O que vem depois da esperança? O possível.
Foi assim que chegamos ao último número desta gestão editorial do Jornal de Psicanálise, que começou como um ato de esperança: alguns colegas – que tive o prazer de reunir em um grupo de trabalho, na realidade quase ficcional do isolamento social da pandemia – investiram coletivamente num projeto que parecia impossível, aprenderam a sintonizar de forma virtual e se tornaram amigos. O que nos unia era um desejo de vitalizar a psicanálise com nossas perguntas, algumas delas recortes autorais de velhas questões, outras, interrogações que não seriam possíveis sob outras circunstâncias. Um trabalho geracional que aproveitou a tradição do Jornal de Psicanálise e buscou tingi-la com as tintas do nosso tempo.
Juntos, buscamos favorecer trocas teórico-clínicas, materializadas com a inauguração da seção Diálogos. Nesse espaço, vimos realizar-se o encontro transinstitucional de psicanalistas de diferentes tradições, que puderam discutir ideias, tomando colegas como autores. Os contrapontos permitiram honrar a complexidade do nosso objeto de investigação e a vocação do Jornal de Psicanálise, que sempre firmou compromisso com uma psicanálise plural e reflexo de um contexto.
Um psicanalista só é possível em seu tempo, só existe no limiar do impossível, sensível às brechas de analisabilidade que encontra em seu meio. Só é alcançado com o espírito radicalmente freudiano, de manter a psicanálise como teoria, técnica e, continuamente, como método de investigação, cujas respostas não são universais e estáticas. Uma disciplina essencialmente migrante, diz Pontalis (1991), cuja essência, se é que há, estaria justamente em ser mais movimento que instituição. O possível da psicanálise se expandiu desde sua fundação, e honrar essa herança exige manter o esforço na ampliação de possibilidades.
Tal como todo artista, temos de ir aonde o povo está. Metafórica ou concretamente, devemos nos deslocar para delinear o possível, que não é o mesmo em qualquer circunstância, precisa ser criado dialogicamente, em relação com o conhecido e o ainda não formulado. Em um jogo temporal de dupla orientação, entre o já anunciado e as respostas futuras à presente enunciação.
Esse foi o nosso eixo de escolha dos números, rastreamos questões que desacomodavam a psicanálise e suas respostas até então disponíveis:
100 – O que fazemos com o sexual?
101 – A potência da diferença
102 – Hiperconectividade e exaustão
103 – Psicanálise em (de)formação
104 – Entre o quintal e o mundo
105 – Violações
106 – Há esperança?
107 – O psicanalista possível
Qual psicanalista é demandado por uma determinada pessoa, grupo ou instituição em cada cenário? É possível um enquadre que conte com associação livre e alta frequência no divã? Ou há uma outra modalidade que melhor favoreça um desdobramento analítico naquela situação?
Para que o ideal possa dar espaço ao possível, sem desesperança ou displicência, será preciso trabalho de luto, realizável se a relação estabelecida com nossas teorias e técnicas forem suficientemente firmes e flexíveis para responder a demandas plurais.
A (de)formação foi a grafia que encontramos para resgatar a tradição freudiana de “A interpretação dos sonhos”, que considera a aproximação da verdade apenas possível pela deformação, por meio das múltiplas produções do inconsciente. Formação e transformação constantes da psicanálise em movimento, que, curiosa, se mantém viva e pulsante, aberta a se repensar, nunca imune ao risco de que eventuais modificações alcancem a dimensão pejorativa que também comporta o termo (de)formação, e precisem ser reexaminadas.
O número que temos em mãos testemunha o trabalho de nossos autores para alargar as margens do possível, considerando dificuldades clínicas e marcadores sociais, raciais e de gênero em nosso tempo.
Além dos escritos temáticos, contamos na seção Diálogos com o artigo de Renata Arouca de Oliveira Morais e Daniel Kupermann “Sobre a institucionalização da psicanálise no Brasil: transformações”, comentado por Ana Claudia Patitucci e Cristina Maria Cortezzi. A seção discute as iniciativas de regulamentação da psicanálise e o trabalho realizado pelo Movimento Articulação para deter projetos alheios à ética partilhada na comunidade psicanalítica, sem desconsiderar o legítimo questionamento sobre a elitização de nosso campo.
Na seção Conexões, o artigo de Mariana Belmont aborda a crise climática e o racismo, sustentando que a “Adaptação antirracista é possível para combater o racismo ambiental”. O espaço destinado à amf está ocupado pelo artigo “Sonhos (e outros)”, de Fernando César Thomazine, ganhador do Prêmio amf, e o poema “Horizonte etc. e tal”, de João Ricardo Terra, que recebeu menção honrosa no mesmo prêmio.
Em História da Psicanálise, publicamos “Clínica extensa”, de Fabio Herrmann, proferido de forma oral em 2003 e publicado como capítulo de livro em 2005. Esse importante escrito, agora disponibilizado amplamente, apresenta a noção central do autor, que foi parte de um movimento mundial mais amplo e contribuiu para a extensão do alcance do que foi considerado psicanálise desde então.
Um destaque merece ser dado à roda de conversa com os psicanalistas em formação por meio de programas de ações afirmativas nas diferentes sociedades da Febrapsi. A conversa, que resultou no documento escrito a muitas mãos, foi proposta pelo Jornal de Psicanálise para acompanhar, agora do ponto de vista do analista em formação, as iniciativas que foram idealizadas pelas diretorias dos institutos e sociedades pioneiras nesses programas. Os responsáveis pelos projetos, quando recém-lançados, foram entrevistados pelo JP (2021). Agora a roda de conversa acompanha os desafios pós-implementação e testemunha a importância do compromisso da psicanálise com as questões raciais, que, para ser firmado e sustentado por nossas instituições, precisa levar em conta toda a complexidade que a temática apresenta e construir pontes para um possível cada vez mais plural.
A psicanálise, na perspectiva que adotamos, precisa de menos reificação e defesa, e de mais coragem para se defrontar com o que merece ser revisto à luz de novas perguntas. Um comprometimento com o diálogo inconcluso. Este foi o espírito da presente gestão editorial, que se encerra com este número.
Agradeço à Dora Tognolli, diretora do Instituto, e à Carmen Mion, presidente da sbpsp, pela confiança em me convidarem para ser editora do Jornal, pelo apoio às diferentes iniciativas por nós propostas e pelo respeito à autonomia editorial.
Agradecemos também ao dedicado trabalho de Mireille Bellelis, produtora gráfica, Suely Corrêa Toneto e Mayara Felix Lopes, secretárias, José Teixeira Neto, revisor de texto, e Giovanna Petrólio, revisora da plotter. Sem o exercício sério e competente de suas funções, seria impossível manter o fluxo dinâmico da publicação em cada número.
Nos últimos quatro anos, o trabalho em equipe nos permitiu conhecer os talentos de cada um dos integrantes, combinados em prol de um projeto comum. Cada um com qualidades tão múltiplas, que não poderiam ser expressas de forma sucinta, mas cujo tom tentarei transmitir mesmo assim. Aprendemos uns com os outros: com o comprometimento engajado do Bruno, a firmeza sensível da Cibele, a inspiradora flexibilidade de pensamento da Claudia, a honestidade espontânea da Cristiana, os corajosos contrapontos da Denise, a arte implicada da Gizela, as cores poéticas da Helena, a crítica inteligente da Ludmila, a figurabilidade infinita do Luiz e as precisas palavras do Ricardo. Desde a formulação temática à seleção dos artigos, o engajamento conjunto envolvia debates honestos em clima amigável. Interrogamos, ouvimos, respondemos, suportamos as dúvidas e contrapontos, até chegarmos a um ponto em que concordássemos e pudéssemos querer sustentar juntos uma decisão. Que experiência prazerosa e formadora, obrigada, amigos, por tanto!
Aos leitores e autores, que a cada número mudavam de posição, mas mantiveram seu investimento em nosso projeto, nossa gratidão por fortalecerem este periódico, que somente tem sentido por e com vocês.
À Mariana Mies, nova editora, e sua equipe, desejamos um bom trabalho e muita realização!
Nossa gestão se encerra por aqui, mas o diálogo é inconcluso, sigamos!
Vida longa ao Jornal!













