Introdução
Este trabalho trata, principalmente, de estereótipos inconscientes de pessoas negras e brancas herdados cotidiana e transgeracionalmente.
Como analista junguiano, considerando o inconsciente como o mais importante objeto de trabalho com os pacientes, interessa-me examinar as possíveis interferências do racismo estrutural na prática clínica. Como espero demonstrar, essas interferências podem tanto estagnar (caso permaneçam inconscientes, não somente ao paciente, como ao analista) quanto acelerar (quando o analista consegue acessar esse material na transferência e contratransferência) o processo de autoconhecimento dos pacientes.
Segundo Adams (1996), a psique distingue imagens arquetípicas (típicas ou naturais) das imagens estereotípicas (fatores culturais que aprendemos em sociedade, como a racialidade). Ambas impactam a realidade psíquica, moldando percepções de forma positiva ou negativa. O ego projeta no “Outro” essas imagens (arquetípicas e estereotípicas), formando uma visão do mundo externo e moldando nossos afetos nos relacionamentos.
Ao sermos questionados se somos racistas, o ego responde automaticamente que NÃO. Mas o foco desta discussão é sobre o inconsciente: sobre as imagens estereotípicas de racialidade e sobre as interferências dessas no processo analítico entre analista e paciente.
Sendo o racismo estrutural, ele engendra nossos inconscientes com imagens e ideias de racialidade e de poder). Assim, quais os possíveis desdobramentos disso nas relações de transferência e de contratransferência? Quais as implicações no processo de individuação para um paciente negro que procura um analista branco? Caberia ao analista branco (e aos institutos de formação), maior proatividade na conscientização deste complexo cultural? E, ainda, como a branquitude (enquanto relação de poder e de vantagem em uma sociedade racializada) poderia contribuir, nos institutos de formação, na desconstrução deste status quo?
“(...) a branquitude se refere a uma relação de poder, de vantagem sistêmica nas sociedades estruturadas pela dominação racial. (...) Portanto, é importante perceber que brancura difere de branquitude. A brancura diz respeito às características fenotípicas que se referem à cor da pele clara, traços finos e cabelos lisos de sujeitos que, na maioria dos casos, são europeus ou euro-descendentes. (...) Estes sujeitos passam por um processo psicossocial resultantes das mediações que experienciam durante a vida, de identificação com a branquitude.” (Schucman, 2020, p. 187).
Entre os meses de dezembro de 2022 e junho de 2023, foram realizadas sete entrevistas com analistas junguianos para este trabalho: foram entrevistados quatro analistas brancos sobre pacientes negros e três analistas negros sobre pacientes brancos. Segue o roteiro de entrevista:
Roteiro de entrevista
Você alguma vez percebeu algum desconforto no atendimento de um paciente negro/ branco?
Quais as imagens, sentimentos e ideias que você experienciou, na contratransferência do atendimento de pacientes negro/ branco?
Você alguma vez percebeu que uma relação hierárquica (de poder) se estabeleceu entre você e o paciente negro/ branco?
O que está vindo agora em sua mente com este bate-papo inicial?
Uma vez que não é objetivo deste trabalho a discussão de cada caso, foram selecionados trechos das entrevistas para estimular a discussão teórica de tópicos relevantes ao tema do presente estudo. Além disso, para desenvolvê-la, recorro a autores (junguianos ou não) que têm sido muito relevantes no debate do racismo. Porém, abordo as dinâmicas psíquicas entre analista e paciente (transferência e contratransferência) a partir da psicologia analítica.
Racismo estrutural e estereótipos
Há alguns anos, atendi o primeiro paciente negro no consultório. Na primeira sessão, logo que o vi, meu pensamento imediato foi: “Se ele não puder pagar, vou dar um belo desconto pra ele que possa ficar”. Esse pensamento me intrigou por semanas e, provavelmente, foi uma das motivações para este trabalho.
Para o filósofo Silvio Almeida, não há como compreender nossas relações, na sociedade contemporânea, sem os conceitos de raça e de racismo:
“O racismo estrutural como ideologia, mais do que fenômeno consciente, molda o inconsciente. Ou seja, o racismo não depende de uma ação consciente para existir; a vida ‘normal’ e os ‘afetos’ são, inexoravelmente, perpassados pelo racismo. O racismo cria a raça e os sujeitos racializados. E constitui todo um complexo imaginário social que a todo momento é reforçado pelos meios de comunicação, pela indústria cultural e pelo sistema educacional.” (Almeida, 2018, p. 65)
Assim, muito mais do que escolha consciente, o racismo existe inconscientemente, em todas as relações, por meio de estereótipos que, há séculos, são transmitidos e categorizados na psique. Quais são, então, os estereótipos sobre negros constelados, inconscientemente, na psique de um analista branco?
ENTREVISTA 1: Analista homem branco
Pergunta: Já percebeu algum desconforto no atendimento de um paciente negro?
Resposta: Sim. Tem algo de não dito presente no atendimento de uma paciente negra retinta. Ela tinha a tonalidade de pele muito escura. Foi um impacto. Eu não recebo pacientes assim. Eu tenho outros dois pacientes negros, mas eles são bem mais claros que ela.
Eu a enxergava como uma pessoa diferente. Ela era muito bonita. Causava impacto. Negra e bonita. Diferente, se fosse uma mulher branca e bonita. Era uma beleza exótica.
P: Quais as imagens, sentimentos e ideias que você experienciou, na contratransferência do atendimento de pacientes negros?
R: Tem uma coisa de colorismo aqui, né? Uma mulher negra retinta me causava alguma coisa. Era difícil tirá-la deste lugar que me chamava atenção. Eu ficava até imaginando que, na sala de espera, ela iria chamar a atenção dos outros pacientes.
Eu não lembro imagens. Mas eu me perguntava: como veio parar em meu consultório esta beleza africana?
Quais imagens transitam na contratransferência, quando o analista percebe, no atendimento da mulher “negra e bonita”, algo de “não dito”, que “causava um impacto”? Acredito que tais desconfortos sejam sentimentos que não conseguimos nomear, imagens ainda inconscientes, consteladas na contratransferência.
Uma paciente preta e retinta carrega a significação de “o Outro”. Não ficamos surpresos aos termos, na recepção do consultório, apenas pacientes brancos. Todavia, se fosse apenas pacientes negros, ficaríamos desconfortáveis. Uma paciente preta retinta causa surpresa. Validamos, inconscientemente, o branco como norma estética, moral e intelectual.
É importante ressaltar que, embora o complexo de cor se relacione com um complexo de inferioridade (o racismo estrutural posiciona pessoas negras nessa relação de inferioridade), o analista tem de estar muito atento na transferência e na contratransferência para não reforçar/repetir essa dinâmica psíquica, imposta pelo racismo estrutural, da qual todos os negros são vítimas, cotidianamente.
O processo psicoterápico e a escuta analítica
Há pacientes que me procuram por ser negro e homossexual. Frequentemente, escuto “acabo ficando mais à vontade” ou “o trabalho flui melhor”.
A identificação do analista e do paciente com uma identidade estereotipada coletiva (relativa à raça, à orientação sexual ou a ambos) pode facilitar o estabelecimento de um vínculo afetivo afetuoso (transferência e contratransferência positivas) necessário ao processo terapêutico.
Nesta seção, gostaria de analisar as etapas do processo psicoterápico, tendo como pano de fundo analista branco e paciente negro. Como o racismo, enquanto complexo cultural, interfere na empatia do paciente em relação ao analista e vice-versa?
ENTREVISTA 2: Analista mulher branca
P: Você alguma vez percebeu algum desconforto no atendimento de um paciente negro?
R: Estou tentando trazer essas imagens. Me veio uma paciente que atendi por muito tempo, um ótimo vínculo. Estranhamente, com ela, eu achava que estava acolhendo e entendendo os sintomas como uma história do trauma que estávamos trabalhando — uma história recorrente de abuso infantil, e ela, uma mulher negra. Mas aí, em uma sessão, não sobre o trauma, mas sobre uma paixão por um homem branco: eu tentei trazer a sessão no entendimento do trauma infantil e ela me cortou: “Você acha que tudo ficou na infância?”
Descobri, nesta hora, que eu tinha um muro na minha escuta.
No ambulatório de psicologia social que fazíamos, na faculdade, eu, psicóloga branca, e outras duas psicólogas negras, me dei conta que eu nunca trazia questões de injúria racial na discussão com o grupo. E minhas outras amigas sempre traziam. Aí comecei a questionar como estava sendo a minha escuta e comecei minha própria jornada de letramento racial.
P: Quais as imagens, sentimentos e ideias que você experienciou, na contratransferência no atendimento de pacientes negros?
R: Eu tenho cinco vagas de atendimento social no consultório. Geralmente, são pessoas negras. Já me peguei várias vezes cuidando da minha palavra. Eu mesma tentando evitar tocar em coisas que achava que poderiam ser muito dolorosas.
Me sentia amarrada. Era como se eu fosse machucá-la de novo. Se eu fosse negra, acho que seria diferente.
A analista descreve momentos de desconforto: uma desconfiança em relação à própria escuta analítica, “um cuidado na própria fala” para não machucar mais uma paciente negra, “se sentir amarrada”. Esses desconfortos a levaram a iniciar uma jornada de letramento racial.
Acredito que essas situações, na prática clínica, são muito comuns e nos levam a ficar atentos aos processos inconscientes (transferência e contratransferência) que as deflagraram.
Schwartz-Salan (2021), denomina a experiência do encontro analítico como communitas (além de uma comunhão ou de um senso de comunidade), como o fator arquetípico no encontro entre analista e paciente. Para o autor, esse encontro constrói uma relação Eu-Tu marcada por um sentimento profundo de respeito mútuo, de igualdade e de interesse, o que torna o ambiente psicanalítico especial, favorável ao genuíno acolhimento e à transformação.
Na entrevista acima, vemos os efeitos do complexo racial (o qual afeta tanto pessoas negras quanto pessoas brancas, criando hierarquias) construindo ainda uma relação de poder entre analista e paciente: “Sim. Um lugar de não ficar à vontade; eu, uma psicóloga branca, na frente de um paciente negro. Será que eu tinha esse poder todo de machucá-la?”
Além do trabalho com os sonhos (via régia para o inconsciente) e com a imaginação ativa, Jung (2012) destaca a análise da transferência e da contratransferência como um processo fundamental no trabalho terapêutico.
Ao explorar as imagens do texto alquímico Rosarium Philosophorum, ele chega à conclusão de que o simbolismo da coniunctio — a imagem de união dos opostos — é a forma estrutural subjacente ao processo de transferência/contratransferência.
Nesse processo, as imagens inconscientes entre analista e paciente precisam ser separadas, retiradas do estado de participation mystique no qual se encontram e, então, integradas à consciência do ego, para, enfim, participar da formação de uma nova consciência mais próxima do Self (o Self hermafrodita). Este é o processo de conscientização dos conteúdos inconscientes em ambos, paciente e analista. Tal conscientização depende da experiência do analista, capaz de acessar as imagens inconscientes que emergiram na contratransferência (Schwartz-Salant, 2021).
Em relação aos conteúdos (e aos sintomas) sobre racialidade (presentes na psique de todos nós, seja consciente, seja inconscientemente), acredito que, se o analista não consegue acessar suas próprias imagens, continuará em participation mystique com o paciente e, portanto, travará o processo terapêutico de transformação. A inconsciência de nossos próprios preconceitos (os complexos culturais, de um modo geral) impede que consigamos diferenciar as minhas próprias imagens sobre racialidade e as de nossos pacientes.
PACTOS NARCÍSICOS DA BRANQUITUDE
“Se o escravismo deixou o negro ‘deformado’, qual a herança para o branco? Como a gente entende que a escravidão deixou um grupo em desvantagem e não entende que o outro grupo em um lugar de vantagem estrutural? Quando olhamos na rua e vemos só mendigos negros entendemos que este é o legado da escravidão. Mas quando vemos só brancos nas diretorias das empresas ou institutos, não pensamos também este é o legado da escravidão para o branco?” (Schucman, 2023, p. 46)
Se o racismo estrutural implica imagens estereotípicas (conscientes ou inconscientes) em pessoas negras e brancas, por que a discussão sobre racismo recai como responsabilidade apenas de pessoas negras? Se o complexo de cor inferioriza pessoas negras, como agem pessoas brancas que recebem inconscientemente esses benefícios? Quais são as fantasias de hierarquia/poder, inconscientes, na psique do analista branco em relação ao negro?
Os estudos críticos da branquitude visam discutir o papel da branquitude na manutenção do racismo estrutural. Como a branquitude (enquanto uma relação de poder) atua no ambiente psicanalítico?
ENTREVISTA 3: Analista mulher branca sobre pacientes negros
P: Quais as imagens, sentimentos e ideias que você experienciou, na contratransferência do atendimento de pacientes negros?
R: Me vem agora à memória uma paciente negra, que começou comigo entre 13 e 15 anos e depois volta a ser minha paciente, aos 30 anos de idade, novamente. Quando ela volta a segunda vez, tem questões sobre a doença grave da mãe, que depois acabou falecendo e ela se recusando a ir ao enterro. Me coloquei à disposição e acabei indo no enterro com ela; e foi uma experiência incrível: a mãe com roupa colorida, de festa, e as músicas preferidas da mãe sendo tocadas. Me impactou ver essa família de negros com uma cultura diferente (no enterro) à que eu estava acostumada. Durante o atendimento desta moça, às vezes me lembrava que, quando eu era criança, meus pais trouxeram uma menina (criança) negra, do interior do estado, para trabalhar em casa — ajudar com o bebê, minha irmã — e também estudar na cidade grande. Isso era comum aqueles dias. Hoje, fico pensando como era tão simples assim, tirar uma criança negra de sua casa, para trabalhar e estudar em casa de desconhecidos.
P: Você percebeu que uma relação hierárquica (de poder) ocorreu entre você e o paciente negro?
R: Sim, com frequência. Por muito tempo, eu atendi crianças, majoritariamente. Com a criança, eu não percebia, mas com os pais, sim, e era muito frequente. Eu precisava tomar cuidado com o que eu iria falar, para não aumentar aquele desconforto. Era um lugar de quem tem menos e pode menos. Eu tentava tirá-los deste lugar para acessar a criatividade.
Segundo Bento (2002), o pacto narcísico da branquitude refere-se a um pacto silencioso de apoio aos e fortalecimento dos iguais. É um sentimento de reciprocidade inconsciente, o qual acaba preservando privilégios e interesses de pessoas brancas. E, por ser inconsciente (o que é moralmente repudiado mantemos na sombra), atua de forma tão decisiva na manutenção do mito da democracia racial. O que quero pontuar é que, quando questionadas, pessoas brancas dizem que não são racistas, apesar de reconhecerem o racismo como um problema social grave.
Segundo Watkins (2008, p. 114), essa inconsciência sobre seus próprios afetos, modulados pelo efeito do racismo, traz prejuízo não só aos negros, vítimas constantes do racismo estrutural, mas também aos brancos, os quais desenvolvem uma sintomatologia/mecanismos de defesa do ego, para manterem inconscientes reflexões que seriam muito dolorosas.
“Em meu trabalho nos últimos catorze anos, o primeiro e mais importante aspecto que chama a atenção nos debates, nas pesquisas, na implementação de programas institucionais de combate às desigualdades é o silêncio, a omissão ou a distorção que há́ em torno do lugar que o branco ocupou e ocupa, de fato, nas relações raciais brasileiras. A falta de reflexão sobre o papel do branco nas desigualdades raciais é uma forma de reiterar persistentemente que as desigualdades raciais no Brasil constituem um problema exclusivamente do negro, pois só ele é estudado, dissecado, problematizado.” (Bento, 2002, p. 26)
Nessa entrevista, gostaria de explorar a associação feita pela analista — a paciente negra a remetia a uma lembrança da infância: uma criança negra levada para sua casa para ajudar nos afazeres domésticos. Ela reflete: “Hoje fico pensando como era tão simples assim, tirar uma criança negra de sua casa, para trabalhar e estudar em casa de desconhecidos.”
Reprimimos essas memórias (vivências racistas que presenciamos ao longo da vida).
“É evidente que os brancos não promovem reuniões secretas às cinco da manhã para definir como vão manter seus privilégios e excluir os negros. Mas é como se assim fosse: as formas de exclusão e de manutenção de privilégios nos mais diferentes tipos de instituições são similares e sistematicamente negadas e silenciadas. Esse pacto da branquitude possui um componente narcísico de autopreservação, como se o ‘diferente’ ameaçasse o ‘normal’, o ‘universal’. Esse sentimento de ameaça e medo está na essência do preconceito, da representação que é feita do outro e da forma como reagimos a ele.” (Bento, 2022, p. 18)
Esses privilégios ficam mais evidentes nas instituições de ensino e grandes empresas, onde a liderança é formada majoritariamente por pessoas brancas, e os processos seletivos carregam sempre o viés da raça, geralmente camuflado pelo que se denomina “mito da meritocracia”. Nos institutos de psicologia analítica, por exemplo, são raríssimos os candidatos a analistas e os analistas negros. Em nossas conversas, muito comuns são as nossas histórias de vida marcadas por dificuldades até conseguirmos chegar a uma instituição de formação. Mas ninguém reconheceria o fato de, se o branco ocupa essas posições, é porque a brancura de sua pele também lhe concedeu privilégios que a grande maioria das pessoas negras não tem.
Estar afiliado a uma instituição de ensino, onde 98% dos analistas são brancos, em um país onde 53% da população é negra/parda, não nos permitiria concluir que a instituição é racializada (que, de alguma forma, facilita a entrada de pessoas brancas)? E não é um privilégio essa condição ser considerada o normal e nunca questionada?
Poderia a prática do analista branco estar alheia às injustiças sociais?
A sombra do analista branco
“Se à Psicologia Social cabe o estudo do que é ideológico no comportamento humano, a sua melhor prática consistirá no desmascaramento de toda ideologia antipopular, isto é, daquelas formas de senso comum que operacionalizam e justificam um sistema social explorador e opressivo.
Trata-se de desvelar o que há de alienador nesses pressupostos enraizados na vida cotidiana e que fundamentam a passividade, a submissão e o fatalismo.” (Martin-Baró, 2017, p. 61)
Watkins (2008) questiona a postura dos analistas brancos, em países marcados por grandes injustiças sociais, como, no Brasil, assinalado pelo racismo:
“Altman (1995) lamenta que, devido ao fato de que muitos psicanalistas serem brancos e perseguirem privilégios sociais, a psicanálise perdeu uma parte de sua visão noturna, trocando o conhecimento subversivo por uma conformidade com o status quo. Altman descreve a visão noturna psicanalítica como sua habilidade para criticar a sociedade e examinar suas implicações intrapsíquicas a partir de uma posição estrangeira e critica. Tal visão nos permite começar a ver que nosso sofrimento psicológico está unido às culturas nas quais residimos. Jacobi (1975) argumenta que a troca da visão noturna para a segurança profissional envenenou as práticas psicológicas profundas com a amnésia social.” (Watkins, 2008, p. 112)
A psicopatologia do analista branco manifesta-se na negligência ao racismo, tornando-o cúmplice inconsciente de uma opressão que normaliza a violência racial. Ele cria uma imagem do “Outro” como inferior e preso a estereótipos, desconsiderando sua individualidade (Watkins, 2008, p. 112).
Escapar dessa passividade seria questionar o status quo das nossas relações familiares, profissionais e comunitárias. E deixar-se afetar pelas reflexões: Por que tenho tão poucos pacientes negros, em meu consultório? Por que tenho tão poucos amigos negros, em minha vida? Como me sinto diante de pessoas negras com as quais me relaciono (quer no trabalho, quer no meu instituto de formação, quer mesmo em casa)? Consigo perceber as fantasias de poder em relação a elas? Tenho a mesma empatia com e interesse genuíno por elas, quando as comparo com meus amigos brancos? Eventos de psicologia que discutem o racismo me interessam? E por que não? Referencio pacientes para colegas analistas negros com a mesma frequência dos analistas brancos?
Watkins ainda descreve:
“(...) não romper com a passividade é prejudicial para o senso de si mesmo e de solidariedade com os outros. Psiquicamente, ser um espectador da injustiça e da violência alimenta a desconexão, a passividade, o fatalismo, um sentimento de futilidade e falhas na conexão empática. [...] A passividade habitual é perniciosa porque o seu custo psicológico permanece muito pouco reconhecido. É como se houvesse uma doença crônica da qual não se está consciente. Para curá-la, é preciso começar a experimentá-la. (...)” (Watkins, 2008, p. 114).
Assim, pensando no encontro psicanalítico entre analista branco e paciente negro, todo analista branco deveria fazer seu próprio letramento racial, não só para acessar conteúdos da psique que são mantidos inconscientes por mecanismos de defesa do ego, mas também para adentrar, com alma, no mundo psíquico de seus pacientes. Em um país onde o racismo é tão violento, como no Brasil, isso poderia fazer parte da agenda dos institutos de formação.
O ANALISTA NEGRO EM UMA PSICOLOGIA BRANCA: CONTRATRANSFERÊNCIA DE AMOR E PODER
Se a negação e a inconsciência limitam a prática clínica de analistas brancos, quais os desdobramentos da violência do racismo, na prática clínica de analistas negros?
Eu, analista negro que atende, majoritariamente, pessoas brancas, muitas vezes me vejo “querendo ser mais” ou “querendo fazer mais”, em determinados casos. O que está constelando em minha psique, nesses momentos? Por que alguns pacientes brancos deflagram esses sentimentos?
ENTREVISTA 5: Analista mulher negra sobre paciente branco
P: Você já percebeu algum desconforto no atendimento de pacientes brancos?
R: Sim, várias situações. Quando trabalhei em hospital, já tive famílias que se recusavam a falar comigo. Já tive um caso novo também que, ao me ver na primeira consulta, ficou muito desconfortável e me disse explicitamente que não poderia fazer terapia comigo, pois não confiava em negros; e que eu deveria ter falado para ela que era negra.
Outra paciente me causa muito sono. Uma vez, ela me disse que, para ela, era difícil a terapia, pois sempre foi servida por pessoas da minha cor. E aqui realmente era uma situação difícil.
P: Percebeu que uma relação hierárquica (de poder) ocorreu entre você e o paciente branco?
R: Sim. Eu me sentia neste local. “Será que vou dar conta?” Interessante que pacientes psiquiátricos mais graves eu nunca senti isso. Por exemplo, tenho uma paciente que tenta me colocar neste local e verbaliza que por eu ser negra, eu deveria servi-la. Mas com ela eu não me sinto nesta posição. Talvez em outras épocas da minha vida eu pensasse que seria mais fácil atender pacientes negros, mas hoje já não é uma questão para mim.
Acredito que as dificuldades descritas pela analista sejam muito comuns a vários analistas negros, e isso nos abre a questão da contratransferência negativa:
“Existe a distinção — logo mencionada em qualquer conversa entre analistas — entre a contratransferência positiva e negativa, que reflete uma noção da transferência positiva ou negativa. Ela parece significar basicamente que um analista ‘gosta’ do analisando ou não. Como ponto de referência ela não é totalmente inútil ou irrelevante, mas deixa muito a desejar quanto a detalhes.” (Stein, 2021, p. 96)
É possível uma escuta acolhedora, em um ambiente hostil? Quais os limites para o analista negro?
Padrões arquetípicos da transferência/contratransferência
Em O Mito da Análise, Hillmann destaca a dinâmica da transferência e da contratransferência como um fenômeno de união de Eros e alma/anima.
“A coniunctio exige amor e alma que, em sua união, são um. (...)
A transferência é uma réplica intensificada, ou paradigma arquetípico, de toda relação humana. Ela se estabelece em nós aonde quer que possamos ir, onde quer que uma ligação signifique algo para a alma.” (Hillman, 1984, p. 101)
Jung argumenta que a anima desenvolve essa capacidade de união através de quatro estágios da fenomenologia erótica: Eva, Helena (de Troia), Virgem Maria e Sofia:
“A fenomenologia erótica: a antiguidade já conhecia a escala erótica de quatro mulheres. (...) Pela denominação, percebe-se que se trata de quatro estágios de Eros heterossexual, ou seja, da imagem da anima e, consequentemente, de quatro estágios culturais de Eros. O primeiro grau da Chawwa, Eva, ou Terra, é apenas biológico, em que mulher-mãe, não passa daquilo que pode ser fecundado. O segundo grau diz respeito a um Eros predominantemente sexual, mas em nível estético e romântico, em que a mulher possui já valores individuais. O terceiro grau eleva Eros ao respeito máximo e à devoção religiosa, espiritualizando-o. Contrariamente à Chawwa, trata-se de maternidade espiritual. O quarto grau explicita algo que contraria as expectativas e ainda supera esse terceiro grau dificílimo de ser ultrapassado: é a sapientia. Mas como a sabedoria consegue sobrepujar o que há de mais santo e puro? A resposta está na verdade elementar de que não raro algo que é menos significa mais. Este grau significa a espiritualização de Helena, do próprio Eros.” (Jung, 2012, p. 58)
Ou seja, a relação analista/paciente é um encontro erótico/amoroso em diversos níveis: maternal, romântico, espiritual, de sabedoria. Observar com cuidado essas possíveis manifestações da coniunctio é estar atento à transferência/contratransferência daquele encontro e, como destaca Hillman, estar atento a se esse encontro está fazendo alma.
Assim, no fazer alma do encontro psicanalítico, acredito que devemos nos questionar — como analistas — onde está a manifestação de Eros, naquele encontro. E se, na contratransferência, não conseguimos estabelecer essa união, outro tipo de contratransferência deve estar agindo na dinâmica analista/paciente.
Por se tratar o racismo de uma relação de poder entre as pessoas, gostaria de explicitar a contratransferência de poder.
Contratransferência de poder
Conforme Stein, “(o) (...) poder — com o que me refiro à necessidade ou desejo de ter controle — jamais está ausente das relações humanas, e a relação terapêutica entre analista e paciente não é exceção” (Stein, 2021, p. 99). Trata-se da necessidade (percebida de forma sutil ou forte, nas sessões) de o analista assumir o comando da situação, para dirigir o paciente. Essa necessidade de controle deve sempre ser analisada, compreender-se por que isso aconteceu e perceber a dinâmica subjacente a ela.
Stein ainda cita o trabalho de Guggenbuhl-Craig:
“(...) quando o poder se torna primordial na situação de ajuda, uma unidade arquetípica se clivou em duas partes: o ‘menor’ e o ‘maior’, ‘paciente doente’ e ‘médico saudável’, ‘pobre cliente’ e ‘profissional estabelecido’, ‘aluno ignorante’ e ‘sábio mestre’, entre outros. (...) E o resultado desta clivagem é o distanciamento emocional: analista e paciente tornam-se muito ‘diferentes’ e seu relacionamento passa a ser matizado por essa sensação de alteridade.” (Stein, 2021, p. 99)
E, quando complexos de racialidade são ativados, no decorrer da análise, essa dinâmica de poder tende a se estabelecer. Na minha experiência, como analista de pessoas brancas, vem como essa sensação de “querer fazer mais”. Mais uma vez, a identificação desse padrão e reconhecimento de suas razões pelo analista será imprescindível para reestabelecer uma dinâmica de cooperação (o fazer alma).
Além disso, o racismo estrutural acompanha as instituições de formação. Não reconhecer ou não agir proativamente é consentir e validar uma estrutura que todos abominam, mas em face da qual silenciam.
“Em uma sociedade em que o racismo está presente na vida cotidiana, as instituições que não tratarem, de maneira ativa e como um problema a desigualdade racial, irão facilmente reproduzir as práticas já tidas como normais em toda a sociedade.” (Almeida, 2018, p. 65)
Na psicologia analítica, aprendemos que os complexos não desaparecem. No entanto, é possível desmascará-los por meio de nossas ações e emoções. Com a autorreflexão, conseguimos aprender a conviver melhor com eles, expandindo nossa consciência e desenvolvendo uma forma mais integrada de estar no mundo. Mas, como instituição, ainda não nos permitimos, realmente, engajar nesse potente complexo cultural — provavelmente para evitar os sentimentos de culpa e vergonha.
E quais são nossos sintomas institucionais? Evitação de discussões a respeito do racismo nas Obras Completas de C. G. Jung; conformismo com uma psicologia branca e elitista; ausência de uma agenda focada no letramento racial de candidatos e membros analistas; ausência de analistas negros nos institutos de formação junguiana; ausência de analistas negros em cargos da diretoria; ausência de ações práticas para uma reparação histórica: cotas nos institutos? Flexibilização de algumas exigências da formação?
Singer et al. (2004) destacam que a experiência traumática da escravidão, juntamente com a perpetuação desse trauma pelo racismo estrutural na sociedade contemporânea, ativou defesas arquetípicas em nível de grupo: a dissociação (distanciamento emocional) e a projeção (atribuição ao outro). Essas defesas são fundamentais na manutenção dessa imagem coletiva (Singer et al., 2004).
Como instituto de formação, acredito que ainda estamos dissociados em nível do trauma coletivo do racismo. Mas, ao evitarmos o envolvimento emocional (e, também, a ansiedade, a vergonha e o medo), estamos igualmente nos afastando de uma realidade cultural que vem moldando nossa psique, há séculos.
“Infelizmente, todos os seres humanos têm uma enorme capacidade de viver em estados de negação, dissociação, esquecimento e identificação com ideologias da cultura dominante. Pode ser extremamente doloroso desenvolver uma consciência crítica, desaprender o que foi ensinado ao longo da vida.” (Watkins, 2008, p. 231)
Fanny Brewster discute algumas ações possíveis para essa reintegração. Em primeiro lugar, a necessidade de estarmos todos abertos para diálogos sobre o trauma coletivo e a dor psíquica transgeracional e que nos abala diariamente (negros e brancos); segundo, não aceitar o silêncio. A autora descreve ainda seu trabalho de moderação de encontros de grupos de analistas brancos, cujo intuito é discutir e tentar desvendar o racismo, no cotidiano da vida dos analistas. Esses encontros sempre despertam sentimentos de raiva e de culpa, no grupo (Brewster, 2020).
“(...) A beleza na psicologia analítica é que, muitas vezes, ela nos traz a resposta ao nosso sofrimento. O remédio está no veneno. A psicologia junguiana é uma psicologia da descoberta. E o caminho geralmente se apresenta na forma de labirinto e, claro, nunca será fácil. Aceitar este fato e viver plenamente as experiências, reconhecendo não só o sofrimento, mas também as alegrias de viver, nos traz cada vez mais esperança.” (Brewster, 2020, p. 151)
CONCLUSÃO
Por se tratar de um complexo de inferioridade para pessoas negras, podendo suscitar transferência e contratransferência negativas, o racismo estrutural pode estagnar o processo psicoterápico de individuação. Nesse processo, Amor e Alma devem se encontrar, para que o processo de individuação possa acontecer. Se é o poder que prevalece, consciente ou inconscientemente, na relação analista/paciente, não ocorrerá o fazer alma e, pelo contrário, ambos — analista e paciente — ficam presos à inconsciência de seus próprios afetos e ideias.
Algumas reflexões sobre possíveis contribuições dos institutos de formação também foram feitas, talvez até de maneira utópica, mas com o intuito de reimaginar novas e possíveis relações de afeto entre seus membros. De maneira utópica por tratar-se de um complexo tão inconsciente e tão enraizado em nosso cotidiano, que naturalmente criamos mecanismos de defesa para fugir da culpa e da vergonha que a conscientização traria.
Contudo, para mim, uma das grandes belezas da psicologia analítica é que ela nos motiva (e nos ajuda a motivarmos nossos pacientes) a reimaginar nossas vidas, nossos afetos, nossas relações com o Outro e com o mundo. Assim, aos poucos, podemos, talvez, formar uma psique coletiva com maior alteridade. Esta seria a minha utopia para os institutos de formação.










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