SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.56 número105Entrevista com Marcelo ArielLinguagem, pensamento e capacidade imaginativa: Fundamentos epistemológicos em W. R. Bion índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.56 no.105 São Paulo jul./dez. 2023  Epub 26-Ago-2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v56n105.20 

Artigo

Carta ao dr. Unique Cosmofobique1

Carta al dr. Unique Cosmofobique

Letter to dr. Unique Cosmofobique

Lettre au dr. Unique Cosmofobique

Lucila de Jesus Mello Gonçalves2 

2Psicanalista, doutora em psicologia social, autora de Na fronteira das relações de cuidado em saúde indígena (Annablume) e Ponte (Patuá). São Paulo


Resumo

O texto é composto pela imagem intitulada “Consultório do Dr. Unique Cosmofobique” e uma “Carta” endereçada ao mesmo personagem. São apresentadas, com base na experiência de pesquisa e clínica com pessoas indígenas, inquietações e provocações relacionadas à apropriação de narrativas, aos limites das teorias e ao engessamento das práticas clínicas. Sugere-se a disponibilidade de abertura como pressuposto ético do analista.

Palavras-chave: ética da abertura; cosmofobia; indígenas; sagrado

Resumen

El texto está compuesto por la imagen titulada “Consultorio del dr. Unique Cosmofobique” y una “Carta” dirigida al mismo personaje. Basadas en investigaciones y experiencia clínica con pueblos indígenas, se presentan inquietudes y provocaciones relacionadas con la apropiación de narrativas, los límites de las teorías y la rigidez de las prácticas clínicas. La disponibilidad de apertura se sugiere como un supuesto ético del analista.

Palabras clave: ética de la apertura; cosmofobia; pueblos indígenas; sagrado

Abstract

The text is composed of the image titled “Office of dr. Unique Cosmofobique” and a “Letter” addressed to the same character. Based on research and clinical experience with indigenous people, concerns and provocations related to the appropriation of narratives, the limits of theories and the rigidity of clinical practices are presented. The availability of openness is suggested as an ethical assumption of the analyst.

Keywords: ethics of openness; cosmophobia; indigenous people; sacred

Résumé

le texte est composé de l’image intitulée « Bureau du dr. Unique Cosmofobique » et d’une « Lettre » adressée au même personnage. À partir de recherches et d’expériences cliniques auprès des peuples autochtones, les préoccupations et provocations liées à l’appropriation des récits, aux limites des théories et à la rigidité des pratiques cliniques sont présentées. La disponibilité de l’ouverture est suggérée comme une hypothèse éthique de l’analyste.

Mots-clés éthique de l’ouverture; cosmophobie; peuples autochtones; sacré

Consultório do dr. Unique Cosmofobique3 (Lucila de Jesus Mello Gonçalves, Técnica mista, 2021)

Caro dr. Unique, como vai?

Há algumas semanas, eu falava sobre o senhor com um jovem colega psicanalista, e, qual não foi minha surpresa, ele me disse que conhece vários analistas parecidos com o sr. Assim, achei por bem lhe escrever contando um pouco de nossas reflexões e partilhar algumas angústias.

Em primeiro lugar, apresentei o senhor para o jovem C., ele não conhecia os autores que deram origem ao seu nome. Expliquei brevemente que seu nome é uma homenagem ao Tobie Nathan e ao Antônio Bispo dos Santos, autores que muito nos ensinam.

Unique significa único, é uma homenagem ao psicanalista e escritor egípcio Tobie Nathan. Ele vive em Paris e trabalhou longo tempo atendendo imigrantes africanos; com base nessa experiência, pôde conceber alguns pressupostos que expandiram a psicanálise tal qual aprendemos.

Para ele, existem dois tipos de sociedade: uma, a ocidental, é caracterizada por um saber que é proveniente um universo único. Nela, o homem está sozinho, o saber é representado pelo saber racional, e o analista seria o detentor desse saber. O paciente chega, deita-se no divã e espera que o analista, digamos assim, possa dar conta do recado. Essa perspectiva nós conhecemos muito bem!

Mas existem também as sociedades tradicionais, ameríndias, quilombolas, ribeirinhas, comunidades agrícolas, africanas, aborígines, Inuits e muitas outras, que se caracterizam por serem sociedades de universos múltiplos, pois nelas convivem saberes de ordem humana com os de ordem não-humana. Nas sociedades de universos múltiplos, o paciente não é uma pessoa isolada de sua comunidade e, quando nos procura para dar conta de um sofrimento, revela que sua doença não é um problema exclusivo seu, mas se relaciona tanto com outras pessoas da comunidade, como com alguma força, potência ou ser invisível presente na cultura de seu grupo. Desse modo, as intervenções terapêuticas, sejam na cidade, sejam nas comunidades, lidam com a multiplicidade de universos que a doença engendra. Nos atendimentos praticados por Tobie Nathan e sua equipe, conviviam médicos, xamãs, psicanalistas, pessoas da comunidade, curandeiros e raizeiros.

Tobie Nathan nos lembra que a presença de entidades e gentes não-humanas permeia todas as sociedades humanas, que ao longo da história se interrogaram sobre elas. Mas a essa dimensão do viver, do invisível, parece ser uma que a sociedade ocidental desaprendeu a se conectar.

O sr. sabe, o pensamento único impede o reconhecimento da interdependência entre as espécies, humanas e não-humanas, e tem gerado graves consequências, com danos irreversíveis, em diferentes graus e escalas: do desamparo de um paciente que não encontra eco à sua voz, até o desamparo global, secas, enchentes, desmatamento, fome, entre outros.

Expliquei também seu sobrenome, Cosmofobique, que significa cosmofóbico, e é uma homenagem ao Antônio Bispo dos Santos, também conhecido como Nego Bispo, liderança do Quilombo Saco-Curtume, no Piauí. Autor de vários livros, ele se autodenomina lavrador de palavras. Entrei em contato com seu pensamento num curso que fiz há uns anos, e, nossa, como suas palavras e atitude me encantaram! Ele entende a sociedade ocidental atual como uma sociedade cosmofóbica, digamos assim, com fobia de tudo que seja da ordem do desconhecido e do sobrenatural. Assim ele explica:

o deus da Bíblia do colonialista - melhor dizendo, eurocristão monoteísta - desterritorializou um povo. Ele amaldiçoou a terra para aquele povo, e este povo não poderia nem tocar naquela terra. Ele disse que aquela terra estava oferecendo ervas daninhas e espinhos, ele disse que aquele povo não podia comer nem dos frutos, nem das folhas, nem de nada que aquela terra oferecia. Ele disse que aquele povo tinha que comer com a fadiga do suor do seu rosto, e nesse momento ele criou o trabalho como ação de sintetização da natureza. Ao mesmo tempo ele criou também uma doença que eu chamo de cosmofobia. O medo do cosmo, o medo de deus. Esse povo eurocristão monoteísta se sente desesperado. (Santos, 2018)

Esse desespero, este medo são, para ele, os afetos que sustentam as práticas de dominação, de controle e de necessidade de sintetização de tudo, em nossa sociedade.

Agora devidamente apresentado, dr. Unique, gostaria que soubesse que considero o senhor um grande analista, que é também um pensador da cultura; sei que é colecionador de artefatos indígenas e tem muita admiração por outros modos de vida, então é com todo o respeito que gostaria de trazer algumas observações e questões que têm me atravessado, são questões menos sobre a teoria psicanalítica, e mais sobre como a psicanálise tem sido praticada.

Sabemos que Freud, com a formulação do inconsciente, descentrou o homem de suas certezas, trazendo à cena o homem e seu duplo, seu múltiplo, com todas as suas aberturas e mistérios. No entanto, ainda temos percebido um engessamento enorme no que concerne às práticas clínicas!

Essa cena em que o senhor escuta os sonhos da paciente e não estabelece contato com ela, mantendo-se em suas metáforas raízes, sem de fato escutá-la, me parece emblemática, porque não parece haver nenhum deslocamento, por parte do sr., para se aproximar de um mundo, que, diferente do seu, pressupõe múltiplos universos. O saber ocidental costuma descrever esse modo de existência como animista, que considera fantasioso e infantil, ou coisa de louco mesmo. Mas, como o tema dos sonhos me é caro, gostaria de contar algo sobre o universo onírico que aprendi com os Kamaiurás do Xingu, que pode ampliar as nossas concepções.

Na aldeia Ipavu, o sonhar e o viver são intimamente ligados, os sonhos indicam as ações na vigília e as ações alimentam o sonho, para todas as pessoas, mas isso fica mais evidente quando se trata dos sonhos do pajé, pois, sendo uma liderança espiritual, seus sonhos determinam ações de toda a comunidade. Em uma das vezes que fiquei na aldeia, uma sra. havia desaparecido, e o pajé Takumã sonhava diariamente o que devia ser feito para encontrá-la, os pajés deveriam ir rezar na beira do rio, no outro dia em outro local, até ele dizer que ela talvez não fosse voltar.

Em outra ocasião, descrita pelos irmãos Vilas Boas, ele sonhou a localização de crianças perdidas na mata, sonhou também visitas que chegariam, curas para os doentes e modos de tirar feitiço. Foi um pajé muito respeitado dentro e fora do Xingu. Tobie Nathan nomeou essas sociedades que tomam o sonho como comunicação “sociedades do sonho”; lá também pude aprender que o sonho de uma pessoa pode revelar um conteúdo intersubjetivo, de uma família, de um grupo ou da própria comunidade. As pessoas acordam, contam seus sonhos umas às outras, e muitas vezes tomam decisões com base em uma narrativa composta pelos vários sonhos, ou mesmo por um único sonho que lhes chame a atenção.

Aprendi também algo da dimensão do que podemos chamar do sagrado, pois para os Kamaiurás há uma dimensão do sonhar que atravessa as fronteiras do psíquico: o pajé Takumã, a pajé Mapulu e a pajé Mapualu explicaram que alguns sonhos são de dentro da pessoa, têm a ver com a vida delas, mas muitos outros sonhos vêm de fora, do “espírito”, que eles denominam mama’e.

(Os mama’e são elementos do mundo invisível, mas estão presentes nos animais, nas plantas e nos sonhos.)

Cito Mapualu:

quando sonhamos, a alma (jengné - ãn) sai e se encontra com mama’e ou com a alma de outra pessoa. Se for com espírito, fala o que vai acontecer pra frente. Esses sonhos vêm de fora da gente. O sonho de dentro é quando vai dormir pensando em alguma coisa, se dorme pensando em pescar, sonha que tá pescando, vê se a pescaria vai ser boa ou ruim. (Gonçalves, 2019)

Dr. Unique, essa dimensão do que nós, não-indígenas, chamamos de sagrado é uma dimensão de uma força invisível que permeia todo o viver e o sonhar dessas comunidades. Se alguém sonhar com uma cobra, nesse dia não vai à roça, melhor se resguardar em tarefas perto de casa; também um sonho considerado bom pode proteger de doenças e outros males. Ali um sonho revela algo que não se refere somente ao sonhador, mas sim a questões comunitárias e de ordem “espiritual”. Gosto das palavras do xamã Moisés Piyãko, da etnia Ashaninka, que descreve os processos oníricos de sua cultura como a “tecnologia espiritual do sonhar, uma medicina espiritual”.

Diante disso eu pergunto, dr. Unique, como nós, os não-indígenas, estamos acolhendo essas dimensões em nossas clínicas? Penso que muitas vezes somos analistas cosmofóbicos, agentes de práticas discriminatórias perpetuando sofrimento e trauma em pessoas que nos procuram.

Aprendemos com Winnicott não somente que existem diferentes tipos de psicanálise, mas que as teorias devem estar em constante fricção com a realidade. Qual psicanálise cada tempo e espaço pede, digamos assim, exige, de nós, em determinado momento social, cultural, político?

O sr. sabe, há uns três anos venho atendendo pessoas indígenas, e por isso esta conversa se faz tão necessária para mim. As pessoas indígenas que nos procuram estão em profundo sofrimento, muitas vezes em contexto urbano, ou entre cidade e comunidade, ou mesmo na própria aldeia. Com concepções e modos de vida completamente diferentes dos nossos, buscando espaço de interlocução, reflexão, testemunho... mas como o sr. imagina que um psicanalista que não se desloque de seu mundo possa escutá-los?

Se o sr. disser, “bom, eu nunca vou atender uma pessoa indígena mesmo, nada disso me interessa”, eu paro por aqui. Mas, como sei que andou lendo e gostando dos belos livros de Krenak e Kopenawa, imagino que haja uma brecha.

Ah, mas essas fabulações animistas são os mitos e as crenças deles, a cultura deles, dirá o sr., e, sim, é verdade, cada cultura tem suas histórias e suas tradições, mas, se não estabelecemos uma qualidade de escuta com as pessoas em sofrimento que nos procuram, o que estamos fazendo e para quê?

Outro dia contava para uma colega, em minhas palavras, a história da origem dos Kamaiurás, que foi mais ou menos assim:

no universo primordial havia animais, espíritos e um ser que existia desde sempre, Mavutsinin; um dia ele se casou com uma concha, nasceu deles um ser homem, Mavutsinin neto, que criou a humanidade retirando troncos de árvore e os enfeitou com a ajuda de duas cotias; as cotias cantavam, tocavam maracá e rezavam. Daí em diante os diversos povos do alto Xingu criaram suas aldeias e receberam do criador muitos conhecimentos através dos mama’e.

Ela escutou e me disse: “nossa, é muito difícil compreender esses mundos, pois sou ateia até o último fio de cabelo!”

Achei muito importante essa formulação, pois é precisamente a expressão da cosmofobia. Ora, nada disso tem a ver com religião, e sim com pensamento único, rigidez, falta de mobilidade e, por que não, medo do desconhecido, como diz Nego Bispo.

Todas essas histórias de seres que se casam com conchas, de pessoas que foram criadas de troncos, com ajuda de cotias, parece muito exótico e selvagem! Isso até me lembrou o diário de Camus, quando esteve no Brasil, ele irritadíssimo com tanta floresta, bichos, mosquito, calor e nenhuma civilização! O sr. já leu? Tudo que ele queria era voltar para casa.

Mas falávamos sobre de que modo as concepções oníricas dos ameríndios ampliam as ocidentais. A coisa não para aí; se seguimos, precisamos também repensar, rever e nos reposicionar diante do que, por exemplo, os guaranis chamam de Nhanderekó, traduzido por bem viver... quer dizer, quais são os pressupostos e mínimos essenciais para um modo de vida em que a terra, a floresta, as águas dos rios, as montanhas permaneçam vivos?

Porque a pajé Mapulu me disse: “se acabar a mata, espírito morre e acaba tudo”. Afinal, se o sonhar e o viver são indissociáveis, todos permeados pelo mama’e, e, se os mama’e vivem na mata... sem mata, eles morrem e as pessoas também.

Dr. Unique, já imaginou como é o sofrimento de uma pessoa indígena cujo território está constantemente ameaçado? Onde não se pode mais viver perto de seus mortos? Onde as monoculturas e agropecuária tomaram as terras e devastaram o solo?

Outro dia uma pessoa indígena que eu atendo não veio à sessão, o que é frequente, pois muitas vezes eles ficam sem sinal na comunidade. Mas não, naquele dia ela havia faltado porque policiais invadiram parte do território, jogaram bombas de gás lacrimogêneo, e ela, assim como muitos parentes, foi ferida, precisou de cuidados médicos e por isso não veio.

Se pensarmos nos diferentes contextos ambientais, geográficos e políticos de cada etnia, podemos elencar inúmeras situações de invasão, violência e práticas predatórias ao longo do país, e, o sr. sabe, estamos falando do tempo presente!

Bem, eu me sinto na obrigação de dizer para o sr. que essa cena do consultório é um desencontro terrível entre vocês, mas de certa maneira não é tão grave diante da magnitude dos problemas alinhados e submetidos a esse descompasso criado com base na divisão entre o que se nomeia natureza e cultura, o que é civilizado e o que é selvagem, o que é digno de respeito e atenção e o que não é.

Ainda sobre a cosmofobia... gostaria de contar algo... outro dia, conversando sobre o que é saúde para os indígenas com minha amiga Taynara

Tuxá, psicóloga também, ela disse que

a ciência indígena é o comprometimento com o sagrado, pois a saúde tem relação direta com a natureza e com a terra; a saúde inclui o sagrado, porque geralmente os seres não-humanos habitam as matas e as águas; mas a categoria do “sagrado” não é incluída como elemento fundante dentro das concepções ocidentais da psicologia ... por isso são necessárias ações inclusivas e antirracistas, uma vez que o silenciamento e a violência institucional têm produzido um processo de “subjeticídio” nas pessoas indígenas. (Gonçalves; Moreira; & Barbalho, 2021)

Dr. Unique, é disso que se trata! E, então, pergunto: como o chamado giro decolonial o afetou, para além das leituras que tem feito? Como podemos instaurar mudanças institucionais para que possam coexistir as múltiplas noções de mundo?

Isso me lembra um diálogo que tive com uma colega para quem havia encaminhado uma pessoa indígena. Certo dia ela me ligou e disse: “fulana não está em análise”.

Ora, por que não?, o que é estar em análise, perguntei. Foi bonito esse diálogo, pois fomos pensando juntas no modo de vida dessa paciente, às vezes na aldeia, às vezes na cidade. No relacionamento dela com um indígena de outra etnia, o que trazia a necessidade de mais deslocamentos. No fato de muitas vezes na aldeia não haver sinal. De ela muitas vezes precisar, além da terapia, de outras práticas de cuidado, ditas espirituais, para suas questões. Aos poucos minha colega foi percebendo que mesmo com as faltas, com as diferenças entre as culturas, quando a moça vinha, estava superimplicada no trabalho, que já durava alguns meses. Ao final, ela concluiu que fulana estava, sim, em análise. O deslocamento para perceber os modos de vida da moça indígena, a configuração da demanda de terapia, o entendimento de como são as condições concretas para estar na sessão foram fundamentais para a colega elaborar e ressignificar o processo em curso.

Penso que, se pressupomos que há algo chamado inconsciente, se trabalhamos com a livre-associação, se como analistas nos dispomos a uma escuta de modo que se preservem em nossa mente espaços livres para as associações dos pacientes, por que motivo isso não acontece em relação às teorias que nos norteiam?

Se sabemos que todo e qualquer conhecimento é fruto de partilha de conhecimentos, em contínua construção, será que a abertura, a possibilidade de escutar e se reposicionar não seria também um imperativo ético fundamental?

Isso me faz pensar em o que é ser psicanalista, o que torna alguém psicanalista... como se desenvolvem as várias dimensões de escuta... fazer uma formação em uma instituição é suficiente? O que o sr. acha?

Aqui me lembro de Joyce McDougall naquele texto “Em defesa de uma certa anormalidade”. O texto é ótimo e cheio de provocações aos psicanalistas, destaco uma delas: uma jovem que estava interessada em psicanálise, ao final de um dia com seus pais, ambos analistas, e vários amigos deles, diz para sua mãe: “vocês são muito chatos, vocês não se escutam? ... Vocês só falam de dois assuntos: pênis e instituto de psicanálise! Você acha isso normal?” (McDougall, 1983).

A autora, por sua vez, questiona se estamos diante de uma evolução “normal” da psicanálise, uma vez que observa que os analistas mais experientes falam cada vez menos de pênis e mais do Instituto...

Dr. Unique, o sr. que é um analista experiente, ainda pensando em formação, será que não deveríamos rever as teorias que nos norteiam com base no que observamos e escutamos?

Um analista disse que na abertura da escuta mora um facho de luz, um facho de luz na escuridão... às vezes me pergunto se, na atualidade administrada e iluminada, ainda há “escuridão”... Não lhe parece imprescindível que cultivemos nossa capacidade de permanecer na escuridão?

Entendo que nossos desafios estejam justamente na postura de abertura, na curiosidade e coragem para se aproximar de outros mundos, de modo que nossas sensibilidades possam estar a serviço da clínica, quer dizer, para o encontro com as pessoas que chegam para conversar conosco, nos implicando mais nos “cuidados terapêuticos”, nas palavras de Masud Khan, do que na aplicação das teorias psicanalíticas. Desse modo talvez pudéssemos abrir espaços para reconhecer os múltiplos universos existentes e estar dispostos a, de novo, encontrar formas de coexistência.

Afinal, temos tantas teorias e psicanalistas que nos falam sobre o vazio, a precariedade, a abertura, mas o que realmente permitimos que nos afete e nos possibilite viver essas ressonâncias? O giro decolonial precisa ser mais que um conjunto de textos a serem lidos, uma apropriação de narrativas, é preciso que façamos a dança das cadeiras!

O sr. se lembra do que Hannah Arendt disse naquele texto sobre educação, que em algum momento precisamos tomar a nossa decisão em dar continuidade ao mundo, nos responsabilizando, em gesto, do cuidado com o mundo? Na mesma direção, Vivi Camacho, uma parteira boliviana, disse que a interculturalidade é uma dívida que os governos têm com os povos indígenas, e em sua terra propôs uma política de cidadania, no lugar de cidadania: cada indivíduo é um agente cuidador de sua cidade, de sua região, exercitando o que ela nomeou “ética do cuidado”.

Bom, mas antes de encerrar, gostaria de partilhar com o sr. o depoimento de uma moça da etnia Tariana, pois suas palavras nos apresentam um pouco de seu mundo e de como ela tem sofrido com o nosso:

Eu sou multiartista e desde que saí de minha comunidade peguei como missão a luta de fazer resistência através da arte, mas dentro desta caminhada tive muitas questões; eu venho de uma linhagem em que sou descendente direta do deus trovão, e a partir do momento que eu saio da comunidade e chego na cidade é quando eu descubro que sou indígena, que sou pobre, que faço parte de um grupo que é chamado de minoria e que existe uma grande invisibilidade dos povos indígenas. Mesmo assim, tive sorte, pois dentro da minha família sempre fui valorizada por ser indígena.

Desde nova e mesmo na cidade a gente sempre se protegeu e se cuidou através do xamanismo, eu não me lembro da minha vida em nenhum momento sem o xamanismo, a maioria das vezes eu consegui me curar dentro do xamanismo, mas mesmo que eu fizesse esses benzimentos eu sentia a necessidade de saber a origem deles e dividir com alguém e até curar, pois tem questões que o xamanismo não cura. Ele trata doença física e espiritual, porém, tem questões que são enfermidades dos brancos. A coisa da colonização, quão cruel e violenta foi, todos nós falamos disso, mas ninguém se importa com o que o indígena sente, a gente sempre foi visto como selvagem, e essa foi uma das coisas mais cruéis. A coisa da culpa, da dor, do sofrimento é muito difícil. No xamanismo tem benzimento para tudo, mas as enfermidades sentimentais, mais psicológicas, vieram da invasão. A gente nunca teve o sentimento de culpa, da dor. Tudo era conectado em outro lugar, na praticidade, acorda vai para roça, pesca, cuida da família, cuida do espírito, tinha um propósito diário, se alimentar e cuidar da família. Não tinha isso de horário. Os indígenas estavam preocupados com guerras espirituais, com comida, com as crianças. Não tinham essas doenças psicológicas, acredito que essas enfermidades vêm dos brancos.

Viu como é, dr. Unique... os mundos indígenas e não-indígenas coexistem... o sr. pode imaginar como deve ser difícil fazer, de modo solitário, essas pontes? Certa vez um indígena Baniwa nos disse que contava que os psicólogos e psicanalistas o ajudassem a se situar nessas passagens... entre aldeia e cidade, entre culturas.

Dr. Unique, me ocorreu agora, já pensou um dia o sr. receber uma pessoa como ela em seu consultório ou, o que seria incrível, vir conhecer e conversar com ela em sua comunidade...?

O sr. gostaria? O sr. concorda que, mesmo que não validado, digamos assim, burocraticamente, por algumas instituições, isso também seria psicanálise?

Bem, vamos nos aprofundar nisto em outro momento... agora finalmente me despeço, na expectativa de saber se algo disso tudo ressoou no sr. e de que forma.

Grata pela atenção,

Lucila

3 A imagem pode ser vista colorida em @luciladejesusmg.

Referências

Gonçalves, L. de J. M. (2019). O campo e o capim: investigações sobre o sonhar nos Kamaiurá. 2019. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. [ Links ]

Gonçalves, L. de J. M.; Moreira, P. A.; & Barbalho, T. (2021). Tudo vive em nós. Percurso, v. 66, 125-135. [ Links ]

McDougall, J. (1983). Em defesa de uma certa anormalidade: teoria e clínica psicanalítica. Artes Médicas. [ Links ]

Santos, A. B. (2018). Somos da terra. Piseagrama, 12, 44-51. [ Links ]

Recebido: 06 de Julho de 2023; Aceito: 08 de Julho de 2023

1

A imagem e o texto foram apresentados no evento “Alteridades Ressonantes - A escuta se faz possível?”, promovido pela AMF da SBPSP em São Paulo, no dia 24 de junho de 2023.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.