Introdução
Este artigo discute o percurso de uma paciente que, por anos, “girava em círculos” sem conseguir atribuir sentido à própria existência. A criação seriada de doze mandalas inaugurou um trabalho de simbolização que permitiu contato com conteúdos inconscientes, ampliando a consciência e permitindo que a paciente fizesse escolhas mais coerentes com sua própria verdade interior em vez de orientada por expectativas externas.
Objetivo do artigo
Ilustrar, a partir de um caso clínico, como a produção e a análise de mandalas podem atuar como mediadoras entre consciente e inconsciente, favorecendo autorregulação, integração da sombra e movimentos de individuação na perspectiva junguiana.
Jung e as mandalas
Durante um período de intenso conflito interno, Jung passou a desenhar mandalas, experiência registrada em O Livro Vermelho (Liber Novus) e percebeu nelas imagens que lhe restituíam ordem e centro (Jung, 2009, p. 39). Posteriormente, descreveu a mandala como representação do Self e observou que sua emergência espontânea ou deliberada tendia a favorecer um novo centramento e o diálogo entre opostos psíquicos, entre consciente e inconsciente (Jung, 2013d, §§ 343–379). Essa compreensão sustenta o uso clínico contemporâneo das mandalas como dispositivos de contenção e de transformação simbólica.
No Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira introduziu e sistematizou esse uso em ateliês terapêuticos na área de saúde mental. Observando a recorrência de formas circulares em pacientes psicóticos, buscou respaldo na obra de Jung e reconheceu, na mandala, um símbolo da totalidade (Self) e do seu efeito organizador sobre a vida afetiva (Silveira, 1992, p. 45–47).
Método de trabalho
Delineamento clínico: estudo de caso único, longitudinal (24 meses). Doze mandalas foram produzidas nesse espaço de tempo.
Procedimento: breve relaxamento guiado, seguido do preenchimento livre de um círculo em branco e, então, a verbalização de associações pessoais, que subsidiaram a discussão clínica à luz do referencial junguiano.
Critérios de análise: (I) voz da paciente (M.), imagem, afetos, associações; (II) comentário clínico da autora (A), hipóteses interpretativas, articulação teórico-simbólica e implicações para o processo.
Considerações éticas: dados identificatórios foram omitidos e detalhes biográficos discretamente alterados para resguardar anonimato.
Notas conceituais (sentido com que determinados conceitos foram empregados neste caso)
Ego – Complexo central da consciência, responsável pela coesão e pela continuidade da identidade pessoal (Jung, 2013b).
Si-mesmo (Self) – Centro e totalidade da psique, princípio regulador que orienta o processo de autorregulação e de individuação (Jung, 2013d).
Persona – Modo de adaptação social do ego; quando exageradamente identificado, distancia o sujeito de sua interioridade (cf. Jung, 2015).
Sombra – Conjunto de aspectos rejeitados ou não reconhecidos da personalidade, cuja integração constitui tarefa essencial da individuação (Jung, 2015).
Complexo – Núcleo psíquico autônomo, dotado de forte carga afetiva, constelado por experiências emocionais e vinculado a um arquétipo (Jung, 2013c).
Anima e Animus – Sistemas funcionais que mediam a relação entre ego e inconsciente, configurando-se como imagens do feminino e do masculino interiores (Jung, 2013d; Von Franz, 1999).
Função transcendente – Processo de mediação entre consciente e inconsciente, através da produção simbólica que permite novas sínteses e ampliação da consciência (Jung, 2015).
Mandala – Imagem arquetípica de centro e de totalidade, que emerge ou que é produzida em momentos de desordem psíquica, favorecendo a contenção e a reorganização interior (Jung, 2012a, 2013f, 2014, 2015).
Imaginação ativa – Procedimento terapêutico de diálogo com as imagens internas, no qual o inconsciente se expressa simbolicamente, oferecendo material à transformação psíquica (Jung, 2012b).
Apresentação do caso clínico
Perfil resumido: M., uma mulher de 50 anos, com conquistas objetivas (família, carreira, saúde), mas vivenciando vazio persistente, oscilação entre vaidade e autorrejeição, sintomas ansiosos-depressivos e queixas psicossomáticas. Buscava agradar a todos, assumindo o papel da “eterna boazinha” e adaptando-se às expectativas alheias em troca de amor ou de reconhecimento, mas a custo de um profundo abandono de si mesma. Seu pedido condensava um apelo: o desejo profundo de reencontrar a própria alma. Essa busca, carregada de sofrimento, marcava o ponto de partida de seu processo analítico.
1ª Mandala – Flor ao espelho
[M] “Vejo nesse desenho, beleza e harmonia, mas também solidão. Oscilo entre me sentir bela e perfeita e me rejeitar por ser uma fraude, por isso a solidão, fujo do contato mais profundo para que não vejam minha feiura”.
[A] O traço (reflexo no espelho) narcisista funciona como defesa diante de autoestima fragilizada e evita o encontro com a sombra. Há identificação com a persona idealizada e somatizações quando a tensão não é simbolizada. O desenho, porém, indica função prospectiva: o motivo floral aponta para possibilidade de renovação e crescimento a partir do centro.
2ª Mandala – Vaso de flores/ círculo rompido
[M] Após tomar conhecimento de uma festa da qual não participou, por não ter sido incluída, a paciente declara: “Flores de uma festa para a qual não fui convidada. Não havia percebido o quanto este fato tinha mexido comigo. Me sinto profundamente rejeitada, excluída. Isso dói e dá muita raiva, ódio!”
[A] Nesta mandala, a paciente não se limita ao círculo, ela o rompe. A quebra do círculo indica um momento de fragilidade na função de contenção da mandala, revelando ruptura das defesas psíquicas.
Como aponta Jung, a mandala exerce uma função protetora e organizadora, semelhante às paredes de uma casa que resguardam seu interior (Jung, 2014, §§ 713–718). Quando esse limite simbólico é rompido, conteúdos inconscientes ainda não suficientemente reconhecidos ou integrados podem transbordar para fora do espaço de ordenação, provocando desorganização interna. Tal dispersão aproxima-se de um estado de dissociação, no qual o ego perde, ainda que temporariamente, sua função mediadora entre consciente e inconsciente, podendo levar à “desagregação da personalidade”. Nesses momentos, o movimento de ampliação da consciência, característico da função transcendente, é interrompido, suspendendo temporariamente o processo de integração e individuação (Jung, 2015, §§ 360-368).
No desenho da mandala, o centro permanece íntegro. No vocabulário simbólico, isso significa que, mesmo diante de uma ruptura da organização egóica, o Self, centro regulador da psique e, ao mesmo tempo, totalidade desta se mantém preservado. É a partir desse núcleo que poderá emergir o movimento de reorganização e reconstrução, restabelecendo gradualmente o equilíbrio interno, pois o Self exerce uma função compensatória e unificadora (Jung, 2013d, §§ 43–67).
3ª Mandala – Imagem fragmentada
[M] “Sinto-me em pedaços; meu mundo desmoronou.”
[A] Na sequência do processo, M. afirmou sentir-se como sua própria mandala: “em ruínas”, sem base, fragmentada. A imagem expressa simbolicamente um choque interno, a perda momentânea da função ordenadora da psique. Contudo, como ressalta Jung, todo processo de transformação pressupõe a dissolução ou desagregação de uma configuração anterior, condição necessária para a emergência do novo (Jung, 2012a). À medida que, durante as sessões, o ego se fortalecia, emergia o vínculo com o pai. O complexo paterno negativo se manifestava tanto no sentimento de ser rejeitada ou insuficiente quanto na tendência a projetar imagens idealizadas sobre figuras masculinas. Como consequência, sua capacidade de autorregulação afetiva ficava comprometida: diante de frustrações, reagia com intensa oscilação emocional, insegurança ou necessidade de aprovação. A mandala rompida refletia a ausência de um pai interno estruturante, deixando o ego vulnerável ao caos psíquico (Jung, 2014, §§ 647–654). A tarefa terapêutica consistiu em reconstruir essa função paterna interna, favorecendo maior estabilidade do ego e condições mais propícias ao desenrolar do processo de individuação.
Assim, essa mandala, marca um ponto de inflexão no percurso analítico de M., indicando o início da reconstrução de uma nova ordem interior, após a desorganização estrutural associada ao complexo paterno negativo, capaz de sustentar a tensão dos opostos sem recorrer à dissociação
4ª Mandala – Recolhendo os pedaços
[M] “Para mim, o rosa evoca amor; o azul, a proteção, ele parece querer envolver as outras figuras. Sinto-me de fato como se estivesse recolhendo os pedaços, posso ver formas definidas nesses desenhos, que apesar de monstrinhos, não assustam e tentam se relacionar numa dança acolhedora e amorosa.”
[A] O conteúdo antes projetado passa a ser reconhecido como próprio. Início de integração da sombra e recomposição do contorno.
5ª Mandala – Re-construindo
[M] “Vejo assim: o olho como símbolo, representa a faculdade da consciência de ver e reconhecer a realidade, tanto externa quanto interna; o feto como nascimento; o sol, a clareza; o barco, travessia; o mar, amplitude; a cor preta como recolhimento necessário. Me parece algo positivo, como se eu estivesse me reconectando a um movimento interno de avanço, que me conduz a algum lugar, rompendo com a repetição do girar em círculos.
[A] Reorganização simbólica: transformação da libido objetal em função simbólica; o símbolo media interior/exterior. A relação ego-símbolo amadurece (nem inflação, nem literalização).
Neste estágio do processo analítico, M. apresenta uma produção simbólica mais organizada. A imagem, nesse momento, se compõe de elementos altamente significativos para ela. Agora a mandala, através dos símbolos que são únicos do seu processo, deixa de ser apenas um espelho da desordem interna para se tornar um recipiente simbólico de transformação. Funcionando também, como estrutura compensatória, ajudando a reorganizar o ego fragilizado a restabelecer o vínculo com o Self.
6ª Mandala – A árvore da vida
[M] “Essa é uma imagem que sempre me acompanhou: a árvore, com suas raízes na realidade, na matéria, e a copa no céu, na espiritualidade. Me sinto como essa árvore, pelas raízes, busco a seiva da realidade concreta, e pela copa, a espiritualidade. O centro do desenho, me remete a uma sensação de aprisionamento, como um reflexo limitado, ele copia, não cria, repete, não tem criatividade, seria como um ritual viciante. Já a copa representa a libertação.”
[A] Integração céu–terra; individuação como enraizamento no cotidiano orientado por sentido. Transferências para a vida concreta tornam-se visíveis (estudos, trabalho, vínculos).
A fala de M. revela, através do símbolo da árvore, a busca pela integração dos opostos: céu e terra, espiritualidade e realidade concreta. Essa tensão criativa entre os polos e a aspiração à transcendência constitui a base do processo de individuação (Jung, 214; Von Franz, 2008, p. 11–18). As raízes remetem à realidade e a copa ao transcendente, evocando o equilíbrio entre instinto e espiritualidade. O centro indica complexos que ainda aprisionam, mas a copa que se liberta anuncia um novo momento de reconciliação dos opostos e de conexão com a seiva interior.
7ª Mandala – O trono vazio espera
[M] “Antes, alguém deveria ocupar esse lugar vazio; o olhar do outro, a presença do outro, as soluções do outro, sempre buscando fora de mim algo para preencher meu vazio interior; agora compreendo que essa tarefa me cabe, cabe ao meu eu mais profundo.”
[A] Virada ética: assunção do próprio centro. O trono simboliza reintegração, não grandiosidade egóica.
A mandala do trono vazio marca uma virada no processo de individuação de M., ao revelar que nenhum elemento externo poderia preencher seu vazio interior. O trono, antes destinado a um outro, passa a representar seu eu mais profundo, indicando que a auto realização dependia de atitudes próprias e conscientes, estas sim, poderiam libertá-la da passividade e tornarem-na sujeito ativo de sua história. Assim, ao colocar-se no trono, M. reconhece sua centralidade simbólica, não como expressão de grandiosidade egóica, mas como ato sagrado de reintegração psíquica. Trata-se de uma atitude de profunda humildade e entrega, própria daqueles que aceitaram o chamado do processo de individuação.
8ª Mandala – Em busca de sentido (a pérola)
[M] “As raízes convergem ao centro procurando o sentido verdadeiro; a pérola, como tesouro e recompensa, formada pela ferida.”
[A] A dor, quando reconhecida e simbolizada, transforma-se em valor; e o recolhimento da libido ao interior, entendido aqui como movimento regressivo criativo, favorece a emergência de novos sentidos. Nesse processo, instinto e espiritualidade deixam de funcionar como extremos inconciliáveis e passam a compor uma dinâmica mais integrada, aproximando-se da formação da função transcendente.
É um movimento consciente de M. para romper com as distrações periféricas e reconectar-se com o essencial. Trata-se de uma mudança de direção: antes voltada para fora, em busca de respostas no consumo, nos afetos, nos ideais, que agora orienta-se para dentro, movida por um impulso autêntico de autodescoberta.
Na prática clínica, observou-se que essa mudança de atitude se refletia em escolhas concretas: M. começava a reconhecer o valor do cotidiano, encontrar gratificação em sua rotina de trabalho e nos vínculos familiares, não mais como deveres, mas como expressões legítimas de seu destino individual. Ao voltar-se para si mesma, passou a identificar aquilo que verdadeiramente a realizava: produzir, atuar, criar, compartilhar, viver com propósito.
9ª Mandala – A estrela de cinco pontas e a guardiã do centro
[M] A paciente afirma: “Sinto necessidade de centro, de foco e de pés na realidade. Me chama a atenção a serpente, sou tomada por sentimentos ambíguos, ela protege e ameaça, atrai e assusta, seduz e adverte. Como transitar sem ferir-me, sem deixar-me iludir pelos apelos e pelas tentações externas?”
[A] Tensão de opostos reconhecida e sustentada; a serpente torna-se energia de transformação.
A cobra (ARAS, 2010, p. 194) que “ronda em círculos” pode ser compreendida como imagem do instinto primordial e da energia vital, portadora tanto de poder criativo quanto destrutivo. Já a estrela (ARAS, 2010, p. 18), é um símbolo de orientação e luz espiritual, representa o polo da consciência que busca sentido e direção.
Para Jung, a psique tende a se organizar em pares de opostos, luz e sombra, espírito e instinto, bem e mal, cuja tensão não se resolve pela eliminação de um dos polos, mas pela sua integração em um nível mais abrangente da personalidade, processo que ele denomina função transcendente (Jung, 2015).
O caminho, portanto, não é evitar o conflito, mas sustentá-lo conscientemente, permitindo que a energia psíquica (libido) circule entre os extremos sem se fixar em um deles. Nessa perspectiva, o receio colocado por M.: “Como caminhar nessas instâncias sem se machucar demais?”. É a formulação exata da tarefa da individuação: manter o diálogo vivo entre forças contrárias, sem que uma anule a outra.
Nesse ponto da análise, M. demonstra maior capacidade de observação interior: percebe suas ambivalências, nomeia seus impulsos e sustenta o desconforto da travessia. Ainda que o caminho não seja linear e recaídas ocorram frequentemente, a mandala atesta que um centro psíquico foi encontrado e começa a se estabilizar. A serpente, ao redor da estrela, não é mais apenas uma ameaça, ela também pode ser aliada no processo de transformação.
10ª Mandala – Mergulho na relação (o peixe)
[M] “A solidão já não me basta; quanto mais me aprofundo em mim, mais posso me aproximar do outro. É um desejo genuíno, que devagar desperta em mim, parece que estou perdendo o medo de mostrar quem eu sou”.
[A] O peixe marca disponibilidade para vínculos reais. Defesas tornam-se portais: o ego transita, conecta, compartilha.
Observa-se aqui um dos princípios mais essenciais da psicologia junguiana: o verdadeiro encontro com o outro só se dá a partir de uma base sólida de contato consigo mesmo (Jung, 2015).
A imagem do peixe é carregada de ambivalência simbólica: no contexto cristão, é símbolo do Cristo (Jung, 2013d, §§ 162-286); na alquimia, representa o lapis philosophorum oculto nas águas (Jung, 2012a §§ 94-121); nas tradições arcaicas, é expressão tanto da sabedoria profunda quanto do caos instintivo (Chevalier & Gheerbrant, 1994; ARAS, 2010, p, p. 202–205). O peixe representa aqui o conteúdo emergente do inconsciente: algo que, vindo das profundezas, se oferece à consciência para ser integrado.
Agora, o Self de M. começa a se manifestar de forma mais acessível e integrável. O peixe, como símbolo de vida em gestação nas águas do inconsciente, anuncia uma nova fase, não mais de defesa e de elaboração das feridas, mas de compartilhamento, de expansão e de relação. As pontas desenhadas por M., que antes funcionavam como defesas, agora são compreendidas por ela como portais de entrada e saída, indicando que o ego já não precisa proteger-se tão rigidamente.
Essa consciência marca uma mudança importante: M. começa a perceber que individuar-se não é isolar-se, mas encontrar formas verdadeiras de se vincular, como parte e como todo.
11ª Mandala – O Santo Graal
[M] “Só o amor salva e começa com a compaixão por si mesmo, sinto gratidão serena pela vida e pelas dores. Sinto uma mudança na qualidade da relação comigo mesma: a rigidez e a exigência que antes me marcavam estão dando lugar a uma postura mais amorosa e compreensiva. Começo a reconhecer minha fragilidade como parte da condição humana e não uma deficiência só minha. Estou aprendendo a me nutrir”.
[A] O Graal simboliza o centro curativo e união de opostos. A ferida revela-se via de acesso ao Self; fé experiencial que substitui idealizações.
M. reconheceu que, durante muito tempo, acreditou amar-se, mas percebia agora que se tratava de uma ilusão. Ressaltou que aprender a olhar para si com compaixão e reconciliar-se consigo mesma, com seus aspectos sombrios, constituía um exercício diário, um pacto de amizade interior que começava a se constituir como caminho possível, ainda em processo de aprendizagem e integração. M. se dá conta de que sua longa jornada não foi em vão. Depois de tantos desvios, provações e desertos simbólicos, encontrava agora o que verdadeiramente buscava: seu bem mais precioso, seu eu mais profundo, simbolizado aqui pelo cálice sagrado, receptáculo do sangue de Cristo, símbolo da totalidade que cura.
Marie-Louise von Franz (1990) observa que os processos autênticos de individuação costumam iniciar-se a partir de uma ferida psíquica, que força o ego a voltar-se ao inconsciente em busca de uma função reguladora central: o Self, entendido como mais abrangente do que o ego, como a totalidade da psique e como o princípio organizador da personalidade (Jung, 2014).
12ª Mandala – A chave
[M] “A chave dourada com pérola no centro, pode ser o acesso ao templo interior. Essa mandala me toca profundamente, me oferece a possibilidade de abrir algo que sempre esteve trancado dentro de mim. O fundo rosa me remete à ternura e ao feminino essencial, enquanto as camadas coloridas ao redor evocavam uma vagina aberta ao nascimento e a revelação.”
[A] Imaginação ativa: M. toma a chave e abre a porta. Na vivência da imaginação ativa, M. descreve o gesto simbólico de tomar a chave, abrir a porta e encontrar sua própria alma sentada no trono, culminando em um abraço e em um canto. Essa cena revela um momento de rara densidade simbólica, no qual se configura uma experiência de encontro com o núcleo mais profundo do ser. A chave e a porta indicam o acesso consciente a um espaço psíquico até então velado, sugerindo uma disposição do ego em atravessar o limiar que separa a consciência ordinária de uma dimensão mais essencial da vida interior.
A figura da alma entronizada pode ser compreendida como representação do Self, centro regulador da totalidade psíquica, que não se impõe de forma invasiva, mas se apresenta como presença silenciosa, digna e soberana. O trono confere a essa imagem um estatuto de autoridade simbólica, indicando que não se trata de uma fantasia egóica, mas de uma instância que transcende o ego e o convida a uma relação mais reverente e integrada.
O abraço e o canto que se seguem instauram uma experiência afetiva de profunda vinculação, apontando para um movimento de reconciliação entre ego e Self. Essa cena pode ser compreendida como expressão simbólica da coniunctio, na qual o ego não busca dominar ou submeter-se, mas aproximar-se em atitude amorosa e receptiva. Trata-se de um momento em que a separação entre sujeito que busca e centro buscado desaparece, dando lugar a uma vivência de unidade, de pertencimento e de cuidado mútuo.
Mais do que um simples exercício imaginativo, essa experiência indica uma reconfiguração do eixo ego–Self, na qual M. passa a reconhecer em si mesma uma autoridade interna legítima, capaz de orientar e de sustentar seu processo. A reconexão com o centro não se dá por imposição racional, mas por meio de uma experiência simbólica carregada de afeto, que articula imagem, corpo e emoção, favorecendo uma integração mais profunda. Ela encontra não um outro idealizado, mas a si mesma em sua dimensão mais essencial. A coniunctio aqui não é fusão indiferenciada, mas aproximação consciente com aquilo que, até então, permanecia separado, inaugurando uma forma mais amadurecida de relação consigo e com a própria vida.
Em Mysterium Coniunctionis, Jung descreve a coniunctio, união dos opostos psíquicos, como um processo análogo ao trabalho alquímico, no qual a dissolução e a síntese do ego com conteúdos inconscientes conduzem à renovação e à totalidade. Assim, o Self manifesta seu poder curativo quando a psique ferida se entrega com confiança ao processo interior, permitindo que esse centro regulador emerja e restaure a integridade perdida (Jung, 2012b).
Considerações finais
A sequência de doze mandalas atuou como espelho e como mapa no processo terapêutico de M.: da desagregação e da dispersão momentâneas à recomposição do contorno; da projeção à integração da sombra; da idealização ao compromisso ético com o próprio centro. O caso ilustra como a prática imagética, quando ancorada em associações pessoais e reflexão clínica, pode promover autorregulação, ressignificação da dor e abertura relacional.
A transformação da libido de sua função objetal para simbólica, no trabalho com as mandalas contribuiu de maneira significativa para o processo de individuação da paciente: ao se desligar parcialmente dos objetos externos, a energia voltou-se ao mundo interno, ativando imagens arquetípicas e promovendo reorganização psíquica, abrindo novas possibilidades de adaptação e de integração da consciência (Jung, 2013a, 2013f).
No processo de M., a formação dos símbolos não foi apenas um produto espontâneo da psique, mas um movimento compensatório e restaurador. Após um período de ruptura e de fragmentação, em que o ego não conseguia sustentar a tensão dos opostos, suas imagens passaram a refletir a tentativa da psique de reencontrar um eixo interno.
Mas, para que a vivência simbólica se realizasse, foi necessário que a consciência pudesse acolher as imagens emergentes sem inflá-las ou dissolver-se nelas. A transformação simbólica da libido ocorreu quando o ego se dispôs a relacionar-se com o símbolo como realidade psíquica, e não como algo a ser literatizado no mundo externo, permitindo que a energia se deslocasse dos objetos exteriores para o campo das imagens internas (cf. Jung, 2013a; 2013b). Esse movimento exigiu tanto o mergulho na experiência inconsciente num gesto de introversão, quanto o retorno à vida consciente com o que foi encontrado, num processo semelhante ao trajeto mítico do herói, que desce ao submundo e retorna transformado.
O símbolo se tornou, assim, um mediador entre o mundo interno e externo, entre o ego e o Self. Integrado à consciência, ele reorientou o fluxo da libido, reconectando M. com um modo de ser mais significativo. A individuação permanece como horizonte regulador, processo inconcluso e contínuo que, no caso de M., tornou-se presente em escolhas cotidianas mais verdadeiras (Jung, 2014).
Idiossincrasias do processo
Reconhece-se que a clínica junguiana é marcada pela singularidade da relação transferencial e contratransferencial. As leituras simbólicas apresentadas neste estudo são, portanto, contextuais: emergem e se transformam dentro do vínculo analítico, como co-elaboração entre paciente e analista. Por essa razão, não devem ser generalizadas sem a devida prudência, pois refletem a especificidade do campo relacional que lhes deu origem.


























