A presente resenha discorre sobre o livro “Consciência Morfológica, Leitura e Escrita”, organizado por Márcia Maria Peruzzi Elia da Mota, publicado pela Editora Appris em 2022. O livro organiza-se em seis capítulos que trazem um panorama a respeito do papel da habilidade morfológica e sua importância para a aprendizagem. O prefácio é assinado por Alina Galvão Spinillo, professora titular da Universidade Federal de Pernambuco.
A consciência morfológica é uma das habilidades metalinguísticas responsáveis pela reflexão dos morfemas, que são as menores unidades linguísticas com significado próprio (Mota, 2022). Tal habilidade vem apresentando, a partir de evidências empíricas, contribuições para a aprendizagem da leitura e da escrita de escolares. Segundo a organizadora, há mais de três décadas ocorrem estudos nesta área, que, por sua vez, consolidam seu papel facilitador para a aquisição da língua escrita.
No primeiro capítulo, intitulado “Morfemas e a natureza do sistema alfabético”, Taís Turaça Arantes e Márcia Mota discorrem a respeito da base alfabética do português brasileiro, trazendo, teoricamente, uma explanação sobre os desvios de regularidade ortográfica da língua baseadas em Morais (2009). Na classificação de Morais (2009), os desvios de regularidade da língua portuguesa enquadram-se em quatro classificações: (i) palavras irregulares, (ii) palavras regulares diretas, (iii) palavras regulares contextuais e (iv) palavras regulares morfológico-gramaticais. Neste último, enquadram-se o foco dos estudos das autoras.
Adotar um arcabouço teórico de classificação da ortografia é relevante para entender o padrão e entendimento das autoras ao tratarem dos processos linguísticos bem como estabelecer relações de aproximação conceitual com os leitores. No capítulo, seguem apresentando a definição de morfemas e a classificação dos elementos mórficos (morfologia flexional e derivacional). É feita ainda uma apresentação sobre a importância dos morfemas para a leitura e escrita e o papel dos morfemas na aquisição do princípio alfabético.
No segundo capítulo, “Consciência Morfológica em línguas alfabéticas”, Christian Pineda Garcia e Sonalle da Fonseca e Rebecca Sampaio continuam a discussão anterior a respeito da importância da morfologia para a aprendizagem em línguas alfabéticas. Contudo, neste capítulo é apresentada uma síntese de revisão sistemática conduzida pelos autores sobre os efeitos da consciência morfológica em línguas com ortografias transparentes. Com isso, exploram estudos em diferentes línguas e apontam as contribuições da habilidade morfológica em cada uma, trazendo relações e traçando paralelos sobre o desenvolvimento da consciência morfológica. A revisão realizada destaca um número muito baixo de produções em línguas alfabéticas, considerando o impacto potencial desta habilidade com a leitura e a escrita. Com isso, constatam a necessidade de se explorar este componente em estudos para um melhor estabelecimento de suas relações com a aprendizagem.
No terceiro capítulo, “A contribuição da morfologia para o domínio da escrita ortográfica por crianças”, Jane Correa inicia apresentando rica discussão a respeito das regularidades e irregularidades das línguas. Parte então para a discussão da atuação da informação morfológica na escrita ortográfica, em que aponta a questão da sensibilidade morfológica para a percepção de morfemas lexicais e a importância do ensino explícito para tal. Por fim, A autora apresenta evidências empíricas a partir de pesquisas realizadas pela mesma e colaboradores ao longo dos anos sobre o uso da estratégia fonológica em detrimento da morfológica nos anos iniciais, seja pela frequência de escrita de uma mesma palavra, seja pela irregularidade que pode ser alcançada por ela. Para a autora, a estratégia morfológica atua mais tardiamente na escolaridade, fato explicado pelos morfemas se confundirem muitas vezes com sílabas ou se constituírem como unidades intrassilábicas.
A abordagem teórico-reflexiva do capítulo possibilita ao leitor identificar pontos importantes sobre a contribuição da morfologia para as línguas e seu impacto na aprendizagem. Ao final do capítulo, importantes evidências a partir de estudos nacionais de diferentes naturezas (comparativo, correlacionai e intervenção), são apresentados juntamente a seus resultados e contribuições para a aprendizagem, concluindo com a indicação da inclusão de práticas escolares que sistematizam explicitamente a morfologia no cotidiano escolar.
No quarto capítulo, “Consciência Morfológica e leitura: possíveis relações tendo como foco o português brasileiro”, Francis Justi e Cláudia Justi trazem um extenso número de evidências científicas a respeito da relação consciência morfológica, decodificação e compreensão de leitura em língua portuguesa. Didaticamente, os autores introduzem o capítulo explicando com uma gama de exemplos a perspectiva cognitiva da leitura, baseando o capítulo no Modelo Simples de Leitura (Gough & Tunmer, 1986; Hoover & Gough, 1990). Tal teoria demarca que o processo de leitura envolve dois mecanismos básicos: a decodificação e a compreensão da língua. No capítulo, observa-se a tentativa de levar o leitor a entender o envolvimento da morfologia nos processos de decodificação e compreensão, com robusto referencial teórico. Os autores defendem possíveis caminhos para entender a atuação da morfologia para a leitura, evidenciando possibilidades da contribuição da habilidade, em maior grau, para após o 3º ano de escolaridade, estabelecendo um possível caminho causal da consciência morfológica na compreensão de leitura: consciência morfológica → leitura de palavras morfologicamente complexas → decodificação → compreensão de leitura. Tal estabelecimento pode demonstrar o auxílio do construto para os processos de leitura.
No quinto capítulo, “Consciência Morfológica e prática pedagógica – habilidades (meta) morfológicas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): uma análise dos conteúdos propostos nos anos iniciais do Ensino Fundamental”, Viviane Barbosa, Magaly Minatel e Sandra Regina Guimarães apresentam estudo a respeito das habilidades morfológicas evidenciadas na BNCC e fazem relações com estudos recentes, assim como no segundo capítulo, subdivididos em morfologia flexional, derivacional e ambas as habilidades conjugadas. Embora ainda poucos estudos foram publicados sobre a BNCC devido sua promulgação relativamente recente (2018), o capítulo centra-se num panorama exploratório-descritivo a fim de trazer reflexões para o leitor de aproximações do documento oficial e a temática abordada no livro. De modo geral, o capítulo demonstra as relações entre ensino e aprendizagem dos componentes de leitura e sua relação com a morfologia. Destaca também o importante e crucial papel do professor, enquanto condutor dos processos de aprendizagem, para o despertar das habilidades metalinguísticas.
No sexto capítulo, “Consciência morfológica e os diferentes perfis de dificuldades de leitura” Silvia Brilhante Guimarães apresenta resultados de pesquisas que envolvem o papel da habilidade morfológica em dois grupos de leitores atípicos: os disléxicos e os leitores pouco habilidosos na compreensão de textos. De natureza exploratória, além de apresentar bases teóricas a respeito das dificuldades de leitura, traz relevantes informações sobre o processamento lexical e relações entre habilidades semânticas e sintáticas com a morfologia.
Com o aporte de Ehri (2005), o capítulo destaca a facilitação da leitura de palavras polissílabas por meio das conexões morfológicas, reduzindo as demandas de memória operacional fonológica. Quanto ao sucesso no processo de leitura, a abordagem baseia-se na Teoria da Qualidade Lexical, de Perfetti (2007). A teoria exalta o processo de decodificação enquanto primordial para o processo de compreensão. A autora, no entanto, a partir da hipótese do déficit fonológico traz as contribuições das pesquisas que vêm indicando as possibilidades que a morfologia apresenta enquanto habilidade subjacente à leitura e suas contribuições nos quadros de dificuldades de leitura em geral.
A consciência morfológica é uma das três habilidades metalinguísticas que vêm sendo apontadas como importantes para o processo de alfabetização (Mota, 2009). Em suma, a habilidade voltada à reflexão dos morfemas, de fato, apresenta contribuições robustas (Correa et al., 2021, Guimarães et al., 2025; Justi et al., 2023, Sousa & Mota, 2025a; 2025b; Vinagre et al., 2023) tanto para a aquisição quanto para o desenvolvimento e uso prático da língua.
A estimulação desta habilidade, bem como as demais habilidades metalinguísticas, deve estar presente nos currículos escolares e instruções de forma explícita, de modo a contribuir e facilitar a aprendizagem dos educandos. Com isso, o livro aqui resenhado é fonte de atualização na área da metalinguagem com contribuições importantes para referenciação teórico-prática de pesquisadores, profissionais clínicos e da área educacional.












