumerando por: sintoma, o seu medo por cavalos; inibição, sua incapacidade de sair às ruas; sendo uma restrição que o Eu se coloca para não estar diante daquilo que despertaria sua angústia. Levando em consideração que o sintoma é um indício e substituto de uma satisfação instintual que não aconteceu, consequência do processo de recalque (p.20), observa-se que, no decorrer da análise do pequeno Hans, o medo de cavalos estaria presente enquanto representação substituta do medo em relação ao pai. O que torna esse caso um exemplo de uma neurose é justamente essa característica: a substituição do pai pelo cavalo (p.35). Com a substituição, realizada a partir do sintoma, ficaria muito mais viável para o pequeno Hans se defender da angústia. Ao permanecer em casa, não teria que se deparar com os cavalos nas ruas.

Dessa maneira, temos essa perspectiva da formação de sintomas como solução para anular um perigo, ou seja, o sintoma como recurso para evitação da angústia (Bênia, Celes & Chatelard, 2016). Contudo, neste mesmo artigo, há uma virada teórica no que diz respeito ao que se pensava sobre angústia e recalque. Acreditava-se que o recalque produziria angústia. Com suas investigações acerca das neuroses de defesa, Freud reformula tal afirmação ao postular que, na verdade, é a angústia que produz o recalque. Ou seja, a angústia como algo anterior ao recalque, um sinal dessa operação psíquica. Vale lembrar que, tratando-se de um afeto, mesmo que ocorrido o recalque, a angústia não é recalcada. É interessante observar que o sintoma já é uma via de tratamento do real pelo simbólico. Contudo, por se tratar de uma substituição, e não das melhores, já que todo reclaque não é bem-sucedido - temos essa tônica que Lacan comenta em seu seminário sobre o que engana. O logro nisto é que o sintoma carrega essa duplicidade ambígua entre satisfação e desprazer. Algo que é possível de se perceber quando abordamos a questão do significante:

Os significantes fazem do mundo uma rede de traços em que apassagem de um ciclo a outro torna-se então possível. Isso quer dizer que o significante gera um mundo, o mundo do sujeito falante, cuja característica essencial é que nele é possível enganar. (Lacan, 1962c, p. 87).

Em oposição ao significante e sua rede que captura um mundo, temos a angústia, localizada justamente neste lugar, fora da cadeia significante. Não há rede significante capaz de capturar a angústia. É justamente fora da cadeia significante, onde não há duplicidade ou ambiguidade, do impossível de ser simbolizado, que a angústia é sinal desse outro registro elaborado por Lacan: o Real. Distoderiva um dos seus famosos axiomas, desenvolvido no trecho de uma lição em que acentua a característica da angústia como aquela que não engana:

… ousei formular diante de vocês que a angústia, dentre todos os sinais, é aquele que não engana. Do real, portanto, de uma forma irredutível sob a qual esse real se apresenta na experiência, é disso que a angústia é sinal. (Lacan, 1962c, p.178)

A angústia não engana precisamente pela irredutibilidade do real, onde não há falta. Isso é importante para a clínica, pois, se voltarmos ao caso do pequeno Hans, passamos a ter um outro tipo de leitura no que diz respeito ao estatuto de objeto para a psicanálise. Não é possível afirmar que o etwas, estar diante do cavalo enquanto objeto, estaria no campo da angústia. Quando há um objeto, um nome para isso que supostamente entenderíamos por angústia, já estamos no registro de uma operação simbólica. O simbólico apenas, e não é pouco, introduz essa dimensão da falta no real. O símbolo passa muito bem a preencher essa falta (Lacan, 1962d). Porém, quando a falta vem a faltar é por onde a angústia se expressa, na impossibilidade de uma simbolização.

Daí é possível diferenciar as categorias de angústia e medo. Quando tratamos de uma equinofobia, uma aracnofobia, e todos os outros nomes que antecedem o sufixo “fobia”, estamos dando nomes ao medo, colocando objetos para evitar o encontro com a angústia, tratando-se assim de um medo. A angústia, não obstante, carrega esse desconhecido inquietante, estranho, infamiliar, o que vem a corroborar com a noção postulada por Freud a respeito da indeterminação da angústia e sua ausência de objeto, objektlosigkeit (p.114)

Todavia, Lacan menciona que a angústia não é sem objeto. De que objeto se trata então? É daí que é fundamentado o conceito de objeto a, que se trata, sobretudo, dessa indeterminação, não um objeto concreto, apreensível, mas a marca dessa ausência de objeto, aquilo que não pode vir a ser representado pela via do simbólico, ou seja, por ser da ordem do irrepresentável, do inapreensível, situa-se no registro do Real. Este artigo não se estenderá nas elaborações desta criação de Lacan. Contudo, a partir disso, vale destacar uma observação que define as posições distintas entre essas duas importantes figuras da psicanálise. Para Freud, a angústia estaria relacionada à ameaça de perder um objeto, no caso, o falo. Consequentemente, passa-se à compreensão de que toda angústia é angústia de castração. Com Lacan, é possível notar que a angústia está mais relacionada com a presença do objeto, do que com sua falta (Bênia, Celes & Chatelard, 2016). Entretanto, ainda é possível notar uma leitura lacaniana da angústia relacionada à falta, não do objeto, mas de uma falta diante o Outro. Vemos isso ser trabalhado já na primeira lição do seminário da angústia a qual é apresentado a alegoria do louva-a-deus (Lacan, 1962). Uma pessoa, ao colocar uma máscara de louva-a-deus, se coloca diante de um outro louva-a-deus, uma fêmea. Sabe-se que, após a cópula, as fêmeas desse inseto têm o hábito de devorar o macho. Dessa forma, sem saber da identidade da máscara que porta, a pessoa não fica tranquila. Ela simplesmente não sabe o que ela é para o Outro. Essa é uma vertente que vê o psicanalista francês desenvolvendo a angústia freudiana como sinal da castração, como angústia diante da falta, angústia diante do desejo do Outro que, no fim, é a angústia diante do próprio desejo. Che vuoi?

Plant(ação) - um ato sem sujeito, mas não sem angústia.

Segue um recorte de um caso clínico na tentativa de se colher uma elaboração de um ato. Para evitar identificações que poderiam comprometer o sigilo profissional, algumas alterações foram realizadas.

Flora já estava em análise por um tempo considerável, suas raízes sempre foram terreno para suas elaborações. Na ambivalência das raízes, ficar poderia ser oportunidade para crescer, ao mesmo tempo em que também poderia sentenciar sua prisão. Vou ficar nisso até quando? Uma pergunta que a regava. Sua insatisfação aflorava diante da relação que vivia, beirando o insuportável da angústia. Foi-se um tempo. Estávamos na modalidade online e, na época, já estava no divã, a câmera ficava ligada, porém, sem aparecer nossos rostos. Em uma sessão, passou a falar de um detalhe que fisgou a escuta deste analista: discutia sobre o destino de uma planta que fora jogada no lixo por seu companheiro que acreditava que ela já estava morta. Meio morta era como Flora se descrevia na relação. Uma planta meio morta, também era uma planta meio viva. Curiosamente, no enquadre do vídeo, havia uma planta em condições similares. De sobressalto, uma ação se colocou sobre o analista, uma ação não mediada pelo pensamento.

Quando se deu conta, seu corpo já estava pegando aquele vaso e deixando posicionado no primeiro plano da camera, dizendo: planta. E ali a sessão continuou, em um outro tempo.

Tendo encerrada a sessão, ficou se perguntando, acompanhado por angústia, o que havia acontecido. Vicente (2004), ao comentar dos aspectos que Lacan desenvolve a respeito do ato analítico como sendo sem sujeito, nos indica que assim é justamente pela redução pessoal do analista. Por conseguinte, é apresentado para este como desprazer, um verdadeiro horror, “pois no momento do ato, o analista não se autoriza senão de si mesmo, quer dizer de nenhuma fantasia, de nenhuma identificação” (p. 4).

Tomado pelo ato, levado adiante por esse corpo que se antecipa assinalando uma destituição de um saber imediato, é possível lembrar das discussões acerca do tempo lógico (Lacan, 1945). O ato de concluir (qual a cor do disco colado nas costas dos prisioneiros) surge a partir de uma antecipação da certeza, que, por uma precipitação lógica, se confirma. Dessa maneira, a asserção da certeza antecipada, daquilo que não se pode saber imediatamente, irrompe nesse ato de colocar uma planta ali no dispositivo analítico. Agora, se pensarmos que há uma dimensão da angústia no ato, sendo aquela sinal do real, é possível chegar a uma noção em que, pelo ato analítico - isso que em sua parte estrutural diz de um real não evidente (Lacan, 1964) - se precipita uma certeza, daquilo que não engana. Ou seja, o ato tira a certeza da angústia: “agir é arrancar da angústia sua própria certeza” (Lacan, 1962c, p.88).

A certeza, que veio a se fazer em uma outra temporalidade, em um só-depois, diz de uma lógica na contramão do cogito cartesiano em que pelo “penso” logo se chega a uma conclusão, uma certeza, “logo existo”. Essa certeza, retirada da angústia pelo ato, condiz com a inversão lacaniana, “sou onde não penso”, sustentando ainda mais a posição de que um ato não é mediado por um pensamento, ou um saber a priori. A certeza aqui passa a ser compreendida enquanto uma aposta. O que antes é tomado por um equívoco, uma incerteza, o ato, em sua retomada pelo significante, faz com que o ato dito “falho” se estabeleça enquanto um verdadeiro ato e, dessa travessia promovida por ele, vem um (só) depois que recupera essa certeza retirada da angústia (Vicente, 2004; Dunker, 2016).

“Planta” poderia se articular nessa cadeia significante enquanto um nome, substantivo, mas também como adjetivo, assim como verbo. As três propostas pareciam provocar um movimento diante daquela angústia. Talvez fosse preciso plantar para sair de planta meio morta.

A analisante expressa seu desejo pela pausa naquele tempo de trabalho uns dias após essa sessão. Talvez fosse tempo para colher algo do que foi plantado. Um tempo depois, Flora entra em contato para retomar seu trabalho de análise. Para a surpresa do analista, no status de Flora havia um emoji: uma planta, mas não qualquer uma - um girasol.

Considerações finais: colheita - a angústia formadora do analista

Há uma dimensão da angústia em todo ato. Pela sua imprevisibilidade, não há como se programar pois, justamente, o ato confere uma quebra na razão. É da ordem do Real, da qual a angústia é sinal.

A posição “planta” vinha sendo repetida até encontrar no ato seu sentido de palavra - colocado como significante. Se fosse uma ação mediada por um pensamento anterior, poderia se pensar na inibição, onde se apresenta uma dificuldade e um movimento mínimo. Como demonstrado no quadro elaborado por Lacan a respeito dessa tríade freudiana:

Figura 1 Quadro da angústia. Fonte: Lacan, 1962, p. 89. 

Esse menor estado de movimento presente na inibição está relacionado à angústia: evita-se, pela inibição, esse grau de maior dificuldade - e também de movimento - que a angústia traz. Tal articulação remete ao questionamento sobre quem poupamos quando o analista deixa de lado essa orientação dada pela angústia. Lacan (1962) responde que o outro (analisante) é poupado, assim como o analista. Se a angústia é móbil para um desenrolar de uma experiência de análise, por que o analista, com seu desejo, se furtaria a esse lugar? Já que a angústia é um sinal que antecede um ato de engajamento com o desejo, será que a inibição, quando a função analítica é poupada, indicaria uma evitação dessa aproximação com o desejo de analista? Tal questionamento é interessante já que parece corroborar com a reformulação que Lacan faz desse quadro, ao final desse Seminário. Nessa nova disposição, é incluído o desejo no quadrante onde antes situava-se a inibição. Ou seja, o desejo pode assumir a função de uma defesa (Lacan, 1962e).

Como pode ser visto, são muitas variáveis em jogo nesse terreno espinhoso pelo qual o analista, com seu ato, pode vir a se instalar. Quanto a isso, não há garantias, não tem como prever. Contudo, o analista, com seu desejo, pode cultivar esse real que irrompe de forma imprevisível. Ao invés de se defender, inibir, poupar; pode possibilitar uma passagem através de uma rega de angústia suficiente para promover uma mobilidade. Para que haja análise. Para que o ato permita uma travessia temporal e subjetiva de um antes e um depois. De uma planta meio morta para uma planta girassol.

Referências

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Recebido: 11 de Março de 2025; Aceito: 22 de Abril de 2025

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