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Jornal de Psicanálise

Print version ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.56 no.105 São Paulo July/Dec. 2023  Epub Aug 26, 2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v56n105.14 

Comentários sobre

Quando o outro é ninguém: três destinos, de Eliana da Silveira Cruz Caligiuri

Renata Udler Cromberg1 

1Psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é articuladora do Grupo Winnicott - estudos e pesquisa, e membro do grupo de estudos Comunidade de destinos - Ferenczi e Freud. É doutora e pós doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professora convidada do Curso de Teoria Psicanalítica do cogeae/PUC-SP. É graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade de São Paulo. Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sandor Ferenczi e da Associação Internacional de estudos sobre Spielrein. Autora dos livros Paranoia, Cena Incestuosa - abuso e violência sexual (Artesã) e Sabina Spielrein, uma pioneira da psicanálise (Vols. 1 e 2, Blucher) São Paulo


Observações iniciais

Ao assistir ao clip Jane got a gun sugerido pela autora Eliana da Silveira Cruz Caligiuri do artigo Quando o outro é ninguém: três destinos, protagonizado pelo grupo musical Aerosmith, a cena final chamou minha atenção: o policial que oferece um cobertor protetor para a filha assassina do pai. Ele empatiza com seu sofrimento e vulnerabilidade sem condená-la a priori. A cena sugere a complexidade da violência incestuosa. Afinal, a solução de uma filha matando um pai abusador é raríssima na realidade. Até mesmo psiquicamente demora muito tempo, num processo de cura para que a vítima do abuso atravesse todas as figuras complexas do traumático e possa sentir uma raiva assassina legítima contra um pai predador não apenas de seu corpo, mas de seu espaço psíquico, que tenha a eficácia de livrar o psiquismo da fragmentação e possibilitar integração e fortalecimento para viver afirmativamente a própria vida.

Mobilizada por questões atuais em torno do abuso e da violência sexual, Eliana foi generosamente buscar na sua memória clínica, dois atendimentos dos anos 1990 para pensá-las e se perguntar o que e como pode o psicanalista intervir nelas. Ela inicia expondo os excessos sociais e seus marcos teóricos que a ajudaram no seu caminho clínico.

Comecemos com Lara. Vulnerável, esta primeira impressão da analista diante de Lara é decisiva. Quando a vulnerabilidade do outro é percebida, não pode ser negada pois ela é o motor do tratamento. Não a negar é admitir a própria vulnerabilidade. E vemos isso na analista de Lara quando ela constrói uma parceria inaugurada pela afirmação do seu não saber e da atitude empática - estar ao lado de Lara para descobrir a causa externa do excesso de estimulação corporal a que ela havia sido exposta, cujo sintoma era a masturbação excessiva.

Curiosamente, ao mesmo tempo, na construção da comunicação respeitosa e cuidadosa de Lara, Eliana diz uma frase enigmática que chamou minha atenção: “Disse a ela que acontecia alguma coisa com sua “f…” (a única palavra permitida pelo pai para nomear a vagina), que ela não sabia o que era e que não a deixava sossegada, nem quando estava brincando.” O que chamou minha atenção é ela não nomear a palavra que se refere a f… Para mim, por exemplo, eu não sei a que se refere. Então temos que a palavra F… não pode aparecer assim como a palavra vagina não podia aparecer para Lara. O que nos fala que a proibição paterna em torno da palavra vagina destinou um sentido proibido a algo erótico e erógeno que a criança só pode ter acesso como enigma. Mas que para Lara se desenhou numa excitação não nomeada ou mal nomeada a sua púbis toda: lábios vaginais e clitóris. Afinal a vagina é mesmo obscuramente pressentida pelas meninas durante toda a primeira infância (2 a 6 anos). Em mim surgiu a ideia de que talvez algo dessa proibição paterna de nomear o corpo erógeno possa ter a ver com o sintoma somatopsíquico de colamento dos lábios vaginais.

Toda a sequência que introduz algo de novo, o desenho de Lara, a mãe e o microfone na mão de Lara, a mãe alta e Lara baixa é primorosa. Além de muito criativa a brincadeira de Lara adolescente e a mãe, até que a analista tem o insight de devolver a Lara o poder de dizer não àquilo que vivia como invasivo da mãe. Finalmente, algo se mexe também no psiquismo da mãe quase magicamente e ao mesmo tempo que a possibilidade de barrar o excesso a partir da consciência de um corpo próprio é construído em Lara. A mãe de Lara se lembra da cena que podemos a posteriori reconstruir como cena traumática que foi passar a pomada nos lábios vaginais de Lara para não fecharem. Aqui, temos o levantamento do recalque da mãe de Lara. E podemos entender esse tubo de pomada como um microfone fálico a ressoar as recomendações do pediatra que em sua preocupação médica desconhece os efeitos delicados do toque na região genital de Lara. Nesse sentido, faz ressonância com a proibição condenatória paterna de nomeação correta. Assim, podemos nos perguntar nessa escolha do desenho da menina microfone/bisnaga de pomada/ objeto fálico, o que será que a mãe falava ou ressoava ao passar a pomada a partir do seu próprio recalque e não saber? Como isso impediu a excitação em Lara de ter um contorno a partir de uma nomeação materna do que se passava com ela e onde passava? A sensível relação de confiança entre Eliana e Lara e entre Eliana e os pais permitiu que, sabendo barrar um movimento da mãe vivido por ela como invasivo, tendo entendido a relação entre os movimentos de cuidado da mãe e o mal da excitação, a mãe pudesse se assumir como sujeito até agora inconsciente de um ato de invasão e algo pôde se elucidar e mudar.

Falemos agora de Ana. Um caso clínico bem mais difícil pelos riscos da sintomatologia compulsiva e bulímica, com grave distorção da realidade do próprio corpo e de si que impedia a vida escolar e social.

Mais uma vez, a inteligência sensível e contundente de Eliana tem que compor, em primeiro lugar, com os pais a urgência de um tratamento necessário para Ana. A iniciativa da mãe em procurar ajuda para Ana, a partir de duas cenas dramáticas, tem o sentido de uma interdição do clima incestuoso tardiamente conseguida pela mãe, às custas de um confronto com o pai, ditador das regras familiares.

Ana tinha um valor fálico para o pai, era “a maioral”, tanto pelo seu desempenho quanto por ser uma menina-moça que desfilava para o pai em busca de sua aprovação, valor que despenca com a bulimia. O que é interessante é que um dos irmãos acolhe o corpo neutro de Ana, emprestando-lhe moletons para disfarçar seu corpo de moça.

Eliana compõe a aproximação do que se passa com Ana por meio do livro que conta a situação social das meninas mexicanas da cidade de Guerrero e o que as mães fazem para esconder o crescimento sexual das filhas que serão roubadas e violentadas por narcotraficantes.

Eliana tece o quadro incestuoso da relação de Ana com seu pai e a cumplicidade de sua mãe de uma maneira que traz, freudianamente, duas cenas: a da adolescência e a da infância. Uma ressignificando a outra e trazendo o impacto traumático da invasão do sexual do adulto na ternura erótica na infância e no despertar sexual na adolescência. E o desencadeante foi a primeira relação sexual aos 15 anos, um evento sempre carregado de descobertas apreensivas e enigmáticas para qualquer adolescente que a experiencie.

Aqui aparece na análise a cena da puberdade:

A figura paterna poderosa e autoritária, impositiva e invasiva, foi tomando forma e surgiram lembranças de situações conflitivas de um tempo anterior, durante a puberdade, com o corpo transformando-se rapidamente, Ana, em uma das primeiras manifestações de sua subjetividade, passou a trancar a porta de seu quarto.

O pai, habituado a ter livre acesso ao quarto da filha, não aceitou a atitude e, após sucessivas brigas, arrombou a porta e tirou a maçaneta, impedindo a garota de defender sua privacidade. (pp. 195-196)

Ana pediu ajuda à mãe que não esboçou qualquer reação em favor da filha. Aqui temos o desmentido da mãe, tal como foi teorizado por Ferenczi (1933/2011), tão adoecedor quanto o gesto violento do pai, que traz o desamparo de Ana. Isso produz desistência. Ana foi então para a sua primeira vivência sexual já tendo um primeiro confronto barrador do pai. Agora, na crise dos 15 anos entra num embate com o pai e arrasta sua cama para bloquear a entrada do quarto pelo pai invasor. O enigmático de sua sexualidade e da sexualidade violenta do pai foi catastrófico em Ana a ponto de ela deformar a autopercepção de seu corpo, negando a sexualidade e fazendo um movimento regressivo para as angústias orais e anais (a bulimia e a vivência de um corpo deteriorado do qual se envergonha).

À medida que o trabalho analítico se processa em um clima de confiança, uma vez que a analista deu testemunho validador da vivência de um pai violento e abusivo desde que o relato das cenas começou, a cena infantil aparece: “Um pai que desfilava sua nudez ao chegar do trabalho. Esse era um hábito que ele tinha desde solteiro e, depois de casar e constituir família, não só o manteve como fazia as refeições com os filhos dessa forma” (p. 196).

Ao perceber o excesso na exposição do corpo do pai o atravessamento desse campo minado levanta o véu do recalque, um véu que encobria as experiências excessivas que contribuíram para o sofrimento de Ana. Surge a cena infantil: ela, menininha, sentada na cama do casal, fazendo companhia a seu pai nu, enquanto a mãe se ocupava dos irmãos menores e do jantar.

Em sessões posteriores lembrou o momento em que começou a estranhar e incomodar-se com a nudez paterna: foi ao frequentar a casa das amigas e conhecer os pais delas, vestidos. Ela pediu a ele para não tirar mais suas roupas, não foi atendida, nem apoiada por sua mãe. Entendeu então o porquê de nunca ter convidado suas amigas para vir à sua casa. (p. 197)

A mãe de Ana é partícipe da cena incestuosa, pois ofereceu-a ao seu violento pai, deitado em uma cama nu. Nas pesquisas sobre famílias incestuosas é comum encontrar mães que delegam o seu papel sexual às filhas consciente ou inconscientemente.

Eliana aponta este momento doloroso da percepção de um aprisionamento no próprio corpo e no corpo do pai na puberdade invadida pelo voyerismo e a possessividade do pai sobre seu exibicionismo normal de púbere com um corpo em transformação. Ao trazer o caso trágico de Paula, no livro das meninas de Guerrero, que volta para casa marcada com um cigarro pelo narcotraficante que a sequestrou, como se ele quisesse afirmar sua posse sobre ela, a menina passa seus dias sem se levantar da cama e aceita ser alimentada somente no colo de sua mãe, recebendo leite na mamadeira. Isso lembra o pensamento de Christopher Bollas (1992) sobre o trauma do incesto como um efeito da regressão topográfica no psiquismo. Para ele, quando o pai comete um ato incestuoso, ele desestrutura a relação da criança com ele como pai. Ele age em nome da mãe, reapresenta o corpo da mãe e anula o falo como objeto intrapsíquico que facilita a evolução da criança em direção à independência.

O falo significa a não mãe, e a identificação com ele ajuda a criança a emergir de uma relação pré-edipiana com a mãe. A vítima do incesto, no entanto, se vê projetada de volta para uma relação com a mãe, a mãe primitiva de seus três primeiros anos. (Bollas, 1992, p. 192)

Não é o corpo a verdadeira vítima da violação. O crime incestuoso do pai é a violação da mente e do self, psique-soma, um ataque ao sonho e ao sonhar, ao procurar a fonte de gratificação no psique-soma da criança.

Os dois sonhos da análise de Ana são primorosos para apontar a angústia sem saída da invasão incestuosa e a saída agressiva legítima na fantasia de assassinato do pai:

Primeiro sonho

Pesadelos emergiram, um deles era bastante significativo e perturbador. Ela estava sendo perseguida pelo pai que invadira o quarto e, acuada, vê a janela aberta e corre nessa direção.

Acordou sobressaltada e com muito medo. (p. 206).

Esse sonho lembrou-me a cena inicial do filme Miss Violence. Uma menina de treze anos se senta no parapeito da janela do apartamento e se joga. Entre vários filmes recentes sobre a violência sexual incestuosa, um dos mais contundentes e radicais é Miss Violence (Avranas, 2013). A partir do suicídio de uma das três irmãs no dia de seu aniversário de 11 anos, o filme investiga o tabu do incesto. É a história de um clã dominado pela figura de um patriarca, que vive com a mulher, a filha e quatro crianças que poderiam ser seus netos. As crianças vão à escola e as duas mulheres cuidam da casa. A máscara de normalidade da família começa a ruir quando ocorre o suicídio de uma das meninas, no dia de seu 11º aniversário, e o serviço social investiga o fato. A tensão permanente é captada pelo diretor com o uso exclusivo da câmera em plano médio e de um ambiente sufocante construído por um abrir e fechar de portas da casa, e fotografia de cores dessaturadas, em tons marrons e, mais ainda, por uma direção de atores que trabalha no sentido de desdramatizar a expressão dos sentimentos. Na verdade, no entanto, transmite com precisão a incrível repressão e o pacto de silêncio diante das relações anormais que vigoram dentro da família. Afinal, as gestações da filha se sucedem sem que haja nenhuma outra figura masculina no clã, exceto o pai. E as meninas veem com medo sua aproximação da puberdade. Os personagens infantis são submetidos a situações de humilhação ou de violência com crueza.

O filme é uma denúncia e tomada de consciência em relação à violência doméstica escondida entre as quatro paredes dos lares. O caso de uma menina de 11 anos grávida de gêmeos do próprio pai na Bolívia, revelado em agosto de 2015, quando ela foi ao serviço de saúde sem saber sequer que estava numa gravidez avançada, aponta a trágica atualidade do filme. O filme mostra ainda como na família incestuosa a função paterna é sempre falida. Ela é substituída pela do mestre, o qual não é mais o pai, nem o homem, nem o esposo, nem o companheiro. Uma mônada sem portas e sem janelas, é assim que Claude Levy-Strauss (1947/2015) se refere à situação incestuosa endogâmica em seu livro Antropologia Estrutural. Para ele, a exogamia e a proibição do incesto possuem valor permanente e coextensivo a todos os grupos sociais. Há nelas um valor menos negativo do que positivo, pois afirmam a existência social de outrem e só proíbem o casamento endógamo para introduzir e prescrever o casamento com um grupo diferente da família biológica. Não porque algum perigo biológico se ligue ao casamento consanguíneo, mas porque do casamento exógamo resulta um benefício social. A exogamia fornece a regra fundamental e imutável mantenedora da existência do grupo enquanto grupo (Cromberg, 2018).

Segundo sonho

Eliana aponta com outros autores que somente o surgimento da intensa raiva, acompanhada de seu caráter assassino, e, nos casos mais felizes, a possibilidade de vivenciá-la, pode trazer crescimento emocional. Nele a personalidade autômato obediente pode estar apta a tornar-se um ser humano com a habilidade de tolerar as contradições e conter a ambiguidade emocional, tão necessária para a liberdade e a plena humanidade. Esse ódio em Ana manifestou-se num pesadelo trágico: novamente surge a cena da invasão de seu quarto e ela pega um revólver e atira, matando seu próprio pai.

Comentários

Realizei uma pesquisa em 1992/93 sobre abuso sexual e violência incestuosa que resultou no livro Cena Incestuosa - abuso e violência sexual com sucessivas edições de 2001 a 2022. Com base na pesquisa trabalhei em supervisão institucional e cursos de formação de profissionais que lidam com a violência e o abuso sexual por 20 anos. Alguns desses trabalhos foram publicados em coletâneas. É desse material bibliográfico que faço meus comentários adicionais no sentido de amplificar o belo artigo de Eliana.

As cláusulas sociais de condenação tanto do incesto como da pedofilia permanecem implacáveis, uma vez que estes violam elementos primordiais do contrato fundante da civilização ao ignorarem a diferença geracional, a interdição do incesto, a castração simbólica e a submissão à lei da cultura a partir do pacto edípico. As tramas da perversão adulta intrafamiliar quando atingem crianças e adolescentes causam traumas violentos que tecem malhagens catastróficas em seus psiquismos. A singularidade do papel e da atuação do psicanalista em meio a outros discursos aponta a criação de condições para que o sujeito em tratamento psicanalítico invente outras possibilidades afetivas de enfrentar seu trauma, fazendo com que o segredo do abuso sexual deslize da sua faceta de sigilo para a de enigma - e que, como tal, possa instigar o sujeito, ao longo da vida, a distintos níveis de elaboração que darão um destino menos sofrido e mais criativo à sua dor e seu estar no mundo.

Um fato de grande dimensão ético-política, é trazido por Eliana e podemos ver nos relatos com os quais nos defrontamos na clínica e nas instituições: nos últimos anos houve um aumento significativo das consultas ligadas à violência contra crianças e adolescentes. Por que este aumento? Parece interessante a proposta de pensar essas formações sintomáticas atuais à luz de uma cultura do submetimento e vulnerabilização social que floresce no capitalismo mundializado, uma vez que elas ocorrem em todas as classes sociais, que não a questionam ou a denunciam. Há, no mundo contemporâneo, uma incestualidade latente no sentido de uma confusão de diferenciações e talvez até mesmo de uma erotização dessa confusão: uma adultização dos jovens e crianças e uma infantilização dos adultos, uma confusão entre real e virtual, entre dentro e fora, entre público e privado. Corajosamente Eliana enfrenta de olhos abertos e curiosos os novos enigmas trazidos pela violência sexual intrafamiliar.

Pierre Benghosi diferencia a incestualidade constitutiva da patológica. A primeira fala do complexo de Édipo, enquanto circulação de afetos e intensidades pulsionais dirigidos aos primeiros cuidadores e deles para as crianças. Já a incestualidade patológica fala de uma confusão de diferenciações e uma erotização desta confusão. Para ele, a sociedade de hoje é incestuosa neste sentido do ataque às diferenças e diferenciações. Para ele, a interdição do incesto ainda guarda simbolicamente algo do pacto civilizatório pelo qual todos aceitam abdicar de alimentar desejos egoístas e violentos e direcioná-los para fins mais criativos, de modo que a razão e a solidariedade possam triunfar sobre as paixões impulsivas e egoístas e (auto) destrutivas ameaçadoras da coesão grupal (Goldberg, 2014).

Eliana trabalhou bastante apoiada na teoria de Ferenczi sobre o que acontece na cabecinha da criança ou adolescente que sofreu um ato sexual violento por parte de um adulto perverso, no caso do pai de Ana. Mas ela não pôde fazer isso sem esboçar um entendimento do adulto perverso, no caso o pai de Ana. Gostaria de acrescentar alguns elementos. O termo predador psíquico (Cromberg, 2021) parece-me bem apropriado para aquele que viola, não o corpo, mas o espaço psíquico, a capacidade de sonhar e devanear. Ele foi tomado do etólogo Cyrulnik (1994) que o utiliza a propósito de sua investigação do sentimento incestuoso, para designar o perverso, ou melhor, a impostura perversa que parece autêntica. A associação de duas palavras que parecem se excluírem acontece naqueles cujo desenvolvimento da personalidade não permite sentir empatia. No sentido freudiano de empatia, seria a capacidade de se ressentir, ou seja, a aptidão de um ser vivente de se representar nas representações de um outro, suas ações, suas emoções e seus pensamentos. O perverso, pedófilo ou incestuoso, desprovido de empatia, só experimenta seu próprio mundo mental e é da maneira a mais sincera do mundo que ele goza com sua filha ou com o menino que ele ama tanto, verdadeiramente, até o momento em que ele não os ama mais e os afasta sem a menor representação dos problemas que ele infligiu neles. Os relatos dos especialistas do campo do incesto testemunham com frequência essa lucidez, mas também que o pai ou padrasto incestuoso é a tal ponto narcísico e egocêntrico que ele se anima, adquire anima, vida, impulso vital, sempre pelo desejo de controlar todas as coisas, dizendo em seu depoimento que aquele ato só aconteceu uma vez, quando aconteceu durante um ano todo.

Os predadores psíquicos são aqueles que, pouco constrangidos pela sua empatia, manipulam o espírito de outros, que eles consideram como bonecos desejáveis. São muito performáticos porque não têm nenhuma inibição. Cyrulnik destaca que um humano só inibirá a sua ação por um sentimento, ou seja, nem por uma percepção, nem por uma emoção, mas por um sentimento, ou seja, por uma maneira de sentir e ser afetado que é provocada por uma representação, por uma imagem ou pela ideia que se faz da coisa.

Poderíamos dizer que essa ausência de empatia, de inibição do sentimento incestuoso, torna o pai perverso em um predador do psiquismo de sua filha, é possível, por uma objetalização, coisificação do objeto sexual, em que só conta os próprios impulsos, o próprio cenário interno, a própria cena fantasmática. Como assinalam alguns autores, como Freud (1905/1973) e Stoller (1975/1986), a sexualidade da maioria dos homens contém uma certa agressividade e um desejo de subjugar que contemplam os aspectos motores e musculares do domínio de objeto para penetração. Mas isso não implica que a fantasia subjacente ao ato sexual seja sádica ou hostil naquilo que se refere ao objeto sexual. Por isso a concepção de perversão do psiquiatra e psicanalista norte-americano Robert Stoller, apontada por Ferraz (2001), trouxe para mim o melhor apoio para a compreensão da cena ou montagem perversa. Para ele, o fator-chave, a característica central do ato perverso é a hostilidade: a perversão é definida como um interjogo essencial entre hostilidade e desejo sexual. Em qualquer das formas que a fantasia perversa se realize, de forma manifesta ou latente, mas essencial na fantasia, está presente a hostilidade, a vingança, o triunfo e a desumanização do objeto. “Antes mesmo de arranhar a superfície, vemos que ‘alguém machucando alguém’ é o traço principal em qualquer uma das formas” (Stoller, 1975/1986, p. 9). A perversão é um produto da ansiedade, o comportamento perverso a molda a partir de remanescentes e ruínas da história do desenvolvimento libidinal, particularmente da dinâmica familiar.

A concepção de Stoller sobre a perversão, ao mesmo tempo que segue a índole freudiana de “Três ensaios para uma teoria sexual” (Freud, 1905 /1973), já que ela está presente na normalidade sexual e também de maneira neurótica, também dela se distingue, pois é o ódio que está presente como elemento estruturante primordial, sendo, portanto, uma forma erótica do ódio, pois aquilo que preside o ato perverso é o desejo de machucar o outro: na prática, trata-se de uma fantasia atuada e quanto mais grosseira a aparição da hostilidade na prática sexual, menos dúvida se tem de que se trata de perversão. Com maior ou menor consciência da raiva contra o objeto sexual, o propósito essencial para o perverso é ser superior a, triunfante sobre e causar dano a outro. O prazer e o corpo estão mais a serviço do poder do que do erotismo. A fonte da raiva está na vitimização do perverso na infância geralmente por pais ou substitutos. Com a perversão, a raiva é transformada em vitória sobre quem o submeteu, pois por meio dela, “o trauma se torna triunfo”. O estudo da perversão é o estudo da hostilidade mais do que da libido, com ênfase nos itens mais controvertidos do período pré-edípico, com seu eixo central nos componentes pré-genitais, orais e sádico-anais.

As pessoas perversas lidam com seus parceiros como se eles não fossem reais, só bonecos a serem manipulados no palco em que a perversão reina. Todo o trabalho da construção da fantasia a ser encenada pelo perverso tem como corolário esta desumanização do objeto sexual. Este não é e nem pode ser encarado como pessoa ou alteridade. Muito embora, na prática, o objeto seja uma pessoa real com sua personalidade, o perverso busca nele uma criatura sem personalidade ou apenas um fragmento anatômico dela. Esse fato explica porque o objeto é sempre descartável e nos mostra também a razão pela qual a promiscuidade faz parte quase necessária da vida sexual do perverso.

A hostilidade, na perversão, assume a forma de uma fantasia de vingança - escondida em ações que a dissimulam - que tem a função de converter um trauma infantil em um triunfo adulto. A excitação sexual é produzida por uma operação da cena traumática infantil (portanto vivida passivamente) em triunfo vingativo adulto (imaginado ativamente), incrementada pelo caráter de ato arriscado.

O ato sexual adquire para a criança o significado da brutalidade da sexualidade e não simplesmente o ato de um homem brutal. Ele se torna um acontecimento traumático intrusivo e atacante, não encontrando formas de integração, ligação, transcrição e representação no psiquismo da criança. O trauma deixa marcas irrepresentáveis inscritas no corpo. Seu impacto insuportável cinde ou fragmenta o ego e isola o acontecimento e a dor a ele associada.

A conclusão do texto de Eliana é muito tocante, quando ela homenageia a escuta dos psicanalistas que, como ela, com base

na concepção freudiana de trauma como o evento externo desencadeante do excesso pulsional inassimilável à mente, e seus efeitos patogênicos, puderam manter a escuta dos relatos de seus analisandos, quando estes incluíam a insanidade do pai, pais e/ou adultos, e/ou as fendas na função de “escudo protetor” e suas consequências, respeitando a dor, oferecendo o espaço e o tempo para a construção de outra relação e outra cena. Esta pode ser o ponto de partida, fundamental, para o resgate de uma “alma”, para a possibilidade de acolhimento das cisões no ego, das dolorosas e fragmentadas lembranças e de intensos sentimentos, a caminho da reconstrução da subjetividade do Outro, que até então era ninguém. (p. 201)

Ainda que os mesmos acontecimentos não tenham os mesmos efeitos nos vários psiquismos, existem alguns pontos que se repetem na criança que sofreu o trauma do ato sexual violento. Num primeiro momento aparece a recusa, o ódio, o desgosto e uma resistência violenta ao agressor. Logo em seguida vem um medo intenso que a deixa física e moralmente sem defesa. Sua personalidade ainda muito fraca para protestar mesmo em pensamento contra a força e autoridade esmagadoras dos adultos deixam-na muda e pode faze-la perder a consciência. O ponto culminante desse medo é quando elas se submetem à vontade do agressor obedecendo-o e esquecendo-se de si mesmas. A personalidade tenuamente desenvolvida se identifica com o agressor que a submete a uma posição masoquista que promove intenso sofrimento e desorganização psíquica. Após a identificação, a criança tenta encontrar meios de defesa que já são catastróficos, pois ela tem que se proteger tanto de um perigo exterior como de um perigo interior. Instala-se a confusão na criança que obedece mecanicamente a partir da confusão de línguas entre o adulto e a criança. Nesta há o enxerto prematuro de formas de amor erótico-passionais do adulto em um ser imaturo, que espera do adulto a linguagem do amor terno e não passional.2 A partir daí, ocorrem alguns efeitos na criança como o aparecimento de representações psíquicas de hetero e autodestruição que aparecem em sonhos, pesadelos, devaneios e alucinações. Ela passa a ter a sensação de ser um boneco, um autômato. Lembra continuamente das cenas de violência e pensa muito tempo no agressor. Seus afetos podem apresentar tristeza profunda, prostração ou acessos de fúria. A vida sexual não se desenvolve ou toma formas perversas, psicóticas ou neuróticas (Cromberg, 2021). Mas a criança que sofreu uma agressão sexual pode repentinamente, sob a pressão da urgência traumática, desenvolver todas as emoções de um adulto já maduro. O choque traumático faz com que, junto com uma regressão psíquica, haja uma progressão traumática patológica pela instalação de uma maturidade sexual precoce e súbita, como o amadurecimento precoce de um fruto bichado, como diz Ferenczi. É o que aconteceu com a menina pernambucana abusada por seu padrasto desde os 6 anos, que menstruou precocemente aos 8 anos e engravidou aos 9 anos. Esse precoce amadurecimento traumático faz pensar sobre a maturidade biológica e psíquica das crianças e púberes na contemporaneidade, invadidas por um excesso de estimulação visual e auditiva sexual adulta através dos meios de comunicação.

A violência contra a criança passou a se tornar objeto de investigação com a publicação da obra Síndrome da criança espancada (Kempe et al., 1962). A evolução dos vários campos multidisciplinares influenciou o surgimento das diversas legislações protetivas à criança. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente, aprovado em 1990, transformou-os de objeto de direito em sujeito de direito. Leis que criminalizam a violência sexual contra crianças e adolescentes nele foram incluídas, e alterações foram feitas no Código Penal. Só então, a violência contra crianças e adolescentes passou a ter prioridade de enfrentamento pelo Ministério da Saúde. As pesquisas apontam, desde então, que as maiores atingidas são as meninas e a maior parte dos agressores sexuais são da família das crianças e adolescentes ou conhecidos dela. Em 2008, foi incluída no eca a lei que criminaliza a produção, compra e posse de material de pornografia infantil e a prática de assédio a crianças pela internet. A idade de 14 anos foi estabelecida como o limite abaixo do qual qualquer relação sexual é considerada estupro de vulnerável, violência presumida em relação à incapacidade de decidir em relação à sexualidade. Em 2009, foi alterado o código penal. Os crimes sexuais não são mais considerados contra os costumes, mas contra a dignidade sexual.

2 Com base nas ideias de Sandor Ferenczi, sobretudo em Confusão de línguas entre os adultos e as crianças (1933).

Referências

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Recebido: 06 de Outubro de 2023; Aceito: 07 de Outubro de 2023

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