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Junguiana

 ISSN 2595-1297

Junguiana vol.44  São Paulo  2026   10--2026

https://doi.org/10.70435/junguiana.v44.320 

Artigo Original

Aspectos simbólicos da dependência de álcool por mulheres: um olhar junguiano

Aspectos simbólicos de la dependencia del alcohol en las mujeres: una perspectiva junguiana

Alice de Magalhães Silvestre, foi responsável pela concepção da ideia original e pela redação do manuscrito* 

Psicóloga (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Pós-graduanda em Dependência Química (Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein – São Paulo).


http://orcid.org/0009-0006-7927-9981

Paula Pinheiro Varela Guimarães, atuou na orientação do trabalho** 

Doutora em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Estudos Junguianos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Analista de Promotoria e Psicóloga do Ministério Público do Estado de São Paulo.


http://orcid.org/0000-0003-2284-4880

* Pesquisadora independente. São Paulo, São Paulo. Brasil. alicemagalhaes.psi@gmail.com

** Professora do Curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, São Paulo. Brasil. paula.ppvg@gmail.com


Resumo

Este artigo explora os aspectos simbólicos da dependência de álcool em mulheres à luz da Psicologia Analítica de C. G. Jung. Focaliza a pesquisa para compreender o álcool como símbolo para as usuárias e analisa as inter-relações entre o seu uso excessivo e sua repercussão psíquica. Para atingir tais objetivos, realizaram-se três entrevistas por psicólogas atuantes na área da dependência de álcool, analisadas com base na elaboração de quatro grupos temáticos: relação de gênero e estigmatização, persona e complexos, amortecimento de sentimentos e possibilidades de ressignificação e símbolos. Os resultados apontaram para a multifatorialidade do fenômeno, destacando o papel dos estigmas sociais, relações afetivas e familiares comprometidas, abuso, vazio existencial e dinamismos psíquicos tanto individuais quanto coletivos. O estudo conclui que o vazio, o materno e o álcool são elementos simbólicos centrais no entendimento da dependência de álcool por mulheres e sugere a necessidade de novas pesquisas com amostras mais amplas para compreensão mais abrangente.

Palavras-chave: alcoolismo; mulheres; símbolos; estigmatização; Psicologia Analítica

Resumen

Este artículo explora los aspectos simbólicos de la dependencia del alcohol en mujeres a la luz de la Psicología Analítica de C. G. Jung. Se centra en la investigación para comprender el alcohol como símbolo para las usuarias y analiza las interrelaciones entre su uso excesivo y su repercusión psíquica. Para alcanzar dichos objetivos, se realizaron tres entrevistas por psicólogas actuantes en el área de la dependencia del alcohol, analizadas con base en la elaboración de cuatro grupos temáticos: relación de género y estigmatización, persona y complejos, amortiguación de sentimientos y posibilidades de resignificación y símbolos. Los resultados señalaron la multifactorialidad del fenómeno, destacando el papel de los estigmas sociales, las relaciones afectivas y familiares comprometidas, el abuso, el vacío existencial y los dinamismos psíquicos tanto individuales como colectivos. El estudio concluye que el vacío, lo materno y el alcohol son elementos simbólicos centrales en la comprensión de la dependencia del alcohol en mujeres y sugiere la necesidad de nuevas investigaciones con muestras más amplias para una comprensión más abarcadora.

Palabras claves: alcoholismo; mujeres; símbolos; estigmatización; psicología analítica

Abstract

This article explores the symbolic aspects of alcohol dependence in women in the light of C. G. Jung’s Analytical Psychology. It draws on empirical research aimed at understanding alcohol as a symbol for female users and at analyzing the interrelations between excessive use and its psychic repercussions. To achieve these aims, three interviews were conducted with psychologists working in the field of alcohol dependence, and the material was examined through four thematic groups: gender relations and stigmatization; persona and complexes; numbing of feelings and possibilities for re-signification; and symbols. The results pointed to the multifactorial nature of the phenomenon, highlighting the role of social stigma, compromised affective and family relationships, abuse, existential emptiness, and both individual and collective psychic dynamics. The study concludes that emptiness, the maternal dimension, and alcohol itself are central symbolic elements in understanding alcohol dependence in women and suggests the need for further research with larger samples to achieve a broader comprehension of the issue.

Keywords: alcoholism; women; symbols; stigmatization; Analytical Psychology

Introdução

O álcool é uma substância universal que ocupou lugar de destaque na cultura de diversas civilizações e constantemente acompanha a humanidade desde seus princípios. Seu uso em rituais religiosos e cerimônias de confraternização, sua propriedade de esterilização e sua presença fundamental em diversos remédios são alguns dos aspectos que enfatizam a universalidade da substância e suas múltiplas funções (Gigliotti; Bessa, 2004). A concepção do alcoolismo como doença surgiu no século XVIII, após a crescente produção e comercialização do álcool destilado. Com a Revolução Industrial, como Oliveira et al. (2019) explicam, ocorreram grandes concentrações urbanas, com a ampliação da produção e redução do preço de bebidas alcoólicas, “[...] culminando na modificação no caráter de consumo dessa substância, deixando de estar relacionado a questões de subsistência, tornando-se um produto comercializável” (Oliveira et al., 2019, p. 260). Conjuntamente, com o avanço científico e o nascimento da ciência moderna, o uso do álcool passou a se tornar um fenômeno de estudo por parte de teóricos da época.

Nesse contexto, conforme Oliveira et al. (2019), destacam-se dois autores: Benjamin Rush e Thomas Trotter. Eles foram os primeiros a apresentar os efeitos negativos do consumo excessivo de álcool, ao considerarem a embriaguez como “[...] uma consequência da perda de autocontrole sobre o consumo, o que comprometeria o equilíbrio saudável do corpo” (Oliveira et al., 2019, p. 261). Ainda segundo esses autores, foi Trotter que, pela primeira vez, reconheceu o alcoolismo como doença. Apesar de Rush e Trotter terem contribuído muito para a discussão e delimitação da embriaguez no campo das doenças, não a converteram em critérios diagnósticos. Foi somente a partir do trabalho desenvolvido pelo médico sueco Magnus Huss que o conceito de alcoolismo crônico foi introduzido, a fim de se obter uma definição majoritariamente médica, bem como “[...] realizar o tratamento dessas complicações e eliminar o estigma moral e a vergonha que impediam a procura ao tratamento” (Oliveira et al., 2019, p. 262).

Com o avanço das classificações diagnósticas, o termo foi posteriormente atualizado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) para “transtorno por uso de álcool”, condição caracterizada pela ocorrência de prejuízos e/ou sofrimento clinicamente significativo, cuja gravidade varia conforme o número de sintomas apresentados. Os critérios diagnósticos propostos por Griffith Edwards e Milton Gross oferecem uma perspectiva clínica importante para compreender a complexidade da dependência. A chamada síndrome de dependência aponta sete elementos fundamentais que a norteiam: compulsão pelo uso da substância; aumento da tolerância; manifestação de sintomas de abstinência; uso frequente com a intenção de evitar ou aliviar os sintomas de abstinência; estreitamento do repertório de uso, com padrões cada vez mais rígidos e previsíveis; aumento da saliência do uso e, por fim, a reinstalação da síndrome de dependência, mesmo após períodos de abstinência, evidenciando o caráter crônico e recidivante do transtorno (Edwards, 2005).

Em relação ao uso das drogas e à dependência, Sodelli (2016) explicita a necessidade e a importância de abandonar uma visão simplista:

Ao avaliarmos o fenômeno do uso de drogas, sob a ótica de sua singular complexidade, estaremos prontos para abandonar a ideia simplista de um único padrão de uso. O uso de uma substância psicotrópica não culmina, necessariamente, no fenômeno da dependência. Observamos, então, infinitas possibilidades de padrões e modos de uso de drogas (Sodelli, 2016, p. 38).

Em relação à complexidade e a multifatorialidade envolvidas no diagnóstico da dependência, Sodelli (2016, p. 38) também discorre que “[...] são muitas as variáveis que operam simultaneamente para influenciar a probabilidade de uma determinada pessoa tornar-se um dependente, organizadas em três categorias: substância (drogas), usuário (pessoa) e o meio social (contexto)”.

O consumo de álcool por mulheres

Apesar da maior prevalência do alcoolismo entre homens, a associação dessa condição ao gênero masculino é reducionista e culturalmente enviesada. Como apontam Castro e Santos (2015, p. 2), “[...] o alcoolismo não pode ser considerado um problema exclusivamente masculino, apesar da literatura e a opinião pública querer explicar assim”. Essa perspectiva negligencia transformações sociais e invisibiliza o fenômeno entre mulheres, dificultando a produção de conhecimento e o aprimoramento de estratégias de cuidado.

A ampliação do espaço feminino na esfera pública repercute nos padrões de consumo do álcool. Segundo Ferreira et al. (2013, p. 3415), “[...] à medida que os papéis das mulheres se tornam semelhantes aos dos homens, o padrão de consumo de álcool também tende a modificar-se”. No entanto, como destaca Silveira (2023), mesmo diante do aumento do uso, as mulheres continuam enfrentando intensa repressão moral e preconceito social, o que dificulta tanto o reconhecimento quanto a busca por tratamento. Enquanto o uso abusivo entre homens é mais tolerado, sobre elas recaem juízos depreciativos e culpabilizantes, agravando o sofrimento psíquico e retardando intervenções: “mulheres que fazem uso abusivo de substâncias tendem a ocultar seus hábitos [...]; ser mulher não apenas é um fator de risco para o desenvolvimento de uma dependência, mas também é um dificultador para o seu tratamento” (Silveira, 2023, p. xxvi).

Em uma sociedade pautada pela soberania dos desejos masculinos, comportamentos femininos que se distanciam da lógica subserviente e domesticada tendem a ser retraídos ao serem alvos de repreensão, assim como de percepções e julgamentos depreciativos e preconceituosos. O uso do álcool, portanto, vai de encontro com a concepção sociocultural da mulher amansada, obediente e contida, sendo desprezado e negligenciado.

Além das pressões sociais, os fatores fisiológicos ampliam os riscos à saúde das mulheres. Santos (2008) explica que o organismo feminino tem menor capacidade de metabolizar grandes quantidades de álcool, o que acelera o surgimento de complicações físicas e psíquicas. Mesmo com padrões de consumo menores, as mulheres tendem a adoecer mais cedo e de forma mais grave (Silveira, 2023). A maior proporção de gordura corporal, a menor quantidade de água e a menor presença de enzimas metabolizadoras contribuem para maior concentração alcoólica no sangue, aumentando a vulnerabilidade a danos clínicos e à mortalidade (Santos, 2008).

Dessa forma, compreender o alcoolismo entre mulheres exige abordagem multifatorial, que considere tanto os marcadores sociais de gênero quanto as especificidades fisiológicas, a fim de evitar leituras simplistas e promover estratégias terapêuticas mais efetivas.

As contribuições junguianas

O envolvimento de Jung com a temática do álcool é observado na troca de correspondências com Bill Wilson, cofundador dos Alcoólicos Anônimos (AA), em que Wilson (1981, apudRibeiro, 2012), afirmou que Jung havia assumido um papel importante na fundação do grupo. Essa influência havia se dado em virtude de Jung ter sido médico de Roland Hazard, um dos fundadores do AA, durante o ano de 1931, e ter relatado que, após este retornar a beber, “[...] apenas uma conversão religiosa poderia motivá-lo novamente para a busca da abstinência” (Wilson, 1981, apudRibeiro, 2012, p. 168).

Em relação ao fenômeno das dependências, Fortim e Araújo (2013) revisaram a bibliografia junguiana e mencionam haver poucas referências específicas às dependências químicas e não químicas na obra de Jung. Em relação àquelas que existem, as autoras relatam quatro casos de pacientes que o psiquiatra atendeu e que fazem referência ao alcoolismo e à denominada deficiência moral, mencionados em Estudos Psiquiátricos (1905/2011).

Baseadas nos escritos de Jung em Tipos Psicológicos (1921/2013b), Fortim e Araújo (2013, p. 13) expõem que o teórico considerava o alcoolismo “[...] um dos perigos da personalidade extrovertida, uma vez que ela é dependente da realidade exterior e promove uma superadaptação a ela”. Nesse sentido, o fenômeno da repressão de conteúdos inconscientes em decorrência de razões culturais poderia levar ao abuso de substâncias como o álcool. Em outras palavras, o que Jung (1921/2013b) expõe é a ideia de que, frente à possibilidade de haver tensão e distanciamento entre a consciência e o inconsciente, os elementos subjetivos inconscientes poderiam sofrer repressão, o que, por sua vez, poderia culminar na neurose ou no abuso de substâncias.

Atualmente, diversos analistas junguianos vêm se debruçando sobre o fenômeno da dependência química, traçando paralelos entre tal temática e conceitos desse referencial teórico. Em sua revisão bibliográfica, Fortim e Araújo (2013) mencionam a analogia construída por Victor Palomo entre o arquétipo do herói e a dependência química. As autoras mencionam os paralelos construídos por Sam Naifeh, analista do Instituto Junguiano de San Francisco, entre os 12 passos dos Alcoólicos Anônimos e a jornada de confronto com a sombra.

Psicologia Analítica e a Figura da Mulher Alcoolista

Pensar no álcool como um símbolo para a mulher alcoólatra significa adentrar um cenário que investiga os aspectos causais, finalísticos e sincronísticos e implica refletir sobre os papéis sociais, exigências culturais e imagens às quais elas são associadas. Perguntas como por que beber, para que beber e em que momento se está bebendo podem auxiliar a investigação simbólica do uso abusivo do álcool.

A esse respeito, a Psicologia Analítica oferece recursos importantes, sobretudo por meio do conceito de persona. Segundo Stein (2006), trata-se de uma estrutura psíquica vinculada à adaptação social, que representa atitudes convencionais adotadas diante da coletividade. Inspirado nas máscaras do teatro grego, o termo refere-se aos papéis desempenhados na vida social, frequentemente influenciados por estereótipos culturais que podem obscurecer a unicidade do sujeito.

A persona, nesse contexto, é compreendida como um arquétipo da adaptação, que assume formas singulares conforme a história de vida de cada sujeito. Para Whitmont (1969, p. 140), ela expressa “o impulso arquetípico para uma adaptação à realidade exterior e à coletividade” e manifesta-se como “[...] uma imagem representacional do arquétipo de adaptação que aparece em sonhos, nas imagens de roupas, uniformes e máscaras”. Stein (2006) reforça a importância de uma persona flexível, capaz de expressar a autenticidade do ego sem perder o contato com as expectativas sociais. Quando essa estrutura se torna rígida, surge o risco de uma superidentificação com papéis sociais, bloqueando o dinamismo psíquico e favorecendo conflitos internos.

A partir dessa perspectiva, evidencia-se a possível articulação entre o alcoolismo feminino e as expectativas e demandas sociais impostas aos papéis a serem desempenhados por este gênero. Segundo Castro e Santos (2015, p. 3), “a identidade social da mulher, assim como a do homem, são construídas mediante a atribuição de papéis distintos que a sociedade espera ver cumpridos pelas diferentes categorias do sexo”. A mulher é frequentemente condicionada a ocupar espaços restritos, como o cuidado, a domesticidade e a docilidade. Em uma sociedade patriarcal, comportamentos femininos que se afastam dessa lógica tendem a ser alvos de repressão, juízo moral e preconceito. O uso do álcool entra em choque com a concepção sociocultural da mulher obediente e contida, sendo desprezado e negligenciado.

Gomes (2019) argumenta que o estabelecimento do patriarcado não ocorreu de forma espontânea, nem foi resultado de evoluções naturais da humanidade, visto que, segundo o autor, uma análise histórica e antropológica revela que esse sistema foi construído ao longo de milhares de anos, quando as populações masculinas decidiram assumir o controle do poder social e dos instrumentos de trabalho, colocando-se como superiores. Nesse processo, as mulheres foram desvalorizadas e compelidas a ocupar lugar secundário nas sociedades, com obrigação e exclusividade às tarefas domésticas e maternas.

Para Whitmont (1982, p. 140), “a desvalorização do feminino é um aspecto intrínseco à cultura dominante na vigência do desenvolvimento do ego patriarcal”. Essa desvalorização reflete-se na idealização do arquétipo materno. Em Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Jung (1959/2014) descreve esse arquétipo em seus polos positivo e negativo: de um lado, o cuidado, a fertilidade e a nutrição; de outro, o devorador, sedutor e destrutivo (§158).

Ao se vincular ao álcool, a mulher pode ser percebida como rompendo com o ideal de mãe protetora, perdendo seu “status feminino” e aproximando-se do polo sombrio do arquétipo, frequentemente associado à rebeldia e à perda do controle. Dessa forma, o alcoolismo feminino, à luz da Psicologia Analítica, recai no distanciamento destes atributos concebidos como positivos, na medida que o contato com o álcool aproxima-se do descontrole e afasta-se da caracterização branda do que o materno deveria significar e aparentar socioculturalmente. A ocorrência do alcoolismo em mulheres, portanto, pode relacionar-se à perda do status feminino e da imagem materna, protetora e carinhosa, dado atribuído ao álcool como expressão de rebeldia, transgressão e desafeto, simbolizando ruptura com a persona rígida imposta culturalmente.

Método

A presente pesquisa foi realizada com caráter qualitativo e referencial teórico fundamentado na Psicologia Analítica. Foram respeitados os protocolos éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 e complementados pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, conforme parecer registrado na Plataforma Brasil sob nº 75176923.0.0000.5482.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semidirigidas por três psicólogas atuantes na área da dependência alcoólica em mulheres, que tiveram duração de uma hora e ocorreram conforme a preferência das participantes: duas foram conduzidas de forma virtual (online) e uma presencialmente, em local que garantiu sigilo e privacidade.

As entrevistadas foram identificadas apenas por suas iniciais – G., S. e L. – e todas assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes do início da gravação. Foi utilizado um roteiro com questões para orientar as entrevistas, dividido em duas partes: a primeira sobre o interesse pessoal da psicóloga pelo tema e sua trajetória; e a segunda relativa à caracterização de suas pacientes quanto aos aspectos de faixa etária, temas prevalentes, papéis sociais associados, queixas frequentes e influências socioculturais e familiares.

Os resultados foram levantados a partir da análise do material, que se baseou na transcrição integral das entrevistas e na posterior identificação de núcleos temáticos recorrentes, a partir dos quais se estruturaram quatro categorias principais: (1) Relação de Gênero e Estigmatização; (2) Persona e Complexos; (3) Amortecimento de Sentimentos e Possibilidades de Ressignificação; e (4) Símbolos.

As três psicólogas seguiam a abordagem da Psicanálise. Os dados foram interpretados à luz do referencial junguiano, permitindo a articulação entre os relatos clínicos e os conceitos simbólicos discutidos no campo da Psicologia Analítica.

Resultados e Análise

O resultado das três entrevistas foi analisado com a elaboração de quatro grupos temáticos.

Relação de Gênero e Estigmatização

As entrevistas revelam como a relação entre gênero e alcoolismo é atravessada por estigmas, papéis sociais e violências simbólicas que incidem sobre o corpo e a subjetividade das mulheres.

Um dos primeiros aspectos apontados pelas participantes diz respeito a como o consumo de álcool por mulheres está frequentemente associado a relações conjugais marcadas pela presença do consumo de álcool masculino: maridos alcoolistas aparecem como influência inicial em diversos casos. As entrevistadas ressaltam que, muitas vezes, as mulheres passam a beber como forma de acompanhar o parceiro, ou por influência direta da convivência com o uso cotidiano masculino. Há uma dinâmica relacional que naturaliza o uso do álcool como parte do vínculo conjugal, o que, por sua vez, fragiliza as barreiras pessoais de contenção. Esse cenário revela um atravessamento simbólico importante: o comportamento da mulher em relação ao álcool ainda é profundamente condicionado pelos papéis de gênero, inclusive nos afetos e nas escolhas do cotidiano.

As psicólogas também destacaram os padrões culturais que continuam atuando: é mais comum que homens alcoolistas tenham parceiras abstêmias do que o contrário. Tal assimetria expressa a persistência dos papéis de gênero, que atribuem à mulher posição de contenção e regulação dos afetos, mesmo em contextos adversos. Os discursos das entrevistadas indicam como relações familiares disfuncionais, violências e sobrecarga emocional estão implicadas na instalação do uso abusivo.

O estigma apareceu como elemento transversal. Ser mulher e usuária de álcool ainda carrega marcas de falha moral, abandono do papel materno e vergonha. As falas das entrevistadas apontam como essas mulheres são percebidas socialmente como “fracassadas”, “descuidadas com os filhos” ou “problema da família”. Tais narrativas são corroboradas por pesquisas que associam o uso abusivo às experiências de silenciamento, culpa e rejeição (Castro; Santos, 2015; Silveira, 2023).

A estigmatização, como enfatizam as entrevistadas, também se manifesta na dificuldade em acessar o cuidado. Elas relatam que muitas pacientes expressam vergonha de buscar ajuda, não se identificam com os espaços mistos de tratamento, e sentem-se desconfortáveis em compartilhar questões relacionadas ao feminino. A existência de grupos terapêuticos exclusivamente femininos surge como recurso clínico fundamental, pois possibilita maior acolhimento, identificação e elaboração simbólica.

O estigma também se estende ao campo jurídico. As entrevistadas relatam que usuárias de álcool são frequentemente ameaçadas com a perda da guarda de seus filhos. Essa condição não é aplicada com o mesmo peso a homens alcoolistas, revelando um duplo padrão sustentado por estereótipos de gênero. Diante desse contexto, as profissionais enfatizam a importância de equipes interdisciplinares, com suporte jurídico, para garantir os direitos das pacientes.

Por fim, os dados reforçam que o alcoolismo feminino não pode ser compreendido fora das relações de gênero. Normas culturais, papéis sociais e representações simbólicas moldam não apenas o uso e o adoecimento, mas também a forma como essas mulheres são vistas e tratadas.

Persona e Complexos

As entrevistas revelaram dinâmicas psíquicas associadas à persona e à ativação de complexos que ajudam a compreender o sofrimento de mulheres com dependência de álcool.

As psicólogas informaram que muitas pacientes relatam intensa identificação com papéis socialmente atribuídos à feminilidade, sobretudo no que diz respeito à maternidade e ao cuidado familiar. Essa superidentificação com a persona materna (Stein, 2006) aparece como um eixo estruturante do funcionamento psíquico, especialmente entre as mulheres mais velhas. As entrevistadas observam que, com o esvaziamento desse papel – como no caso do “ninho vazio”, quando os filhos crescem e saem de casa – muitas mulheres enfrentam uma sensação de colapso identitário. Sem outros investimentos subjetivos desenvolvidos, o ego, rigidamente identificado com a persona, entra em crise. O sentimento de inutilidade, vazio e perda de sentido emerge como expressão de conteúdos anteriormente reprimidos que agora invadem a consciência. O álcool, nesse contexto, pode operar como recurso para anestesiar o sofrimento e regular afetos intrusivos. Ao mesmo tempo em que parece trazer alívio, essa estratégia intensifica a dissociação entre ego e inconsciente, consolidando-se como um sintoma adicional.

Esse processo não se restringe às mulheres mais velhas. As pacientes mais jovens também apresentam quadros marcados por vazio emocional, ansiedade e agitação. A ausência de simbolização de experiências afetivas precoces – muitas vezes marcadas por negligência, violência ou relações familiares empobrecidas – contribui para o desenvolvimento de complexos inconscientes, especialmente relacionados à figura materna. Relações maternas disfuncionais foram mencionadas pelas três entrevistadas como um fator recorrente. Assim, a repetição de padrões afetivos desestruturados, especialmente com figuras maternas ausentes ou supercontroladoras, aponta para a atuação do complexo materno negativo com forte carga afetiva (Jung, 1957/2013c). Também foi relatada a alta incidência de histórias de abuso, negligência e abandono entre suas pacientes, indicando o enraizamento do sofrimento em contextos vinculares marcados por violência. As pacientes relatam, frequentemente, sensações de solidão, abandono e desvalorização, além de dificuldades em elaborar experiências traumáticas precoces. Tais vivências permanecem como núcleos não simbolizados que, em momentos de fragilidade, invadem o campo da consciência.

Segundo Oliveira (2017), o desenvolvimento saudável – emocional, cognitivo e social – está diretamente ligado à qualidade dos vínculos nos primeiros anos de vida, especialmente na relação mãe-bebê. Vivências precoces adversas, como negligência e abuso, podem gerar alterações epigenéticas com impacto duradouro na regulação emocional e tomada de decisão. A autora elenca como as dependências podem ser influenciadas por fatores relacionados ao desenvolvimento, como falhas de vinculação precoce, experiências traumáticas e dificuldades de simbolização (Oliveira, 2022).

Os dados das entrevistas sugerem três núcleos temáticos recorrentes nas histórias de vida das pacientes: o vazio existencial; vínculos afetivos e familiares comprometidos; e experiências de violência ou abuso. Tais elementos apontam para a formação de complexos enraizados na história individual, especialmente no campo das relações familiares e da função materna (Jung, 1957/2013c).

O uso do álcool, nesse cenário, aparece como tentativa de tamponar esse núcleo afetivo doloroso, mas também como sintoma que expressa a dificuldade do ego em lidar com esses conteúdos. A solidão, mencionada por todas as entrevistadas, surge como marca subjetiva central: seja pela exclusão social decorrente do uso, seja pela sensação interna de não pertencimento ou de falha frente às expectativas normativas. A desconexão com a vida e com o próprio desejo se configura como uma das expressões mais profundas desse processo psíquico.

Dessa forma, a compreensão da dependência de álcool em mulheres, à luz da Psicologia Analítica, exige atenção ao colapso da persona, à ativação de complexos não elaborados e à busca inconsciente por alívio do sofrimento psíquico profundo. O acolhimento simbólico dessas vivências pode abrir caminho para processos de elaboração e reintegração psíquica.

Amortecimento de Sentimentos e Possibilidades de Ressignificação

As entrevistas revelaram a percepção das psicólogas de que o consumo de álcool por suas pacientes, muitas vezes, é adotado como mecanismo para afastar sofrimentos que acometem suas dinâmicas psíquicas, com seu efeito amortecedor sobre seus sentimentos. Para as entrevistadas, esse uso não se limita ao prazer ou à recreação, mas muitas vezes configura-se como forma de automedicação psíquica. A psicóloga S. relata que a paciente em geral não está bem e percebe certa melhora após beber, experienciando alívio momentâneo que pode se tornar hábito. O álcool, nesse sentido, atua como forma de alívio temporário de sintomas depressivos, ansiosos e provenientes de angústia, porém seu consumo constante frente a outros fatores mencionados culmina no alcoolismo.

No tocante ao processo de amortecimento de sentimentos, retoma-se a estigmatização atrelada à demanda social de identificação de tais mulheres com seus papéis maternos, visto que observar-se o fenômeno do “ninho vazio” dentre as mais velhas e a ansiedade frente à dificuldade do exercício da maternidade pelas mais jovens. Estas, por sua vez, podem ter a sensação de vazio existencial, um terreno propício para a irrupção à consciência de conteúdos anteriormente reprimidos. Frente a sentimentos penosos, pensamentos hostis e sensação de desamparo, emergentes dessa dinâmica, o consumo de álcool surge como amortecedor, ainda que, concomitantemente, trate-se de sintoma adicional.

O tratamento, segundo as entrevistadas, deve ir além do foco na substância alcoólica: é preciso abordar os conteúdos psíquicos subjacentes. A psicóloga S. afirma que o prognóstico tende a ser favorável quando se trata “o que está por baixo”. No entanto, muitas dessas mulheres chegam ao tratamento com o ego fragilizado e com severas dificuldades para discriminar e expressar emoções. Como observa a psicóloga L., nota-se dificuldade em discernir cansaço de tristeza, de raiva, de estresse.

Detentor do caráter central e organizador da consciência, o ego exerce a função de intermediar as demandas internas e externas à psique por meio de suas funções endo e ectopsíquicas. Nesse sentido, destaca-se a relevância do processo de fortalecimento egoico ao longo do tratamento com tais mulheres, para que sejam capazes de sustentar a descarga de conteúdos inconscientes, contatá-los, elaborá-los e integrá-los à consciência, enquanto enfrentam as exigências do mundo externo. Sob essa perspectiva, ressaltam-se os grupos terapêuticos como ferramentas, comuns entre as instituições em que as três entrevistadas trabalham, uma vez que permitem a partilha de relatos entre as integrantes e a construção de relações de identificação. Muitas dessas mulheres se percebem em situações de solidão, de modo que se torna essencial a construção de espaço coletivo que favoreça o reconhecimento mútuo e abra caminho para novas formas de significar suas vivências, relações e afetos.

Assim, o fortalecimento do ego configura-se como condição indispensável à elaboração dos conteúdos inconscientes e os grupos terapêuticos atuam como dispositivos clínicos potentes, rompendo o isolamento subjetivo e abrindo espaço para o espelhamento, o pertencimento e a ressignificação. Ao se verem refletidas nas histórias das outras, muitas mulheres passam a reconhecer suas potências e a desenvolver novo olhar sobre si mesmas. A entrevistada G. enfatizou como suas pacientes começam a se perceber e a se identificar a partir de sua própria potência, ressignificando o olhar estigmatizante do outro e ampliando sua autenticidade.

Nesse processo, torna-se possível também resgatar conteúdos emocionais antes reprimidos, como o vínculo com o materno, agora sob outra luz. As pacientes passam a compreender que a dor do abandono ou da negligência materna muitas vezes se inscreve em histórias transgeracionais de adoecimento. O reconhecimento dessa cadeia simbólica permite que tais núcleos afetivos sejam elaborados, e não mais projetados ou compulsivamente repetidos. Este dinamismo, por sua vez, viabiliza a redução dos sintomas oriundos da tensão entre os conteúdos conscientes e inconscientes, bem como permite que certos padrões relacionais cíclicos possam ser transformados (Jung, 1957/2013c).

Ademais, há abertura para a implementação de novos papéis sociais, como o materno, vividos com mais liberdade e menos rigidez. O fortalecimento do ego, nesse contexto, favorece a flexibilização da persona e o surgimento de uma imagem de si mais autêntica e menos colada às expectativas normativas (Stein, 2006).

Símbolos

Os resultados das entrevistas evidenciam a presença de elementos simbólicos relacionados à dependência de álcool por mulheres, revelando conteúdos que mobilizam afetos profundos e tensionam pares de opostos psíquicos. Tais expressões, ao emergirem na clínica, convocam o ego a um movimento de elaboração que favorece a ampliação da consciência, aproximando-se da dinâmica própria à função transcendente (Jung, 1947/2013a; Penna, 2013).

O vazio existencial é uma dessas expressões, entendido não apenas como ausência, mas como a manifestação de conteúdos não simbolizados. Como evidenciado pela entrevista de S., o álcool aparece como uma tentativa de preencher esse vazio e evitar o confronto com um “nada” carregado de angústia e impulsos desorganizados que, sem um espaço simbólico de elaboração, são projetados no corpo ou no mundo externo, frequentemente sob a forma de compulsões. Nesse sentido, a repetição de comportamentos aditivos pode ser compreendida como tentativa de dar forma a esse vazio psíquico. Assim, a interpretação deste vazio não garante sua resolução, tendo em vista que alude à própria ausência de significado.

O trabalho psicoterapêutico, então, é visto como espaço privilegiado para construir sentido onde antes havia apenas o impulso de preenchimento. Criar elos simbólicos, resgatar narrativas e reconstruir vínculos são estratégias que possibilitam uma ressignificação subjetiva do vazio, transformando-o em abertura para o novo. Como afirmam Chevalier e Gheerbrant (2021),

Esvaziar-se (...) significa libertar-se do turbilhão de imagens, desejos e emoções; (...) o caminho que vai em direção ao interior, o caminho da verdadeira vida (...). É o prelúdio fruitivo (...) da experiência do self (Chevalier; Gheerbrant, 2021, p. 1018).

Portanto, ainda que a sensação de vazio seja impregnada de angústias e receios, o processo psicoterapêutico parece anunciar a oportunidade de um novo direcionamento de vida às mulheres alcoolistas. Nesse percurso é propiciado um movimento gradual de tomada de consciência e de reconstrução de significados. Ao confrontarem os papéis e concepções que lhes foram atribuídos em seus contextos familiares e socioculturais, essas mulheres podem começar a reconhecer aspectos antes negados de si mesmas e a integrar potências até então não visitadas em suas histórias, abrindo caminhos para experiências mais autênticas e singulares.

Outra dimensão simbólica fortemente mobilizada é a materna. As participantes destacam que o contato das pacientes com suas mães ou com a própria experiência de maternidade evoca imagens arquetípicas intensas. A simbologia materna se expressa por meio de temas como acolhimento, nutrição, oralidade, ausência de limites, competição, desamparo. Esses elementos dizem respeito ao arquétipo materno em suas múltiplas facetas, tanto nutridoras quanto devoradoras (Jung, 1959/2014). Vale ressaltar que as expressões simbólicas do arquétipo materno, cuja presença é constitutiva da psique humana, independem do gênero. A humanização desse arquétipo pode ocorrer em múltiplas relações e figuras significativas ao longo da vida, e não apenas no vínculo com a mãe pessoal.

As mulheres alcoolistas, inicialmente, parecem mobilizadas pelo polo negativo do arquétipo materno: abandono, negligência, sufocamento. No entanto, ao longo do processo terapêutico, especialmente nos grupos, é possível que essas imagens se transformem. O reconhecimento consciente de aspectos antes reprimidos permite o acesso a potencialidades arquetípicas antes obstruídas, o que amplia a consciência e favorece o psiquismo. Esse movimento simbólico repercute diretamente na relação das mulheres com sua dependência.

A terceira dimensão simbólica abordada é o próprio álcool. Para além de sua materialidade química, o álcool assume múltiplos sentidos: celebração, pertencimento, poder, rebeldia e destruição. Sua ambiguidade o torna um símbolo potente, tanto coletivo quanto individual (Gigliotti; Bessa, 2004). Em nível clínico, a recaída, por exemplo, pode ser compreendida como uma resposta simbólica a conteúdos internos não elaborados. Como aponta S., não é o ato externo que explica o retorno ao uso, mas um movimento interno, muitas vezes inconsciente, que busca expressão.

Com base em Jung (1947/2013a) e Kast (1997), pode-se compreender o álcool simbolicamente sob três aspectos: causalista, finalista e sincronístico. No aspecto causal, os fatores já descritos — contextos familiares adversos, experiências traumáticas, repressão de desejos — oferecem base para o surgimento do sintoma do alcoolismo. No aspecto finalista, aparece como expressão de conteúdos inconscientes que precisam ser reconhecidos: vivências de transgressão, desejos não autorizados, rompimentos com o feminino normativo. Por fim, no aspecto sincronístico, é relevante observar em que momento do desenvolvimento psíquico o abuso de álcool se intensifica, revelando possíveis ligações entre eventos externos e estados internos.

O álcool, assim, revela-se como símbolo multifacetado. Ele mascara a dor, mas também a denuncia; aprisiona, mas aponta para o que precisa ser libertado. Nesse sentido, trabalhar simbolicamente com a experiência do alcoolismo pode abrir caminhos de transformação profunda para mulheres que, por meio desse processo, reencontram significados para si mesmas e para sua história.

Considerações Finais

Este estudo buscou compreender, à luz da Psicologia Analítica, os aspectos simbólicos relacionados à dependência de álcool por mulheres, bem como as inter-relações entre o uso da substância e o sofrimento psíquico feminino, com especial atenção aos impactos dos papéis sociais e culturais atribuídos ao gênero.

Em relação à investigação dos possíveis impactos dos papéis sociais atribuídos às mulheres com dependência de álcool, a análise das entrevistas evidenciou o entrelaçamento entre gênero e estigmatização, revelando que normas socioculturais não apenas moldam os padrões de consumo, mas influenciam diretamente a percepção social da mulher alcoolista. Pressões associadas à maternidade, cuidado e idealizações femininas favorecem sentimentos de vergonha e exclusão, dificultando o acesso ao tratamento e o reconhecimento do sofrimento.

É de se notar que, apesar do aumento do consumo de álcool entre mulheres nas últimas décadas — fenômeno que acompanha transformações sociais e culturais importantes — os discursos clínicos analisados ainda se apoiam majoritariamente na figura materna como eixo central de compreensão do sofrimento psíquico feminino. A ênfase na identificação com a persona materna e nos conflitos ligados à maternidade revela uma perspectiva que, embora relevante, tende a negligenciar outros fatores igualmente significativos, como as pressões e os impasses vividos por mulheres no âmbito profissional, nas relações conjugais e na busca por autonomia. Autores como Rowland (2024) têm problematizado a leitura junguiana tradicional do feminino, que frequentemente associa a mulher ao arquétipo da Grande Mãe ou ao princípio de Eros, em detrimento de uma consideração mais ampla e plural da experiência feminina. A crítica feminista aponta para a necessidade de se repensar o papel da ânima e do ânimus na Psicologia Analítica, considerando como certas formulações junguianas podem reforçar uma visão essencialista da mulher. Inserir essas reflexões no debate clínico contemporâneo permite abrir espaço para compreender o uso do álcool também como resposta a tensões ligadas à sobrecarga emocional, à luta por reconhecimento e à exaustão diante de múltiplas exigências sociais.

As pacientes atendidas pelas entrevistadoras apresentavam histórias marcadas por negligência, violência, vínculos afetivos desestruturados e superidentificação com papéis maternos. Tais vivências contribuem para o desenvolvimento de complexos inconscientes, particularmente o complexo materno negativo, cuja emergência se expressa em estados psíquicos de desorganização. No que concerne à investigação das inter-relações entre o uso excessivo do álcool e o decorrente sofrimento psíquico, seu uso, nesse contexto, surge como tentativa inconsciente de lidar com a invasão de conteúdos psíquicos intensos e não simbolizados.

Os relatos clínicos também destacaram o uso do álcool como recurso de amortecimento emocional. O consumo atua como defesa frente ao vazio, à angústia e ao desamparo. Entretanto, o alívio imediato reforça a dissociação entre ego e inconsciente, consolidando o alcoolismo como um sintoma adicional. A escuta clínica, aliada ao trabalho em grupo, mostrou-se via importante para fortalecimento egóico e elaboração simbólica, possibilitando novas formas de se relacionar consigo, com o outro e com os papéis sociais previamente cristalizados.

Os grupos terapêuticos desempenham função transformadora. Por meio do vínculo e da partilha, promovem reconhecimento de sentimentos, resgate de potências, reconstrução de narrativas e flexibilização da persona. A possibilidade de ressignificação da maternidade — agora vivida de forma mais integrada e menos idealizada — surgiu como um dos desdobramentos do processo clínico.

No que se refere à investigação acerca dos aspectos simbólicos relacionados à dependência de álcool por mulheres, o estudo também permitiu identificar símbolos centrais no universo psíquico dessas mulheres: o vazio, a temática materna e o álcool. O vazio, ainda que marcado por angústia, pode inaugurar uma travessia rumo à autenticidade. A simbologia materna, inicialmente associada ao abandono e à dor, revelou-se passível de transformação e integração. Já o álcool, analisado a partir das perspectivas causalista, finalista e sincronística, revelou-se um símbolo complexo: simultaneamente proteção e destruição, pertencimento e ruptura, repressão e desejo.

Como limitação, destaca-se a amostragem reduzida — composta por três psicólogas, duas atuantes na mesma instituição — e o recorte heteronormativo das experiências relatadas. Recomenda-se, portanto, que futuras pesquisas ampliem a diversidade de contextos, instituições e trajetórias subjetivas, a fim de aprofundar a compreensão da dependência de álcool por mulheres em diferentes configurações sociais e afetivas.

Por fim, este estudo reafirma a necessidade de abordagens clínicas sensíveis ao sofrimento psíquico de mulheres em situação de dependência, considerando suas histórias, vínculos e construções simbólicas. Avançar na desconstrução dos estigmas associados ao alcoolismo feminino e criar espaços de escuta e acolhimento é fundamental para a promoção da saúde psíquica e da autonomia. O reconhecimento da singularidade de cada trajetória é, também, um caminho para o fortalecimento do feminino em sua diversidade e complexidade.

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Disponibilidade de dados: Os conteúdos não estão disponíveis publicamente por conter informações confidenciais ou sensíveis.

Financiamento: sem financiamento a declarar.

Recebido: 25 de Outubro de 2025; Aceito: 03 de Dezembro de 2025; Revisado: 21 de Janeiro de 2026

Conflito de interesses:

sem conflito de interesses a declarar.

Editora do artigo:

Rosana Rubini. https://orcid.org/0009-0007-6208-7200

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