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Jornal de Psicanálise

versión impresa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.57 no.107 São Paulo  2024  Epub 20-Ene-2025

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v57n107.03 

Artigo

Desafios epistemológicos na clínica psicanalítica

Desafios epistemológicos en la clínica psicoanalítica

Epistemological challenges in the psychoanalytic clinic

Les défis épistémologiques de la clinique psychanalytique

Flávio Carvalho Ferraz1 

Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Livre-docente pelo Instituto de Psicologia

1Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (ip-usp). São Paulo


Resumo

O autor parte dos primeiros desafios enfrentados pela clínica freudiana, ainda no trabalho com histeria, quando o problema da transferência foi compreendido, teorizado e, posteriormente, passou a ser elemento central no método psicanalítico. Aborda os dispositivos da abstinência e da neutralidade, definidos nos artigos sobre técnica, para chegar à importância da Versagung como condição sine qua non para a prática clínica. Por fim, trata do grande desafio que foi a ampliação da clínica para além da neurose, com base no avanço do conhecimento sobre outras formas de psicopatologia, a saber, a psicose, a perversão e a psicossomática.

Palavras-chave: epistemologia da psicanálise; transferência; analisabilidade; patologias não neuróticas

Resumen

El autor parte de los primeros desafíos que enfrentó la clínica freudiana, aún trabajando con la histeria, cuando el problema de la transferencia fue comprendido, teorizado y, más tarde, convertido en un elemento central del método psicoanalítico. Aborda los dispositivos de abstinencia y neutralidad, definidos en artículos sobre técnica, para llegar a la importancia de la Versagung como condición sine qua non para la práctica clínica. Finalmente, aborda el gran desafío de expandir la clínica más allá de la neurosis, a partir del avance del conocimiento sobre otras formas de psicopatología, a saber, la psicosis, la perversión y la psicosomática.

Palabras Clave: epistemología del psicoanálisis; transferir; analizabilidad; patologías no neuróticas

Abstract

The author starts from the first challenges faced by the Freudian clinic, still working with hysteria, when the problem of transference was understood, theorized and, later, became a central element in the psychoanalytic method. It addresses the devices of abstinence and neutrality, defined in articles on technique, to arrive at the importance of Versagung as a sine qua non for clinical practice. Finally, it deals with the great challenge of expanding the clinic beyond neurosis, based on the advancement of knowledge about other forms of psychopathology, namely, psychosis, perversion and psychosomatics.

Keywords: epistemology of psychoanalysis; transfer; analyzability; non-neurotic pathologies

Résumé

Le auteur part des premiers défis rencontrés par la clinique freudienne, travaillant encore avec l’hystérie, lorsque le problème du transfert a été compris, théorisé et, plus tard, est devenu un élément central de la méthode psychanalytique. Il aborde les dispositifs d’abstinence et de neutralité, définis dans les articles sur la technique, pour arriver à l’importance de la Versagung comme condition sine qua non de la pratique clinique. Enfin, il aborde le grand défi d’élargir la clinique au-delà de la névrose, en s’appuyant sur l’avancement des connaissances sur d’autres formes de psychopathologie, à savoir la psychose, la perversion et la psychosomatique.

Mots-clés: épistémologie de la psychanalyse; transfert; analysabilité; pathologies non névrotiques

A clínica psicanalítica enfrentou incontáveis desafios epistemológicos desde o início do trabalho de Freud até a conclusão de sua obra. Além, é claro, daqueles que continua a enfrentar em seu constante desenvolvimento, sempre em sintonia com os avanços da metapsicologia correspondente. Mas eu gostaria de situar, em linhas gerais, as mudanças de paradigma historicamente mais significativas dentro do próprio ciclo do pensamento de Freud, para depois deixar indicados os principais rumos que tomou o enfretamento dos desafios nos autores que o sucederam e que continuam a se colocar para o psicanalista possível até hoje em dia.

Em primeiro lugar, houve a transição da terapia catártica para o método psicanalítico propriamente dito, marcada pelo abandono da hipnose em direção à associação livre. Tem como ponto de partida os “Estudos sobre a histeria” (Breuer; Freud, 1895/1981) e trabalhos afins, para chegar aos artigos sobre técnica dos anos 1910 (Freud, 1911/1981j; 1912/1981d; 1912/1981o; 1913/1981r; 1914/1981p; 1915/1981a), em que já está consolidado o paradigma do método fundamentado na transferência. Por fim, temos o paradigma da clínica “para além do princípio do prazer”, baseada nas considerações teóricas de Freud a partir da publicação do texto homônimo (Freud, 1920/1981a), em que a nova concepção de pulsão marca o início de uma fase que alguns consideram mais pessimista quanto à clínica. É quando entra em cena o conceito de pulsão de morte, abrindo o caminho para a construção da segunda tópica (Freud, 1923/1981f) e para os textos que caracterizam o posicionamento final de Freud, que vão de “O problema econômico do masoquismo” (Freud, 1924/1981m) até “Análise terminável e interminável” (Freud, 1937/1981b), entre outros.

O problema da transferência representou um desafio precocemente enfrentado por Freud, ainda ao tempo dos “Estudos sobre a histeria” (Breuer; Freud, 1895/1981). Na parte deste trabalho destinada à psicoterapia da histeria, Freud já acusa a atenção que as pacientes dedicavam ao analista durante a sessão, em detrimento da concentração que este lhes exigia na tarefa de rememorar. Assim, a transferência, que surgia como resistência, era encarada apenas como um fator que dificultava o tratamento.

Embora a concepção de transferência tenha permanecido atada à ideia de resistência, o desafio que ela representava foi vencido por obra de sua incorporação ao processo analítico, dele se tornando parte integrante e, por conseguinte, objeto privilegiado de intervenção. A ponto de Freud (1912/1981d) conceber algo tal como uma neurose de transferência, que assume o lugar da neurose real e se transforma no cenário, por excelência, do processo analítico. A ideia de trabalhar sobre a transferência no processo analítico, no fim das contas, acabou por libertar a psicanálise dos grilhões da ciência positiva, que exigiam a causa material e faziam do tratamento um verdadeiro exercício de rememoração à moda de um quebra-cabeça na reconstituição de supostas cenas reais. Vem daí o valor que foi adquirindo a situação analítica em si mesma, como uma forma única de experiência.

Eis então uma alteração da técnica que se conjuga a uma mudança na fundamentação epistemológica, uma vez que pressupõe uma transformação na concepção do objeto da investigação clínica e, a fortiori, do próprio objeto da psicanálise. A partir daí surgem dispositivos clínicos fundamentais para o método, como a fórmula contratual para o estabelecimento da situação analítica, conhecida como regra fundamental, pela qual o paciente é instado a associar livremente (Freud, 1912/1981o; 1913/1981r). A esta regra corresponde, pelo lado do analista, a atenção flutuante (Freud, 1912/1981o). Além disso, os ideais de neutralidade e abstinência (Freud, 1915/1981l), que visam a regular as manifestações de desejo do analista, se incorporam ao método na qua1idade de dispositivos c1ínicos a um só tempo técnicos e éticos.

Laplanche (1992) faz um esclarecimento bastante preciso sobre a relação entre o método clínico e o objeto da psicanálise. O essencial do método é sua circunscrição ao pulsional. Se o objeto se define como sexualidade psíquica ou pulsionalidade, que se destaca do apego pela operação do apoio (Anlehnung), então os aspectos do sujeito pertencentes ao domínio da conservação ou das pulsões do ego, de acordo com Freud (1915/1981i), são elementos situados fora do escopo analítico. Isso quer dizer que o analista deve recusá-los, ou seja, não responder ao analisando no plano que se situam, em razão de seu caráter de demanda, mas sim responder no plano pulsional para o qual apontam. A resposta que se pode considerar como interpretação é, assim, a que se desloca do nível da conservação para o nível pulsional, numa espécie de finca-pé do analista na radicalidade do método. Diga-se de passagem, essa recusa2 nada tem a ver com a Verleugnung fetichista. Trata-se da Versagung, traduzida às vezes por frustração, conceito que já aparece no “Projeto para uma psicologia científica” (Freud, 1895/1981n) para falar da relação da mãe com o bebê, em que desempenha um papel constitutivo. A suspensão da satisfação levada a cabo pela mãe, que resulta na experiência da falta, é condição sine qua non para o desenvolvimento do pensamento, tal como, no processo analítico, a recusa do analista a responder no nível da demanda é condição para o insight.

O exemplo dessa postura clínica dado por Laplanche é cristalino: se um analisando diz que se atrasou para a sessão em virtude de problemas com os horários dos trens, o analista se recusa a responder no nível da conservação, que poderia ser, no caso, uma abordagem pedagógica sobre como se organizar com os horários. Ele se atém, ao contrário, ao nível pulsional, que é o da tomada do atraso como resistência. Não cede sobre essa posição. Laplanche oferece, assim, um novo dispositivo, que se agrega àqueles da lavra de Freud, já mencionados: se a atenção flutuante é um dispositivo técnico, e a neutralidade e a abstinência são dispositivos éticos (embora contenham também um lado técnico), a “recusação” (Versagung) vem a ser um dispositivo epistemológico, uma vez que se funda sobre a definição precisa do objeto e a este se aferra, fazendo o corte entre conservação e pulsão.

Um segundo desafio epistemológico enfrentado pela clínica diz respeito à ampliação dos critérios de analisabilidade. No artigo “Sobre a psicoterapia”, Freud (1905/1981q) faz uma lista das restrições que se impunham na eleição de um paciente apto a passar pelo processo analítico. Entre pessoas pouco inteligentes, idosos, indivíduos com falha de caráter e psicóticos, sobrava um restrito público a reunir os estreitos critérios de analisabilidade. Entretanto, Freud já admitia que, com o progresso da psicanálise, esse espectro certamente se ampliaria.3 De fato, foi o que se assistiu: paulatinamente, a psicanálise pós-freudiana avançou em direção ao tratamento de crianças, psicóticos, fronteiriços e não neuróticos em geral. Importantes experimentações clínicas, com os respectivos acréscimos na metapsicologia, foram sendo feitos pelas gerações pós-freudianas.4 No entanto, é preciso reconhecer que alguns dos operadores teóricos que embasaram esses movimentos se originaram na própria obra de Freud.

Um desses operadores, aliás fundamental, foi o conceito de narcisismo (Freud, 1914b), que abriu as portas para a compreensão da psicose. Outro foi o de pulsão de morte (Freud, 1920/1981a), que inaugurou um novo patamar de seu pensamento, abrindo caminho para a segunda tópica do aparelho psíquico (Freud, 1923/1981f) e para uma clínica que não mais se restringia ao fenômeno neurótico, englobando paulatinamente a psicose, a perversão, os estados-limite e as somatizações. Outros operadores foram os mecanismos defensivos diante do Édipo, que não mais se restringiam ao recalcamento (Verdrangung). Foi o conceito de rejeição (Verwerfung), retirado dos casos de Schreber (Freud, 1911/1981k) e do “homem dos lobos” (Freud, 1918/1981h), que permitiu a criação de uma clínica da psicose. Do mesmo modo, uma possível clínica da perversão só pôde se desenvolver graças ao conceito de recusa (Verleugnung), presente no artigo sobre o fetichismo (Freud, 1927/1981g). Cada um desses mecanismos, ao predominar no desfecho do complexo de Édipo, marca posicionamentos peculiares do sujeito diante da castração e, por conseguinte, modalidades próprias de transferência5 quando na situação analítica. Na psicanálise lacaniana, são os fundamentos das estruturas clínicas (neurose, psicose e perversão).

A clínica da psicose, em alguns aspectos, pode servir como paradigma para as demais abordagens dos quadros não neuróticos, em razão da exigência que trouxe de se pensar na constituição do sujeito a partir de um desfecho do complexo de Édipo diferente do recalcamento neurótico (Freud, 1924/1981e). Se, na neurose, a elaboração final do conflito edípico, por meio da assunção da castração, tem como corolários o acesso à simbolização e um determinado modo de emprego da linguagem baseado na significação e suas repercussões metafóricas, nas patologias não neuróticas esses processos serão falhos. Em Lacan (1966/1998), a clínica da psicose se fundamenta no entendimento de um funcionamento psíquico decorrente do fracasso da castração, quando o mecanismo defensivo predominante no conflito edípico foi a rejeição, ou, em sua terminologia, a foraclusão:

A Verwerfung será tida por nós ... como foraclusão do significante. No ponto em que... é chamado o Nome-do-Pai, pode responder no Outro um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito metafórico, provocará um furo correspondente do lugar da significação fálica. (p. 564)

No Seminário 3, sobre as psicoses (Lacan, 1955-1956/1985), o sujeito já aparece como uma espécie de estrutura porosa que, ao falar, na verdade “é falado” pelo outro. Lacan toma o caso de Schreber, cuja mente é parasitada por Deus e pelo médico Flechsig, para demonstrar a dramática sujeição ao outro na psicose. Mas, no fim das contas, acaba também por trazer para a metapsicologia, como contribuição fundamental, a generalização do inconsciente na condição de outro, por princípio.

Melanie Klein (1946/1986), a partir da clínica da psicose infantil, aporta à psicanálise o conceito de identificação projetiva, que passa a ser um operador teórico-clínico seminal para essa clínica; e que também lança luz sobre aspectos da clínica em geral. Esse modo de comunicação primitiva, representado pela identificação projetiva, exigirá da psicanálise uma série de rearranjos, inclusive em sua relação com a teoria da linguagem. Bion (1955) denuncia que uma das dificuldades dos analistas na compreensão do discurso do psicótico decorria da adoção de uma concepção agostinia-na de linguagem, baseada na significação, ou seja, na semântica. Para ele, a teoria de Wittgenstein (1953/1975), na qual a linguagem é tomada em função de seus usos, é mais profícua para o avanço da psicanálise rumo à clínica da psicose. A concepção de linguagem como ação supera, então, seu entendimento como veículo da significação. Ora, para uma clínica que trata exatamente do sujeito que, na ontogênese, foi excluído do domínio da simbolização, essa concepção de linguagem cai como uma luva6. Além do mais, os atos de fala do paciente psicótico, como percebeu Bion, representam muito mais uma descarga do que uma expressão.

Com a constatação de que a linguagem do psicótico não pode, em larga medida, veicular uma significação, a contratransferência viria a consolidar seu papel de dispositivo clínico necessário, deixando de ser considerada apenas um problema para o analista. Ademais, como se dá em todos os sujeitos, nem toda a experiencia psíquica é passível de se expressar por meio da discursividade.7 Essa asserção amplia ainda mais o lugar das reações contratransferenciais do analista como locus, por excelência, para a apreensão das experiências do analisando que não podem passar pelo funil da linguagem e, dessa forma, só encontram na identificação projetiva o meio de se manifestarem.

Outro avanço da clínica pós-freudiana se deu em relação à perversão. Até não muito tempo atrás o perverso era tido como inanalisável, ou então como alguém desinteressado da análise, uma vez que seu sintoma coincidia com a obtenção do prazer sexual, ao contrário do neurótico, cuja vida sexual é limitada pelo recalcamento. Entretanto, a compreensão do mecanismo da recusa (Verleugnung), articulado à modalidade de transferência que enseja, abriu o caminho para uma clínica da perversão, superando a descrição inicial dessa formação psicopatológica simplesmente por meio do sintoma que incide sobre a vida sexual. Para além da interpretação, o enfrentamento da postura de desafio assumida pelo analisando em relação ao analista, que caracteriza esse modo de transferência, deu forma a um método que, sem abandonar a interpretação, desloca a ênfase para o enquadre, do modo como se dá, aliás, na clínica do borderline. Além da ampliação teórico-clínica requerida por esta clínica, é certo que remanejamentos conceituais no campo da ética da psicanálise se fizeram necessários.8 A abordagem analítica da perversão floresceu tanto no campo kleiniano (Meltzer, 1979), como no lacaniano (Clavreul, 1990). Em ambos aparecem descrições muito semelhantes da perversão de transferência, a despeito das diferentes referências teóricas.9

Por fim, outra expansão da clínica se verificou no desenvolvimento de uma psicossomática estritamente psicanalítica, surgida por meio do trabalho de P. Marty e colaboradores nos anos 1950, que deu as bases para a fundação do Instituto de Psicossomática de Paris (IPSO). Essa empreitada merece um exame mais cuidadoso sob o ponto de vista epistemológico, uma vez que recoloca o corpo somático no âmbito da psicanálise, repatriando-o após sua exclusão.

Graças à formulação de alguns conceitos essenciais, notadamente o de pensamento operatório (Marty; M’Uzan, 1962),10 o campo relegado desde Freud (1895/1981t) às neuroses atuais foi retomado pela psicanáli-se.11 Nesse caso, foi necessário incluir os elementos residuais do processo de apoio (Anlehnung), responsáveis por sintomas tais como as somatizações e o pânico no espectro da clínica psicanalítica, formações que, hoje em dia, recobrem, grosso modo, a área nosográfica dos antigos diagnósticos de neurastenia e neurose de angústia, as duas modalidades das neuroses atuais (Freud, 1895/1981t). Essas manifestações sintomáticas incidem sobre o corpo somático, à diferença das formações simbólicas como a histeria e neurose obsessiva. Por essa razão, saíram do foco da psicanálise quando Freud passou a se dedicar ao tratamento das histéricas e à interpretação dos sonhos. A somatização atinge o “grão de areia” que permanece no “centro da pérola”, na bela metáfora de Freud (1917/1981c) para distinguir o fenômeno somático, que se dá sobre o corpo real, do sintoma neurótico, que é simbólico e atinge, deste modo, o corpo erógeno.12 Segundo Aisenstein & Smadja (2003),

Depois de 1920, as neuroses atuais saem de sua latência teórica e são repensadas por Freud numa perspectiva econômica e se integram conceitualmente a uma introdução além do princípio do prazer. Hoje não há mais dúvida de que neurose atual contém, na sua organização, uma dimensão traumática e que a destrutividade interna é obra dos mecanismos interruptivos, que privam o tecido mental de uma parte de suas pulsões eróticas. (p. 413)

Um desafio epistemológico, portanto, está na repatriação do corpo somático sem que isso resulte num retrocesso na definição do objeto da psicanálise. Se tal objeto, a partir do recorte epistêmico que discutimos acima, deve se situar no plano pulsional, então é no corpo erógeno, erigido pela sedução primária, que o encontraremos. Mas, paradoxalmente, na neurose atual é o próprio corpo erógeno que se constitui de modo falho, correlativamente ao déficit da capacidade simbólica e do funcionamento onírico. É exatamente em razão deste déficit que o corpo somático permanece desguarnecido, tornando-se alvo das moções pulsionais destrutivas. Como teoriza M’Uzan (2003), a pulsão de morte, nesse caso, só pode ser entendida como um dispositivo anti-representacional, que vem a ser o fator atual que Freud (1895) entrevia nas neuroses atuais.

Mantendo a demarcação epistêmica, portanto, o objeto permanece em seu lugar no interior da teoria. Mas algo interessante se dá na clínica das neuroses atuais, que exige alguma destreza do analista. Certamente, o objeto abordado não será o biológico; a psicossomática psicanalítica não é um ramo da medicina.13 Mas a clínica exigirá alguns remanejamentos na Versagung, sem derivar para a satisfação da demanda. Uma vez que uma fragilidade no corpo real se evidencia, o risco somático deve ser levado em conta, o que desaconselha intervenções que produzam um grau de excitação psíquica de impossível ou difícil elaboração. Além desse cuidado, a própria densidade simbólica, sendo precária, exigirá um manejo clínico que não solicite o sujeito no plano metafórico, simplesmente por redundar em uma operação inócua. Assim, a atividade interpretativa deve ser revista, em favor do emprego de dispositivos de para-excitação. P. Marty (1993), por exemplo, recomenda que, em vez de se interpretarem os sonhos (aliás, pouco frequentes e pouco elaborados), se estimule o paciente a prestar atenção em um sonho que porventura traga à sessão, e talvez mobilizar algum interesse por ele. C. Dejours (1991) chega a postular uma modalidade de transferência radical que, em princípio, sugere a mais absoluta ausência de transferência. Trata-se da mineralização de transferência, mecanismo pelo qual, nas antípodas da histeria, o paciente se mantém sem nenhuma ressonância afetiva no contato com o analista. Transferência que, certamente, é refratária à interpretação.

Em suma, no caso particular da psicossomática, a técnica se altera, mas sem que o objeto seja cancelado. A clínica trabalha, assim, no plano de uma certa negatividade: onde estaria o corpo erógeno na análise padrão, está o corpo desafetado, privado do gesto espontâneo ou agir expressivo. Mas é nessa falha que a visada clínica insiste em permanecer. Onde se tinha como alvo o produto psíquico do apoio, tem-se a própria falha do processo de apoio14 como escopo. Onde se analisava o mundo simbólico do sujeito, busca-se propiciar condições de simbolização, e assim por diante.

Para finalizar, gostaria de reiterar que não fiz um levantamento exaustivo dos desafios que se colocaram historicamente para a epistemologia da clínica. E lembrar que, certamente, eles jamais deixarão de aparecer para os psicanalistas, uma vez que decorrem de questionamentos que vão se tornando possíveis apenas com a natural evolução da Weltanschauung. As mudanças socioculturais marcadas por conquistas como a emancipação da mulher, a afirmação da homossexualidade e da transexualidade como condições não patológicas, a ampliação da definição de gêneros, a legitimação de novas configurações familiares, a igualdade de direitos, o combate ao racismo, além daquelas que ainda nem sequer podemos imaginar, continuarão a exigir que a psicanálise se pronuncie. Mas, se os analistas tiverem a possibilidade de se ater ao núcleo mesmo da metapsicologia, com suas invariantes no tempo-espaço, a psicanálise poderá se manter como instrumento de valor para a clínica de todo sofrimento psíquico. Até porque este núcleo, além de imune à saturação por referentes culturais datados, é essencialmente não normativo. Deste modo, a psicanálise saberá responder a seus novos detratores, que hoje a submetem à inquisição ideológica, fazendo coro aos ignaros ou mal-intencionados que já se encarregavam da inquisição epistemológica.

2“Recusação” é o neologismo criado pela tradutora Cláudia Berliner para o termo francês refusement, que, por sua vez, traduz o alemão Versagung (Laplanche, 1992).

3 Green (2003) afirma: “Em minha opinião, ao se fazer um exame minucioso dos textos, é difícil escapar da impressão de que Freud, sem se dar o trabalho de teorizá-lo de forma detalhada, pressente o advento, no campo clínico, do que será chamado, posteriormente, de casos-limite.” (p. 486)

4É necessário, contudo, fazer justiça a Karl Abraham e Sándor Ferenczi, contemporâneos de Freud, que se arriscaram na análise de pacientes não neuróticos.

5No trabalho “Do desvio sexual à perversão de transferência” trato detalhadamente da modalidade de transferência verificada na clínica da perversão (Ferraz, 2023).

6A contribuição para a psicanálise da filosofia da linguagem inaugurada por L. Wittgenstein é mais extensa. J. L. Austin (1962), por exemplo, ao tratar das dimensões da linguagem, fala de sua função perlocutória (ao lado da locutória e da ilocutória), que faz com que se alterem os estados do receptor de uma fala. Isso amplia sobremaneira o horizonte da concepção da linguagem nas patologias não neuróticas em geral. J. F. Costa expõe minuciosamente o potencial do pensamento de outros autores alinhados à pragmática da linguagem para a revisão da relação da psicanálise com a teoria linguística (Costa, 1994).

7A filósofa Susanne K. Langer (1942/1989), ao fazer uma consideração como essa, acaba por colocar sua filosofia da linguagem como uma profícua fonte de inspiração para a psicanálise.

8Destaco esse problema da ética na clínica da perversão no último capítulo do livro Perversão (Ferraz, 2017).

9 R. H. Etchegoyen (2002) cunhou a expressão “perversão de transferência” baseando-se nos trabalhos desses dois autores.

10Poderíamos acrescentar ainda os conceitos de depressão essencial e desorganização progressiva.

11No trabalho “Das neuroses atuais à psicossomática” faço um relato detalhado do estabelecimento de uma psicossomática psicanalítica fundamentado na noção freudiana das neuroses atuais (Ferraz, 2024a).

12No trabalho “A tortuosa trajetória do corpo na psicanálise” proponho que a razão pela qual apenas tardiamente as somatizações passaram a ser abordadas como tema próprio da psicanálise foi o fato de o corpo ter sido tomado como um “resto” da operação do apoio (Anlehnung), ficando assim relegado à condição de resto na ontogênese e, consequentemente, resto na teoria (Ferraz, 2024b).

13Uma determinada corrente da psicossomática, desenvolvida por Franz Alexander, entre outros, na Escola de Chicago, quis que sua disciplina fosse uma medicina psicossomática, ainda que seus expoentes fossem psicanalistas (Alexander, 1987).

14 Dejours (1991) fala, nesse caso, em falha na subversão libidinal, expressão que esclarece melhor a natureza do processo.

Referências

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Recebido: 02 de Julho de 2024; Aceito: 02 de Julho de 2024

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