Introdução
O Programa Residência Pedagógica (PRP) tem o objetivo de estabelecer uma aproximação da universidade com a escola que permita um aprofundamento na formação profissional dos acadêmicos, proporcionando-lhes oportunidades de criação e participação em experiências metodológicas e práticas docentes que busquem a superação de problemas identificados, no processo de ensino-aprendizagem. No PRP da Educação Física, a escola colabora, mostrando para os alunos os benefícios da prática regular de atividade física, construindo metodologias de ensino que propiciam a vivência de atividades prazerosas, assumindo, posteriormente, uma postura ativa na prática das atividades físicas, levando-os à consciência de sua importância.
Ao praticar atividades físicas, o aluno melhora seu desenvolvimento infantil, tendo em vista que o crescimento é um processo dinâmico e contínuo que ocorre desde a concepção até o final da vida, expresso pelo aumento do tamanho corporal (Ministério da Saúde, 2002). Durante esse processo, a interação entre genes e condições ambientais propicia uma excelente plasticidade adaptativa, explícita na variabilidade intra e interindividual “diferenças individuais” (Alfaro et al., 2008). O crescimento se constitui ainda como um dos melhores indicadores de saúde da criança, refletindo as suas condições de vida no passado e no presente. Todo ser humano nasce com um potencial genético de crescimento que poderá ou não ser alcançado, dependendo das condições de vida a que esteja exposto. Portanto, o processo de crescimento está influenciado por fatores intrínsecos (genéticos) e extrínsecos (ambientais), dentre os quais destacam-se a alimentação, a saúde, a higiene, a habitação e os cuidados gerais com a criança, que atuam acelerando ou retardando esse processo (WHO, 1995). Sendo assim, o crescimento ideal ou desejável só poderá ser alcançado quando as relações próximas a ele atuarem em harmonia (Delemarre-Van de Waal, 1993).
Crescimento somático é o período em que cada indivíduo desenvolve o tecido ósseo, muscular e também os órgãos; esse crescimento pode ser representado de várias maneiras e um exemplo é pelo peso e estatura. Este crescimento depende do local em que a criança está inserida. A escola, ao utilizar diversos recursos e estratégias, pode ajudar nesse processo de desenvolvimento.
Para a comparação de um conjunto de medidas antropométricas com um padrão de referência, podem ser empregadas várias escalas, e as de uso mais comum são o percentil e o Escore Z (WHO, 1986). O uso preferencial do Escore Z deve-se ao fato de que ele discrimina melhor os casos extremos (Goulart, 1997). Por esse motivo é uma ferramenta que segue sendo utilizada até a atualidade.
Estudos realizados em diferentes locais mostram a importância de analisar o crescimento somático. Roriz et al. (2012) relatam que as crianças de Maia, em Portugal, mostraram valores médios de altura, peso e índice de massa corporal (IMC) consistentemente superiores. Para Snége (2021), as crianças de São José dos Pinhais, no Brasil demonstram valores similares de estatura; quanto ao peso e ao IMC, os valores são superiores sobretudo a partir dos 8 anos para as meninas e dos 6 anos para os meninos. Bergmann et al. (2009) observaram que os valores de estatura das meninas apresentam um padrão muito semelhante ao dos meninos. Houve variabilidade no desenvolvimento entre as diferentes curvas percentílicas e em relação ao padrão internacional para os dois sexos (Bergmann et al., 2009). Segundo Fagundes & Krebs (2005) e Martins (2013) os meninos obtiveram em todas as idades valores médios mais elevados do que as meninas na estatura e na massa corporal nas idades iniciais.
No Brasil, os estudos epidemiológicos sobre crescimento somático e composição corporal de crianças com objetivo de construir referências locais são, ainda, escassos (Hobold et al., 2017). Nesse contexto, as cartas de referências são uma importante ferramenta para definirem valores normativos referentes ao crescimento de uma população e interpretar as variáveis como estatura, massa corporal e o IMC, que são considerados indicadores significativos da saúde das populações, podendo ser entendidos como “espelho da sociedade” (Karim & Qaisar, 2020).
É importante considerar que o território brasileiro tem proporção continental, o que envolve diversas culturas e etnias. Cada local possui particularidades bem distintas, dentre elas, o clima, condições de vida e os aspectos socioculturais, que são fatores importantes para o desenvolvimento infantil. Assim, há necessidade de estudos regionais para a construção de referências locais, se possível de todas as faixas etárias. Dito isto levanta-se a seguinte questão: as crianças da escola estão dentro do esperado?
Com base no exposto, o objetivo deste estudo foi verificar o crescimento somático com a prevalência pelo Escore Z dos indicadores peso corporal, estatura corporal e IMC por idade, e a interações entre idade e sexo pela variável peso corporal, estatura corporal e IMC.
Método
Este trabalho se caracteriza como uma pesquisa de campo, descritiva, do tipo transversal, com amostra de conveniência, não probabilística e com enfoque quantitativo.
Foi realizado em uma escola pública da rede municipal de ensino da cidade de Porto Velho, RO, participante do Projeto Residência Pedagógica do curso de Educação Física da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
A amostra foi composta por 177 alunos com idades entre 6 a 8 anos de ambos os sexos. Foi assinado pelos pais o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) aceitando a participação dos seus filhos no estudo.
Ao retornarem com as assinaturas do TCLE pelos pais, os alunos foram levados ao auditório com suas respectivas turmas para que fossem coletadas suas medidas antropométricas: peso, estatura e índice de massa corporal. Para coleta de dados, foram utilizados os seguintes instrumentos: balança elétrica com capacidade para 200kg, e uma fita métrica de 1,5m.
Para a avaliação do Escore Z, foi usado o programa WHO AnthroPlus e para a classificação foram usadas as tabelas de estatura, peso e IMC da Organização Mundial da Saúde (2007).
A pesquisa integra um projeto denominado Educação Física Escolar: perspectivas e práticas, aprovado no CEP/UNIR sob parecer número 4.630.177 (CAAE 41462720.0.0000.5300), que faz parte do Grupo de Estudo e Pesquisa Educação Física e Saúde (GEPEFS) institucionalizado na UNIR.
Análise estatística
Para análise dos dados, foi utilizado o programa SPSS versão 20, sendo primeiramente selecionadas as variáveis com curva de distribuição normal pelos testes Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-wilk (p>0,05), representadas pelas medidas de tendência central, média e desvio padrão e variação (valores mínimo e máximo). Para as variáveis categóricas, foram realizadas as frequências absolutas e relativas (%) com seus respectivos intervalos de confiança 95% (IC95%). O cálculo das prevalências (%) foi realizado pelo teste Qui-Quadrado. Para evidenciar as comparações entre as interações da idade e sexo com o peso corporal, estatura corporal e índice de massa corporal (IMC), utilizou-se a análise de variância (ANOVA one-way) com Post-Hoc de Sidak, adotando-se um nível de significância de 0,05%.
Resultados e Discussão
A partir dos resultados expostos foi possível observar que em geral, meninos e meninas aumentaram os valores médios das medidas de estatura, massa corporal e IMC com o avançar da idade (Snége, 2021).
Na Tabela 1 é perceptível que na amostra a presença de ambos os sexos é similar, e que, no peso para a idade, o excesso de peso está presente em 11,3% das crianças. Vale destacar a ausência do baixo peso na amostra. Modificações do hábito alimentar associadas a alterações demográficas, socioeconômicas e epidemiológicas mostram redução progressiva da desnutrição e aumento da obesidade (Batista & Rissin, 2003; Francischi et al., 2000). Quanto à estatura, apenas 5,1% dos escolares estão abaixo da média. No IMC para a idade, 19,8% dos escolares são avaliados com excesso de peso (Tabela 2).
Tabela 1 Distribuição da amostra representada pelas variáveis quantitativas de medida de tendência central, médias e dispersão, desvio padrão e variações (valores mínimo e máximo), e variáveis qualitativas categorizadas pelas frequências absolutas, relativas (%) e intervalo de confiança 95% (IC95%) das crianças, n=177
| Variáveis | Média | DP | Variação |
|---|---|---|---|
| Idade | 6,54 | 0,65 | 6,00 – 8,00 |
| Peso corporal | 24,22 | 6,02 | 14,15 – 41,50 |
| Estatura corporal | 1,23 | 7,91 | 1,03 – 1,45 |
| IMC | 15,90 | 2,63 | 10,10 – 24,60 |
| Escore Z peso/idade | 0,19 | 1,59 | −4,27 – 4,49 |
| Escore Z estatura/idade | 0,27 | 1,37 | −3,87 – 4,78 |
| Escore Z IMC/idade | −0,79 | 10,34 | −5,23 – 4,00 |
| n | % | IC95% | |
| Sexo | |||
| Feminino | 92 | 52,00 | 44,65 – 51,98 |
| Masculino | 85 | 48,00 | 40,78 – 55,34 |
| Idade / anos | |||
| 6 anos | 97 | 54,80 | 47,4 – 61,95 |
| 7 anos | 64 | 36,60 | 29,44 – 43,46 |
| 8 anos | 16 | 9,0 | 5,64 – 14,17 |
| Escore Z peso/idade | |||
| Peso adequado | 157 | 88,7 | 83,19 – 92,56 |
| Excesso de peso | 20 | 11,3 | 7,43 – 16,80 |
| Escore Z estatura/idade | |||
| Baixa estatura | 9 | 5,1 | 2,69 – 9,37 |
| Estatura adequada | 168 | 94,9 | 90,62 – 97,30 |
| Escore Z IMC/idade | |||
| Peso adequado | 142 | 80,2 | 73,74 – 85,42 |
| Excesso de peso | 35 | 19,8 | 14,57 – 26,25 |
*sem a presença de sobrepeso e obesidade; **Intervalo de confiança para prevalência de obesidade.
Tabela 2 Prevalência (%) da idade pelos indicadores do Escore Z peso/idade, estatura/idade e IMC/idade dos escolares
| Variáveis | Total | 6 anos | 7 anos | 8 anos | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| n | % | n | % | N | % | n | % | |
| Peso/idade | 0,368 | |||||||
| Peso adequado | 157 | 88,7 | 88 | 56,1 | 54 | 34,4 | 15 | 9,6 |
| Excesso de peso | 20 | 11,3 | 9 | 45,0 | 10 | 50,0 | 1 | 5,0 |
| Estatura/idade | 0,105 | |||||||
| Baixa estatura | 9 | 5,1 | 8 | 88,9 | 1 | 11,1 | 0 | 0 |
| Estatura adequada | 168 | 94,9 | 89 | 53,0 | 63 | 37,5 | 16 | 9,5 |
| IMC/idade | 0,004* | |||||||
| Peso adequado | 142 | 80,2 | 86 | 60,6 | 43 | 30,3 | 13 | 9,2 |
| Excesso de peso | 35 | 19,8 | 11 | 31,4 | 21 | 60,0 | 3 | 8,6 |
Prevalência *p<0,05 teste Qui-Quadrado; Excesso de peso (sobrepeso+obesidade).
Quando comparamos o IMC/ idade em relação ao considerado ideal pela Organização Mundial da Saúde (2007), é possível observar um desvio quanto a proporção esperada nas meninas. Isso gera um ponto de atenção, pois espera-se que elas estejam mais desenvolvidas nessa faixa etária.
Para as meninas, o peso corporal não varia muito em relação à idade, e para os meninos, conforme avança a idade a estatura aumenta sem diferença significativa (p<0,05), as interações ocorreram dos 6 para 7 e 8 anos com diferença significativa (p<0,05). A interação ocorreu apenas dos seis para sete anos (p<0,05). A estatura corporal apresentou variação e diferença significativa aos 6 anos (p<0,05); a partir daí, ambos os sexos foram idênticos (Tabela 3).
Tabela 3 Comparação entre as interações da idade e sexo com o peso corporal, estatura corporal e índice de massa corporal (MC)
| Peso corporal | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Idade | Sexo | Interações | ||||
| F | M | p-valor | 6 vs. 7 | 6 vs. 8 | 7 vs. 8 | |
| 6 anos | 23,30±0,85 | 21,24±0,74 | 0,072 | <0,001** | <0,001** | 0,597 |
| 7 anos | 26,34±0,87 | 26,74±1,13 | 0,785 | |||
| 8 anos | 26,03±1,75 | 30,65±2,26 | 0,107 | |||
| Estatura corporal | ||||||
| 6 anos | 1,21±1,01 | 117,34±0,89 | 0,002* | <0,001** | <0,001** | 0,005** |
| 7 anos | 1,26±1,04 | 125,25±1,34 | 0,577 | |||
| 8 anos | 1,32±2,08 | 131,68±2,69 | 0,922 | |||
| IMC | ||||||
| 6 anos | 15,58±0,39 | 15,31±0,34 | 0,609 | 0,016** | 0,626 | 0,920 |
| 7 anos | 16,37±0,40 | 16,93±0,52 | 0,403 | |||
| 8 anos | 15,00±0,81 | 17,46±1,05 | 0,065 | |||
*Comparação das interações idade e sexo com peso corporal; **Múltiplas comparações de idade com o peso pelo Testes Post Hoc do ANOVA de um fator – teste de Sidak p<0,05.
Dos 6 aos 7 anos o peso com relação a idade segue similar em ambos os sexos, com os meninos continuando a aumentar com o avançar da idade e as meninas seguem sem muita alteração dos sete aos oito anos. A massa corporal também aumenta em relação à idade, existindo grandes diferenças para as meninas em todas as idades (Gráfico 1).
Snége (2021) observou que os meninos apresentam valores superiores ao das meninas, sendo que as maiores diferenças entre os sexos se observam na faixa etária dos 8 anos. Encontrou-se, também, que a massa corporal aumenta em relação à idade, existindo grandes diferenças para as meninas em todas as idades. Dado quase semelhante ao deste estudo, com uma pequena diferença na faixa etária dos 6 anos, em que os meninos são menores que as meninas.
Ao observar os valores medianos de estatura é possível verificar aumentos progressivos entre os 6 e os 8 anos para meninas e meninos. A estatura segue quase igual em ambos os sexos, valendo destacar que dos 6 aos 7 anos os meninos têm uma estatura menor com relação as meninas. Porém, com crescimento maior dos 7 aos 8, tornando os valores similares, mas, ainda assim, as meninas continuam com uma estatura maior (Gráfico 2).
Bergmann et al. (2009) observaram que os valores de estatura das meninas apresentam um padrão muito semelhante ao dos meninos. Já em estudos feitos por Fagundes & Krebs (2005) e Martins (2013) nos quais foram analisados o crescimento somático e a composição corporal de escolares da faixa etária 6 a 7 anos, com relação ao gênero, os meninos obtiveram em todas as idades valores médios mais elevados do que as meninas na estatura e na massa corporal nas idades iniciais. Em parte, isso discorda do presente estudo, em que as meninas seguem tendo uma estatura maior.
Observa-se também, que o IMC tem um aumento linear ao longo dos anos para ambos os sexos, com os meninos tendo uma leve diferença com relação às meninas, mas aumentando com o decorrer do aumento da idade. Já na faixa etária dos 8 anos, há uma queda drástica na trajetória das meninas, provocando um alerta e abrindo espaço para uma investigação dos motivos que causam essa queda (Gráfico 3).
Esses dados são concordantes em parte com Snége (2021), que diz que em ambos os sexos os valores percentílicos do IMC seguem uma trajetória de aumento ao longo das idades. Se comparado à literatura encontrada (Snége, 2021), o ideal é que o IMC aumente enquanto ocorre o desenvolvimento da criança.
É bem evidente que há aumento no peso, estatura e IMC, com algumas exceções para as meninas (peso e IMC), nos quais há diferença significativa. Se comparar com estudos feitos em outras regiões, há uma forte variabilidade nos percentis em cada valor discreto de idade, tanto em meninas quanto em meninos, fato este que destaca a importância do estudo a nível local e a criação de referências mais próximas ao contexto de cada grupo de crianças e jovens (Snége, 2021).
Considerações
Conclui-se que o crescimento somático das crianças da escola é diferente em alguns aspectos se comparado com outros estudos e a média mundial, como os meninos serem menores em estatura do que as meninas em todas as faixas etárias pesquisadas. A massa corporal das meninas permanece semelhante dos 7 aos 8 anos e nos meninos segue aumentando.
O IMC foi um dado importante que nos chama atenção, principalmente no sexo feminino, pois com o avançar da idade nas meninas têm uma queda significante na trajetória de aumento, havendo a necessidade de investigar as causas desse fenômeno.
Os resultados desse estudo reforçam, ainda, a necessidade de considerar normas nacionais para avaliação do crescimento somático de crianças brasileiras, separando por regiões, para que as comparações sejam mais fiéis ao ambiente destacado. Por fim, recomenda-se novas pesquisas com uma população maior para que possam havercartas referenciais em Porto Velho.
















