Freud demonstrou que o inconsciente é absolutamente atemporal [zeitlos], e este seria o aspecto mais assombroso e importante da fixação psíquica. Para tratar da atemporalidade do sujeito do inconsciente, ele utilizou em suas teses o substantivo alemão Zeit e o adjetivo zeitlos. A palavra composta zeit-los traduz-se por atemporal e expressa o tempo que não existe. Como opera exatamente a atemporalidade para a psicanálise? O conceito de atemporalidade do inconsciente implica não apenas que os conteúdos psíquicos não estão sujeitos à linearidade temporal, mas, sobretudo, que são de alguma forma persistentes ou até mesmo indestrutíveis, funcionando de forma invariante ou quase invariante. No entanto, a psicanálise também reconhece que eventos psíquicos podem ser organizados de forma a retroceder ao passado ou antecipar o futuro, o que gera uma tensão entre o que é atemporal e o que é experienciado no decurso do tempo. O tempo do inconsciente é um dos grandes desafios que Freud apresentou para o pensamento atual, pois não se pode considerar um trauma se encontre no tempo passado ou na atualidade. Como pensar o paradoxo de um elemento que é atemporal [zeitlos], mas que de tempos em tempos é reorganizado, reescrito? Não se trata, portanto, do tempo cronológico, em que acontecimentos psíquicos se inscrevem um após o outro, sucessivamente. A tese de que o inconsciente não conhece o tempo precisa co-funcionar com a tese, aparentemente contraditória de que podem coexistir variadas temporalidades.
Este artigo ressalta, portanto, que o tempo que não há, é tensionado por hipóteses relativas tanto à fixação, quanto ao rearranjo e ressignificação, constituindo-se como pilares tanto da metapsicologia, quanto, especialmente, do próprio trabalho clínico. O recurso à atemporalidade do inconsciente ainda é um “fato polêmico”, como escreveu Assoun (1978, p. 159). Como centro de gravidade da metapsicologia construiu-se em confluências com a hipótese do inconsciente, já não é possível desconhecer que o sujeito está articulado à dimensão do tempo. A epistemologia freudiana pode se organizar a partir da estrutura de sua metapsicologia. Um outro componente das teses freudianas sobre o tempo é a “retroatividade”, o “a posteriori” [Nachträglich]. A “retroatividade”, ou “a posteriori”, é uma operação fundamental na abordagem freudiana, que descreve como um acontecimento pode se tornar traumático apenas quando é reativado por um evento posterior. Essa causalidade retroativa não é desconhecida de áreas reconhecidamente científicas. Sabe-se, por exemplo, que o vírus causador do herpes Zóster pode permanecer inativo e “adormecido” nos nervos sensoriais até ser reativado por eventos posteriores, como estresse, imunossupressão, entre outros. O limite dessa analogia é que não é possível, pelo menos não até hoje, vacinar-se contra traumas psíquicos.
Esse processo de ressignificação está intimamente ligado à atemporalidade do inconsciente, já que o “tempo” do inconsciente é não linear. O inconsciente se organiza por meio de dinâmicas de reorganizações retroativas, em que um evento posterior confere sentido a um evento anterior, sem se ater uma ordenação cronológica. Essa articulação entre retroatividade e atemporalidade sugere que o inconsciente não está restrito ao tempo vivido, mas opera com integração e reorganização de diferentes temporalidades. O trauma encontra-se articulado por uma lógica retroativa, ou seja, um acontecimento somente é traumático em referência a uma outra ocorrência anterior, de modo que é ressignificado em movimento retroativo. Trata-se de uma operação de direção inversa e efeito retroativo, assim o acontecimento que vem depois é capaz de entregar sentido ao que estava antes. De fato, poderia ocorrer certa interpenetrabilidade entre efeitos de atemporalidade e efeitos de a posteriori. Se considerarmos o inconsciente também como o “não recalcado”, qual o tempo que esse inconsciente tolera?
Freud serviu-se de metáforas na investigação dos mecanismos que levam a formalizar uma teoria do tempo para processos psíquicos. As metáforas freudianas cumprem diversos propósitos, desde ilustrativas ou alegóricas até metáforas com valor heurístico ou conceitual. Um efeito observado trata-se de que muitas metáforas freudianas encontram um limite de operação, e, por essa razão, Freud, ao tomar metáforas como ponto de partida, por vezes mobilizou outras diferentes metáforas. Ao mesmo tempo, demostrou em suas teses como as metáforas utilizadas operam no próprio limiar, no gesto mesmo em que falham. Não por acaso, a metáfora é um dispositivo fundamental na construção de uma teoria. Perelman (1999, p. 337) propõe que na fase inicial de uma teoria o pesquisador não hesita em deixar-se guiar por metáforas. Para Lavelle (2022, p. 119), a construção da metáfora não se limita ao sentido, mas se estende ao curso poético e literário. E, exatamente pelo fato de que restam partes indeterminadas nas palavras, elas são capazes de renovar ligações, refinar e ler outro sentido. E, se a psicanálise perder sua episteme metafórica, incorre-se no risco de transformar a teoria psicanalítica em uma “fotocópia” do psíquico, ou pior ainda no que se pensar ser essa fotocópia, escreve Spence (1992, p. 24-25). Uma referência à presença de elementos indeterminados ocorre no primeiro parágrafo de As pulsões e seus destinos em que para Freud (1915/2013, p. 15), no início e no decorrer do exercício científico, não se pode evitar ideias abstratas e elementos de indeterminação, estes que serão os futuros conceitos fundamentais. Notemos ainda que para Black2 citado por Spence (1992, p.19): “talvez toda ciência deva começar com a metáfora e terminar com álgebra; e talvez sem a metáfora nunca tivesse havido qualquer álgebra”.
Este artigo trata dos conceitos de tempo e atemporalidade em Freud, e tem como objetivo apresentar o eixo epistemológico em que se inscreveu a partir da dobradiça entre os textos freudianos Carta 52 [1896], Psicopatologia da vida cotidiana [1904], O Mal-Estar na Cultura [1930], Conferência 31: A dissecção da personalidade psíquica [1933], A análise finita e a infinita [1937] e O homem Moisés e a religião monoteísta [1939], entre outros ensaios. Propomos identificar os argumentos de Freud em seu próprio bloco de teses sobre uma teoria do tempo para o inconsciente. Portanto, trata-se de dirigir problemas aos textos e fazer operar perguntas que as teses freudianas propõem ao tempo de agora. Como Freud construiu uma teoria dos tempos e da atemporalidade para a psicanálise? Como a atemporalidade do Isso serve a analisar pontos de fixação? A fixação, como conceito central em Freud, pode ser entendida como um ponto de articulação entre o atemporal e o temporal. Quando Freud fala de “sobreposições” no inconsciente, ele se refere a momentos de fixação em que o material psíquico, embora organizado de maneira atemporal, sofre reorganizações temporais. Esses pontos de fixação, como camadas sobrepostas, resistem ao tempo, permitindo que traços psíquicos do passado sejam revividos e reconfigurados, sem seguir uma ordem cronológica.
Das sobrevivências “ao lado” de sobreposições que se reorganizam
Na análise da Carta 52,Freud (1896/2021, p. 35-37) utilizou-se de metáforas e palavras-conceitos retiradas da arqueologia, por exemplo, a demonstração que o aparelho psíquico surgiu de uma sobreposição de camadas de modo que a memória não se dispõe em apenas uma, mas em várias camadas sobrepostas de escritas. Na arqueologia, a estratigrafia é um método que estuda as camadas, estratos que aparecem sobrepostos no corte geológico temporal. São sobreposições que, de tempos em tempos, se reorganizam, sofrem uma reescrita, estão, assim, submetidas às subjetividades de cada tempo, ao anacronismo, às sobrevivências, às descontinuidades e fixações que ocorrem. E isso as relaciona com os fatores tempo e atemporalidade. A tradução ou transposição do material psíquico acontece nas fronteiras entre épocas. A subjetividade de cada um estará articulada a não tradução de um elemento qualquer. Nota-se que a escrita sobreposta posterior inibe a escrita anterior, e ainda desvia o processo excitatório. No entanto, se falta a escrita sobreposta posterior, a excitação segue os caminhos e soluções vigentes do tempo anterior. Essa falha na tradução é o recalque, que acontece devido a uma liberação de desprazer consequente da tradução. Por efeito, no que falha a escrita sobreposta posterior, persiste o anacronismo, persiste um resto intraduzível, ou seja, em uma determinada província ainda vigoram os fueros3 (uma região e seus direitos). Freud insistiu em afirmar, em muitos escritos, que há sobrevivências, tal como em Gradiva4 em que o arqueólogo Nobert “vê algo de ‘hoje’ nela”, apesar de reorganizações em momentos posteriores.
Do modo de operar a atemporalidade, não sem pontos de fixação
Em Psicopatologia da vida cotidiana,Freud (1901/2023, p.375) tratou com rastreabilidade a aproximação entre psicanálise e mecanismos linguísticos, verificável nos tropeços que ocorrem aos sujeitos ao desvelar intimidades, nas palavras ambíguas, nos esquecimentos, em atos que falham e nos equívocos de ação, como se palavras [significantes] estivessem afetas por sentidos que desconhecem o tempo. Foi, neste mesmo capítulo XII, que Freud (1901/2023, p. 331) defendeu o determinismo psíquico. A incidência de uma espécie de determinismo incompleto na lógica do sistema inconsciente implica numa espécie de limitação de nossa experiência subjetiva de liberdade, que incide em todos os campos de nossa vida, por exemplo, quando falamos, sonhamos ou desejamos. O paradoxo da temporalidade se reduplica aqui: ao mesmo tempo em que o livre arbítrio não passa de uma ficção útil (e, até certo ponto, indispensável para a vida social e jurídica), escolhemos mesmo quando nosso campo de ação se limita a um feixe restrito ou limitado de alternativas possíveis. Mesmo assim, escolhas, ainda que forçadas, continuam sendo escolhas. Somos responsáveis por nossa posição subjetiva. Freud (1910/2013, p. 197) apresentou a psicanálise como um novo método de pesquisa e tratamento. Além disso, demonstrar o inconsciente requer que o psicanalista conceda certa convicção ao determinismo psíquico. No plano psicanalítico, insignificâncias e detalhes são relevantes, como observou Freud; este é o rigor ao qual referiu-se ao considerar a predominância do inconsciente.
Vê-se nas teses as aproximações entre atemporalidade e invariabilidade através dos tempos, articuladas aos pontos de fixação que preservam, em camadas arcaicas do psiquismo, elementos que resistem às transformações históricas do sujeito. O aspecto atemporal é o mais importante e assombroso da fixação [Fixierung]. O que determina a fixação psíquica e que efeitos com a indeterminação pulsional? Na Nota 110, Freud (1901/2023, p. 369-370) tratou o problema do determinismo e examinou não o esquecimento de nomes próprios, ou de palavras estrangeiras, mas o esquecimento em “sentido estrito” de vivências do passado. Traços de lembranças não sofrem nenhuma alteração, impressões podem ser conservadas, da mesma forma como foram recebidas, ainda que ao sofrer processos de condensação, desfigurações e reorganizações em outros momentos da vida. Ressaltamos o paradoxo de que o material psíquico pode se modificar e ainda assim permanecer o mesmo. Neste sentido, a atemporalidade é um aspecto dos pontos de fixação, podemos inferir que a atemporalidade de processos inconscientes não seria possível sem sobrevivências. Porque há atemporalidade, e essa zona esfumada de sobrevivências e pontos de fixação, em que o tempo não há para o inconsciente.
Do tempo que não há e efeitos terapêuticos, não sem o sonho
É significativo que precisemos de uma teoria do tempo para a direção do tratamento, e para a leitura de sobrevivências que se fixaram. Como o atemporal se faz temporal [atual]? O inconsciente nunca está em um tempo e lugar em que se espera. Na tese da Conferência 31: A dissecção da personalidade psíquica, Freud (1933/2010, p. 154) atribuiu ao Isso aspectos de atemporalidade em que tempo e espaço não são formas necessárias. No Isso, “nada se acha que corresponda à ideia de tempo, não há reconhecimento de um transcurso temporal” (p. 154) - desejos e impressões que nunca foram além do Isso são imortais, sobrevivem mesmo após décadas como se tivessem acabado de surgir. Podem ser reconhecidos como passado e privados de investimentos somente na experiência de uma análise. Neste ponto, Freud estabeleceu a atemporalidade como uma direção na qual se baseiam efeitos terapêuticos do tratamento analítico e conferiu à atemporalidade certo estatuto clínico. A mais antiga das províncias5 ou instância foi designada por Isso, um pronome impessoal adequado para a instância distinta do Eu. O Isso é a parte inacessível, recolhemos efeitos a partir do trabalho do sonho e sintoma, de caráter negativo e pode ser descrita em contraposição ao Eu. A aproximação se dá por metáforas, pode ser chamado de “caos” - um caldeirão cheio de excitações fervilhantes. Das pulsões se obtém a energia, mas não tem organização, não introduz uma vontade geral, mas tenta satisfazer impactos pulsionais. As leis do pensamento lógico não prevalecem, nem mesmo o princípio de não-contradição, impulsos opostos coexistem um ao lado do outro, sob a forma de conflitos, mas podem convergir para formações de compromisso ou pontos de fixação em que predominam a descarga de energias.
O Eu para Freud é apenas a parte do Isso, que foi modificada por esses estímulos, e se diferencia pela capacidade de sintetizar conteúdos e combinações de processos psíquicos. Na relação com o tempo, tão difícil de descrever, formulada por Freud (1933, p. 156), é proporcionada ao Eu pelo sistema perceptivo (Pcp-Cs). O Eu observa, registra nos traços mnemônicos das percepções, mas é tão somente, a critério do Isso que o Eu pode deliberar sobre a motilidade e o trabalho do pensamento. Em Nota sobre o “bloco mágico”, Freud (1925/2011, p. 243) tratou de evidenciar, como um sistema de escrita, o complexo modo de funcionar descontínuo do aparelho psíquico, para tanto mostra o duplo requisito de apagar e conservar. É o modo descontínuo de funcionar do sistema Pcp-Cs, a não excitabilidade periódica, que estaria na origem de um conceito de tempo para Freud. Tempo é descontinuidade, em outras palavras, é corte. Não se deve imaginar fronteiras definidas nas supostas divisas entre Eu, Isso e Supereu, mas sim uma pintura abstrata em que as dimensões se borram umas nas outras. Essas divisões podem encontrar-se permeáveis a grandes variações, como podem transformar-se ou retroceder temporariamente. Por exemplo, no texto freudiano O humor, há uma situação em que ocorre um amplo deslocamento de uma instância do aparelho anímico para outra, “de tal modo que não nos é possível, muitas vezes, diferenciá-los” (Freud, 1927/2021, p. 277). Freud (1940/2019, p. 21,177) certificou-se de que o Isso e o Supereu representam as intervenções do passado, ou seja, o Isso, as herdadas; e o Supereu, as incorporadas a partir do Outro. O Eu seria constituído pelo que seria diretamente vivenciado, pelo que é narcisisticamente investido, pela modulação de índices tomados emprestados da “realidade”, o que culmina em um enquadramento temporal diverso, que negocia regularmente com o princípio de realidade. É claro que a constituição do Eu, através da inibição parcial do princípio de prazer e da consequente assimilação de índices de realidade fornecidos pela vida concreta e por processos identificatórios, continua sendo um dos paradoxos mais bonitos da metapsicologia.
Para o Supereu trata-se dos tempos de convivência vividos especialmente na infância, mas também tudo o que teve efeitos determinantes, isto é, o mundo exterior no qual se encontra exposto, e, sobretudo, o passado. Ao ponto em que o presente é transposto em passado. O Isso apresenta tendências herdadas. Não se pode esquecer que parte das aquisições culturais não vividas teria deixado precipitados no Isso. É precisamente nessa direção de atemporalidade que Freud extrai um resto primevo de um tempo linear pré-histórico e a contrapelo, que vai restituí-lo ao tempo de agora. Se a morte não pode ser representada no inconsciente, pergunta-se até que ponto este só pode ser atemporal. Goethe, dado como nascido “morto”, a ele somente com muitos cuidados foi possível sobreviver, e embora tenha vindo ao mundo para morrer, permaneceu vivo. Freud (1917/2021, p. 259) interpretou um fragmento clínico do passado do escritor, mas seria possível rastrear no texto escrito as condições exigidas para a interpretação, perguntou Freud: “[…] por imperícia da parteira, vim ao mundo como morto e foram precisos grandes esforços para me trazer à vida” (p. 259). Estes podem ser efeitos de atemporalidade na vida atual do poeta, em que pontos de fixação fazem uma cicatriz no sujeito. Do ponto de vista do inconsciente, o tempo libidinal se fixa a objetos primários de ocorrências nas lembranças da infância. Mas não podemos esquecer que toda lembrança poderia ser encobridora.
Freud (1901/2023, p. 374-375) conduz a considerar o sonho para um tipo especial de vivências que não irrompem na lembrança. O sonho, via de acesso ao inconsciente, utiliza o tempo do sonhador - o presente, entretanto, evoca e entrelaça sobrevivências do passado, e no tempo futuro é feito à semelhança do passado. Por isso, o desejo indestrutível está em direção ao futuro, mas o tempo futuro, tomado como atual no sonho, é feito à semelhança do passado. O sonho é o centro de conflitos em que se manifestam sobrevivências de duplo sentido, tempos indeterminados, e formações psíquicas nas quais continuam a operar partes arcaicas, além de restos diurnos da experiência recente. Por um lado, a pré-história da infância, e, por outro, a dimensão arcaica da experiência humana, cujos traços psíquicos se preservam sem terem sido diretamente vivenciados. Em Freud (1900/2006), “as impressões que tiveram o mais forte efeito sobre nós, as de nossa primeira infância, são aquelas que quase nunca se tornam conscientes” (p. 590). Com efeito, é preciso considerar o ponto insondável do sonho nos limites da interpretabilidade, tal como um novelo embaraçado que é o “umbigo” (p. 575), deste ponto do sonho que se assenta no “não reconhecido” [Unerkannte]. Note-se que a dimensão Real do inconsciente sempre esteve sinalizada nas teses freudianas, seja no umbigo ou no recalque primário. O Real se dá a ver sob espécies enganosas da permanência e costuma se inscrever como cicatriz do que permanece (Milner, 2006, p. 24). Sonhar é regredir, o reavivamento da infância, dos impulsos pulsionais e modos de expressão que antes prevaleceram. Em Sabina Spielrein (1912/2021 p. 22), o tempo presente tem relação no inconsciente com vivências anteriores de várias gerações. No sonho, cada elemento pode também significar o seu avesso, os contrários não se separam e podem ser tratados como idênticos. Assim, na análise, pede-se ao analisante para recontar o texto do sonho. Evidentemente, a questão de atribuir atemporalidade ao Isso não o define em termos de tempo, mas no tempo que não há e não se representa.
O problema de representação e sobrevivências “ao lado” em o Mal-estar na cultura
No ensaio O mal-estar na cultura, de 1930, tomado aqui em chave metapsicológica, Freud propôs a Cidade Eterna de Roma, como metáfora de sobrevivências do material psíquico. O conceito freudiano de atemporalidade do inconsciente, embora desafiante, é um ponto crucial para se compreenderem as dinâmicas psíquicas. Em sua obra, Freud utiliza diversas metáforas, como a “Cidade Eterna de Roma”, para ilustrar como os traços psíquicos sobrevivem e se reorganizam, apesar de não estarem imersos em um tempo linear, formando, antes, camadas em constantes reacomodações. Ao contrário de uma abordagem cronológica, a atemporalidade do inconsciente sugere uma estrutura temporal não convencional, no qual o passado e o presente se entrelaçam em um jogo contínuo de reorganizações psíquicas. Mas o próprio autor mostra o limite da metáfora arqueológica.
A hipótese metapsicológica de que o mecanismo psíquico advém da sobreposição de camadas proposta feita por Freud na Carta 52 (1896/2021, p. 35) manifestará complexidades e expressões mais elaboradas nas metáforas que se encontram no texto O mal-estar na cultura. Para Freud (1930/2020, p. 311), esquecer não é o apagar traços. Como ocorre a sobrevivência do que é originário “ao lado” do que é posterior e que dele se originou? Lançando mão de um procedimento frequente em seus textos, Freud (1930/2020, p. 312-313) recorreu à metáfora de transformações na cidade de Roma, que foi reconstruída muitas vezes por cima das mesmas fundações e, em vez de morada humana, seria um ser psíquico. Roma, a “Cidade Eterna6”, é a metáfora arqueológica para dizer da conservação de um elemento do tempo passado. O que se pode encontrar do passado na Roma atual são sobrevivências: “o que agora ocupa esses lugares são ruínas, mas não são ruínas deles próprios, e sim de suas renovações de épocas posteriores, após incêndios e destruições” (Freud, 1930/2020, p. 312). Sobrevivências são como objetos falantes, “as pedras falam” (Saxa loquuntur!) e revelam o próprio sentido, pronunciou Freud (1896/2023, p. 193-194). Essa conferência inseriu complexidades para o estatuto do trauma: o fato é que não é possível estabelecer como causa uma exata ocorrência anterior que se configurou em redes e cadeias.
Sobrevivências são pontos indeterminados de fixações que tornam o atual em inatual. São também elementos indispensáveis à atemporalidade. Com elementos referidos até o presente momento, notam-se duas ocorrências: sobreposições que se reorganizam de tempos em tempos e sobrevivências que fixam moradia “ao lado” [são os fueros]. Freud (1930/2020, p. 314) nos apresentou um problema: o “irrepresentável” no inconsciente. As metáforas das cidades Roma ou Londres são “inapropriadas7” para se comparar com o passado anímico. A disjunção que se observou foi a dificuldade topológica em representar as sobrevivências de processos inconscientes, pois o mesmo espaço não suporta duas formas de preenchimento no tempo. A hipótese foi a existência “ao lado” de restos extemporâneos que não passaram por processos de transformações. Observa-se os fueros, tal como ressaltado na Carta 52. Em Freud (1930/2020), “uma parcela quantitativa de uma atitude, de uma moção pulsional, permaneceu inalterada, e a outra continuou seu desenvolvimento” (p. 311). A dimensão do tempo em aspecto Zeitlosigkeit pode ser implicada para expor a parte “inalterada” neste recorte de tempo, a parcela pulsional que permaneceu fixada. Como a fixação pode corromper a indeterminação pulsional?
Atemporalidade, não sem pontos de fixação e o trauma não vivenciado
Verificamos que Freud (1937/2017, P. 346), em A análise finita e a infinita, recorreu novamente à tese de sobrevivências anteriores coexistirem “ao lado” das mais recentes. Sem dúvida, é preciso considerar a aproximação entre sobrevivências e fixação da libido que se mostrou neste ensaio. Neste sentido, não seria possível atemporalidade sem pontos de fixação pulsional em outros tempos diferentes do qual se vive. Não há neste texto nenhuma valorização da hereditariedade. Não se trata, aqui, do conhecimento do passado como um fim em si, ou de fácil hierarquia determinante, mas, principalmente, das dificuldades que a atemporalidade do inconsciente como um aspecto da fixação pode colocar ao tratamento psicanalítico. Freud apresentou limites para uma psicanálise, na transferência não se pode despertar todos os conflitos pulsionais. Como a psicanálise não assegura uma salvação, fato este verificável exatamente porque há sobrevivências8 que se pode prescindir de salvação. Pois, sobrevivências não têm valor de redenção. Como interpretar elementos atemporais, isso se lê ou é uma lembrança? Quanto à posição do analista, podemos apenas afirmar que “nesse caso, ele precisa comportar-se de modo tão ‘atemporal’ quanto o próprio inconsciente”. (Freud, 1918/2021 p. 635). A interpretação não faz ecos quando, no sujeito, o sofrimento ainda não é atual, tal como pode ocorrer na leitura de escritos psicanalíticos em que o leitor se sente “estimulado” nas passagens que foi atingido por conflitos que naquele momento estão acontecendo (Freud, 1937/2017, p. 331). Para Freud (1912/2017, p. 107-108), em Sobre a dinâmica da transferência, as moções inconscientes não querem ser lembradas, mas almejam despertar e se reproduzir de acordo com a “atemporalidade” (p. 118) e a capacidade alucinatória do inconsciente. É nessa direção que não se pode negar a importância de fatores acidentais e fatores constitucionais ou disposicionais. Da perspectiva freudiana, não devemos considerar uma das forças apenas, mas avaliar de formas diferentes parcelas de vivência ou de constituição. Freud propôs que a psicanálise se pronunciou pouco sobre fatores constitucionais, que são os precipitados de influências acidentais sobre a infinita série dos antepassados, entretanto, sobrevivências marcam pontos de fixação da libido e podem repetir elementos de camadas psíquicas antigas, acrescentando assim ao problema constitucional a hipótese de que certas formações inconscientes são de alguma forma transmitidas e herdadas simbolicamente.
Como se sabe, o inconsciente não se restringe aos limites do recalcado. Neste exercício clínico, apresento um fragmento de caso que chamo de extração de tecido, impacto da linguagem sobre o corpo, a ver: Judith ainda não pronunciava palavras, quando aos quarenta dias de seu nascimento sua mãe lhe diz antes de morrer e diante do berço - “Eu não vou criar essa minha filha”. A frase significante sobrevive e faz ecos na sua vida diária, como um sintoma que vem do Real em resto não simbolizável. Para Judith, em breve tempo, se pode ter uma mãe. Acolhida pela avó materna, viveu com ela até os três anos, quando esta morreu dando sentido e satisfação pulsional. Reencontrou seu pai aos sete anos de idade, foi preciso apreender que aquele era o pai. O avô materno era um homem francês que retornou ao país de origem quando do nascimento de sua mãe, elemento esse tal como um trauma não-vivido. Restos vistos e ouvidos e sobrevivências incapazes de tradução são pedaços da subjetividade de Judith. Sonhou que, pela boca, tal como um produto do corpo, extraia aos poucos um grande pedaço de tecido preto. Em Lacan (1963/2005, p. 156), “Só nos enlutamos por alguém de quem possamos dizer a nós mesmos: Eu era sua falta”. O sem sentido traumático e a singularidade que se atualizou no sintoma e no sonho, para Judith, foi o luto. Pontos opacos de rememoração surpreendem a sonhadora: o trauma é uma construção. Judith interpretou o sonho ao avesso. Capaz de reintegrar o objeto extraído, como na banda de Moebius, o luto extraído de dentro do corpo, estava também fora, no vestido preto mesmo que usava. Então diz à analista: “Agora, ando por aí com o meu sintoma”.
A pré-história da humanidade é parte do sintoma em O homem Moisés e a religião monoteísta. A complexidade que Freud (1939/2018, p. 135-137) apresentou trata-se da perspectiva de que no inconsciente, como no trauma, podem estar ativos não apenas o passado vivido, mas o trauma não-vivenciado, o que ele apresenta como um “acontecimento filogenético” (p. 139). O passado inconsciente não se restringiria ao que o sujeito diretamente experimentou, mas, possivelmente, a traços mnêmicos de vivências de outras gerações. O sujeito seria constituído por precipitados de traços do qual se viveu [fatores acidentais], e também pelo passado não-vivido [que Freud, algumas vezes, designou de “filogênese”, “herança arcaica”, e assim por diante]. As primeiras impressões arquivadas, mesmo antes de falar, podem manifestar efeitos, sem que se conheça a mecânica dessa transmissão e sem que sejam lembrados, essa hipótese se passa também para as primeiras vivências da humanidade. No inconsciente, podem estar ativos não apenas conteúdos vivenciados, mas também sobrevivências que parecem “inatas” ou “filogenéticas”. Este é um fator “constitucional” (Freud, 1939/2018, p. 138). Na clínica, não é incomum que traços herdados de avós, por exemplo, pipoquem aqui e ali, sem que se saiba como, exatamente, esse tipo de transmissão acontecia. Como diz o provérbio galego: “no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.
Considerações finais
Nesta breve análise metapsicológica, na dimensão do Isso, verificamos a atemporalidade como pontos de fixação e heranças transgeracionais. As possibilidades dessas confluências não podem ser consideradas sem a prática ética, parte constitutiva da metapsicologia. Em Lacan (1960/2008, p. 51), “a evolução da metapsicologia freudiana é porque podemos aí encontrar o rastro de uma elaboração que reflete um pensamento ético”. Dessa perspectiva, sobrevivências podem se equivocar na experiência de uma análise. Cassin (2024, p. 78-89) analisou, com a nostalgia, as aproximações entre pátria, exílio, língua materna, processos de enraizamento e desenraizamento. O texto apresenta-se entre o antigo e o contemporâneo, para problematizar a ideia de patriotismo, o culto do solo e do sangue [heranças]. Nostalgia, a palavra soa grega, nostos, o retorno, e algos a dor, ou seja, a dor do retorno, entretanto, esta não é uma palavra grega, é uma palavra suíça, plural e forjada para designar uma doença. Foi Hannah Arendt, escreve Cassin (2024), quem ensina a desfazer a ligação entre língua e povo, porque não coincidem. Nesse sentido, Cassin (2024) dirá que o equívoco não se abriga simplesmente entre as línguas, de uma a outra, mas no seio de uma única e mesma língua, mesmo que só existisse uma única língua. O pertencimento a um povo é a imbricação entre língua e cultura [povo], entretanto, é fundamental manter a subtração entre língua e cultura, o ponto mesmo de intradução. A pátria possível é a língua materna, em outras palavras lalíngua. O que se chama de “filogênese”, em uma leitura a partir da metapsicologia, pode se aproximar de uma dinâmica política e da tese de Cassin: apátrida. Como um buraco que surge junto à ordem significante, não é a presença de um significante, mas exatamente a sua ausência. Não obstante, um significante sozinho não significa nada. Segundo Lacan (1973/ 2003, p. 492), em “O Aturdito”: “Uma língua entre outras não é nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela”. É o veio em que na dimensão do real “não há” relação sexual.
Finalizamos com Zupančič (2023, p. 80) que remete o trauma ao fora da experiência, isto é, não vivenciado ao significante “desaparecido”, uma forma temporal que serve a explicar a estrutura significante emergindo não sem um significante, mas sim com-sem [with-without] um significante - uma vez que esse buraco tem consequências e determina o que é estruturado. Por fim, não somos como árvores que se encontram presas aos solos, somos como “raízes aéreas” (Cassin, 2024, p. 93).













