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Jornal de Psicanálise

Print version ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.57 no.106 São Paulo  2024  Epub Aug 26, 2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v57n106.23 

Resenhas

O momento freudiano

Diogo Soares de Oliveira2 

2Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, SP. São Paulo

Bollas, Christopher. O momento freudiano. 2024. p. 176


O momento freudiano (Bollas, 2024) traz uma coletânea de entrevistas e ensaios livres de Christopher Bollas, alguns usados no preparo de conferências, sobre o pensamento inconsciente receptivo e comunicativo, suas articulações e desdobramentos. O livro, traduzido e relançado no início de 2024 no Brasil, faz parte de uma série de publicações que tem despertado o campo psicanalítico para algumas revisões ousadas da relação entre as teorias e as práticas clínicas contemporâneas.

O autor, a seu modo, subverte a máxima “Isso já estava em Freud!” de nosso campo em releituras tanto rigorosas quanto afetivas, em uma espécie de retorno ao mestre e de resgate dos argumentos que acredita serem negligenciados pelo lado mais clássico da psicanálise: a saber, a livre associação, a atenção uniformemente suspensa, o estado onírico das mentes, a comunicação e o pensamento inconscientes em suas capacidades criativas, e ainda a transferência como formas de pensamento e trânsito imprevisível entre as instâncias psíquicas.

Sim, já estava em Freud!

Mas o que seria este momento de que se fala desde o título?

O momento freudiano - a psicanálise - seria uma preconcepção da civilização ocidental, um acontecimento em preparo por milênios, desde quando se compartilham sonhos nos diversos agrupamentos, que pôde ser realizado na virada do século 20 em Viena, pelo duto afiado de Sigmund Freud. E, como tal, não estaria concluído, ao contrário, seguiria vivo em teorias - ou realizações - nunca totalmente asseguradas, que, se o campo permitir, assim seguiria, em constante revitalização.

Como as forças da vida!

No percurso, o Bollas sustenta críticas agudas ao modo pelo qual os grupos e suas linhagens de pensamento têm lidado uns com os outros historicamente e como acabam por impedir o pensamento. Em vez de um bem-vindo choque de ideias, aponta-se “um genocídio intelectual”, o que soa muito grave, mas também muito preciso, para descrever a guerra entre os clãs e o uso de conceitos como signos no combate. O antídoto, ou a saída dessa enrascada, é talvez a marca mais profunda que o autor imprime na revisão da psicanálise no século 21: as teorias - todas, sem hierarquia previamente instituída - seriam formas de percepção. Como exemplo, considera de partida os modelos freudianos de mente - o trabalho dos sonhos, o modelo topográfico ou o estrutural - juntos nesse ou em outro funcionamento mental, sem excludência.

E, de novo, sem hierarquia.

Em defesa do perspectivismo, acompanhamos a aposta no crescimento da mente inconsciente: aposta nas teorias psicanalíticas em incessante diferenciação e em sua possibilidade de introjeção. Desse modo, os analistas que de algum modo já exercem a multiplicidade teórica poderiam assumir de fato seu pluralismo e o uso expandido da mente, em perspectivas diversas.

Forma-se, segundo essa visão, uma obrigação ética no sentido de que os psicanalistas

mergulhem na orientação teórica das principais escolas de psicanálise: freudiana, kleiniana, hartmanniana, kohutiana, bioniana, winnicottiana e lacaniana … fazer isso é aumentar a capacidade perceptiva, expandir a mente, saudar os pacientes com uma sabedoria que só pode ser realizada pela passagem através da diferença. (Bollas, 2024, p. 144)

Outra contribuição, no sentido de resgatar um Freud esquecido, nos provoca em relação à própria transferência, entendida como a passagem do inconsciente à consciência, para além do aspecto projetivo normalmente enfatizado. Bollas entende as livres associações em análise como situadas em algum lugar entre as ordens de pensamento materna (o mundo onírico) e paterna (as leis da cultura), com potencial de integração entre si, a depender da abertura à transformação psíquica na relação analítica. A ideia de fundo reativada aqui é a reação mútua entre inconscientes, o modelo da relação entre as mentes do Par Freudiano: um faz associação livre enquanto o outro escuta, sem expectativas conscientes nem memória. Desse modo, se promoveria o uso criativo dos processos inconscientes de pensamento, em constante crescimento.

Sim, já estava em Freud!

O momento freudiano aponta certo descompasso no que se entende por inconsciente desde Freud. Ainda que reconheça a importância das operações de recalque como teoria do pensamento, o livro defende um outro inconsciente freudiano, o do trabalho dos sonhos como uma teoria da criatividade inconsciente. Uma teoria do inconsciente receptivo - ou da percepção inconsciente -, que é, segundo a releitura do autor, a matriz da criatividade. A origem do descompasso é a própria percepção freudiana de que a agência que implementa o recalque seria ela também inconsciente.

Seguindo sua percepção da mente do mestre, o autor sugere o recalque mais contundente operado por Freud: o de sua mãe e, em consequência, a supressão da ordem materna como constituinte do Eu. Em Die Traumdeutung (Freud, 1900), lido também como uma contribuição ao conhecimento informativo da mãe, que ficou por ser teorizada, quem ganhou corpo foi a lei paterna censora. No Livro dos sonhos - e em seus desdobramentos teóricos -, “Freud está livre para celebrar o pai … Uma identificação suplementou o ato de recalque” (Bollas, 2024, p. 78). Desse modo se compreende a construção do modelo topográfico em sua articulação principal: a teoria do inconsciente reprimido. No entanto, não se trata de desprezar o recalque, ao contrário, ele é tomado como um - entre outros - tipo de ação inconsciente.

O receptivo e o recalcado convivem em funcionamentos mentais diversos.

Ainda nessa espécie de individuação empreendida às práticas teórico-clínicas das psicanálises, Bollas sugere o entendimento do que chama “identificação perceptiva”, em um passo a mais em relação ao uso do objeto proposto por Donald Winnicott. Um tipo de identificação em que, no acesso mental, o outro, ou o objeto, seja apreciado pelas suas qualidades particulares, como uma coisa em si.

Poderia seguir os pensamentos de O momento freudiano em renovados convites à sua leitura, como variações de frases musicais que de fato formam esse conjunto de textos. Nesse ponto, o autor recomendaria: “Se o leitor entendeu o ponto, se ele entendeu o argumento básico, então ele deve esquecê-lo” (Bollas, 2024, p. 120).

1Resenha produzida a pedido de Amnéris Maroni, curadora do selo Psi da editora Nós.

Referências

Bollas, C. (2007). The Freudian moment. Routledge. [ Links ]

Bollas, C. (2024). O momento freudiano. Nós. [ Links ]

Freud, S. (1900). Die Traumdeutung. Franz Deuticke, Leipzig & Vienna. [ Links ]

Recebido: 28 de Fevereiro de 2024; Aceito: 26 de Março de 2024

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