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versão impressa ISSN 0102-7395

Reverso vol.47 no.90 Belo Horizonte dez. 2025  Epub 01-Jun-2026

https://doi.org/10.5935/0102-7395.v47n90.04 

TEORIA E CLÍNICA PSICANALÍTICA

O real do inconsciente: no destino está a letra

The real of the unconscious: the letter is at the destiny

Ana Maria Fabrino Favato1 

Psicanalista.

Membro da Ato


http://orcid.org/0009-0008-0562-1881

1escola de psicanálise


Resumo

Freud inventou o inconsciente; Lacan, em reação, diz ter inventado o real. Inconsciente e real não são idênticos nem excludentes. Como enodá-los? Na tradução do material inconsciente algo se perde. A distinção entre consciente, pré-consciente e inconsciente surge de uma negatividade: há ao menos-um elemento do ato psíquico que não se inscreve no psiquismo. Essa perda é o real em si, o Das Ding freudiano inapreensível, que não depende de nada para que se apresente, apenas da insistência. Há do real no inconsciente, há do real no sintoma, há do real no sexo.

Palavras-chave: real; inconsciente; Das Ding, letra; lalangue.

Abstract

Freud invented the unconscious; Lacan, in reaction, claims to have invented the real. Unconscious and real are neither identical nor mutually exclusive. How can we untangle them? In translating unconscious material, something is required. The distinction between conscious, preconscious, and unconscious arises from a negativity: there is at least one element of the psychic act that is not inscribed in the psyche. This loss is the real itself, the elusive Freudian Das Ding, which depends on nothing to present itself, only on insistence. There is real in the unconscious, there is real in the symptom, there is real in sex.

Keywords: real; unconscious; Das Ding, letter; lalangue.

O inconsciente, cada vez que retornamos a Freud, faz-nos confirmar a importância deste conceito para a psicanálise. Freud e Lacan fizeram um esforço constante na tentativa de alcançar o limite de sua elaboração. Aliás, os dois são os únicos a se dedicar, em suas obras, à elucidação do conceito.

Parto inicialmente da primeira expressão do título deste trabalho: o real do inconsciente. Retiro-o de Lacan em sua entrevista à France-Culture em 1974, mas busco em Freud o que pode nos esclarecer acerca dessa expressão. Freud inventou o inconsciente e Lacan diz ter inventado o real em reação ao inconsciente freudiano. Inconsciente e real não são idênticos nem excludentes. Como enodá-los?

Em 1974, época da entrevista, vinte anos havia se passado desde o início do ensino de Lacan. No entanto, ele retorna à fórmula chave do inconsciente estruturado como linguagem. Diz que Freud extraiu e fixou como pôde o termo inconsciente e que não podemos alcançá-lo de maneira alguma - o que ele mesmo destacou. Freud articula o sujeito com a linguagem e por esse caminho dirige sua interpretação e, nessa articulação, nessa tradução do material inconsciente, algo se perde. A perda que se obtém “é o real do inconsciente, o real mesmo a secas” (Lacan, 1974, p. 4), ou seja, o real em si mesmo, a coisa em si, o Das Ding freudiano inapreensível, que não depende de nada para que se apresente, apenas da insistência.

Na importante elaboração de Freud sobre o inconsciente, em seu texto de 1912, denominado Uma nota sobre o inconsciente na psicanálise, está clara a ideia de que um inconsciente descritivo é insuficiente para retratar as relações funcionais e dinâmicas que ocorrem na ação psíquica. Um único plano, o da consciência, não oferece a Freud os aportes necessários para a construção do conceito de inconsciente. Para apresentar a dinâmica da ação psíquica, ele precisa de, no mínimo, três planos: a consciência, o pré-consciente e o inconsciente. Ele conclui que alguma coisa no decorrer dessa ação psíquica faz um corte que desarticula o conjunto, desaloja a consciência e introduz uma atividade radicalmente oposta. Uma outra cena, outro processo, outro campo que se abre.

Freud (1912/1969, p. 332) trabalha a concepção de que “todo ato psíquico começa como um ato inconsciente e pode permanecer assim ou continuar a evoluir para a consciência, segundo encontra resistência ou não”. A dimensão do ato psíquico representa um corte que inaugura um antes e um depois, que separa campos inteiramente diferentes, que instaura a não-relação entre a consciência, o pré-consciente e o inconsciente. A distinção desses três campos vem da própria essência do ato psíquico inconsciente que começa, segundo Freud, de uma negatividade; há ao menos-um elemento do ato que não se inscreve no psiquismo. Todo ato psíquico começa, então, desde um real, ou seja, de uma impossibilidade de representação.

Isso é o que Freud, já em 1896, elabora em sua carta a Fliess (Carta 52). As inscrições, transcrições, traduções confirmam o ajustamento ou a distribuição das excitações em diferentes sistemas num processo de divisão psíquica. Se há uma inscrição, ela é não-toda traduzida. O que fica inscrito e segue sem transcrição, o que carece de representação, atesta a castração antecipada a todo ser falante. Nesta carta está colocado que o recalque, que ocorre entre os registros, não acontece pela intensidade do desprazer que é gerado no processo de tradução do material psíquico, pois o desprazer vai sendo inibido ao longo do trabalho de tradução. O recalque se dá ao que está ligado a acontecimentos sexuais, o pulsional, cujas excitações acossam o sujeito como uma compulsão; e isso tira o sono de todo neurótico.

Freud (1911/1969) constata em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental que toda neurose tem como resultado expulsar o paciente da vida real e aliená-lo da realidade. Ele observa que há uma perda de la fontion du réel, e a consequência é o estranhamento do neurótico diante da realidade objetiva (Wirklichkeit - realidade), pois essa realidade se torna para ele insuportável. A função do real é de fazer uma demanda ao psiquismo, uma demanda de trabalho que tira o sujeito da inércia. Se o neurótico nega o real e se perde na fantasia, não se pode esperar o mesmo do analista. Este não pode recusar ou desmentir o real, pois corre o risco de dormir na condução de uma análise.

O inconsciente pressupõe em sua própria lógica simbólica a lei da articulação significante, implica as composições da metáfora e metonímia e o intercâmbio de lugar. Por outro lado, há do real no inconsciente, o real sem lei, sem ordem. No Seminário 23, Lacan (1975-1976/1998, p. 131) diz que “na medida em que o inconsciente não deixa de se referir ao corpo, penso que a ‘função do real’ pode ser distinguida dele”. O real é distinto do inconsciente, está fora da cadeia simbólica e vem para exorcizar o imaginário do corpo, a inibição e o sentido. Ele é o “mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 178). Impõe-se como resposta distinta do simbólico e do imaginário, pois esses registros compõem a capacidade de abstração imaginativa, compõem o que Lacan se refere à cadeia significante, que busca firmeza e coerência de ideias.

Recupero agora o Das Ding freudiano, na linha do que Freud (1895/1977) organiza no Projeto para uma psicologia científica acerca da ausência de inscrição na experiência de satisfação e estados de desejo. Nada mais impossível a alcançar do que a medida ou a representação do desejo. Freud está na pesquisa de “como” a cognição ou o pensamento acontece em função das experiências com o objeto de satisfação. Dentro das várias funções do psiquismo, o juízo é fundamental no reconhecimento desse objeto e na distinção entre a alucinação e a experiência real. Há sempre uma Versagen nessa procura, traduzida por fracasso ou frustração, mas que na verdade podemos falar em impedimento e impossibilidade. Temos sempre o engano do encontro com o objeto. O juízo busca a identidade entre uma lembrança do objeto de desejo (a imagem na memória) e a percepção real desse objeto na realidade. É um processo que dá trabalho, um tatear permanente, uma prova retificativa, pois a correspondência é sempre falha: imagem e percepção não coincidem e, na diferença, reside o interesse a movimentar a máquina pensante. Vários caminhos são percorridos nas inscrições, até que alguma possibilidade de representação aconteça. Por outro lado, a parte que não oferece a diferença, isto é, a parte constante do complexo do objeto no processo de comparação de identidade, não dá oportunidade ou possibilidade de representação, ficando, então, incompreendida na memória, algo de inassimilável que Freud (1895/1977) denomina A Coisa, Das Ding (p. 438).

Das Ding é elemento entranho, alheio, isolado pelo sujeito em sua experiência com o seu próximo, seu semelhante, o Nebenmensch, e será a referência para o mundo dos objetos a orientar o destino do sujeito. Na A Coisa freudiana, Lacan vai colocar a letra “a”, que virá a ser o objeto a. Ele recupera esse conceito e o coloca como “o Outro absoluto do sujeito” (Lacan, 1959-1960, p. 69). Está fora-do-significado, portanto, é aquilo que o sujeito conserva a uma certa distância, da ordem de um “afeto primário anterior a todo recalque” (Lacan, 1959-1960, p. 71). A distância que se conserva é uma distância íntima, ou seja, uma proximidade com o que é externo dentro do próprio sujeito que não lhe permite ser idêntico a ele mesmo. Nesse sentido, o real de Das Ding não é exterior ao inconsciente e, se o inconsciente está nas palavras, é por elas que se pode ter acesso a esse impossível.

A descoberta freudiana do inconsciente desarticulou o discurso universal e a resposta de Lacan a essa descoberta, como ele mesmo diz, é o real. Ele escreve no Seminário 23: “Digamos que é na medida em que Freud articulou o inconsciente que eu reajo a isso (...) O real é minha resposta sintomática” (Lacan, 1975-1976/1998, p. 128). Tal como Kant, despertado de seu sonho dogmático por David Hume, escreve como resposta sintomática a Crítica da Razão Pura; Lacan, despertado por Freud da entropia do pensamento analítico pós-freudiano, inventa o real. Sua resposta, reduzida na forma de uma questão, não oferece uma orientação, mas, sim, uma crítica assídua aos desvios e às concessões que amorteciam o progresso da psicanálise. Lacan queria despertar o mundo com a razão analítica.

A eficiência do inconsciente não se detém no despertar, o inconsciente não deixa fora de seu campo nenhuma de nossas ações. Tomado pelo traumatismo da razão freudiana, Lacan (1957) retoma a lâmina cortante do criador da psicanálise. Recupera a instância da letra no inconsciente e argumenta que “é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente” (Lacan, 1957/1998, p. 498), sendo a letra o “suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem” (Lacan, 1957/1998, p. 498).

Com todas as letras, Lacan vê, nos textos freudianos, as leis da superestrutura que Saussure difundiu pelo mundo. Vê na interpretação dos sonhos as formas verbais se recortando em metáforas e metonímias, vê ainda, na palavra, o cruzamento das ideias que portam o desejo inconsciente. Mas vê, ao mesmo tempo, que há do real no inconsciente, que há do real no sintoma, há do real no sexo. O inconsciente que faz o neurótico trabalhar como escravo para produzir sintomas, caminha no passo de todo mundo pela via de uma verdade ficcional, própria de uma imbecilidade subjetiva. O real, por outro lado, dirá Lacan (1974, p. 5), é outra coisa, pois o real “é o que não caminha, é o que atravessa o caminho da carruagem, bem mais do que isso, o que não cessa de se repetir para entravar essa marcha”. Lacan o inscreveu como experiência. É uma experiência porque não se chega até lá. Do real só temos pedaços, ele não está em lugar algum, ou seja, não há nenhuma ordem de existência para o real. Há do real no inconsciente, o que nos acena para a sua realidade, essa em que figura a não-relação e a inexistência de representação. Para sair da imbecilidade subjetiva, Lacan quer fazer uma escrita do real e a faz pelo nó borromeano. O real ex-existe ao simbólico e ao imaginário, mas essa “ex-sistência” é “esse fora que não é um não-dentro” (Lacan, 1974-1975, p. 19).

Caminhando para a segunda parte do título, no destino está na letra, recorro a alguns apontamentos do Seminário sobre a carta roubada, de Lacan (1975a). Nele encontramos a marca do significante como letra a causar efeitos a quem a detém, e isso é do simbólico, isso é o inconsciente, dirá Lacan. O que a carta carrega a faz sempre chegar a seu destino: um sujeito sob efeito da letra. A insistência da cadeia significante - autômaton - porta a tiquê - incidência do real como encontro faltoso. Lacan (1975/1998, p. 28) nos diz nesse texto sobre o real: “não importa que perturbação se possa introduzir nele, ele está sempre e de qualquer modo em seu lugar, o real o leva colado na sola, sem possibilidade de exilá-lo disso”. A carta/letra em transferência está e não está em um lugar, encontra-se à espera de algo indeterminado, de negócio inconcluso, de mercadoria não retirada, está en souffrance (em suspenso) a determinar o sujeito em seu ato, seu destino. O real na forma do que há nele de inassimilável já se encontra em espera no autômaton, no pouco que aí se revela.

Algo entre um significante e outro se interrompe e não chega, ou melhor, chega como puro afeto no corpo, pura materialidade sonora ou modulação de voz e nisso está o efeito de feminização da carta roubada, efeito distinto “do próprio significante que ela carrega” (Lacan, 1971/2009, p. 107). É preciso tempo e espera para que o significante Um, não qualquer, seja extraído de alíngua e não da linguagem, para tirar o sujeito da errância e invocar o gozo separado da fala, que conversa sozinho, como um ruído no qual se pode tudo ouvir e escrever, mas que, sobretudo, não quer comunicar. O significante é fálico, lalangue é feminino. O modo como alíngua foi falada, sua lalação como gozo do som e não do sentido aparecerá em todo tipo de formas de dizer (Lacan, 1975b/1998).

Então, o que resta do significante quando ele já não se presta a provocar efeitos de significação no sujeito? Sem a mensagem, a carta faz peripécias. Em Lição sobre Lituraterra, Lacan (1971/2009) retorna à carta roubada e propõe a letra como litoral. Ao pé da letra seria o caso de dizer que ela separa domínios diferentes, ou seja, entre o gozo do significante e o saber sem sujeito, a letra constitui o litoral. O inconsciente continua para Lacan (1971/2009, p. 110) a ter precedência, contudo, resta saber como o inconsciente comanda essa função da letra e “nada permite confundir, como se tem feito, a letra com o significante”. A letra faz sombra, apaga o traço unário, faz rasura e reduz a determinação significante. A presença da letra como litoral está “entre centro e ausência” (Lacan, 1971/2009, p. 113). Como centro, a letra está no inconsciente e participa dos destinos do significante, como ausência ela não está aí, faz rasura.

No Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante, Lacan (1971/2009) retoma a carta/letra num sentido diferente do que desenvolveu na A instância da letra no inconsciente (1957/1998). Toma nesse momento a letra para dizer que ela tem como destino o sujeito, que mesmo não podendo compreendê-la, faz escritura, faz literatura, lituraterra. Há uns que fazem pouco caso da letra, mas o melhor que se pode esperar da psicanálise em seu término é deslizar de a letter, da carta, para a litter, o lixo (Lacan, 1971-1972/2009, p. 106). A letra é dejeto, e a cultura é o esgoto onde se joga tudo que possa capturar o objeto do desejo. Lacan, advindo da letra e na dependência de seu ato, faz de seus restos Escritos na forma de cartas abertas, determinado e causado a transmitir o real de sua experiência como analista.ϕ

Referências

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Recebido: 19 de Agosto de 2025; Aceito: 16 de Setembro de 2025

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