Por que a psicanálise hoje?
Quando recebi o tema para a aula inaugural, meu primeiro pensamento foi que esta é uma pergunta que acompanha a psicanálise desde sua origem, com Freud, e posteriormente com todos os pioneiros que o seguiram constituindo Sociedades e Institutos de Psicanálise em todo o mundo. O segundo pensamento que me ocorreu foi que essa questão evidentemente segue nos acompanhando, e renovando-se, a cada vez que alguém decide iniciar sua formação em psicanálise, como certamente aconteceu com vocês, que estão entrando no Instituto neste ano de 2024, e comigo em 1981, quando tomamos essa decisão.
Desde seu início, a psicanálise se impôs como o método que praticamente inventou a si mesmo graças ao encontro entre duas pessoas, Anna O. e Freud. Ogden (2005) faz uma formulação interessante sob essa perspectiva quando afirma que reinventamos a psicanálise a cada novo paciente que recebemos, um encontro em que inconscientes se apresentam e reapresentam na relação transferencial e contratransferencial da dupla. Winnicott (1971/1977) vai um pouco mais longe ao afirmar que a cada sessão psicanalítica “criamos” um mundo próprio de acontecimentos, jamais visto ou conhecido por nenhum dos dois participantes, de tal modo que, ao fim desse encontro, cada um sinta que saiu enriquecido e com maior compreensão do humano. Observação essa, em sintonia com a afirmação de Bion de que o paciente que atendemos na sessão de hoje não é o mesmo da sessão de ontem. E eu acrescentaria: nem o analista!
Penso que nessas observações está implícita a concepção de que a psicanálise originou-se, e permanece viva desde então, através dos encontros que se sucedem na intimidade dos consultórios psicanalíticos entre cada par analista<>analisando. Gostaria de desenvolver com vocês hoje esta concepção/ideia de atemporalidade da psicanálise: de que ela renasce e se reafirma a cada vez que se forma um novo par psicanalítico, hoje e sempre.
Ao abordar o sonho como via régia para o Inconsciente, Freud inaugurou um campo de conhecimento que tem o sonho como seu paradigma, tanto no que se refere ao objeto como à sua dinâmica. O campo em que a prática da psicanálise se desenvolve é o campo da subjetividade, do sonho e da experiência estética. No entanto, neurologista e cientista de formação que era, Freud sempre tentou inserir a psicanálise no campo das ciências, desenvolvendo sua metapsicologia a partir da criação e utilização de um método de observação e investigação do psiquismo humano, que resultou no desenvolvimento de hipóteses teóricas sobre as quais se fundamentaria essa “jovem ciência”, como ele se referiu à psicanálise em uma carta em que cumprimenta nosso pioneiro Durval Marcondes pela fundação da primeira Sociedade Brasileira de Psicanálise, em 1928.
Um dos pressupostos epistemológicos do novo campo de conhecimento desenvolvido por ele será sempre a referência clínica. A clínica forneceu a sustentação que permitiu a Freud contestar cientificamente os imperativos teóricos da epistemologia positivista do fim do século 19 e da lógica do seu tempo. Como, por exemplo, a sua convicção sobre a existência de uma “segunda consciência”, posteriormente denominada “Inconsciente”, ativa e capaz de exercer grande influência nas decisões do sujeito, sobre a qual, porém, a consciência nada sabe. Com sua metapsicologia, Freud tencionava especificar o campo da psicanálise e diferenciá-la não só da filosofia, como também da psicologia da época e da medicina. A psicologia de então, uma ciência experimental na linha da psicofísica que norteava as ciências, era totalmente voltada para a consciência, considerada a faculdade mais nobre do homem, e o Eu pensante reinava soberano. Freud propôs um psiquismo que iria muito além da Consciência e do Eu consciente, trazendo o Inconsciente como o espaço psíquico fundamental de um sistema psíquico de grande complexidade. O próprio conceito metapsicológico da pulsão evidencia algo da ordem do ser que estaria além da biologia e da psicologia, além da representação. Ela se inscreve em outro espaço, entre o somático e o psíquico, nos seus limites, e é somente através dos processos oníricos que eventualmente podemos lidar com sua força e violência.
Histórica e epistemologicamente, portanto, a teoria psicanalítica origina-se da postura investigativa de Freud no contato com a sua experiência clínica. Ele criou um método de observação e aproximação ao psiquismo que implica duas subjetividades, em que aquele que investiga está sendo constantemente investigado, e resulta em um corpo teórico crescente que organiza essas experiências, relacionando-as ao desenvolvimento emocional do homem, a partir da premissa do Inconsciente. Um método que inevitavelmente resulta em um corpo teórico psicanalítico sob constante questionamento pelos psicanalistas na prática clínica diária e consequente desenvolvimento.
Qualquer que seja o valor que se conceda aos meus resultados, peço apenas que não se veja neles o fruto de uma cômoda especulação. Originam-se de uma trabalhosa investigação individual de cada paciente, que na maioria dos casos exigiu cem ou mais horas de penoso trabalho. Mais importante ainda que a aceitação dos meus resultados é, para mim, a do método do qual me servi, totalmente novo, difícil de desenvolver e, no entanto, insubstituível para as nossas finalidades científicas e terapêuticas. (Freud, 1905/1973)
A articulação clínico-teórica é, para mim, o maior legado de Freud em psicanálise. Tendo a acreditar, até mesmo pelas suas rupturas epistemológicas (Green, 1990), que lhe permitiram reconfigurações teóricas e técnicas, que ele tinha clareza de que a utilização do método psicanalítico, a via através da qual o psicanalista movimenta-se em direção ao Inconsciente, levaria inevitavelmente a uma reformulação natural das teorias, de que seu edifício teórico jamais seria concluído. Freud construiu uma obra aberta. Muda a época, muda a cultura, mudam as questões que vão emergir no aqui e agora da sala de análise, em que acontecem e se mantêm vivas a psicanálise e, consequentemente, as teorias psicanalíticas.
Como ressalta Green (2002/2008), o aparelho psíquico descrito por Freud não é mais unanimidade, no sentido de que o objeto desempenha um papel constitutivo no nascimento e desenvolvimento psíquico, uma tessitura psíquica desenvolvida pela dupla. Na falha ou impossibilidade de encontro com outro psiquismo disponível para conter e sonhar as emoções e sensações despertadas pela cesura da vida, caímos nas agonias e terrores sem nome.
Há muito a repressão sexual deixou de ser o tema predominante nas conversas que se desenrolam entre analistas e pacientes nos consultórios. As configurações de sofrimento psíquico que se apresentam atualmente apontam em outra direção, para questões mais primitivas do que as consideradas por Freud na época, distúrbios e falhas de desenvolvimento do próprio Eu: o sentimento de vazio, a ausência de sentido da vida, questões narcísicas com sentimentos de insuficiência e não existência, vivências psicossomáticas, em que os objetos têm uma função utilitária e as relações de intimidade estão ausentes.
Na intimidade dos nossos consultórios temos encontrado fundamentalismos de toda sorte, autodefinições através da profissão, individualidades empobrecidas, homens e mulheres com aspirações de serem eles mesmos. Mais do que falta de percepção da realidade, parece haver um entreter-se com uma realidade paralela, como um desdobramento do real, uma espécie de duplo de si mesmo. Tal como Narciso debruçado sobre sua imagem refletida no lago, no momento da escolha entre si mesmo e seu duplo, dá-se preferência à imagem. A vida passa a “acontecer” nas imagens das telas. Pacientes nos quais a aspiração de se tornarem eles mesmos é mais urgente e demandante do que tornar o inconsciente consciente, de reintegrar o projetado, ou mesmo de desenvolver pensamentos a partir das experiências emocionais. Situações em que me parece que a necessidade de converter a experiência emocional em sonhos torna-se mais importante do que converter sonhos em experiência consciente, como propôs Freud na época.
A presença da subjetividade do analista na sala de análise amplia as possibilidades de narrativas na atualidade que viabilizam aproximações às experiências emocionais dolorosas vividas, porém, não sofridas. As construções que fazemos a respeito de estados ainda sem representação partem dos detalhes fatuais e emocionais das interações no aqui e agora da relação intersubjetiva da dupla analítica, que passam a adquirir sentido, coerência e continuidade. Como assinalou Bonanimio (2013), a noção da pessoa ou da subjetividade do analista está no centro da psicanálise contemporânea, tocando muitos dos nós teóricos, clínicos e conceituais que permeiam os debates na atualidade. Eu acrescentaria também os nós institucionais.
A questão proposta, “Por que a psicanálise?”, remeteu-me a um determinado momento, durante o pré-Congresso Didático de 2010, em Bogotá, quando me ocorreu pela primeira vez esse pensamento: será possível formar um analista?
Na época eu acabara de terminar minha função como secretária geral do Instituto da SBPSP e fazia parte do Comité de Educación da fepal. Sobre um pano de fundo emotivo e reflexivo que predominava no encontro, pensei comigo: será que a célebre dialética proposta por Freud (1905/1973), utilizando-se da antítese que Leonardo da Vinci resumiu com relação às artes nas fórmulas per via di porre e per via di levare, não se aplicaria também em relação à formação de um analista? A pintura, dizia Leonardo, trabalha per via di porre, pois deposita sobre a tela incolor partículas coloridas que antes não estavam ali; já a escultura, ao contrário, funciona per via di levare, pois retira da pedra tudo o que encobre a superfície da estátua nela contida. As estátuas inacabadas de Michelangelo, como a Pietá Rondanini exposta no Museu de Arte Antiga no Palazzo Sforza em Milão, constituem a imagem forte e palpável desse modelo.
Voltando ao pré-Congresso, eu estava coordenando, juntamente com um colega do Peru, a última reunião que teríamos em um dos pequenos grupos de discussão, após a apresentação dos trabalhos dos expositores sobre o tema do Encontro: “A formação analítica e a prática clínica hoje”. No dizer de Borges, certeiro como sempre, estamos constantemente a pensar com maior ou menor complexidade e profundidade certas questões eternas…
Discutíamos as vicissitudes da inserção da psicanálise na cultura contemporânea. Foram levantadas questões sobre: como formar analistas numa cultura de superficialidades em que se privilegiam métodos de evasão e descarga? Na falência da simbolização e predomínio dos aspectos narcísicos da personalidade em que o Eu se afirma pela via da aparência e do espetáculo e o sofrimento se expressa na forma de um vazio existencial, na ausência de sentido? Como zelar pela função psicanalítica, e reafirmar mais do que nunca a importância da análise pessoal como desenvolvimento do instrumento de trabalho dos analistas, suas próprias mentes? Hoje, no ano de 2024, pós-pandemia, permanecem essas mesmas questões, acrescidas das discussões e questionamentos sobre a teleanálise e seus impactos sobre as análises e sobre a formação.
A certa altura, fez-se um longo silêncio carregado de uma sensação de desalento naquele grupo constituído por diretores de Instituto, docentes e candidatos. Depois de dois dias de trabalho, antes da plenária final, havia se abatido sobre nós um sentimento de tristeza e desesperança. Instalouse um longo silêncio. Intuitivamente, ocorreu-me perguntar a uma colega que exercia a função de diretora de Instituto em Montevidéu, e que estava sentada ao meu lado: “por que você se tornou analista?” Ao me responder, algo absolutamente surpreendente ocorreu. À medida que ela contava a sua história, sua expressão foi se modificando, seu rosto iluminou-se, seus olhos brilhavam, e os colegas acompanhavam atentamente suas palavras com uma expressão prazerosa de reconhecimento. Logo em seguida, outro colega começou a contar sua história de amor com a psicanálise, depois outro e outro, instaurando-se no grupo uma conversa mais íntima, próxima a emoções profundas. O clima afetivo predominante possibilitou que uma colega em formação, até então em silêncio, emocionada, dissesse sentir que o tempo de formação é tão breve e a construção da identidade do analista um processo tão longo e delicado, que não gostaria de ter tempo roubado ao seu desejo de ser analista. E encerrou com a citação Ars longa, vita brevis2…
Ao fim da reunião estávamos irmanados todos em nossa recém-recuperada paixão pelo mesmo objeto de amor. Certamente o objeto de amor que no passado motivou Freud a criar a ipa e alguns anos depois alguns pioneiros a criar a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e que na atualidade se constitui no elemento unificador de todos nós, esse sonho/ ideia, essa arte/ciência, que chamamos psicanálise.
Naquele momento, independentemente de idade, sexo, nacionalidade e experiência analítica dos analistas presentes, emergiu das histórias ali contadas um forte elemento comum a partir da e-vocação nos participantes: a paixão pela psicanálise. Respondendo à minha própria pergunta, hoje acredito que já trazemos no íntimo do nosso ser o psicanalista que viremos a ser e que um analista não pode ser formado por via di porre. Como propõe Bion, a psicanálise é uma preconcepção em busca de realização.
Percorri um longo caminho até a psicanálise, porém, naquela reunião em Bogotá, ao chegar a minha vez de responder “Por que a psicanálise?”, percebi que ela sempre esteve comigo. Tornando curta uma longa história, eu fiz a Faculdade de Medicina e três anos de residência em Neurologia na fm-usp, após o quê, tornei-me professora assistente da Clínica Neurológica e trabalhei como tal por 10 anos no Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas (o prof. Horácio Canelas era o professor titular) e no Centro de Investigação em Neurologia da fm-usp, com o prof. Antonio Spina-França, antes de migrar para a psicanálise. Há muitos anos já me interessava por psicanálise, já havia lido “Psicopatologia da vida cotidiana” e a “Interpretação dos sonhos” de Freud durante a Faculdade. Em meu consultório neurológico, as dores emocionais dos pacientes emergiam claramente das enxaquecas, fadigas musculares, neuropatias periféricas, dores diversas. Decidi iniciar uma análise e, depois de um tempo, resolvi fazer formação no Instituto, com a finalidade de entender melhor a psicanálise e meus pacientes.
Obviamente fui me envolvendo com a psicanálise de tal modo, que, durante a minha formação, acabei vivendo uma vida dupla: pelas manhãs praticava Neurologia no hc, atendendo, fazendo ambulatórios, ensinando, e às tardes, no meu consultório, atendia também os pacientes de supervisão encaminhados pelo Centro de Atendimento, que foram aumentando gradativamente, tomando os horários da tarde. Obviamente chegou o momento em que precisava decidir, porém, passavam os anos, e eu não conseguia optar, embora percebesse claramente que não poderia manter a ambas. Como me disse uma vez, com seu humor característico, meu analista na época, Persio O. Nogueira, “É… você se apaixonou por uma amante exigente… ela não se contenta com apenas algumas horas das suas tardes…”
Até que um dia, eu tive um sonho.
Para que acompanhem o sonho, preciso apresentar-lhes o contexto. Os elevadores do hc na época eram muito antigos, possuíam uma estrutura de metal, com uma grade interna de ferro e uma porta externa, pesada, que precisava ser acionada por um sistema de alavanca para ser aberta. Vivia sempre parando e encrencando. No sonho, eu estava no térreo, em frente aos dois elevadores. Um deles estava parado, meio desmontado, peças espalhadas pelo chão, e o prof. Spina-França, meu chefe no cin, e o Ricardo Nitrini, na época meu chefe na Enfermaria, junto com dois jovens que pareciam residentes, estavam muito compenetrados, com ferramentas nas mãos, aparentemente tentando consertar o elevador. O Ricardo então vira-se para mim, que estava parada um pouco atrás deles olhando, e me pergunta, meio irritado: você não vem ajudar?! Nesse momento, abre-se a porta do outro elevador, e sai uma menininha loirinha de uns 5-6 anos, que me pergunta: você não vem?… Decido entrar no outro elevador com a menininha, e começamos a subir muito rápido, vejo que ele não vai parar, porém, não sinto medo. O elevador, que agora parecia um foguete, atravessa o teto do Hospital, que consigo agora ver lá embaixo na cidade, ultrapassa nuvens brancas em um céu azul, e continua subindo na mesma velocidade… Nesse momento, eu acordo. Havia acabado de receber a resposta que buscava, enviada por mim mesma.
Posteriormente, encontrei um texto de Odilon de Mello Franco Filho (2008) em que ele afirma que a formação analítica não forma um analista, mas oferece condições para que determinadas funções da sua personalidade, o que Bion (1963) denominou função analítica, possam se expressar e se desenvolver no contato emocional com o outro, no campo analítico. Do seu ponto de vista, com o qual concordo inteiramente, o principal instrumento de trabalho do analista é a sua personalidade. Não por acaso propõe que os elementos de psicanálise são funções da personalidade, e os objetos derivados deles, as associações e interpretações, contêm extensões nos domínios dos sentidos, dos mitos e da paixão.
Voltando ao Congresso de Bogotá, que interessante a verificação desse elemento comum entre os analistas: a paixão. Tenho uma tendência a pensar que, se isso acontece, provavelmente é porque ela é um elemento necessário ao tornar-se analista. Necessário não só como parte do nosso arsenal psicanalítico, como assinala Bion (1963), mas também como força impulsora em nosso eterno “vir a ser” analistas, porque o contato com o sofrimento, isolamento e solidão do nosso trabalho, tornam o medo e a dúvida companheiros inevitáveis nessa jornada, se não estivermos tomados por idealizações ou outras defesas. Como assinala Luiz Carlos Junqueira Filho (2005), no funcionamento metapsicológico, o mesmo psiquismo que sofre a dor psíquica é aquele que consegue senti-la após ter conseguido pensá-la. O psicanalista, como Édipo na busca da sua identidade, precisa estar preparado para suportar o mistério da feiura interna matizada pela beleza da busca pela verdade. Enfrentar seu amor e seu ódio pela psicanálise. Porque ela, como todo objeto de paixão, traz muito prazer, porém, é muito exigente com os seus amantes…
A própria análise pessoal vai capacitar o analista para tolerar as experiências emocionais que envolvem o confronto com a incoerência, não compreensão, sentimentos de dúvida e até mesmo de persecutoriedade. A experiência de análise do analista origina e sustenta o “ato de fé” mencionado por Bion em relação à função psicanalítica quando recebemos um paciente: um ato de fé na psicanálise, na premissa do Inconsciente e no método que torna possível a aproximação ao objeto psicanalítico. Segundo Meg Harris (2023), Meltzer tinha uma visão interessante sobre o método, considerando-o como um continente para a turbulência psíquica da dupla analítica. O método guia o conflito estético despertado pela relação entre paciente e analista, e vai originar “a conversa mais interessante do mundo”.
Não é fácil esse caminho. Viver um processo contínuo de aprendizado e desenvolvimento só é possível enquanto o analista mantiver sua paixão pela investigação, exploração das profundezas do inconsciente, do desconhecido em seus pacientes e em si mesmo.
Penso ser fundamental sonhar a psicanálise e a formação, buscá-las no mais profundo do ser, da própria experiência de vida. No entanto, concordo com René Kaës (Kaës et al., 1989/1991) ao identificar uma ilusão que, segundo ele, é preciso abandonar, quando passamos a pertencer a uma Instituição. A ilusão primeira é “eu sou a Instituição”, seguindo-se a essa uma segunda: “A Instituição pertence a um ser poderoso e anônimo que tudo controla”. Demora-se muito a perceber que a Instituição é a soma de todos nós que a ela pertencemos - cada um dos membros, que traz consigo o seu sonho/mito pessoal sobre a formação e que ao ingressar na Instituição evoluirá para realidade ao se tornar um sonho compartilhado. Como salientei em trabalho anterior (Mion, 2017b), para que isso aconteça, no entanto, além da tolerância e acolhimento às diferenças, é necessária a possibilidade de sustentar as ansiedades relativas a uma nova condição na qual se permanece com uma identidade em processo contínuo de evolução, evitando a reivindicação para si mesmo de uma condição que ainda não se possui, apoiando-se para isso em sua identidade prévia. Mergulhar na experiência de formação inserido numa Instituição que o antecede e é ao mesmo tempo doadora de identidade (Käes et al., 1989/1991), submeter-se à análise com um analista experiente e comprometido com a tarefa de resgatar o ser e a individualidade do analista em formação, ciente das armadilhas dessa situação do iniciante por sua própria experiência, vivenciar as hordas primitivas internas e externas, desperta angústias persecutórias e demanda muito do analista em formação. No entanto, como ressalta Outeiral (2005), por incrível que pareça, esse é o caminho da espontaneidade e da criatividade na formação psicanalítica.
A tentação de “rapidamente pertencer”, da filiação precoce durante a formação, assim como na vida, leva paradoxalmente a um engessamento das ideias, à perda da individualidade e espontaneidade, submissão a um notório saber e à autoridade. A necessidade de pertencer e o medo da desconstrução empobrecem a criatividade. O processo de formação analítica não consiste simplesmente na aquisição de conhecimentos que informam o analista. Trata-se também da desconstrução de um saber e da possibilidade de se renunciar à posição de detentor de um saber apriorístico. Muitos de nós chegamos aos Institutos para iniciar a formação já com bom conhecimento teórico sobre nossos autores, alguns com experiências como doutores ou livre-docentes em universidades, e vínculos transferenciais anteriores, porém, percebemos com o tempo que não se trata de uma proposta de desqualificar a experiência ou o conhecimento anterior do candidato ou membro filiado, mas sim de resgatar o si mesmo, o que estava lá desde o princípio, o que não se sabe sobre si mesmo. Proteções contra verdades que não pudemos enfrentar. Um despir das camadas e camadas de “proteções/defesas” com que cobrimos nosso ser (being), per via di levare, como sugeriu Freud. O desenvolvimento de uma nova função da personalidade através da introjeção de um método, a função psicanalítica.
A direção em que se movimenta a investigação psicanalítica rumo ao Inconsciente sobrepõe-se aos espaços infinitos de Pascal e segue até alcançar os recessos profundos do Hades. Põe o analista em contato com a angústia de conviver com o incerto, tolerar mistérios e dúvidas; com a percepção de que se pode estar cego, enganado nas próprias percepções, escolhas e decisões que acarretarão inevitáveis repercussões no futuro, mas sabendo também que essa limitada percepção é o único instrumento de que dispomos.
Não há lugar para teorias na sala de análise. Estamos irremediavelmente sós e nus. Guiando-nos pela intuição psicanalítica e tentando, por meio do rudimentar instrumento de que dispomos, auxiliar nossos pacientes a encontrarem a si mesmos. Numa de suas conferências, Winnicott (1986) afirmou que provavelmente o maior sofrimento no universo humano é o sofrimento das pessoas normais ou maduras. E que isso geralmente não é reconhecido nem pelos próprios analistas. A vida do indivíduo saudável é caracterizada por medos, sentimentos conflitantes, dúvidas, frustrações, sentimentos de impotência, lutos e dores profundas, assim como também por características positivas. Vivendo profundamente nossas experiências, elaborando medos e paixões, tomando responsabilidade pela ação ou inação, sendo capazes de receber crédito pelo sucesso e culpa pelo fracasso, caminhamos todos, pacientes e analistas, em direção ao desenvolvimento e autonomia pessoal.
Por que aqui, na SBPSP?
Quando decidi iniciar minha formação no Instituto, essa era uma questão frequente de alguns amigos docentes, acadêmicos como eu na época, envolvidos com a tarefa da transmissão em diferentes campos do conhecimento. Por que não uma pós-graduação em Psicologia ou Psiquiatria? Expressavam certa estranheza e dificuldade em entender por que, desde Freud, a formação em psicanálise não é feita nas universidades, restringindo-se aos Institutos no interior das Sociedades de Psicanálise em todo o mundo.
Indubitavelmente as obras completas de Freud, assim como de todos os grandes autores psicanalistas que o sucederam, são patrimônio da humanidade e acessíveis a quem as desejar estudar. As teorias psicanalíticas são transmitidas nas faculdades de Psicologia, Medicina, Filosofia, Pedagogia etc., e certamente elas têm uma extensa e fértil área de aplicação, nos campos da saúde, da educação, da cultura e da ação social, seja como objeto de estudos sistemáticos ou mesmo como reflexões epistemológicas. No entanto, todo analista clínico praticante sabe que o simples fato de se aplicar a teoria e consequente terminologia psicanalítica na descrição da relação entre duas pessoas não transforma a experiência numa experiência psicanalítica. Não é necessário um psicanalista para transmissão das nossas teorias, mas é necessário um psicanalista para transmissão da psicanálise, sua prática clínica, possível apenas através da experiência pessoal psicanalítica e de sessões supervisionadas. Ou seja, feliz ou infelizmente a psicanálise não está contida em suas teorias, em sua metapsicologia.
Consequentemente, a formação em psicanálise, desde sua origem, transita entre um saber que se pode avaliar objetivamente, cujos métodos e teorias são objetiváveis e transmissíveis, e que inevitavelmente remetem aos conteúdos e ao campo das ciências; e outro saber que envolve criatividade, intuição psicanalítica, uma transformação pessoal que transcende teoria e técnica, uma experiência estética que nos remete ao campo das artes. E certamente essa ambiguidade tem consequências e desdobramentos no processo de formação.
Maior complexidade ainda nós acrescentaremos à questão, se passarmos a examinar a Instituição no interior do próprio indivíduo, como mais um elemento nessa dialética individual-institucional, o que torna a questão inabordável do ponto de vista institucional, porém, não no setting da análise de formação, lugar privilegiado para seu desvelamento. No dizer de René Kaës (Kaës et al., 1989/1991), a exteriorização de um espaço interno é a nossa relação mais anônima, mais violenta e mais forte que mantemos com a Instituição. Cabe lembrar aqui os mitos bíblicos do “Paraíso Perdido” e da “Torre de Babel”, relacionados à aquisição de conhecimento e poder pelos homens.
Penso que a transmissão da psicanálise atualmente não pode deixar de lado o reconhecimento da diversidade dos referenciais teóricos. Especificamente na SBPSP, essas diferenças acrescentam complexidade e riqueza à formação que oferecemos aos membros filiados, possibilitando trocas de experiências que favorecem o aprendizado e o desenvolvimento pessoais. Sabemos que esse é um dos problemas epistemológicos com os quais os psicanalistas têm que se haver atualmente, que nos demanda reflexão e elaboração.
Em qualquer trabalho ou encontro psicanalítico considero muito importante a possibilidade de discriminação entre um fenômeno observado clinicamente, uma conjunção constante, e a teoria utilizada para organizar essa experiência, dar-lhe um significado (Bion, 1965/1983). As hipóteses originam-se da necessidade de o homem encontrar harmonia e sentido num universo caótico de elementos dispersos e não relacionados. Como observou Poincaré e tão bem me demonstrou a experiência com um paciente a quem chamei Pedro (Mion, 2006), nossa mente é frágil, assim como nossos sentidos: ela se perderia na complexidade do mundo se assim não o fizéssemos. Os espaços infinitos são por demais assustadores (Pascal, 1670/2013).
A impossível função a que se propõe o nosso Instituto de Psicanálise, e os Institutos ligados à ipa, através do seu tripé de formação - análise pessoal, supervisões e seminários teóricos e clínicos -, é exatamente proporcionar e favorecer esse fazer analítico, sustentar o longo processo de “vir a ser psicanalista”, uma formação que envolva não só o conhecimento das teorias psicanalíticas, mas a introjeção pessoal do método psicanalítico, o desenvolvimento de um setting internalizado, fundamentais para o processo de “tornar-se um analista”, um projeto de autonomia pessoal fundado em uma atitude de interrogação e busca permanentes que jamais terminam, e se constitui como uma peculiaridade única no âmbito do saber e do fazer humano (Mion, 2017a).













