Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada, aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto, pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de Ipê tava vivo
Ná Ozzetti, Dante Ozzetti e Itamar Assumpção, 1999
Há décadas o conceito de resiliência permeia meus trabalhos. No campo da psicologia analítica, minha primeira publicação a respeito foi em 2011. Porém, numa viagem de férias em família, observando o bioma chamado Cerrado Rupestre, no Jalapão, em Tocantins, e as chamadas Veredas, imortalizadas por Guimarães Rosa, na Chapada dos Veadeiros, obtive uma compreensão mais ampla do conceito, conjugando-o com o de individuação.
O Jalapão é uma região semiárida, entremeada por focos de maior umidade, situada a leste do estado de Tocantins. A vegetação é caracterizada como Cerrado, com uma grande variação, das Veredas – áreas mais úmidas, constituídas de faixas de vegetação mais alta que serpenteia em meio aos campos sujos, denunciando os cursos d’água subterrâneos – ao Cerrado Rupestre. O Cerrado Rupestre está presente nas áreas mais altas e, portanto, mais áridas, composto de um subtipo de vegetação irregular, pequenos arbustos, em áreas de afloramento de rochas; a cobertura arbórea varia de 5% a 20%, com altura média de 2 a 4 metros (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade [ICMBio], n.d.). Árvores encontradas no Cerradão – área mais úmida – ou mesmo nas margens da Mata Atlântica, como o araçá, que nesses biomas pode chegar a 6 metros de altura, também são encontradas no Cerrado Rupestre, porém atingindo altura bem menor (Pinto et al., 2009). Tais árvores, que medem de meio a um metro e meio e, em outros biomas, podem atingir quase uma dezena de metros, são chamadas popularmente de “bonsais naturais”. Como um verdadeiro bonsai, são plantas com desenvolvimento completo, capazes de gerar frutos, porém com as características adaptadas ao solo mais raso, com menos nutrientes e clima mais seco.
A força de vida emanada por esse arbusto, esse “bonsai natural” que cresceu em meio à aridez do clima, a firmeza de seu tronco rompendo o solo rochoso, a insistência verde de suas folhas, tudo isso me impactou enormemente. Projetando na planta emoções humanas, senti um grande desejo de ser, de viver. Parafraseando João Cabral de Melo Neto (1956), ainda que pequena, ver a vida explodida, desfiando seu fio, teimosamente, se fabricando, me emocionou.

Figura 4 Frutos da mangueira em Vereda da Chapada dos Veadeiros, destacados na figura 3. Arquivo pessoal.
Também nas Veredas observamos árvores encontradas em outros biomas, com suas características modificadas. Mesmo tendo maior umidade, advinda de cursos de água muitas vezes subterrâneos, ainda assim a disponibilidade de recursos para a vegetação nas Veredas é menos abundante que nas florestas tropicais. Foi assim que encontrei a “mangueira magrela”, em meio a uma Vereda na Chapada dos Veadeiros.
Essa mangueira que encontrei estava com frutos – o que me permitiu identificá-la. Portanto, trata-se de um espécime completo e saudável, pois capaz de gerar frutos.
Ao entendermos por resiliência a “capacidade de, uma vez impactado pelas adversidades, sofrer transformações que, no processo de individuação, resulte mais em crescimento que deformidade” (Moreira, 2011, p. 37), poderia chamar essa mangueira, assim como os “bonsais naturais” do Jalapão, de resilientes. Mais que isso, essa vegetação me impele à reflexão sobre a individuação: “habilidade de a pessoa formar para si uma personalidade individual unificada, coerente e, apesar disso, singular em profundidade e riqueza” (Hopcke, 2012, p. 76). Sim, individuação foi o conceito que se impôs: uma árvore que realiza seu potencial, no caso da mangueira, uma árvore frutífera que gera frutos. Desenvolvendo-se não a despeito do meio, mais em consonância com ele. Adaptada, tronco mais esguio, galhos mais delicados, menos frondosa, copa entremeada às copas das demais árvores ao seu redor, todas partilhando da umidade do pequeno curso d’água em meio a um clima mais agreste. Todavia, tal consonância com o ambiente não a impediu de realizar seu potencial.
Jacobi (1967, p. 77) explica que “a individuação é um processo natural imanente em todo organismo vivo”. Coelho (2024) explica que Jung traz a concepção de um unus mundus, propondo o ser humano e a psique indissociáveis do mundo como um todo, incluindo a natureza, a vegetação. Segundo essa autora, as imagens de paisagens naturais parecem ter o potencial de evocar em muitos de nós nossa própria natureza e nossas representações vitais.
Jung traz a ideia de individuação como o processo de desenvolvimento da personalidade, marcadamente na segunda metade da vida, pelo qual o indivíduo progressivamente harmoniza a comunicação entre consciência e inconsciente, consolidando a unidade psíquica. “Como o nome sugere, trata-se de um processo ou percurso de desenvolvimento produzido pelo conflito de duas realidades anímicas fundamentais” (Jung, 2018a, p. 281, § 523). Coelho (2024) afirma a semelhança do processo de individuação humano com as árvores: estas crescem para o céu na mesma medida que crescem para dentro da terra, ligando o céu e o subterrâneo.
Alvarenga (2008) acrescenta a harmonização entre as demandas do indivíduo e as demandas do coletivo nessa equação. Jacobi (1967, p. 78) conceitua individuação como “a crescente autoconsciência do indivíduo e da sociedade”. Uma vez que tanto a consciência como o inconsciente estão em contato constante com o ambiente externo, não se pode imaginar que a individuação se daria em detrimento deste. Ao contrário, a individuação se dá com a interação do indivíduo com o ambiente. Este inclui as adversidades, o que nos leva ao conceito de resiliência.
Pinheiro (2004) ressalta que resiliência não significa invulnerabilidade, mas flexibilidade e capacidade de superação. Infante (2005) explica que postular a resiliência sem reduzi-la à invulnerabilidade implica assumir que o indivíduo é afetado pela adversidade, mas é capaz da superação. Ralha-Simões (2001) pondera que passar por adversidades inclui, necessariamente, ser impactado por elas; caso contrário, ou seriam adversidades irreais, ou volta-se à situação de repressão na sombra. Se consideramos o contato harmonioso entre consciente e inconsciente condição da individuação, esta pressupõe resiliência. Como relatei em 2015, Iraci Galiás, em uma conferência na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 2009, afirmou considerar a resiliência como um potencial para o processo de individuação.
Araújo (2011) retoma a discussão de Manciaux (2007): a resiliência como mito ou realidade. É uma realidade demonstrada em inúmeros trabalhos de metodologias diversas, quantitativas e qualitativas, alguns deles acima citados. Mas também é uma ideia trazida ancestralmente na mitologia, nos relatos fabulosos, simbólicos, que mostram a condição humana frente a forças externas. Tal discussão propõe a resiliência como um mito fundamental mobilizador. Quando vislumbro as árvores em miniatura no Jalapão, a mobilização vai muito além do mito.
Ao pensarmos numa transposição de adversidade cujo resultado seja mais crescimento que deformidade, estamos pressupondo uma forma preestabelecida. Mas que forma seria essa? Pensando na mangueira, qual seria a forma correta: a árvore alta, com tronco forte e copa frondosa das fazendas do interior de São Paulo (fig. 5), a árvore baixa, mas com copa frondosa, numa calçada da cidade de São Paulo (fig. 6) ou a árvore magrinha de uma Vereda na Chapada dos Veadeiros (fig. 3)?
O problema do que seria esperado em termos de normalidade para o ser humano não é menor. Talvez o esforço em definir o normal e o patológico esteja criando um excesso de padronização na vida humana. As ampliações dos critérios diagnósticos das patologias mentais nos têm levado a uma situação machadiana. Tal como Simão Bacamarte, o Alienista, talvez apenas os autores do DSM-V estejam livres de diagnósticos. Ou, se todos são doentes, ninguém é doente. Jung (2018a, p. 282, § 524) afirma que: “O modo pelo qual se obtém a harmonização de dados conscientes e inconscientes não pode ser indicado sob a forma de uma receita”. Segundo ele, caberia ao terapeuta o acompanhamento, atento aos símbolos emergentes, para auxiliar a harmonização consciente – inconsciente rumo à totalidade, mais que a supressão de sintomas. Em outra passagem, Jung (2018b, p. 18, § 3) fala ainda sobre o processo analítico levar ao desenvolvimento e progresso em direção a uma meta, a qual sempre considerou enigmática. Percebe-se que, quando passamos a buscar a normatização, a pulsão de vida sai da perspectiva. A força que observei no arbusto em meio à aridez do Jalapão escapa aos manuais diagnósticos. Estes tampouco citam a alegria que transborda à visão do eucalipto extremamente frondoso em meio ao Cerrado (novamente correndo o risco de animismo).
Qual eucalipto seria considerado correto, o da figura 7, numa fazenda no interior de São Paulo, ou o da figura 8, na Chapada dos Veadeiros?
Todavia, algum limite há de ter. A individuação não se dá à parte da sociedade, mas em relação dialética com esta, e isso ajuda a trazer algum contorno. Há de haver algum guia: essa é a função do Self. Na relação terapêutica, deve-se atentar aos sinais do Self – os sonhos e símbolos emergentes do inconsciente – para se apreender o caminho de individuação de cada um. No trabalho analítico, não cabe pressa: cada símbolo deve ser circum-ambulado pela dupla. Com o devido cuidado de não transformar a sessão numa ostentação de erudição, o terapeuta deve estimular a exploração das multifaces de cada situação-problema, associando com temas, histórias, músicas ou outros elementos simbólicos que ocorrerem no processo, cuidando de não se afastar demasiadamente do foco. Porém, é preciso confiar que o analisando adulto saberá dar o tom e o limite do processo, se o analista estiver atento aos sinais.
Para exemplificar esse raciocínio, apresentarei três casos.
Uma paciente a quem aqui chamarei Sákura, de 36 anos, casada, descendente de japoneses, natural do interior de São Paulo, morando na capital há 11 anos, trabalhando como auxiliar administrativa e cursando faculdade de Comércio Exterior, procura atendimento. Há 2 anos foi submetida a cirurgia para retirada de um ovário e há 6 meses está com cisto no outro ovário. Sente-se culpada por evitar filhos, e conta isso muito emocionada, porém contida. Por outro lado, diz que nunca sentiu que chegara a hora de ter filhos. Não se sente pronta. Diz que sempre quis fazer diferente do que os pais fizeram: “Puseram filhos no mundo sem ter condições de criar!”. Tal como Severino, o retirante, de Melo Neto, ela questiona o sentido de gerar a vida com a perspectiva de uma vivência adversa.
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Uma paciente de 32 anos a quem aqui chamarei Rosa, advogada, funcionária pública, natural e procedente da região metropolitana de São Paulo, me procura porque está namorando há 11 anos e não consegue se decidir pelo casamento. O casal comprou um apartamento que ficaria pronto em breve. Finda a construção e reforma do apartamento, ela não consegue ir morar com o namorado. Teme decisões irreversíveis. Não deseja filhos, receia perder a liberdade conquistada e, ao mesmo tempo, arrepender-se de não os ter, e se ressente da pressão social em prol da maternidade. Questiona-se sobre o direito de viver sua vida ao seu modo, se não seria uma teimosia da qual se arrependeria tardiamente. Por outro lado, transborda força e alegria de viver que não caberiam em limites sociais rígidos. Comunica-se de forma extremamente gentil e polida, escolhendo as palavras. Todavia transpassa força e convicção em seu discurso.
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Uma paciente de 39 anos a quem aqui chamarei Margarida, bióloga, funcionária pública, natural e procedente de São Paulo, procura ajuda diante do grave quadro de saúde da irmã caçula – um AVC inesperado que a deixou em coma –, cujos filhos têm 5 e 10 anos de idade. Margarida não teve filhos por opção. Sua mãe tivera uma doença degenerativa, e Margarida temia ter filhos com a mesma doença. Debater a maternidade não estava na sua demanda inicial, mas sim a dificuldade em se concentrar no seu trabalho e, simultaneamente, cuidar dos sobrinhos e lidar com o luto pelo adoecimento da irmã.
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Aparentemente três pessoas muito diferentes entre si, com demandas também diferentes. Todavia, as três pacientes têm em comum histórias de adversidade na infância e adolescência.
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Sákura é a sexta filha de uma prole de oito. Pais lavradores, “perderam tudo” quando a paciente tinha por volta de 9 anos. Descreve a mãe como “uma mulher que tirava tudo do nada”, “sempre arrumava um jeito de ter uma comida muito gostosa, para a família e para as pessoas em volta que precisavam”. A casa onde moravam era em frente ao ponto onde as pessoas pegavam a condução para trabalhar, e a mãe sempre tinha um cafezinho quente para quem necessitava. A mãe, além de trabalhar na roça, vendia coxinha no ponto de ônibus. Descreve o pai como um homem muito duro. Aos 8-9 anos, Sákura morou com uma tia, depois foi morar com o avô, numa escola de japonês. O avô era uma espécie de caseiro da escola, mas também dava aulas de japonês. A paciente, que já trabalhava ajudando os pais desde muito cedo, ajudava o avô na limpeza da escola. O avô morreu 2 anos depois, e ela e uma irmã pouco mais velha continuam morando e trabalhando na escola. Descreve o avô como um homem carinhoso. A paciente tinha muita vergonha das outras crianças da escola, seja porque não sabia falar japonês direito, seja porque se vestia mal, seja porque perdeu os dentes (permanentes) muito cedo.
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Rosa também conheceu a privação financeira – ao ponto da insegurança alimentar. Primogênita de prole de três, seus pais vieram do interior, e tudo perderam quando a paciente era muito nova. Muito trabalhador e aplicado, seu pai formou-se em Direito para nunca mais ser enganado. A mãe igualmente, trabalhadora, junto com o pai, conseguiu garantir alguma estabilidade financeira a partir da adolescência de Rosa, que passou a estudar em colégio particular e fazer ballet – porém, tendo iniciado aos 12 anos, não conseguira desenvolver as habilidades que as colegas haviam desenvolvido desde 5-6 anos de idade. Em relação à questão econômica, o que mais lhe traz ressentimento são situações muito constrangedoras que soube, por alto, que o pai passou até a estabilização financeira. Por outro lado, conta dos irmãos, filhos do primeiro casamento do pai. Eles, por terem adolescido ainda nos tempos de carência financeira extrema de seu pai, tiveram menos oportunidades e liberdade de escolha.
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Margarida é também primogênita de prole de quatro. Sua família tampouco era rica. Mas se ressentia mais do adoecimento da mãe, que piorava a cada ciclo gravídico-puerperal, até que, após o quarto filho, o casal se convenceu da inconveniência de novas gestações, devido à saúde da mãe. Margarida participou ativamente dos cuidados e educação dos irmãos, em razão das dificuldades maternas. Envergonhava-se das roupas pouco cuidadas, da falta de orientação da mãe com relação aos cuidados com sua aparência, que sua mãe não era mais capaz de lhe dar. Sentia-se invariavelmente inadequada.
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As três pacientes emanavam uma enorme força vital desde o primeiro dia. Vibrantes em seus relatos, apesar dos modos comedidos e gentis. Firmes em suas convicções. Mentes perspicazes, criativas, cujas capacidades de pesquisa e apreensão de informação muitas vezes desafiavam o processo terapêutico. Mais que sobreviventes, exuberantes. Belas, cada uma ao seu jeito: Sákura, de beleza delicada, suave e discreta; Rosa, de impressionante beleza, sofisticada e erudita; Margarida, de beleza simples e despojada, inteligentíssima.
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Sákura conheceu o marido na escola de japonês. Foi seu único namorado. Veio junto com ele para São Paulo trabalhar. Casou-se. Com o dinheiro do seu trabalho e do marido pagaram a festa de casamento, que foi a primeira festa na sua família. Compraram uma casa para os pais no interior e o apartamento deles em São Paulo. O marido trabalha como protético. Ela admira muito o trabalho dele e o descreve como “um artista”. O marido é caseiro, muito carinhoso e compreensivo, o que a faz sentir-se mais culpada por talvez não querer um filho. A mãe morreu há 2 anos. Sente-se culpada por “não ter dado à mãe o que ela merecia”.
Durante o início do trabalho analítico, a paciente tem o seguinte sonho:
“Eu estava na rodoviária me despedindo da minha mãe, eu estava ajoelhada, pedindo para ela vir na minha casa. Então eu entrei no ônibus e vim embora, sozinha”.
Sákura relata que foi o primeiro sonho com a mãe desde que tinha morrido e que ela “não estava com uma cara muito boa” no sonho. Diz que a mãe nunca veio à sua casa e que o sonho foi como uma continuação da última vez que viu a mãe viva. Imagina que, se a mãe tivesse vindo à sua casa, iria se sentir mais protegida, e a “mãe ia ver o resultado de tudo o que ela desejou: a gente está bem”. Pareceu-me que, a partir desse sonho, a mãe interna da paciente finalmente começou a se apresentar, e, com isso, a criatividade floresce.
Ao longo do trabalho analítico, Sákura passa a se integrar mais com os colegas da faculdade, e próximo ao fim do curso chega a participar de um churrasco da turma. Talvez um pequeno vislumbre hedonista do que não viveu na adolescência, uma vez que se fez adulta já na infância. Participa ativamente dos trabalhos de encerramento do curso. Trata-se de uma feira das nações, em que cada grupo representa um país e tem de vender um produto, além de fazer o trabalho escrito. A paciente montou o estande – representando o Japão –, fez a comida do estande e vestiu uma roupa típica para melhor caracterização e apelo comercial. Durante os preparativos, foi descrevendo as atividades com crescente alegria e entusiasmo. Como numa adolescência às avessas, resgata a identidade ancestral familiar, ressignificando-a. Agora não mais como a excluída, a gata borralheira, mas como aquela que provê e alimenta, além de chamariz. A outrora “menina feia” da escola de japonês era agora a modelo em trajes tradicionais a anunciar o estande do Japão na feira das nações.
Logo após sua formatura, a paciente decorou a sala do seu apartamento: comprou um tapete rosa, felpudo e “gostoso de pisar descalça”, e passou a dormir na cama com o marido. Permitiu-se, enfim, o aconchego e a proximidade física cotidiana. Fica muito emocionada com o apoio e compreensão dele durante todo o processo. Começa a pensar num filho mais como coroamento desse amor, menos como um ato irresponsável de quem não tem condições ideais (irreais?). Nesse momento, pede alta: diz que quer ter um filho com o marido e tem medo de continuar a terapia, pois tem medo de pensar “demais” e desistir do filho. Alguns anos depois, quando a contatei para pedir autorização para esse artigo, ela me conta que teve uma filha. Aparentemente, tal como no final do poema de João Cabral (1956), a vida, na dificuldade de se ver defendida em palavras, respondeu com sua presença viva.
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Ao longo da terapia, Rosa consegue se mudar para o apartamento com o namorado. Após um tempo de insatisfação com o bairro, escolhido por necessidade, e não por desejo, finalmente decidem morar num apartamento na localização sonhada. Este é reformado e decorado primorosamente, incluindo espaço e artefatos para os dois gatos que foram adotados em meio ao processo analítico. Os gatos não lhe privam a liberdade conquistada: investe o tempo livre em passeios e viagens com o marido ou com amigas. Rosa, com muito custo, começa gradativamente a comunicar à família que não terá filhos, assim como as cobranças por um casamento religioso vão amainando. Após muito tempo de ambivalência, Rosa volta a estudar e se preparar para melhores concursos em sua área, para assumir posições cujo trabalho já exerce de fato, mas não de direito.
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Obra de acaso não exatamente fortuito, tive dois filhos ao longo do processo de Margarida, que não veio para a terapia discutir sua decisão por não gestar, mas que não pôde se furtar a refletir sobre a questão, diante de duas gestações quase consecutivas da terapeuta. Margarida encarou de frente o desafio: ao invés de pedir alta do processo, que já durava 3 anos, aprofundou-se no assunto. Revelou então que chegara a engravidar, mas interrompera a gestação. Retomou o assunto com o marido, trabalhou o luto e percebeu o quanto ambos exerceram a maternagem, dos sobrinhos dela e dele. Não apenas os filhos da irmã em coma prolongado, mas todos os sobrinhos, em algum momento, foram cuidados por esse casal. Ambos estruturaram a polaridade cuidadora do arquétipo materno através dos cuidados com os sobrinhos. Segundo Galiás (2000, p.114), a humanização do polo cuidador do arquétipo materno é uma demanda psíquica tanto para mulheres como para homens.
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Nos três casos vemos feridas matriarcais, não necessariamente por insuficiência da mãe pessoal, como nos casos de Sákura e Rosa. Na tenra infância, mãe e ambiente se confundem, uma vez que este é intermediado (e apresentado) por aquela. Entenda-se por mãe aqui cuidador ou cuidadora principal, aquele ou aquela que provê o cuidado e a segurança do bebê. Carências e dificuldades provenientes do ambiente também compõem a imagem arquetípica da mãe. Ou seja, a vivência da primeira infância em situação de extrema pobreza ou a vivência da insegurança alimentar são vivências do arquétipo da grande mãe em sua polaridade terrível: a grande mãe ferida ou insuficiente (Moreira, 2011).
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O caso de Sákura é de uma pessoa que, apesar de relatar uma mãe amorosa e boa cuidadora, apresenta feridas matriarcais importantes, que se refletem na sua imagem de feminino, de mãe e na criança interna. Sente-se sempre insuficiente, despreparada. Não se vê com capacidade criativa. Estrutura-se através do dinamismo patriarcal e de um animus forte. É eficiente, responsável, trabalhadora. Casa-se cedo, num relacionamento bem-sucedido.
Através do relacionamento com o marido, começa o resgate dessa ferida: o marido é protético, “um artista”, que lhe faz uma prótese perfeita. Porém, esse encontro ainda não é suficiente para o resgate, e a capacidade reprodutiva da paciente começa a ficar ameaçada. Por fim, a própria capacidade laborativa começa a ficar prejudicada diante do desequilíbrio. Caracteristicamente, aos 36 anos, tem a necessidade de desenvolver o que ficou para trás. Ou seja, na metanoia é chamada a se reencontrar com a criança feia e descuidada que um dia foi.
Durante a terapia, a mãe reaparece, inicialmente no sonho, ainda a abandonando, deixando-a ir embora no transporte coletivo. Gradativamente, vai sendo resgatada na identidade étnica e familiar, de forma festiva. Posteriormente, permitindo que ela cuide da decoração da casa, tornando-a aconchegante. A criança também vai aparecendo, em festas, em fantasia. Por fim, na possibilidade da gravidez, que ela reconhece como desejo e necessidade que não vem do racional, que transcende o imperativo de prudência, mas que é tão sagrada que não pode ser ameaçada.
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O caso de Rosa é de uma mulher que retoma o direito de se cuidar, de dar à sua menina interna aquilo que lhe foi privado na infância, e consegue fazê-lo na medida que trabalha a culpa por não seguir o script de gênero socialmente previsto. Assim como Margarida, Rosa é extremamente cuidadosa com o sobrinho, especialmente no momento de divórcio da irmã. Também é muito zelosa com primos, irmãos e meios-irmãos, mas especialmente com a mãe, que começa a adoecer. Porém ela o faz sem cair na armadilha do autoabandono. Gradativamente, passa a se permitir concentrar-se na preparação para o tão sonhado concurso, em detrimento de compromissos familiares. Preparação esta apenas deixada de lado para dedicar-se a outras paixões: a dança e a música popular e as viagens. Mantém-se fiel à própria necessidade de liberdade, respeitada pelo companheiro.
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Margarida inicialmente se abandona em prol do cuidado com a irmã e os sobrinhos. Chega a ir morar durante a semana na casa do cunhado. Gradativamente, vai retomando a própria vida. O que não a protege de sofrer a ambivalência de sentimentos durante a adolescência dos sobrinhos: o orgulho por vê-los crescidos e o sentimento de abandono por não ser mais uma figura central em suas vidas. Ao reconhecer seu exercício de maternagem para com os sobrinhos, passa a equilibrar mais o cuidado com eles com a retomada da própria vida: reforma o próprio apartamento, com esmero e exigência que chegam a constranger a arquiteta responsável pela obra. Margarida não deixa por menos: é sua hora e sua vez. Simultaneamente, permite-se uma cirurgia plástica redutora de mamas, cuja hipertrofia lhe causavam não apenas constrangimento, mas dores na coluna; todavia, a hipertrofia do dinamismo patriarcal até então a impedira de se cuidar.
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Nos três casos vemos a reforma do apartamento como metáfora do autocuidado e resgate de ferida matriarcal. Todas elas cuidando do próprio ninho, pensando no conforto pessoal – a automaternagem –, ao passo que reafirmam / redescobrem estilo e preferências pessoais. O entorno, outrora adverso, é remodelado. Descobrem-se potentes sobre o ambiente externo que um dia as feriu. A preocupação com a qualidade dos relacionamentos acontece simultaneamente a esse processo. Todas têm companheiros valorosos, mas o cuidado com a relação cresce à medida que as feridas vão sendo cuidadas. Todavia, o cuidado com os relacionamentos não passa pelo autoabandono. A pungência de suas pulsões vitais não permite assumirem o papel coadjuvante tradicionalmente relegado à mulher. Entender e harmonizar a força de seus desejos e necessidades na convivência doméstica, quebrando padrões e descobrindo novas formas de estar com os companheiros, permeou o processo analítico das três.
Voltando à questão da resiliência, Ralha-Simões (2001) interroga se é possível falar de resiliência sempre que houver sobrevivência física e psicológica da pessoa diante dos fatores de risco, ou se seria resiliente o indivíduo que não só supera as adversidades, mas se sente feliz e em paz com a sua existência.
É muito importante não romantizar a adversidade. Com quantos finais felizes podemos contar em casos de trabalho infantil, crianças crescendo sem saúde bucal ou em situação de insegurança alimentar? Aqui as resilientes exceções relatadas reforçam a regra do adoecimento perante tamanhas agressões advindas das desigualdades sociais. Na falta de possibilidades de desenvolvimento dentro das janelas de oportunidade de aprendizado da infância, o aprendizado de certas habilidades nem sempre pode ser retomado tardiamente. E qual o impacto que isso pode ter na vida do sujeito adulto? E na estruturação de uma sociedade?
Nem sempre uma árvore sobrevive a uma poda excêntrica feita para passar os fios de eletricidade, como na figura 9. No entanto, tais podas são tão abundantes nas árvores da metrópole quanto a desigualdade de oportunidades de desenvolvimento das crianças. Assim como o formato artificialmente moldado na árvore é permanente, a falta de saúde bucal também acarreta perdas permanentes. Nem sempre os sorrisos podem ser artisticamente resgatados.
Pensando na individuação, nenhuma mulher deve sentir-se obrigada à maternidade, uma vez que o caminho da individuação é único e intransferível. Porém, as decisões do caminho devem ser pautadas pelo diálogo interno, integrativo, não em prol da repressão de algum aspecto psíquico. No caso de Sákura, a decisão pela gravidez pareceu responder a um chamado interno, cuja consciência tinha dificuldade de, unilateralmente, abraçar. Ainda segundo Jung (2018b, p. 18, § 4), “a conclusão aparente do trabalho junto ao médico não significa de modo algum o fim do processo analítico”. A paciente precisou finalizar seu processo sozinha, longe do julgamento patriarcal que projetava no meu olhar.
Isso não significa, de forma alguma, uma fôrma ou fórmula: as outras pacientes, ao longo do processo, chegaram a conclusões diversas. A maternidade pode ser exercida de muitas formas. A humanização do arquétipo materno, no polo cuidador, como postula Galiás (2000), pode se dar na relação com sobrinhos, alunos, amigos, irmãos, tanto para as mulheres quanto para os homens, assim como tantas demandas arquetípicas, que não têm uma forma única de realização. Todavia, tenho ainda tenho dúvidas, no caso de Margarida, se a decisão por não gestar foi sombria ou criativa. Algo que, de qualquer forma, não me cabe julgar.
Mais que uma conclusão, fico com a imagem de um ipê-rosa florido no Parque Ibirapuera: o ipê só tem galhos do lado do lago do parque, pois os galhos do lado da pista do parque provavelmente foram “podados” (fig. 10). Mesmo com a poda excêntrica, esse ipê floresce lindamente.
Mas qual o limite? O quanto de podas excêntricas um indivíduo pode suportar do ambiente? Quantas restrições nossas árvores suportarão, continuando florescer? Afinal, não é à toa que, no Cerrado Rupestre, a cobertura arbórea é incomparavelmente menor que na Mata Atlântica. ■










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