Introdução
O bullying representa o subtipo de violência escolar mais prevalente e pesquisado nos últimos anos nas escolas públicas e privadas da rede de ensino (Chaves & Souza, 2018). Esse fenômeno é definido como a prática de ações negativas, intencionais, de caráter repetitivo dirigidas contra um indivíduo alvo por um período de tempo prolongado, em que a pessoa afetada tem dificuldade de defender-se devido ao desequilíbrio de poder entre os envolvidos (Olweus, 2013).
O bullying pode afetar crianças e adolescentes de diferentes maneiras, ao ser representado pela prática de agressão física, exclusão social, agressão psicológica, agressão sexual e virtual (Zequinão et al., 2019). Este último tipo, também denominado como cyberbullying, tem aumentado nos últimos tempos, por estar relacionado ao uso da tecnologia em ambientes on-line, que disseminam postagens ofensivas, perfis falsos, roubo de dados, divulgação de imagens e informações que causam constrangimento à vítima (Chun et al., 2020; Felice et al., 2022).
Um estudo realizado em 83 países, identificou o risco de 35,3% de crianças e adolescentes sofrerem bullying (Tang et al., 2020). Pesquisas Nacionais de Saúde do Escolar (PeNSE), realizadas nas capitais do Brasil através das três edições com amostras de escolares do 9º ano do Ensino Fundamental, demonstraram aumento progressivo nas taxas desse tipo de violência de 5,4% na primeira edição, para 6,8% na segunda edição e 7,4% na terceira edição (Brasil, 2009; Malta et al., 2014; Malta et al., 2019).
Ao analisar a situação do cyberbullying entre adolescentes de 30 países, tanto de alta quanto de baixa renda, verificou-se que um em cada três jovens afirmou ter sofrido esse tipo de violência, e um em cada cinco necessitou mudar de escola em decorrência desta problemática. No contexto brasileiro, 37% dos indivíduos pesquisados afirmaram já ter sido vítimas de cyberbullying, 36% referiram já ter faltado à escola após ter sofrido esse tipo de violência por colegas de classe e mencionaram como responsáveis pelo controle desse problema os próprios jovens (32%), os governos (31%) e as empresas de Internet (29%) (Fundo das Nações Unidas para a Infância [UNICEF], 2019).
Estudos sobre o bullying e cyberbullying têm despertado o interesse da sociedade civil e dos pesquisadores devido à sua prevalência, à multiplicidade de fatores e ao risco de ocasionar problemas de saúde, social e educacional, expressos através de depressão, ansiedade, pensamentos suicidas, insegurança, alteração do sono, envolvimento em crimes, consumo de álcool e drogas, início da vida sexual precoce, fracasso ou abandono escolar (Armitage, 2021; Chun et al., 2020; Malta et al., 2019; Ossa et al., 2019). A manifestação dessas repercussões podem afetar a qualidade de vida das vítimas, agressores, vítimas-agressores, a curto, médio e longo prazo (Armitage, 2021; Malta et al., 2019).
A ocorrência do bullying e do cyberbullying se faz presente em diversos locais, destacando a sala de aula e o espaço de recreação dos estabelecimentos de ensino (Chaves & Souza, 2018; Garbin et al., 2019; Zequinão et al., 2016). Tal situação requer a efetivação de políticas públicas de promoção à saúde escolar, que contemple regras normativas sobre esses tipos de violência no regimento escolar e/ou no projeto político pedagógico da escola, a fim de reforçar a gestão democrática do ensino e a importância da escola na tomada de decisões e condução dos casos de violência escolar (Pereira et al., 2022; Silva et al., 2018). Uma vez que a escola representa um ambiente privilegiado para a promoção da saúde, a prevenção da violência, a cultura da paz, a cidadania e os direitos humanos (Chaves & Souza, 2018).
Para a formação de indivíduos autônomos, estudos demonstram que o emprego dos pressupostos da metodologia freireana possibilita a construção de conhecimentos críticos e reflexivos sobre ser vítimas, agressores e espectadores na ocorrência do bullying e do cyberbullying, com incremento no dialogismo, na problematização, no protagonismo e no empoderamento dos envolvidos através do compartilhamento de saberes (Brandão Neto et al., 2020; Freire, 2018; Monteiro et al., 2018).
A aplicação do modelo de ensino freireano à classe dos oprimidos os auxilia na conscientização de sua história, dos problemas vivenciados em sua realidade e os capacita a libertar a si mesmo e aos outros, por não aceitarem a naturalização dos problemas, nem a reprodução de atitudes de dominação (Arruda et al., 2019; Freire, 2018).
Diante desses achados, o presente estudo tem como objetivo compreender as crenças, os valores e as práticas que os adolescentes mobilizam no desempenho dos papéis envolvidos no bullying e no cyberbullying, embasado nos pressupostos de Freire, da educação como política social, que se apresenta intrinsecamente articulada ao viver em sociedade.
Método
Realizou-se um estudo interpretativo sob o aporte teórico metodológico dos pressupostos da Teoria Freireana (Freire, 2018). Esta investigação proporciona uma visão ampla do evento desejado, em busca de ações relacionadas à prática (Teodoro et al., 2018). A escolha da teoria se justifica com a finalidade de valorizar o protagonismo dos participantes a fim de alcançar os significados e valores intrínsecos do conhecimento de adolescentes sobre as crenças, os valores e as práticas que os mobilizam no desempenho dos papéis envolvidos no bullying e no cyberbullying.
A pesquisa foi delineada em duas escolas da rede municipal de ensino do interior do Nordeste brasileiro, no estado de Pernambuco. Estas escolas foram selecionadas aleatoriamente por oferecerem aulas ao Ensino Fundamental I e II, contemplando cerca de 3.528 alunos, matriculados do 6º ao 9º ano (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2020). A escolha deste município se deu por sua localização na região do Agreste, estando a 134 Km da capital e por apresentar um Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (IDEB) de 4,9, valor considerado baixo (Qualidade da educação básica no Brasil [QEDU], 2023).
Para a seleção dos participantes, foram considerados os seguintes critérios de inclusão: estar matriculado nas escolas selecionadas, frequentando regularmente as aulas, apresentar interesse em participar da pesquisa após a oferta dos esclarecimentos e objetivos. Os critérios de exclusão envolveram a limitação na capacidade de leitura, compreensão de texto e escrita, segundo avaliação da equipe pedagógica da escola.
Participaram do estudo 45 adolescentes de 10 a 14 anos, selecionados por amostragem intencional com base na indicação referida pelos gestores e professores, ao avaliarem a desenvoltura na comunicação oral e escrita destes. O emprego dessa técnica de amostragem possibilitou à pesquisadora decidir propositalmente sobre a seleção dos adolescentes, por se ter interesse nas suas experiências e opiniões (Polit & Beck, 2011).
O número de participantes foi determinado por saturação teórica (Fontanella et al., 2008). Na presente pesquisa, evidenciou-se a saturação teórica a partir da repetição de falas e do padrão idêntico sobre as práticas de bullying e de cyberbullying.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de maio e junho de 2022. Inicialmente, realizou-se a abordagem presencial dos adolescentes escolares, durante o intervalo das aulas, para esclarecê-los sobre os objetivos e a vinculação da pesquisa. Os adolescentes selecionados pela equipe pedagógica, que demonstraram interesse em participar do estudo após terem sido esclarecidos, receberam o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para ofertar o consentimento informado por escrito ao próprio adolescente e a um representante legal, respectivamente sobre a autorização de participação da pesquisa e de publicação das informações fornecidas.
Após anuência formal, procedeu-se com a coleta de dados em sala reservada. Nessa etapa da pesquisa, aplicou-se um questionário semies-truturado, construído pela própria pesquisadora, e composto por duas etapas, uma contemplando dados sociodemográficos dos participantes e, em seguida, foram apreciados questionamentos abertos sobre os conhecimentos e as práticas do bullying e do cyberbullying. Para assegurar o anonimato dos participantes, os estudantes foram identificados pela letra “A” de adolescentes, seguido de uma numeração referente à inserção na pesquisa, ao sexo e à idade.
Na fase de organização e de tratamento dos dados, foi utilizado o software IRAMUTEQ (Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires), que se ancora no ambiente estatístico do software R e na linguagem python. Este programa informático viabiliza uma análise simples de dados textuais, como a lexicografia básica (cálculo de frequência de palavras), e análises multivariadas (classificação hierárquica descendente, análises de similitude), que auxilia desde a organização até a distribuição do vocabulário, a fim de facilitar a sua compreensão e visualização (Camargo & Justo, 2013; Souza et al., 2018).
Os dados apreendidos foram duplamente digitados e codificados para a realização do processamento dos dados e a interpretação das classes. O corpus de análise constituiu-se de 45 entrevistas em um único arquivo, que foi salvo como um documento de texto que usa codificação de caracteres no padrão UTF-8 (Unicode Transformation Format 8-bit coded units). Na sequência, foi realizada a revisão de todo o arquivo, a correção de erros de digitação e pontuação com padronização de siglas ou palavras compostas pelo símbolo underline, inclusão de números na forma de algoritmo e exclusão de símbolos no corpus textual.
Após a organização do corpus textual, ele foi submetido à análise de similitude para obter a árvore máxima. Subsequentemente, foram elencados trechos de falas relevantes que concordavam com a organização da árvore máxima quanto às aproximações e os distanciamentos das representações sociais dos adolescentes (Souza et al., 2018).
A análise de similitude foi utilizada como uma das principais técnicas de análise, por permitir a descoberta do núcleo central e a identificação do grau de conexão entre os elementos de uma representação (Salviati, 2017; Souza et al., 2018). Esta análise forneceu a tradução dos sentidos e significados que sustentam as representações sociais dos adolescentes, demonstrando os aspectos comuns e os periféricos.
A análise e estruturação intelectual dos dados ocorreu pela pesquisadora principal em trabalho conjunto com os orientadores da pesquisa, sendo estes experts no uso dos fundamentos teórico-metodológicos freirianos evocados para análise das representações sociais sobre bullying e cyber-bullying para os adolescentes.
Esta pesquisa faz parte de um projeto aprovado junto ao Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), sob o parecer de número 5.466.213 e a CAAE: 52512421.60000.5208. Os autores declaram não existir conflito de interesse para a realização deste estudo.
Resultados
A amostra foi composta por 45 adolescentes de 10 a 14 anos de idade, com média de idade de 12,78 (±1,06), com predomínio do sexo feminino 66,67% (n=30), sendo 6,67% (n=3) autodeclarados não binário. Quanto à raça, 64,44% (n=29) afirmaram ser parda, 11,11% (n=5) negra e 24,44% (n=11) branca. Em relação ao nível educacional, foram incluídos participantes de todos os anos do Ensino Fundamental II, com menor parcela de integrantes do 7º ano 8,89% (n=4) e maior 55,56% (n=25) do 9º ano. Na avaliação da renda familiar mensal, 46,67% (n=21) referiram valor inferior a um salário-mínimo, seguido por 40% (n=18) valor igual a um salário-mínimo. Quanto ao convívio familiar, 46,67% (n=21) referiram morar com pai e mãe, 17,78% (n=8) apenas com a mãe e apresentaram o mesmo percentual de 6,67% (n=3) aqueles que conviviam apenas com o pai, ou com o avô, ou com a mãe e o padrasto.
Entre os adolescentes escolares pesquisados, 86,67% (n=39) afirmaram ter praticado, sofrido ou testemunhado alguma situação de bullying, de cyberbullying ou ambos os tipos de violência. Quanto ao tipo de envolvimento no fenômeno, 33,33% (n=15) referiram ser vítima de bullying, seguido por 17,78% (n=8) que afirmaram ser vítima, agressor e testemunha de bullying, mesma porcentagem para os que afirmaram ser vítima e testemunha de bullying e 8,88% (n=4) demonstraram envolvimento como vítima de cyberbullying.
O consumo de álcool e o uso de drogas na família dos adolescentes foi mencionado por 13,33% (n=6) e 8,89% (n=4), respectivamente. Entre os membros da família envolvidos com consumo abusivo de álcool ou drogas, 8,89% (n=4) foi a figura paterna, seguido da tia 4,44% (n=2), e da mãe ou primo 2,22% (n=1). Houve relatos de mais de um membro da família como usuário de álcool ou drogas, como mãe, pai e tio, 2,22% (n=1). Entre os adolescentes pesquisados, 2,22% (n=1) declararam consumir drogas.
O reconhecimento crítico das crenças, dos valores e das práticas dos adolescentes sobre bullying e cyberbullying subsidiou a apresentação da Figura 1, que representa a árvore máxima produzida pela análise de similitude ao revelar o núcleo central do conhecimento dos adolescentes quanto ao tema investigado.

Fonte: dados da pesquisa.
Figura 1 Análise de similitude sobre o conhecimento dos adolescentes sobre bullying e cyberbullying. Cupira, Pernambuco, Brasil, 2022
A árvore máxima apresenta cinco ramificações com forte ligação ao núcleo central, determinando os laços que unem os elementos constituintes da representação social. Cada forte ramificação apresenta um termo de maior grau de conectividade com o núcleo, a saber: adolescente, não respeitar, magoar, aparência, ficar triste, sofrer, depressão e ansiedade. Tais ramificações constituem o sistema periférico da representação social, o qual se fundamenta nas interfaces que norteiam o conhecimento dos adolescentes sobre o bullying e o cyberbullying.
A fim de tornar didática a apresentação da análise de similitude, os termos foram organizados em três quadrantes, a saber: quadrante superior direito (QSD), quadrante superior esquerdo (QSE) e quadrante inferior (QI). No quadrante superior direito (QSD), constitui-se o núcleo central emergindo do termo “praticar” ligado fortemente ao termo “acontecer”, situado na 1a periferia, e o termo “não respeitar” e “não saber”, na 2a periferia, que se ramifica em “aparência”, “forma do corpo”, “apelido”, “falar”, “machucar” e “magoar”. No quadrante superior esquerdo (QSE), liga-se ao vocábulo “sofrer”, como 1a periferia, os termos “mata”, “tristeza”, “sentir”, “vontade” e “agressor”, na 2a periferia, que se liga fortemente ao termo “ficar”, “triste”, “magoado”, “baixo”, “pequeno” e “magro”. Do quadrante inferior (QI) provém o termo “adolescente” e “mesmo”, como 1a periferia, que se liga aos termos “internet” e “coisa”, que se ramifica no termo “preconceito” e que se liga fortemente ao termo “insegurança”, “depressão”, “autoestima”, “ansiedade”, “solidão” e “problemas psicológicos”. A análise temática extraiu cinco principais temas:
Conceitos de bullying e de cyberbullying
No QSD, ramificam-se fortemente do núcleo central os termos “achar”, “melhor”, “querer”, “celular”, “internet”, “maldoso”, “ruim”, “aparência”, “falar”, “colocar” e “apelido”, que evidenciam os conceitos de bullying e de cyberbullying, conforme encontram-se nos trechos de falas dos adolescentes, dispostos a seguir:
O bullying é preconceito com os colegas, julgar pela aparência, pela cor, pelo jeito de ser, de se vestir, pela sexualidade (A31, feminino, 14 anos).
O bullying é criticar, zoar, colocar apelido nas pessoas (A25, masculino, 14 anos).
O bullying, para mim, é uma agressão física e psicológica que atinge muitos jovens, mas adultos também (A38, feminino, 14 anos).
O cyberbullying é feito pelo celular, como mandar mensagens maldosas, críticas, expressões ruins (A34, feminino, 12 anos).
É um bullying digital que é praticado por plataformas de conversas e pelos aplicativos, com postagem de comentários, fotos ou vídeos sem autorização, que magoam o próximo (A29, feminino, 13 anos).
Situações que concorrem para a prática do bullying
No QSD, evoca-se o termo “acontecer” como 1a periferia, ligado fortemente ao termo “não” como 2a periferia e suas subdivisões, que originam os termos “falar” e “aparência” como 3a periferia, que se ramifica nos termos “machucar”, “magoar”, “vítima”, “palavras”, “corpo”, “cabelo” e “apelido”, que evidenciam situações que concorrem para a prática do bullying, conforme encontram-se nos trechos de falas dos adolescentes, dispostos a seguir:
Querem se achar melhor do que os outros e machucar as pessoas. Eu sofri bullying por colegas de sala, por causa dos meus dentes, meu corpo e minha aparência, colocaram apelido em mim (A3, feminino, 14 anos).
Eu já sofri bullying, umas pessoas maldosas me batiam porque eu era uma pessoa quieta, e era sempre uma pessoa boazinha, essas pessoas me xingavam e me machucavam com as palavras (A43, feminino, 13 anos).
O modo como ele é tratado, porque ele pode sofrer bullying em casa e afetar as pessoas que conhece (A44, feminino, 14 anos).
Tipos de envolvimento do adolescente em situações de bullying e de cyberbullying
No QSE, origina-se do núcleo central “praticar” o termo “sofrer” como ia periferia que se ramifica nos termos “agressor”, “tristeza”, “sentir”, “vontade” e “escola”, que se liga a vocábulos relacionados aos tipos de envolvimento (“vítima”, “perpetrador”, “espectador” ou “vítima e perpetrador”) do adolescente em situações de bullying e de cyberbullying, conforme retratam os fragmentos de fala elencados abaixo:
Durante a aula, eu estava conversando com os meus colegas, e uma menina disse que eu era muito baixa. Ela começou a rir e a me chamar de Zé pequena (A34, feminino, 12 anos). Eu sofri bullying por insultos, recebi nomes inadequados e me envolvi em brigas (A30, masculino, 12 anos).
Eu já pratiquei e hoje eu me sinto muito mal, porque a pessoa ficou muito triste e se afastou de mim (A26, masculino, 13 anos).
Eu já testemunhei vários casos, um deles foi na escola, as pessoas ficavam chamando a menina de baleia e de botijão, etc. E a menina começou a chorar e jogaram bolinha de papel nela (A29, feminino, 13 anos).
Aqui, na escola, a pessoa falou do meu corpo e do meu sorriso. Mas eu também já pratiquei, já falei da aparência e do cabelo de uma pessoa (A31, feminino, 14 anos).
Repercussões do bullying e do cyberbullying
No QI, ramificam-se fortemente do núcleo central “praticar” os termos como “insegurança”, “baixa autoestima”, “depressão” e “ansiedade”, que evidenciam as repercussões do bullying e do cyber-bullying para a saúde física e mental do adolescente. Os fragmentos das falas dos adolescentes que demonstram tais relações encontram-se a seguir:
Me colocaram apelido na sala de aula e fiquei três dias doente (A2, masculino, 13 anos).
Graças ao bullying, hoje eu não me vejo mais como antes, eu tenho insegurança com o meu corpo (A38, feminino, 14 anos).
O bullying é uma agressão que causa muitos problemas mentais, como ansiedade, tristeza, depressão, autoestima baixa, vontade de cortar os braços e pode levar ao suicídio (A27, masculino, 14 anos).
O cyberbullying pode ser pior que o bullying, porque as pessoas chegam até a se suicidar (A29, feminino, 13 anos).
Estratégias educativas gamificadas para prevenção e controle do bullying e do cyberbullying
No QSD, ramificam-se da 1ª periferia o termo “acontecer”, que se liga fortemente à 2ª periferia representada pelo termo “não”, que se subdivide nos termos “dever”, “saber”, “ensinar”, “respeitar” e “jogo”, que evidenciam sugestões para o desenvolvimento de estratégias educativas gamificadas para prevenção e controle do bullying e do cyberbullying, conforme encontram-se nos trechos de falas dos adolescentes, dispostos abaixo:
Deve ter conselhos para todos se respeitarem, ensinar que não pode praticar o bullying e, se já praticou, jamais continuar e pedir desculpas (A26, masculino, 13 anos).
Ter música contra o bullying com frases de como não praticar este costume (A23, feminino, 14 anos).
Mostrar as formas como se sofre bullying e o que fazer quando somos vítimas (A18, feminino, 10 anos).
Acho que deveria ter dois mundos, um com bullying e cyberbullying e outro sem, para eles verem que o mundo seria bem melhor sem tudo isso (A20, feminino, 14 anos).
Discussão
Aponta-se neste estudo que o núcleo central se concentra na abordagem das crenças, dos valores e das práticas do bullying e do cyberbullying por adolescentes escolares, no processo de elucidar conceitos, causas, consequências e aspectos preventivos desses tipos de violência.
Compreensão sobre o fenômeno do bullying e do cyberbullying
O núcleo central ocupa a função de produzir sentido para os elementos complementares (zona periférica), na medida em que evidencia os valores e significados que permeiam diversos aspectos da ocorrência do fenômeno da violência entre os pares, apresentadas na área periférica da árvore máxima; assim como uma função organizadora que determina a natureza das ligações estabelecidas entre os elementos da representação (Abric, 2000).
A percepção dos adolescentes sobre o bullying manteve uma aproximação do proposto pela literatura científica ao estar fortemente associada à atribuição de apelidos, à prática do preconceito com os colegas, aos julgamentos pela aparência, pela cor, pelo jeito de ser e pela maneira de se vestir. A prática de tais julgamentos pode envolver o não atendimento aos padrões ditados pela sociedade, o que culmina com preconceito, sofrimento, humilhação e exclusão dos adolescentes (Souza & Gonçalves, 2022). O bullying é descrito como um conjunto de ações intencionais mediadas pela prática de agressão física, exclusão social, agressão psicológica, agressão sexual que ocorram repetidamente contra um sujeito que não consegue se defender (Olweus, 2013).
O conceito de cyberbullying, retratado pelos adolescentes pesquisados, reafirma os achados da literatura ao relacionar-se com o uso do celular para o envio de mensagens maldosas, realização de críticas, postagens de fotos ou vídeos sem autorização dos indivíduos expostos, com fins de magoá-los. A prática da violência virtual por meio da postagem desses conteúdos, por vezes pornográficos e irreais, está vinculada a alguns fatores, como o tempo gasto na Internet e a utilização inadequada desses recursos (Chun et al., 2020; Felice et al., 2022). Outra parcela dos adolescentes demonstrara limitações quanto ao conhecimento sobre o significado do termo cyberbullying, e tais achados corroboram com o estudo de Ranney et al. (2020), em que os participantes mencionaram ser complicado defini-lo e o associaram à drama, ao conflito on-line e àgravidade da expressão das suas consequências.
Crenças, valores e aspectos culturais como fatores de vulnerabilidade à prática do bullying e do cyberbullying e as consequências para a saúde física e mental dos adolescentes
A ocorrência do bullying e do cyberbullying entre os adolescentes entrevistados tem, entre os seus fatores de risco no ambiente domiciliar, o consumo de álcool e o uso de drogas por membros da sua família. Estudos corroboram com os achados ao identificar que relações familiares conflituosas e violentas podem aumentar a insegurança e a frustração dos adolescentes, tornando-os propensos a sofrer e a praticar violência (Ghisleri & Samada, 2022). Já experiências anteriores dos adolescentes em situações de cyberbullying se mostraram como fator de proteção, por permitir a aquisição de habilidades para a adoção de estratégias de enfrentamento direcionadas à prevenção do envolvimento em práticas atuais (Ranney et al., 2020).
A variação da composição da amostra por gênero, com predomínio do sexo feminino entre os adolescentes entrevistados, pode representar um fator de proteção para o envolvimento em bullying e em cyberbullying. Um estudo evidenciou que ser do gênero masculino aumentou em 0,71 vezes as chances de sofrer qualquer tipo de bullying (Marcolino et al., 2018). Quanto ao tipo de bullying, verificou-se que, em ambos os sexos, houve maior prevalência de agressões verbais, e as meninas apresentaram maior envolvimento em agressões indiretas (Zequinão et al., 2016). Em relação ao cyberbullying, ser do sexo masculino elevou 1,8 vezes as chances de envolvimento (Azami & Taremian, 2021).
A renda familiar mensal referida pela maioria dos pesquisados esteve em valores de até um salário-mínimo, correspondendo a uma baixa condição socioeconómica. Os níveis de capital social demonstram uma relação inversa com a adoção de comportamentos de vitimização e de agressão por bullying, ao identificar que o baixo nível de capital social eleva as chances de envolvimento com bullying e cyberbullying (Reisen et al., 2021; Xu et al., 2022).
O baixo poder aquisitivo das famílias dos adolescentes constitui uma situação de vulnerabilidade social, ao serem submetidos a uma situação objetiva desfavorável, alicerçada por uma consciência ingênua e alienada diante do condicionamento de uma cultura do êxito e do sucesso pessoal (Freire, 2018).
A elevada participação dos adolescentes escolares pesquisados em alguma situação de bullying, de cyberbullying ou ambos os tipos de violência, seja como vítima, perpetrador e espectador, demonstrou impactar no comportamento adotado por estes adolescentes. Destarte, encontramos relatos de arrependimento diante da reprodução de práticas de violência em relação a um colega, relacionando a reprodução de comportamentos a um pensamento ingênuo. Outros estudos apontam que as vítimas de bullying são mais frágeis, com menor autoestima e vivenciam mais conflitos interparentais (Azami & Taremian, 2021; Marcolino et al., 2018). Enquanto o grupo de perpetradores e vítimas demonstraram maior resiliência frente às condições estressantes e os não envolvidos com cyberbullying apresentaram maior autoestima, um melhor clima escolar e menos traços psicopáticos (Azami & Taremian, 2021).
Segundo Freire, o entendimento de oprimido e opressor, desvelado na proposta pedagógica tradicional, encontra entrelace com relações desrespeitosas de dominação perpetrada também entre os pares. O autor esclarece sobre a necessidade de articular pedagogia humanista e libertadora, em que “os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com a sua transformação” (Freire, 1987, p. 42).
Ao analisar a atitude dos agressores na prática do bullying e do cyberbullying, os adolescentes demonstraram uma sensação de superioridade perante os demais, o desejo de fazer o mal e de se vingar. Tais comportamentos podem estar relacionados à falta de maturidade deles, o que os conduz à adoção de atitudes abusivas e intimidadoras em relação aos outros (Ghisleri & Samada, 2022).
Freire reafirma que as condições materiais, econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas tendem a gerar obstáculos que dificultam a superação, para a realização de nossa tarefa histórica de mudar o mundo. Entretanto, o autor destaca que os obstáculos não se eternizam, alimentando o encantamento pelas possibilidades de produzir espaços de interações sociais respeitosas e harmoniosas, desconstruindo posturas naturalizadas e reprodutoras de violência (Freire, 1996).
O bullying e o cyberbullying apresentam diversas consequências para a saúde física e mental dos adolescentes, expressas através do adoecimento, do distúrbio de imagem corporal, da insegurança, da ansiedade, da depressão, da baixa autoestima, da automutilação e do desejo de suicídio. A manifestação desses problemas pode diferir entre os indivíduos, a depender do tipo de envolvimento. Entre os agressores, os problemas mais citados foram: dificuldades de relacionamentos com amigos, familiares e desenvolvimento de liderança em grupo. No grupo das vítimas prevaleceu a ocorrência de disfunções psicológicas, dificuldades de relacionamentos sociais e problemas de saúde física (Souza & Gonçalves, 2022).
Estratégias protetivas à ocorrência do bullying e do cyberbullying
A valorização da prática do diálogo entre pais/familiares e adolescentes, o uso adequado das mídias sociais, a redução da exposição ao consumo de drogas ilícitas e álcool tendem a reduzir a exposição à violência doméstica e virtual e, consequentemente, previnem a ocorrência do bullying e do cyberbullying (Ghisleri & Samada, 2022; Romeiro et al., 2021; Xue et al., 2022).
O cenário escolar foi referido pelos adolescentes como um dos principais locais para a ocorrência ou a origem do bullying e do cyberbullying.Zequinão et al. (2016) identificaram que a maior parte dos adolescentes que sofreram bullying apontaram os agressores como sendo da própria sala ou de outra turma, com mais idade que as vítimas e de ambos os sexos. O espaço escolar é responsável por contribuir para a construção de valores pessoais e para a formação de sujeitos autônomos e críticos, capazes de refletir sobre os problemas e tentar resolvê-los a partir de mudanças comportamentais, mediadas por ações interventivas de abordagem multiprofissional e direcionada ao controle desses tipos de violência (Chaves & Souza, 2018; Silva et al., 2018).
Os adolescentes constituem um grupo populacional nativo em tecnologia, que assumiu uma postura de protagonismo e criatividade, propondo o desenvolvimento de estratégia educativa com uso da gamificação para prevenção e controle do bullying e do cyberbullying. Foi destacado ainda o uso da musicalidade para explicar os tipos de bullying e como agir quando vítimas ou espectadores; a estabelecer relações respeitosas e falar educadamente com as outras pessoas; a orientar comportamentos para resolução não violenta de conflitos; a apresentar um cenário que representasse dois mundos, um com bullying e com cyberbullying e outro sem, para gerar uma reflexão, de que o mundo sem violência seria melhor.
O mérito da paz, para Freire, fundamenta-se em uma vivência da certeza de que o aprendizado para o adolescente não se limita à apreensão de conteúdos, mas também do estímulo ao pensar certo e à construção de arenas dialógicas na construção do saber comprometido com o pensar, com o ser e com o relacionar-se no mundo (Freire, 1996).
A valorização das crenças, dos valores e das práticas do público-alvo, quanto à elaboração de estratégias educativas gamificadas para a abordagem de temas como o bullying e o cyberbullying, podem estimular a mudança de comportamento ao valorizar o protagonismo dos envolvidos, embasado no pensamento crítico social, para o alcance da autonomia do pensamento, tornando-os independentes, críticos e reflexivos no que se refere à tolerância e ao respeito diante das diferenças entre os sujeitos (Ardila et al., 2019; Brandão Neto et al., 2020; Santos et al., 2021). Em diálogo com o pensamento freireano, é destacada a esperança como uma expressão ativa do ser humano, que requer uma postura de protagonismo e coragem para mobilizar energias e contagiar ideais para a construção de uma cultura de paz. Em contraponto, a desesperança fomenta o fatalismo e o imobilismo, que podem ser muito úteis na manutenção do fenômeno da violência (Freire, 2014).
Considerações
Este estudo evidenciou o comprometimento de crenças, dos valores e das práticas que os adolescentes mobilizam no desempenho dos papéis envolvidos no bullying e no cyberbullying, concorrendo para salientar a situação de extrema vulnerabilidade deste grupo populacional, considerado nativo digital, em fase de descobertas e em busca de definições pessoais e sociais.
A construção de conhecimentos empíricos, críticos e reflexivos dos adolescentes sobre a realidade do bullying e do cyberbullying propiciou uma postura de autonomia e protagonismo, não se limitando a desvelar a problematização instituída nas relações entre os pares e o contexto familiar, mas também propor estratégias de enfrentamento do fenômeno, com ênfase na construção coletiva de uma cultura de paz. Destarte, o acesso a uma formação cidadã dos adolescentes encontra-se alicerçado na busca por resolução não violenta de conflitos, prevalecendo o interesse por contribuir para relações sociais mais solidárias e construtivas.
Somada às menções sobre as possíveis consequências do bullying e do cyberbullying, demonstra-se a necessidade da sua prevenção e controle. Nesse sentido, a relevância desses temas envolvem o potencial que as investigações sobre as crenças, os valores e as práticas dos adolescentes têm para a elaboração de estratégias de controle e prevenção mais adequadas e capazes de mobilizar as atitudes destes, os seus sentimentos e as suas visões de mundo.













