La loro paranoia è integrata nella vita.
Luigi Zoja
A arte em geral exibe inquietações históricas e atuais. Há momentos em que se agudiza a precariedade do ser no mundo. Os relacionamentos nas sociedades modernas padecem de acentuadas divisões, radicalismos, suspeitas e ressentimentos constituindo facções carregadas de inimizade. As mídias e redes sociais acirram a linguagem imediatista desprovida de reflexão, em que basta um slogan indutor para compactar grupos enraivecidos justificados por identidades grupais aglutinadas. O outro se torna diferente, estranho, desprovido de legitimação, objeto de projeções sombrias. Populações chegam a extremos agravados por armamento legalizado com ocorrências de surtos de matanças. As armas, entretanto, não necessitam ser materializadas para compor um cenário de guerra com os justos de um lado e os infiéis de outro.
Em uma cultura dominada pela pressão constante para a comunicação e o culto da informação (Han, 2018; 2022), mensagens simplificadas induzem conteúdo emocional de apelo para a ação impulsiva. A aceleração temporal sequer permite o arrependimento; imperam a suspeita, a defesa, a manutenção da suposta segurança grupal. Esta é a paranoia contemporânea, quase psiquiátrica, uns contra os outros, perseguidores e perseguidos em papéis complementares. As alucinações paranoides endossam certezas irremovíveis, o delirante não se reconhece no delírio, ainda mais quando este delírio é coletivo.
Refletir sobre esta condição é objeto da filosofia, da política, das ciências humanas, da arte em geral e especificamente da literatura e do cinema. Aqui lemos nossos mitos contemporâneos, nossas utopias e distopias. Ocorre uma desordem social, a anomia de Durkheim1, organizada em torno do que se entende por paranoia. Impera o medo do outro que nos ameaça, instigando atitudes defensivas e raivosas. A fantasia e o imaginário abrem espaços na confusão, no emaranhamento devorador, denunciando o que somos, antecipando finais catastróficos, alertando a consciência dominada pela vertigem. Jung (1922/2013, p. 84, § 131) antecipou a função da arte como “processo de autorregulação espiritual na vida das épocas e das nações”.
Com o intuito de promover uma reflexão sobre o mal-estar contemporâneo decorrente de paranoias e seus efeitos deletérios na sociedade e nos indivíduos, este artigo visa ressaltar a experiência e os componentes sociais e de relacionamentos em grupo que estimulam ideias e sentimentos de cunho paranoide ilustrados pelo imaginário distópico da literatura e do cinema.
O transtorno paranoide
Na psiquiatria, o transtorno paranoide pelo DSM-5 entra no rol de delírios no Transtorno do Espectro da Esquizofrenia, principalmente caracterizado como Transtorno da Personalidade Paranoide. Podem decorrer atos antissociais ao interpretar fatos e ações inócuas como ameaçadoras, quando a pessoa pode ser levada a reagir vingativamente, raivosa e agressivamente, devido à desconfiança e suspeita perante os outros que poderiam prejudicá-la de modo a ser enganada, explorada, sujeita a traições e exposta nas informações a seu respeito.
Bleuler e Jaspers foram os primeiros a acrescentar uma perspectiva compreensiva de teor clínico à perspectiva meramente descritiva na psicopatologia da esquizofrenia. Bleuler (1960) introduziu componentes compreensivos e interpretativos, sem deixar de lado a descrição e sistematização. Kraepelin (1996) também frisava que as ideias incorretas não eram acidentais, mas respondiam a necessidades internas dos pacientes, destacadas por Bleuler (1942) como necessidades afetivas criando delírios significativos para a personalidade da pessoa acometida, vinculados à sua história.
De acordo com Jaspers (1979), o delírio propriamente dito implica em uma transformação da apreensão total da realidade e se manifesta em julgamentos patologicamente falseados. São distintos de fanatismos, superstição, ou erros normais de julgamento que, em tese, podem ser corrigidos com o tempo. Suas características são a convicção irremovível, serem impermeáveis a outras experiências e/ou contra-argumentação, ter conteúdo impossível em termos de realidade factual, serem incorrigíveis e dotados de certeza subjetiva.
Importa no contexto deste artigo destacar que Jaspers (1979, p. 98) se refere a sensações primárias de estranheza: “não estou certo do que seja, mas algo está acontecendo”; irrompe um sentimento de perplexidade. Há algo no ar, uma tensão misteriosa, a desconfiança e o desconforto apoderam-se da pessoa, algo insuportável que produz um enorme sofrimento e só diminui quando se formula uma ideia. Tudo adquire um novo sentido, uma consciência do significado alterada invade causando muita estranheza, aplacando a perplexidade com explicações.
Com respeito ao conteúdo, este deriva de uma distorção radical na interpretação dos fatos e vivências. Sonenreich (apudDalgalarrondo, 2008) assinala uma relação com o mundo sem se interrogar ou experimentar distintas possíveis soluções. O sujeito se enrijece e empobrece, lançando mão de ideias automatizadas, simplificadas e pré-fabricadas. O delirante é o sujeito com mais certezas que há, não admite a dúvida, por isso, é privado de liberdade existencial. Por sua vez, Hillman (2016, p. 65) frisa que se trata de uma doença do significado, pois, “sempre que revelamos o significado de algo, atraímos um potencial paranoico”.
O funcionamento paranoico aponta para um mecanismo em que a suspeita é constantemente posta em evidência. Luigi Zoja (2013), em Paranoia: la locura que hace la historia, assume que a paranoia não é em si uma patologia e nem está necessariamente ancorada em teorias da conspiração. A humanidade em sua instintividade está alicerçada na autopreservação, e desconfiar e suspeitar em certo grau faz parte de um funcionamento normal do desenvolvimento e das relações. Ocorre que a paranoia coletiva – que será aqui abordada – trata de um modo de funcionamento exacerbado de projeção de agressividade que circularmente se perpetua e obstaculiza possibilidades mínimas de autorreflexão, necessárias ao pensamento crítico sobre fatos e fenômenos. De acordo com Zoja (2013), a projeção é o caminho inicial para a paranoia, a qual materializa os problemas externos sem possibilidade de autocrítica e diálogo interno.
Fora do âmbito da psiquiatria, psicanalistas observam aspectos de convívio social que podem estimular aquilo que Zoja denomina de funcionamento paranoide não patológico, uma ideação que recebe contaminação coletiva. Esta contaminação é a amálgama que liga a massificação de grupos, a qual é facilitada nas sociedades contemporâneas pela dependência de tecnologia e de comunicação digital. Em regimes abertamente autoritários ou de cunho autoritário, a mídia e as redes sociais são empregadas como sistemas de eficiente controle social.
A psicologia de massa
Uma das ideias importantes trabalhadas por Jung na obra Civilização em transição, baseia-se em teorias de massificação. É preciso lembrar que Jung viveu em uma época atravessada por duas grandes guerras mundiais e conflitos geopolíticos em que a destruição constante representava um potente símbolo daquele tempo. É possível, portanto, compreender o porquê de ele tanto temer e fazer forte oposição ao aglutinamento do sujeito de massa, uma vez que nessas condições pouco resquício de individualidade sobressairia e, desse modo, o indivíduo tenderia a recair em dinâmicas regressivas, atraído por ideias totalitárias sem um mínimo de reflexão crítica sobre seus próprios pensamentos e ações. O ancoramento em um senso de coesão e integridade interna seria um contrapeso para a avalanche dos movimentos indiferenciados.
Tanto Jung como Freud embasaram suas propostas na teoria de Gustave Le Bon e seu trabalho Psicologia das multidões (2008). Freud escreveu Psicologia de grupo e a análise do ego (1921/1969) e, nessa obra, ele indica que o indivíduo envolto na massa/grupo tende a se livrar das repressões de seus impulsos inconscientes, colaborando para um estado de afrouxamento da consciência e diminuição de sentimento de responsabilidade. Outras características importantes do funcionamento da dinâmica de massa/grupo2 são: a sugestionabilidade e o contágio, a impulsividade, a excitação, a inclinação a extremos, a diminuição das inibições individuais, a falta de senso crítico, o aumento da emocionalidade, o compartilhamento de interesses em comum em torno de ideias e/ou objetos, e o desejo de ser amado pelo líder (Freud, 1921/1969). Fundamentalmente, Freud considera que,
[...] o indivíduo num grupo está sujeito, através da influência deste, ao que com frequência constitui profunda alteração em sua atividade mental. Sua submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto que sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida, com ambos os processos evidentemente dirigindo-se para uma aproximação com os outros indivíduos do grupo (Freud, 1921/1969, p. 99).
Sob essa tônica Jung escreve:
Da mesma forma que o indivíduo, o grupo é influenciado por muitos fatores típicos como o ambiente familiar, a sociedade, a política, a cosmovisão, a religião etc. Quanto maior o grupo tanto mais funciona nele a pessoa como ser coletivo, e isto é tão forte que pode rebaixar a consciência individual até o autoesquecimento (Jung, 1959/2011a, p. 218, § 891).
Ele também dava ênfase à massificação orientada para a atomização dos indivíduos promovendo desconfianças nos relacionamentos e consequente isolamento (Jung, 1957/2012a), o que subjaz na literatura distópica a ser apontada.
Os movimentos de grupo garantem coesão, mas não oferecem segurança, pois há uma dependência inerente e o temor de exclusão constante. A sociedade da incerteza, de um lado, estimula narcisismos e idolatrias e, de outro, acopla mecanismos de facilitação utilitária alheios ao indivíduo. Ou seja, a pessoa se torna cada vez mais dependente daquilo que desconhece fomentando paranoias. Lembremos que o próprio Jung tratou em diversas ocasiões dos riscos e consequências dos excessos do racionalismo científico e o uso da técnica, como em O símbolo da transformação na missa, texto no qual ressalta um sintoma de desenraizamento do indivíduo das populações industriais decorrente de sistemas de economia e do progresso da técnica. Essas mudanças trouxeram em primeiro plano a primazia da racionalidade da consciência, a qual tende a recalcar todos os fatores psíquicos de natureza irracional (Jung, 1942/2011b), incorrendo em unilateralidades de ordem individual e coletiva prejudiciais à saúde psíquica. Em Presente e futuro Jung também aborda essas ideias:
[...] um dos principais fatores da massificação é o racionalismo científico. Este deita por terra os fundamentos e a dignidade da vida individual ao retirar do homem a sua individualidade, transformando-o em unidade social e num número abstrato da estatística de uma organização (Jung, 1957/2012a, p. 18, § 501).
Jung (1957/2012a) parte desses princípios do funcionamento coletivo regredido para alertar que será utilizado por estados totalitários que se apoiam na inconsciência e em componentes simbolicamente ativados e presentes na psique do grupo em busca de um líder que atenda a essas projeções inconscientes. O governante, por sua vez, usa essa força grupal para dominação e manipulação via propaganda, acirramento de ordens e, principalmente, estimulando nacionalismos. Pensar um Estado ditatorial de extremo controle e vigilância e uma sociedade altamente estratificada e desumanizada, foram ideias basilares de diversas obras clássicas da ficção científica, certamente respaldadas pelos acontecimentos históricos do mundo e os exemplos de governos totalitários.
Automação e tecnologia
A respeito da automação e de seu vertiginoso pendor para a alienação, Jung declara que quanto mais subimos a montanha das realizações científicas e técnicas, mais perigoso e diabólico se torna o mau uso de nossas invenções (Jung, 1939/2011a). E ainda, pondera que o indivíduo é escravo e vítima das máquinas que lhe “arrancam seu tempo e espaço” (Jung, 1957/2012a, § 524).
Decerto, os avanços tecnológicos e os dispositivos que usamos em nosso cotidiano facilitam a execução de diversas atividades que ganharam rapidez e alcance, encurtando espaços e tempos. Necessidades materiais e intelectuais são supridas por ferramentas e dispositivos que organizam a vida contemporânea.
Apesar dessas facilidades inquestionáveis, tem sido problematizado por distintos autores como os usos e abusos das tecnologias são passíveis de amplificar conflitos humanos e interferir diretamente na forma como existimos e nos relacionamos com os outros. O filósofo coreano Byung-Chul Han, em seus livros Sociedade da transparência (2017) e Sociedade do cansaço (2015), expõe as ideias referentes à sociedade disciplinar, da exposição e do controle, que funciona como um modelo de sociedade que depende das formas pelas quais nos expomos em busca de atestar o nosso valor: o valor expositivo. Mas, ao mesmo tempo em que se aparece para o outro, para o grupo e para a mídia, acrescem-se informações codificadas de ordem pessoal que serão eventualmente utilizadas por sistemas públicos – sejam políticos ou financeiros – para fins próprios.
Aproximando-se dos autores distópicos, Han descreve uma sociedade para além da disciplinar, pois os modos de coerção vão perdendo seu caráter mais explícito e violento, dando lugar a uma introjeção e conformação em que o indivíduo se proclama livre, autônomo e desejante, sem atinar com a inconsciência e dependência que se voltam contra si, como se a amarra de ordem externa fosse substituída pelas amarras internas.
Sintetizando tais ideias, a autora Zuboff (2018) no texto “Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma civilização de informação”, trata do impacto do governo algorítmico em nossos tempos fazendo um paralelo com um dos símbolos distópicos mais conhecidos, presente em 1984, o Big Brother. Argutamente realça que, apesar da vigilância do Big Brother requerer certa fisicalidade e se apresentar por fronteiras presenciais, estaríamos hoje vivendo a partir de um Big Other, referindo-se à máxima extensão da tecnologia e sua governança sobre todas as informações que compartilhamos voluntariamente ou não, emulando a pretensa ideia de um sentimento de liberdade. Na dinâmica do Big Other as fronteiras tendem a desaparecer, pois é uma rede complexa que está em todo lugar e, ao mesmo tempo, em lugar algum.
Um livro que aponta para um cenário atual próximo à literatura distópica é a obra Cidades sitiadas: o novo urbanismo militar, de Stephen Graham (2016), que descreve sistemas militarizados de rastreamento, triagem e controle que fazem parte da urbanização. No capítulo instigante “Sonhos de um robô de guerra”, se descrevem pesquisas de segurança e defesa norte-americanas que chegam a planejar robôs para matar. São fantasias de onipresença e onisciência tecnológicas, como aponta Graham (2016), fantasias racistas onipotentes coloniais.
O suposto avanço tecnológico prevê que as máquinas irão discernir quem é inimigo e quem não é, quem tem que viver ou morrer (Graham, 2016). São estas as trevas ressurgentes do passado com seu efeito devastador de máquinas para matar: bomba atômica, câmaras de gás, mísseis de destruição, guerras bacteriológicas. Ilustra-se em grande escala a denúncia de Huxley sobre o uso da tecnologia desprovida de ética e de discernimento, a mecanização da destruição. A este respeito Harari (2018) assinala que, pela primeira vez na história, dispositivos tecnológicos como a Inteligência Artificial (IA) adquirem um grau de autonomia de processamentos e de formulações baseadas na lógica algorítmica.
A ficção distópica
Grupos nos quais a individualidade é anulada, que seguem ideias panfletárias, manipulados por governantes e sistemas de poder autocráticos pautados pela vigilância, são magnificamente retratados nas ficções distópicas. Utopia (topos: lugar) significa não lugar; já distopia, seria o lugar do mal, da dificuldade (dis). Essas narrativas constituem metáforas de uma realidade social e material. Particularmente, o que chama mais a atenção é o modo peculiar com que essa produção literária exagera as circunstâncias reais, seja pensando futuros próximos ou distantes. As distopias clássicas se apresentam por vezes com cenários hipermodernizados, conjuntamente com cenários totalmente precarizados, de vidas precarizadas, transluzindo desigualdades, estratificações, gentrificação, controle, vigilância, alienação, maquinários e maquinações, o terror; mas, também, subterfúgios para se encontrar uma pretensa harmonia, recursos para se entorpecer diante dos desarranjos sociais e do embrutecimento das relações humanas, ou, como diria Huxley (1932/2009, pp. 20, 362), uma população que ama sua servidão, “refém de uma boa quantidade de vícios amáveis”.
Em Nós de Ievguêni Zamiátin (2017) a sociedade se apresenta formatada por um Estado único com um funcionamento totalitário em que o controle é a metáfora-chave. Impera a privação do livre-arbítrio, da individualidade e da liberdade de expressão. Tudo é mecanizado e os sujeitos são desprovidos de seus nomes. Mais significativo ainda é o fato de que a imaginação é tratada como uma doença que deve ser extirpada.
A partir da leitura de Nós, não é difícil reconhecer similaridades com Admirável Mundo Novo (1932/2009) de Aldous Huxley, podendo a obra ter servido de inspiração para esse autor. A sociedade expõe sua divisão de classes em que as pessoas são criadas em laboratório, aceitam sua servidão e se entorpecem em suas adições com uma droga chamada soma. Apesar de também se revelar pela metáfora do controle, a vigilância não se faz presente de forma tão óbvia e coercitiva, o que aponta para a capacidade humana de se alienar diante das formas de opressão e introjetar um modelo de organização social e relacional sem questioná-lo criticamente. A subserviência e as mazelas sociais se tornam então produtos de espetacularização e de entretenimento.
Outra distopia clássica é 1984 de George Orwell, originalmente publicada em 1949. Esta se aproxima mais de Nós no retrato de como a sociedade é formatada, tendo George Orwell inclusive publicado uma resenha de Nós no ano de 1946 (Orwell, 2017). A sociedade em 1984 não chega a parecer tão automatizada em relação ao avanço tecnológico, mas se mostra atomizada e mecanizada nos seus modos de organização e de relações humanas. Ambos os romances se assemelham em suas metáforas de controle social em modos altamente coercitivos.
Nessas obras há pontos a destacar passíveis de criar um ambiente de paranoia. O primeiro é o controle de modelos de sociedade autocráticos e/ou utilitaristas em alto grau, e o que decorre dessas formas de controle: o totalitarismo, a vigilância, a perseguição, a estratificação, a desigualdade social, a automatização, a atomização, a destruição, que contribuem para a perda da individualidade, para a desumanização, a alienação, a violência, e fomentam a desconfiança, a intolerância, a suspeita, a insegurança, o terror; em suma, o medo associado ao ódio. O segundo se refere às contradições entre liberdade e automatismo, o público e o privado, entre o individual e o coletivo, o que se reflete na contemporaneidade.
A fim de metaforizar a realidade e alimentar a imaginação de forma crítica, outra obra aponta diretamente para temáticas do esgarçamento das relações humanas. Eu, robô (1950/2014) de Isaac Asimov é um notório clássico na literatura de ficção científica e suscita indagações sobre o avanço tecnológico interferindo em nossa vida cotidiana e até que ponto a humanidade pode ser engolfada por suas próprias invenções. Essa obra se constitui de diversos contos que se entrelaçam de forma sequencial, em que três leis da robótica inicialmente propostas para proteção dos humanos vão sendo gradativamente afrouxadas:
A primeira: um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido [...]. A segunda [...] um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei [...]. E a terceira: um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei (Asimov, 1950/2014, p. 65).
Muito próximo da temática de Eu, robô, é o também clássico e adaptado para o cinema Blade Runner (2019), de Philip K. Dick. Foi publicado originalmente em 1968 sob título original de Androides sonham com ovelhas elétricas? Essa obra distópica reúne muitos dos elementos aqui apresentados, assim como em Eu, robô a narrativa abarca conflitos existenciais problematizando uma interpenetração das fronteiras que separam aquilo que se constitui como humano e aquilo que constitui o mundo das máquinas; algo como humanos robotizados e androides humanizados. Note-se que, em Admirável mundo novo, a droga soma tinha a função de entorpecer diante das precariedades do cotidiano e, em Blade Runner, apesar de ser possível escolher o estado de humor e os sentimentos por meio do sintetizador de ânimo, há uma fuga da condição de vida diminuída. Não é difícil traçar paralelo com as substâncias aditivas que ora entorpecem, exaltam ou são afrodisíacas, destacando que o estado psíquico paranoide – aqui, na suspeita sobre quem é ou não humano – provoca uma aceleração mental e emocional que se contrapõe ao vazio interior e o esquecimento de si.
Anular os outros tem alcance mais eficiente se anularmos seus pensamentos. Em Fahrenheit, 451 de Ray Bradbury (1953/2012), os bombeiros, a mando do governo despótico, têm a atribuição de incendiar os livros, o que ocorre de outros modos hoje em dia em governos de índole totalitária; por exemplo: proibição de autores ou banimento, pois se faz necessário inibir a cultura, as artes e a ciência, que estimulam a liberdade de pensar e a informação correta. Prevalece o culto à ignorância e desprezo pelo conhecimento, com negacionismos históricos e científicos, repleto de coibição dos possíveis modos de emancipação do pensar e da imaginação crítica.
Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum [...]. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso [...]. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-as com “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando, terão a sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque os fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências (Bradbury, 1953/2012, p. 84).
A construção paranoide
A construção da subjetividade é permeada por componentes internos e pelo ambiente e cultura em que a pessoa está inserida. Portanto, diante do cenário descrito de individualismo, de afastamento da presença que se transforma em bidimensional e carente de concretude, ocorre um fenômeno de entrincheiramento no qual circulam sentimentos e ideias semelhantes. Sair dele representaria um risco ao imediatismo que se alimenta de certezas operantes mediante respostas rápidas e unívocas. A estranha sensação de sermos controlados é abstrata e remota, portanto, esta se projeta em quem parece diferente.
Vai consequentemente imperar a desconfiança. O outro ameaça, precisa ser neutralizado ou, pior, combatido, em circunstâncias extremas, até mesmo aniquilado. Note-se que não se trata de sobrevivência, mas de repelir o diferente, tão diferente que chega a ser mortífero. A pandemia da COVID-19, uma ameaça factual de contaminação e adoecimento grave, além da materialidade, acrescenta matizes simbólicas perante o outro como ameaça invisível: se não sei quem está infectado, qualquer um pode me matar. O clima de suspeita, potencializado na pandemia, foi um fomento à paranoia que, psiquiatricamente, caracteriza o delírio persecutório deixando a pessoa acometida permanentemente em sobressalto e suspeita de algum ataque que viria de modo inesperado e totalmente imprevisível. Portanto, desconfia-se de tudo e de todos.
A este respeito não é difícil pensarmos em diversos exemplos vividos atualmente em distintos países e no nosso, que revelam um modo paranoico de se relacionar e pensar os acontecimentos do mundo. Os cenários políticos dos últimos anos são reveladores, assim como toda sorte de conflitos que emergiram nas relações mais íntimas, como no meio familiar e nas relações interpessoais. No Brasil, deu-se a polarização política extremada entre esquerda e direita, que chegou a provocar distanciamento entre familiares e amigos. A própria vacinação, assunto de debate científico, se tornou disputável partidariamente, alguns contra ela como marca de identidade grupal.
Novamente, as distopias nos aproximam de realidades devastadoras. Zoja (2013) trata do funcionamento granítico da paranoia de massa e o cultivo do ódio, exemplificada com o propagandista central do nazismo, Joseph Goebbels. No ano de 1943 Goebbels anunciou à multidão ensandecida que haveria uma guerra total e, por meio de um discurso retórico, viu a massa ficar alucinada respondendo sempre “sim” ao seu líder. Logo depois, o próprio Goebbels declarou que tinha chegado a “hora dos idiotas!”, e que se ele pedisse para que se atirassem do terceiro andar de onde estavam, o teriam feito (Zoja, 2013).
Os dois minutos de ódio implementados pelo Estado na obra 1984 mostra o ódio paranoide irracional que serve aos propósitos de um estado de guerra. Na contemporaneidade, não é necessário estar em guerra factual para esses dois minutos ocorrerem como um ritual coercitivo. As pessoas da massa são facilmente manipuladas posto que já se encontram em estado de desconfiança. Nas palavras de Zoja (2013, p. 260): “com o aumento das comunicações massivas, aumentam as possibilidades de difundir a paranoia coletiva”. Presenciamos cotidianamente pessoas destilando raiva por meio das mídias digitais de forma constante: ameaças, depreciações, discriminações, exposições e humilhações sob o libelo da suposta liberdade de expressão – mesmo que se ocultem em contas falsas. São guerras ideológicas e partidárias das quais governantes sem escrúpulos se aproveitam, afinal, “guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força” (Orwell, 2009, p. 14).
O funcionamento paranoide se propõe como o oposto à alteridade, o reflexo na face do outro de Lévinas (2010) se transforma na desconfiança que se origina, em última instância, do medo da existência. O ser isolado e individualista encontra apoios materiais e utilitários, entretanto, estes não apaziguam seu temor de aniquilamento, sentindo-se como que encapsulado, rodeado por entes alheios que o ameaçam. A literatura e cinematografia zumbi exploram bem esta imagem.
O outro que ameaça é hostilizado pelas razões mais variadas: em torno de uma ideia, de uma crença, de uma religião, uma nacionalidade, um lugar, um gênero, uma orientação sexual, uma etnia, uma classe, ou qualquer outridade que se apresente destoante de modelos que se erigem hegemônicos de existência. A sombra individual e grupal subjaz àquilo que é negado em si e projetado no outro, impossibilita-se a alteridade e introduz-se a violência, a face oculta não pode ser tolerada.
O analista junguiano Warren Colman tece considerações clínicas a respeito do sentimento de paranoia individual entrelaçado ao coletivo.
Apesar do fenômeno cultural coletivo não poder ser reduzido a explicações nos termos da psicologia individual, eu penso que é possível manter um foco dual que reconhece os modos como questões coletivas impactam o mundo interno do indivíduo, e ao mesmo tempo reconhece os modos em que o mundo interno dos indivíduos molda a construção do mundo social (Colman, 2010, p. 7).
O texto de Colman é elucidativo para se pensar esse foco dual uma vez que traz um caso clínico como ilustração, contemplando elementos clínicos fornecidos por seu paciente por meio de narrativas e imagens do filme The Matrix. As narrativas sobre teorias da conspiração são alinhadas ao seu histórico de vida na infância e sua sensação de abandono, com sentimentos de impotência, medo e raiva. O autor expõe que, após anos em que interpretou tais conteúdos com base nos significados da psicologia individual do paciente e em suas próprias projeções, precisou depois reconhecer a importância da dimensão sociopolítica, particularmente aspectos dessa que compunham a fantasia do paciente, como a hegemonia do racionalismo científico materialista, o impacto destrutivo da globalização, o crescimento da agenda neoliberal nos campos social, econômico e político da vida. Em suma, as circunstâncias culturais se faziam necessárias para fundamentar uma compreensão mais profunda das fantasias pessoais paranoides do paciente, ecoando uma paranoia coletiva.
Um dos temas que o autor destaca, relevante para esta reflexão, além da interface entre circunstâncias externas e ideação individual, é a complexificação de um mundo cada vez mais inalcançável e remoto, que se torna experimentado por meios indiretos e alienantes da mídia e da comunicação tecnológica. Assim como descrito por Galimberti:
[...] somos forçados a compreender que as tecnologias não são os meios à disposição dos indivíduos, mas o meio pelo qual o indivíduo experimenta modificações. Tecnologia representa um absolutamente novo e, talvez, irreversível momento histórico, no qual a questão não é mais ‘o que podemos fazer com a tecnologia?’, mas ‘o que a tecnologia fará a nós?’ (Galimberti, 2009, p. 15).
Constela-se nesse domínio e manipulação por meio da tecnologia, uma sociedade dividida entre dominantes e dominados, mas todos à mercê de um Senhor abstrato. O ex machina grego do destino se transforma em uma máquina. Eu, robô e a série de ficção Black Mirror conseguem ilustrar possíveis alcances dessa vivência distópica contemporânea, um fenômeno altamente complexo que indica a assimilação humana pelas criações tecnológicas. Estas chegam a interferir em nossas vidas, nas relações e até na forma de sofrer.
A sombra está vinculada àquilo que nos faz sofrer, havendo defesas para evitar esse sofrimento, seja ele decorrente de angústias existenciais, de traumas, de dores registradas. A sociedade contemporânea acresceu a tecnologia aos escapismos supostamente manejáveis, entendendo-se que a paranoia decorre de uma maciça projeção do que se teme reconhecer em si, da sombra que todos carregamos. O antídoto, segundo Jung, seria ter a coragem de reconhecê-la ao invés de atirá-la nos oponentes. O processo de individuação implica a diferenciação do eu, a saída do conglomerado indiscriminado, a possibilidade de refletir sobre si e a vida em coletividade. Ativa-se o instinto de reflexão, característico e peculiar à psique humana, de acordo com Jung em A natureza da psique (1936/2011c), assim como a necessidade de um lastro interior (Jung, 1957/2012a).
Entretanto, a vida coletiva não se resume a esta faceta inibitória e nociva, pois Jung não deixou de reconhecer e de enfatizar o valor das relações e das vinculações humanas, da necessidade do outro para nossa individuação. A comunidade humana poderia deixar de ser uma massa anônima para se tornar uma “comunidade consciente” (Jung, 1946/1977, § 227). Retomando o desenraizamento, a automação e a perda de uma vida simbólica mais saudável e integrativa, cabe seu poético apelo em Ab-reação, análise dos sonhos e transferência: “O que falta ao nosso mundo é a conexão anímica” (Jung, 1946/2011d, § 539). Justamente essa conexão se rompe na paranoia, a interioridade é um poço obscuro cujas emoções indiferenciadas, mas potentes, são extravasadas para fora de si. Cego em relação a si mesmo, o paranoide não vê o outro e é perseguido por sua cegueira e visão delirante, sua impotência, desamor, medo e agressividade transformados em espetáculo de perseguição de sombras.
Considerações finais
O presente artigo se propôs a ilustrar, mediante obras ficcionais de distopias, a problemática do indivíduo inserido nos grupos. Abordou a massificação em detrimento da individualidade com efeitos de obscurecimento de discriminação. Os cenários distópicos imaginais nos ajudam a refletir sobre os efeitos aniquiladores da avidez e da violência, sobre a imoralidade da tecnologia à serviço da dominação e do controle, sobre as tiranias necropolíticas – ostentadas ou disfarçadas –, sobre o que se almeja como projeto de sociedade e de cultura.
O comportamento e a ideação de cunho paranoide são observados coletivamente quando se rompem rumos norteadores. Eclodem então certezas fictícias embasadas na desconfiança do outro, visto como perseguidor e inimigo. Aprende-se com a psiquiatria que a paranoia decorre de projeções de sentimentos negados hostis, o agressor está fora. Há ainda uma condição existencial de estranheza, de desconforto insuportável, altera-se o significado do entorno e de si mesmo.
A paranoia coletiva nasce de projeções para evitar o intolerável em si e fomenta ódios intensos quando se aglutinam grupos sem autocrítica. Estes agem por sugestionabilidade e contágio emocional, podendo ser facilmente manipulados por dirigentes e sistemas de poder.
Transformados em estatísticas, sem atinar com aquilo que os controla, os indivíduos se apoiam cegamente em busca de identidades asseguradoras, dirigidos por aqueles no comando em benefício próprio. As emoções são perigosamente induzidas, chegando à exaltação paranoide que se contrapõe ao vazio interior. As turbas enraivecidas carecem de dúvidas, de inseguranças, o medo se dissipa, a suspeita e os ataques imperam.
As distopias exageram cenários futuros justamente porque são capazes de imaginar a extensão da estupidez, da crueldade e do ódio; incitam-nos a ponderar futuros possíveis e refletir sobre escolhas que inibam as ameaças de demolição das individualidades, possibilitando a cooperação e a sustentabilidade. O tempo cadenciado da reflexão se contrapõe ao tempo acelerado do imediatismo e da impulsividade.
O artigo não abordou a diferença conceitual existente entre grupo e massa, tomados aqui como equiparáveis. Ainda outras vertentes se prestariam a elucidar a temática proposta, assim como diferentes obras literárias ficcionais poderiam ter sido apresentadas. Trata-se de um recorte com o intuito de incitar uma discussão atual e pertinente no mundo globalizado cada vez mais tensionado em oposições étnicas, nacionais, polarizando identidades grupais. ■










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