O psicanalista possível nasce nas bordas do impossível. Onde quer que ele atue, não sabe antecipadamente como desenvolverá sua prática nem por quais desafios precisará passar para levar adiante o seu trabalho. Qual a demanda da pessoa, grupo ou instituição que solicita a presença do analista? Está aí uma interrogação necessária para traçar o caminho e evitar que quem escuta se converta naquele que sabe de antemão o que é bom para outro alguém.
Na conhecida passagem na qual diz que analisar, governar e educar são ofícios impossíveis, Freud questiona a ideia de um fim natural das análises, “mesmo quando se guarda distância das expectativas exageradas e ... tarefas extremas” (1937/2018, p. 321). Detenhamo-nos aqui nas “expectativas exageradas” e “tarefas extremas”, para com isso nos indagarmos sobre nossa força e nossos limites. Entre o onipotente e o impotente pode existir o psicanalista possível, aquele que, com múltiplos recursos, enfrenta os impasses que se apresentam cotidianamente, sem deixar de reconhecer quando precisa expandir seu ferramental.
No Jornal de Psicanálise já indagamos: o que fazemos com o sexual, em um mundo de binarismos e intolerância com as diferenças? (sbpsp, 2021a e b); como ser psicanalista em tempos de hiperconectividade e exaustão? (sbpsp, 2022a); como formar um psicanalista maleável e em contato com as transformações sociais, sem separações artificiais entre o mundo e seu quintal? (sbpsp, 2022b e 2023a); sensível aos efeitos das múltiplas violações, sem perder a esperança num porvir? (sbpsp, 2023b e 2024).
Um psicanalista só pode existir em sua própria época, e tempos de extremos exigem ajustes. Vale refletir sobre como a adesão a modelos sacralizados pode nos fixar à nostalgia de tempos perdidos e à reprodução acrítica de respostas obsoletas. O mundo tem fome de quê? Cabe a quem exerce a psicanálise a constante sustentação dessa pergunta. Furtar-nos do enfrentamento dos embaraços de nosso momento histórico-social não nos converteria – parafraseando Betty Joseph – em psicanalistas de difícil acesso?
A noção de psicanalista possível está ancorada, portanto, no trabalho de luto de ser um psicanalista ideal, o que, ao fim e ao cabo, garante a permanência do objeto psicanalítico, enquanto permite ao analista desbravar novos rumos. O analista e a psicanálise, sabendo-se incompletos, precisam seguir se reinventando.
Os necessários debates atuais sobre a democratização da psicanálise apontam para diferentes possibilidades desse trilhamento. No prefácio do livro As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social (Danto, 2019), Jorge Broide assinala que nossos antecessores não tiveram medo de inventar os mais diferentes dispositivos: iam a campo e debatiam com profundidade. Ao se referir especificamente à atualidade da América Latina, diz:
o que temos é um enorme caldeirão criativo, onde a crise social cria saberes ... A experiência de atendimento clínico, onde quer que a vida se dê, mostra que o sujeito fala onde quer que haja uma escuta, seja ela no divã, na instituição, nas ruas ou embaixo de uma ponte na mais pura tradição freudiana . A psicanálise está viva por aqui como estava em Viena. (Broide, 2019, p. XVIII)
Mas, se, por um lado, já parece haver um consenso sobre a importância de se pensar novas e diferentes possibilidades da psicanálise, há também uma justa preocupação em como ampliá-la mantendo o que deveria ser sua contribuição específica como área de conhecimento. Diante de novos contextos investigativos, como podemos alterar a psicanálise e democratizá-la e, ao mesmo tempo, conservá-la, construindo a clínica do possível?
A rigor, não é uma questão nova, ainda que possa ser atual. A antiga historieta do navio de Teseu conta que, em cada porto que parava, uma parte do navio era trocada, até que ao final da viagem todo o madeiramento teria sido substituído, restando da embarcação original apenas o nome. Sobrevinha, então, a questão: ainda seria a mesma? “Uns defendiam que o navio continuava a ser o mesmo, e outros que já não o era” (Plutarco, 2008, p. 69).
Os desafios não são pequenos, pois falar em expansão da psicanálise implica, entre outras coisas, pensar as especificidades da formação psicanalítica e da divulgação da psicanálise num mundo globalizado e midiatizado. A psicanálise está no mundo, e as recentes discussões sobre regulamentação mostram que distintos grupos reivindicam para si o nome “psicanálise” com base em práticas que não são reconhecidas como tal por outras comunidades psicanalíticas, e vice-versa.
Haveria uma clara linha divisória para definir sacralidade e banalização da psicanálise? Que nos permita reconhecer em que pontos a institucionalização engessa a psicanálise ou promove troca entre pares e desenvolvimento do método? Que nos habilite a distinguir entre divulgação promotora de democratização e psicanálise instagramável? A reserva do analista é, necessariamente, expressão de encastelamento, ou pode denotar um reconhecimento de limite daquilo que seu saber permite contribuir?
O possível, tal como o propomos, não é pouco, nem é qualquer coisa. Talvez atualmente a psicanálise esteja presa numa antítese. Diante de alternativas opostas, entre o sagrado e o profano, Freud costumava dizer: “O caminho do psicanalista é um outro, para o qual não há modelos na vida real” (1915/2010, p. 166).
Pensando nessas questões, convidamos os autores a escreverem suas reflexões em torno do tema “O psicanalista possível”, em artigos a serem encaminhados para avaliação até a data-limite de 12/8/2024. Lembramos que também serão aceitos artigos não temáticos e que as normas para publicação encontram-se ao final de cada número do JP ou em normas-portugues.pdf (sbpsp.org.br).













