Introdução
A fluência de leitura compreende a capacidade que o leitor tem em realizar o reconhecimento rápido e correto das palavras, com ritmo e entonação adequados. O conceito de fluência leitora é amplamente discutido na literatura e refere-se à combinação efetiva dos aspectos de precisão, auto-maticidade e prosódia na leitura em voz alta, que, simultaneamente, permite chegar à construção de significado pelo leitor. Sendo assim, esses aspectos são considerados como habilidades fundamentais para que se desenvolva a leitura fluente e consequentemente a compreensão de textos (Kuhn et al., 2010; Navas et al., 2009; Silva et al., 2024).
Considera-se o leitor como fluente quando o mesmo se aprimora devidamente das três dimensões da fluência de leitura. Ou seja, um leitor fluente será capaz de realizar a leitura oral de maneira rápida, precisa e expressiva, o que contribui para uma melhor compreensão e percepção do texto (Puliezi & Maluf, 2014). A compreensão de textos implica na construção de significados para o que está sendo lido. Define-se, ainda, a compreensão como a relação entre informações veiculadas de um texto, favorecido pelos conhecimentos de mundo e as práticas de letramento vivenciadas por parte do leitor (Monteiro & Soares, 2014).
A habilidade de precisão na leitura refere-se à competência em ler as palavras de forma correta. O leitor possui conhecimento do princípio alfabético e habilidades para combinar diferentes sons. Além disso, possui um vocabulário amplo, o que se torna importante na precisão de leitura de palavras (Basso et al., 2018; Hudson et al., 2005).
A automaticidade é a habilidade de executar rapidamente uma tarefa através do processamento automático. A velocidade de leitura é característica do desenvolvimento da automaticidade, sendo a ausência de esforço, autonomia e ausência de atenção consciente na leitura. Manifesta-se paralelamente com a precisão conforme o leitor realiza o hábito de ler e consequentemente acessa ao léxico de forma imediata. Desse modo, os autores afirmam que, à medida que a velocidade se desenvolve, a leitura torna-se precisa e também mais rápida. (Basso et al., 2018; Navas et al., 2009).
A prosódia é a última dimensão da fluência de leitura e demonstra a forma como o leitor entoa a sua voz para dar ênfase às palavras e frases, a fim de transmitir significados e expressar emoções. Os autores definem que os aspectos prosódicos no discurso se dão por meio de: ênfase, intensidade, velocidade, ritmo e tempo (Kuhn et al., 2010). A prosódia refere-se à aplicabilidade satisfatória de pausas e controle na velocidade de fala (Basso et al., 2018). Dentre os aspectos significativos da prosódia na leitura, estão a acentuação gráfica, intensidade e entonação, duração e pausas. Através desses elementos é possível indicar surpresa, dúvida e/ou certeza, entre outras particularidades, além da semântica (Basso et al., 2018).
As definições citadas anteriormente abrangeram três habilidades da fluência (precisão, auto-maticidade e prosódia), entretanto, é necessário compreender a sua influência na compreensão textual. Para que exista uma leitura adequada e uma compreensão eficiente, as três habilidades precisam estar relacionadas. Dessa forma, a precisão, automaticidade e prosódia participam da formação da fluência de leitura textual e operam juntamente da compreensão leitora, a qual pode-se considerar que a finalidade da leitura é a compreensão do que foi lido, sendo essa a base para aquisição de conhecimento (Ávila et al., 2016; Castles et al., 2018; Nation, 2019).
Múltiplos fatores estão envolvidos no processo de compreensão. Podemos citar três dimensões que envolvem a compreensão leitora: social (conhecimento sociocultural), linguístico (vocabulário, dimensão linguística em nível de palavra, sentenças e textos como um todo) e cognitivo (processamento das informações, funções executivas e as inferências) (Jiang & Farquharson, 2018). Portanto, considera-se que a leitura envolve capacidades de compreender e fazer uso da linguagem, reconhecer, empregar e saber diferenciar os sinais de pontuação, extrair a compreensão textual, buscar respostas dentro do texto e fazer reflexões sobre o que foi lido envolvendo a leitura tanto num nível de palavra, quanto sentenças ou ainda de texto (Novaes et al., 2019).
A porcentagem de escolares com dificuldades de aprendizagem em território nacional mostra-se preocupante, de dez alunos, cinco não atingiram as habilidades básicas para a leitura e a compreensão (Brasil, 2020; Oliveira et al., 2020). Portanto, é indiscutível a imprescindibilidade de identificar as dificuldades em leitura e compreensão.
Os déficits nesses processos podem prejudicar a aprendizagem de disciplinas escolares que necessitam de boa compreensão de leitura para que o conteúdo possa ser devidamente aprendido. Desse modo, o rendimento escolar pode ser explicado por essa dificuldade (Cunha & Capellini, 2016). Pensando no aumento de participação de profissionais envolvidos nos processos que se destinam à melhoria da qualidade do ensino, afirma-se que o fonoaudiólogo é um aliado importante no enfrentamento das questões acima retratadas (Albrecht, 2023).
Nesse escopo o Ministério da Educação instituiu, em 2019, a Política Nacional de Alfabetização (PNA), a fim de melhorar os processos e os resultados da alfabetização no Brasil, tendo como objetivo elevar a qualidade da alfabetização e combater o analfabetismo em todo o território brasileiro. A PNA faz relação com algumas metas do Plano Nacional de Educação (Brasil, 2008), principalmente no que diz respeito à meta 5, que garante a alfabetização de todas as crianças até o final do 3º ano do Ensino Fundamental (EF). Além disso, aponta a importância da fluência de leitura e apresenta dados característicos com valores de referência para a caracterização do número de palavras lidas por minuto para cada ano escolar. Em relação ao 3º ano, a média estabelecida é de 90 palavras por minuto.
No ano de 2020 o mundo passou pelo enfrentamento da pandemia COVID-19, afetada pela contaminação viral do SARS-CoV-2. A partir desse período de calamidade pública, medidas foram instituídas para isolamento e precauções sanitárias a fim de evitar a contaminação pelo vírus. Diante disso, especificamente no Brasil, as escolas foram fechadas a partir da portaria 343 instituída pelo MEC (Brasil, 2020), substituindo as aulas presenciais por aulas remotas.
A suspensão das atividades escolares presenciais afetou negativamente o processo de aprendizagem e alfabetização dos escolares da educação básica. Com o fechamento de escolas e a transição para o ensino remoto, diversos escolares não tiveram acesso adequado à educação durante esse período, o que resultou em lacunas no desenvolvimento das habilidades necessárias para o aprendizado da leitura e escrita. O ensino remoto emergencial esteve em vigor durante os anos letivos de 2020 e 2021. Nesse período, o processo de aprendizagem ocorreu por meio de recursos tecnológicos, tanto na disponibilização dos conteúdos e das atividades, como para tirar dúvidas dos escolares (Matos, 2021).
No entanto, essa realidade não foi possível para todas as escolas, famílias e comunidade, influenciando negativamente no processo de aprendizagem da linguagem escrita. Os impactos da pandemia refletem ainda, devido à problemática enfrentada, atualmente, que implica na consolidação do processo de alfabetização e posteriormente na efetividade da fluência e compreensão de leitura (Lemos & Sarlo, 2021).
Nesse sentido, torna-se necessária a avaliação das habilidades de aprendizagem, nesse caso, precisamente, a avaliação para saber o nível de leitura e compreensão que os escolares do final do terceiro ano encontram-se, visto que passaram o primeiro e segundo ano, nos anos de 2020 e 2021, respectivamente, voltando apenas para o presencial em 2022, e concluindo o ciclo do terceiro ano no final desse ano de 2022.
Portanto, o objetivo deste estudo é o de caracterizar o desempenho da fluência e compreensão de leitura de escolares do terceiro ano do Ensino Fundamental, pós-pandemia.
Método
Trata-se de um estudo transversal de caráter quantitativo, aprovado no comitê de ética e pesquisa, sob número 64735422.1.0000.5346. Todos os participantes do estudo assinaram e consentiram sua participação no Termo de Confidencialidade Livre e Esclarecido (TCLE), além disso os pesquisadores do estudo disponibilizaram o Termo de Confidencialidade de dados, mantendo o sigilo e anonimato dos participantes. A pesquisa respeitou todos os preceitos éticos segundo a Resolução de
Saúde 466/12. Como a coleta de dados foi realizada em escolares matriculados em uma escola municipal do interior do Rio Grande do Sul (RS), o TCLE foi entregue aos pais e para aqueles que concordaram para a participação de seu filho(a), foi questionado também ao escolar se o mesmo aceitaria participar da pesquisa.
Em relação aos riscos e benefícios, foi explicado no TCLE, assim como aos escolares. Para os riscos, caracterizam de ordem mínima, podendo ser cansaço e fadiga durante as avaliações, e os benefícios comportam o acompanhamento acadêmico de cada escolar, o relatório das avaliações entregues e explicadas aos pais/responsáveis e também para a escola, assim como, o intuito de beneficiar a comunidade científica.
Os critérios de elegibilidade da amostra caracterizam-se por: critérios de inclusão, escolares devidamente matriculados, sem repetência escolar, com desenvolvimento neurotípico, acuidade visual e auditiva considerados normais; critérios de exclusão, diagnósticos de síndromes, doenças, deficiências que impactam no neurodesenvolvimento infantil, além de transtornos dos sons da fala. Além disso, foram excluídos os escolares que estavam iniciando o processo de decodificação de leitura, caracterizado pela rota fonológica de leitura. Portanto, compuseram a amostra 64 escolares, matriculados no terceiro ano do Ensino Fundamental. Torna-se válido ressaltar que esses escolares passaram pelo primeiro e segundo ano do Ensino Fundamental, com atividades remotas, compreendendo os anos de 2020 e 2021. Não é possível inferir o quanto os escolares foram adeptos a essa modalidade de ensino e o quanto foi o nível de aprendizado durante esse período.
Os procedimentos metodológicos para a coleta de dados foram avaliações fonoaudiológicas relacionadas à linguagem escrita e seus aspectos e também relacionadas à linguagem oral. Para a avaliação da fluência e compreensão de leitura, aplicou-se o teste Avaliação da Fluência de Leitura Textual – AFLET. O instrumento pertence à coleção ANELE-5 e é destinado a crianças de 7 a 10 anos, estudantes do 2° ao 4° ano do Ensino Fundamental, de escolas públicas e privadas.
A aplicação do instrumento foi em sala silenciosa, na escola, com a gravação da leitura em voz alta do texto narrativo “O Papagaio”. A leitura do texto foi gravada e cronometrada para posterior análise. Após a leitura do texto, o material escrito é retirado do escolar, para que ele responda oralmente a um questionário que consiste em 10 questões de múltipla escolha sobre o texto lido, sendo cinco questões literais e cinco questões inferenciais. As questões são lidas oralmente pelo avaliador e acompanhadas visualmente pelo estudante, que deve responder conforme a alternativa correspondente.
Ao final da aplicação do instrumento, os dados foram analisados, corrigidos e concluídos e tabulados em planilha eletrônica MS-Excel, em sua versão do MS-Office 2013, específica destinada à pesquisa. O parâmetro de avaliação do instrumento deu-se em relação aos anos escolares completos de ensino, portanto, todos os escolares foram avaliados no início do ano de 2023, no início do período letivo em que estavam ingressando no 4° ano, tendo o 3° ano completo de estudo.
Para a análise categórica do instrumento AFLeT, realizou-se a análise quantitativa, para os parâmetros de precisão, automaticidade (velocidade) e compreensão leitora, análise quanti-qualitativa para os parâmetros precisão e prosódia (tipos de erros) e pontuação final disponibilizada pelo instrumento.
Além disso, foram verificadas e utilizadas as seguintes variáveis do instrumento para análise: Questionário literal (QL); Questionário Inferencial (QI); Questionário Total (QT); tempo de leitura (T); palavras lidas corretamente por minuto (PLCM) e total de erros de prosódia (TEP). Ademais, realizou-se a estatística descritiva da amostra e das variáveis mencionadas (média, mediana, desvio padrão e percentis) e aplicou-se a Análise de Correlação de Spearman, com o intuito de verificar o grau de relacionamento entre as variáveis de PLCM, QL, QI e QT.
Resultados
A amostra deste estudo foi constituída por 64 crianças, com média de 9,3 anos de idade. Em relação ao sexo, 59,4% caracterizam o público masculino, enquanto 40,6%, o feminino. A Tabela 1 apresenta a relação entre as variáveis de PLCM, QL e QI e QT.
Tabela 1 Análise das variáveis de PLCM, QL, QI e QT
| Variável | Estatística | PLCM |
|---|---|---|
| CT QL | Coef. Correi. (r) | +0,313 |
| Sig. (p) | 0,012 | |
| Nº Amostra | 64 | |
| CT QI | Coef. Correi. (r) | +0,307 |
| Sig. (p) | 0,014 | |
| Nº Amostra | 64 | |
| CT QT | Coef. Correi. (r) | +0,380 |
| Sig. (p) | 0,002 | |
| Nº Amostra | 64 |
CT QL: Compreensão textual, questões literais; CT QI: Compreensão textual, questões inferenciais; CT QT: Compreensão textual, questionário total.
A relação entre as variáveis de interesse é dita estatisticamente significante; por isso, pode-se afirmar que, no geral, quanto melhor o desempenho do escolar nas questões de compreensão leitora, maior será o número de palavras lidas corretamente por minuto por ele. Quanto menor for o número de acertos, ou seja, o desempenho nas questões de compreensão leitora, menor será o número de palavras lidas corretamente por minuto.
Para representar o desempenho dos escolares nas variáveis dos tipos de erros de precisão, de acordo com as normativas do AFLeT, realizou-se uma análise estatística descritiva. Na Tabela 2, são apresentados os tipos de erro de precisão: regularização (REG), neologismo (NEO), desconhecimento de regra contextual (DRC), substituição de fonemas surdos e sonoros (SS), paralexia semântico-fonológica (PRL), paralexia verbal (PRLV), não resposta (NR), intrusões (INT), inversão de duas palavras existentes no texto (INV) e outros erros (OR), com os valores mínimos e máximos de cada variável.
Tabela 2 Análise descritiva das variáveis de erros de precisão
| Variável | N. | Min. | Max. | Média | Desvio-padrão | Percentil 25 | Percentil 50 (Mediana) | Percentil 75 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| REG | 40 | 0,00 | 5,00 | 0,93 | 1,16 | 0,00 | 1,00 | 1,75 |
| NEO | 50 | 0,00 | 20,00 | 3,00 | 4,22 | 0,00 | 1,00 | 4,25 |
| DRC | 35 | 0,00 | 5,00 | 0,31 | 0,90 | 0,00 | 0,00 | 0,00 |
| S/S | 34 | 0,00 | 2,00 | 0,29 | 0,58 | 0,00 | 0,00 | 0,25 |
| PRL | 55 | 0,00 | 15,00 | 3,47 | 3,58 | 1,00 | 2,00 | 5,00 |
| PRLV | 43 | 0,00 | 7,00 | 2,47 | 1,86 | 1,00 | 2,00 | 4,00 |
| NR | 48 | 0,00 | 33,00 | 5,33 | 7,82 | 0,25 | 2,00 | 6,25 |
| INT | 42 | 0,00 | 32,00 | 4,26 | 6,31 | 0,00 | 2,00 | 6,00 |
| INV | 30 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 |
| OR | 38 | 0,00 | 2,00 | 0,42 | 0,72 | 0,00 | 0,00 | 1,00 |
REG: Regularizações; NEO: Neologismo; DRC: Desrespeito às regras contextuais; S/S: Substituição surdo-sonoro; PRL: Paralexia semântico-fonológica; PRLV: Paralexia Verbal; NR: Não resposta; INT: Intrusões; INV: Inversões; OR: Outros erros.
A Tabela 2 apresenta a distribuição do número de escolares, média, desvio-padrão, valor mínimo e máximo do desempenho obtido pelos escolares, em relação aos erros de precisão.
A Tabela 3 complementa a Tabela 2 em relação à frequência e percentual de erros de acordo com a tipologia estabelecida pelo AFLeT.
Tabela 3 Percentual e frequência de erros de precisão
| Tipo de Erros de Precisão | Frequência | Percentual |
|---|---|---|
| REG | 21 | 32,81% |
| NEO | 35 | 54,69% |
| DRC | 7 | 10,94% |
| S/S | 8 | 12,50% |
| PRL | 48 | 75,00% |
| PRLV | 38 | 59,38% |
| NR | 36 | 56,25% |
| INT | 30 | 46,88% |
| INV | 0 | 0,00% |
| OR | 11 | 17,19% |
| Total de alunos | 64 | 100,00% |
REG: Regularizações; NEO: Neologismo; DRC: Desrespeito às regras contextuais; S/S: Substituição surdo-sonoro; PRL: Paralexia semântico-fonológica; PRLV: Paralexia Verbal; NR: Não resposta; INT: Intrusões; INV: Inversões; OR: Outros erros.
A variável de velocidade de leitura (automaticidade) foi mensurada da seguinte forma: pelo tempo total de leitura textual (T); o número de palavras lidas por minuto (PLM) e pelo PLCM. A Tabela 4 apresenta a análise descritiva da velocidade de leitura. Realizou-se a descrição estatística das variáveis de tempo de leitura em segundos e o tempo de leitura em minutos e pelo número de palavras lidas (PL), palavras lidas por minuto (PLM), palavras lidas corretamente (PLC), palavras lidas corretamente por minuto (PLCM), índice de precisão de leitura (IPL%) e número de autocorreção de precisão (APc). Os erros de prosódia também foram descritos. Além disso, a tabela apresenta os erros de pausa (EPa), erros de entonação (EEn) e erros de fluidez (EFlu). Considerado o número amostral de 64 escolares.
Tabela 4 Descrição estatística das variáveis escalares do instrumento AFLeT
| Variável | Min. | Max | Média | Desvio-padrão | Percentil 25 | Percentil 50 (Mediana) | Percentil 75 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| T (segundos) | 107,00 | 590,00 | 273,47 | 130,59 | 177,25 | 240,00 | 351,75 |
| T (minutos) | 1,78 | 9,80 | 4,56 | 2,20 | 2,95 | 4,00 | 5,86 |
| PL | 186,00 | 251,00 | 217,50 | 9,56 | 216,25 | 219,00 | 220,75 |
| PLM | 22,10 | 123,03 | 57,98 | 24,73 | 38,17 | 54,65 | 72,40 |
| PLC | 173,00 | 219,00 | 206,23 | 10,98 | 201,00 | 210,00 | 214,75 |
| PLCM | 17,60 | 123,03 | 55,58 | 24,73 | 35,33 | 52,87 | 67,68 |
| IPL | 75,00 | 100,00 | 94,70 | 4,91 | 93,06 | 96,00 | 98,12 |
| APc | 0,00 | 15,00 | 2,80 | 3,44 | 0,00 | 2,00 | 3,75 |
| EPA | 2,00 | 15,00 | 8,20 | 3,25 | 5,25 | 9,00 | 11,00 |
| EEN | 0,00 | 15,00 | 5,97 | 4,28 | 1,00 | 6,00 | 10,00 |
| EFLU | 0,00 | 33,00 | 6,55 | 7,99 | 2,00 | 4,00 | 8,00 |
T: tempo de leitura; PL: Palavras lidas; PLC: Palavras lidas corretamente; PLCM: Palavras lidas corretamente por minuto; IPL: Índice de precisão de leitura; APc: Autocorreção de precisão; EPA: Erros de pausa; EEN: Erros de entonação; EFLU: Erros de fluência.
Na Tabela 5, é apresentada a pontuação final do instrumento, com o desempenho da fluência de leitura e sua interpretação. Essa pontuação considera as variáveis representativas do AFLeT palavras lidas corretamente por minuto (PLCM), tipos de erros de prosódia (TEP) e questões totais de compreensão textual (QT) e seu percentil correspondente, transformado a partir dos dados brutos obtidos por cada escolar, de acordo com os critérios normativos do teste.
Tabela 5 Escore final e desempenho da fluência de leitura
| Variável | Categoria | Frequência (nº amostra) | Percentual |
|---|---|---|---|
| Interpretação Escore Final | Déficit de gravidade importante | 16 | 25,00% |
| Déficit moderado a grave | 1 | 1,60% | |
| Déficit | 4 | 6,30% | |
| Alerta para déficit | 16 | 25,00% | |
| Escore esperado para escolaridade | 27 | 42,20% |
Discussão
A leitura é uma atividade complexa na qual estão envolvidos diversos processos cognitivos, visuais, fonológicos, semânticos e linguísticos. O processo da leitura depende da decodificação das palavras, aprimorando para fluência e compreensão leitora (Caribé, 2017). A fluência leitora é considerada a habilidade de ler com precisão, automaticidade, expressividade, com velocidade e prosódia de forma adequada (Alves et al., 2021). A compreensão envolve competências como a fluência, o vocabulário e a motivação.
Nesse sentido, em relação à compreensão do texto, observamos que tanto as questões literais quanto às questões inferenciais encontram-se correlacionadas com a variável da PLCM, uma vez que a habilidade de compreensão se apresenta altamente associada ao amadurecimento da precisão do reconhecimento de palavras e da fluência leitora. Dificuldades na precisão da leitura podem ser decorrentes de déficits na decodificação. Conforme ocorre o domínio da decodificação, a taxa de leitura e da fluência aumenta (Alves et al., 2015; Martins & Capellini, 2019).
O leitor é capaz de realizar inferências e processar informações pela memória de trabalho. Ao término da leitura, acontece a retirada de significado do conteúdo escrito (Gentilini et al., 2020). Desse modo, o leitor, a partir de um texto narrativo, conforme foi utilizado na pesquisa, deve extrair o entendimento das questões literais e inferenciais, a partir do conteúdo apresentado.
Os achados, ilustrados na Tabela 1, mostram que houve relação entre a precisão de PLCM e compreensão textual em QL, QI e a QT também. Esses dados corroboram o estudo realizado por Cunha et al. (2017), mesmo que em ano escolar distinto, que apresentou na comparação da fluência e a compreensão leitora de escolares do segundo ao quinto ano do EF, com e sem dificuldades de aprendizagem e encontrou diferenças significativas no tempo de leitura. Ainda, nesse mesmo estudo, os autores observaram que os grupos sem dificuldades apresentaram desempenho superior, especialmente em compreensão de leitura, devido à precisão e rapidez na identificação de palavras. A decodificação efetiva foi indicada como fundamental para a compreensão do material lido.
O presente estudo, a partir de seu objetivo norteador, caracterizou o desempenho da fluência e compreensão de leitura, dos escolares do terceiro ano do Ensino Fundamental, considerando o período pós-pandêmico. Os achados neste estudo consideram fundamental que os profissionais clínicos da interface saúde e educação conheçam sobre o desenvolvimento da fluência leitora para que possam auxiliar os escolares que apresentam dificuldades nesta habilidade no decorrer dos níveis de educação básica (Pires et al., 2024). Isso justifica a importância e os resultados obtidos quanto ao escore final do instrumento AFLeT, visto que 57,9% da amostra não atingiu o nível satisfatório para a escolaridade.
Para que haja uma compreensão plena e que colabore para responder às questões relacionadas ao conteúdo, é necessário que o leitor elabore dois modelos de inferências: as inferências literais, as quais requerem respostas diretas e concretas e que podem ser encontradas no texto, e inferências implícitas, em que as respostas para essas questões não são encontradas explicitamente no texto, sendo necessário utilizar de conhecimentos prévios. Esse recurso é fundamental para construir um modelo de representação mental do texto (Cunha & Capellini, 2016). A literatura aponta, também, que, além das variáveis relacionadas à fluência e compreensão, outros fatores podem influenciar na compreensão leitora, como a motivação, as condições psicológicas, ambientais e fisiológicas, bem como, o interesse, conhecimentos prévios, habilidades atencionais e de memória por parte do leitor (Braz & Guimarães, 2021; Catts & Kamhi, 2017; Novaes et al., 2019).
Os testes, aos quais se tem acesso, são dedicados à fluência, ao processo de leitura e decodificação de palavras isoladas, apresentadas por listas (Meggiato et al., 2021). O AFLeT trata-se de um instrumento caracterizado por sua normatização, padronização, fácil e efetiva aplicação, avaliando todas as dimensões da fluência de leitura (precisão, velocidade e prosódia). Além disso, o nível de compreensão também está disponível a partir de um texto narrativo (Basso et al., 2019).
A automaticidade de leitura, sendo avaliada pelo critério de velocidade, influenciou diretamente a compreensão textual, sendo indicado aumento na decodificação e na fluência. Pode-se concluir que o desenvolvimento no processo de decodificação e fluência de leitura são preditoras para prevenir dificuldades na leitura e na compreensão.
O estudo de Alves et al. (2022) pesquisou a evolução da fluência de leitura de escolares dos anos iniciais do Ensino Fundamental, realizando uma análise comparativa do desempenho pré e durante o período da pandemia de COVID-19, em ensino remoto. Foram analisadas as mesmas variáveis de PLM e PLCM. A turma do 2º ano de 2021 sofreu impacto significativo nas taxas de fluência de leitura devido à pandemia. Constatou-se no estudo que foram identificados atrasos na fluência e precisão da leitura após um ano de ensino remoto para os alunos dos anos iniciais, sem atraso significativo nos anos seguintes.
Apesar disso, o presente estudo não apresenta os dados comparativos pré-período pandêmico, pois deteve-se em analisar as habilidades com o término da pandemia, mas nas taxas de PLM e PLCM, embora assemelhem-se, foi possível identificar que mesmo a leitura sendo realizada com uma taxa de tempo considerável, a precisão de leitura foi impactada negativamente, corroborando com os resultados do estudo citado.
No que diz respeito aos erros de precisão e à tipologia de erros apresentados pelos escolares: REG, NEO, DRC, S/S, PRL, PRLV, NR, INT, INV, OR, PRL, a maioria, ou seja, 55 escolares realizaram PRL, uma palavra é lida como uma outra palavra, mantendo a semelhança fonológica ou semântica. A investigação da tipologia de erros de leitura, além de indicar a estratégia que a criança está utilizando, também permite compreender a mudança de processos cognitivos ao longo do desenvolvimento (McGeown et al., 2013).
Os erros lexicais são aqueles em que uma palavra é lida como uma outra palavra real, foneticamente ou visualmente semelhante. Isso pode influenciar na fluência, uma vez que a criança comete erros ou lê de forma inapropriada a palavra, compromete os índices de precisão, causando impacto diretamente na fluência e reflexos na compreensão. No presente estudo, evidenciamos muitas trocas de PRL (75%), o que corrobora os achados nas Tabelas 2 e 3. Na literatura, este tipo de erro tem sido denominado de erro visualmente similar, paralexia verbal ou ortográfico. (Ávila, 2009; Kawano et al., 2011; Salles & Parente, 2007).
A condição mental do leitor é evidenciada nos modelos que ilustram o processo de reconhecimento visual da palavra, domínio e articulação. O reconhecimento visual é o primeiro movimento da leitura, envolve-se o acesso lexical e à memória de palavras. O “Modelo de Leitura de Dupla Rota” esclarece os processos cognitivos que estão envolvidos na leitura oral (rota lexical e rota fonológica) (Salles & Parente, 2007).
A análise dos erros cometidos na leitura de palavras pode ser perceptível quanto à rota de leitura que está sendo empregada pelo leitor durante o reconhecimento de palavras. Isso ocorre porque a leitura, quando realizada pela rota lexical, sendo caracterizada como a conexão direta entre a forma visual da palavra, o significado na memória léxica e da pronúncia pode gerar tipos de erros diferentes dos que são produzidos pela leitura na rota fonológica. Esta, por sua vez, é uma via utilizada por leitores iniciantes, baseada na decodificação de palavras desconhecidas (Pinheiro et al., 2008; Snowling & Hulme, 2013).
O estudo de Ávila (2009) revelou uma redução gradual e estatisticamente significativa nos erros de decodificação conforme aumento de seriação. Os resultados mostraram que os erros de leitura são comuns no processo de aprendizagem e aquisição da leitura, mas diminuem à medida que a escolaridade avança. Foi observado que os alunos do 4º ao 6º ano do Ensino Fundamental cometeram mais erros relacionados ao Processamento da Rota Lexical (PRL), evidenciando que a leitura por essa rota melhora progressivamente com o aumento da escolaridade.
Embora a variável de fluência, a taxa das PLCM receba cuidado em sua análise, em razão da sua facilidade de mensuração, neste estudo também foram considerados os erros de prosódia (Alves et al., 2022; Ávila, 2009; Martins & Capellini, 2014; Martins-Reis, 2023; Starling-Alves et al., 2023). Os escolares em anos iniciais estão em processo de aprendizado da leitura e decodificam o texto com lentidão e sem automaticidade, ignorando os sinais de pontuação e se expressando com alteração na prosódica. A partir desse fato, pode-se inferir a frequência de erros prosódicos que existem, tanto neste estudo quanto na literatura referenciada.
Porém, com o avanço nas habilidades de leitura, espera-se que os escolares superem esse estágio e a leitura torne-se fluente, com exceção dos casos de crianças que apresentam dificuldades de leitura, nas quais a obtenção da fluência é mais difícil (Breznitz, 2006; Machado & Freitag, 2019) ou, ainda, que evoluem para um possível transtorno específico de leitura. O leitor que não apresenta complicações na leitura avança e melhora na dimensão da automaticidade através do reconhecimento de palavras, e que, com a prática de ler, aumenta a velocidade na decodificação e no reconhecimento de letras para palavras de baixa frequência, o que faz com que a leitura se torne gradualmente mais precisa, rápida e fluente (Martins & Capellini, 2019).
Quando o processo de decodificação da leitura torna-se automático, os escolares utilizam menos as habilidades atencionais e de memória para decodificar e preparam o cérebro para tarefas mais difíceis, como a de compreender textos. A performance em prosódia na leitura oral, com entonações, pausas e a fluidez adequada demonstram que a primeira etapa da alfabetização foi desempenhada com êxito e tem-se, como resultado, uma melhor compreensão (Martins & Capellini, 2019).
O estudo de Martins e Capellini (2014) buscou relacionar a fluência e compreensão leitora em escolares do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Foram analisadas as dimensões de velocidade de leitura, expressividade e a compreensão leitora dos escolares. Os resultados encontrados no estudo indicaram que as dificuldades quanto à decodificação e à identificação dos sinais de pontuação podem trazer prejuízos à fluência na leitura e a compreensão. Conforme os achados, quando o escore de PLCM aumenta, também há aumento da velocidade (automaticidade) e o número de pausas e erros gerados nas questões de compreensão diminui.
Esses dados corroboram os achados deste estudo, em que a maior porcentagem de erros de prosódia apresentados pelos escolares refere-se aos erros de fluidez. Os erros de fluidez impactam diretamente nos erros de precisão, visto que quando há erros de fluidez na leitura, diminuem as PLCM, reduzindo, portanto, a velocidade, gerando impacto na fluência e na velocidade de acesso ao léxico.
O estudo conduzido por Assis et al. (2021) investigou as conexões entre a compreensão de leitura, a resolução de problemas de raciocínio quantitativo e as funções executivas em alunos do quinto ano do Ensino Fundamental. Os resultados demonstraram correlações entre as atividades de resolução de problemas, o reconhecimento de palavras e a compreensão de leitura, ressaltando a importância das inferências.
Os instrumentos usados incluíram o teste AFLeT, também utilizado neste artigo. Em relação às conexões entre compreensão de leitura e funções executivas, a atenção mostrou uma relação significativa apenas com o tempo de leitura. Isso sugere que a atenção é uma função executiva crucial para a leitura e compreensão. Segundo os resultados, quanto mais atento o aluno esteve, mais eficiente foi sua leitura e habilidade de compreensão. Em relação ao presente estudo, os achados ilustrados na Tabela 5 demonstram que as PLM se assemelhavam com as PLCM, entretanto, a média sem as PLC foi maior, sendo possível concluir que os escolares leem com uma taxa de tempo considerável, mas não de forma precisa, uma vez que a média de tempo de leitura foi de 4,56 minutos.
Considerado pelo Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) (Brasil, 2014) e a Base Curricular Nacional (BNCC), o fator determinante das crianças no primeiro ciclo do Ensino Fundamental é a alfabetização. Na atualidade, espera-se que os escolares sejam alfabetizados até o terceiro ano, em concordância à meta 5 do Plano Nacional de Educação (PNE), e espera-se que, ao longo dos anos, o escolar possua domínio pleno da leitura, escrita e compreensão.
Entretanto, são observadas as dificuldades na compreensão de leitura em grande frequência por professores, pesquisadores e clínicos. No ano de 2023, 56% das crianças das redes públicas no Brasil atingiram o nível de alfabetização estabelecido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Esse desempenho representa uma recuperação dos níveis de alfabetização anteriores à pandemia de COVID-19, uma meta estipulada pelo Ministério da Educação (MEC). O novo Indicador é superior ao registrado pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) em 2021 (Brasil, 2021b).
O estudo realizado por Martins-Reis et al. (2023) concorda com este fato. A pesquisa teve como objetivo verificar se a fluência e a compreensão leitora variam ao longo do terceiro ano do Ensino Fundamental, podendo ser utilizadas como indicadores de desempenho em leitura. Os resultados mostraram que a fluência leitora nos escolares do 3º ano não estava estabelecida, mas apresentou evolução gradual, juntamente da compreensão, ao longo do ano letivo, destacando a importância do monitoramento dessas habilidades como indicador de desempenho dos estudantes. Vale ressaltar a influência de fatores intrínsecos e extrínsecos nas dificuldades apresentadas, foram consideradas as habilidades linguísticas, cognitivas, socioeconómicas e ambiente escolar.
De acordo com os resultados encontrados no presente estudo, no que se refere à PLM, observou-se que a média não foi compatível com o esperado pela PNA (90 palavras por minuto), sendo os únicos valores acordados nas políticas públicas nacionais. Isso demonstra que o PNAIC, relacionado a esse estudo, na escola municipal adotada, não atingiu a meta, considerando o período pós-pandemia e a possibilidade dos dois anos remotos e/ou sem acesso ao material do primeiro e segundo ano do Ensino Fundamental. Nesse sentido, não se pode afirmar, mas pode-se inferir que a pandemia foi um fator contribuinte e impactou para esse desempenho acadêmico, na realidade estudada.
Starling-Alves et al. (2023) pesquisaram se o impacto do fechamento das escolas durante a pandemia de COVID-19 estava associado a lacunas nas habilidades de leitura de escolares brasileiros. Os autores realizaram uma análise longitudinal, quanto à compreensão e à fluência de leitura de escolares do 2º ao 4º ano em 2022, comparando com o desempenho do ano de 2019. Identificou-se a habilidade, mesmo com o período de ensino remoto.
Entretanto, quando comparados o desempenho de fluência e compreensão leitora dos escolares pré-pandemia (2019) e pós-pandemia (2022), houve lacuna de cerca de um ano, o que trouxe danos mais significativos na aprendizagem dos escolares em período de alfabetização. Nesse estudo, não foi possível realizar um comparativo longitudinal, no entanto, ao utilizar a informação sobre as lacunas evidenciadas no processo de fluência e compreensão leitora, as hipóteses corroboram com essa pesquisa.
Portanto, foi possível, evidenciar, a partir dos achados estatísticos e com a literatura pesquisada, o desempenho acadêmico, nos aspectos que envolvem a fluência de leitura e a compreensão, levando em consideração as variáveis quantitativas das taxas de leitura, do questionário, e análise qualitativa da tipologia dos erros de precisão. Considera-se esse estudo, destinado para a realidade, é passível de comparação com demais escolas municipais do interior do Rio Grande do Sul, mas, mesmo assim, deve-se estar em acompanhamento com as políticas nacionais que envolvem a alfabetização.
Considerações
O presente artigo responde ao objetivo norteador do centro da pesquisa, caracterizando os escolares do terceiro ano, em relação a fluência e compreensão leitora. Conclui-se que, para a população estudada, a maioria dos escolares (57,9%), não alcançou níveis satisfatórios no desempenho da fluência e compreensão de leitura, caracterizando como abaixo do esperado e alerta para déficit. As variáveis e taxas de leitura estudadas compreenderam a relação existente com a acurácia/precisão das palavras, impacto na fluência, e no entendimento das questões (literais e inferenciais) do texto.
Nesse sentido, indica-se atenção especializada, na interface saúde e educação para o aprendizado da leitura, aprimorando os níveis de decodificação, para fluência com velocidade, precisão e prosódia adequados, facilitando a compreensão leitora. Ademais, sugerem-se estudos longitudinais para acompanhar o impacto desses escolares nos demais anos da educação básica e nas exigências acadêmicas.













