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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.56 no.105 São Paulo jul./dez. 2023  Epub 26-Ago-2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v56n105.19 

Editorial

Entrevista com Marcelo Ariel

Associação dos Membros Filiados (AMF)


Marcelo Ariel foi palestrante no evento “Alteridades ressonantes: a escuta se faz possível?”, realizado em 24 de junho de 2023. Foi convidado pela AMF a apresentar suas reflexões, assim, nasceu o diálogo a seguir, mas, mais do que isso, Ariel ocupou, com poesia viva, o espaço desse nosso encontro (im) possível. Ele é poeta, ensaísta e teatrólogo. Nasceu em Santos (sp), em 1968. É autor de Tratado dos anjos afogados (Letra Selvagem), Ou o Silêncio contínuo: poesia reunida 2007-2019 (Kotter Editorial - Prêmio Biblioteca Nacional 2020), Nascer é um incêndio ao contrário (Kotter, 2020), Subir pelo Inferno, descer pelo céu (Kotter Editorial, 2021), As três Marias no quadro de Jan Van Eick (Fósforo/Luna Parque/Círculo de Poemas-2022), Arcano 13 (Com Guilherme Gontijo Flores, Editora Quelônio, 2022), Escudos - Cinco raps e um samba escritos com Cruz e Sousa seguido de A vida de Clarice Lispector (Arte & Letra, 2023), entre outros. É colaborador das revistas Quatro Cinco Um, EGaláxia e Cult e autor convidado do Laboratórios de Criação - Escrita de Literatura e Teoria no Programa de Estudos Comparados de Literatura Portuguesa (Pós-Graduação da Universidade de São Paulo, Letras/FFLCH). Em 2022 compôs o júri do Prêmio Jabuti. Desde 2016 coordena cursos livres de escrita, poética e filosofia em São Paulo.

AMF - O Eu, esse que é tomado como unitário, individual, tem o vício da interpretação, de aprisionar tudo na representação, como metáfora, ficção e perversão, uma espécie de “Eu-Só-Eu”. Você fala dos muitos Eus que somos e menciona a possibilidade de um Eu comunitário, social, capaz de se mover no mundo. Nessa invenção de cada um como comunidade, escaparíamos do confinamento em uma interioridade de teias de palavras, imagens e slogans… Do que precisamos para essa invenção?

MA - O Eu em si já é uma espécie de confinamento quando o vemos como um novelo vinculado apenas ao nome-identidade e não como um ponto de transe-trânsito, de partida, ele vai além do nome-identidade, é uma porta que só abre para fora. Algumas culturas nômades do deserto fazem uma distinção entre o rosto e o Eu e há um filósofo pernambucano, Evaldo Coutinho, que fala em uma “ordem fisionômica” que contém tudo o que há no universo, que vejo como uma cosmicidade animal. Nosso rosto existe para receber outros, principalmente outros rostos não humanos, seja o de uma estrela, flor, nuvem ou animal. O que é ter um rosto aberto? Um rosto que se expande para fora dos espelhos como uma sensação do mundo… Se a pele é uma fronteira multiporosa dos mundos exteriores, como fazer do Eu um embaixador que recebe a visita contínua dos rostos-poemas das coisas, tomar o partido das coisas no sentido de viver também uma vida menor, uma vida expansiva e uma supravida onírica são experiências complementares umas das outras. Por exemplo: lembro-me que um dia sonhei, quando era criança, que era um golfinho e tinha saudade de ser eu mesmo e perguntava no sonho para outro golfinho como voltar a ser o Marcelo e ele me respondia “mas você continua sendo você”, esse sonho pode ser a fonte imanente dos poemas, sonhos nos quais somos outras coisas, com outros modos de ser são as fontes da sensibilidade poética, depois, pensei durante muitos anos e penso agora de novo, eu só consegui me ver no sonho porque estava transformado entre aspas em outro ser, estava sendo entre aspas outro ser, se ver poeticamente como vemos as coisas vivas se movendo e existindo só é possível nas metamorfoses e transes até esse lugar dos lugares que é a vida exterior e os poemas e sonhos podem ser mapas para chegar no estado de “abrir o rosto, abrir o Eu”, a porta em movimento, minha mãe sempre me dizia para abrir o coração para não cair no inferno que pode muito bem ser um anagrama de interno. Talvez a variada desordem fisionômica do mundo ilumine e deixe mais porosa a nossa ordem fisionômica. De modo que ela seja capaz de desfazer gramáticas do inconsciente dito colonial como quem desmonta uma bomba relógio. Esse “Eu-só-Eu” é um mito ruim que parece um imã num lixão de ferro velho que é o que se parece o mundo dos conceitos perpetuados por essa gramática das capturas do consumismo, mas sinto que tudo pode ser mixado, rearranjado, desinventado para melhor, nesse sentido é que podemos despensar tudo o que se cristalizou demais e enferrujou. Assim poderíamos despensar também esse Eu que só sabe ser ele mesmo, cristalizado, enferrujado e pulverizado nas coisas que ele pode comprar/ter, viciado em narrativas e enredos com sentido excessivamente organizado, longe da beleza imanente do caos.

Na contramão de todos os sintomas sentidos nossa imaginação poderia continuar a ser usada como uma chave de sonho acordado para estados mais poéticos e usos mais alegres e caóticos da sensibilidade. Não foi o físico Einstein que disse uma vez que a imaginação era mais importante do que o conhecimento, o que ele queria dizer? Que se nossa imaginação for atrofiada, presa em uma narrativa que é contrária às diferenças nosso conhecimento não terá mais o sentido de um espanto, de uma descoberta, principalmente da exterioridade-mundo? Boa parte de nossa ruína como coletivo deriva da falta de imaginação. Ver algo pela primeira vez é um estado da imaginação poética ou monádica que caminha tanto na direção da coisa observada num sentido oposto ao do lugar em que está o observador que ele acaba por poeticamente se confundir com a coisa observada, como cantou Camões “confunde-se o amador com a coisa amada por virtude de muito imaginar”.

Termino com uma homenagem a meu amigo Vicente Franz Cecim da Amazônia autor de Viagem a Andara contando aqui para vocês uma coisa que ele me disse um dia sobre poesia, de que a poesia não é literatura: é Rarefação e viaja por dentro e no sentido inverso - para que possamos retornar ao lugar onde somos mais sensíveis à hipótese onírica e lúdica e naturalmente sagrada do viver, retornar à origem, ao antes do ponto em que tudo começou a se perder do todo, ao ponto oculto de nós, que só permitimos existir em relances, vislumbres. Bastará deixar que ele nos diga algo, ouvir as falas do inconsciente falante geral e escutar com muita humildade. Muita radical exasperação também. E sonhando bastante os nossos sonhos, a todo instante. E deixando que estes sonhos, os individuais, se misturem com os sonhos da região.

O “é” do enunciado de Rimbaud “eu é um outro” para mim é um “é” do sonho, é um “é” do si mesmo que sinto como um halo que se mistura com outros halos formando uma aurora poemática.

AMF - Ignacio Paim, nosso colega de Porto Alegre, um dos poucos psicanalistas negros na nossa Instituição, escreve que “para trabalharmos o racismo com perspectivas decoloniais temos que tomar a negritude como norte e a branquitude como alvo”. Tomando, então, a branquitude euro-cristã como alvo e expandindo a questão do racismo, para todas as formas de violência no contato com a alteridade, podemos pensar o “Eu-só-Eu” como uma forma de adoecimento que acomete a branquitude euro-cristã e que adoece também a nossa relação com o diferente? Do que padecemos?

MA - Talvez essa questão já tenha sido contemplada na resposta anterior, mas podemos tentar uma expansão do ângulo de visão. Pasolini quando escreveu que o consumismo é a forma mais abrangente de fascismo, expandiu o ângulo de visão, como podemos expandir o ângulo de visão em relação a racismo? Talvez a forma mais sofisticada de racismo seja a praticada no Brasil, onde os pactos de branquitude são a base do contrato social e ele é permeado por práticas genocidas aliadas ao consumismo comedor de criancinhas. Desfazer exige diversos atos do pensamento e diversos atos da fala, atos e não lugares, os lugares estão quase todos com escrituras coloniais e se a fala não se move, não se mistura, não se torna mutante-convergente, se o pensamento não se mistura, não se torna mutante-convergente, ele acaba topologicamente colonizado pelas mesmas práticas e gramáticas da captura, às vezes penso que a identidade é formada por duas coisas, por um lado uma mutação inicial que se se cristaliza demais se torna a mutação errada, por outro, um campo de ações poéticas discerníveis à medida que ela, a identidade, torna-se indiscernível, multiporosidade. A vida não é um jogo de xadrez. Obviamente existem seres condenados a uma narrativa cruel e perversa, que precisam desenvolver um instrumental comunal de libertação, isso passa pelo Estado Social e pela materialização total de um conceito Guarany que é expresso pela frase tamboro teko porã, tamboro y’ y’ que significa o belo e bom é para todos, o belo e bom é como a água que complementa o eu sou porque nós somos da Filosofia Ubuntu. São essas convergências…

AMF - Você já falou, certa vez, de uma linguagem que busca fixar a vida, no sentido de interromper o movimento contínuo das forças criadoras/criativas e que quando essa linguagem falha, surge a Poesia, criando um vazio que possibilita a aparição do Pensamento. Essa é uma percepção que se avizinha muito da vivência psicanalítica. A vivência psicanalítica pode ser também acontecimento de palavras inéditas, que deslocam significados, que trazem à tona o estranho que somos. O que mata essa potência poética (e poiética)?

MA - À medida que a poesia é uma antiforça, ela não pode morrer completamente em ninguém, mas pode ser esquecida, ser abandonada, uma vez que se abandona a própria interioridade, há seres exilados de si mesmos, da própria interioridade, que vivem uma vida apoética dentro do poema. Há muita poesia na astronomia, na física, na astrofísica, na matemática, em que há símbolos e algo pode ser transformado em símbolo, há a possibilidade poética, John Ruskin falava em uma “economia poética”, Marx e Hegel podem ser lidos poeticamente, as culturas ancestrais, originárias que estão nos holofotes por causa de “n” fatores , talvez socialmente psicanalíticos, são poéticas de oralidades naturantes, enfim… Como a vivência psicanalítica poderia ser totalmente imantada pela poesia? O poético me parece o devir mais óbvio para a psicanálise. A poesia não morre porque resiste a ser convertida em religião ou seita, apesar dos muitos poetas ruins que agem dentro dessas formas mortas. A pulsão poética às vezes se sobrepõe a uma pulsão de morte.

“Quando a linguagem falha” ela é, como nós, de certa forma iluminada por atos falhos.

O Finnegans Wake de Joyce é uma espécie de poema criado com composições de jogos e atos falhos da linguagem, os escritos finais de Wittgenstein, o I-Ching chinês vão na mesma direção.

AMF - Palavras podem ser uma falsa imunidade que “protege” contra as alteridades. Nesse fluxo contínuo, nesse movimento contínuo, que chamamos Vida, somos todos viajantes e toda viagem é em direção ao outro. Existe alguma condição em que essa viagem, esse movimento, é paralisado?

MA - Olha, no Catimbó se diz que uma palavra pode matar, Rumi dizia que um poema pode despertar os mortos. Agora, não acredito que o movimento contínuo pare, que a vida pare de acontecer, chega um momento em que ela acontece sem nós e não precisamos morrer para entrar nele, pode ser antes que você morra, chega um momento em que “simplesmente ser” basta para entrar nele, um ser sem nós, desenovelado, desnarrativado também. Eu tinha um tio que era “Pai de Catimbó” e me dizia que poesia e reza brava eram a mesma coisa desde que a palavra fosse “para fazer algo acontecer fora dela” , entendo isso hoje também como um “desde que a palavra venha de fora dela”.

AMF - Nego Bispo em sua ação contra-colonial, afirma que os brancos euro-cristãos adoram nomear as coisas e que, por meio desse ato de nomear, apropriam-se de saberes e os transformam em mercadoria. Para ele, é necessário não aderir a essa nomenclatura, como forma de permanecer livre, de não se deixar colonizar. O que você pensa sobre essa força/efeito que as palavras podem ter na relação com o outro? De que forma podemos usar as palavras de forma que elas libertem, em vez de aprisionar ou submeter?

MA - Foi Lucila de Jesus quem me apresentou Nego Bispo, para mim, ele é como um parente. Usar as palavras e não sermos usados por elas, acho que como canto, reza e poema estamos mais perto dessa medicina que você evoca na pergunta. Estou tentando desde sempre me mover, ou seja, pensar, dançar o pensamento com a fala entre os saberes orais intuitivos do corpo e as memória das leituras que são também alteridade, essa é a poética que pratico desde que aprendi a ler. Pergunto-me se uma palavra pode ser lida a partir de outro ângulo do vivo? Nesse caso, teríamos uma poética porque há também o inconsciente da própria língua, onde dançava sempre com o Carlitos de Chaplin, o Manoel de Barros e há o inconsciente da linguagem em que a Adília Lopes dança com a Emily Dickinson, as dobras dançantes, filosóficas, humorísticas, musicais que deixam entrever a beleza florestal do caos ou do inconsciente, tanto faz…

AMF - Certa vez, falando sobre leitura, você disse que “toda leitura exige uma dança, uma descoberta, uma escavação, uma luta entre os vários Eus que somos”. Esse movimento se parece muito com o que nós, psicanalistas, testemunhamos nos atendimentos que fazemos, só que da perspectiva de quem “escuta” essa cena. Qual a potência da escuta e de que escuta nós, humanos, estamos precisando?

MA - O óbvio seria dizer “escutar o não humano” mas há camadas do não humano dentro do corpo humano, nós compomos com o não humano e com o cósmico o tempo todo, daí a pertinência da “cosmofobia” do pensador quilombola Nego Bispo. “Wa I Mona” é um provérbio em quicongo que mudado para o português significa “ver é ouvir e ouvir é ver”.

AMF - Em “Nota final”, de Scherzo Rajada, você diz: “Não chamo mais poemas de poemas, eu chamo de cosmogramas, porque qualquer ação humana, interior, como chuvas internas, ou tempestades internas, ou arco-íris mentais dos neurônios, qualquer ação dentro da esfera da atividade humana é uma representação do Cosmos. Já me interessa mais a Cosmologia, a Cosmogonia. A criação de cosmogonias, como os índios sempre souberam fazer, e não a vida administrada à troca do ser pelo dinheiro.”. Nesse mundo paralelo que chamamos “Humanidade”, o brasileiro é uma caricatura do eurocentrismo e do capitalismo. O que precisamos para nos realizar como o amálgama de povos que realmente somos?

Outra vez dialogando com as ideias de Nego Bispo, ele discrimina os saberes orgânicos dos povos integrados à terra, dos saberes sintéticos da cultura euro-cristã, desconectada. Questionado sobre uma possível aliança entre esses saberes ele diz que “nem tudo que se ajunta, se mistura, e nem tudo que se mistura, se ajunta”. Você poderia comentar essa ideia? Há amálgama possível?

MA - Essa mistura de halos é o que há, você não consegue costurar um halo no outro porque os halos, quando há dentro e fora, são como nuvens, acho que a fala dele se refere a diferença entre união e ajuntamento, os halos se unem como as nuvens se unem quando há tempestade. A metáfora não é muito boa, mas a tempestade está vindo. Estava dia desses pensando no conceito do pensador Davi Kopenawa Yanomami sobre queda do céu que de alguma forma conversa com o que escreveu o mítico pensador egípcio-grego Hermes Trimegisto o que há em cima é como o que há embaixo.

AMF - O que o poeta tem a dizer sobre a psicanálise e aos psicanalistas em formação?

MA - Seja o que for, está no encontro vivencial com a poesia, dentro e fora dos livros de poesia e no encontro dialógico com as pessoas que saíram da frente destes poemas para que a maior destinação da língua e da linguagem se tornasse possível. É o mundo quem escreve os poemas, os poetas apenas colaboram com o desejo do mundo.

Recebido: 22 de Setembro de 2023; Aceito: 22 de Setembro de 2023

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