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Jornal de Psicanálise

Print version ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.56 no.105 São Paulo July/Dec. 2023  Epub Aug 26, 2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v56n105.13 

Diálogos

Quando o outro é ninguém: Três destinos

Cuando el outro no es nadie: tres destinos

When the Other is nobody: three destinies

Quand l’autre est personne : trois destins

Eliana da Silveira Cruz Caligiuri1 

1Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo Eliana da Silveira Cruz Caligiuri


Resumo

Com base no contato com o sofrimento de duas pacientes, uma criança e um adolescente, a autora narra os processos vividos pelas duplas, analisanda-analista, e o caminho percorrido junto aos autores que fundamentaram os achados clínicos e a construção deste texto. Sua escrita está entrelaçada com obras, duas músicas e um livro, de artistas sensíveis ao tema dos excessos e dos abusos que podem ser cometidos por adultos contra suas crianças, e as consequências desestabilizadoras e devastadoras na vida das vítimas.

Palavras-chave excesso; abuso; escudo protetor; assassinato de alma

Resumen

La autora hace un recorrido sobre la dupla paciente-analista y aborda la trayectoria de sufrimiento de dos pacientes, una niña y una adolescente. Recurre algunos autores que fundamentan las evidencias clínicas y la escritura de este texto. Este recorrido estuvo iluminado por obras, dos canciones y un libro, de artistas sensibles al tema de los excesos, de los abusos que pueden cometer los adultos contra los niños y las consecuencias desestabilizadoras y devastadoras en la vida da víctima.

Palabras clave: exceso; trauma; escudo protector; abuso; asesinato de alma

Abstract

Based on the suffering experienced by two patients - a child and an adolescent -, the author gives us an account of the processes undergone by the analysand/analyst dyads, as well as her lines of approach, drawing on the works of several authors, which at once guide and substantiate the clinical findings of this article. The article draws on works of literature, music, and psychoanalysis, by artists and authors who are intimately acquainted with the subject of excess, the abuse of children by adults, and the disruptive and devastating effects they have on the victim’s life.

Keywords: excess; trauma; protective shield; abuse; soul murder

Résumé

En se basant sur le contact avec la souffrance de deux patientes, un enfant et un adolescent, l’auteure relate les processus vécus par les duos, analysante-analyste, et le chemin parcouru aux côtés des auteurs qui ont fondé les découvertes cliniques et la construction de ce texte. Son écriture est entrelacée d’œuvres, de deux chansons et d’un livre, d’artistes sensibles au thème des excès, des abus, pouvant être commis par les adultes envers leurs enfants, ainsi que des conséquences déstabilisantes et dévastatrices dans la vie de la victime.

Mots-clés excès; abus; bouclier protecteur; meurtre de l’âme

1. Excessos

Para o organismo vivo, a proteção contra os estímulos é tarefa quase mais importante que a recepção deles; ele (o escudo protetor) está equipado com uma reserva própria de energia, e tem de empenharse sobretudo em preservar as formas especiais de transformação de energia, que nele ocorrem, da influência niveladora, e, portanto, destruidora, das enormes energias que operam do lado de fora.

(Freud 1920/ 2010, p. 189)

Relatos de crianças que sofrem de ataques à integridade física e psicológica - castigos físicos e/ou abusos sexuais - até morte por negligência, maus tratos e indução ao suicídio são acontecimentos que se repetem na história de nossas sociedades.

Entre os diversos estudiosos do tema, a psicanalista argentina Olga Ruiz (2000), em seu livro O legado familiar: a tecelagem grupal da transmissão, alerta para a enorme quantidade de crianças, vítimas da violência intrafamiliar, encontrada nos centros médico-psicológicos na França e em outros países.

Essas dramáticas narrativas deixam a clínica psicanalítica, em pleno século 21, diante de situações traumáticas provocadas por eventos reais, externos, inassimiláveis, e seus efeitos patogênicos, como Freud já revelara, nos anos de 1893-1895, em “Estudos sobre a histeria” (1893/1993b). No texto “Mais além do princípio do prazer” (1920/1993c), e em “Esboço da psicanálise” (1940[1938]/1993a), ele retoma o tema com base em achados clínicos e teóricos, como pulsão de vida e pulsão de morte, compulsão à repetição, aspectos dinâmicos e estruturais do funcionamento psíquico, o processo de cisão do ego, nova compreensão da ansiedade, entre outros.

Se o fundador da psicanálise interrogou os relatos de suas pacientes a respeito da veracidade das situações abusivas, ele nunca renunciou à realidade dos traumas precoces, às impressões recebidas numa época em que o aparelho psíquico da criança ainda não estava pronto para acolhê-las.

Foi o psicanalista húngaro Sandor Ferenczi, discípulo e analisando de Freud, quem se dedicou com coragem a essa temática, apresentando seu fundamental artigo Confusão de línguas entre os adultos e a criança, no Congresso Internacional de 1933. Nesse texto, fonte de consulta e estudo até hoje, ele nos alertou que o estabelecimento, com uma criança, de tipos de relação de privação de amor ou de “terrorismo do sofrimento” (Ferenczi, 1992, p. 105), conduzem a personalidade em formação a fixar-se às experiências carregadas excessivamente de paixão e culpa, experiências que invadem o mundo psíquico, perturbando a espontaneidade frente à vida e levando a criança a identificar-se com o adulto, esquecendo-se de si. Essa situação pode ser agravada se faltar à criança outro adulto em quem ela possa confiar e que a ajude a discriminar-se frente ao mundo externo.

No encontro analítico, será fundamental fornecer a atenção e a benevolência da função materna, exercida por um adulto, que tanto faltaram ao analisando, para promover sentido, ideias, pensamentos e símbolos às experiências traumáticas.

Entre outros autores que, convocados pela clínica, dedicaram-se a estudar e escrever sobre o tema, destaco o psicanalista americano Leonard Shengold, que utilizou a profunda expressão “assassinato de alma” (1978, 1979) ao atentado que uma criança pode sofrer à sua identidade singular, sua alegria de viver e capacidade para amar, quando um ou mais adultos, de quem a criança depende, submetem-na a um regime de hiperestimulação, alternado de privação de amor e de cuidados.

Para esse autor, podemos encontrar, em nossos consultórios e nos centros de acolhimento de crianças e adolescentes, pessoas que sofrem, não por suas fantasias inconscientes de pais excessivamente amorosos ou cruéis, e sim por agressões, tormentos e até abuso sexual, cometido pelos pais.

Só a oportunidade de uma decente relação humana (Shengold (1979) pode favorecer o árduo trabalho de transformar a compulsão a repetir os traumáticos eventos. Essas pessoas tendem à repetição porque parecem cultivar a esperança de que o próximo contato trará amor em vez de excesso e ódio.

Nesse sentido, estamos diante do desafio de continuar tomando em consideração esses graves eventos de violação do outro - ataques à integridade física e psicológica, punições e/ou abusos sexuais e até morte por negligência ou indução ao suicídio -, suas consequências, muitas vezes devastadoras, e cuidar das crianças, das famílias e até do agressor.

Durante os anos 1990 tive contato, em meu consultório, com o intenso sofrimento psíquico de uma criança e uma adolescente, com a falta de compreensão e acolhimento por parte da família diante dos sintomas apresentados.

Essas vivências provocaram uma necessidade urgente de buscar leituras e autores que me acompanhassem durante o trabalho psicoterapêutico com elas, e que me encorajassem a escrever sobre essas marcantes experiências clínicas.

Foi fundamental, no meu percurso, os encontros iniciais com alguns autores clássicos e consagrados.

O primeiro com o enfant terrible da psicanálise, Sandor Ferenczi, e seu artigo “Confusão de línguas entre os adultos e a criança”, apresentado em 1933 no 12º Congresso Internacional de Psicanálise, em Wiesbaden, desobedecendo aos conselhos de Freud, seu mestre e analista. Nessa ocasião ele sublinhou “a importância concedida recentemente ao fator traumático, tão injustamente negligenciado, nestes últimos tempos, na patogênese das neuroses.” (Ferenczi, 1992/1930, p. 95)

Na década de 1990, durante uma supervisão, Nosek citou Shengold2 e seus contundentes textos, “Assault on a child’s individuality: a kind of soul murder” (1978) e “Child abuse and deprivation: soul murde” (1979).

Em 2005, com a leitura do profundo artigo de Juan Eduardo Tesone “Incesto: um corpo roubado”.

Em 2016, com a conferência de Joshua Durban, “O complexo do vitimador e suas vicissitudes no abuso de crianças”, apresentado na I Jornada sobre abuso sexual, na SBPSP.

E algumas descobertas surpreendentes:

  1. Em 1995, durante uma das vezes que escutei a música Janie’s Got a Gun, seu sentido caiu como um raio. A dor que inundava a terapia com minhas pacientes estava expressa naquela incontornável letra e cenas trágicas de seu clipe, interpretada por seu compositor, Steven Tyler, vocalista da banda de hard rock Aerosmith. Tyler em ligação direta com Ferenczi.

  2. Um livro, Reze pelas mulheres roubadas, da jornalista e escritora mexicana Jennifer Clement (2015), um marcante relato sobre a vida das meninas, da cidade de Guerreiro, no México.

  3. E, em 2023, a composição musical de Clara Verdier e Bibi Cavalcante, que inspirou a realização do curta-metragem brasileiro Eu tenho uma voz, uma obra de arte, delicada e comovente, sobre o tema do abuso sexual.

2. Uma heroína da psicanálise

5 anos.

Era a idade de Lara quando a conheci.

O que estaria acontecendo que tornou necessária a demanda por um atendimento psicológico?

- A masturbação -, disse a mãe na primeira entrevista. - Não uma masturbação comum, como acontece com as crianças da idade dela.

Era algo intenso, sem lugar para ocorrer, resistente a qualquer tipo de apelo ou atitude educativa da parte de seus pais, como conversar, perguntar o que estava acontecendo, ignorar e até reprimir em determinados locais.

O intenso ato ia e vinha, ao “sabor” não se sabia do quê.

Tempos mais calmos, de alívio e esperança de que “a fase havia passado”, eram atropelados por uma atividade masturbatória, às vezes frenética.

E quanto ao sofrimento de Lara?

Não houve menção ao que a garotinha estaria sentindo nem no relato da mãe, desorientada que estava diante da reincidência da cena, quanto na fala do pai, uma pessoa racional que descrevia a filha como “cabeça dura”.

Foi urgente sensibilizar os pais de que o sintoma que descreviam era a expressão de um sofrimento psíquico que necessitaria de um atendimento psicoterapêutico.

Apontar a eles, com todo o cuidado, observando o impacto que causaria em ambos, ou em um deles, que havia sinais de ocorrência de experiências externas, no ambiente, com características de excesso de estimulação no corpo da menina.

E, mais, esclarecer que as crianças têm sensações corporais excitantes, desde o nascimento, descobrem e manipulam seus órgãos sexuais, mas que a atividade masturbatória, descrita por eles, indicava uma intensa excitação na vagina da menina a tal ponto de Lara ser tomada por ela, causando uma desordem na vida, comprometendo suas relações familiares e sociais.

Várias perguntas surgiram para mim durante o relato:

Que tipo de experiência excessiva teria ocorrido ou estaria ocorrendo entre Lara e um adulto?

Quem seria esse adulto: o pai, o avô, um familiar, um conhecido?

Quais características essa relação abusiva teria? Sexual, fruto de hábitos familiares como nudez, exibicionismo, ligados à higiene do corpo, entre outros?

Questões como essas e outras, incertezas, que precisavam ser sustentadas em minha mente e investigadas junto aos pais, de forma cautelosa, desde o início do trabalho com a garota.

Os pais teriam de se dispor a rever a vida de Lara e a história familiar para recolhermos fatos, experiências e lembranças que teriam causado ou contribuído para seu sofrimento.

Esses contatos com os pais poderiam, e assim ocorreu, facilitar a transformação na relação Lara-família (até pôr um basta no ato de excesso, como em alguns casos), interrompendo a cadeia traumática cumulativa com atitudes, cobranças e culpa que sobrecarregavam a menina.

Primeiro encontro

Tão linda, olhos vivos, inteligentes e assustados.

Vulnerável.

Foi essa a primeira impressão deixada pela menina, em mim.

Desconfiada, parecia indagar que adulto seria eu? Aquela que se incomodaria com ela, a censuraria e até ficaria brava com seu comportamento? Ou seria uma entre aqueles outros - professoras, coordenadoras e diretora - impotentes e desconsolados diante das diversas tentativas fracassadas de ajudá-la?

Por algumas sessões ela explorava o material gráfico, os brinquedos, a lousa e me dirigia um olhar cabisbaixo. Pouco conversava.

E a masturbação apareceu, durante um jogo da memória, deitada de bruços no chão, parecendo surgir do nada. Movimentava o corpo para frente e para trás. Não havia prazer, apenas angústia expressa no seu olhar de súplica por ajuda diante do incontrolável. Por vezes eu busquei uma articulação com o tema do desenho ou com a brincadeira, e não encontrei sentido.

Sem palavras para dizer nas primeiras vezes, fui construindo uma comunicação cuidadosa e respeitosa. Disse a ela que acontecia alguma coisa com sua “f...” (a única palavra permitida pelo pai para nomear a vagina), que ela não sabia o que era e que não a deixava sossegada, nem quando estava brincando.

E acrescentei que eu também não sabia por que isso acontecia, mas estava ao seu lado para descobrirmos o que lhe causava tanta aflição.

Enquanto isso...

Ao longo de algumas conversas os pais, mais sensíveis e conscientes de que havia algo que causava sofrimento a Lara, relataram o início do sintoma, os hábitos e cuidados de higiene, situações de separação e doenças.

Pouco saltou aos meus olhos, ou melhor à minha escuta, com exceção do início do sintoma: 2 anos.

E novas questões surgiram ainda sem resposta.

Como teria se dado a educação esfincteriana: rígida, abusiva? Que tipo de evento traumático teria ocorrido?

Algo de novo no mundo de Lara

A pequena garota, entre outras atividades, passou a desenhar uma temática até então inexistente: a mãe e ela, juntas, uma mãe muito alta e Lara muito pequena. Um objeto começou a aparecer recorrentemente na mão da mãe: um microfone. Objeto que, segundo ela, a mãe usava para falar ou cantar.

Eu dizia que sua mãe aparecia tão alta, e falava alto e forte, e ela aparecia tão pequena diante dela.

Eu pensava, também, nesse objeto fálico - o microfone - e, uma nova interrogação: na mão da mãe?

E Lara circulava pela sala, mais desenvolta, dispondo os móveis para realizar as brincadeiras.

Em uma delas ela era a dona do restaurante e eu, a cliente.

Fazia as comidas, arrumava a mesinha com pratos, copos e talheres e decorava com vasinhos que ela mesma pintara, com as florzinhas que recolhia no jardim.

Eu escolhia os pratos no cardápio, elaborado por ela, e ela me servia com todo cuidado e gestos que atraíram minha observação: esticava muito seus pequenos braços, de modo a manter seu corpo afastado da mesinha e, principalmente, das quinas.

E, sorria. Parecia satisfeita em conseguir manter-se distante de um possível estímulo e parecia gostar de não ser conduzida como um autômato em direção às quinas, algo tão frequente na escola.

Atravessamos momentos de calmaria para Lara e família, quando o interesse pela leitura e escrita desabrochou.

Tempo de acolhimento necessário para a menina e para os pais, sustentado por Lara e eu, por uma criança que não faltava às sessões e se apresentava com mais energia para brincar.

Após um pouco mais de um ano de terapia, uma nova e significativa brincadeira foi criada pela menina. Inicialmente a transformação da sala em uma casa com dois ambientes: um era o quarto só para ela e o outro que conteria o restante da casa. Lara era uma filha adolescente e eu a mãe. Eu devia me comportar como uma mãe exigente que cobrava estudo, ordem do quarto. Ela às vezes reagia, reclamava, e batia a porta do quarto. Dizia para mim: “Você abre a porta e entra”. Eu realizava seu pedido e ela brigava comigo “Não pode entrar sem bater!”.

Essa cena se repetiu, sem modificação, por sessões, até um instante em que Lara operou a seguinte fala:

- Eliana, agora você me obedece e bate na porta antes de entrar.

Assim o fiz e ora ela permitia minha entrada, ora não e eu respeitava seu desejo. Conversei com Lara sobre o que vivenciávamos: ela crescida, diante de mim, a mãe, expressando suas vontades, dizendo não. Perguntei: - Lara, você acha que só quando for adolescente vai poder dizer para a mamãe e para o papai, o que você quer, do que você gosta e do que não gosta? Aqui você não precisou crescer, ficar adolescente e me mostrou que sabe dizer não, fazer pedidos.

Ficou em silêncio e me dirigiu um olhar curioso.

Surpresa

Certa noite recebo um telefonema da mãe. Comovida e com remorso me diz:

- Eliana, você conversou e perguntou tantas vezes sobre fatos que poderiam ter acontecido na vida de Lara e não sei porque nunca me lembrei!

E relatou que a filha tinha coalescência dos lábios vaginais desde pequena, algo nunca mencionado por ela e que tinha uma ligação direta com o sintoma da menina, sem nenhum disfarce. Contou que a conduta da pediatra foi prescrever uma medicação hormonal tópica, que era aplicada de tempos em tempos quando os lábios se fechavam.

A névoa que mantinha em mistério qual teria sido o excesso abusivo se dissipava. Perguntei:

- O que aconteceu agora que te levou a lembrar disso e que dá o sentido ao sintoma de Lara?

E a mãe contou:

- Os lábios se colaram novamente e quando peguei o tubo do remédio e ia aplicar, Lara falou: “Mãe, não passa isso em mim que me faz mal”.

Pequena grande menina

Um intenso momento entre a tão grande mãe e a pequena Lara.

O estímulo excessivo estava lá. Claro, desde os dois anos da menina, operado por sua mãe, sem que esta, nem a pediatra, tivessem elaborado qualquer associação com o sintoma.

Nossa heroína da psicanálise, Lara, desenvolveu em si a condição psíquica de discriminar e pôr o limite ao excesso. Ao algo do mundo externo que tanto mal fez a ela.

3. Dor e coragem

Foi a mãe quem, numa rara atitude de rebeldia em relação às regras familiares, ditadas pelo pai, procurou ajuda para a Ana, que deixara de frequentar a escola, as festas e as reuniões de amigos havia um ano e meio, desde seus 15 anos.

A garota vivia em permanente conflito com o seu corpo, alternando episódios de compulsão alimentar e bulimia.

A mãe não compreendia como a filha tinha chegado a esse estado de ansiedade e distorção da realidade, já que era linda e sempre fora considerada uma das garotas mais bonitas da escola.

Ainda havia um outro agravante: o relacionamento familiar estava deteriorado pelas constantes brigas entre o pai e Ana, algo incompreensível para a mãe, pois eles sempre foram muito próximos e íntimos. Desde muito pequena, Ana era a garotinha linda e inteligente, a preferida do pai em relação aos dois irmãos mais novos.

Duas cenas dramáticas provocaram a ruptura do campo (Herrmann, 2001, p. 61) dominação-submissão da mãe em relação ao marido.

Ana com um olhar perdido, sentada sobre uma pilha de roupas que havia jogado no chão do quarto. A garota parecia em transe, sem responder aos apelos da mãe.

Ao saber que a filha estava no banho por mais de uma hora, o pai, num acesso de fúria, arrombou a porta arrastando Ana do banheiro e dando-lhe uma surra.

A “cortina de fumaça-bulimia” erguia-se e os bastidores da relação pai e filha apresentavam seus sinais.

Na entrevista com os pais, o pai, sem esconder o inconformismo e o autoritarismo, contou que educava e orientava os filhos conversando sobre todos os assuntos, política, estudo, religião, profissão, sexo…

A imagem de “a maioral” - linda, madura e resolvida -, cultivada pela dupla filha-pai, sofrera um abalo, desde os sintomas iniciais de bulimia e a evasão escolar, que ele não aceitava.

Foi urgente apontar o sofrimento da garota, mostrar aos pais sua séria situação psíquica e a necessidade de acolher Ana e tentar compreender o que estava ocorrendo.

Assim, foi possível ganhar terreno para uma trégua familiar com o objetivo de iniciar o trabalho psicanalítico.

Ana e seus irmãos

O relacionamento da garota com os irmãos também estava conturbado e a reação deles aos conflitos familiares era oposta.

Ricardo, um ano e meio mais novo, sempre carinhoso tentava ajudá-la, emprestando seus moletons, quando Ana se recusava a vestir suas próprias roupas. Aliás, eram as únicas vestimentas usadas por ela.

Com André, 3 anos mais novo, a situação era contrária, impaciente e irritado, aliado desde o primeiro momento ao pai, agredia constantemente a irmã, chamando-a de louca.

O refúgio

Este é um salão de feiura, não um salão de beleza, Ruth disse.

(Clement, 2015, p. 33)

No belíssimo livro Reze pelas mulheres roubadas, a poeta e romancista mexicana Jennifer Clement (2015), após 10 anos de entrevistas com mulheres mexicanas, narra a vida das meninas da cidade de Guerreiro, que são criadas como meninos por suas mães para protegê-las e impedir de serem sequestradas pelos narcotraficantes. Quando os primeiros sinais da puberdade despontam nos corpos das garotas, suas mães cavam buracos no quintal das casas para esconder suas filhas.

Ao conhecer Ana pude observar uma linda menina que tentava esconder sua beleza cobrindo-a com moletons folgados, e nada femininos, de seu irmão.

Que corpo ela escondia debaixo daqueles panos? E de quem ela escondia com a queixa de que estava tão gorda e feia que ninguém poderia vê-la?

Mas não havia sido sempre assim. Dos 13 aos 15 anos, Ana expunha seu corpo usando roupas justas, curtas e decotadas - aquelas que ela jogara ao chão. Desfilava para seu pai antes de sair para as festas e ele ajudava a escolher as roupas, e aprovava com admiração.

Na cidade de Guerreiro, as mães cavam os buracos para esconder e proteger suas filhas, mas nesse caso foi Ana quem cavou o seu próprio “buraco”, seu quarto, onde passou a viver seus dias, só aceitando sair para vir ao consultório.

Por inúmeras sessões “vomitou”, ansiosamente, queixas e teorias a seu respeito e a respeito da vida, algumas aprendidas com o pai, outras em programas de tv que “engolia” compulsivamente.

Parar para pensar era angustiante. Não havia livros, filmes ou músicas ampliando seu dia a dia. Era Ana e sua mãe, sendo que esta se limitava a dizer à filha que o que ela pensava era bobagem, e a cozinhar as inúmeras receitas para cumprir com as infindáveis dietas.

Não havia uma mãe, como aquela da personagem Ladydi Garcia Martinez, do livro citado, que assistisse a documentários históricos e usasse metáforas sobre Troia, Império Romano, entre outras, para sustentar emocionalmente a filha e colorir seu cotidiano.

Travessia

Quando voltei ao salão de beleza, todo mundo já havia tirado o esmalte das unhas. Era óbvio que ninguém ia se arriscar a sair para um mundo em que os homens acham que podem roubar você só porque suas unhas estão pintadas de vermelho.

(Clement, 2015, p. 34)

Durante a inquietante travessia, algumas peças do quebra-cabeça foram surgindo e a primeira delas - sua única relação sexual aos 15 anos - foi a ponta do iceberg. Embora tenha sido com um rapaz conhecido, da mesma escola e pouco mais velho do que ela, Ana foi assaltada pelo medo e culpa, pois esquecera de usar camisinha.

De início, o pavor foi da gravidez, seguido da paranoia das doenças. Após os exames com resultados negativos surgiu, por fim, a vergonha de seu corpo. Além da mudança radical quanto à escola, às roupas, e a repetição do mantra “estou gorda”, surgiram os episódios bulímicos e a rápida degradação da relação com o pai. Recusava-se a conversar com ele, rejeitando-o. E a reação do pai foi violenta.

A figura paterna poderosa e autoritária, impositiva e invasiva, foi tomando forma e surgiram lembranças de situações conflitivas de um tempo anterior, durante a puberdade, com o corpo transformando-se rapidamente, Ana, em uma das primeiras manifestações de sua subjetividade, passou a trancar a porta de seu quarto.

O pai, habituado a ter livre acesso ao quarto da filha, não aceitou a atitude e, após sucessivas brigas, arrombou a porta e tirou a maçaneta, impedindo a garota de defender sua privacidade.

Ressentida, Ana pediu ajuda à mãe que não esboçou qualquer reação em favor da filha. Desamparada, ela inicialmente desistiu, mas quando a crise eclodiu, entrou num embate com o pai, arrastando sua cama para bloquear a entrada do quarto.

Tesone, no texto “Incesto: o corpo roubado” (2005), ressalta a frequência dos transtornos de alimentação - bulimia e anorexia -, dos repetidos acidentes e de francas tentativas de suicídio em crianças que viveram relações incestuosas. Acrescenta ainda outra hipótese, levantada por Ferenczi, de uma amnésia consecutiva a esse tipo de trauma, “uma psicose passageira”, como uma primeira reação ao choque, mantendo secreta uma parte da personalidade e condenando a criança a um sofrimento mudo.

O sofrimento de Ana

Durante o relato me vi diante de uma garota oscilando entre sentimentos de estranhamento, mal-estar raivoso em relação ao comportamento de seu pai e momentos de indiferença, parecendo não estar implicada afetivamente com os acontecimentos excessivos.

À medida que a confiança de Ana no trabalho terapêutico se constituía, o conteúdo das sessões se modificou e surgiram questionamentos sobre a dinâmica familiar, especialmente a submissão da mãe e a soberania paterna. Pesadelos emergiram, um deles era bastante significativo e perturbador.

Ela estava sendo perseguida pelo pai que invadira o quarto e, acuada, vê a janela aberta e corre nessa direção.

Acordou sobressaltada e com muito medo.

Apontei que ela já me contara sobre a falta de privacidade, a invasão de seu quarto, mas esse sonho trazia um desespero sem saída.

Ela se emocionou e chorou pela primeira vez na análise. E manifestou seu desalento e desamparo.

Atravessamos um período de tristeza que se intensificava a cada lembrança que emergia, quando o despotismo de seu pai se apresentava com tintas carregadas. Um pai que desfilava sua nudez ao chegar do trabalho. Esse era um hábito que ele tinha desde solteiro e, depois de casar e constituir família, não só o manteve como fazia as refeições com os filhos dessa forma.

Percebi o excesso na exposição do corpo do pai e o campo minado que iríamos atravessar. Procurei, com cautela, apontar o que ela estava narrando e levantar mais um véu que encobria as experiências excessivas que contribuíram para seu sofrimento. E surgiu uma lembrança de quando era uma menininha e estava sentada na cama do casal, fazendo companhia a seu pai nu, enquanto a mãe se ocupava dos irmãos menores e do jantar.

Em sessões posteriores lembrou o momento em que começou a estranhar e incomodar-se com a nudez paterna, foi ao frequentar a casa das amigas e conhecer os pais delas, vestidos. Ela pediu a ele para não tirar mais suas roupas, não foi atendida, nem apoiada por sua mãe. Entendeu, então, o porquê de nunca ter convidado suas amigas para vir à sua casa.

O sentimento de desmoronamento e impotência, que para ela parecia um sinal de sua incompetência, burrice e falhas emocionais, ganhou outros sentidos, incluindo a dominação tirânica paterna e a exposição excessiva do pai em um comportamento exibicionista e erotizado, e a falta de amparo materno até diante dos pedidos de socorro da filha.

Momento doloroso na análise, o despertar de uma alma confusa e atormentada, aprisionada no próprio corpo e no corpo do pai, conscientizando-se que, no início da puberdade, quando tentou esconder e proteger seu corpo em transformação, foi invadida pelo voyerismo e a possessividade de seu pai.

No livro de Clement (2015), Paula, uma das personagens, é sequestrada pelos narcotraficantes. Sua mãe tinha vários cachorros como soldados, que latiam quando as suvs dos violentos homens se aproximavam. No dia do rapto, os cães foram mortos e a mãe não conseguiu esconder sua filha no buraco. Quando Paula retorna para casa seu corpo está marcado com queimaduras de cigarro, num desenho típico que simboliza quem é o seu dono, e o sofrimento da garota é tão intenso que ela passa seus dias sem se levantar da cama e aceita ser alimentada somente no colo de sua mãe, recebendo leite na mamadeira.

O outro: Ana

A saúde mental e a estabilidade de todas as sociedades se refletem na maneira com que tratam seus membros frágeis, dependentes e que conduzem o futuro: seus filhos. Do ponto de vista psicológico, isso é muito importante pois demonstra nossa capacidade de conter. e avaliar mentalmente a diferenciação entre as gerações, entre os sexos, entre passado e futuro, entre forte e fraco... Agressões às crianças são essencialmente agressões contra nós mesmos.

(Durban, 2016, p. 1)

Ana, durante o curso da análise, se apresentou: uma garota que foi submetida a duas condições perturbadoras desde a infância.

De um lado o adulto - pai, erotizado, exibicionista e violento que, com essa postura carregada de estímulos visuais e verbais, sequestrou a infância de sua filha e deixou sua marca com seu próprio corpo.

Um pai com as características de passagem ao ato do adulto abusador, como descreveu Tesone:

O adulto abusador, em lugar de ser o suporte da lei exogâmica, intenta ser o fazedor da lei, contudo uma lei negativa, endogâmica, em que se apresenta como um ser todo-poderoso e sem falhas, a quem tudo pertence. Nega à menina seu estatuto de sujeitoseparada do adulto. (Tesone, 2005, p. 109)

Segundo o autor, a devastação no psiquismo da criança será mais grave quando o excesso foi exercido por uma das figuras parentais, configurando o incesto. Atos abusivos repetitivos durante um tempo, causam traumas cumulativos, impregnando o mundo interno da criança com a pulsão de morte.

Com esse funcionamento psíquico perverso, desvalorizando a existência da realidade psíquica da filha, anexando-a ao seu narcisismo, o pai de Ana provocou um enxerto prematuro, como descreveu Ferenczi (1933/2011), no texto Confusão de línguas entre os adultos e as crianças”, a introjeção de uma forma de amor carregada de paixão e posteriormente de culpa, acompanhada por ódio, e esse sentimento tem tal intensidade que surpreende e choca a criança, perturbando sua espontaneidade frente à vida.

E, retornando a Shengold (1979), somente o surgimento da intensa raiva acompanhada de seu caráter assassino e, nos casos mais felizes, a possibilidade de vivenciá-la, pode trazer crescimento emocional. E a personalidade como se, o falso self, o autômato obediente “A criança que sofreu abuso torna-se um ser mecanicamente obediente…” (Ferenczi, 1992, p. 103), pode estar apto a tornar-se um ser humano com a habilidade de tolerar as contradições e conter a ambiguidade emocional, tão necessária para a liberdade e a plena humanidade.

Esse ódio em Ana manifestou-se num pesadelo trágico, novamente surge a cena da invasão de seu quarto e ela pega um revólver e atira, matando seu próprio pai.

Ana sofreu a privação de um tipo de cuidado materno - “escudo protetor” - uma das funções, tão necessárias ao aparelho psíquico, apontadas por Freud no texto “Mais além do princípio do prazer” (1920/1993c).

Se no livro de Clement (2015) as mães das garotas da cidade mexicana de Guerreiro enfeiam suas filhas, pintam seus dentes com carvão, cavam buracos para escondê-las dos terríveis narcotraficantes, a mãe de Ana ofereceu-a ao seu violento pai, deitado nu em uma cama.

4. Um terceiro destino: a sublimação

Um roqueiro “psicanalista”

Agora me diga se não é verdade o que seu pai fez?

Ele violentou um bebezinho

Esse cara só pode ser louco…

(Tyler, Hamilton, 1989)

Em meados dos anos 1990, no decorrer do trabalho com Lara e Ana, que a escuta da música Janie’s Got a Gun ganhou profundo significado.

Lançada em 1989 pela banda de hard rock Aerosmith, foi composta por seu vocalista, Steven Tyler, em parceria com Tom Hamilton, e é um marco na inspiração do compositor por temas que expressam o sofrimento humano.

Tyler, durante uma de suas internações por abuso de drogas, numa clínica de reabilitação, surpreendeu-se com a quantidade de meninas que precisavam de tratamento. O interesse e a escuta sensível do artista, propiciou o contato com os relatos de abuso sexual sofridos pelas garotas. Em entrevista recente (2020), durante o lançamento de sua ong Janie’s Fund, com o objetivo de ajudar vítimas de abuso sexual e negligência, ele relembra a motivação para a escrita da música:

- Sete em cada 10 meninas, que estavam na reabilitação, sofreram abuso sexual ou físico. É alarmante.

Com sua criatividade e sensibilidade, interpretação forte, de denúncia e de alerta, Tyler, a meu ver, compôs um hino, uma manifestação lírica sobre esse tema tão dramático e doloroso, para suas vítimas e para a sociedade humana.

Eu tenho uma voz

Me lembro bem quando aconteceu! Ela era bem menor que eu… Menininha, garotinha!

Jogava bola e amarelinha...

Ciranda cirandinha!”

O seu olhar me despiu da inocência! A culpa que senti disfarçou a violência! Por que tanto tempo calada?!

Por que não contei nada?!”

Estes versos sensíveis e comoventes são parte da letra composta por Clara Verdier, e musicados por Bibi Cavalcante, artistas e produtoras paulistanas.

Uma melodia, um outro hino às vítimas de violência e abuso sexual, que emocionou uma rainha e os conselheiros da fundação Childhood Brasil.

Eu tenho uma voz faz par com Janie’s got a gun, apesar de características diversas, até opostas - a primeira, forte, delicada e um depoimento da vítima, numa melodiosa e convincente interpretação de Clara, e a segunda, com um impacto devido ao seu caráter de testemunho e denúncia, cantada com a voz rasgada de Tyler - na expressão da gravidade dessa dolorosa experiência que é a violação do corpo de crianças e adolescentes, sejam elas meninas ou meninos.

Se a repercussão da música de Tyler levou-o à potente criação de uma ong para amparar as vítimas, a canção Eu tenho uma voz, com sua expressividade imagética, inspirou as compositoras a elaborar o projeto de um curta-metragem. Buscaram talentosos e dedicados profissionais - roteiristas, produtores, atrizes e atores, diretoras e todo um experiente grupo de profissionais do cinema -, contaram com o financiamento da Childhood, e realizaram uma obra de arte sobre o tema do trauma, mais de 100 anos após os primeiros escritos de Freud a esse respeito.

5. Algumas vozes

Há um século, pacientes, estudiosos, escritores, compositores, artistas, emitem alertas sobre a existência de ataques e abusos contra crianças, desse tipo de sofrimento e suas consequências. É preciso tomar em consideração, superando o horror e a resistência, inerentes a ele.

Finalizo este texto, juntando-me à legião de psicanalistas que, com base na concepção freudiana de trauma como o evento externo desencadeante do excesso pulsional inassimilável à mente, e seus efeitos patogênicos, puderam manter a escuta dos relatos de seus analisandos, quando estes incluíam a insanidade do pai, pais e/ou adultos, e/ou as fendas na função de “escudo protetor” e suas consequências, respeitando a dor, oferecendo o espaço e o tempo para a construção de outra relação e outra cena. Esta pode ser o ponto de partida, fundamental, para o resgate de uma “alma”, para a possibilidade de acolhimento das cisões no ego, das dolorosas e fragmentadas lembranças e de intensos sentimentos, a caminho da reconstrução da subjetividade do Outro, que até então era ninguém.

Run Away,

run Away from the pain…

(Tyler & Hamilton,1989)

Quem decide o momento de crescer?! Como é que se conta o que temos que saber?! (Verdier, 2023)

2 Ao pesquisar e estudar a obra desse autor compartilhei meu interesse com duas colegas, Cristina Maria Kurkdjian, autora de “Luta Dora, Lutadora” (2004) e Inês Zulema Sucar “No resgate da alma” (2007), a quem agradeço a companhia e as trocas, também relativas à tradução dos artigos do Shengold. Enquanto transitávamos por um campo tão sofrido e delicado, a leitura dos trabalhos dessas autoras constitui uma fonte de inspiração e incentivo.

Referências

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Verdier, C. & Cavalcante, B. (2023). Eu tenho uma voz [Gravado por C. Verdier]. In Childhood. [ Links ]

Recebido: 13 de Agosto de 2023; Aceito: 29 de Agosto de 2023

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