Introdução
Os transtornos psicológicos podem ter impacto significativo na vida dos adolescentes e suas famílias (WHO, 2022). Em termos globais, a saúde mental dos adolescentes é uma questão de crescente importância. Estima-se que 14% dos adolescentes do mundo (entre 10 e 19 anos) vivem com algum transtorno mental (WHO, 2022). Além disso, observa-se uma relação entre dificuldades de regulação emocional e psicopatologia nessa etapa do desenvolvimento. Estudos relacionam a desregulação emocional com psicopatologias em adolescentes, seja com sintomas internalizantes, seja externalizantes (Brenning et al., 2022; Klein et al., 2022; Mannarini et al., 2018).
A regulação emocional é um conceito amplamente pesquisado, que se refere à capacidade do indivíduo de gerenciar suas respostas emocionais. Essa habilidade envolve esforços para influenciar a ocorrência, a intensidade e a expressão das emoções, de acordo com necessidades e contextos específicos (Gross & Ford, 2024). A capacidade de gerir as próprias emoções começa a ser moldada durante os anos iniciais de vida e ganha contornos significativos durante a adolescência.
Nesse processo de maturação adolescente, observa-se um incremento no emprego de áreas cerebrais avançadas, como o córtex pré-frontal, em detrimento das áreas mais primitivas associadas ao processamento emocional (Pozzi et al., 2021). É nessa fase que elementos como o temperamento individual, as funções neurobiológicas, a cognição, os fatores psicológicos e a influência do meio social convergem para criar um alicerce sólido para o manejo emocional que se estenderá pela maturidade. Conforme apontado por Tan et al. (2020), todos esses processos tornam a adolescência um momento sensível para o aparecimento de dificuldades de regulação emocional. Portanto, avaliar a regulação emocional permite identificar áreas de desafio e vulnerabilidade, bem como estratégias adaptativas ou mal-adaptativas utilizadas por adolescentes.
Não há um consenso na literatura quanto a diferenças nas formas de regular emoções de acordo com o gênero (Gross & Ford, 2024). As diferenças na expressão emocional entre homens e mulheres foram atribuídas tanto a fatores biológicos (por exemplo, diferenças hormonais) quanto a padrões culturais de educação e estereótipos de gênero (Sanchis-Sanchis et al., 2020). De forma geral, estudos empíricos indicam que essas diferenças podem derivar mais da regulação da emoção do que da reatividade emocional em si. Ambos os gêneros exibem níveis semelhantes de afeto negativo quando expostos a estímulos emocionais, mas podem regular essas emoções de forma diferente. Contudo, há diferenças nos mecanismos neurais, na flexibilidade e no esforço despendido. Outro estudo específico em adolescentes encontrou que o gênero feminino parece ser mais sensível ao contexto e flexível em suas estratégias de regulação emocional em comparação ao masculino, embora a variável idade não tenha sido considerada nessa análise (Sanchis-Sanchis et al., 2020).
Uma revisão sistemática no Brasil teve como objetivo analisar instrumentos de regulação emocional e identificou o Emotional Regulation Questionnaire (ERQ) e a Difficulties in Emotion Regulation Scale (DERS) como os mais utilizados em 19 estudos (Batista & Noronha, 2018). Além disso, os autores indicaram que a DERS é um instrumento mais específico, já que conta com mais dimensões, enquanto o ERQ é um instrumento com 10 itens que mensuram o construto de uma maneira geral e conta com somente duas dimensões: supressão emocional e regulação emocional. Nesse sentido, a DERS parece ser o instrumento mais indicado para avaliar a capacidade de regulação emocional.
A DERS foi desenvolvida para mensurar dificuldades clinicamente relevantes em regulação emocional e é embasada na funcionalidade das emoções (Gratz & Roemer, 2004). Inicialmente a escala DERS foi proposta por Gratz e Roemer (2004) e composta por 36 itens mensurados numa escala Likert de 1 (quase nunca) a 5 (quase sempre). O estudo original americano avaliou 357 adultos com idades entre 18 e 55 anos e apresentou alta consistência interna (α=0,94) ao mensurar seis dimensões de dificuldades: (a) aceitar as próprias emoções (Não aceitação; α=0,85); (b) ter consciência das próprias emoções (Consciência; α=0,80); (c) ter estratégias de regulação emocional (Estratégias; α=0,88); (d) engajar-se em comportamentos direcionados a objetivos (Metas; α=0,89); (e) ser capaz de controlar os próprios impulsos (Impulsos; α=0,86); e (f) ter clareza das próprias emoções (Clareza; α=0,84). Essa escala foi extensivamente estudada e validada em diferentes países, inclusive no Brasil.
No cenário nacional, numa amostra de 402 brasileiros adultos, as seis dimensões da DERS obtiveram uma consistência interna adequada variando entre α=0,86, nas dimensões Consciência e Clareza, e α=0,93, na dimensão Impulsos (Machado et al., 2020). Outro estudo, conduzido com 377 adultos brasileiros, obteve uma consistência interna total para a DERS de α=0,93 (Cancian et al., 2019). Ambas as pesquisas corroboram a estrutura interna de seis fatores da DERS para adultos no Brasil.
Um estudo que avaliou 1.314 pessoas, das quais 612 adolescentes de 12 a 19 anos, testou diversos modelos bifatoriais utilizando uma versão reduzida da DERS, e o modelo mais ajustado excluiu a subescala de Consciência. Os resultados desse estudo sugerem que a subescala Consciência pode não mensurar o mesmo construto de regulação emocional avaliado pelo restante do instrumento. Portanto, enquanto as demais subescalas da DERS avaliam diferentes estratégias de regulação emocional, a Consciência analisa um processo que, embora necessário, não compartilha dos mesmos construtos dos demais itens da escala (Moreira et al., 2022).
Diante disso, as versões reduzidas de escalas vêm ganhando força e Bjureberg et al. (2016) criaram uma DERS composta por 16 itens (DERS-16), que conta com cinco dimensões também mensuradas em escala Likert de 1 a 5 (todos os itens da dimensão Consciência foram excluídos e outras dimensões tiveram seus itens reduzidos). A DERS-16 apresentou uma consistência interna alta (α=0,92), aproximando-se da versão original de 36 itens. No contexto brasileiro, Miguel et al. (2017) realizaram a adaptação e validação inicial dos escores da DERS-16 para adultos e a compararam com a DERS original. O estudo obteve como resultado que o Alfa de Cronbach variou de α=0,80 a 0,87. Assim, a DERS-16 apresentou para a população adulta propriedades psicométricas comparáveis à original e se mostrou uma boa escolha por ser de rápida aplicação e por não conter a dimensão Consciência, que diminuía os valores psicométricos da escala.
Pesquisas internacionais também têm verificado a adequação da DERS para o público adolescente (Demirpence & Sen, 2023; Moreira et al., 2022; Rosharudin et al., 2023). Um estudo avaliou as propriedades psicométricas da DERS-16 numa amostra de 256 adolescentes com média de idade de 15,51 anos (DP=0,85). Os adolescentes responderam à DERS-36 e à DERS-16, juntamente com a Escala de Impulsividade de Barrett (BIS-11) e a Escala de Alexitimia de Toronto (TAS). Os resultados indicaram a confirmação de um modelo de cinco fatores e um modelo bifatorial de segunda ordem para a DERS-16, e que não há diferença significativa entre as duas versões da escala. Na versão da DERS-16, os valores de Alfa de Cronbach para as subescalas variaram entre 0,69 e 0,88, e a validade convergente foi confirmada considerando correlações satisfatórias com a BIS-11 e a TAS (Demirpence & Sen, 2023).
Diante do exposto, percebe-se que estudos vêm buscando validar um instrumento seguro e rigoroso de regulação emocional para a população de adolescentes. Contudo, no cenário de pesquisa nacional, não foram encontrados estudos de propriedades psicométricas e de adequação da DERS em nenhuma de suas versões para essa população. Ainda, salienta-se que as pesquisas internacionais enfatizam as facilidades de escalas reduzidas para o público adolescente, pois requerem menos esforço cognitivo e tensão do respondente. Uma boa medida de avaliação deve ser confiável, válida e sensível às nuances das experiências emocionais dos adolescentes. Ao compreender como eles lidam com suas emoções, pode-se oferecer suporte mais eficaz e uma transição saudável para a vida adulta. Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo examinar as propriedades psicométricas da DERS, e mais especificamente as evidências de validade baseadas na estrutura interna, na validade convergente e na confiabilidade da DERS para uma amostra de adolescentes brasileiros.
Método
Participantes
Foram avaliados 286 adolescentes, dos quais 149 meninas (52,3%), com idades entre 11 e 18 anos (M=14,51; DP=1,90). A coleta foi realizada em amostra não probabilística em escolas públicas (97,4%) e privadas (21,6%) do interior do Rio Grande do Sul, em que 53,5% estudavam no ensino médio e 66,8% estavam em famílias nucleares.
Instrumentos
Questionário de dados sociodemográfico — constituído por 24 perguntas, que visam identificar idade, sexo escolaridade e classe social percebida. Também foram obtidos dados da cidade, número de irmãos, dentre outros, a partir do autorrelato.
Escala de Dificuldades de Regulação Emocional, versão reduzida (DERS-16) (Bjureberg et al., 2016) — A DERS avalia os níveis típicos de dificuldades de regulação emocional (Gratz & Roemer, 2004). No presente estudo, utilizou-se a versão proposta por Bjureberg et al. (2016), no qual o instrumento é composto por 16 itens em escala Likert de cinco pontos, variando de 1 (quase nunca se aplica a mim) a 5 (aplica-se quase sempre a mim). A DERS-16 abrange cinco domínios: não aceitação das emoções negativas; incapacidade de se envolver em comportamentos dirigidos por objetivos quando experiencia emoções negativas; problemas em controlar comportamento impulsivo quando experiencia emoções negativas; acesso limitado às estratégias de regulação emocional, que são percebidas como efetivas; e falta de clareza emocional. A DERS-16 tem consistência total de 0,93, semelhante à DERS original de 36 itens (Bjureberg et al., 2016). A DERS-16 já recebeu evidências de validade para o público adulto no Brasil e obteve consistência total de 0,93 (Miguel et al., 2017).
Inventário de Autoavaliação de Jovens de 11 a 18 anos (YSR – Youth Self-Report) (Achenbach & Rescorla, 2001) — O YSR é composto por 118 itens e foi validado no Brasil por Bordin et al. (2013); apresenta Alfa de Cronbach na escala total de 0,924. O inventário é dividido em oito escalas que contemplam sintomas internalizantes, incluindo as escalas de Ansiedade/depressão, Retraimento e Queixas somáticas, e sintomas externalizantes, com as escalas de Problemas sociais, Comportamento delinquente e Comportamento agressivo. O inventário consiste numa escala Likert de três pontos, variando de zero (não é verdadeiro) a 2 (sempre verdadeiro).
Procedimentos éticos e de coleta de dados
O estudo foi aprovado sob o nº 14/152 (CAAE: 36888214.0.0000.5344) pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, conforme a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta a pesquisa com seres humanos no Brasil. Todos os adolescentes assinaram um Termo de Assentimento e seus pais assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Aos adolescentes foi assegurada a confidencialidade de todas as informações, que a participação ocorreria de maneira voluntária e sua desistência seria aceita em qualquer momento da pesquisa. A aplicação dos instrumentos foi realizada coletivamente em escolas, com duração de 45 minutos.
Análise de dados
Foi utilizado o software estatístico Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 22. Inicialmente, foram realizadas estatísticas descritivas quanto às médias e desvio-padrão apresentados pelos adolescentes nos fatores indicados na escala original. A distribuição dos dados foi examinada por meio do teste de Kolmogorov-Smirnov, com correção de Lillifors, para verificar se apresentavam características de uma distribuição normal. Os resultados do teste indicaram que a suposição de normalidade dos dados não foi confirmada (p<0,001). Portanto, análises de correlação de Spearman (Field, 2009) entre os fatores foram executadas, uma vez que os critérios de normalidade dos dados não foram cumpridos.
Para estabelecer as propriedades psicométricas da versão brasileira da DERS-16, foram realizadas Análises Fatoriais Confirmatórias (AFC), a fim de verificar a estrutura fatorial na amostra pesquisada. As AFCs fazem parte do grupo de estatísticas que compõe as Modelagens de Equações Estruturais (Structural Equation Modeling – SEM). Essas análises testam como os itens observados se unem para representar os construtos ou variáveis latentes, os quais foram definidos a priori, pelo pesquisador ou por estudos anteriores (Thakkar, 2020). A aderência e o ajuste do modelo previsto aos dados coletados indicam a estrutura interna da escala. Como índices de qualidade do ajuste foram utilizados o Qui-quadrado (χ2), o Comparative Fit Index (CFI), o Índice de Tucker Lewis (TLI) e o Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) com intervalo de confiança de 90%. Como método de estimação foi utilizado o Maximum Likelihood (ML). O modelo apresenta ajuste adequado quando há valores de CFI e TLI superiores a 0,90 e valores de RMSEA menores que 0,08 (Thakkar, 2020). Análises Fatoriais Confirmatórias Multigrupos (ML) também foram executadas, para verificar a invariância de parâmetros entre os grupos de meninas e meninos, para posterior uso da escala. Além disso, foi analisada a relação entre o YSR e a DERS-16 (validade convergente), para verificar se essas se associaram da maneira teoricamente esperada. Por fim, para avaliar a confiabilidade da escala foram realizadas análises do Alfa de Cronbach, a Variância Média Extraída (VME) e a Confiabilidade Composta (CC) da escala, conforme as indicações de Thakkar (2020).
Resultados
Para verificar as evidências de validade baseadas na estrutura interna do instrumento, inicialmente, correlações de Spearman foram realizadas entre as subescalas da DERS-16 (Tabela 1). Foram encontradas correlações fracas a moderadas entre os fatores do instrumento.
Tabela 1 — Correlação entre os fatores da escala
| Fatores | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
|---|---|---|---|---|---|
| 1. Não aceitação emocional | 1 | — | — | — | — |
| 2. Estratégias | 0,69* | 1 | — | — | — |
| 3. Controle de impulso | 0,34* | 0,36* | 1 | — | — |
| 4. Objetivos | 0,60* | 0,69* | 0,28* | 1 | — |
| 5. Clareza emocional | 0,39* | 0,45* | 0,25* | 0,47* | 1 |
Nota: * A correlação é significativa no nível 0,01 (duas extremidades).
Em seguida, foram realizadas análises fatoriais confirmatórias para testar as evidências de validade baseadas na estrutura interna para o público adolescente brasileiro da DERS-16. O modelo de mensuração apresentou ajuste inadequado com índices insuficientes: χ2=255,67 (p<0,001); χ2/gl=94,047; índice de ajuste comparativo (CFI) =0,92; erro quadrático médio de aproximação (RMSEA) =0,08. Foram acrescentados ajustes de covariância entre erros nos itens 13, 14, 25 e 36. O modelo foi novamente testado e o resultado indicou ajuste adequado: χ2=180,17 (p<0,001); χ2/gl=1,95; CFI=0,955; TLI=0,941; RMSEA=0,05. Os pesos padronizados dos itens em relação aos fatores das subescalas, com intervalo de confiança de 90%, são apresentados na Tabela 2.
Tabela 2 — Pesos padronizados das subescalas do DERS-16
| Fator | Item | Estimado | Mínimo | Máximo |
|---|---|---|---|---|
| 1. Não aceitação emocional | 21 | 0,56 | 0,45 | 0,70 |
| 23 | 0,71 | 0,62 | 0,81 | |
| 29 | 0,63 | 0,52 | 0,74 | |
| 2. Estratégias | 15 | 0,66 | 0,56 | 0,75 |
| 16 | 0,66 | 0,55 | 0,76 | |
| 28 | 0,63 | 0,52 | 0,73 | |
| 30 | 0,77 | 0,63 | 0,88 | |
| 36 | 0,67 | 0,55 | 0,78 | |
| 3. Controle de impulso | 14 | 0,91 | 0,78 | 1,00 |
| 19 | 0,89 | 0,77 | 0,99 | |
| 24 | 0,31 | 0,21 | 0,40 | |
| 4. Objetivos | 13 | 0,74 | 0,65 | 0,81 |
| 18 | 0,71 | 0,62 | 0,79 | |
| 33 | 0,72 | 0,60 | 0,81 | |
| 5. Clareza emocional | 05 | 0,58 | 0,47 | 0,70 |
| 09 | 0,68 | 0,54 | 0,80 |
Notas: bootstrap; maximum likelihood; n=200; IC=90%.
Foram realizadas análises multigrupo para verificar a invariância métrica, escalar e configural entre meninos e meninas, conforme as orientações de Martynova et al. (2018). Para assumir a invariância estrutural entre os grupos, é aceitável uma diferença de no máximo 0,01 no índice de ajuste CFI e ausência de diferença significativa entre os χ2 dos modelos (Cheung & Rensvold, 2002). Assumiu-se o índice do CFI como base para as análises e foi verificado que é possível assumir a invariância de parâmetros entre meninos e meninas na amostra (Tabela 3), sem que se encontrassem, portanto, diferenças entre as respostas nesses grupos.
Tabela 3 — Análise fatorial confirmatória multigrupo
| Modelo | χ2 | df | p | Δχ2 | P | CFI | RMSEA (90%) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| DERS configural | 325,29 | 184 | <0,001 | 27,08 | 1,000 | 0,92 | 0,052 (0,043-0,061) |
| DERS métrica | 352,36 | 195 | <0,001 | 76,97 | 0,004 | 0,91 | 0,053 (0,044-0,062) |
| DERS escalar | 402,26 | 210 | <0,001 | 159,13 | 0,000 | 0,90 | 0,057 (0,048-0,065) |
A confiabilidade foi analisada pelo Alfa de Cronbach, pela medida da Confiabilidade Composta e pela Variância Média Extraída dos fatores das subescalas da DERS-16; os resultados encontrados foram satisfatórios (Tabela 4). Os valores de Alfa encontrados divergiram da versão de Bjureberg et al. (2016) para os fatores de não aceitação emocional (α=0,68) e clareza emocional (α=0,57), conforme Tabela 4. Esse dado pode sofrer alterações devido à baixa quantidade de itens nos fatores, uma vez que apresentam três e dois itens respectivamente. A VME para esses fatores também ficou abaixo do recomendado, que é de 0,50. Os dados indicam que os valores dos erros nesses fatores estão altos. Entretanto, os resultados acima de 0,7, ou seja, elevada confiabilidade nos índices da Confiabilidade Composta, indicam que os itens dos cinco fatores consistentemente representam cada construto (Thakkar, 2020).
Tabela 4 — Alfa de Cronbach, Confiabilidade Composta (CC) e Variância Média Extraída (VME) dos fatores da DERS-16
| Fator | Alfa | CC | VME |
|---|---|---|---|
| 1. Não aceitação emocional | 0,68 | 0,80 | 0,40 |
| 2. Estratégias | 0,83 | 0,87 | 0,56 |
| 3. Controle de impulso | 0,71 | 0,81 | 0,56 |
| 4. Objetivos | 0,77 | 0,86 | 0,52 |
| 5. Clareza emocional | 0,57 | 0,74 | 0,41 |
| Total | 0,90 | 0,92 | 0,51 |
Análises das evidências de validade convergente da DERS-16 são apresentadas na Tabela 5. Foram encontradas correlações entre a DERS-16 com os fatores Ansiedade e depressão, Retraimento, Queixas somáticas, Quebra de regras e Comportamento agressivo do YSR. Todas as correlações foram significativas e na direção esperada; entretanto, a magnitude variou entre fraco e moderado. Destaca-se que Ansiedade e depressão e Queixas somáticas apresentaram os valores mais altos. De modo geral, os resultados indicaram que dificuldades de regulação emocional se relacionam com sintomas internalizantes e externalizantes para o público adolescente.
Tabela 5 — Correlações entre os instrumentos YSR e DERS-16 (validade convergente)
| Fator | Ansiedade e depressão | Retraimento | Queixas somáticas | Quebra de regras | Comportamento Agressivo |
|---|---|---|---|---|---|
| 1. Não aceitação emocional | 0,46* | 0,27* | 0,36* | 0,23* | 0,33* |
| 2. Estratégias | 0,44* | 0,33* | 0,38* | 0,24* | 0,32* |
| 3. Controle de impulso | 0,22* | 0,22* | 0,26* | 0,36* | 0,45* |
| 4. Objetivos | 0,36* | 0,32* | 0,35* | 0,22* | 0,29* |
| 5. Clareza emocional | 0,38* | 0,40* | 0,31* | 0,22* | 0,28* |
Nota: * A correlação é significativa no nível 0,01 (duas extremidades).
Discussão
Considerando as evidências a respeito da importância da regulação emocional para a saúde mental (Brenning et al., 2022; Gross & Ford, 2024; Klein et al., 2022; Mannarini et al., 2018), o objetivo deste estudo foi apresentar análises das propriedades psicométricas da DERS-16 numa amostra de adolescentes brasileiros com idades entre 11 e 18 anos. O uso de medidas de aferição adequadas torna-se fundamental para obter avaliações precisas sobre a regulação emocional dos adolescentes, tanto na prática clínica, como em pesquisas, já que existe uma alta incidência de psicopatologias nessa faixa etária (Compas et al., 2017; Gross & Ford, 2024). Ainda, a adolescência é uma fase do desenvolvimento humano especialmente sensível, no que toca à capacidade de regulação emocional (Tan et al., 2020). Uma avaliação cuidadosa dos sintomas internalizantes e externalizantes em adolescentes é crucial para uma abordagem eficaz de suas necessidades de saúde mental. Essa diferenciação é importante, pois orienta diretamente as estratégias de intervenção e tratamento psicoterapêutico (Gross & Ford, 2024).
Estudos atuais da DERS prezam pela exclusão da escala de Consciência e pelas versões reduzidas do instrumento (Bjureberg et al., 2016; Charak et al., 2019, Gouveia et al., 2022). Os resultados dos escores das evidências de validade baseadas na estrutura interna da DERS-16 foram verificados por meio de análise fatorial confirmatória, a qual apresentou índices de ajuste considerados bons pela literatura. Portanto, a estrutura fatorial reduzida proposta por Bjureberg et al. (2016) teve aderência à amostra de adolescentes brasileiros e foi coerente com o estudo de Charak et al. (2019), que a validou nos Estados Unidos para o público adulto e adolescente.
Também foram realizadas análises multigrupo, que têm o objetivo de verificar se uma determinada estrutura fatorial de um instrumento é igual entre grupos diversos. Os resultados analisaram a invariância de parâmetros e estruturas (Luong & Flake, 2023), considerando principalmente o índice do CFI (Cheung & Rensvold, 2002). Há evidências no grupo observado de invariância de medida entre meninos e meninas, o que indica que a escala DERS-16 pode ser utilizada por ambos os grupos sem distinção, sustentando resultados encontrados na população adulta brasileira com a DERS-36 (Miguel et al., 2017). Comparando os resultados encontrados com a literatura, identifica-se que os resultados das pesquisas não são consensuais (Gross & Ford, 2024). Por exemplo, no estudo de Sanchis-Sanchis et al. (2020) foram encontradas diferenças na regulação emocional entre os gêneros numa amostra com idade mais jovem (entre 9 e 16 anos) em relação aos participantes deste estudo (14 a 18 anos). É possível que no final da adolescência as estratégias de regulação emocional se tornem mais uniformes entre os gêneros, o que explicaria a diferença entre os estudos. A discrepância também pode surgir dos diferentes instrumentos usados para medir a regulação emocional. A DERS-16 foca nas dificuldades na regulação emocional, enquanto o estudo de Sanchis-Sanchis et al. (2020) avaliou o uso de várias estratégias, medidas com outros instrumentos, o que pode levar a conclusões diferentes. Essas comparações destacam a interação complexa de idade e gênero na regulação emocional, e sugerem que as descobertas podem variar significativamente entre diferentes estágios de desenvolvimento e abordagens de medição.
Relações entre medidas que avaliam construtos iguais ou semelhantes fornecem evidências de validade convergente (AERA, APA & NCME, 2014). A DERS-16 e os fatores Ansiedade e depressão, Retraimento, Queixas somáticas, Quebra de regras e Comportamento agressivo demonstraram níveis adequados de evidências de validade convergente. A literatura internacional mostra que há expressivas associações entre psicopatologia internalizante e externalizante e regulação emocional nessa faixa etária. Estratégias específicas como supressão emocional, evitação e negação estão altamente associadas com níveis significativos de sintomas psicopatológicos, o que é confirmado pelos dados encontrados (Compas et al., 2017). Assim, conjetura-se que a DERS-16 pode se mostrar um instrumento relevante para avaliações de sinais e sintomas de adoecimento.
Considerando os resultados, sustentam-se evidências de validade baseadas na estrutura interna, convergente, consistência interna e confiabilidade composta da DERS-16 para o público adolescente. A DERS-16 obteve resultados apropriados em seus escores ao medir fatores específicos de dificuldades de regulação emocional em adolescentes, amparando mais pesquisas e sua utilização no contexto nacional. Em especial, essa versão reduzida para 16 itens da DERS demonstra vantagens, como a diminuição de tempo de aplicação, consistência interna comparada à da DERS e a exclusão da escala de Consciência, que baixava a qualidade psicométrica da DERS-36. Desse modo, encorajamos o uso da DERS-16 para o campo de estudos da regulação emocional em adolescentes, com o objetivo de investigar a desregulação emocional nessa população com altos índices de sintomas e transtornos psiquiátricos.
Internacionalmente, a regulação emocional apresenta um consistente e bem explorado campo de estudos (Gross & Ford, 2024). Além disso, estudos vêm mostrando que as dimensões de desregulação emocional da DERS se aplicam a diversas etapas do desenvolvimento, tanto no público clínico, como na população em geral (Charak et al., 2019; Karaer & Akdemir, 2019). Contudo, há uma lacuna nacional em pesquisas com adolescentes, muito relacionada a dificuldades de mensuração. A versão reduzida da escala ainda não havia sido testada com o público adolescente brasileiro, e os resultados deste estudo indicam que a DERS-16 pode ser aplicada a essa população. Nesse contexto, o uso de uma escala de desregulação emocional, como a DERS-16, pode ser uma ferramenta essencial para avaliar a capacidade do adolescente em manejar suas emoções no Brasil.
Considerações finais
As análises das evidências de validade e de fidedignidade da DERS-16 na população de adolescentes brasileiros consolidam sua aplicabilidade, ao proporcionar uma avaliação ampla das estratégias de regulação emocional. Ao identificar áreas específicas de desregulação emocional, como dificuldade em controlar impulsos ou falta de clareza emocional, é possível desenvolver intervenções direcionadas para fortalecer as habilidades de regulação emocional do adolescente. Assim, ampliam-se as ferramentas para a pesquisa e avaliação, além de contribuir para o avanço do conhecimento sobre a regulação emocional em adolescentes brasileiros.
Não obstante, se reconhece determinadas limitações deste estudo, como a necessidade de maior abrangência da amostra e de comparação de diferentes grupos populacionais. A coleta foi realizada em algumas cidades do interior do Rio Grande do Sul e pode não abranger a alteridade das culturas de diversas regiões brasileiras. Adicionalmente sugere-se avaliar outras formas de apresentação dessa escala (DERS-36 e DERS-18), além de outras evidências de validade e estruturas bifatoriais, que podem mostrar um fator total de desregulação emocional em contraste com fatores específicos apresentados neste estudo. Por fim, estudos futuros poderão comparar os resultados em adultos e adolescentes para essa versão da escala, para entender se os dois grupos atribuem os mesmos significados subjacentes aos construtos.














