Introdução
O presente artigo é parte do resultado de anos de estudos sobre a psicologia da mulher na sociedade, sob a perspectiva da psicologia analítica. Vários caminhos foram percorridos e, para realizar um recorte neste artigo, farei uso da temática feminista pós-moderna, juntamente de uma amplificação simbólica arquetípica da trickster.
A expressão arquetípica da trickster não se encaixa na categoria tradicional de heroína ou vilã e apresenta a capacidade de assumir a identidade de qualquer gênero, de acordo com sua conveniência. Essa flexibilidade é uma característica distintiva que a coloca em uma posição limítrofe. A trickster, geralmente, lida com a tensão decorrente de conflitos revelando uma ausência de moralidade, podendo empregar doses de humor e alívio cômico. Sua natureza desafia o entendimento binário e moral, inspirando desconforto e catalisando processos de transformação.
A trickster representa um estágio anterior à consciência discriminatória, permitindo uma fluidez ampla. Embora as perguntas formuladas pela trickster possam inicialmente parecer simples e infantis, uma análise mais cuidadosa, aliada à abertura para a astúcia inerente a essa inocência, possibilita a reflexão sem a adesão aos padrões automáticos de repetição, culminando em novas respostas.
Este estudo visa contribuir para uma compreensão mais profunda dessa figura arquetípica e seu impacto na psicologia e na cultura contemporâneas.
Como norteadoras desta reflexão, algumas perguntas foram feitas: a energia arquetípica trickster se manifesta de forma específica na mulher? O que denunciaria a atitude da mulher como trickster? O que a imaginação da mulher trickster produziu e continua produzindo?
Feminismos Pós-Junguianos
O feminismo, ao propor mudança da realidade e das condições sociais e culturais das mulheres, simultaneamente exerce influência sobre a sociedade como um todo. Ao analisarmos o feminismo no contexto pós-moderno, é imperativo enfatizar algumas características intrínsecas à pós-modernidade. Isso envolve não apenas a consideração das necessidades coletivas fundamentais de igualdade de direitos, mas, sobretudo, a atenção às diversas demandas da sociedade e especial atenção às diferenças, seja entre homens e mulheres ou mesmo entre mulheres. Nesse sentido, abraçar a diversidade de experiências dentro dos grupos de gênero torna-se crucial, reconhecendo que as vivências das mulheres podem variar substancialmente em função de fatores como classe social e orientação sexual. Portanto, o feminismo pós-moderno faz críticas ao essencialismo, que tende a atribuir características essenciais e universais a grupos de indivíduos baseando-se no gênero, ademais, o feminismo pós-moderno destaca a necessidade de desconstruir identidades rígidas e binárias, como masculino/feminino.
É relevante considerar também o aspecto da pós-modernidade no que concerne à produção do conhecimento científico. Nesse contexto, o paradigma científico predominante não mais se pauta no positivismo. O paradigma atual pressupõe que todo conhecimento é simultaneamente individual e social, levando em conta o contexto local e cultural. A produção de conhecimento pós-moderna rejeita a lógica binária reduzida a oposições, buscando compreender as inter-relações, as ambiguidades e as multiplicidades em toda a sua complexidade.
A influência do pensamento pós-moderno no âmbito da psicologia, particularmente na psicologia analítica, resultou em revisões teóricas que abriram espaço para a coexistência de discursos que se posicionam de maneira crítica em relação a teoria clássica formulada por Jung. No entanto, esses discursos mantêm uma continuidade e reconhecimento em relação à teoria clássica, desse modo seus autores são identificados como pós-junguianos por Samuels (2024). De acordo com o autor, as produções teóricas junguianas podem ser classificadas em diferentes escolas, incluindo a desenvolvimentista, a arquetípica e a clássica. Nesse contexto, tanto o feminismo pós-moderno quanto a s abordagens pós-junguianas questionam as grandes narrativas generalizadoras, incluindo aquelas de natureza histórica que frequentemente marginalizaram ou silenciaram as contribuições das mulheres e das perspectivas femininas. Ambos buscam desafiar essas narrativas e conferir visibilidade às vozes e experiências que foram negligenciadas e suprimidas (Tancetti e Gimenez, 2022).
Alguns pós-junguianos têm revisado a concepção dos arquétipos anima e animus, bem como a dinâmica psicológica relacionada a homens, mulheres, pessoas não binárias e suas identidades e interações. Eles reconhecem que, embora Jung tenha introduzido uma visão inovadora sobre gênero na psicologia, ele também foi influenciado por seu contexto social e pelas normas da época.
Susan Rowland é uma autora que desempenhou um papel significativo nos estudos pós-junguianos, notadamente no âmbito do feminismo junguiano. Ela é reconhecida por explorar as interseções entre a psicologia analítica e as questões feministas, com o objetivo de examinar como a teoria pode ser aplicada para analisar as experiências das mulheres e as dinâmicas de gênero.
No livro “Jung: A Feminist Revision”, publicado em 2002, a autora introduziu o conceito de “feminismo da deusa” para descrever a abordagem adotada por uma série de pensadores junguianos em relação à psicologia feminina e ao feminino. Esses autores1 enfatizam a associação do princípio de Eros com o princípio do feminino. No contexto do feminismo junguiano da deusa, descrito por Rowland, há uma valorização e uma retomada dos aspectos culturalmente agrupados e chamados de feminino. Nesse sentido, a figura da mulher atrelada ao feminino nessa perspectiva binária continua vinculada a dimensões mais inconscientes, selvagens e conectadas ao princípio de Eros. Essa associação entre o feminino e Eros perpetua uma posição de subordinação da mulher em relação aos aspectos tradicionalmente considerados masculinos, especialmente em uma sociedade patriarcal como a nossa, que privilegia a consciência e a razão – frequentemente associadas a Logos – como funções superiores (Gimenez, 2018).
Como consequência, estabelece-se uma visão tendenciosa da psicologia da mulher, na qual esta, quando diretamente relacionada aos aspectos femininos, é definida e limitada em termos de oposição e inferioridade em relação à razão e à masculinidade. Assim, a mulher é frequentemente concebida como uma personificação da anima sob a perspectiva junguiana clássica, perpetuando padrões de desigualdade simbólica e cultural.
As obras de Susan Rowland, incluindo “Jung as a Writer” e “Jung: A Feminist Revision”, exemplificam suas contribuições para o campo do feminismo pós-junguiano e para a ampliação da psicologia analítica, a fim de incorporar perspectivas mais diversas e inclusivas sobre gênero. Isso é alcançado mantendo uma postura crítica e um distanciamento que não a afasta completamente dos fundamentos da teoria junguiana. Assim, Rowland (2002) realiza uma análise da obra de Jung sob uma perspectiva feminista, identificando os pontos em que ele pode ter perpetuado estereótipos de gênero ou negligenciado as vozes e produções das mulheres. Ela investiga como os arquétipos e conceitos junguianos podem ser reinterpretados à luz das necessidades feministas e explora como as teorias junguianas podem contribuir para o desenvolvimento de uma psicologia mais inclusiva, capaz de abordar a complexidade das identidades de gênero, dar voz às experiências e vivências negligenciadas na história da psicologia e a desenvolver modelos mais inclusivos e sensíveis para a prática psicoterapêutica e análise.
A crítica de Rowland (2002) destaca a importância de incorporar uma compreensão histórica e material do desenvolvimento do conhecimento e da teoria junguiana, considerando tais aspectos: quando foi escrito, por quem e para quem esse conteúdo é destinado. Essa perspectiva está alinhada com a abordagem apresentada por Tannen (2007) e no artigo escrito por Rowland, que exploram o campo imaginal especialmente presente nas produções realizadas por mulheres e para mulheres (Tancetti e Gimenez, 2024). O contexto pós-moderno e as diversas correntes do feminismo estão em um processo constante de revisão e complexificação. Nele, distintas realidades das experiências das mulheres, bem como suas opressões, discursos e agendas, simultaneamente complementares e dissonantes, convergem, dialogam e se desconstroem mutuamente.
Para lidar com essa constante revisão e a necessidade concomitante de transformação do contexto social, a figura arquetípica da trickster emerge como um conceito fértil para a amplificação simbólica das dinâmicas do feminismo na pós-modernidade.
A Trickster Pós-Moderna
Na qualidade de manifestação arquetípica, a trickster continua a emergir através das eras. Apesar de representar uma força anterior à consciência humana, sua característica marcante de adaptar-se e influenciar a cultura, bem como sua propensão à inquietude em relação às normas estabelecidas, estão em consonância com a compreensão contemporânea da era pós-moderna. Portanto, é essencial compreender como esse símbolo se manifesta na atualidade. Ao transitar pelo âmbito do inconsciente, a atitude trickster estimula o indivíduo a adotar uma abordagem criativa e a abraçar a impermanência nos contextos convencionais, promovendo assim a disposição para a transformação.
As mulheres que personificam a trickster desempenham o papel de mensageiras, portadoras de informações oriundas do inconsciente coletivo que se referem à construção da identidade e subjetividade. Essas novas e emergentes energias estão disponíveis para serem consideradas e incorporadas na compreensão da sociedade contemporânea.
Algumas características da mulher trickster pós-moderna
Tannen (2007) explora a figura arquetípica da trickster sob a ótica das perspectivas pós-junguianas e pós-modernas no livro “The Female Trickster: The Mask That Reveals”. Tradicionalmente, a trickster é uma personagem que desafia normas sociais e valores estabelecidos, usando o humor e a irreverência para subverter. No contexto contemporâneo, esse arquétipo pode ser examinado à luz das teorias psicológicas pós-junguianas que reconhecem a complexidade da psique humana e a influência do inconsciente coletivo.
A trickster pós-moderna adota atitudes subversivas e transformadoras, as quais podem ser consideradas revolucionárias no âmbito cultural e psicológico. Essa transformação acontece simultaneamente à construção de uma identidade que rejeita o papel de vítima dos padrões sociais anteriores.
As divergências nas características atribuídas à figura da trickster na pós-modernidade, quando comparadas às representações no passado, podem ser diretamente relacionadas à imaginação das mulheres, um tema que será explorado mais detalhadamente ao longo deste texto. Outras características marcantes da trickster pós-moderna, de acordo com Tannen (2007), são a autoridade, a autonomia, o agenciamento, a recusa em ser uma vítima, humor e papel de assistente social.
Autoridade não é simplesmente poder, mas capacidade de ser a criadora genuína de imagens dentro de seu próprio mundo imaginativo. Isso está ligado à saúde psicológica, pois permite manter a identidade em territórios liminares. A palavra “autoridade” compartilha raiz semântica com “autêntico” e “autor”, refletindo a ideia de ser um criador. A definição de autoridade evoluiu ao longo do tempo, mudando de “competente” para “genuíno” no final do século XVIII.
Autonomia, com raiz linguística semelhante a “autoridade”, significa ter a liberdade de escolher conscientemente seu comportamento intencional. Essa capacidade de autodeterminação e autogoverno é crucial para a formação bem-sucedida da identidade. Para as mulheres, isso implica controle absoluto sobre suas decisões reprodutivas, por exemplo. A autonomia requer a habilidade de tomar decisões responsáveis, éticas e claras, e é vista como uma condição prévia para o desenvolvimento de uma identidade autêntica e independente.
O Agenciamento: a palavra agência vem da raiz grega “gen” que significa potência persuasiva, refere-se à capacidade de agir de forma potente. É tanto um modo de ação quanto a habilidade de agir em nome de outros, como uma agência que age em nome de clientes. Isso implica que quem possui agência também tem poder e liberdade de movimento físico e psicológico dentro de sua cultura. O agenciamento envolve a compreensão do movimento como ação e como meio de empregar essa ação de maneira potente.
Assistência social: Tannen (2007) compara o papel da mulher trickster, entendida como agente de transformação cultural, com o trabalho realizado por uma assistente social. Nesse sentido, Andrew Samuels (2002) argumenta que a cultura ocidental enfrenta uma necessidade urgente de líderes tricksters, que incorporam características ligadas à assistência e à transformação social. Ele associa a figura emergente da trickster feminina ao trabalho social e à ação coletiva, destacando sua relevância como catalisadora de mudanças culturais e sociais.
Esta análise sublinha a intersecção do arquétipo de trickster com as ideias feministas modernas e pós-modernas, especialmente na forma como a figura da mulher trickster se relaciona com a transformação cultural, o ativismo social e a reestruturação de identidades.
Percebemos sinais de que a maneira como a psique tem se desenvolvido nas sociedades ocidentais tende a impulsionar o surgimento de mais líderes femininas tricksters. Às vezes, a trickster adentra a arena política com exagero, de maneira transgressiva em relação à quilo que é prescrito às mulheres. Por exemplo, as Mães da Plaza de Mayo ajudaram a derrubar a Junta Argentina ao se reunirem vestidas inteiramente com vestes de luto materno na praça central de Buenos Aires[...]. Outra área em que podemos observar tricksters em pap é is de liderança é no movimento ambientalista. A equivalência de mulheres e natureza ou terra pode ser (mas, não necessariamente) uma das equivalências mais opressoras para as mulheres, quando a cultura e o poder ficam então nas mãos dos homens. Entretanto, quando a equivalência entre mulher e natureza é exagerada e parodiada, como em algumas formas de ecofeminismo, uma nova forma de energia é colocada à disposição para a política [...]. A lista de tricksters contemporâneas é quase interminável. Talvez alguns digam que a própria luta pela autonomia que caracteriza a vida de toda mulher nas sociedades ocidentais (e, na verdade, não ocidentais) já as torna uma trickster. Talvez. Mas o ponto mais importante é que o flagrante tom político da trickster corrobora o argumento com o qual começamos: as culturas precisam de líderes tricksters (Samuels, 2002, p. 110-111).
Recusa em ser vítima:Tannen (2007) argumenta que essa recusa é uma característica distintiva da trickster pós-moderna, que se afasta da identidade de vítima em direção a uma noção de individualidade autodeterminada por meio da sagacidade. Isso envolve direcionar o foco do trauma para a possibilidade de abordar a incongruência da vida que pode levar a este. A autora ilustra a sagacidade como um aspecto no qual o humor é usado para resolver hipoteticamente um problema complexo, mudando a perspectiva da vítima para a autoridade.
Um exemplo da recusa em ser vítima é o como as mulheres na literatura deixaram de escrever do lugar do enclausuramento, para rejeitar esse status, buscando independência e autoridade na atitude de escrever e sonhar outras realidades para si mesmas. No entanto, contar a história de uma mulher ou colocar personagens femininas no centro de uma narrativa não são suficientes para configurar uma abordagem feminista na literatura. Vale ressaltar que uma abordagem feminista e pós-moderna da literatura necessita de contextualização do lugar de fala de quem faz a análise do texto, bem como do engajamento com o questionamento e desconstrução de estruturas de poder patriarcais do contexto social. Para Tannen, a pós-modernidade e as epistemologias feministas depararam-se com questões semelhantes advindas do pós-colonialismo e pós-estruturalismo: quem disse, e com que intenção foi dito? Em qual período histórico e resultando no avanço de qual teoria?
Humor da mulher trickster: O humor desempenha um papel de suma importância na caracterização da trickster pós-moderna, realizando a função de romper as barreiras da consciência racional, introduzindo elementos inconscientes e criativos, ao mesmo tempo em que gera um impacto emocional significativo. Historicamente, o humor tem sido utilizado como ferramenta para abordar temas delicados, como sexualidade, mortalidade e outras questões trágicas da existência humana. Para a trickster, o uso do humor em contextos ambíguos e desafiadores representa uma estratégia para lidar com esses desafios e, ao mesmo tempo, encontrar prazer nessa abordagem. Essa forma de humor pode servir como porta de entrada para a exploração de questões complexas, incluindo tabus, facilitando, assim, o diálogo sobre tópicos de profunda relevância.
Na perspectiva da psicologia junguiana, o humor é percebido como força criativa frequentemente mantida no inconsciente até que seja expressa. Jung reconheceu o humor como um componente fundamental da criatividade, destacando que a criação de algo novo não é simplesmente resultado do intelecto, mas é, na verdade, fruto do instinto lúdico e criativo que emerge de uma necessidade interna. Para Jung, a brincadeira desempenha um papel essencial na integração das esferas de trabalho sério e criação lúdica, estabelecendo, assim, as bases da criatividade.
O humor característico das mulheres trickster, em particular, adota uma abordagem subversiva, desafiando as escolhas e hipocrisias das figuras de poder, assim como sua aderência ao status quo social. Esse humor desafia a autoridade, e causa desconforto àqueles que valorizam a ordem, tornando, assim, a trickster pós-moderna uma figura percebida como mais desafiadora e, consequentemente, mais ameaçadora aos olhos da sociedade.
A energia trickster ressurge no mundo pós-moderno. Neste contexto, as mulheres trickster podem ser consideradas um produto da confluência dessas diversas ondas feministas. Sua imaginação e atuação está intrinsecamente ligada à transformação da cultura. Quando o mundo é virado de cabeça para baixo, ela desafia a ideia de uma posição correta. Reconsiderar o significado de trickster constitui o primeiro passo na compreensão de como a trickster pós-moderna articula e subverte os modelos dominantes de feminilidade.
A imaginação das mulheres transforma o mundo
eu sonho o mundo, logo o mundo existe
tal como eu o sonho.
Bachelard (1996, p.152)
A possibilidade de as mulheres conceberem a si mesmas como sujeito de suas próprias narrativas e vidas tem o potencial de gerar novas imagens e metáforas capazes de transformar o status quo. Imagens metafóricas representam um espaço onde as tensões entre opostos são manifestadas, configurando uma zona fluida que transcende significados fixos. É neste espaço metafórico que a trickster encontra seu lugar. Essa imagem incentiva a consciência a ultrapassar fronteiras e limites, desafiando padrões estruturais que organizam o mundo. Tannen (2007) emprega o termo “imaginação” para descrever essa consciência do potencial dual de transformar o mundo por meio das imagens metafóricas.
De acordo com Stein (1993),
Imagens transformativas são metáforas que envolvem e capturam. Testemunhar o processo transformador ao qual elas são submetidas é uma experiência especial. No momento em que tais imagens aparecem, elas capturam a consciência individual transformando-a temporariamente e dramaticamente ao longo do tempo, tornando-as irreversíveis. Isso ocorre dado que tais imagens refletem conteúdos psicológicos emergentes na vida de uma pessoa, conferindo a elas uma forma (Stein, 1993 p.41, tradução livre).
A capacidade de criar novas configurações é uma manifestação da psique que busca a realização de potencialidades infinitas. Quando essas novas imagens aparecem na cultura popular, elas indicam que uma energia psíquica arquetípica está emergindo para o primeiro plano da consciência, brotando do fértil inconsciente coletivo. A verdadeira revolução ocorre quando essas imagens são integradas à cultura, pois durante séculos nossa cultura foi moldada pela imaginação dos homens e endereçada a eles.
Durante a hegemonia da consciência patriarcal, o senso de realidade das mulheres foi frequentemente questionado. Hillman nos encoraja a trabalhar com as imagens e Jung afirma que a “imaginação é uma atividade psíquica autônoma e primordial em toda a humanidade” (Jung OC 11: par 845). No entanto, para imaginar com autonomia, um indivíduo deve ser sujeito de sua própria vida. Jung, na introdução do livro “The Way of All Women” (2017) de Mary Esther Harding, conclui que, embora seja verdade que os homens “não compreendem nada da psicologia das mulheres como ela realmente é”, é ainda mais surpreendente que as mulheres “não saibam por si mesmas” (Harding, 2017).
Como poderiam as mulheres conhecer a si mesmas se, por tanto tempo, não tiveram a oportunidade de imaginar um espaço onde pudessem se conectar e explorar suas próprias esferas de imagens como autoras de suas próprias vidas?
A energia trickster, canalizada pela imaginação feminina, carrega em si nada menos do que o potencial revolucionário para uma transformação completa da consciência do mundo em que vivemos (Tannen, 2007). Tannen ilustra essa atitude transformadora com o estudo da analista junguiana Marion Woodman sobre o “arquétipo emergente da virgem”. Usando exemplos como Cyndi Lauper e Madonna, Woodman destaca essas artistas como representações de mulheres que incorporam rebeldia, sexualidade e erotismo, aliadas a uma profunda sensibilidade para questões sociais e cotidianas. A descrição feita por Woodman dessas cantoras, que expressam atitude rebelde, sexualidade e erotismo, sensibilidade às questões cotidianas e sociais, revela a natureza trickster dessas mulheres. Woodman as caracteriza como “as virgens eternamente grávidas de novas possibilidades” (Woodman, 1985). A manifestação da trickster pós-moderna é trazida ao mundo através da imaginação das mulheres.
Considerações Finais
A figura da mulher trickster pós-moderna, como apresentada neste artigo, emerge como uma força de transformação cultural. Sua autoridade e agenciamento na criação de imagens, e sua capacidade de usar o humor como ferramenta subversiva são características distintivas. As mulheres trickster têm desafiado as normas sociais, imaginando novas possibilidades e contribuído para uma sociedade mais inclusiva e diversa. O feminismo pós-moderno, ao enfatizar a diversidade de experiências das mulheres e rejeitar o essencialismo de gênero, desempenhou um papel fundamental na redefinição das narrativas de gênero. Essa abordagem crítica, aliada às correntes pós-junguianas na psicologia analítica, permitiu uma revisão profunda da compreensão dos arquétipos de anima e animus, bem como das dinâmicas de gênero.
As mulheres trickster de hoje são todas aquelas que podem conceber suas próprias vidas e, ao fazê-lo, transformam a cultura. Elas estão entre nós e somos nós. Podem ser observadas em suas atitudes feministas, nas entrelinhas de um humor inteligente ou na contundência de um humor ácido. A mulher trickster personifica e promove a transformação, tanto em sua vida individual quanto na consciência coletiva e na cultura. Ela se torna a encarnação de uma mulher que se recusa a reproduzir padrões e papeis sociais e a ser vítima. A imaginação das mulheres gerou, concebeu e compartilhou com outras mulheres imagens que enfatizam a autoridade, o empoderamento e a autonomia.
A transformação da cultura é o jogo da mulher trickster. Ela pode usar o humor, a sátira e a irreverência para questionar e desestabilizar estruturas de poder. As mulheres tricksters desafiam as normas estabelecidas e promovem a desconstrução das estruturas de poder patriarcais. É importante notar que a mulher trickster pós-moderna não é uma representação única e fixa, mas sim uma figura multifacetada que pode ser interpretada e reimaginada de várias maneiras. Ela reflete a busca por uma representação mais complexa e empoderadora das mulheres, que reconhece a diversidade das experiências femininas e questiona as limitações tradicionais de gênero.
Por fim, o ativismo da mulher trickster e a consequente mudança cultural desempenham um papel significativo no feminismo pós-moderno. Ele busca transformar as normas de gênero por meio de expressões artísticas, da literatura e da mídia, reconhecendo que a mudança cultural é uma parte essencial da luta pela igualdade de direitos e reconhecimento das diferenças entre os gêneros e entre as mulheres em um contexto pós-moderno complexo e diverso.










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