Introdução
Seja em ambientes predominantemente naturais ou predominantemente construídos pelo homem, descobri que momentos de profunda afinidade com o ambiente não humano devem ser contados entre aqueles momentos em que se bebe mais profundamente do significado completo da vida. (Searles, 1960)
Moscas invadem a mente, uma sequência de edifícios se mistura aos contornos dos corpos; livros, fotos, animais domésticos, máquinas permeiam os relatos de casos de Harold Searles (1960) – afinal, a possibilidade de experienciar ser si mesmo é atravessada por quantos seres? Enquanto psicanalistas, nossa especialidade é o humano? A psicanálise poderia, então, se situar na esteira das ciências humanas?
É interessante lembrar que a própria separação entre ciências humanas e ciências naturais é contemporânea à psicanálise e nos remete ao contexto da Alemanha do final do século XIX, sobretudo no que concerne ao pensamento dos chamados neokantianos, que passou a centralizar a reflexão epistemológica europeia ao longo do século XX. Trata-se simultaneamente de uma reação e de uma continuidade em relação ao projeto Iluminista que, no século XVII, almejava a orientação pela razão. A expansão do programa naturalista é a contrapartida desse movimento e tem o positivismo comteano como um de seus principais representantes no século XIX (Stengers, 1993/2000). O alastramento do naturalismo engendrou uma divisão entre a especificidade metodológica das Geisteswissenschaften e das Naturwissenschaften – natureza e espírito separados para o sujeito do conhecimento. Nem tudo pode ser considerado natural para o homem moderno. A herança do Iluminismo, por outro lado, continua inscrita no que Stengers (1993/2000) denomina de Ciência – com letra maiúscula, como um substantivo próprio. A razão humana é, nas ciências da natureza e nas ciências do espírito, considerada a principal ferramenta para produção de conhecimento sobre o mundo, objeto do conhecimento. A aspiração normativa da epistemologia moderna nutre-se do demarcacionismo que pretende isolar polos opostos, o que Latour (2013) denomina de grandes divisões: verdade e ficção, ciência e mito, natureza e cultura. Nesse contexto, conforme indica Donna Haraway, “os outros do homem estão bem documentados em registros ontológicos questionáveis: deuses, máquinas, animais, monstros, criaturas rastejantes, mulheres, servos e escravos” (2022, p. 17).
No que concerne mais especificamente à psicanálise, as discussões sobre seu estatuto epistemológico parecem ter surgido concomitantemente à própria noção de inconsciente. Como bem demonstrou Lacan (1969-1970/1992), a psicanálise, ao mesmo tempo em que é herdeira do sujeito da ciência, trabalha com seus restos, com aquilo que escapa ao próprio conhecimento consciente. O sofrimento neurótico, que desafiava a ciência da época, denuncia a impossibilidade do triunfo do indivíduo, senhor de si, separado do mundo. Os sintomas, nesse contexto, são justamente efeitos da defesa contra aquilo que a consciência não pode suportar, efeito de um esforço de se afastar da contaminação do que escapa ao projeto do homem moderno europeu. As defesas neuróticas se aliam ao ideal de uma suposta excepcionalidade do sujeito do conhecimento sobre o objeto. O neurótico se defende do que é estranho a si, uma vez que conquistou a possibilidade, nunca acabada, de se diferenciar do entorno – seu ideal é triunfar sobre o mundo, sobre o desejo e a transitoriedade, é levar ao extremo os contornos conquistados, é triunfar sobre o encantamento de outros seres e acessá-los enquanto objetos externos.
Na mesma direção, o homem moderno branco e europeu, único dotado de legitimidade em seu estatuto ontológico, sonha apenas com seu próprio umbigo (Kopenawa & Albert, 2015); almeja ser o dominador dos restos, a saber, as mulheres, os negros, os indígenas, os animais, as coisas. Os outros do sujeito do conhecimento são destituídos de intencionalidade própria, diferentemente de uma perspectiva considerada animista, que atribui intencionalidade às coisas e foi relegada ao primitivismo de outros povos, não europeus. A posição epistêmica que reserva a intencionalidade das coisas ao sujeito do conhecimento pode ser pensada como uma construção defensiva análoga à própria dinâmica neurótica, um distanciamento do mundo e do desejo – posição constantemente ameaçada pela própria existência dos outros. Mesmo Freud (1913/1990), que considerava o animismo como resquício da onipotência primária, sabia que a organização totêmica não eliminaria o que era circunscrito por ele como impulsos primitivos (Klein et al., 2023) – a ordem e o progresso, já na Viena do século XX, denotavam pretensões aliadas ao delírio de domínio inalcançável. As separações modernas configuram-se, por inspiração em Latour (2013), como aspirações fugazes, ilusões colonialistas as quais a psicanálise herda e, quem sabe, subverte.
Desde os compromissos e dissonâncias do cientista Freud, a psicanálise transita entre as ciências da natureza e as ciências humanas, entre os princípios da física e da filosofia, entre as exigências da medicina moderna e seus restos. Mais de um século depois, seu estatuto epistemológico continua sendo objeto de disputa política – ora a afirmação do distanciamento da Ciência configura um triunfo narcísico, ora a acusação de sua falta de cientificidade é utilizada como uma ferida a seus pressupostos. Mais do que adentrar esse duelo, a possibilidade de “tecer zonas de contato” (Haraway, 2022) entre discussões advindas da experiência psicanalítica e de outros campos de saber permite subverter nossa própria régua – a ciência moderna, branca e europeia é a única referência para uma discussão epistemológica? Tecer zonas de contato é pôr-se na contramão do dualismo moderno que, entre ciência e ficção, natureza e cultura, humano e não humano, concebe a existência do humano destacada do mundo ao redor e hierarquiza os registros ontológicos retirando a agência de outros atores (Despret, 2023). Ora, nas palavras de Haraway, “(…) o excepcionalismo humano se mostra como o espectro que amaldiçoa o corpo à ilusão, à reprodução do mesmo, ao incesto (…)” (2022, p. 231).
O sonho moderno e colonialista da separação entre natureza e cultura, ciência e ficção, humano e não humano vai na direção oposta da proposta epistemológica e política de Donna Haraway – a possibilidade de tecer zonas de contato, na esteira de estudos decoloniais e pós-coloniais, foi adaptada da linguística ao circunscrever idiomas que nascem do contato entre diferentes populações. Trata-se, para usar uma expressão de Anna Tsing, de caminhar pelas “bordas indisciplinadas” (2022, p. 63). Caminhar pelas bordas indisciplinadas é uma atitude epistemológica e política que implica deslocar-se da concepção de um mundo objetivo acessado de forma excepcional pelos humanos com sua cultura, linguagem ou qualquer outro atributo especial. Trata-se de considerar um emaranhado de seres que se entrecruzam; conforme as palavras de Haraway, “o corriqueiro é uma dança de lama com multiparceiros que emerge de espécies emaranhadas e nelas. (…) Esses são os contágios e as infecções que ferem o narcisismo primário de quem ainda sonha com a excepcionalidade humana” (2022, p. 49-50).
Ora, que reverberações podemos traçar para a própria experiência analítica se abdicarmos da régua da ciência moderna para medir seu alcance? O que seria de nós psicanalistas ao abandonarmos o excepcionalismo humano e considerarmos outros atores em nossa experiência? Essa questão, muito embora relegada ao resto da história, não é nova na psicanálise – encontramos proposições numa direção parecida, mesmo antes das provocações de Donna Haraway, nas discussões levantadas por Harold Searles mediante sua experiência analítica, sobretudo com pacientes esquizofrênicos. Para Searles (1960), a literatura psicanalítica tende, na maior parte das vezes, a considerar os objetos não humanos apenas como matéria para projeções, ou seja, objetos inanimados que se curvam ao humano. Sua experiência clínica com pacientes diagnosticados pela psiquiatria como esquizofrênicos, no entanto, diferente das tentativas de isolamento neurótico, deixavam entrever a importância de conceber zonas de diferenciação e indiferenciação entre o ambiente humano e não humano desde os primórdios, misturas que aparecem ressaltadas na experiência analítica com sofrimentos agudos. Para Searles, as articulações entre humanos e não humanos compõem a primeira forma de relacionamento e devem ser consideradas como ponto de partida na psicanálise. Se o desenvolvimento da personalidade da criança seguir um curso relativamente sem obstáculos, esse modo de interação diminui em intensidade e frequência à medida que os contornos são assegurados, mas não extintos – a experiência permeada pelo que o psicanalista chama de ambiente não humano é a marca de qualquer possibilidade de existência.
Harold Searles (1960) parece considerar algo semelhante àquilo a que mais tarde Donna Haraway se refere quando afirma que “os seres da Terra são preênseis oportunistas, prontos a se unir com parceiros improváveis em algo novo, algo simbiogênico” (2022, p. 289). Seguindo as trilhas de Pereira e Coelho Junior (2022), somos convidados a compartilhar dessa parceria improvável em seus próprios escritos. A experiência de ler Harold Searles é testemunha de uma tentativa de nos transportar para dentro de sua própria experiência analítica. Tanto o estilo de escrita, sobretudo nas vinhetas clínicas, quanto sua discussão metapsicológica aproximam-nos dos momentos de indiferenciação entre o eu e o outro. Para Pereira e Coelho Junior, “ao lermos os casos de Searles nos transformamos um pouco nele, pensando e sentindo algo parecido com o que ele pensava e sentia – com toda a estranheza e bizarrice que isso comporta” (2022, p. 48). Trata-se de relatos que marcam uma continuidade com a experiência analítica sobretudo com pacientes esquizofrênicos, na qual os processos de introjeção e projeção são ressaltados, deixando entrever um emaranhado que desrespeita a pretensão moderna de divisão entre natureza e cultura, humano e não humano. Ainda que destacado na esquizofrenia, esse processo, para Searles, não se restringe a essa condição psicopatológica e não se extingue com o advento da linguagem, da cultura ou qualquer outro atributo exclusivo da espécie. O que fundamenta essa ideia é a compreensão de que o ser humano, inicialmente, está indiferenciado dos outros e de seu ambiente. Para Searles há, portanto, um processo fundamental e nunca acabado que compõe a experiência analítica: o processo de diferenciação e indiferenciação do ambiente não humano, ou seja, dos objetos inanimados, dos animais e da natureza.
Ora, nem ciência humana, nem ciência da natureza, dessa perspectiva, a experiência analítica desafia a régua epistêmica moderna e nos convida a repensar o próprio estatuto do humano e seus outros. O objetivo deste artigo consiste em tecer um diálogo entre as considerações de Harold Searles e Donna Haraway sobre o ambiente humano e não humano de modo circunscrever algumas considerações dessa perspectiva sobre a experiência analítica no sentido do afastamento de uma concepção moderna, branca e europeia de um sujeito distanciado no mundo. A psicanálise, nesse contexto, torna as paredes dos consultórios membranas permeáveis, diferentes das rígidas barreiras erguidas pela exterioridade radical da alteridade que nos separa do outro, tornando-nos responsáveis pelas relações das quais fazemos parte, numa “coreografia ontológica” (Haraway, 2022, p. 78) composta por diferentes seres.
O ambiente humano e não humano: o caminho aberto por Searles na psicanálise
Harold Searles foi um analista de pacientes abertamente esquizofrênicos. Herdeiro indireto da matriz de pensamento inaugurada por Ferenczi (Aron, 1992; Coelho Junior, 2018; Pereira & Coelho Junior, 2022; Silver, 1996), Searles se dedicou mais à compreensão de fenômenos clínicos surgidos na dinâmica transferencial-contratransferencial do que à construção de ideias metapsicológicas mais amplas sobre o psiquismo. Nesse sentido, pode-se considerar que o seu trabalho tem a qualidade de uma teoria clínica (Ogden, 2014). Como explicitado, dentre os fenômenos estudados pelo autor, ele apresentou e analisou um tema até então pouco discutido na literatura analítica: a indiferenciação do paciente esquizofrênico de seu ambiente não humano, assunto tratado por Searles em The nonhuman environment in normal development and in schizophrenia (1960), seu primeiro livro. Entenda-se por ambiente não humano a natureza, os animais, os objetos naturais e aqueles construídos pelo ser humano. Partindo de suas das inquietações, surgidas no trabalho com pacientes internados no hospital psiquiátrico Chesnut Lodge, o analista reconheceu que o tema da relação do ser humano com seu meio não humano merecia um trabalho de pesquisa, pois se tratava de assunto diretamente relacionado ao trabalho clínico. Como compreender a experiência de um paciente psicótico que se sente parte do prédio do hospital? Como se aproximar de outro que vive como se fosse uma mobília de seu quarto? De que maneira circunscrever uma experiência transferencial-contratransferencial na qual o analista é percebido pelo paciente como se ele não fosse um ser humano? Esse livro de Searles é resultado de suas tentativas de encontrar respostas para esse tipo de perguntas. Em suas palavras:
A tese deste volume é que o ambiente não humano, longe de ter pouca ou nenhuma importância para o desenvolvimento da personalidade humana, constitui um dos ingredientes mais importantes da existência psicológica. É minha convicção de que há dentro do indivíduo humano um sentido, seja em nível consciente, seja inconsciente, de relação com o ambiente não humano, que essa relação é um dos atos transcendentais importantes da vida humana, que – como em outras importantes circunstâncias da existência humana – ela é fonte de sentimentos ambivalentes para ele, e que, finalmente, se ele tentar ignorar sua importância para si, ele o faz com risco para seu bem-estar psicológico. (Searles, 1960, p. 5-6, tradução nossa)
Até o final da década de 1950, a psicanálise havia dado a devida atenção à hipótese da existência de uma indiferenciação primitiva entre o bebê e a mãe, à dinâmica intrapsíquica e aos relacionamentos interpessoais (Searles, 1960). Essa é uma perspectiva para a qual, nos dias de hoje, utilizaríamos o termo intersubjetividade, mais afeito às discussões contemporâneas; Searles, no entanto, influenciado pelo pensamento de Sullivan, faz uso da nomenclatura relacionamento interpessoal (Langs & Searles, 1980; Searles, 1960). Inegavelmente, tais temas tinham lugar de destaque na teoria e na prática clínica daquela época, mas eram insuficientes para a condução do trabalho com pacientes esquizofrênicos, pois não ofereciam uma compreensão do fenômeno da indiferenciação do psicótico de seu ambiente não humano. Ao constatar essa insuficiência teórica, e na procura para uma teoria que desse algum sentido para as vivências muito primitivas de seus pacientes esquizofrênicos, Searles levantou a seguinte hipótese: o ser humano nasce indiferenciado tanto de seu ambiente humano quanto do não humano. Como desdobramento dessa hipótese, o autor considera que o ser humano, durante a toda a sua vida, enfrenta dois desafios: (1) diferenciar-se dos humanos e do ambiente não humano, na interminável tarefa de alcançar e manter alguma unidade de si, chamada por ele de individuação; e, ao mesmo tempo, (2) manter algum nível de indiferenciação do ambiente não humano.
Todo o tema deste livro, de fato, é que o ser humano está empenhado, ao longo de toda a sua vida, numa luta incessante para se diferenciar cada vez mais plenamente, não de seu ambiente humano, mas também desse ambiente não humano, enquanto se desenvolve; à medida que consegue essas diferenciações, tem uma relação cada vez mais significativa com este último ambiente, bem como com seus semelhantes. (Searles, 1960, p. 30, tradução nossa)
Searles (1960) sustenta um pensamento clínico processual, o que significa afirmar que a existência de diferentes modos de experimentar a si mesmo e o mundo, ora mais indiferenciado, ora mais diferenciado.1 Essas afirmações de Searles têm consequências para a prática clínica: juntamente com a compreensão do mundo intrapsíquico e intersubjetivo do paciente, o modo como a pessoa experimenta seu ambiente não humano se torna material de análise, pois pode nos revelar algo profundo sobre seu modo de ser e estar no mundo. O foco de Searles é a forma como a indiferenciação do ambiente não humano se mostra na transferência-contratransferência, mas pensamos que a maneira como o paciente experimenta o ambiente não humano fora da análise também tem valor clínico. É comum, por exemplo, conhecermos algo importante de alguns pacientes ao conversarmos com eles sobre seus animais de estimação ou suas plantas. Em certos casos, o uso de objetos pode favorecer o desenvolvimento da análise, como um livro, um caderno, um violão, uma folha com um desenho, o celular, um rádio, uma mochila etc. Além disso, a sala do consultório e seus objetos (poltronas, divã, quadros, mesas etc.) também passam a ser material para a experiência de momentos de indiferenciação. Os atendimentos online, por sua vez, ampliaram a participação de outros seres no setting analítico: adentramos as casas, os carros, as ruas com nossos pacientes. Como já afirmamos, não se trata de pensar no ambiente não humano como material externo para a projeção, mas, isso sim, como parte de uma mistura com o mundo de uma maneira mais ampla. Nesse sentido, a teoria clínica de Harold Searles, ancorada sobretudo em sua experiência com pacientes esquizofrênicos, sustenta a importância da agência do ambiente não humano na constituição de si mesmo e do mundo, revelando a multiplicidade de atores que permeiam a clínica psicanalítica para além da concepção do sujeito moderno distanciado do mundo e de seus restos inanimados.
Para exemplificar o tipo de fenômeno clínico que levou Searles (1960) a postular a existência da indiferenciação do humano com o ambiente não humano, apresentamos, brevemente, o caso de uma mulher esquizofrênica de vinte e dois anos atendida por ele no Chestnut Lodge. Em uma sessão com Searles, essa paciente murmurou sobre um poste que estava em sua cabeça e perguntou ao analista se ele tinha conseguido retirar esse objeto de dentro dela. Em outro momento, ela comunicou que o lado esquerdo de sua cabeça tinha desaparecido. O que chocou o analista foi a qualidade dessa comunicação: a paciente falou de sua cabeça como se essa parte de seu corpo fosse um objeto externo inanimado. Certa vez, a paciente perguntou à enfermeira porque ela tinha retirado parte de sua cabeça, referindo-se, novamente, ao próprio corpo como um objeto inanimado. Frequentemente, ela arrancava os cabelos como se lutasse para retirar de si os insetos que estavam em sua cabeça. Para ela, as mudanças corporais e psicológicas internas traziam consequências para o mundo externo. Da mesma maneira, as alterações no ambiente não humano eram sentidas como modificações corporais. No passeio que deu com o analista no terreno do hospital, a paciente, amedrontada, disse-lhe como os edifícios e a paisagem mudavam constantemente de maneira confusa. Em outro momento, essa mulher comentou com a enfermeira do hospital que as paredes estavam se mexendo e que ela, a paciente, não sabia o que estava acontecendo: mesmo que quisesse, não conseguia parar de mexer as mãos. Havia uma indiferenciação entre ela e o meio ambiente: seu corpo era parte do mundo e o mundo era parte de seu corpo. Vemos, aqui, como nossa condição humana existencial de indiferenciação do ambiente não humano se apresenta, de forma crua, na clínica de pacientes psicóticos.
Nesse tipo de situação clínica supracitada, em nosso entendimento, o cuidado e o manejo ambiental, que consideram as dimensões humanas e não humanas, passam a ter um valor clínico mais efetivo do que as interpretações verbais de natureza transferencial. Assim, as modificações no ambiente não humano têm um sentido pessoal de grande relevância para os pacientes. A mudança de um móvel ou de quadro do consultório pode causar vivências de intrusão ou confusão no paciente indiferenciado, por exemplo. Dessa forma, uma permanente tentativa de compreensão do ambiente não humano do paciente é uma maneira de o analista buscar se aproximar de experiências subjetivas originárias.
Nos casos de pacientes que podem ser considerados mais ou menos neuróticos, a consideração clínica do ambiente não humano continua sendo importante. Por terem conquistado a experiência de viver num Eu diferenciado, os neuróticos tendem a ser menos porosos e permeáveis ao ambiente não humano que os pacientes psicóticos, o que não significa que eles não vivam momentos de indiferenciação.2 Além do que já indicamos quanto à indiferenciação em estados psicóticos, o ambiente não humano, de maneira geral, fornece um lugar significativo de segurança emocional, sentido de estabilidade e continuidade de ser e é um campo de prática no qual os humanos podem experimentar suas capacidades emocionais e corporais. Esse ambiente, também, pode favorecer o alívio de estados emocionais dolorosos, o aprofundamento do sentido de realidade de ser e existir no mundo e facilitar nossa aceitação da condição humana e de nossos semelhantes (Searles, 1960).
Independentemente das especificidades dos quadros psicopatológicos, o que queremos ressaltar do pensamento de Searles, como já afirmamos, é a abertura que ele nos oferece, sem se dar conta, para realizarmos um questionamento de uma clínica centrada na subjetividade individual fundamentada na separação Eu e Outro, Natureza e Cultura. Levando às últimas consequências sua hipótese sobre o ambiente não humano, podemos afirmar que, para Searles, o modelo antropológico do ser humano tem como característica principal a indiferenciação do mundo: ser parte do mundo faz parte de nossa condição originária.3 Cabe-nos, no momento atual da psicanálise, reconhecer e trabalhar a partir dessa condição, o que nos convoca a questionar as próprias bases nas quais as teorias analíticas foram construídas. Mais: cabe-nos colocar o pensamento analítico em movimento para que ele possa enfrentar os problemas encontrados em nosso tempo histórico, ampliando nossas práticas e experimentando novas formas de cuidado.
Tecendo zonas de contato: reverberações para a experiência analítica
Sustentar a importância do ambiente não humano enquanto agente da constituição de si e do mundo, não apenas nos primórdios da vida psíquica ou num suposto primitivismo civilizatório, mas como um ponto de partida em diferentes dimensões, é também produzir um deslocamento epistêmico na própria psicanálise. Trata-se de conceber uma indissociação entre o sujeito e o mundo, não apenas no sentido de acessá-lo enquanto objeto externo, mas enquanto parte de si que por vezes encontra-se diferenciada e, por vezes, indiferenciada. Tecendo zonas de contato entre Harold Searles e Donna Haraway, a psicanálise, nesse contexto, não poderia ser circunscrita como uma ciência da natureza, nem como uma ciência humana – é preciso de outra régua para pensarmos a própria ciência. Mais próximos da ideia de “saberes localizados” (Haraway, 1995), o ambiente ao redor não pode ser considerado como um objeto, seja de conhecimento, seja de contato, mas “como um ator e agente, não como uma tela, ou um terreno, ou um recurso” (Haraway, 1995).
É justamente nesse sentido que tais considerações reverberam na própria divisão moderna entre natureza e cultura. A hipótese de uma indiferenciação entre humano e natureza enseja uma compreensão antropológica que define o ser humano como parte da natureza – nas palavras de Anna Tsing, “a natureza humana é uma relação entre espécies” (2022, p. 324). Ainda que Searles pareça nunca ter de fato se debruçado sobre essa questão, sua teoria clínica aponta diretamente para um questionamento da distinção entre natureza e cultura, e entre humano e não humano. Esse tensionamento implica não apenas uma torção epistêmica, como também produz importantes reverberações clínicas. O humano como ser na natureza nos provoca e nos leva a questionar uma prática clínica centrado num suposto sujeito acabado e diferenciado dos outros e do mundo; um sujeito que, por ser superior, vive em conflito com a natureza, tendo apenas o objetivo de dominá-la; um sujeito que usa os objetos não humanos como se fossem apenas meios de alcançar algum objetivo; em suma, questiona-se uma prática clínica centrada no sujeito-modelo branco europeu. Mais: essa compreensão de um ser humano na natureza não nos leva a questionar o próprio dispositivo analítico? O solipsismo de um analista em seu consultório particular, cuidadosamente decorado, cede lugar à imagem de um ambiente vivo, atravessado por diferentes seres. O consultório e o próprio analista não podem, nessa perspectiva, ocupar um lugar neutro, etéreo ou distanciado do mundo: o emaranhado que nos permeia está presente enquanto uma experiência de diferenciação e indiferenciação com diversos seres. Nesse sentido, as iniciativas recentes de psicanálise coletiva na rua no Brasil caminham lado a lado com as considerações de Donna Haraway e Harold Searles, uma vez que a experiência psicanalítica em praças públicas, por exemplo, não consiste apenas numa troca de cenário: a experiência psicanalítica na rua é também a experiência psicanalítica com a rua e retira todos os psicanalistas de suas confortáveis poltronas distanciadas do mundo. Como afirmam Andrade et al. sobre a experiência do coletivo Pontes da Psicanálise na praça Derby, em Recife, “dessas pessoas e dos seus trânsitos nos vinha a impressão (…) de que o trânsito da cidade era também transitoriedade dos corpos que pela praça passavam. A transitoriedade da existência era também a própria condição da nossa clínica, num espaço que é uma encruzilhada, espaço de onde muitas pessoas seguem viagens para outros destinos (…)” (2023).
Pensada nesses termos, a experiência analítica, ao mesmo tempo que se preocupa com a subjetividade, não teria que ter uma preocupação maior com o fato de nunca alcançarmos um estado de independência ou de total diferenciação? Não seria essa também uma via para concebermos a psicanálise em sua articulação com questões indissociáveis, sociais e ambientais? Em vez de se preocupar demasiadamente com uma suposta subjetividade diferenciada, um ideal criado a partir do modelo sujeito-modelo europeu, nosso trabalho não ganharia em reconhecer e trabalhar com o ser humano misturado e dependente dos outros e da natureza da qual faz parte?
Tecer zonas de contato, em companhia de Donna Haraway e Harold Searles, é ficar com o problema – título da última obra de Haraway (2023). A experiência analítica, assim como nossa organização social, vem sendo interpelada pela existência dos outros do homem moderno – as coisas, a natureza, as mulheres, os subalternizados. Reafirmar nossa permeabilidade com outros seres, como nos lembram os pacientes esquizofrênicos de Searles, é também uma provocação à responsabilidade, ou melhor, como nos aponta Haraway, “à respons-abilidade” (2023, p. 34). A experiência analítica, dessa perspectiva, nos lembra que nossa incontornável habilidade é nos responsabilizar de estar em risco com.














