Introdução
O desenvolvimento do ser humano pode ser compreendido como um fenômeno sempre em construção. Para além dos aspectos predeterminados fisiologicamente, que se dão no curso da vida, esse processo envolve a noção de indissociabilidade entre fatores biológicos e culturais, marcado pelas características do sujeito e de seu ambiente, em uma relação de influência mútua, caracterizada por fases de estabilidade e mudanças ao longo do tempo (Bronfenbrenner, 1996).
Dentre as etapas que compõem o ciclo da vida encontra-se a adolescência, momento marcado por alterações no processo de desenvolvimento biopsicossocial do indivíduo, no qual novos aprendizados geram aquisições progressivas em direção à autonomia. Essa fase é marcada pela diminuição da influência familiar e aumento da força exercida pelo contexto social mais amplo, constituído, principalmente, pelos pares (Grolli et al., 2017).
As novas demandas apresentadas pelo contexto configuram-se em oportunidades para novas experiências que transformam o adolescente, aprimorando sua percepção de competência e possibilitando a construção de sua identidade a partir do experienciar das possibilidades. Esse processo de mudanças estimula a aquisição de novo repertório comportamental e o desenvolvimento de habilidades emocionais e cognitivas (Schimid et al., 2011).
As aquisições cognitivas estabelecidas na adolescência permitem ao sujeito desenvolver sua capacidade perceptiva quanto à sua personalidade, habilidades reais e elaboração de projetos futuros (Schimid et al., 2011). Essa aquisição recente pode gerar conflitos interiores em que a preocupação com o juízo das pessoas a seu respeito pode ocasionar um prejuízo à sua autoestima.
A autopercepção pode ser definida como o conhecimento que o sujeito tem de si, envolvendo a avaliação acerca de seus elementos afetivos e sociais, habilidades, competências e dificuldades (Carvalho et al., 2017). Para Harter (1999), a autopercepção de uma pessoa é baseada na forma como os outros a veem e ao impacto que essa imagem pode causar no indivíduo. A literatura relata que a consciência das reais capacidades e habilidades tem início nos anos da adolescência, a partir da maturação das estruturas cognitivas que permitem a assimilação da informação por meio da capacidade de pensamento e análise dos fatos. Esse conhecimento permite o pensamento sobre si e a construção da autopercepção. No entanto, alguns adolescentes podem apresentar distorções entre a percepção de si e sua real competência (Carvalho et al., 2017).
Essa discrepância de percepção tem sido estudada e conhecida como Viés Ilusório Positivo (VIP) e é definida como uma divergência entre competência autorrelatada e a competência real de uma pessoa. Essa distorção pode predispor o indivíduo ao insucesso, uma vez que impede a compreensão do feedback das pessoas, de suas experiências passadas, conquistas e fracassos, necessário para modificarem sua abordagem em prol de uma adaptação positiva (Capodieci et al., 2019).
De maneira geral, os indivíduos estão sujeitos a vivenciarem sentimentos negativos, momentos de angústias, favorecendo ou intensificando as mudanças de humor e comportamento, gerando um alerta para uma possível vulnerabilidade emocional durante a adolescência. Por sua vez, esse estado vulnerável pode acentuar os sentimentos negativos a respeito de si próprio, comprometendo sua autoconfiança quanto às suas habilidades e competências e impactando em sua autopercepção (Grolli et al., 2017; Harter, 1999).
Nessa perspectiva, é de extrema relevância conhecer a forma como os adolescentes constroem suas autopercepções, pois tal conhecimento poderá instrumentalizar profissionais que atuam junto a essa população. Portanto, o acesso à autopercepção dos adolescentes demanda o domínio de instrumentos sólidos que garantam o acesso e o registro desse fenômeno de forma confiável.
Nesse sentido, Cronbach (1996) ressalta que os instrumentos podem ser classificados por características a partir de seus estilos, a saber: (a) psicométrico e (b) impressionista. Os instrumentos psicométricos referem-se a instrumentos com foco interpretativo na aplicação de regras rígidas e gerais. Eles envolvem um estudo analítico e prático das semelhanças entre as variáveis, com ênfase no próprio instrumento e na padronização das respostas, com caráter fechado. Já os instrumentos impressionistas são ideográficos, ou seja, eles assumem uma interpretação mais centralizada na individualização dos dados, cujos instrumentos fazem semelhança entre pessoas, em que as variáveis não são o foco e há ênfase na liberdade das respostas do indivíduo (DeSousa et al., 2013).
No que concerne aos critérios de validade dos instrumentos, segundo os quais se verifica sua capacidade de aferir precisamente seu objeto de investigação (Alexandre & Coluci, 2011), os recursos podem ser analisados por meio dos seguintes aspectos: (1) validade do constructo: o instrumento é analisado a partir dos resultados da técnica de análise fatorial e exploratória das hipóteses, que indica se ele identifica relacionamentos entre um conjunto de muitas variáveis interrelacionadas entre si; (2) validade de critério: a eficácia do material é aferida a partir de um critério externo, que deve consistir em uma medida amplamente aceita, um parâmetro considerado “padrão-ouro”, que pode ser caracterizado de duas formas: (a) discriminante (discriminação de grupos, visando à comparação entre si) e (b) concorrente (comparados com outras medidas do mesmo objeto); (3) validade de conteúdo: diz respeito ao quanto o conteúdo de um instrumento constitui uma amostra representativa do construto a ser investigado ou o quanto uma relação de itens representa um universo definido de um conteúdo, e se divide em dois momentos: (a) desenvolvimento do instrumento e (b) avaliação por especialistas; e (4) fidedignidade: propriedade que um instrumento deve ter de aferir o fenômeno investigado sem erros, evidenciada por meio de análise da correlação das variáveis e da consistência interna (Alexandre & Coluci, 2011; Souza et al., 2017).
Diante da relevância da autopercepção para o desenvolvimento do adolescente, há que se buscar instrumentos confiáveis, que tenham passado por processo de validação, e métodos usados para aferir tal construto, especialmente no Brasil. Instrumentos adequados garantem dados confiáveis e consistentes, repercutindo nas ações derivadas dos dados obtidos com eles. Dessa maneira, esta pesquisa foi realizada por meio de uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL), definida como um estudo secundário originado a partir de uma base de dados, que descreve e analisa os resultados das pesquisas originais. Logo, o objetivo deste estudo foi descrever, com base nos pressupostos teóricos de validação psicométrica, os instrumentos utilizados em pesquisas sobre autopercepção na adolescência.
Método
Esta pesquisa é uma RSL sobre instrumentos de autopercepção na adolescência, definida a partir de estratégias de buscas, análise crítica e síntese da literatura de forma integrada. A fim de diminuir os vieses, buscou-se identificar, selecionar, avaliar e sintetizar as evidências relevantes disponíveis. O Instituto Cochrane estabelece sete passos para alcançar os objetivos estabelecidos: (1) Formulação da pergunta de pesquisa; (2) Localização e seleção dos estudos; (3) Avaliação crítica dos estudos; (4) Coleta dos dados nos artigos: variáveis a serem estudadas; (5) Análise e apresentação dos dados; (6) Interpretação dos dados; e (7) Aprimoramento e atualização da revisão (Gomes & Caminha, 2014).
A etapa inicial de uma revisão está pautada na definição da pergunta central (etapa 1) que favorecerá a compreensão acerca das nuances do fenômeno investigado. Dessa forma, utilizou-se a técnica PVO (Ferreira et al., 2020) na formulação da seguinte questão: Quais os principais instrumentos que estão sendo utilizados para investigar e medir autopercepção nas pesquisas envolvendo adolescentes? Considerou-se a seguinte estrutura: P (situação problema, participantes ou contexto) – adolescentes; V (variável do estudo) – autopercepção; e O (resultados esperados) – descrição dos instrumentos de mensuração da autopercepção de adolescentes.
A localização e seleção dos estudos (etapa 2) envolveu a definição de alguns descritores relacionados à temática, a fim de elaborar a estratégia a ser submetida às bases de dados. Os descritores, definidos com base no PVO, foram: (1) autopercepção, autoimagem, autoavaliação, autoconceito, percepção de competência; e (2) adolescente e suas variações em inglês, associadas ao operador booleano, gerando duas estratégias de busca em português e inglês: (1) Estratégia 1 – (autopercepção OR autoimagem OR autoavaliação OR autoconceito OR percepção de competência) AND (adolescente); (2) Estratégia 2 – (self perception OR self image OR self assessment OR self conception OR perception of competence) AND (adolescent OR teenager). Os estudos selecionados deveriam, a priori, contemplar a exigência de que o termo autopercepção, ou suas variações em português e em inglês, estivesse no título, associado (AND) ao termo adolescente (adolescent/teenager) que poderia estar presente em qualquer lugar no texto, etapa descrita como refinamento 1.
Como critério de inclusão na RSL e com o objetivo de refinar as buscas por artigos, considerou-se aqueles que: (a) fossem estudos empíricos revisados por pares; (b) utilizassem instrumentos específicos para análise da autopercepção; (c) tivessem sido realizados com população adolescente; (d) apresentassem o termo autopercepção no título; (e) tivessem sido publicados no período de 2008 a 2019; (f) estivessem totalmente disponíveis on-line. Todos os artigos encontrados que não atenderam a essas exigências foram excluídos. As buscas foram realizadas no Portal de Periódicos da CAPES (uma das maiores bibliotecas virtuais do mundo, que resume conteúdo científico de alto nível, com publicações nacionais e internacionais) e no Portal Adolec Brasil (biblioteca virtual especializada em saúde do adolescente). Os artigos encontrados estavam indexados nas bases: Medline, PubMed, Science Direct (Elsevier), LILACS, Scopus, PROQUEST, Web of Science, Directory of Open Access Journals (DOAJ).
A avaliação crítica dos estudos selecionados (etapa 3) foi realizada a partir de dois testes de relevância (TR), compostos por perguntas objetivas. O TR I foi aplicado aos resumos dos artigos, baseado nas questões: (1) O estudo traz o termo autopercepção no título? (2) É um estudo envolvendo adolescentes? e (3) O estudo aplicou algum instrumento de avaliação de autopercepção? Ao final dessa etapa, foram retiradas as publicações que não responderam positivamente a todas as perguntas.
O TR II foi aplicado por três juízes independentes, apenas aos artigos aprovados pelo TR I, a partir das seguintes questões: (1) O objetivo do estudo está apresentado claramente? (2) O método está descrito com clareza? (3) O estudo utiliza instrumento para mensurar autopercepção? (4) Os instrumentos utilizados para a coleta de dados de autopercepção estão descritos claramente? (5) O método permite alcançar os objetivos? (6) O procedimento de análise dos dados obtidos com os instrumentos está descrito adequadamente? e (7) Os resultados estão descritos em acordo com a metodologia proposta?
A inclusão final dos artigos foi realizada após o cálculo do índice de concordância (IC), para que fossem asseguradas a confiabilidade e credibilidade dos estudos selecionados. O cálculo foi realizado a partir da fórmula: IC = A×100/(A+D), onde: IC = índice de concordância; A = concordância; D = discordância. Os estudos que obtiveram IC>80% compuseram o escopo desta revisão.
Em seguida, coletaram-se os dados (etapa 4) dos artigos selecionados para a caracterização do objeto investigado. Posteriormente, procedeu-se à etapa de análise e apresentação dos dados (etapa 5), culminando com o processo de interpretação das informações e posterior construção e aperfeiçoamento da revisão sistemática (Etapas 6 e 7), utilizando conceitos e pesquisas sobre autopercepção, com destaque para aspectos relativos à avaliação dos instrumentos (Pasquali, 2009; Primi, 2010).
Os estudos foram revistos em detalhe a fim de encontrar informações relacionadas à descrição/caracterização dos instrumentos e suas evidências de adequação para avaliar a autopercepção. Assim, foram considerados nome/versão do instrumento, estilo de avaliação e faixa etária. No que concerne às evidências de adequação, analisaram-se a validade (construto, critério e conteúdo) e a fidedignidade (consistência interna) dos instrumentos (Pasquali, 2009).
Resultados e discussão
Após a aplicação das fases 1 a 5, foi conduzida a caracterização geral dos artigos selecionados, seguida pela análise do método de cada estudo, a fim de identificar os instrumentos apresentados nos artigos. O processo de seleção e refinamento dos artigos foi feito a partir das buscas em duas bases de dados, a saber: (a) Adolec Brasil: foram encontrados 184 artigos, dos quais no refinamento 1 excluíram-se 49, passando 135 para os testes de relevância 1 e 2, em que foram retirados 91 e 28 artigos, respectivamente. A quantidade de artigos desta plataforma relevantes para a revisão foi de 16; (b) Periódicos da CAPES: inicialmente havia 175 artigos; no refinamento 1 eliminaram-se 12, com 163 seguindo para os testes de relevância 1 e 2, em que foram removidos 47 e 96, respectivamente. Do portal da CAPES, 20 artigos foram incluídos no estudo. Dessa maneira, 36 artigos foram considerados válidos e compuseram o banco de dados desta revisão, por atenderem a todos os critérios de inclusão e terem sido aprovados nos testes de relevância
Caracterização dos artigos da RSL
Os estudos analisados adotaram um caráter quantitativo (91,67%) ou quantitativo/qualitativo (8,33%). Dos 36 estudos revisados, 11 (30,56%) foram publicados em língua portuguesa, 22 (61,11%) em língua inglesa e apenas 3 (8,33%) estudos em espanhol. Esse panorama reflete a escassez de publicações nacionais, o que mostra a escassez de pesquisas voltadas à compreensão dos processos cognitivos. Em relação à nacionalidade dos estudos, 14 (38,90%) foram realizados na América do Sul (Brasil, Peru, Argentina e Chile), 9 (25,00%) na Europa (Holanda, Itália, França, Irlanda e Portugal), 4 (11,11%) na América do Norte (EUA e México), 4 (11,11%) na Euroásia (Lituânia e Turquia), 2 (5,55%) na Oceania (Austrália) e 3 (8,33%) não descreveram o local onde foram realizadas as pesquisas. Quanto ao período de publicação, foi observado que 16 (44,44%) dos estudos foram publicados no intervalo entre 2008 a 2013, e 20 (55,56%) foram publicados no período entre 2014 e 2019. Em relação à caracterização do método, 29 (80,56%) estudos tinham caráter transversal e 7 (19,44%) foram de caráter longitudinal.
Instrumentos de avaliação da autopercepção
Foram identificadas, no total, 29 medidas usadas para avaliação da autopercepção em adolescentes, conforme pode ser observado na Tabela 1.
Tabela 1 — Demonstrativo dos instrumentos avaliativos da autopercepção
| Instrumento | Autor / Ano | Tipo de Escala de resposta | Nº de Itens | Validação | Nº de estudos que utilizaram |
|---|---|---|---|---|---|
| 1. Questionário semiestruturado | Almeida & Behlau (2009) | Questões de múltipla escolha e descritiva | 15 | Não validada | 1 |
| 2. Autorrelato | Groman et al. (2013) | Questões subjetivas | 5 | Não validada | 1 |
| 3. Pergunta estruturada | Edwards et al. (2018) | Escala Likert de 5 pontos | 1 | Não validada | 1 |
| 4. Physical Self Perception Questionnaire (PSQD) | Meleddu et al. (2002) | Escala Likert de 6 pontos | 70 | Validada | 1 |
| 5. Self-Perception Profile for Children | Harter (1985) | Questões com 2 opções de descrição | 36 | Validada | 1 |
| 6. Children’s Physical Self-Perception Profile (C-PSPP) | Whitehead (1995) | Questões com 2 opções de descrição | 30 | Validada | 2 |
| 7. Self Perception Profile of Adolescent | Van Riel et al. (2014) | Questões com 2 opções de descrição | 35 | Validada | 1 |
| 8. Self Perception Profile of Adolescent | Harter (1988) | Questões com 2 opções de descrição | 45 | Validada | 6 |
| 9. Percepción del Niño (CPQ) | Jokovic et al. (2002) | Escala Likert de 5 pontos | 39 | Validada | 1 |
| 10. Vécu Santé Perçu par l’Adolescent (VSP-A) | Sapin et al. (2005) | Escala Likert de 5 pontos | Não informou | Não validada | 1 |
| 11. Escala de autopercepción de la aptitud física (EAPAF) | Cossio-Bolaños et al. (2016) | Escala Likert de 3 pontos | 18 | Validada | 1 |
| 12. Physical Self-Perception Profile (PSPP) | Fox & Corbin (1989) | Questões com 2 opções de descrição | 30 | Validada | 1 |
| 13. Perguntas estruturadas | Molina-Frechero et al. (2017) | Escala Likert de 5 pontos | 3 | Não validada | 1 |
| 14. Self Perception Profile for Learning-Disabled Students | Renick & Harter (1988) | Questões com 2 opções de descrição | 46 | Não validada | 1 |
| 15. Self-Perception Profile for Adolescents (SPPA) | Gümüş (2010) | Questões com 2 opções de descrição | 30 | Validada | 1 |
| 16. Pergunta estruturada | Nogueira-de-Almeida et al. (2018) | Questões com 5 opções de descrição | 1 | Não validada | 1 |
| 17. Continuum de 9 silhuetas | Tiggemann & Wilson-Barrett (1998) | Questões com 9 opções de resposta | 2 | Não validada | 1 |
| 18. Questionário semiestruturado | Godoy et al. (2013) | Questões com 3 opções de resposta | 3 | Não validada | 1 |
| 19. Conjunto de Silhuetas | Stunkard et al. (1983) | Imagens de silhueta com opções de resposta | 9 | Não validada | 2 |
| 20. Pergunta estruturada | Enríquez Peralta & Quintana Salinas (2016) | Questão com 5 opções de resposta | 1 | Não validada | 1 |
| 21. Body Shape Questionnaire | Di Pietro & Silveira (2009) | Escala Likert de 6 pontos | 34 | Não validada | 1 |
| 22. Pergunta estruturada | Sousa et al. (2010) | Pergunta com 4 opções de resposta | 1 | Não validada | 1 |
| 23. Academic Self-Concept Scale | Ordaz-Villegas et al. (2013) | Escala Likert de 5 pontos | 28 | Validada | 1 |
| 24. Escala de Autoconceito para Adolescentes (EAA) | Harter (1993) | Escala Likert de 4 pontos | 40 | Validada | 1 |
| 25. Autopercepção da Aptidão Física (SPSF) | Baceviciene et al. (2019) | Pergunta com 5 opções de resposta | 1 | Não validada | 1 |
| 26. Scale Self-Concept Clarity | Campbell et al. (1996) | Escala Likert de 5 pontos | 12 | Validada | 1 |
| 27. Self-Concept Form 5 | García & Musitu (1999) | Escala de 99 pontos | 30 | Validada | 1 |
| 28. Oral Aesthetic Subjective Impact Score (OASIS) | Mandall et al. (2000) | Escala Likert de 7 pontos | 5 | Validada | 1 |
| 29. Pergunta acerca da Autopercepção da Saúde (APS) | Silva et al. (2019) | Pergunta com 4 opções de resposta | 1 | Não validada | 1 |
A análise dos estudos revelou que as três medidas com maior índice de ocorrência foram o Self Perception Profile of Adolescent (SPPA) (Harter, 1988), em 6 estudos (20,69%), o Children’s Physical Self-Perception Profile (C-PSPP) (Whitehead, 1995), em 2 estudos (6,89%), e o Conjunto de Silhuetas (Stunkard et al., 1983), em 2 estudos (6,89%). Os outros instrumentos inclusos nesta RSL obtiveram 1 ocorrência (3,45%) cada. No que concerne ao ano de elaboração dos instrumentos, observou-se que 14 (48,28%) foram elaborados na última década. Quanto à tipificação das questões avaliativas, 11 (37,93%) instrumentos utilizavam escalas tipo Likert, com variação de 3 a 7 pontos; 6 (20,69%) apresentavam questões com duas opções de descrição, 9 (31,03%) tinham perguntas que variavam entre 1, 4, 5, 6 e 99 opções de resposta, e 3 (10,35%) usavam questões discursivas, com o objetivo de levantar dados qualitativos.
Descrição dos instrumentos
A partir da análise dos instrumentos levantados nesta RSL, que buscaram mensurar o constructo da autopercepção, 14 (48,28%) são instrumentos validados e 15 (51,72%) são instrumentos ainda não validados. Esses recursos foram aplicados ao público adolescente, na faixa etária de 10 a 19 anos.
Instrumentos validados
Dentre os 14 instrumentos validados, 8 (57,15%) escalas utilizavam o sistema Likert de resposta, variando de 5 a 70 itens com questões diretas. As demais escalas validadas variaram entre 30 e 45 itens e se diferenciaram das oito primeiras em que o indivíduo tinha a possibilidade de escolher somente entre duas opções de resposta. Estas 6 (42,85%) escalas versavam acerca de aspectos como aparência física, apelo romântico, amizade íntima, competência social, conduta comportamental, competência escolar, dentre outros. Dos 14 instrumentos validados, 4 (28,58%) foram usados na Europa (Itália, Portugal, Holanda e Espanha), 2 (14,29%) na América do Sul (Peru e Chile), 1 (7,13%) na América do Norte (México), 2 (14,29%) na Euroásia (Lituânia e Turquia), 1 (7,13%) na Oceania (Austrália) e 4 (28,58%) não informaram o local de aplicação. Não foram achados instrumentos validados em estudos realizados no Brasil, o que leva a uma reflexão a respeito da carência de publicações nacionais que investiguem o construto da autopercepção, sobretudo entre o público adolescente.
Ressalta-se que esses instrumentos foram analisados a partir de seu processo de validade (conteúdo, critério e construto) e fidedignidade (Alexandre & Coluci, 2011; Pasquali, 2009; Primi, 2010). A Tabela 2 apresenta as evidências de adequação dos instrumentos: validade e fidedignidade. As informações são apresentadas em três partes: a primeira coluna identifica o instrumento, seus autores e ano; as seguintes descrevem os critérios de validade do instrumento: construto, critério (validade discriminante e concorrente) e conteúdo; e as últimas demonstram os critérios de fidedignidade dos instrumentos, com uma coluna onde está identificado o estudo e indicada a consistência interna (valor do alfa de Cronbach) e outra, a correlação (que demonstra se houve algum critério complementar ao valor do alfa de Cronbach).
Tabela 2 — Evidência da fidedignidade e validação dos instrumentos
| Instrumento, Autor, Ano | Validade | Fidedignidade | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Construto | Critério | Conteúdo | Consistência Interna | Correlação | ||
| Discriminante | Concorrente | |||||
| 1. Physical Self Perception Questionnaire (PSQD) Meleddu et al. (2002) | S | — | S | — | Labbrozzi et al. (2013) 0,75 < α < 0,90 | — |
| 2. Self-Perception Profile for Children (SPPC) Harter (1985) | S | — | S | — | Stewart et al. (2010) α = 0,80 | — |
| 3. Children’s Physical Self-Perception Profile (C-PSPP) Whitehead (1995) | S | — | S | — | Lubans et al. (2011) 0,82 < α < 0,91 | — |
| — | S | — | — | Morgan et al. (2012) 0,76 < α < 0,83 | — | |
| 4. Self Perception Profile of Adolescent Van Riel et al. (2014) | — | S | — | — | Van Riel et al. (2014) α = 0,80 | T = 0,72 RT = 0,76 |
| — | — | S | — | Crocetti et al. (2018) 0,61 < α < 0,73 | S | |
| — | S | — | — | Calero et al. (2018) 0,71 < α < 0,84 | S | |
| S | S | — | — | Yıldız et al. (2011) 0,78 < α < 0,92 | — | |
| — | S | — | — | Jamison & Schuttler (2015) 0,65 < α < 0,89 | S | |
| — | — | S | — | Öztürk & Özmen (2016) α = 0,72 | T = 0,93 RT = 0,60 | |
| S | — | S | — | Bandeira et al. (2008) 0,48 < α < 0,84 | S | |
| 5. Percepción del Niño (CPQ) Jokovic et al. (2002) | — | — | S | — | Apaza et al. (2015) α = 0,91 | — |
| 6. Escala de autopercepción de la aptitud física (EAPAF) Cossio-Bolaños et al. (2016) | S | S | — | — | Cossio-Bolaños et al. (2016) 0,82 < α < 0,85 | — |
| 7. Physical Self-Perception Profile (PSPP) Fox & Corbin (1989) | — | — | S | — | Çağlar & Aşçı (2010) 0,53 < α < 0,70 | — |
| 8. Academic Self-Concept Scale Ordaz-Villegas et al. (2013) | S | — | — | S | Ordaz-Villegas et al. (2013) α = 0,82 | — |
| 9. Escala de Autoconceito para Adolescentes (EAA) Harter (1993) | S | S | — | — | Carvalho et al. (2017) α = 0,90 | — |
| 10. Scale Self-Concept Clarity Campbell et al. (1996) | — | S | — | — | Levey et al. (2019) 0,83 < α < 0,92 | — |
| 11. Self-Concept Form 5 García & Musitu (1999) | — | S | — | — | Padial-Ruz et al. (2020) α = 0,83 | — |
| 12. Oral Aesthetic Subjective Impact Score (OASIS) Mandall et al. (2000) | — | S | — | — | Pasiga et al. (2019) — | — |
Notas
α – alfa de Cronbach
S – Evidências positivas
— Informação não disponível nos estudos revisados.
No que se refere à avaliação da validade de construto, verificada por técnica de análise fatorial e exploratória das hipóteses, observaram-se oito instrumentos. Dentre eles destaca-se a Escala de Autopercepción de la Aptitud Física (EAPAF), utilizada por Cossio-Bolaños et al. (2016), que avaliaram a autopercepção e a atitude física de 3.060 adolescentes, considerando as variáveis idade e sexo. Os dados foram organizados em quatro dimensões (morfológica, muscular, motora e cardiovascular), a fim de favorecer a investigação das propriedades e características da EAPAF. A relação entre as variáveis foi verificada por meio da análise fatorial confirmatória. Dentre os resultados, os autores descreveram que as mulheres apresentaram níveis menores de autopercepção nas dimensões muscular, motora e cardiovascular ao longo do tempo. O alfa de Cronbach nesse estudo, variou entre 0,82 e 0,85 e apresentou elevado nível de consistência interna, de 0,84.
A validade de critério indica a capacidade de anunciar o desempenho do sujeito, e pode ser dividida em validade discriminante e validade concorrente (Pasquali, 2009; Primi, 2010). A análise dos estudos revelou 10 medidas validadas com base no critério de validade discriminante (discriminação de grupos, visando a comparação entre si). Como exemplo cita-se o estudo de Padial-Ruz et al. (2020), que utilizou o instrumento Self-Concept Form 5 (AF-5), de García e Musitu (1999), para medir o autoconceito, isolamento emocional e funcionamento da família de 2.388 adolescentes, com idade entre 11 e 17 anos, em relação às práticas de educação física. Os dados foram investigados por meio de análise de cinco dimensões: Autoconceito Acadêmico (AA), Autoconceito Social (AS), Autoconceito Emocional (AE), Autoconceito de Família (AFM) e do Autoconceito Físico (AF). Dentre os resultados, relatou-se que o autoconceito, em todas as suas dimensões, alcançou um nível mais alto entre os indivíduos envolvidos em atividades físicas, confirmando seus efeitos positivos a nível físico e mental, nas relações sociais e no desempenho acadêmico. A escala apresentou um alfa de Cronbach global de 0,83.
Sob a análise do critério com validade concorrente (quando o instrumento é comparado com outras medidas do mesmo objeto), foram encontrados oito instrumentos que utilizaram a comparação com outras medidas para validar seus resultados. Essa situação pode ser observada no estudo de Stewart et al. (2010), que avaliou as propriedades psicométricas da Self-Perception Profile for Children (SPPC) para uso numa população de 92 meninas afro-americanas. Os resultados do estudo foram comparados com a Escala de Autoestima de Rosenberg, em que se percebeu que a SPPC teve baixa validade convergente nessa comparação, o que torna questionável sua validade para uso em adolescentes afro-americanas (Stewart et al., 2010).
A validade de conteúdo informa se o instrumento constitui uma amostra representativa de determinado objeto a ser investigado (Alexandre & Coluci, 2011). Nesse sentido, observou-se que somente um instrumento, o Academic Self-Concept Scale, de Ordaz-Villegas et al. (2013), utilizou essa técnica para validar seus resultados. Os autores buscaram construir e validar uma escala de autoconceito acadêmico (Academic Self-Concept Scale) com dimensões globais, focada em estudantes adolescentes. A amostra foi constituída por 347 adolescentes (de 14 a 18 anos) de uma escola pública da Cidade do México. A pesquisa foi realizada em dois momentos: no primeiro, foi elaborado um questionário aberto para ser aplicado com a intenção de conhecer as atividades acadêmicas dentro e fora da escola. No segundo, uma pesquisa de perguntas fechadas foi aplicada aos adolescentes. Os resultados agruparam 16 itens em quatro fatores: autorregulação, habilidades intelectuais gerais, motivação e criatividade. A escala apresentou um alfa de Cronbach global de 0,82.
No que se refere à fidedignidade (capacidade de mensuração sem erros), verificou-se que nove escalas validadas apresentaram 100% de consistência interna positiva, validada pelo alfa de Cronbach, e que duas (22,20%) delas aferiram sua precisão por meio de teste-reteste, como é o caso da medida Self-Perception Profile for Adolescents (SPPA), do estudo de Öztürk e Özmen (2016), com 771 adolescentes do ensino médio (idade média de 16 anos) na Turquia. Com intuito de compreender a relação entre o uso problemático da internet e a autopercepção (aparência física, aceitação social/romance, conduta comportamental, competência atlética e competência profissional), relacionando-os com o gênero e o tipo de ensino médio que os alunos frequentavam, os resultados mostraram que o uso problemático da internet apresentou correlação positiva com o apelo romântico e a competência atlética, aspectos da autopercepção, e, ainda, que a consistência interna do instrumento foi de α = 0,72 (Öztürk & Özmen, 2016).
Instrumentos não-validados
Observando os instrumentos não validados, encontraram-se escalas, questionários semiestruturados, autorrelato, conjunto de imagens e perguntas estruturadas. Dos 15 instrumentos não validados, 3 (20%) foram utilizados em estudos transversais, na Europa e na América do Sul, com intuito de levantar dados de natureza quanti/qualitativa. Os demais instrumentos dividiram-se em: 3 (20%) que foram utilizados em pesquisas longitudinais, nos EUA e Europa (França, Holanda e Irlanda); e 9 (60%) em pesquisas transversais, no Brasil, México e Lituânia; todos coletando dados quantitativos.
Considerando o tipo de escala de resposta e o estilo de avaliação dos instrumentos não validados, percebeu-se que 6 (40%) utilizaram o sistema Likert de resposta, variando entre 1 e 34 itens, com questões diretas; 6 (40%) instrumentos usaram questões com 2 a 9 opções de descrição, que abordavam tópicos como habilidades escolares, aceitação social, habilidades esportivas, aparência física, amizades, percepção da saúde, dentre outros.
Assumindo um estilo psicométrico, em que é enfatizada a padronização do estímulo, priorizando a objetividade, Silva et al. (2019) aplicaram uma escala Likert a 373.386 adolescentes, na faixa etária entre 14 e 19 anos, no estado de Pernambuco, Brasil, investigando a Autopercepção da Saúde (APS). Os adolescentes responderam a uma pergunta (“Em geral, você considera que sua saúde é?”) que contava com quatro opções de resposta (Ruim, Regular, Boa e Excelente). Para a análise, as opções foram categorizadas de forma dicotômica: positiva (excelente/boa) e negativa (regular/ruim). Dentre os resultados, foi relatada elevada prevalência negativa de Auto Percepção da Saúde (APS), particularmente entre as meninas.
O estilo impressionista foi percebido em 3 (20%) dos instrumentos não validados, nos quais foram encontradas questões subjetivas ou descritivas, com utilização de imagens, nas quais os sujeitos podiam ampliar suas respostas (Primi, 2010). Como exemplo desse estilo cita-se o estudo de Gromann et al. (2013), com 724 adolescentes, com o objetivo de investigar a autopercepção do bullying, mensurada por meio do Revised Olweus Bullying Questionnaire, procedimento padrão de autorrelato. Usou-se a pergunta geral “Quantas vezes você foi vítima de bullying nos últimos três meses?”, apresentando cinco itens para avaliar as diferentes formas de vitimização: verbal, relacionamento direto, físico, relacionamento indireto e relacionado a posse.
Observou-se que o estilo de avaliação psicométrico (80%) e impressionista (20%) foi encontrado entre os instrumentos não validados. De modo semelhante, dentre os oito estudos encontrados no contexto brasileiro, foram identificadas pesquisas que adotaram cada um dos estilos de avaliação, isto é, psicométricos (seis) e impressionistas (duas). No entanto, não se observou a utilização de ambos os estilos num mesmo estudo.
Discussão geral sobre os instrumentos
A presente revisão evidenciou o interesse e a diversidade das pesquisas acerca da autopercepção em adolescentes (Carvalho et al., 2017), revelando grande quantidade de instrumentos (29) sobre o tema. Dos instrumentos ora levantados, 24 (82,75%) eram questionários, escalas e inventários autoaplicados de estilo psicométrico, pautados em parâmetros fechados, muito utilizados. Provavelmente, essa alta incidência se deve à facilidade de aplicação desse tipo de instrumento, uma vez que demandam menos tempo e são de baixo custo. Entretanto, outros tipos de recursos, como entrevistas e perguntas descritivas também foram observadas, embora em menor quantidade: 5 (17,25%). A literatura sugere a necessidade de se combinar os dois estilos de instrumentos, com vistas a uma melhor compreensão do fenômeno avaliado (DeSousa et al., 2013).
Considerando a amplitude da autopercepção, percebeu-se que os estudos investigaram os seguintes domínios: competência escolar, social e atlética, aparência física, trabalho, namoro, conduta comportamental e amizade, presentes em 12 (41,28%) dos materiais analisados; ou de alguma característica específica relacionada ao construto, como a percepção da capacidade de aprendizagem: 3 (10,35%), da saúde bucal: 3 (10,35%) ou da voz: 1 (3,45%), demonstrando seu caráter multifacetado.
Todavia, encontra-se uma fragilidade ao observar os instrumentos destinados a avaliar uma característica específica da autopercepção, como por exemplo a percepção de bullying, em que há a necessidade da utilização de uma combinação de instrumentos com estilos avaliativos diferentes (psicométrico e impressionista), com intuito de ampliar a percepção, considerando diferentes olhares (pares, família, escola). A ampliação desse foco possibilitaria a percepção de práticas desfavoráveis de infortúnio social em sua fase inicial, o que diminui sua interferência nas habilidades sociais dos jovens e na fragilização de sua autopercepção (Gromann et al., 2013), o que pode se refletir em suas perspectivas futuras (Harter, 1999).
Assim, ao investigar instrumentos que busquem mensurar determinado construto, deve-se atentar ao seu processo de validação e às suas propriedades internas, para que se façam escolhas acertadas quanto aos recursos a serem utilizados na avaliação, para garantir dados confiáveis e consistentes. Nesse sentido, os indicadores psicométricos avaliados indicaram que os estudos apresentaram evidências adequadas de validade e de fidedignidade para os instrumentos validados.
Com relação às evidências de adequação dos instrumentos, a validade de conteúdo se mostrou o parâmetro menos investigado. De acordo com Pasquali (2009), essa validação é composta pela construção do instrumento (considerando todos os aspectos que constituem o construto) e sua posterior apreciação por juízes (pessoas experientes na avaliação do fenômeno) que analisam a capacidade de determinado material representar as especificidades do construto a ser investigado, não sendo utilizada, para isso, nenhuma técnica estatística.
Pasquali (2009) ressaltou a dificuldade em validar o conteúdo de um instrumento, haja vista a necessidade de o material ser uma representação clara dos aspectos que dão sustentação ao construto, o que constitui uma dificuldade, diante do caráter multifacetado da autopercepção. Isso, por sua vez, influencia na organização (escolha) dos juízes que participarão da segunda etapa do processo, o que explica sua menor ocorrência nos estudos de validação de instrumentos que visam medir a autopercepção em adolescentes.
Outra reflexão que se faz diante dos dados alcançados é sobre os instrumentos não validados. Em se tratando dos que adotaram uma natureza psicométrica, a literatura chama a atenção não somente para sua capacidade de produção e riqueza de informação, mas também para a possibilidade de sua aplicação, correção e replicação, a fim de trazer a segurança isonômica dos dados. No que se refere ao estilo impressionista, as discussões giram em torno da forma como é estruturada a situação a ser investigada, se o recurso reflete aspectos fundamentais acerca do construto e, ainda, da maneira como os testes são interpretados. Isso pode implicar em limitações em seus procedimentos de codificação, homogeneização das respostas e sua análise, uma vez que, geralmente, envolve a subjetividade do pesquisador, tornando mais difícil sua mensuração e interpretação e comprometendo o processo de validação (Pasquali, 2009).
Considerações finais
O procedimento avaliativo é uma atividade complexa que tem como propósito compreender o funcionamento psicológico do sujeito, compreender suas perspectivas e suas percepções, com intuito de criar e organizar programas e intervenções promotores de saúde. É uma tarefa difícil, que requer rigor metodológico. Nesse sentido, a psicometria utiliza estratégias para assegurar a validade de seus instrumentos de avaliação. Em geral, destaca-se o modelo trinitário, composto por técnicas que avaliam sua validade de construto, de conteúdo e de critério. A partir de tais análises, pode-se escolher ferramentas apropriadas, com sólida sustentação de seus processos de validação e confiabilidade.
Nessa perspectiva e com o objetivo de sistematizar os dados das pesquisas a despeito da avaliação da autopercepção, a presente revisão descreveu os principais instrumentos utilizados, buscando caracterizá-los a partir de marcos teórico-conceituais pertencentes à avaliação psicológica, considerando sua validade e fidedignidade, assim como seus estilos avaliativos: psicométrico e impressionista.
Os resultados encontrados indicaram que os instrumentos de autopercepção predominantes foram de natureza psicométrica, fornecendo dados quantitativos, caracterizado por tarefas padronizadas, com os quais a correção e a interpretação são feitas a partir da comparação com critérios preestabelecidos. Por um lado, esse tipo de instrumento assegura o rigor metodológico da pesquisa e garante a uniformidade no processo de coleta e análise de dados. Por outro, gera apenas uma fonte de informação para analisar diferentes dimensões de determinado construto. Seu parâmetro fechado/objetivo não considera detalhes que possam contribuir para a compreensão das características individuais dos sujeitos que se encontram escalonados em diferentes níveis do instrumento.
Sob essa ótica, sugere-se, para pesquisas futuras, a utilização da combinação de instrumentos com estilos diferenciados, que permitam o acesso de dados não apenas quantitativos (psicométricos), mas também de natureza qualitativa (impressionista) que permitam a compreensão mais ampla sobre a construção da autopercepção. A maior limitação desta revisão foi o foco somente nos instrumentos de mensuração da autopercepção, sem considerar seu contexto de aplicação. No entanto, esse critério foi empregado para garantir um número significativo de estudos, com uma variedade de instrumentos. Sua maior contribuição é apresentar um panorama atual da disponibilidade de instrumentos de avaliação da autopercepção, como também informar a inexistência de uma medida validada por estudos realizados no Brasil, evidenciando a necessidade de investimento científico na construção e validação de instrumentos destinados ao público adolescente brasileiro.













