Em memória de
Luiz Roberto Monzani
É o baixo ventre que impede o homem de considerar-se um deus. Nietzsche
Em um artigo anterior, trabalhei o Pequeno Hans e o recalcamento do Édipo negativo pela ação do pai e de Freud (Zaidan, 2021). Sou compelido, agora, a desenvolver conceitualmente o que entendo por Édipo negativo.
Opto por não fazer uma leitura exegética da obra freudiana. Na linha de Laplanche, procuro fazer Freud trabalhar, isto é, interpretar Freud com Freud.
A palavra “negativo” é comumente utilizada como adjetivo, qualificando conceitos: transferência negativa, reação terapêutica negativa, alucinação negativa. Nenhum desses conceitos me interessa no momento. Pretendo lançar luz sobre um uso particular que Freud faz do negativo, não como adjetivo, mas como substantivo, em: “a neurose é, digamos, o negativo da perversão” (Freud, 1905/2016b, p. 63).
Perversão positiva, perversão negativa
A nota de rodapé na sequência desse aforismo clássico fornece um indício do seu significado, pois assinala que nas fantasias conscientes e ações dos perversos, nos delírios dos psicóticos e nas fantasias inconscientes dos neuróticos existe um conteúdo comum. O que é compartilhado, aquilo “que todos os seres humanos têm em comum”, é a aptidão para a perversão, que é “parte da constituição julgada normal” (Freud, 1905/2016b, p. 71).
Para Freud, todos ultrapassam os limites estreitos do que é “normal” na vida sexual, de maneira que: “As perversões não constituem nem bestialidades nem degenerações no sentido passional do termo. São desenvolvimentos de germens que se acham todos na indiferenciada predisposição sexual da criança” (Freud, 1905/2016a, p. 229, grifos nossos).
Nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, no capítulo a respeito da “predisposição polimorficamente perversa” (grifo nosso), Freud recorre à “influência da sedução”. A sexualidade infantil, caracterizada pelo seu estado germinante, é induzida às perversões. A criança ainda não teria os diques ou barragens psíquicas do nojo, vergonha e moral, então, “sob a orientação de um hábil sedutor, tomará gosto em todas as perversões e as conservará em sua atividade sexual”. Mesmo admitindo que “esse despertar [da vida sexual das crianças] também pode ocorrer espontaneamente, por causas internas” (Freud, 1905/2016b, pp. 98-99), em vez de uma sexualidade autoengendrada, Freud mantém a figura do sedutor.
Por que não abandonar de vez a sedução? Uma das premissas de Freud é que a pulsão sexual é de início independente de seu objeto, o que significa que seu objeto não é natural, nem sua meta é teleologicamente orientada para a propagação da espécie, o que foi sintetizado na expressão, jamais redigida por Freud, de que o objeto da pulsão sexual é contingente. Se a sexualidade é desviante em relação às funções biológicas, logo, não pode brotar ex nihilo. A pulsão sexual é despertada pelo sedutor e se solda ao objeto, ou, mais precisamente, a predisposição indiferenciada é afunilada em trilhas de descarga instaladas na sedução.
Freud propõe uma analogia entre a atividade consciente e a inconsciente com o que ocorre no campo da fotografia. Toda imagem fotográfica tem que passar pelo “processo negativo”. Os negativos que superarem bem a prova são admitidos no “processo positivo”, que conclui com a imagem (Freud, 1912/2010b, pp. 264-265). Em suma, o substantivo negativo diz respeito à inversão das luzes e das sombras.
Mas alto lá! Há uma aporia nessa teoria. Embora a pulsão sexual não tenha um objeto natural, Freud define a perversão tendo como parâmetro a genitalidade. Como é possível conciliar o polimorfismo da sexualidade infantil com as fases do desenvolvimento da libido? O encaminhamento da sexualidade infantil para a genitalidade parece à primeira vista entrar em contradição direta com a subversão efetuada por Freud com relação às concepções psiquiátricas da sexualidade.
Contra-Édipo positivo, contra-Édipo negativo
Na carta de 21 de setembro de 1897, depois de confessar que não acredita mais em suas neurotica (meine neurotica) e elencar argumentos para ter chegado a essa conclusão, complementa: “e com isso o fator de uma disposição hereditária reganha a esfera de influência do qual eu - no interesse de elucidar as neuroses - tinha feito da minha incumbência excluí-lo” (Masson, 1985, p. 265). Algo semelhante foi dito quase dez anos depois: “Com o recuo das influências acidentais ligadas às vivências, os fatores constitucionais e hereditários readquiriram a predominância” (Freud, 1906/2016c, p. 355).
O trajeto de Freud, na década de 1890, tinha se pautado pelo combate à importância atribuída pela psiquiatria à hereditariedade na etiologia das neuroses, dando destaque em seu lugar às vivências do sujeito. Duas séries alternativas são apresentadas: “a) importância primordial dos fatores externos γ teoria da sedução γ sintomatologia neurótica; b) importância primordial dos fatores internos γ fantasias γ sintomatologia” (Monzani, 1989/2014, p. 46). E o que acontece quando se leva a segunda alternativa às suas últimas consequências, dispensando a sedução? Conclui-se, como fez o kleinismo, que a pulsão produz os seus objetos, o que é romper com a teoria freudiana da sexualidade, que tem como um de seus pilares a total separação entre pulsão e objeto da pulsão (Monzani, 1991).
Em 15 de outubro de 1897, um ano depois da morte de seu pai, Freud discute o Édipo Rei. Todos na audiência da peça horrorizam-se com a realização de desejos infantis figurados na insciência de Édipo diante desse “drama do destino” (Masson, 1985, p. 272). Apesar da referência precoce ao Édipo, seu lugar nas sínteses teóricas até a década de 1920 é marginal (Monzani, 1989/2014). Por que será?
Talvez o recuo da importância das vivências e a marginalidade do Édipo estejam relacionados. Em “Moisés e o monoteísmo”, Freud escreve:
Herói é quem se rebelou corajosamente contra o pai e, por fim, triunfou sobre ele. Nosso mito faz remontar essa luta até os primórdios do indivíduo, pois o bebê nasce contra a vontade do pai e é salvo à revelia dele, de sua má intenção” (Freud, 1939/2018b, p. 20).
Esse é o caso de Édipo, que carrega no seu nome3 o crime do pai. Essa temática do pai ameaçado pela prole não é estranha à mitologia, vide o caso de Cronos.
Nesse mesmo texto, Freud resgata o seu mito a respeito da horda originária:
O destino dos filhos era duro; quando despertavam o ciúme do pai, eram abatidos, castrados ou banidos... Por razões naturais, uma posição excepcional era ocupada pelos filhos mais novos, que, sob a proteção do amor das mães, podiam tirar proveito do envelhecimento do pai e substituí-lo após a sua morte. Nos mitos e fábulas acreditamos perceber ecos tanto da expulsão dos filhos maiores como do favorecimento dos menores. (Freud, 1939/2018b, p. 115)
Além do ciúme do pai, em Édipo Rei também está presente o desejo incestuoso da mãe. Jocasta reconhece em Édipo traços de Laio, anuncia-lhe que os sonhos eróticos com a mãe são frequentes, e tenta prevenir Édipo de buscar a verdade.
Ora, na leitura que advogo, o Édipo não é um roteiro imaginário criado pela criança com base em pulsões inatas, o que recalca o quanto o destino dos filhos é selado pelos pais.
Em “A interpretação dos sonhos”, Freud afirma que “a seleção sexual já se manifesta nos pais”, que os homens costumam mimar as filhas, enquanto as mães defendem os filhos. E segue: “Assim, a criança se rende à sua própria pulsão sexual e renova simultaneamente a inclinação dos pais, quando a escolha da criança corresponde à escolha dos pais” (Freud, 1900/2019, p. 298). Sabe-se que nem sempre a predileção dos pais toma esse caminho sugerido por Freud, como foi o caso do próprio Homem dos Lobos, cuja “irmã pertencia à mãe, e ele, ao pai” (Freud, 1918/2010c, p. 26).
Assim, não se compreende o Édipo sem situá-lo no campo intersubjetivo da circulação dos desejos parentais: “são os próprios pais que exercem influência decisiva no despertar da postura edipiana” (Freud, 1917/2014a, p. 443). Esse “contra-Édipo”, como o chama Laplanche, deve ser posto nas raízes mesmo do Édipo (Laplanche, 1998, p. 91).
Édipo positivo, Édipo negativo
Em uma nota de rodapé adicionada em 1920 aos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", Freud menciona algumas fantasias originárias, como espreitar o ato sexual dos pais, sedução, ameaça de castração, retorno ao útero materno, romances familiares. E uma dessas fantasias originárias é o Édipo, para o qual culmina a sexualidade infantil (Freud, 1905/2016b).
As fantasias originárias consistem em “esquemas filogeneticamente herdados”, que triunfam sobre a vivência individual (Freud, 1918/2010c, p. 157). Seriam como um “patrimônio instintivo [instinktiven]” no homem (Freud, 1918/2010c, p. 159).
Como conciliar a presença de esquemas no núcleo do inconsciente com a sexualidade humana, que tem como uma de suas premissas a total separação entre pulsão e objeto? Monzani propõe uma solução elegante:
Tratar-se-ia de esquemas virtuais que só se cristalizariam, só se concretizariam através das determinações empíricas que serviriam então para catalisar as fantasias sem, no entanto, fazer destas um produto já pronto e acabado que o sujeito carregaria consigo desde seu nascimento. Seria nesse hiato temporal (entre o nascimento e a cristalização das fantasias) que a pulsão sexual se comportaria de forma livre, polimorfa, perversa. Catalisadas as fantasias, através da experiência, teríamos a montagem de um comportamento semelhante ao instintual. (Monzani, 1991, p. 103)
Para Freud, o Édipo é o destino da sexualidade, o que é necessário distinguir do desfecho heterossexual, jamais naturalizado pela psicanálise freudiana. Em primeiro lugar, devido ao peso da cultura, já que Freud admite que em outras épocas, como quando os garotos eram educados por escravos ou com o emprego de domésticos do sexo masculino, e com a menor atenção dada pela mãe, havia um favorecimento da homossexualidade (Freud, 1905/2016b). Em segundo lugar, porque a heterossexualidade parece a Freud tão enigmática quanto a homossexualidade: “também o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher é um problema que requer explicação, não é algo evidente em si, baseado numa atração fundamentalmente química” (Freud, 1905/2016b, p. 35). Por conseguinte, nesse destino já há a exigência de um Édipo completo, até porque a premissa da heterossexualidade é um Édipo negativo intenso, enquanto na homossexualidade existe uma fantasia heterossexual recalcada.
Começarei pela homossexualidade. Qual é a teoria da homossexualidade em Freud? Uma síntese pode ser localizada em uma nota de 1910 nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”:
Em todos os casos investigados, constatamos que os futuros invertidos passam, nos primeiros anos da infância, por uma fase de intensa, mas breve fixação na mulher (geralmente a mãe), e, após superá-la, identificam-se com a mulher e tomam a si próprios como objeto sexual, ou seja, partindo do narcisismo, buscam homens jovens e semelhantes a si mesmos, que querem amar assim como a mãe os amou. Além disso, com frequência vimos que supostos invertidos não eram absolutamente insensíveis ao encanto da mulher, mas continuamente transpunham a excitação por ela despertada para um objeto masculino. (Freud, 1905/2016b, p. 34)
A “outra cena” na homossexualidade é heterossexual. Aliás, Freud na maioria das vezes não chama o Édipo de negativo, mas de invertido, e a palavra que geralmente utiliza, umgekehrt, é a mesma da “transformação no oposto” que aparece no contexto dos meios de figurabilidade em “A interpretação dos sonhos”, mecanismo que possibilita ao mesmo tempo a censura e a realização do desejo recalcado (Freud, 1900/2019, pp. 369).
O que conduz a esses “dois fatos fundamentais” descobertos pela psicanálise. O primeiro: que os homens homossexuais experimentaram uma fixação particularmente forte na mãe. O segundo: que todos os indivíduos “normais” deixam transparecer, ao lado de sua heterossexualidade manifesta, uma considerável medida de homossexualidade latente ou inconsciente (Freud, 1920/2011a, p. 148).
Na minha opinião, essa tese pode ser demonstrada nas Cinco psicanálises. Tentei fazê-lo primeiro com o Pequeno Hans (Zaidan, 2021). Em Dora, Freud admite que negligenciou no tratamento a corrente homossexual “ginecófila” da paciente (Freud, 1905/2016a, pp. 245, 317). No Homem dos Ratos, na primeira sessão de 02/10/1907, com base no esquecimento pelo paciente do nome da governanta Rudolf, que é um prenome masculino, Freud afirma que: “As palavras iniciais do paciente enfatizam a influência que os homens exercem sobre ele, o papel da escolha homossexual de objeto em sua vida” (Freud, 1909/2013, p. 19). Em Schreber, encontra-se o delírio de emasculação e de ser transformado em mulher, cuja interpretação foi que “o caráter paranoico está em que, para defender-se de uma fantasia de desejo homossexual, reage-se precisamente com um delírio persecutório de tal espécie” (Freud, 1911/2010a, p. 79). Neste artigo, contudo, pretendo deter-me somente no destino da bissexualidade do Homem dos Lobos.
No Homem dos Lobos há um conflito entre tendências sexuais: “uma é conforme ao Eu, a outra fere o interesse narcísico; por isso sucumbe à repressão” (Freud, 1918/2010c, p. 146). Trata-se, então, da velha oposição entre sexualidade e narcisismo. Esse é um dos cernes da psicopatologia freudiana, a noção de uma Unverträglichkeit, incompatibilidade, entre o eu e a sexualidade.
O motor do recalque, no Homem dos Lobos, é “a masculinidade narcísica do genital, que entra num conflito, há muito preparado, com a passividade da meta sexual homossexual” (Freud, 1918/2010c, p. 145). Foi o sonho do quarto ano de vida que fez agir a posteriori a observação do coito feita com 1 ano e meio, de maneira que:
A atitude homossexual que surge durante o sonho é tão intensa, que o Eu da pequena criatura fracassa em dominá-la e dela se defende pelo processo de repressão. Para ajudá-lo nesse propósito é chamada a masculinidade narcísica do genital, que é oposta àquela atitude. (Freud, 1918/2010c, pp. 146-147)
Foi na puberdade que apareceu a corrente “fortemente sensual, masculina, com a meta sexual da organização genital”. Essa corrente “normal” foi alcançada através de uma inversão, de uma “violenta irrupção em direção à mulher” (Freud, 1918/2010c, p. 155).
O apreço narcísico pelo pênis foi o recalcante da homossexualidade devido à ameaça de castração. Não acredito que essa ameaça seja um perigo realista com um suporte filogenético. Ora, o Homem dos Lobos apenas havia repudiado a identificação com a mãe, porque “na posterior elaboração da cena primária ele se pusera no lugar da mãe, invejando-lhe essa relação com o pai” (Freud, 1918/2010c, p. 104).
Explicar o medo de castração pelo Édipo positivo incorre em uma contradição interna, a de que “no interesse de preservar a masculinidade (medo da castração) ser impedida a atividade masculina” (Freud, 1926/2014b, p. 51). A lógica é que o menino tema o pai castrador, medo esse que Freud considera justificado, um medo real, não neurótico, pertencente ao campo autoconservativo. No entanto, a partir do Homem dos Lobos, outra vertente se abre em direção à corrente invertida, já que nesse caso foi a ameaça homossexual que convocou uma heterossexualidade defensiva. É um outro fator, ligado à disposição bissexual, que se impõe: o “preço do amor”. Esse preço, esse custo do amor ao pai, manifesta-se sob a forma do “medo da atitude feminina” (Freud, 1928/2014c, p. 348).
Em “Uma neurose do século 17 envolvendo o demônio”, esse aspecto negativo da relação com o pai, isto é, a atitude feminina repudiada, é traduzido por Freud: trata-se de uma fantasia de engravidar do pai (Freud, 1923/2011d). Em outras palavras, o medo da castração é o negativo de um desejo de castração.
Em “Análise terminável e interminável”, Freud diz que na maioria dos casos as duas tendências, a heterossexualidade e a homossexualidade, encontram-se num estado de conflito irreconciliável (Freud, 1937/2018a). Uma não suporta a outra, de maneira que a mais forte atua com um efeito recalcante sobre a mais fraca, o que é de fato a descrição de uma formação reativa. Partindo da bissexualidade originária, o mais frequente é o estabelecimento de uma heterossexualidade ou homossexualidade compulsivas. Seria uma espécie de gangorra, como se a elevação de uma das tendências implicasse o rebaixamento da outra.
É interessante pensar o quanto a homossexualidade recalcada é mais que uma evidência da clínica freudiana, parece-me até uma exigência interna à sua teoria da identificação. Explico-me: a teoria da identificação tem como um de seus pressupostos que o sujeito se identifica com o objeto de amor, seja numa identificação primária, tal qual ocorre no estágio sádico-oral, já que bem no início “investimento objetal e identificação provavelmente não se distinguem um do outro” (Freud, 1923/2011e, p. 35), seja numa identificação secundária, quando o investimento objetal regride para a identificação. Ora, então por que razão o menino, que toma a mãe como objeto de amor, se identificaria com o rival, o pai? O desfecho do Édipo positivo deveria ser a homossexualidade, porque o menino que tomasse a mãe como objeto de amor deveria se identificar com ela, não com o pai, o seu rival. É por essa razão que a bissexualidade volta à cena em “O eu e o id”, porque, ao tentar esclarecer o desfecho heterossexual, Freud precisou ressuscitar a bissexualidade originária. A solução foi a formulação do “Édipo completo”, no qual coexistem, com a dissolução do complexo de Édipo, quatro tendências, as identificações e escolhas objetais relativas ao positivo e ao negativo (Freud, 1923/2011e, p. 42).
No seu texto mais importante sobre a identificação, o “Psicologia das massas”, contudo, uma outra solução que se esquiva da bissexualidade é oferecida, e a qual Laplanche considera que deva ser interpretada como um sintoma (Laplanche, 2006). Freud afirma que na pré-história do Édipo a identificação com o pai desempenha um papel. A criança toma o pai como seu ideal (estamos no campo do narcisismo), no entanto, “essa conduta nada tem a ver com uma atitude passiva ou feminina diante do pai (ou dos homens em geral); é tipicamente masculina” (Freud, 1921/2011b, pp. 60-61). Segundo Freud, essa identificação masculina prepararia o terreno para o Édipo. Como essa identificação com o pai não corresponde à identificação primária, então, em “O eu e o id” Freud recorre a uma identificação com o pai ou com os pais da pré-história, o que “não parece ser, à primeira vista, resultado ou consequência de um investimento objetal; é uma identificação direta, imediata, mais antiga do que qualquer investimento objetal” (Freud, 1923/2011d, pp. 38-39). E Freud adiciona: simultaneamente à identificação com o pai, talvez até mesmo antes, o menino emprega um verdadeiro investimento objetal na mãe do tipo por apoio. A passagem é contraditória, porque Freud inicia o capítulo 7 dizendo que a identificação é a forma de ligação afetiva mais antiga, para se contradizer no parágrafo seguinte, dado que antes dessa identificação pré-edípica com o pai talvez já se empreenda um investimento objetal na mãe do tipo por apoio. Por que essa insistência numa identificação primária masculina, se não para negar a feminilidade? Não seria esse o sintoma de Freud?
É possível interpretar esse sintoma por meio de sua autoanálise. Em 3 de outubro de 1897, Freud escreve para Fliess que, no seu caso, o “velho” não teve nenhum papel ativo, que a “originadora” (Urheberin) fora uma mulher (Masson, 1985, p. 268). Não é irrelevante que Freud inicie com uma negação, tendo em vista que em fevereiro do mesmo ano havia dito que seu pai fora um desses pervertidos, responsável não só pela histeria das irmãs, mas até mesmo pela do seu irmão. Nesse meio-tempo, no Manuscrito M, a centralidade do recalcamento da homossexualidade já tinha sido admitida: “O que é essencialmente recalcado no homem é o elemento pederasta” (Masson, 1985, p. 246).
Se Freud negou no capítulo 7 de “Psicologia das massas” uma identificação primária feminina, insistindo no seu caráter masculino, no capítulo 10, pelo contrário, defende uma identificação filogenética com o pai da horda, uma porção da herança arcaica, que não é masculina. O aspecto inquietante, unheimliche, da hipnose e da sugestão, seria explicado pela “atitude passiva-masoquista” dos filhos em relação ao pai originário (Freud, 1921/2011b, pp. 88-92). E o que é a castração se não a “expressão da submissão à vontade do pai”? (Freud, 1940/2018c, p. 250). Em “Moisés e o monoteísmo”, Freud menciona a figura do “grande homem” ou “homem grande” (der grosse Mann), que associa com a necessidade da massa de ser dominada e até maltratada por uma forte autoridade (Freud, 1939/2018b, p. 152). Essa necessidade da massa provém do anseio (Sehnsucht) pelo pai, inerente a cada um de nós.
Dificilmente uma constatação da psicanálise sobre a vida psíquica das crianças produz tanta indignação quanto a atitude feminina diante do pai e a fantasia de gravidez dela resultante (Freud, 1923/2011d). Sua conclusão: o repúdio da feminilidade é o que há de mais refratário na análise de um homem, o que chama de “rocha básica” (gewachsenen Fels) em relação ao psíquico, e que esse medo da castração, essa “feminilidade”, corresponde à posição passiva diante de outro homem (Freud, 1937/2018a, p. 325; 1940/2018c, p. 256). Se a negação da identificação feminina primária pode ser interpretada como um sintoma de Freud, então a feminilidade não teria sido o mais refratário à sua própria autoanálise?
Genitalidade positiva, genitalidade negativa
Em uma série de ocasiões, em vez de situar a castração no campo autoconservativo, Freud propôs compreender a angústia como a reação a uma perda, a uma separação. Freud reserva o termo “complexo de castração” para os estímulos e efeitos vinculados à perda do pênis, apesar de admitir que suas raízes são as separações que se operam, primeiro no nascimento (a castração da mãe), depois no afastamento do seio materno e na deposição regular das fezes. E de que maneira a perda do pênis seria mais uma ameaça de separação? Não é uma ameaça autoconservativa em relação à integridade física do organismo, mas ao narcisismo, já que “a posse desse órgão envolve a garantia de uma reunificação com a mãe (a substituta da mãe) no ato do coito. A subtração desse membro equivale a uma nova separação da mãe” (Freud, 1926/2014b, p. 81).
Tanto a referência ao seio materno como a que faz às fezes podem ser pensadas como uma alusão às fases da libido, a uma simbolização progressiva das separações. Em relação a isso, pode-se perguntar: se todo o corpo é potencialmente uma zona erógena, por que quatro fases, e não inúmeras? Essas zonas são privilegiadas porque são os orifícios do corpo, as regiões de troca com o objeto, e de demarcação do interno e do externo.
Mesmo cada fase não se sucedendo uma à outra de maneira simples, já que “uma se acrescenta à outra, elas se superpõem ou coexistem” (Freud, 1940/2018c, p. 203), uma ideia de desenvolvimento inevitavelmente está presente porque a psicopatologia freudiana assenta-se nos conceitos de fixação e regressão, como se houvesse um avanço ou recuo de um processo tradutivo, nessa linguagem libidinal, o que na segunda teoria das pulsões expressa-se na noção da fusão e desfusão das pulsões de vida e de morte.
No autoerotismo, quando as pulsões parciais buscam satisfação de maneira anárquica, a sexualidade encontra-se em estado de livre descarga. A regressão às fases anteriores do desenvolvimento da libido está relacionada à desfusão pulsional, enquanto na fase genital ocorreria uma união das pulsões parciais, a sua ligação, a fim de descarregar a excitação em um objeto externo. Esse encaminhamento libidinal acompanha a constituição do eu e do narcisismo. Sendo assim, proponho que o Édipo, despertado pela sexualidade genitalmente centrada da mãe, ao invés de ser assimilado ao recalcado, seria na verdade o recalcante das pulsões autoeróticas pelo narcisismo:
de um lado a criança deseja ser seduzida, ela fantasia essa sedução, mas de outro lado ela é de fato seduzida. Ela irradia sua sexualidade própria, polimorfa, livre, ao mesmo tempo que recebe as significações da sexualidade adulta genitalmente centrada. Essa sedução insidiosa realiza-se no encontro de suas séries: a irrupção da sexualidade infantil como expressão das pulsões e a inoculação da sexualidade adulta através da mãe. (Monzani, 1989/2014, p. 54)
Por que supor uma reunião das pulsões parciais sob o primado do genital e da função reprodutiva? Primeiramente, vale destacar a precariedade da genitalidade na sexualidade humana, o que está contido na fórmula de que a neurose é o negativo da perversão, isto é, de que a realidade do inconsciente é a perversão, a parcialidade e o autoerotismo. Em segundo lugar, o Édipo está fadado a fracassar devido a uma impossibilidade interna, a escolha prematura do objeto com um aparelho sexual subdesenvolvido, o que faz com que se tenha o aparelho urinário como “tutor” do sexual (Freud, 1905/2016b, p. 97). Em terceiro lugar, não é o órgão anatômico que é objeto das fantasias edípicas, até porque há uma recusa da diferença entre os sexos na fase fálica, então a primazia é do falo, das Kleine, o pequeno, um objeto parcial que, como todo objeto parcial, é destacável e consequentemente intercambiável (Laplanche, 2006).
O desenvolvimento da libido não tem fim na fase fálica, nessa fantasia de desejo que é a teoria sexual infantil da oposição fálico e castrado, já que na puberdade há a assim chamada fase genital. O problema é que a caracterização do masculino e do feminino mais uma vez não é solucionada pela anatomia: “o que constitui a masculinidade ou feminilidade é uma característica desconhecida, que a anatomia não pode apreender” (Freud, 1933/2010d, p. 266). Tudo isso torna o recurso de Freud à genitalidade e à função reprodutiva ainda mais enigmático, porque parece que ele se afasta do campo das fantasias inconscientes e quase assimila a fase genital a um encontro com um instinto reprodutor.
Proponho, por essa razão, efetuar uma derivação (Laplanche, 1971/2008) do objeto e da meta do instinto reprodutor. O objeto desse instinto são os genitais, e a meta seria a reprodução. Em vez de negar a possibilidade de existirem instintos no homem, pretendo interpretar de que maneira a pulsão sexual perverte o instinto.
Para começar, é possível dizer que o pênis é uma metonímia do organismo: “A satisfação orgástica corresponde, de certo modo, à genitalização explosiva do organismo todo, à identificação total do organismo com o órgão de execução sob o efeito da fricção” (Ferenczi, 1924/2011, p. 309). O que é confirmado por Freud: “Pode-se dizer, seguindo Ferenczi, que esse indivíduo, que pretendeu fazer-se representar por seu órgão genital para retornar ao útero materno, agora substitui regressivamente o órgão por toda a sua pessoa” (Freud, 1926/2014b, p. 81). E a vagina, por sua vez, é uma metonímia do ventre materno: “A vagina é então estimada como abrigo do pênis, torna-se herdeira do ventre materno” (Freud, 1923/2011f, p. 175). Ou seja, há um eixo narcísico no coito, o que, para Ferenczi, consiste na meta da pulsão, o retorno do eu para o útero materno. Essa regressão ocorre de três maneiras: de um modo alucinatório, de um modo simbólico e de um modo real.
Sobre o modo alucinatório, Ferenczi menciona a semelhança entre o coito e o sono. Eu gostaria, contudo, de me deter no modo real, porque o retorno do eu para o ventre materno não tem só o seu aspecto simbólico. O real é que, ao ejacular na mulher, ao fecundá-la, é como se o eu efetivamente retornasse ao corpo materno. Em outras palavras, há uma metaforização da meta: é como se a função reprodutiva constituísse o retorno ao ventre materno. Uma objeção possível de se fazer a Ferenczi é que o objeto perdido não é o mesmo que se busca reencontrar. Adicionalmente, parece haver uma diferença a ser explorada entre Freud e Ferenczi acerca de suas concepções sobre a meta da pulsão. No retorno à mãe e à situação fetal há uma ideia de totalidade, do oceânico, do talássico, o que diverge do desligamento, do Nirvana e da inércia. Creio que essa mudança da meta seja um efeito da intervenção do eu e do narcisismo sobre a sexualidade autoerótica.
Ferenczi menciona, do ponto de vista da mulher, as contrações que têm por objetivo a aspiração do esperma e a incorporação do pênis. O sexo para a mulher consistiria em deixar o homem penetrar o corpo da mãe. A bissexualidade, porém, não pode ser esquecida: “Em todo caso, para entender as manifestações da libido genital plenamente madura, é de extrema importância saber que todo ser humano, homem ou mulher, pode desempenhar com o seu próprio corpo o papel duplo da mãe e da criança” (Ferenczi, 1924/2011, p. 296). Além do prazer anal de retenção do pênis, existe um prazer masculino no sexo para a mulher, apesar de ocorrer apenas no nível da fantasia,
sob a forma de uma identificação imaginária durante o coito com o homem, detentor do pênis, sob a forma de uma sensação vaginal sugerindo a posse de um pênis (“o pênis oco”) ou de uma identificação com a criança que traz dentro de seu corpo. (Ferenczi, 1924/2011, p. 298).
Ferenczi supõe um prazer masculino da mulher durante o sexo, o prazer que a mulher teria ao se identificar com o pênis que a penetra, podendo assim retornar, na fantasia, ao ventre materno, tal como os homens efetivamente fazem ao ejacular na mulher. Por conseguinte, a metáfora adquire uma prioridade sobre a metonímia.
A mesma fantasia originária de retorno ao útero materno, concebida por Ferenczi pelo viés da masculinidade, foi concebida por Freud pela via da feminilidade no Homem dos Lobos, pois é interpretada como o desejo de “estar no corpo da mãe para substituí-la no coito, assumir o lugar dela junto ao pai” (Freud, 1918/2010c, p. 135).
Por que essa inversão? A resposta está na bissexualidade originária, o que faz com que a genitalidade tenha o seu positivo e o seu negativo. Freud se lembra de Schreber no Homem dos Lobos quando alude a uma “disposição de renunciar à própria masculinidade, se em troca puder ser amado como mulher” (Freud, 1918/2010c, pp. 112-113). Essas duas correntes agem juntas no sexo:
Deseja-se voltar à situação em que se estava nos genitais da mãe; nisso o homem se identifica com o pênis, faz-se representar por ele. Então as duas fantasias se revelam como contrapartida uma da outra, exprimindo o desejo de união sexual com o pai ou a mãe, conforme a atitude feminina ou masculina da pessoa. (Freud, 1918/2010c, pp. 135-136)
Não é isso que está por trás da afirmação de que “Estou me acostumando a conceber todo ato sexual como um processo em que quatro indivíduos estão envolvidos” (Masson, 1985, p. 364)?
Dessa maneira, concluo que o complexo de castração não é um conflito entre o desejo sexual e o medo autoconservativo. O conflito ocorre no interior das pulsões sexuais, um conflito entre a atitude masculina e a feminina, a Kastrationsangst e a Kastrationslust, o medo e o desejo da castração (Freud, 1923/2011d).













