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Jornal de Psicanálise

Print version ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.58 no.108 São Paulo  2025  Epub July 11, 2025

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v58n108.10 

Aula inaugural

Aula Inaugural 2025

Rodrigo Lage Leite1 

Membro efetivo, professor e secretário-geral da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp).

1Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp), São Paulo


Agradeço à Regina Elisabeth Lordello Coimbra e à diretoria do Instituto por este convite.

Eu o recebi como “convite de diálogo”, no sentido dado por Paulo Freire à noção de diálogo. Para ele, o diálogo não pode ser “um instrumento de que lance mão um sujeito para a conquista do outro”. O diálogo

é uma exigência existencial. … Encontro em que se solidarizam o refletir e o agir, … não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias. … É um ato de criação. [Ele enfatiza:] A conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos sujeitos … não a de um pelo outro. (Freire, 2010, p. 91)

Recebi este convite ao diálogo com grande responsabilidade, e espero que ele possa abrir espaço para transformações genuínas no nosso mundo de convívio na sbpsp.

Beth e o Instituto nos convidam a refletir sobre um tema vital para a psicanálise, “a análise do analista”, proposta feita em parceria com o Jornal de Psicanálise, ressaltando a dialética existente entre os aspectos relacionados à intimidade no privado e à expressão no público.

Assim, começo por lembrar que Freud jamais descuidou de qualquer dessas vertentes. Ocupou-se, em 1912, da experiência íntima e essencialmente privada de “A dinâmica da transferência” (Freud, 1912/2010b), mas também trouxe ao debate público sua preocupação com os riscos de desvirtuamento e deturpação da psicanálise em “A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial” (Freud, 1926/2014), de 1926. Em 1915, esteve mergulhado na intimidade da dupla analítica, quando apresentou suas “Observações sobre o amor de transferência” (Freud, 1915/2010d), mas logo depois, em 1919, voltou à esfera pública, não se furtando à indagação: “Deve-se ensinar a psicanálise nas universidades?” (Freud, 1919/2010). Com relação às relações entre clínica e cultura, em 1908, apresentou sua primeira tentativa de articulação formal entre elas, em “A moral sexual cultural e o nervosismo moderno” (Freud, 1908/2015), quando o embate entre moções pulsionais e exigências da cultura ganham o centro do pensamento clínico, visão que adquire maior complexidade num ponto avançado de sua obra, em 1930, ao pensar “O mal-estar na civilização” (Freud, 1930/2010c). Não nos esqueçamos ainda de que, em 1914, deixou-nos sua “Contribuição à história do movimento psicanalítico” (Freud, 1914/2012), prova inequívoca da preocupação com a continuada reflexão histórico-crítica sobre o “movimento” público, que, todos sabemos, nasceu da intimidade passional de encontros privados: Freud-Fliess, Breuer-Anna O., Freud-Breuer. Em todo o arco do pensamento freudiano, encontra-se a atenção ao íntimo, ao privado, ao público, ao cultural e ao institucional.

A ruptura epistemológica que a psicanálise propõe à medicina e à psicologia requer atenção a todas essas dimensões. Nenhuma é subalterna ou independente em relação à outra, como muitas vezes tentamos simplificar, separando clínica e cultura. O modo de compreender o homem, seu psiquismo, e suas formas de sofrimento está assentado na noção de inconsciente, por sua vez atrelado ao sexual infantil em sua dimensão traumática, intersubjetiva, transgeracional e, inescapavelmente, cultural. A cultura não está ao lado, mas no cerne.

A ousadia dessa proposta sempre despertou curiosidade e resistência. Do mesmo modo que continua atraindo interessados, enfrenta não apenas questionamentos e críticas, mas também ataques virulentos e tentativas de apropriação, desvirtuamento e destruição. Usarei um exemplo concreto disso na esfera pública para chegar ao nosso tema: “A análise do analista – da formação individual à vivência institucional”. Trata-se da movimentação, no início dos anos 2000, de grupos evangélicos no Congresso Nacional, organizados por meio de uma suposta Sociedade Psicanalítica Ortodoxa do Brasil (spob) pleiteando a regulamentação da psicanálise e – pasmemos! – a patente do termo “psicanalista” para aquele grupo.

Desse acontecimento esdrúxulo, mas longe de inócuo ou inofensivo, tiro a lição que gostaria de compartilhar. Foi a partir da necessidade de enfrentar esse suposto “inimigo comum” que psicanalistas de diferentes grupos e modelos de formação precisaram se reunir, encarar-se e se perguntar, para além daquilo que os distanciava e os lançava em guerras fratricidas, o que os unia e os diferenciava daquele grupo bizarro que se autodeclarava “o dono da psicanálise”. Essa é a gênese do Articulação, grupo que se tornou fundamental para a barragem dessas idiossincrasias no espaço público, do qual a sbpsp é signatária e participante. Mas essa é uma longa história para outro dia.

Para hoje, o que interessa saber é que, para analistas da ipa, de fora da ipa, de grupos lacanianos distribuídos por todo o país, o que tínhamos em comum era nosso tripé formativo baseado em análise pessoal, supervisão e estudos teóricos, bem como a origem genealógica do saber psicanalítico em Sigmund Freud. Nem Sigmund Freud sobreviveria à “psicanálise” dos evangélicos da spob. Para além disso, destacava-se como consenso a ênfase indiscutível sobre a análise do analista, como fica claro numa frase de Ana Maria Sigal, psicanalista do Instituto Sedes Sapientiae, em artigo publicado no primeiro livro do Grupo Articulação. Ela diz:

A psicanálise não é o discurso científico que fala dela: ela é a experiência do sujeito com o seu inconsciente. Preferimos pensar na necessidade de considerar a análise do analista como a pedra fundamental sobre a qual se constituirá o saber sobre o inconsciente, e é este saber que possibilitará ao analista colocar-se no lugar de escuta. (Sigal, 2009, pp. 141-142)

Foi a ideia de que a psicanálise é a experiência do sujeito com seu inconsciente que me perseguiu nos últimos três meses, após o convite para este diálogo. Retomei então um trabalho (Leite, 2022) que eu havia escrito em 2022, sobre uma experiência vivida anos antes, de retomada da minha análise, aquela que teria sido minha “análise de formação”, ou “análise do analista” ou “análise didática”, interrompida num momento de tranquilidade emocional e integração psíquica.

No trabalho, escrevi: “sempre me lembrarei do ano de 2019 como o ano em que enlouqueci” (Leite, 2022). Falo ali sobre uma incompreensível irrupção de angústia, que me remetia a terrores infantis de um tipo estranhamente familiar. Esse episódio violento me fizera retomar a análise, agora como “análise do louco”, “análise do angustiado”, “análise do que sofre”. Descrevo no trabalho “como toda a racionalidade ou lucidez havia submergido frente a ameaças que tocavam minha vida infantil, meu erotismo primevo” (Leite, 2022) e conto como

num sonho daquela época, eu voltava à casa de minha tia-avó, local frequentado sobretudo na minha infância e pré-adolescência, e a encontrava como uma espécie de ermitã, cercada por loucos de rua … que estabeleciam ali uma espécie de comunidade a céu aberto. (Leite, 2022)

A imagem última do sonho, ainda hoje retida em minha memória, é dos gestos estereotipados de um daqueles loucos, gestos de sinalização, que associei àquela época como de um grande “guarda de trânsito em alto-mar”. Essa imagem e a ideia me serviram, e ainda me servem, para pensar nosso assombro diante do absurdo do inconsciente. Para pensar em nosso esforço organizativo para dominar isso que tem lógicas próprias de tempo e espaço, uma tópica, uma dinâmica e uma economia distintas. Ainda que tenha me transformado, e siga me transformando, por meio das análises que empreendi na vida, foi nesse momento de descontrole interno, ocorrido fora das injunções institucionais e de minhas escolhas profissionais, que o inconsciente se apresentou de forma inequívoca. Falo desse inconsciente que está à altura da grandiosidade das metáforas marítimas. Por um lado, o mar calmo, o mar belo, o mar por vezes doce, de Dorival Caymmi, esse que, mesmo na calmaria, não nos permite dominar o que esconde a imensidão próxima de suas águas. Mas também, e sobretudo, os movimentos desse inconsciente que remete ao mar da tormenta, da arrebentação, o mar alto de tempestades brutais, o mar do tsunami.

Assim, é a inexorável singularidade e rebeldia do inconsciente e de cada análise e, ainda mais, de cada momento de cada análise que tento destacar. Em 2023, defendi minha dissertação de mestrado na Faculdade de Medicina da usp (Leite, 2023). De maneira muito sintética, o que eu tentava rastrear ali era que tipo de experiência levava um grupo de profissionais de saúde mental a defender a psicanálise no espaço de uma instituição médica, num contexto histórico em que a resistência a ela se apresenta de várias formas. Não vou mergulhar nos meandros e resultados dessa pesquisa, mas os convido agora a ouvir o pequeno trecho de uma das entrevistas com um destes profissionais:

A coisa principal pra mim do meu interesse pela psicanálise são os efeitos diretos vivenciais e terapêuticos da minha análise pessoal. … [Eu] me identifico muito com esses pacientes que regridem de uma maneira muito intensa num consultório, no ambiente clínico, eu quero dizer, porque isso aconteceu comigo, essas descrições que são do Winnicott, por exemplo, eu entrei numa depressão assim, transferencial … eu achava inacreditável como que eu podia carregar aquilo dentro de mim sem aquilo nunca ter aparecido explicitamente daquele jeito … eu fiquei superperturbado, e eu já não tinha mais pra onde voltar, porque, uma vez que você vê essas coisas, não tem jeito de você “desver” essas coisas e eu fui seguindo em frente como se fosse essa ponte que vai caindo atrás do seu pé, você só consegue ir pra frente, pra frente, e o efeito disso sobre mim foi assim, profundo. … [A posição] regressiva, eu chamo assim, de você se tornar uma pessoa, na sua sessão, insuportável pra si mesmo e pro seu analista em termos da necessidade de amor infantil que aparece e um buraco que você não consegue fechar de jeito algum e que ao mesmo tempo você é um adulto olhando pra você tendo essas reações profundamente infantis e familiares e de nada na sua biografia conseguir te instruir em relação ao que tá acontecendo, você simplesmente ser lançado diante de você, ser empurrado a observar você tendo umas reações muito estranhas que você nunca imaginaria que você ia ter, acompanhado de uma tristeza profunda, de um sentimento de vazio e de ter desaparecido, de ter caído num buraco negro, né, que isso é uma coisa que eu falava muito, parece que eu caí num buraco, que eu tô num buraco negro, que você não tá me vendo, que você não gosta de mim, coisa… intensíssima assim, né? Isso com duas sessões por semana depois que as frequências foram aumentando. … isso que eu chamo de regressivo, a emergência do infantil. … então foi por necessidades analíticas, já que estava acontecendo uma coisa comigo que era tão surpreendente e perturbadora, como eu falei, sofrida. …

Essa experiência foi tão marcante, pujante, intensa, transformadora, que eu não conseguia não ir assim, em direção à psicanálise, no sentido de supervisão e de estudo teórico e de considerações técnicas clínicas, então sempre foi … girou muito, muito em torno desse meu começo de análise. … A teoria, a mesma coisa … já que tem pessoas que estudam isso há 100 anos, assim, eu tenho que olhar o que essas pessoas escreveram, porque isso acontecendo comigo ao vivo e com o meu corpo e com os meus afetos e com minha mente… e, se tem outras pessoas que viveram isso, eu não vou conseguir não olhar o que elas pensaram e escreveram, então, de novo, eu colocaria a experiência da análise pessoal no meio disso … como se fosse assim … tipo uma queda-d’água, assim, um acidente natural como uma cachoeira, que você vai colocar uma hidrelétrica lá depois e que vai transformar em outras coisas. O acidente natural, a força da natureza é a sua psique que funciona em transferência com o seu analista.

(Leite, 2023, pp. 68-69)

A beleza do relato me levou a pedir autorização do autor para revelar sua identidade. Seria injusto não dar ao nosso colega Pedro Colli o crédito dessa imagem potente do inconsciente e da transferência como a “queda-d’água”, o “acidente natural”, onde eventualmente pode se instalar depois uma hidrelétrica, ou um analista. Pedro diz em seu relato que, uma vez vivida e vista, seria impossível desver a “emergência do infantil” e não pensar sobre ela. Talvez seja este o primeiro grande convite desta fala: reafirmar a aposta encarnada na emergência do infantil em análise e no método que a favorece: movimento íntimo, pessoal, ou, pelo menos, de uma dupla: movimento privado.

Daqui, abrimos uma brecha para integrarmos, aos desafios privados a que esse processo nos lança, os desafios públicos. Se começamos por abordar os consensos de analistas diante das demandas da spob, não nos esquivemos da realidade de que os dissensos sobre como deveria ser conduzida a análise do analista sempre esteve no olho do furacão dos embates que levaram às guerras e cisões no movimento psicanalítico. Seria impossível abarcar todas as nuances desse debate, tão antigo quanto a própria psicanálise, mas pensei que seria auspicioso dizer aos colegas que chegam que inescapavelmente serão tragados para ele. Um debate que não é simples e que se reapresenta continuamente, como podemos ver na atenção dada a ele pelo Jornal de Psicanálise, em vários números, como o atual, editoria de Mariana Mies e Rogério Lerner, e o recente (dezembro/2022) “Psicanálise em (de)formação”, editoria de Berta Azevedo e Ricardo Trinca.

Recentemente, num debate promovido por este JP, para refletir sobre a “análise do analista”, nossa colega Renata Zambonelli Nogueira tornou públicos aspectos absolutamente íntimos e privados de sua análise pessoal durante sua licença-maternidade. Considero que, por revelar o privado, o relato de Renata seja um farol sobre alguns aspectos públicos que nos interessam neste debate, oriundos da experiência encarnada dos membros em formação. Ouçamos agora um pequeno trecho do artigo de Renata, no JP:

Tive a minha filha passados três anos e meio de análise didática, faltava um ano e meio para concluir o tempo obrigatório. Então, usufruí da licença-maternidade. Essa era uma conquista recente dentro do Instituto: o membro filiado fica desobrigado de seguir com todas as atividades da formação pelo período de seis meses.

Mas eu estava transferida, então logo nas primeiras semanas de vida da minha filha, em sofrimento, retomei a análise em baixa frequência, eu precisava falar. Fizemos sessões “avulsas, sob demanda”, e, conforme algum esboço de rotina foi se delineando na vida selvagem do puerpério, fixamos uma vez por semana, e bem mais adiante aumentamos para duas vezes.

Eram os primeiros meses da pandemia, quase tudo era desconhecido. Vivíamos totalmente isolados, com medo da morte. …

No meu enlouquecimento materno, vivi uma guerra contra a morte e contra o mundo, tudo ameaçava a vida, o sono ou a paz da minha bebê. Eu precisava produzir barreiras. Fazia as restrições alimentares mais malucas para tentar interromper as cólicas. Qualquer privação valia, aceitar a impotência absoluta não me acalmava. O grito que escancarava o desamparo representava nós duas.

Na amamentação, dor, exaustão, mais ambivalência: a vivência de amor e prazer, e também a de escravidão sexual. Seguir amamentando, ou não dormir?

O sexual do adulto traumatiza o bebê? O sexual do bebê traumatiza o adulto?

O analista me escutava, me suportava. Sustentava as ambivalências, legitimava minha intuição materna e os meus limites, dividia comigo a angústia das situações sem saída. Aguentava o meu ódio. A análise foi um cordão salva-vidas. Eu repeti muitas vezes que precisaria me manter em análise com ele até terminar de processar o excesso que vivi. O analista era minha testemunha, e penso que a transferência ganhou uma nova camada.

Mas os cronômetros da Instituição estavam pausados, e nada disso contou como tempo de análise didática. (Nogueira, 2023, pp. 304-305)

Retomo publicamente os três relatos, o meu próprio, o de Pedro e o de Renata, como exemplos do tipo de experiência que possivelmente norteia a aposta na psicanálise para muitos de nós.

Certamente, ninguém aqui pensa como os pseudoanalistas da spob, que desconhecem Sigmund Freud, e acreditam que um analista se forma em bancos de universidade ou em cursos de educação a distância. Todos sabemos também que, no âmbito da ipa, a centralidade da análise do analista é inegociável, seja por meio de regulamentações do processo de análise, nos modelos Eitingon ou Uruguaio, seja na meticulosa exploração prévia dos efeitos da análise, durante o processo de seleção para formação, ou ao longo das supervisões, no modelo Francês. Não existe a possibilidade de formação que não encare a análise do analista como pedra fundamental.

Apesar disso, é nesse ponto que residem as maiores divergências no âmbito público. Inúmeros trabalhos foram escritos e publicados ao longo da história da psicanálise, muitos deles, recentemente, em nosso meio. A leitura de trabalhos com perspectivas distintas e posições divergentes, como “Clínica psicanalítica e clínica da formação em psicanálise. Algumas reflexões sobre prudência e ingerência”, de Ana Clara Duarte Gavião (2022), e “Da exigência de deformação na formação”, de Daniel Delouya (2022), se feita fora da chave das rivalidades e intransigências, permite-nos reconhecer vértices de observação respeitáveis, que se esforçam para dar conta da vivência pessoal dos autores e das convicções que adquiriram ao longo de suas trajetórias.

Num terreno tão subjetivo e impreciso como esse, é impossível que alguém detenha a verdade última e pura, a verdade absoluta. E aqui chegamos ao segundo, e mais desafiador, convite que trago hoje por meio destas reflexões. Se no plano íntimo e privado, nossas convicções pessoais nos bastam, no plano público, da vida institucional, se pretendemos manter um convívio democrático e íntegro com relação ao rigor do saber, teremos que estabelecer arranjos capazes de nos balizar, algo como pactuar um solo comum, que contemple dois pontos em que é difícil o convívio.

Primeiramente, que resguarde o compromisso com a análise do analista, que não deixe brechas para que ela perca seu lugar central, ou seja diluída, subsumida, na lógica dos “analistas” da spob ou da formação psicanalítica universitária. É preciso defendê-la. Defender, sem medo, o método psicanalítico, não estar pressionado pela ideia de que seremos conservadores, caretas, antipsicanalíticos, ou de que estaremos boicotando a liberdade, se deixarmos clara nossa convicção, enquanto instituição, de que não há analista sem análise. Levando às últimas consequências este raciocínio, que não tenhamos medo de assinalar que a alta frequência é um fator importante, um facilitador, um recurso técnico que um analista deve conhecer e que deve fazer parte da trajetória de um analista em formação.

Por outro lado, não penso ser aceitável que esse norteador nos exima do desafio de considerar a natureza do objeto com que lidamos, o inconsciente, em toda sua complexidade e rebeldia. Não é possível que confundamos rigor com rigidez e joguemos fora a criança com a água do banho, abstendo-nos de buscar estratégias que se aproximem ao máximo da mobilidade exigida pelo objeto da psicanálise, privando-nos de discutir o enquadre na análise do analista em formação para além de normas e prescrições engessadas, como, por décadas, tem defendido Luiz Meyer, em artigos clássicos, como “Subservient analysis” (Meyer, 2003), publicado em 2003, no International Journal of Psychoanalysis, reconhecido e amplamente citado no debate psicanalítico internacional.

Aqui, o segundo convite deste diálogo, aos membros que chegam e àqueles com mais tempo de casa. Um chamado a considerar que as diferentes preocupações, oriundas de diferentes diapasões, se não escutadas com certa dose de generosidade, farão com que sigamos alucinando negativamente a argumentação do outro, tornando-a opaca, que fiquemos surdos a ela, e, nos piores momentos, que a instalemos no lugar da imbecilidade ou da perversão. O debate, nessas circunstâncias, não poderá avançar em sua complexidade, e ficaremos, como já dito por muitos, no eterno “dia da marmota”, atrasando o aprofundamento sobre outros fatores, que, do meu ponto de vista, devem ser mais impactantes para o desenvolvimento da psicanálise, da escuta psicanalítica e da formação de analistas. Falo especificamente da presença na instituição de subjetividades diversas, como as pessoas provenientes da periferia, o povo negro, os povos originários, os dissidentes do sistema sexo-gênero, pessoas historicamente ausentes do nosso convívio institucional, cuja ausência empobrece nossos afetos, nossa compreensão sobre o humano e nossa produção teórico-clínica.

Encerro lembrando que a díade proposta para a abordagem da análise do analista nesta aula inaugural – formação individual e vivência institucional – expõe quão importante é a participação dos membros em formação nos diálogos institucionais, ressaltando aqui o lugar da amf, criada há mais de 50 anos e mantida como espaço de produção de ideias e ações decisivas para os movimentos desta Sociedade. Insisto assim na importância de uma participação viva e consistente dos membros em formação, necessariamente atravessada pelo mergulho íntimo e radical em si mesmo, em sua análise, e em seus enigmas, bem como na abertura à escuta do outro, dos diversos outros, pavimentando a assunção reflexiva e crítica à própria fala, não esquecendo que sempre restará algo de impossível na jornada de um guarda de trânsito em alto-mar.

Referências

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