Introdução
Os programas e serviços de acolhimento universitário não vêm conseguindo acompanhar a crescente demanda em saúde mental nas universidades, sobretudo nos anos pós-pandêmicos. A inserção na universidade é acompanhada por desafios intensos que exigem adaptabilidade e resiliência por parte dos universitários. Ao ingressarem, esses estudantes se deparam com mudanças nas redes de apoio, nos relacionamentos interpessoais, podem precisar se mudar de cidade e da casa dos pais, precisam se adaptar à nova exigência acadêmica, necessitam ser mais autônomos e se ajustar diante da excessiva carga de atividades e avaliações (Faria et al., 2023; Govene et al., 2025; Khaira et al., 2023). Outras questões desafiadoras são as cobranças por resultados, podendo passar também por questões de falta de recursos financeiros e pelo próprio amadurecimento da transição da adolescência para a vida adulta (Frajerman et al., 2019; Rossato et al., 2022; Senna & Dessen, 2015).
Pesquisas documentam altas taxas de problemas de saúde mental entre estudantes universitários (Deng et al., 2021; Ghizoni et al., 2024; Li et al., 2022; Tan et al., 2023; Wang & Liu, 2022) e fortes associações desses problemas com comprometimento do papel acadêmico, além de moderada associação com problemas de saúde física (Cheung et al., 2020; Wilks et al., 2020). A literatura tem evidenciado que o ingresso no Ensino Superior representa uma fase muito delicada para a saúde mental, havendo pressão pelo bom rendimento acadêmico e necessidade de uma postura mais autônoma para tomada de decisões, de gestão do tempo, de adaptação financeira, de escolha da carreira, bem como todos os desafios desenvolvimentais esperados para a transição para a vida adulta, podendo impactar não somente na manutenção do estudante na universidade, mas também na qualidade do estudo e da saúde mental de forma geral (Dias et al., 2019; Ramón-Arbués et al., 2020).
Toda essa pressão acadêmica associada à necessidade constante de aprovação em provas e exames pode atuar como um estressor crônico, levando à depressão, com sintomas como anedonia e fadiga, e até ao burnout. É possível, ainda, que se estabeleça o quadro de comorbidade burnout-depressão. Os estudantes, atualmente, também não se sentem protegidos profissionalmente. A economia instável, agravada pela pandemia mundial de covid-19, torna incerta a oferta de vagas de trabalho (Wang et al., 2024). Os jovens contemporâneos lidam com os prejuízos do uso, muitas vezes excessivo, de redes sociais, o que os torna ainda mais suscetíveis ao isolamento social, baixo desempenho acadêmico, depressão, ansiedade, má qualidade do sono, retraimento e mudanças de humor (Ancco et al., 2025; Li et al., 2025).
Para responder à demanda por saúde mental dos universitários, têm sido reportados na literatura diversos modelos de programas e intervenções voltados a esse público (Caporale-Berkowitz, 2022; Garrick, 2015; Silva et al., 2022). Esses programas possuem diferentes estruturações e buscam responder institucionalmente ao desafio de receber no Ensino Superior um público cada vez mais suscetível aos transtornos mentais, sobretudo pensando no período pós-pandêmico.
O acolhimento tem sido abordado de maneira mais ampla, dissociando-se do papel exclusivo de intervir nas ações assistenciais, direcionando-se mais para o bem-estar do estudante em diversos fóruns, em ações de promoção de saúde e em sua inserção em programas ofertados pelas diferentes unidades de ensino. Cientes de todos os desafios enfrentados pelos discentes, destacam-se os serviços ligados a cultura, esporte, lazer, acolhimento entre pares, aconselhamento, apoio pedagógico, assistência psicológica e psiquiátrica (Scorsolini-Comin et al., 2020; Nogueira-Martins & Nogueira-Martins, 2018).
Isto posto, fica evidente a necessidade de conhecer, ampliar e aprimorar os programas e serviços que vêm sendo implementados e praticados com sucesso no mundo. Conhecer esses programas, o fluxo de atendimento e reduzir os estigmas que impedem a procura pelos serviços parece ser a melhor forma de mitigar o sofrimento psíquico do público universitário. Diante do exposto, este estudo teve como objetivo identificar os programas institucionalizados em acolhimento estudantil voltados a graduandos, sintetizando a literatura da área.
Método
Foi realizada uma revisão integrativa da literatura, de acordo com as recomendações do Preferred Reporting Items for Sistematic Reviews and Meta-Analyse Protocols [PRISMA] (Moher et al., 2009) para a execução de buscas, análise e descrição sistematizada. A questão norteadora foi desenvolvida por meio da estratégia PICO (População, Intervenção, Comparação e Outcomes/Desfecho), estabelecendo a seguinte questão norteadora: “Como se caracterizam a aplicação, a avaliação e os resultados disponíveis sobre os programas e serviços de acolhimento estudantil voltados a estudantes universitários da graduação?
O levantamento dos dados foi realizado ao final de 2024, cotejando publicações veiculadas entre janeiro de 2013 e dezembro de 2024 nas bases/bibliotecas Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), National Library of Medicine [USA] (PubMed), Scopus e Psychology Information (PsycINFO). A estratégia de busca foi montada com o auxílio de um pesquisador com experiência em procedimentos de revisão de literatura. Os descritores utilizados em português, inglês e espanhol foram consultados previamente nessas bases/bibliotecas e assim combinados: ((((students OR university students OR higher education students) AND (universit* OR higher education OR education, higher) AND (counseling psychotherapy OR student health service* OR mental health services OR mental health programs OR higher education policy OR health promotion OR promocion de la salud) AND (intervention*)))).
Os critérios de inclusão estabelecidos foram: (a) artigos escritos em inglês, português ou espanhol; (b) artigos realizados com estudantes universitários de graduação; (c) artigos que abordassem programas e ou serviços institucionalizados de acolhimento universitário; (d) artigos disponíveis para leitura na íntegra. Já os critérios para exclusão foram: (a) teses, dissertações, livros, capítulo de livros, revisões de literatura e estudos de caráter teórico; (b) artigos que fugiam ao tema ou que o abordassem de modo tangencial; (c) artigos com enfoque em outra população que não fosse estudantes universitários da graduação; (d) artigos repetidos; (e) artigos em idioma diferente do português, do inglês e do espanhol; (f) artigos que não permitissem responder à questão norteadora.
Após as buscas, os resultados encontrados foram inseridos no software Rayyan (Ouzzani et al., 2016). Este software é utilizado para organizar, analisar e selecionar os resultados de maneira sistemática. A análise das evidências ocorreu por dois juízes independentes e, nos casos de discordância, um terceiro juiz decidiu sobre a inclusão ou exclusão. Todos os juízes possuíam experiência com estratégias de revisão. Um formulário foi construído pela primeira autora para padronizar e inserir as informações sobre autores, ano de produção, país de origem, instrumentos utilizados e principais resultados. A síntese dos resultados será apresentada e discutida por meio dos estudos recuperados.
Resultados
A estratégia de busca identificou 5988 estudos, sendo, PubMed (n=1868), PsycINFO (n=3931), Scopus (n=84), e LILACS (n=105). A plataforma Rayyan excluiu 1838 estudos duplicados. Após a análise do título e resumo, conforme os critérios de elegibilidade, foram excluídos 4150 artigos, em função da incompatibilidade com o objeto do estudo, por não refletirem a população de graduandos ou por não abordarem programas já instituídos nas universidades.
Vale ressaltar que diversos estudos evidenciaram uma tendência ao uso de abordagens temáticas, ferramentas alternativas e intervenções pontuais no atendimento ao graduando, com a seguinte distribuição: uso de aplicativos/intervenção digital/teleatendimento (n=94), uso de games (n=6), IA/chatbot (n=2), abordagem antiestigma (n=34), atendimento entre pares (n=16), atenção plena (n=29), atendimento com abordagem de Psicologia Positiva (n=13), atendimento com abordagem TCC/ACT (n=22), uso de atividades físicas/biodança (n=5), Yoga (n=3), Tai Chi (n=1), terapia com animais (n=1), acolhimento com música (n=1), uso de pintura/arte (n=1), religiosidade/espiritualidade (n=3), mensagem de texto (n=3), vídeo animado/vídeo (n=3), redes sociais (n=2), autogestão da saúde (n=1), coaching (n=2), fotovoz (n=1), sentido da vida/logoterapia (n=1), abordagem corpo e mente (n=1), RCI/intervenção de resiliência e enfrentamento (n=2), reunião sobre uso de álcool e drogas (n=2), intervenção grupal exploratória (n=3), intervenção breve sobre suicídio (n=1), treinamento de gatekeeper (n=2), parceria entre universidades (n=1), liga acadêmica (n=1), totalizando 258 registros. Embora esses estudos fujam do escopo proposto, evidenciam a busca por novas formas de ampliar e melhorar o atendimento em saúde mental para o público universitário, utilizando recursos mais práticos, de baixo custo e acessíveis, dada a demanda crescente.
Após a aplicação dos critérios de elegibilidade e feitas as exclusões, 22 artigos compuseram o corpus de análise desta revisão. Desse total, oito são provenientes dos Estados Unidos, quatro do Canadá e dois do Brasil. Austrália, Reino Unido, Países Baixos, Cingapura, Índia, Itália e Irlanda tiveram um registro cada. Um artigo foi desenvolvido em uma colaboração entre Reino Unido e Áustria.
Todos os programas mostraram algum grau de efetividade e redução do impacto biopsicossocial. A distribuição temática se deu da seguinte maneira: cinco artigos sobre aconselhamento, quatro sobre centros de atendimento e serviços de bem-estar e saúde mental, dois para adictos e pessoas em recuperação, três sobre programas de intervenção precoce/suicídio, um programa de atendimento entre pares, um programa especializado para atendimento a muçulmanos, um programa de letramento em saúde mental, um programa em implantação na Índia, dois sobre distribuição/qualidade e agilidade dos programas, um programa para desenvolver resiliência, um programa de atendimento em um só dia, um programa de atendimento remoto e um de integração de serviços.
O Quadro 1, a seguir, apresenta informações que sintetizam o tipo de intervenção e os principais resultados obtidos com as intervenções apresentadas nos estudos. Após a descrição do corpus, a literatura recuperada será discutida em detalhes.
Quadro 1 Síntese do tipo de intervenção e dos principais resultados obtidos (n=22)
| Citação e país | Tipo de intervenção/programa | Principais resultados/efeitos |
|---|---|---|
| Day & Trainor (2024) Reino Unido | Programa BTW (Better than well) voltado aos adictos (álcool, drogas, pornografia, vícios cibernéticos); Tratamento de compulsão. | Recuperação dos usuários de álcool; redução de recaída no uso de drogas; redução da evasão universitária; psicoeducação. |
| Anderson et al. (2024) Estados Unidos | Programa ICS (Intensive Clinical Service) para universitários com transtornos mentais e comprometimento funcional significativo; tratamento ambulatorial baseado em Terapia Comportamental Dialética; aconselhamento; serviços psiquiátricos; tratamento multidisciplinar. Foram ofertadas duas modalidades de atendimento – telessaúde e presencial. | Redução significativa dos sintomas clínicos associados ao transtorno de personalidade borderline; redução de sofrimento psicológico geral percebido; redução significativa dos sintomas associados ao trauma. A intervenção pautada em telessaúde demonstrou redução significativa no total de angústia comparada com os serviços presenciais. |
| Awaad et al. (2024) Estados Unidos | Programa desenvolvido para garantir a saúde mental de muçulmano; psicoterapia | Quebra de estigma sobre a saúde mental; boa adesão; avaliação positiva do programa. |
| Read et al. (2023) Canadá | Avaliação de programas já implementados em universidades canadenses; análise de compatibilidade com critérios do YMH (Youth Mental Health); busca de alta qualidade de vida para os universitários a partir da avaliação das informações de sites governamentais e institucionais, obtidas por e-mail ou telefone. Artigo produzido com fontes de dados secundárias. | 84% dos programas apresentam suporte 24 horas; 92,5% apresentam psicoterapia; 25% apresentam avaliação clínica inicial; 37% apresentam terapias múltiplas; tempo médio de espera é de 72 horas. |
| Jaisoorya et al. (2023) Índia | Programa JEEVANI (primeiro serviço de saúde mental universitário indiano); acolhimento e triagem para identificar, intervir e encaminhar; tratamento precoce; psicoterapia; suporte acadêmico; apoio pedagógico; trabalho em grupo para problemas relacionais. | Avanços significativos no mapeamento de sintomas; encaminhamento ampliado; quebra de estigma na procura pelos serviços. |
| Van de Pol et al. (2022) Países Baixos | Programa preventivo de desenvolvimento pessoal e profissional; aconselhamento e controle de estresse para estudantes de medicina. | Desenvolvimento pessoal, profissional; promoção de bem-estar. |
| Franzoi et al. (2022) Itália | Avaliação da presença de serviços oferecidos aos graduandos de cerca de 2800 universidades da Europa. Artigo produzido com fonte secundária de dados. | Grande número de universidades oferece serviços voltados para o aconselhamento de carreira e atendimento demandas de alunos com deficiência ou com dificuldades de aprendizagem. Poucas universidades ofertam aconselhamento de cunho psicológico, serviços de psicoterapia, serviços psiquiátricos, aconselhamento em grupos ou psicoeducacional. Universidades de médio porte ou localizadas no norte da Europa tendem a ofertar mais serviços de atendimento aos graduandos que as de pequeno porte. |
| Artime et al. (2022) Estados Unidos | Projeto de implementação da TCC (Terapia Cognitivo Comportamental); foco em trauma. | Resultados positivos na superação de traumas; avaliação positiva por parte de estudantes, gestores e família. |
| Irish et al. (2021) Reino Unido e Áustria | Programa PLUS (Personality and Living of University Students), de caráter preventivo e com intervenções psicológicas online para sintomas mentais comuns. | Pouco engajamento; aplicação online foi um facilitador, sugerindo flexibilidade do programa; uso de lembretes por email contribuiu para mitigar esquecimentos. |
| Citação e país | Tipo de intervenção/programa | Principais resultados/efeitos |
| O’Sullivan et al. (2021) Irlanda | Programa de treinamento baseado na TCC Treinamento em um único dia Workshop sobre resiliência e estratégias de enfrentamento | Auxiliou no enfrentamento de situações estressantes; conscientizou sobre a importância da proteção da saúde mental. |
| Suresh et al. (2021) Canadá | Programa PSC (Peer Suport Center); atendimento entre pares. | Melhorou a autoestima dos estudantes, mas foi avaliado como pouco relevante pelos estudantes. |
| Games et al. (2020) Cingapura | Programa sobre resiliência; prevenção de estresse, ansiedade e depressão; psicoeducação nos constructos resiliência e autoestima. | Redução de estresse, ansiedade e depressão; melhora da autoestima; não houve resultados significativos em relação à resiliência. |
| Burke et al. (2020) Estados Unidos | Programa de detecção precoce voltado a universitários com autorrelato de sintomas psicóticos e depressivos. | Programa viável para triagem de saúde mental e intervenção precoce no campus. |
| Muir-Cochrane et al. (2019) Austrália | Voltado a estudantes com problemas de saúde mental; psicoeducação e foco em pontos fortes dos universitários. | Melhorou a autoestima e a autoconfiança; aumentou a motivação; reduziu os estigmas relativos à saúde mental. |
| Vallianatos et al. (2019) Canadá | Programa ACESS OM UA (Acess Open Minds University of Alberta), com foco em alunos do primeiro ano. | Acesso mais rápido aos serviços; agilizou a detecção de problemas socioemocionais; garantiu a continuidade dos tratamentos. |
| Morris et al. (2019) Estados Unidos | ITEAM (Intensive Treatment Education Assessment and Management); triagem, atendimento e educação de carreira; atendimento psicológico; educação para carreira; Programa baseado na Terapia Comportamental Dialética (TCD). | TCD muito bem avaliada para universitários de alto risco, grupos com menor condição socioeconômica, atletas e grupos minoritários. |
| Turner et al. (2018) Estados Unidos | Análise de integração dos serviços multidisciplinares dos universitários. | Falta serviço de saúde mental; reduzido serviço de medicina multiprofissional; sobrecarga da atenção primária; aumento da sensação de sofrimento percebido. |
| Murakami et al. (2018) Brasil | CAEP (Centro de Apoio Educacional e Psicológico); triagem; psicoterapia breve e aconselhamento profissional. | Alta relevância dada à amplitude quantitativa de atendimentos. |
| Ramos et al. (2018) Brasil | Projeto SUA (“Sou Universitário, e agora?) de acolhimento a calouros; triagem; psicoterapia e oficinas de temas diversos. | Oficinas auxiliaram na socialização e vida acadêmica; avaliações positivas dos serviços disponibilizados; espaço para discussão de temas universitários. |
| Marcotte et al. (2018) Canadá | Programa de prevenção do sofrimento psíquico para jovens calouros, baseado na TCC (Terapia Cognitivo Comportamental). | Efeitos positivos relevantes nos sintomas de depressão e ansiedade. |
| Seritan et al. (2015) Estados Unidos | Centro de bem-estar do estudante; triagem e aconselhamento. | Maior acesso à saúde mental e aumento dos índices de bem-estar dos estudantes. |
| Rivero et al. (2014) Estados Unidos | Programa de intervenção precoce para alunos com risco de suicídio. | Nível de evasão mínimo; significativo efeito positivo nas notas do semestre; conexão com a rede de apoio; conscientização sobre os serviços vitais. |
Discussão
A Association for University and College Counseling Center Directors (AUCCCD), que representa uma ampla gama de profissionais e instituições universitárias, fornece um histórico regular sobre serviços de aconselhamento e saúde mental e argumenta que não existe uma única estrutura organizacional que seja a ideal. A AUCCCD faz recomendações sobre fatores a serem considerados em um centro de aconselhamento, baseadas em necessidades e recursos específicos de cada unidade educacional. Defende um modelo de assistência colaborativa, independentemente da estrutura da organização (Mitchell et al., 2019). Assim como os universitários, o serviço de saúde mental também é diverso, peculiar e complexo.
Embora os serviços sejam insuficientes para atender à crescente demanda, as iniciativas em saúde mental apresentadas nesta revisão parecem desenvolver políticas de fortalecimento dos estudantes, ampliando a oferta de intervenções, facilitando o acesso, realizando psicoeducação e buscando o banimento dos estigmas para que os estudantes conheçam os serviços e identifiquem práticas de fortalecimento e enfrentamento (Fonseca & Soares, 2023). É fundamental que tais intervenções estejam ao alcance dos estudantes com demandas de saúde mental, compondo uma cultura de cuidado que não estigmatiza, mas que amplia as possibilidades de acolhimento. A universidade também precisa ser um espaço de cuidado em saúde mental e não apenas formar profissionais capazes de oferecer esse cuidado, como nos casos dos cursos das áreas de ciências da saúde. Essa reflexividade precisa fazer parte dos currículos universitários, possibilitando a formação de profissionais de saúde também capazes de refletir sobre suas próprias condições, suas limitações e formas de potencialização de suas fortalezas.
A literatura aqui recuperada reforça a necessidade de manter um monitoramento constante desses programas e dessas intervenções, a fim de garantir que os interessados continuem repensando a saúde mental e suas melhores práticas (Gaiotto et al., 2022). Isso é essencial, sobretudo considerando o contexto pós-pandêmico, que ainda guarda marcas de um longo período de incertezas e restrições que afetou estudantes em níveis globais. Assim, a promoção de saúde mental ganha destaque por envolver formas de tratamento que incluem estratégias de psicoeducação, além de repertórios em educação em saúde que podem estar presentes nas universidades de modos distintos, adaptados a cada contexto e dialogando com estruturas existentes, a exemplo de ações voltadas a estudantes de graduação e de pós-graduação. O olhar para a promoção de saúde, nesse sentido, permite a construção de uma cultura perene de cuidado, incentivando que todo o público universitário deva, em alguma medida, voltar sua atenção à saúde mental, mesmo quando não há sintomas instalados ou um histórico de adoecimento psíquico.
É fundamental que as intervenções foquem no grupo, na troca de experiência e no senso de pertencimento. Precisam acompanhar a demanda dos universitários, gerada pelo sofrimento psíquico característico da fase biopsicossocial e pelo momento delicado de transição e adaptação à universidade. No jovem contemporâneo, apresentam-se, ainda, questões ambivalentes ligadas à cibercultura. Encontramos jovens hiperconectados e multifacetados que lidam com o excesso de informação e, embora haja ganhos na agilidade de informações, a adição em tecnologia tende a promover isolamento social, negligência com relação às atividades e a si próprios, o que pode significar ameaça à saúde física e mental, incluindo desconforto corporal, distúrbios do sono e sintomas depressivos intensificados (Ancco et al., 2025; Bai et al., 2024).
Assim, as tecnologias digitais de informação e comunicação devem ser um ponto de atenção de programas e intervenções voltadas a esse público. Podem compor estratégias importantes no sentido de mitigar os efeitos do isolamento e do distanciamento, por exemplo, nas intervenções remotas realizadas, sobremaneira, durante o período pandêmico (Silva et al., 2023), mas não podem substituir a interação humana e a possibilidade de que o cuidado se efetive de modo presencial. A proximidade com o outro pode favorecer a construção e o fortalecimento de vínculos com profissionais de saúde e entre os pares universitários, desenvolvendo um senso de pertencimento e de fortalecimento de uma rede de apoio social.
A literatura recuperada na presente revisão demonstra uma preocupação constante por repensar a saúde mental e o bem-estar nas universidades. As áreas responsáveis pelas políticas de atendimento psicossocial a estudantes têm se mobilizado na produção de diferentes intervenções. Reportamos, nesse levantamento, a implantação de intervenções digitais, os atendimentos em diversas abordagens, o uso de técnicas adaptadas para cada tipo de sofrimento psíquico e grupo específico.
Existe a preocupação legítima em atender esse público respeitando as peculiaridades de cada indivíduo, incorporando um olhar mais atento aos marcadores interseccionais de gênero, raça/cor, classe e origem, por exemplo, o que pode permitir um cuidado mais efetivo e urgente a populações com maior estigma, a pessoas que professam religiões com menor acesso aos cuidados de saúde mental, a universitários estrangeiros e refugiados, entre outros marcados por meios vulnerabilidade psicossocial. As estratégias, para tanto, devem envolver atendimentos bilíngues e culturalmente referenciados, a fim de que se possa, de fato, atingir um público em sofrimento e que, de outro modo, não acessaria a rede de cuidados em saúde mental para além dos limites da universidade (Kirschner et al., 2022).
Alguns estudos trouxeram pequenas adaptações ao que já se pratica institucionalmente, como a criação de um novo centro, a inclusão de atendimentos remotos, entre outros. Um desses estudos chama a atenção por sua amplitude. Trata-se do estudo descrito por Van de Pol et al. (2022), um programa aplicado em uma universidade de Medicina, que é oferecido a 100% dos alunos, de forma obrigatória, ao longo dos seis anos de curso. Essa abrangência garante que todos sejam acolhidos, favorece o letramento em saúde mental e rompe com as questões do estigma, já que, se todos têm acesso, não há discriminação pessoal ou externa. O estudo revela avanços significativos em direção a uma vida de qualidade na universidade e, certamente, fora dela. É preciso lembrar, entretanto, que se trata de uma universidade de Medicina, nos Países Baixos, cuja população é de cerca de 18 milhões de pessoas, com renda per capita de aproximadamente 63000 dólares ao ano (World Bank, 2024). Este recorte, certamente, não representa a realidade de muitas outras universidades. Trata-se de um modelo quase ideal, que talvez não possa ser reproduzido, mas pode servir como um norte na busca por melhoria contínua em direção à saúde mental desse público.
Em outra realidade econômica, social e cultural, analisamos o estudo de Jaisoorya et al. (2023). Trata-se da implantação do primeiro serviço estadual de saúde mental na Índia, abrangendo 66 faculdades e quase 60.000 alunos. Em termos contextuais, são cerca de 1,4 bilhão de pessoas, com renda per capita de 2484 dólares ao ano (World Bank, 2024). O estudo refere a construção de um programa baseado no treinamento de conselheiros para identificar, intervir e encaminhar casos de adoecimento mental de forma precoce. A equipe trabalha em sistema de cuidados escalonados, conscientizando e reduzindo o estigma da procura por saúde mental. Apenas nos primeiros cinco meses, atendeu 2315 estudantes, em sua maioria mulheres e de classes sociais mais baixas. As principais demandas eram de ansiedade e depressão, com 54 casos de doença mental severa e 68 encaminhamentos para especialistas. Mesmo diante das dificuldades, isso demonstra o que já foi citado: o mundo está se conscientizando e buscando melhorias no campo da saúde mental, sobretudo de grupos universitários, fragilizados pelas demandas comuns da sociedade, somadas às demandas da condição acadêmica.
A presente revisão evidenciou que a literatura científica, de forma uníssona, reconhece a importância do bem-estar para os jovens universitários. Deng et al. (2021) também enfatizam que, evidentemente, a triagem e a intervenção em saúde mental devem ser uma prioridade máxima para universidades e faculdades durante a pandemia, assim como no período pós-pandêmico, uma vez os efeitos da covid-19 poderão ser de longo prazo.
A revisão evidenciou que existem programas institucionalizados de todos os tamanhos e abrangências, além de intervenções pontuais sendo estudadas e aplicadas para serem implementadas de forma mais ampla e intensiva. Todas essas novas práticas, todos os programas, as novas formas de pesquisar, gerir e trabalhar saúde mental e acolhimento indicam a consciência de que negligenciar a saúde mental não é mais possível.
Hoje já se sabe que para melhorar a qualidade de vida, garantir a excelência acadêmica e a permanência do estudante na universidade é preciso acolher, cuidar e amparar esse público. Esta revisão comprovou que as universidades têm buscado, sim, melhorar, ampliar e repensar a saúde mental, o bem-estar e o acolhimento. Diante disso, entendemos que mais estudos com esta temática devem ser realizados para que se renovem as melhores práticas, por meio de intervenções ou programas bem-sucedidos, sobretudo em países de baixa renda, como os africanos, onde não foi localizado qualquer estudo a respeito.
Considerações
Os estudos levantados mostram uma gama importante de programas e serviços voltados aos universitários aplicados em países de diferentes realidades sociais, culturais, econômicas e políticas. O levantamento indica um interesse mundial na saúde mental dos universitários, com alguma exceção em países africanos, onde possivelmente a temática de saúde mental em universitários é pouco discutida e investigada. Os estudos abordam mais sobre a implantação dos programas do que sobre o resultado efetivo na saúde mental dos estudantes. A maioria dos estudos informam melhoras, em maior ou menor grau, mas talvez pela abrangência do construto os resultados só possam ser avaliados no longo prazo, por meio de escalas psicométricas aplicadas de forma longitudinal.
Entre as limitações deste estudo, destaca-se a identificação de poucos estudos que atenderam aos critérios de inclusão. Ampliar as bases de busca e mesmo a estratégia da revisão pode ser importante para próximos levantamentos. Como referido ao longo da revisão, foram identificados muitos estudos referentes a intervenções pontuais, mas poucos abordando programas institucionalizados. Esse movimento pode indiciar a existência de muitas iniciativas voltadas à saúde mental desse público, mas poucas que se mantêm de modo mais sistematizado ao longo do tempo. É importante considerar que muitos são os esforços necessários à implementação e sustentação de um programa no longo prazo, o que pode ser atravessado por elementos relacionados, por exemplo, à sucessão de diferentes gestões nas universidades. Assim, é importante que programas sejam desenvolvidos em uma perspectiva apartidária e que possa fazer parte de uma política institucional mais ampla e perene.
Em contextos com restrições socioeconômicas e reduzido investimento em educação, como no caso brasileiro, as ações existentes ainda são pontuais, centralizadas em universidades públicas e carentes de uma maior sistematização com vistas à consolidação de um programa. Muitas intervenções apresentam-se como projetos-piloto e foram desenvolvidas com vistas a atender demandas específicas e emergenciais, como no caso da pandemia da covid-19, sem que um maior planejamento tivesse sido realizado, com levantamento de demandas, estruturas disponíveis e recursos humanos capacitados para tal oferta. Embora tenham composto um repertório de ações importantes para mitigar os efeitos da pandemia na saúde mental desse público, muitas delas foram pontuais e não deram origem a estudos mais robustos.
Recomenda-se que mais estudos sejam realizados para avaliar novos programas, identificando quais dos programas já implementados foram mantidos e quais os resultados sobre a saúde mental, bem-estar, desempenho acadêmico e evasão universitária foram obtidos no médio e longo prazos. É importante que haja um maior compromisso com o público universitário em relação à implementação desses programas. Se, em um passado não muito distante, a população universitária fazia-se presente na maior parte dos estudos desenvolvidos na universidade, é um momento para que essas pessoas possam se posicionar não meramente como participantes, sujeitos de pesquisa, mas como um público que precisa ser priorizado nos programas interventivos em saúde mental. Sabemos que esse é um fenômeno de ordem global, o que não significa que as condições de saúde mental sejam estáveis em todos os contextos. Os programas desenvolvidos devem cotejar as características de cada contexto, mas sempre dialogando com as propostas existentes e as estruturas já testadas e em replicação. Para além disso, é mister que as universidades possam ampliar seus investimentos em saúde mental, na construção de uma cultura de cuidado e acolhimento capaz de ser mantida no longo prazo.













