Onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis.
(Andrade, 1951, “Campo de flores”)
Para enfrentar a espinhosa questão-título deste trabalho, me vali de três pensadores: um poeta, um filósofo e um psicanalista, a saber, Carlos Drummond de Andrade, Ailton Krenak e Sigmund Freud. Procurei estabelecer um diálogo despretensioso entre eles, já que uma das características fundamentais de suas obras é interpelar mundos que se despedaçam e cujo futuro parece encaminhar-se para o desastre – diante do qual esses autores elaboram algumas saídas. Num segundo movimento, procurei articular as proposições desses autores com a assim chamada clínica extensa e com a psicanálise implicada (Herrmann, 1999; 2001; 2003; Frayze-Pereira, 2005; 2012).
Na primeira parte começarei pela arte, e para tal vou me valer do poeta-pensador Carlos Drummond de Andrade, tido como um dos melhores intérpretes do sentimento do mundo. Não sem razão, a palavra “mundo” aparece espalhada por toda sua obra. Drummond nasceu e foi criado em Itabira, parte daquela que veio a ser uma das maiores zonas de devastação ambiental, o vale do rio Doce. Lanço mão aqui da análise da obra de Drummond realizada pelo crítico literário José Miguel Wisnik (2018), que trouxe a lume uma interpretação inédita, relacionada às cifras da destruição ambiental espalhadas pela sua obra.
Na segunda parte de um mesmo colar de contas, junto Ailton Krenak, filósofo e poeta, cuja etnia fica às margens do mesmo rio agonizante, intérprete de um mundo em vias de extinção já há 500 anos: o mundo indígena, na sua relação com os seres que habitam nosso planeta, animados e inanimados. O pensador interpela os mundos a sua volta e, como resultado de seu trabalho incansável, traz novas apreensões: cosmovisões ricas e elaboradas, que abrem novos caminhos para pensar (e repensar) nosso planeta e o que se convencionou chamar de natureza. Afinal, o próprio conceito de natureza vem sofrendo fortes críticas nas últimas décadas, o que tem promovido uma mudança em seu sentido, que já não deve mais separar a natureza da cultura.
Por último, lançarei mão de Freud, outro grande intérprete do mundo, que assistiu à Primeira Guerra Mundial, à queda de um império, ao exílio devido à ascensão do nazismo e ao despedaçamento da esperança na razão como condutora única dos esforços políticos.
No encadeamento proposto, procuro examinar modos de abordar os sistemas de pensamento que rompem com o paradigma da razão instrumental. A razão tecnocientífica há vários séculos estrutura nossas formas de produção, nossa economia, nossas relações de trabalho, tanto quanto nosso universo simbólico, seja político, científico, cultural ou mesmo religioso. Seu principal artifício é criar uma ilusão de progresso infinito por meio da técnica, que serve para camuflar os altos custos humanos e naturais decorrentes da forma com que instrumentalizamos nossas diversas tecnologias.
A erosão do futuro se dá não só pelo avanço do aquecimento global, mas sobretudo pela incapacidade das forças políticas convencionais de deter o processo de destruição. Esse descompasso trágico é matéria de grandes poetas, como Carlos Drummond de Andrade, que se debruçaram sobre as ruínas de nossa fracassada modernidade para imaginar outras formas de estar no mundo. Um estar no mundo poético, que pode muito bem se alinhar ao pensamento indígena expresso na obra de Ailton Krenak, natural da mesma região mineradora de onde vem Drummond, e à psicanálise, que nasce instaurando no seio da ciência médica a crise da razão.
Penso que não é sem motivo que os considero sobretudo intérpretes. A interpretação, miolo do fazer psicanalítico, rompe o campo do senso comum, do hábito, do modo com que vemos o cotidiano e nossas mazelas, jogando luz em representações que estão apagadas, à margem de nosso universo representacional (Herrmann, 2003).3 A poesia opera de modo similar: ao utilizar-se das palavras de modo inédito, realiza a capacidade de propor à nossa percepção uma aproximação diferente dos temas sobre os quais se debruça. O seu leitor, tomado pelo impulso criativo, no qual está a fonte da poesia, quer também poetar. Sabe-se que o processo de sublimação ocorreu quando o apreciador da obra sente nele próprio um impulso novo, criativo: “A pulsão sublimada do artista … Preferimos denominá-la pulsão criadora. … E o que faz? Cria; e – complemento – cria formas novas” (Nasio, 2017, p. 113); “[O] espectador, comovido pela obra, cria por sua vez, deixa que seu inconsciente produza algo novo, imprevisível” (p. 115).
Invoco esses três pensadores para reconsiderar a destruição ambiental em oposição a uma óptica contaminada pela razão instrumental. Antes de tudo, isso significa abrir mão da ilusão de vitória garantida sobre os efeitos da emergência climática. Não há vitória – se é que é possível haver – sem mudança de paradigma. A meu ver, todos os três realizam uma operação de ruptura de campo (Herrmann, 2003), uma vez que a arte de Drummond, a cosmovisão indígena de Krenak e a interpretação psicanalítica de Freud souberam, cada qual a seu modo, trazer à tona representações de nós mesmos proscritas pela razão instrumental.
Junto a essa articulação, procuro efetuar aqui um exercício de psicanálise extensa e implicada. A clínica extensa, desde seus alvores nas interpretações freudianas da cultura até nossos dias, constata a possibilidade da interpretação, enquanto ruptura de campo, no interior das produções às quais se dirige, sejam individuais, sejam coletivas. Quer sejam produções “intramuros”, no interior da clínica, entre quatro paredes, quer sejam produções “extramuros”, implicadas no mundo que nos rodeia.
Nessa última direção, da implicação da psicanálise ao mundo que nos rodeia, ao tomar como referência o fazer artístico, cumpre ressaltar o trabalho de Frayze-Pereira:
A psicanálise implicada não é um modelo pré-estabelecido que ajusta o objeto às exigências conceituais, não é uma operação que converte as obras de cultura em sintomas de uma teoria. Ao ser verdadeiramente interessada na arte, entendendo esta como expressão cultural privilegiada, a psicanálise implicada respeita a singularidade das obras e constrói interpretações para elas, derivando-as delas, na justa medida delas. (2012, p. 310)
Mas resta a questão: que campo se está a romper? É no século 21 que se torna finalmente inadiável admitir a derrota do ser humano diante da destruição que ele mesmo está provocando. Provavelmente não vamos conseguir evitar o pior, pois já se comprovou que o pior já está em curso, que passamos do ponto de não retorno. Como disse José Saramago: o ser humano não merece o planeta. Há, entretanto, uma saída possível diante do futuro que se avizinha; ou, melhor dizendo, diante do presente sem futuro. Mesmo que não se consiga evitar o pior, pode-se viver o presente sem ser sequestrado pela ideia do desastre.
Assim, nos pensadores que articulo, vislumbramos saídas libertadoras diante de um futuro sombrio, que buscam perlaborar4 a representação – sempre traumática – da catástrofe. Tanto poetas como indígenas nos sugerem experienciar as ruínas do presente com tal subversão, que, apesar da consciência dos fatos, nos permitamos ainda fabular, cantar e dançar. Como diz Krenak (2019, p. 30), se o mundo tal como o conhecemos está despencando, podemos ao menos construir paraquedas coloridos tecidos unicamente pelos fios da imaginação, de uma resistência criativa que ousa resgatar o sentido da solidariedade, da celebração e da comunhão coletiva.
Trata-se, afinal, de deixar surgir e tomar em consideração (Herrmann, 2003). Tanto no que diz respeito à emergência climática quanto ao processo de análise, deve-se deixar que as questões do analisando se apresentem enquanto tais, sem precipitar conteúdos por intermédio de intervenções prematuras do analista, de modo que elas se desdobrem em seu ritmo singular.
Comecemos esse exercício de construção de anteparos, então, pela criação poética de Drummond, objeto maior de nosso tema, que tece seus paraquedas coloridos com base no mundo poético em ação.
Drummond e o pico do Cauê
Em viagem a Itabira, terra natal do poeta, ao ver a monstruosa cratera de 200 metros de profundidade na qual se transformara o pico do Cauê como resultado da exploração predatória do minério de ferro, pico que havia sido uma referência para a cidade, o crítico literário José Miguel Wisnik teve uma epifania que o fez reler toda a obra de Drummond à luz das cifras da destruição ambiental: “A mineração fechou o cerco sobre a montanha … até escavar seu desenho em negativo na terra … e não acabou, até hoje, de roer o fundo do tacho telúrico” (Wisnik, 2018, p. 115). Assim, elaborou uma nova visão da obra do poeta, em que “a relação profunda e muito próxima com a história da mineração, em seus textos, permanece naquele lugar sub-reptício das coisas invisíveis de tão óbvias” (p. 18) – como um claro enigma. Essa epifania revela a riqueza do método interpretativo: o crítico “deixa que surja” a extensão da problemática na obra, para reconsiderá-la num cuidadoso trabalho de revisitação, o que resultou num livro de perspectiva inédita, em que demonstra de modo cabal como as nuvens de limalha de ferro infiltram-se nos veios da poesia de Drummond.
Mas como esse processo de destruição ambiental se deu? Itabira, a Vila colonial do começo do século 20, incrustrada entre imensas jazidas de ferro, era ladeada pelo pico do Cauê, que consistia num maciço colossal de puro minério de ferro, à sombra de cuja vista Drummond e toda a Itabira foram criados. As sacadas do casarão colonial onde Drummond passou a infância davam diretamente para o Cauê. Lemos na parte iv do poema “Lanterna mágica”:
Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.
Na cidade toda de ferro
As ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.
No começo do século 20, interesses internacionais ligados à exploração do ferro e do aço descobriram as enormes jazidas de ferro em Minas, das quais o pico do Cauê viria a ser a cereja do bolo. A riqueza incalculável do Cauê transformaria a sonolenta Itabira do Mato Dentro no centro do mundo capitalista. Em 1942, o pico começa a ser explorado. É criada em Itabira a Companhia Vale do Rio Doce, nossa velha conhecida, que extrairá o ferro do colosso mineral para a exportação. Dirá o poeta (Andrade, 1945): “uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra” (“América”).
Os habitantes da cidade sonharam ardentemente com a riqueza que viria transformar a povoação numa metrópole cosmopolita. Em vão: o sonho cosmopolita não se realiza. Itabira não verá os frutos da exploração, muito pelo contrário: será transformada numa triste extensão degradada do canteiro de obras da Vale, sem maiores benefícios aos trabalhadores e habitantes. “A obra de cda tocou pioneiramente numa ferida que está aberta até hoje: a degradação do ambiente e da vida nas áreas afetadas pela mineração” (Wisnik, 2018, p. 18).

Fonte: Acervo ibge https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=449913
Vista do pico do Cauê a partir do centro de Itabira (1942?).

Fonte: Acervo ibge https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?id=450060&view=detalhes
Vista aérea do Buraco do Cauê, Itabira-MG, 1982.
Diante da catástrofe ambiental, o poeta manteve durante 20 anos sérios embates, através da imprensa, com a exploração predatória perpetrada pela Vale. Sintomaticamente, as crônicas que Drummond produziu sobre o tema, durante 20 anos, foram silenciadas. A prova é que permanecem inéditas até hoje.
Em resposta aos embates, na década de 1970, em pleno Milagre brasileiro, a Vale procura se vingar do poeta, numa impiedosa e perversa propaganda, em que debocha maldosamente do verso tinha uma pedra no meio do caminho:

Fonte: Acervo Carlos Drummond de Andrade
Anúncio publicado na edição de 20 de novembro de 1970 de O Globo. Reprodução do recorte guardado pelo poeta em seu arquivo pessoal (citado em Wisnik, 2018).
O título é uma referência inequívoca ao verso do poeta. A propaganda aniquila o verso mais popular da poesia brasileira, maldosamente: “mas não é essa a nossa pedra … somos especialistas em transformar pedras em lucro para a nação. É de mais pedras como essa que o Brasil precisa”.
O tempo tratará de mostrar que tipo de pedras precisamos mais. Pois as pedras que a Vale transforma em lucro encobrem seus inomináveis custos: destruição da população, dos rios, do estuário, da fauna e da flora, que culminou mais recentemente no estouro criminoso das barragens de Mariana e Brumadinho.
Maquinações do mundo
Passemos agora à análise que Wisnik faz do poema “A máquina do mundo” (Andrade, 1951), epicentro de seu trabalho. Em 1948, após muitos anos sem voltar a Itabira, ao sobrevoar a cidade, Drummond teve a horrenda visão do aniquilamento do pico do Cauê, experienciando uma alucinada presença de uma ausência. “A máquina do mundo” foi escrito no ano seguinte, como reação a essa experiência excruciante. Pensando nas contribuições recentes que descrevem as afecções psíquicas resultantes da destruição do ambiente, penso que foi o modo extraordinariamente vivo de o poeta reagir à solastalgia (Gastal, 2024)5 que o acometera. Dirá Wisnik: “Poucas vezes a mitologia pessoal mais íntima de um poeta foi submetida a um confronto tão direto com o real da história econômica” (2018, p. 18).
Apresentarei, agora, os trechos mais significativos do poema que correspondem a este argumento.6 O poema começa numa atmosfera férrea, plúmbea, escura, penumbrosa, prenhe de mistério.
A máquina do mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
Estamos no lusco-fusco, a hora da dissolução lenta das formas, da queda no informe e na angústia correspondente. Uma estrada, não sem razão, cheia de pedras, em Minas. Tudo evoca o ferro: o chão, as pedras, o ar. Até mesmo o sino, que é a expansão sonora do ferro. O som que o poeta ouve é rouco, é seco, duro como suas pisadas. Assim como ressecou-se a região, que ficou roufenha e calcinada. A escuridão maior vem dos montes, da corrosão da montanha e da derrisão do poeta.
Prosseguindo:
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
E só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
Sem emitir um som que fosse impuro
Nem um clarão maior que o tolerável
…
Abriu-se em calma pura, …
[E] assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
Aprofunda-se o clima de mistério: quem ou o quê está a falar? Que coisa é essa? Uma assombração? Uma máquina de ficção científica? Um ovni? É um clarão que vem do céu, ou brota da terra?
O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
…
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular
… [que] tão esquivo
Se revelou ante a pesquisa ardente
Em que te consumiste… vê, contempla,
A partir dos próximos versos o poema adquire um ritmo vertiginoso, mimetizando a velocidade inumana das conquistas tecnológicas.
As mais soberbas pontes e edifícios,
O que nas oficinas se elabora,
O que pensado foi e logo atinge
Distância superior ao pensamento,
e os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo o que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
…
tudo se apresentou nesse relance
E me chamou para seu reino augusto,
Afinal submetido à vista humana.
Nos próximos versos, vale destacar a hesitação do eu lírico diante do apelo da tecnologia, até culminar em sua renúncia final.
Mas, como eu relutasse em responder
A tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima – esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa …
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita ao meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa
E a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Assim termina o poema. O que é essa treva espessa, que não se desvanece mais, senão uma desesperançada alusão à limalha de ferro que cai sobre Itabira? É a partir desta constatação que o poeta vai renunciando ao apelo da máquina. Retomo aqui a análise de Wisnik:
O poema “A máquina do mundo”, do livro Claro enigma (Andrade, 1951), apresenta uma dimensão filosófica e problemática já amplamente assinalada pela crítica, mas guarda também um viés histórico que se relaciona, como tentarei mostrar, com a arrancada da exploração mineral intensiva e ostensiva em Itabira, no final dos anos 1940. (Wisnik, 2018, p. 18)
Um misto de melancolia e mistério precede o revelar da máquina do mundo, que comporta um paradoxo entre clareza e enigma, exercendo um fascínio sobre o eu lírico, que, no entanto, hesita em penetrá-la. Com base em sua hesitação, e em sua recusa final, podemos supor que o que está cifrado nesse “sono rancoroso dos minérios que dá volta ao mundo e torna a se engolfar na ordem geométrica de tudo” e que se embebe de todo ser vivo é nada mais nada menos do que o vômito dos rejeitos sobre os rios, as cidades e o mar. É como se Drummond, na sua genial sensibilidade artística, tivesse antevisto Mariana e Brumadinho. Embora tentado pelo canto da sereia, o eu lírico rejeita essa total explicação da vida, a fonte de infinito progresso e riqueza. E segue de mãos vazias.
Essa questão é crucial para o escritor, tão provinciano quanto cosmopolita. A combinação das duas dimensões o levou a sondar a entidade cósmica que a tradição literária chamou de “máquina do mundo”, descrito no final de Os Lusíadas (Wisnik, 2018, pp. 129-130). Arrebatado pelo engenho das portentosas máquinas, a navegante e a mercante, Camões celebrava o capitalismo então nascente num fabuloso engenho cosmográfico de esferas estelares e concêntricas, tendo a Terra no seu núcleo luminoso. Esse engenho miraculoso abarca o todo, “um Google Earth físico e metafísico”, cuja visão a deusa Tétis oferece ao grande navegador Vasco da Gama. Na tradição literária a máquina também é uma referência ao engenho retórico e à máquina de linguagem que produz as ficções discursivas, como é o caso da poesia. Em Drummond essa dimensão filosófica e crítica, amplamente trabalhada pela crítica literária, carrega também em seu bojo o viés histórico da exploração. A mitologia pessoal mais íntima do poeta se confronta diretamente com o real da história econômica. Nada mais premonitório que sua revolta, protesto, desilusão, derrisão diante da técnica, do progresso, enfim, da máquina do mundo exaltada originalmente por Camões.
O abatimento do poeta diante do seu mundo devastado dá um salto mortal: ele responde às maquinações do capital com o formidável mundo do engenho poético. E aqui a palavra “engenho” não é inocente. O poeta atravessa a treva espessa e, muito embora desenganado, sai do outro lado da treva com o diamante de sua obra, a interpretação do sentimento do mundo, que a todos encanta. A falência da razão tecnocientífica para com a humanidade é brutal: um mundo perfeitamente explicável por um nexo primeiro e singular seria a morte da poesia, da incerteza e do mistério.
A poesia, esta que subverte a linguagem instrumental e revela verdades íntimas e insuspeitas, do ser e do acontecer. A poesia alarga nossa percepção, traz à tona novos mundos, novos futuros, ao saber recusar o inapelável chamado da máquina.
Krenak e o pensamento indígena
Chegamos então à sabedoria do povo Krenak, que vive às margens do mesmo rio que o poeta viu agonizar. Seus povos são especialistas em sobreviver à extinção, preservando seus saberes e os recursos naturais: “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapar dessa” (Krenak, 2019, p. 31). Talvez a catástrofe não possa ser evitada, mas as formas com as quais a experienciamos e a elaboramos podem ser outras, para além da melancolia, como sugerem suas cosmovisões.
Em Ideias para a adiar o fim do mundo, Krenak propõe mobilizar a imaginação como um anteparo: “vamos aproveitar toda nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos” (p. 30). E, prossegue:
Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido do viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. … Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir de nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim. (Krenak, 2019, pp. 26-27)
Portanto, não se trata de vencer a máquina do mundo, que está posta, mas vislumbrar alternativas.
O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (2015) ressalta a importância do pensamento dos povos originários. Viveiros faz uma viva contraposição do desprezo que o branco tem pelos saberes indígenas, ao que eles são capazes de realizar conceitualmente, segundo outros parâmetros, diferentes da razão tecnocientífica. São técnicas eficazes de manejo da floresta, de construção de habitações e instrumentos, de processos curativos, de relações entre pares, de sabedoria contida em suas cosmogonias. É, em suma, uma outra forma de vida que se apresenta, uma outra representação do que pode ser a existência humana; mas que nós temos dificuldade de reconhecer, e mais ainda de incorporar – o devir outro que propõem Davi Kopenawa e Bruce Albert (2015). Ao contrário, ficamos tão apegados à nossa identidade cultural, considerando-a a única possível, que isso lembra a pergunta de Mark Fisher (2020): “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?” Em outros termos, é mais fácil imaginar o fim do que reconhecer alternativas?
Vejamos uma dessas alternativas, proposta por Krenak:
Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização que queria acabar com seu mundo? … vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos. (2019, p. 28)
Ou, ainda:
Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. (Krenak, 2019, p. 32)
É necessário constatar que estamos em um mundo em coma, e não denegar ou desmentir essa realidade, como aponta M. Luiza Gastal (2024).
Em oposição a isso, o que se espera é uma nova relação com os limites, com o desamparo e com o medo da morte. A humanidade se descolou do organismo vivo que é a Terra, deixando a tarefa de preservar Gaia, conforme o dito de Krenak: “àqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta … – São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes – a sub-humanidade” (Krenak, 2019, p. 21). Esses que estavam nas bordas, marginalizados, fora de nosso universo representacional, por intermédio de uma verdadeira ruptura de campo na história, começam a vir para a linha de frente. Os indígenas estão a contar uma nova versão da história do Brasil e a fazer uma nova antropologia. São eles que propõem uma antropologia dos brancos, denominado o “povo da mercadoria”, como definiu magistralmente o xamã Davi Kopenawa (Kopenawa & Albert, 2015, cap. 19, passim).
Há uma outra destruição possível da natureza: o fim da dicotomia entre natureza e cultura, entre humanos e não humanos. É preciso fazer um apelo a uma ética do cuidado com nossa casa planetária.
Não há como não se lembrar da admirável e premonitória canção de Caetano Veloso, “Um índio”:
Um índio descerá de uma estrela colorida, brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do Hemisfério Sul, na América, num claro instante
…
Do objeto-sim resplandecente descerá o índio
…
E aquilo que neste momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio.
(Veloso, 1977, Lado B, faixa 1)
A canção foi escrita em 1977, gravada no álbum Bicho. Impressiona o poeta ter não só antevisto o papel que desempenhariam os indígenas, num futuro próximo, como também a alusão que podemos fazer desta estrela veloz e resplandecente, que pousa no coração da América e revelará o óbvio, como a máquina do mundo, não a de Drummond; agora, sim, dos indígenas, que estão a interpelar nosso mundo de modo tão radical.
Estamos na virada da era geológica do antropoceno, somos todos terrenos, e, como diz Freud, o homem não é mais o senhor em sua casa. Nem em seu eu, nem em seu planeta.
Freud: a psicanálise e o fim do mundo
O que fez Freud durante toda sua vida, se não interpelar mundos que se despedaçavam? Na sua autoanálise, na sua clínica, na neurologia, na Europa Central, no Império Austro-Húngaro, na ascensão do nazismo… O mundo do laboratório, o qual teve de abandonar por ser pobre; o mundo da hipnose e da eletroterapia, no tratamento das neuroses; o mundo da base anatômica, na histeria; o mundo da consciência, na psicologia acadêmica; o mundo da racionalidade, na guerra; um império que se despedaçou deixando atrás de si um rastro de miséria e destruição; e a consequente ascensão do nazismo, que condena Freud ao exílio e seus livros à queima em praça pública. Freud se fez intérprete e interveio em mundos que se despedaçavam. Stefan Zweig, em sua autobiografia, expressa esse sentimento de ruptura quando relata que seu pai e seu avô foram do berço à cova num mundo estável. Entre o mundo de Zweig, o de seu pai e o de seu avô, “todas as pontes se romperam” (2014, Prólogo).
Freud interpela o íntimo e o coletivo, como faz o poeta do sentimento do mundo. O que Freud foi capaz de revolucionar, em suas grandes obras?
Em “A interpretação dos sonhos”, Freud desmantela a racionalidade instrumental ao demonstrar e comprovar que os sonhos se constroem segundo uma outra racionalidade. Existo ali onde não penso: um mundo subjetivo sub-terrâneo orienta nossa conduta sem que dela nada saibamos. A partir de então, subjetividade e objetividade não podem mais ser o que eram.
Nos “Três ensaios para uma teoria da sexualidade”, Freud revela a indeterminação e errância do objeto do desejo sexual, recusando a suposição biologizante de um instinto natural, pautado exclusivamente pelo imperativo da reprodução.
Tanto na “Introdução ao narcisismo” como em “Além do princípio do prazer” e no “Mal-estar na cultura”, Freud destrói a ilusão do homem como originalmente bom, ao revelar o ódio original na relação ao outro, a destrutividade e a insuficiência como constitutivos da subjetividade desde o infante. Em “O ego e o id”, Freud revela um eu fraturado entre instâncias psíquicas que compõem, se decompõem e se recompõem.
Freud revoluciona sua própria forma de pensar: ele partiu do interior da razão positivista, seu método enquanto neurologista, e aplicou-a de tal modo, que a matéria revelada passou a recusar o próprio método que a descortinara. A psique não funciona pela lógica da razão, mas com base em uma lógica diferente, ao lançar mão de formas mais abertas: figurativas, imagéticas, simbólicas, metonímicas e metafóricas.
De modo similar, o pensamento indígena conhece o mundo.
Assim como constatamos uma homologia entre a posição de Freud e a do poeta. Wisnik chama a atenção para “a potência da poesia como instrumento de percepção alargada e de criação de mundos, de vislumbres antecipatórios que vão muito além da reportagem factual”. O poeta
chama a compartir o mundo sem reduzi-lo, … a ter com a linguagem uma relação não meramente instrumental, a aderir ao espanto da enormidade da vida e da morte, … a encarar os múltiplos vieses do desejo, a vibrar o destino da coletividade. (Wisnik, 2018, p. 22)
Em ambos, trata-se de pensar a destruição de mundos por meio de operações e intervenções simbólicas.
No centro da produção de Freud está a sua queda. Ali onde o conceito puro falha, convoquemos a imaginação, o mito, a poesia… ou a bruxa metapsicologia. Diante da falha da razão instrumental, Freud embebe sua obra em grandes poetas, romancistas e dramaturgos, desde a Grécia Antiga até os seus dias. Não sem razão, Goethe é o autor mais citado por Freud.
Para retomar a clínica extensa
E o que fazemos nós, analistas, se não possibilitar que novos mundos surjam dentro e fora do consultório?
Freud inaugura uma terapêutica que vai em direção tanto às produções subjetivas como às produções culturais. Dois terços da obra de Freud são análises “extramuros” (Herrmann, 2001): análise de mitos, do cotidiano, de tabus, dos sonhos, dos esquecimentos, de contos, de romances, de esculturas, de passagens bíblicas, da cultura como um todo… Entretanto, uma parte considerável da produção psicanalítica se restringe à clínica padrão de consultório (ao estudo de casos clínicos e à psicopatologia), o que de fato é importante, mas que reduz significativamente o horizonte de vocação da psicanálise. Na obra de Freud, a extensão da clínica acontece naturalmente, de modo fluido, orgânico, o que pode nos servir de inspiração.
A clínica extramuros7 – composta pelos analisadores da cultura, como propõe Bleichmar (citação em Frayze-Pereira, 2012, p. 310) – diz respeito à psicanálise no mundo, que se deixa afetar pelas questões do coletivo, seja nas instituições, seja nas produções culturais, visando operar uma interpretação com base no que vem do outro. Tal como Freud escreve em um dos prefácios de “Totem e tabu”: “A jovem ciência psicanalítica quer, por assim dizer, restituir o que, em seu começo, recebeu de outras áreas científicas, esperando devolver ainda mais do que recebeu” (1912/2012, p. 33). Como no poema de Drummond, Wisnik deixou-se afetar e nos afeta de modo que possamos produzir algo inédito na nossa relação com a obra.
A noção de campo – central na obra de Fabio Herrmann – facilita a extensão da clínica. Um campo, ao meu ver, se organiza de acordo com as regras que Freud descobre (ou cria, ou ambos) que determinam as formações psíquicas inconscientes de maneira geral, tanto o sonho, o sintoma, quanto a própria ideia de realidade. Algo similar à noção da elaboração secundária, que rearranja os elementos absurdos que lhe caem no espírito de modo que se proceda a uma ordenação “convincente”, do ponto de vista do hábito. Não à toa, Herrmann sugeria pensar o campo no sentido físico do termo: como um campo magnético, que – apesar de invisível – determina o que nele ocorre (Herrmann, 1999).
A ruptura de um campo familiar causa abalos sísmicos na nossa forma de perceber o mundo, causa desrealizações, o que Herrmann chamou de “vórtice”. Em cada análise o mundo cai, para que outro mundo – mais poroso ao desejo e ao real – surja.
Essa posição casa-se com a feliz ideia de psicanálise implicada de Frayze-Pereira: na extensão da clínica não se trata simplesmente de importar conhecimentos adquiridos e aplicá-los em outras análises – é necessário, isso sim, um “compromisso ontológico” (Frayze-Pereira, 2005, p. 415),8 ou seja, deixar-se contaminar pelo campo em questão, para que dele surja o sentido, e não raro um sentido que altera a própria teoria. Não sabemos de antemão que mundo vai nascer depois do fim do mundo.
A psicanálise se dispõe a ser uma atividade emancipatória do que nos aprisiona, devolvendo mobilidade psíquica e enfrentando as forças da destrutividade. É importante estar à escuta do anseio pela mudança de mundos junto ao analisando e não interpretar suas angústias relativas à destruição do ambiente somente como avatares de seu mundo interno. A psicanálise é um instrumento poderoso e necessário para transformarmos a devastação interna e externa: é capaz de conciliar o analisando com seu sintoma, sem conformismo barato, ao promover o acolhimento do desamparo, ao movimento de buscar juntos, analista e paciente, os paraquedas coloridos e um lugarzinho num mundo que se despedaça. O que importa na análise (e na vida) é a travessia, sem sabermos no que tudo isso vai dar.
Ao terminar este trabalho, gostaria de contar uma história pessoal: no dia 25 de janeiro de 2019, em Brumadinho, a sirene não tocou, e deu-se a tragédia anunciada pelo poeta há 75 anos. Camila, seu irmão Luiz, sua cunhada Fernanda e seu sobrinho Lorenzo, ainda por vir ao mundo, seu pai Adriano e sua madrasta Maria de Lurdes foram soterrados pelo sono rancoroso dos minérios, descartados criminosamente pela mineradora, o que provocou a avalanche de rejeitos no estouro da barragem. Sua mãe, Helena e seu marido, Vagner, realizaram o impossível: transformaram esse luto inarrável em semente. Criaram o Instituto Camila e Luiz Taliberti,9 que trabalha contra os efeitos nefastos da mineração. Souberam metamorfosear a dor subjetiva da perda em ação política no mundo.













