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Jornal de Psicanálise

Print version ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.57 no.106 São Paulo  2024  Epub Aug 26, 2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v57n106.21 

Editorial

Por que a psicanálise?: Por que a formação na SBPSP?1

José Martins Canelas Neto2 

2Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo


Gostaria de agradecer à Dora Tognolli e toda a equipe da Diretoria do Instituto pelo convite que me foi feito para esta Aula Inaugural. Não pretendo ministrar uma aula, mas poder estimular uma boa conversa entre nós. Também agradeço a presença de todos os outros colegas que aqui estão.

Responderei às perguntas do tema proposto, trazendo algumas reflexões a partir de minha experiência pessoal sobre psicanálise e formação psicanalítica, questão que já abordei numa outra Aula Inaugural, e desenvolverei algumas ideias sobre a noção de “teoria pessoal do analista”.

Ao terminar minha formação como psiquiatra no Brasil, decidi realizar um sonho que tinha desde jovem, o de morar por um tempo num país mais desenvolvido e que não tivesse um regime político ditatorial, como foi o caso do Brasil durante toda minha formação escolar e universitária. No início dos anos 1980 obtive uma bolsa de estudos para me especializar em Psiquiatria da criança e do adolescente em Paris. Desde a faculdade já me interessava bastante pela psicanálise. Por isso, procurei o Centre Alfred Binet, em Paris, que pertencia à Associação de Saúde Mental do 13º distrito (asm 13). Essa Associação era responsável por todo o atendimento em saúde mental, do bebê ao idoso, de um bairro de Paris, que contava cerca de 220.000 habitantes. Sua peculiaridade era que fora criada por psiquiatras que também eram psicanalistas, entre eles, René Diatkine, Serge Lebovici, Evelyne Kestemberg e muitos outros psicanalistas de renome, a maioria pertencente à Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP). Nesse meio psicanalítico meu interesse e entusiasmo pela psicanálise só aumentaram e alguns anos depois comecei uma análise pessoal e, depois de três anos, iniciei a formação na spp, na qual fiquei até voltar ao Brasil. A análise pessoal foi para mim fundamental na minha decisão de me tornar psicanalista.

A questão da formação psicanalítica, segundo a concepção de André Green (Froté, 1998, p. 163), apresenta uma contradição intrínseca quanto à expressão “formação psicanalítica”. Formação remete a uma aprendizagem, enquanto uma psicanálise, em sua essência, não é uma aprendizagem. Tentemos diferenciar esses dois polos da contradição.

Além disso, a formação psicanalítica é também uma transmissão. Transmitir um saber teórico-clínico, mas principalmente transmitir aquilo de que o saber teórico não pode dar conta e que só se vivencia na análise pessoal. Essa última transmite a experiência singular do choque do contato com o inconsciente em nós ou, na expressão de Fédida, com a “estranha inquietude da transferência”. Pontalis, falando dessa transmissão que passa pela análise do analista, disse: “um bom mestre é aquele que vos transmite uma porção suficiente do fogo sagrado, para que nasça em você o desejo de ensinar, é aquele que saberá desencadear em você um movimento, e não fornecer respostas” (Froté, 1998, p. 536).

Penso que a instituição que oferece uma formação deve levar rigorosamente em conta essa distinção entre análise pessoal, de um lado, e formação/aprendizagem/ensino, do outro. Sabe-se que a análise pessoal é essencial para se tornar analista. Nesse sentido, ela é o eixo central da própria formação psicanalítica. Como consequência, a Instituição deve tudo fazer para preservar a total privacidade e inviolabilidade da análise pessoal do analista em formação e do par analítico. Trata-se de uma tarefa difícil para a Instituição, e não deve ser esquecida.

As instituições psicanalíticas, não diferentemente de outras instituições, são compostas de homens e mulheres, seres humanos, que formam um grupo, e tendem a se comportar em função da luta pelo poder. O caráter democrático quanto às crenças e verdades de seus membros é fundamental para a Instituição de formação. A relação dos analistas em formação com a Instituição deve ser marcada pela diversidade de opiniões e posições em relação à psicanálise, um importante fator para a qualidade não só da formação como da análise do analista. Penso que na SBPSP conseguimos, não sem dificuldades, até o momento, preservar essa diversidade. A instituição deve promover fóruns democráticos de debate sobre a qualidade e as regras da formação, com plena participação dos analistas em formação. Esses aspectos caracterizam a dimensão política da Instituição.

Um ponto importante da transmissão é o fato de que ela passa por uma série de transferências ao longo do percurso de cada analista em formação. A análise pessoal também passa por um trabalho de desidealização e desconstrução das diversas transferências, e, acima de tudo, da idealização transferencial em relação ao próprio analista. Esse ponto apresenta dificuldades na prática, talvez porque a essência da transferência, essa relação passional criada pela demanda de amor diante de um sujeito suposto saber, se dará, na análise de formação, dentro da instituição na qual o analista tem um lugar determinado.

Para a instituição formadora é importante salientar que a formação é também um processo de habilitação, de atestar que tal indivíduo está habilitado a exercer a psicanálise. Trata-se de uma responsabilidade sobre a formação que a instituição oferece. Hoje, no Brasil e em outros países, vivemos um momento de ataque à cultura e ao saber. Ataque institucional, religioso e político às instituições psicanalíticas sérias e responsáveis. Há projetos de lei e movimentos de universidades para regulamentar a profissão de psicanalista, assim como já existem cursos de graduação em psicanálise.

Tentando expandir a contradição psicanálise pessoal/formação psicanalítica, gostaria de falar um pouco da análise pessoal. Mais acima, disse que na análise pessoal tratamos daquilo de que a teoria não dá conta. Falo da transmissão da intransmissibilidade da teoria, isto é, do hiato teórico-prático. A análise não deve ser uma aplicação da teoria à prática!

Freud, num texto de 1890, escrito para uma obra de vulgarização médica, define tratamento psíquico como um tratamento da alma (Seele, em alemão). Freud usa várias vezes em sua obra a expressão “vida da alma” como substituto de psíquico ou psique. E ele vai então, nesse texto, definir o que é esse tratamento da alma:

Poderíamos estimar que com esse termo compreendemos: tratamento dos fenômenos mórbidos da vida da alma. Mas essa não é a significação dessa palavra. Tratamento psíquico quer dizer em primeiro lugar: tratamento da alma, tratamento - dos distúrbios anímicos ou corporais - por meios que agem inicialmente e imediatamente sobre o anímico do ser humano. Tal meio, é antes de tudo a palavra, e as palavras são também o instrumento essencial do tratamento da alma. (Freud, 1890/2015, p. 155)

O processo analítico, como nos mostra Freud nesse texto, está ligado à restituição de uma antiga força mágica das palavras, enquanto fala plena (Lacan).

A entrada numa análise é comparável à entrada numa aventura desconhecida, e não sem riscos para ambas as partes. Não creiam que com a idade, o passar dos anos, a experiência, um dia vamos conseguir “entender” o paciente, não ficar angustiados e adquirir um saber que nos dê garantias de segurança. A análise é um trabalho árduo, renovado a cada sessão, no qual é necessário manter o que nosso colega Leopold Nosek chamou de “disposição para o assombro”.

A estranheza de certos afetos que surgem, as regressões aos aspectos infantis e mesmo arcaicos do analisando (mas também do analista), as vivências transferenciais negativas, o amor de transferência fazem de cada análise um processo singular, prática para a qual a teoria deve ser deixada em segundo plano.

No entanto, penso que a teoria tem importância, mas, em minha opinião, ela vem sempre depois da prática e se articula ao patrimônio de conhecimento da literatura psicanalítica, segundo influências de certos autores, encontrando uma unidade na referência fundamental à metapsicologia freudiana como base de apoio para a expansão das outras teorias.

A experiência pessoal do processo analítico, para que tenha validade, deve ser uma aventura livremente assumida. O analisando engaja nesse processo o mais íntimo de seu ser. Na relação analítica estabelece-se uma intimidade e liberdade únicas. Trata-se de uma forma diferente de relação humana. Há também nessa transmissão uma dimensão ética, na qual o reconhecimento, o respeito e a responsabilidade com o outro são essenciais.

O analista deve estar sempre atento ao enorme poder que tem condições de exercer sobre o analisando dentro da transferência. Penso que a instituição deveria exercer um papel de terceiro, dando um limite à sedução exercida pelo analista. Essa limitação do poder excessivo da transferência tem relação direta com a diversidade democrática das ideias que a instituição permite.

A formação também deve propiciar o desenvolvimento do pensamento crítico, uma maneira de ver as coisas tanto no plano do indivíduo quanto no da vida coletiva e da cultura. A participação da vida coletiva permite refletir, a partir de uma escuta diferente, sobre diversos contextos sociais e políticos e deve fazer parte da formação psicanalítica, uma vez que somos todos seres no mundo. A cultura está presente em cada paciente em nossos consultórios. Penso que como analistas temos muito a contribuir na compreensão dos acontecimentos de nossa época histórica, sobretudo em nosso país. Só como exemplo, cito uma noção muito atual: a de formação de massa, trazida por Freud no texto sobre a “Psicologia das massas e análise do eu” (1921).

Como já mencionei, vindo de uma formação na França, na spp, encontrei outros paradigmas e coloridos culturais quando cheguei ao ambiente psicanalítico da SBPSP, em São Paulo. Foi para mim um choque o contato com essa outra cultura psicanalítica, o qual provocou algumas questões: como se faz a construção do aparelho teórico pessoal de cada analista? Como o analista utiliza seu aparelho teórico pessoal na discussão com outros analistas?

Tentarei aprofundar aqui a questão que chamo de “teoria pessoal do analista”, a qual remete ao processo de formação, onde está sempre presente a tensão entre formação/aprendizagem e análise pessoal do analista em formação.

Vou me referir ao relatório de Adela Abella, O analista e sua relação com a teoria: do encontro entre baleias e ursos polares, apresentado no último cplf, em Lausanne, em maio de 2023.

Chamemos de teoria pessoal do analista o seu conjunto relativamente organizado de conceitos, ideias e pressupostos sobre a psicanálise e sua prática clínica. Nesse sentido, a teoria propõe uma interpretação racional da realidade psíquica.

Por outro lado, chamemos de “modelo” “uma representação ou imagem de uma parte da realidade que tenta descrever, organizar e explicar, tendo frequentemente um caráter metafórico ou alegórico e um grande poder de evocação” (Abella, 2023, p. 2). O modelo tenta representar um estado de coisas, um fenômeno, um acontecimento, e a teoria tenta explicar a articulação e o funcionamento desse estado de coisas. Vemos frequentemente na obra de Freud o uso de diferentes modelos: arqueológico, hidráulico, etnológico, militar, neuronal. Já a teoria do recalcamento tenta explicar por que e como certas experiências são rejeitadas da consciência, qual seu destino e como elas retornam.

O maior risco com a teoria e os modelos é que sejam reificados, coisificados. Isso acontece quando eles deixam de operar como recursos do pensamento abstrato e se tornam, na psique do analista, coisas concretas que realmente existem. A psicanálise relativiza o conceito de verdade. Não existe uma verdadeira teoria psicanalítica.

Encontramos hoje na psicanálise um grande pluralismo teórico-clínico, que constitui diferentes paradigmas, que criam obstáculos quase intransponíveis quanto à possibilidade de compararmos tais paradigmas. Isso devido às incompatibilidades lógicas e semânticas entre eles. E, para complicar mais as coisas, sabemos o quanto a cultura marca nossos modelos e teorias com diferentes valores ideológicos e morais. Nesse sentido, a teoria nunca é neutra, universal e desinteressada.

A construção teórica é marcada por um lado especulativo, o qual sempre corre o risco de afastamento da realidade. A teoria ilumina um setor da realidade, sempre deixando outros na obscuridade. Serão as ligações da parte observada com os aspectos que ficaram desconhecidos, obscuros, que vão permitir coerência a determinada construção teórica. Chego aqui a um ponto crucial para mim: a importância da metapsicologia freudiana como construção teórica fundante da psicanálise.

Não acredito que seja possível um contato direto ou imediato com o paciente sem a existência de uma teoria, uma vez que tal concepção já é uma teoria. Cito novamente Abella: “A teoria descreve o tipo de fenômeno estimado significativo, ela convida a se colocar certas questões e a dar importância a certos elementos mais do que a outros, ela marca uma maneira de intervir ou não e assinala os caminhos possíveis do tratamento” (2023, p. 4).

Serão os mitos metapsicológicos, que Freud chamou de ficções teóricas, que sustentam o conjunto do edifício que é a psicanálise, apesar do risco sempre presente de reificação da teoria. Faço aqui a defesa do mito metapsicológico freudiano, como núcleo vivo, sempre em transformação na obra de Freud, necessário à integridade e ao desenvolvimento do conhecimento psicanalítico.

Podemos demarcar algumas opções teóricas na psicanálise atual: a visão neurocientífica, primado da observação e da pesquisa clínica, “evidence based psychoanalysis”, presente em Freud; a opção hermenêutico-narrativa, que tem como tese central a ideia de que não existe uma realidade psíquica anterior à linguagem (nela, a fala do paciente é comparada a um texto literário aberto a diversas interpretações), e a opção intersubjetiva e hermenêutica, que reescreve uma nova narração dos fatos psíquicos. Nela a associação livre é substituída pelo diálogo e a empatia prima sobre a distância freudiana.

Nessas opções, trata-se da expulsão do “registro fora da linguagem do psiquismo” (Green): inconsciente, transferência negativa, pulsões, registro pré-verbal, não verbal e o corporal.

Uma outra opção, a via clássica, postula a existência de uma realidade psíquica pertencente ao paciente que pode ser conhecida pelo analista, mesmo que parcialmente. Nossos instrumentos teóricos seriam conceitos abertos, incompletos e imperfeitos.

Penso que há dois aspectos relevantes atualmente para dar um caráter científico num sentido amplo à psicanálise. Do ponto de vista metapsicológico, a noção de inconsciente, que inclui a existência de níveis pré-verbais e não verbais do psiquismo, o que Freud chamou de representações de coisa, que se relacionam com o corpo, as pulsões e os afetos.

Um outro aspecto importante é o fato de que Freud acrescentou ao registro do conhecimento o do desconhecimento - recalque, negação e recusa da realidade (Verleugnung). Este último deu origem a muitos desenvolvimentos posteriores, como os de Melanie Klein, com as diversas formas de clivagem, e os de Bion, com a ligação -K.

Podemos dizer que existe um horizonte histórico do analista, o qual está inserido numa cultura e num lugar. Esse horizonte põe limites ao que o analista pode perceber, pensar ou sentir. No meu contato com a cultura psicanalítica da SBPSP encontrei-me entre dois extremos: um recurso importante à metapsicologia, que se baseia na abstração e na teorização especulativa (modelo francês), e um estilo mais empírico, mais próximo da clínica do que da abstração teórica. “A teoria não é somente um instrumento para compreender o paciente, ela não tem somente valor de enquadre terceirizante entre o paciente e o analista: a teoria é aquilo que somos enquanto analistas, ela nos faz” (Abella, p. 14).

No final, para cada analista, as teorias recebidas são vivificadas e transformadas pelos desejos, preocupações e crenças pessoais de cada indivíduo. A teoria do analista é pessoal e única, em geral heterogênea, inconsciente e, em parte, impregnada de afeto (p. 14).

Para Green (2005), a clínica é, desde o início, compreendida e descrita por meio de um aparelho teórico dado. No Congresso Internacional da ipa de Nice, Green defendeu a ideia de uma heterogeneidade da teoria psicanalítica: “a maior parte dos templos psicanalíticos falam uma só língua em psicanálise, a deles” (p. 18). A questão de saber se há um terreno comum para a psicanálise seria para esse autor uma ilusão de reunificação miraculosa.

Penso ser preciso sempre cultivarmos a curiosidade pelo novo, o prazer de brincar (com muita seriedade) com as ideias e a renúncia a dogmatizar e idealizar nossos predecessores renomados. Abella termina seu relatório com uma bela conclusão:

Respeitar o outro, tentar compreendê-lo dentro de sua cultura, desenvolver sua própria cultura, reconhecer suas forças e suas fraquezas, autorizar-se o prazer de compreender um pouco mais, mas não necessariamente tudo, abrir-se à surpresa, deixar-se fertilizar por um pensamento estrangeiro, sabendo que os processos de fecundação abrem-se frequentemente em um nível inconsciente, fora de nosso domínio racional: eis aqui para mim os ingredientes de uma relação fecunda com a teoria. (Adella, p. 23)

Retomando os diversos pontos que levantei, fica claro que a diversidade na formação é um aspecto necessário. Num cenário ideal, a diversidade deve promover um debate e um discurso serenos.

Outro ponto muito importante para mim é tentar não burocratizar a formação, para não inibir a criatividade e a paixão dos analistas em formação.

O modelo dos três pilares da formação parece-me o menos ruim: análise pessoal, supervisões e seminários teóricos. Os analistas em formação terão a possibilidade, eu espero, de nos ensinarem, com suas contribuições e críticas, a aperfeiçoar os muitos aspectos desse modelo. A formação analítica não está num espaço-tempo sem superego, no qual o analista em formação somente encontraria seus conflitos internos. Cito Jean-Luc Donnet: “A formação deve ser concebida mais sobre o ângulo do trabalho de diferenciação Ego-Superego, com o apoio na Instituição, necessário e inevitável substituto do Superego-Ideal pessoal” (mencionado em Froté, 1998, p. 372).

O segundo pilar da formação, constituído pelas supervisões, é quase tão importante quanto a própria análise pessoal. A supervisão é o paradigma do espaço interanalítico. Nela, a contratransferência é um instrumento da fala que tem o mesmo estatuto que a fala na transferência da análise pessoal.

A supervisão não deve ter para o analista em formação um papel de avaliação. Na SBPSP são os relatórios das análises supervisionadas que podem desempenhar esse papel, na minha opinião. Não esqueçamos que a instituição deve habilitar o analista em formação. Muitas vezes esse é um importante fator que inibe a escrita do relatório. O contato com dois supervisores diferentes também é enriquecedor, sobretudo porque nenhum supervisor detém a “verdade” a respeito da psicanálise. Cada um vai mostrar ao analista em formação sua maneira singular de pensar e teorizar sobre a clínica, com sua teoria pessoal.

André Green estabeleceu uma distinção, a meu ver, muito útil, entre teoria psicanalítica e pensamento clínico, que ele define assim: “Eu defendo a ideia de que existe em psicanálise não somente uma teoria da clínica, mas um pensamento clínico, isto é, um modo original e específico de racionalidade proveniente da prática” (Green, 2002, p. 11).

O pensamento clínico não descreve uma situação clínica específica, mas evoca para a maioria dos analistas um paciente específico ou um grupo de pacientes. Trata-se no pensamento clínico de um modo de funcionamento mental do analista numa determinada sessão, com um determinado paciente. Um exemplo são os pacientes que apresentam um empobrecimento da simbolização e do mundo de fantasias e sonhos. Nesses casos, às vezes é necessário que o analista ofereça seu próprio inconsciente para possibilitar o processo analítico, por meio de sonhos, lapsos etc. A análise pessoal do analista em formação pode ser útil para criar ligações que possam fazê-lo entender o porquê de certo paciente aparecer de algum modo num sonho seu, por exemplo.

Enfim, podemos afirmar que a formação se faz por vários canais diferentes: a cultura, as artes, as supervisões, o estudo da teoria e suas interdisciplinaridades, mas que, sem a análise pessoal, sem aquilo que a teoria não pode transmitir, como disse no início, não podemos habilitar uma pessoa enquanto analista. Mas também sabemos que não há garantias quanto à análise pessoal.

1Aula inaugural no Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), realizada em 02/03/2024.

Referências

Abella, A. (2023). L’analyste et son rapport à la théorie: de la rencontre entre les baleines et les ours polaires. Relatório apresentado no Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa (CPLF), Lausanne. [ Links ]

Freud, S. (2015). Traitement psychique (traitement de l’âme). In S. Freud, Œuvres complètes (Vol. 1, pp. 153-175). puf. (Trabalho original publicado em 1890) [ Links ]

Froté, P. (1998). Cent ans après. Gallimard. [ Links ]

Green, A. (2002). La pensée clinique. Odile Jacob. [ Links ]

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