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Journal of Human Growth and Development

versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.33 no.2 Santo André maio/ago. 2023  Epub 02-Dez-2024

https://doi.org/10.36311/jhgd.v33.14933 

ARTIGO ORIGINAL

Síndrome do comer noturno entre estudantes universitários: aspectos da vida acadêmica estariam associados ao distúrbio alimentar?

Dandara Dias Cavalcante Abreu, Todos autores contribuíram com o manuscrito, Participou da coleta de dados, análise dos dados, análise estatística e redação do textoa  b 

Janaina Paula Costa da Silva, Todos autores contribuíram com o manuscrito, Participou da discussão dos resultados e versão final do texto.c  d 

Laércio da Silva Paiva, Todos autores contribuíram com o manuscrito, Participou da concepção do estudo, análise estatística, discussão dos resultados e versão final do textob 

Francisco Winter dos Santos Figueiredo, Todos autores contribuíram com o manuscrito, Participou da concepção do estudo, análise estatística, discussão dos resultados e versão final do textob 

Ricardo Peres do Souto, Todos autores contribuíram com o manuscrito, Participou da orientação geral da pesquisa, definição do delineamento do estudo, análise estatística, discussão dos resultados e versão final do textob 

aFaculdade Santa Maria, Cajazeiras, Paraíba, Brasil;

bCentro Universitário FMABC, Santo André, São Paulo, Brasil.

cUniversidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, Minhas Gerais, Brasil.

dPrograma de Pós-graduação em Saúde Coletiva do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil.


Resumo

Introdução

o período crítico da vida de adultos universitários implica mudanças do estilo de vida como a diminuição da atividade física e a adoção de hábitos alimentares pouco saudáveis que podem resultar em aumento da gordura corporal. Assim, estudantes universitários podem representar uma população com risco aumentado para a Síndrome do Comer Noturno.

Objetivo

analisar aspectos da vida acadêmica, do trabalho e da moradia de estudantes universitários que poderiam se associar à Síndrome do Comer Noturno.

Método

estudo transversal realizado com 900 estudantes dos cursos de Arquitetura, Engenharia, Medicina e Psicologia de uma instituição de ensino superior localizada em Cajazeiras, Paraíba, Brasil. Para a coleta de dados foram usados questionários autoaplicados: o instrumento Night Eating Questionnaire (NEQ) para quantificar comportamentos da Síndrome do Comer Noturno (SCN) e um formulário para variáveis sobre aspectos demográficos, de saúde, vida acadêmica, trabalho e moradia.

Resultados

a prevalência da SCN determinada pelo escore NEQ≥25 foi 16,8%. No curso de Engenharia a prevalência da SCN foi maior nas mulheres em relação aos homens, e no curso de Psicologia, foi maior nos homens em relação as mulheres. Entre os estudantes com emprego e que moravam na casa dos pais, a prevalência da síndrome foi maior para aqueles que trabalham no período da tarde e menor para aqueles que trabalham à noite.

Conclusão

a prevalência da SCN encontrada entre os estudantes universitários brasileiros foi alta (16,8%), particularmente em duas situações: (1) estar matriculado um curso de graduação com predominância de estudantes do outro sexo; e (2) morar com os pais e trabalhar no período da tarde. Estas observações podem ser úteis na identificação de subpopulações de estudantes com risco aumentado de distúrbios de alimentação.

Palavras-Chave: Síndrome do Comer Noturno; Night eating questionnaire; estudantes; adulto jovem; ensino superior

Abstract

Introduction

the critical period in the lives of college adults implies lifestyle changes such as reducing physical activity and adopting unhealthy eating habits that can result in increased body fat. Thus, college students may represent a population at increased risk for Night Eating Syndrome.

Objective

to analyze aspects of university students’ academic life, work and housing that could be associated with Night Eating Syndrome.

Methods

cross-sectional study carried out with 900 students from Architecture, Engineering, Medicine and Psychology courses at a higher education institution located in Cajazeiras, Paraíba, Brazil. Self-administered questionnaires were used for data collection: the Night Eating instrument Questionnaire (NEQ) to quantify Night Eating Syndrome (NES) behaviors and a form for variables on demographic, health, academic life, work and housing aspects.

Results

the prevalence of NES determined by the NEQ≥25 score was 16.8%. In the Engineering course, the prevalence of NES was higher in women than in men, and in the Psychology course, it was higher in men than in women. Among students with a job and who lived at home, the prevalence of the syndrome was higher for those who worked in the afternoon and lower for those who worked at night.

Conclusion

the prevalence of NES found among Brazilian university students was high (16.8%), particularly in two situations: (1) being enrolled in an undergraduate course with a predominance of students of the other sex; and (2) live with parents and work in the afternoon. These observations may be helpful in identifying subpopulations of students at increased risk for eating disorders.

Key words: Night Eating Syndrome; night eating questionnaire; students; young adult; University education

Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

Esta pesquisa investigou aspectos da vida acadêmica, profissional e de vida de universitários que poderiam estar associados à Síndrome do Comer Noturno.

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

Neste estudo transversal com universitários de uma instituição privada brasileira, a prevalência da Síndrome do Comer Noturno foi alta (16,8%). Predominantemente, duas situações chamaram a atenção dos pesquisadores: (1) estar matriculado em um curso de graduação com predominância de alunos do outro sexo; e (2) morar com os pais e trabalhar à tarde.

O que essas descobertas significam?

Esses achados podem ser úteis na identificação de subpopulações de estudantes com maior risco de transtornos alimentares, especialmente no início da idade adulta.

INTRODUÇÃO

A Síndrome do Comer Noturno (SCN) foi, nos anos 50, caracterizada por uma tríade de sintomas - ausência de fome pela manhã, hiperfagia no período da noite, insônia - que ocorrem associados a eventos estressantes pontuais1. Anos depois foram acrescidos aos componentes da síndrome a ansiedade, o humor deprimido que piora durante a noite e o despertar noturno para comer2. Em termos fisiológicos, na SCN ocorre o desajuste do ritmo circadiano de secreção de vários hormônios envolvidos no controle do apetite e do sono3. Este desbalanço resulta em dificuldades para dormir e um padrão alimentar anormal, com ingestão de alimentos excessiva após o horário do jantar - 25% ou mais do total de calorias diárias. Em consequência desta alimentação inadequada, muitos estudiosos investigam se existe associação entre a SCN e o aumento do Índice de Massa Corporal (IMC)4, mas os resultados da literatura ainda não são um consenso5.

Portadores da SCN relatam que o surgimento dos primeiros sintomas desta síndrome ocorria principalmente entre o final da adolescência e o início da vida adulta6,7. Esse estudo foca o período crítico da vida de adultos universitários, cujas mudanças do estilo de vida como a diminuição da atividade física e a adoção de hábitos alimentares pouco saudáveis que podem, além de resultar em aumento da gordura corporal8,9, se manter ao longo da vida10, com grande prejuízo à saúde.

Nesse contexto, a Síndrome do Comer Noturno destaca-se como um distúrbio alimentar que pode afetar os jovens adultos universitários. A proporção de estudantes que atingem o critério de screening da síndrome varia entre 1,2 e 15% em estudos de diferentes países incluindo o Brasil11-23, sendo maior a prevalência entre indivíduos obesos24. Sabe-se que indivíduos obesos aos 25 anos de idade tem maior chance de desenvolver, dez anos mais tarde, formas graves de obesidade e alterações metabólicas relacionadas a doenças crônicas25.

Estudantes universitários, em sua maioria, se encontram em uma faixa etária e, por conseguinte, em uma etapa da vida que os tornam mais vulneráveis à SCN. De forma geral, jovens adultos (18 a 30 anos) apresentam o maior consumo de alimentos após as 23h em comparação a outras idades26. Fatores psicológicos também podem ter sua contribuição para o desfecho desse distúrbio alimentar. Estudantes enfrentam sofrimento psicológico decorrente das dificuldades da transição para a vida adulta e das provações do cotidiano acadêmico27. Sabe-se que as alterações emocionais são importantes componentes do conjunto de sintomas da SCN28, sendo que esta associação com a síndrome foi confirmada entre estudantes universitários17,18,29,30. Por fim, é frequente encontrar nesta população distúrbios do sono31 outro pilar da síndrome. Assim, existe preocupação de identificar e caracterizar os comportamentos pouco saudáveis dos estudantes universitários para planejamento de estratégias específicas de promoção de saúde e de prevenção de doenças graves associadas ao excesso de peso9.

Alguns fatores adicionais que poderiam interferir na alimentação, no sono e no estado emocional de estudantes, e por conseguinte na probabilidade de desenvolver a SCN, têm sido menos explorados na literatura: o horário das aulas, a simultaneidade de um emprego remunerado e o arranjo de moradia por exemplo. A atividade dos estudantes no período noturno, seja pelas aulas ou seja pelo trabalho; a jornada dupla de estudo e trabalho, com acúmulo de responsabilidades relacionadas ao desempenho acadêmico e profissional; e a saída da casa dos pais, que poderiam representar uma perda de referências do padrão familiar e uma situação favorável para desorganização da rotina diária, são variáveis que os autores pretendem investigar nesta pesquisa.

Assim, o presente estudo teve por objetivo analisar aspectos da vida acadêmica, do trabalho e da moradia de estudantes universitários que poderiam se associar à Síndrome do Comer Noturno.

MÉTODO

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo observacional transversal.

Local e período de estudo

Foram coletados dados de estudantes universitários de uma instituição de ensino privada localizada na cidade de Cajazeiras, Estado da Paraíba, Brasil, entre setembro de 2019 e março de 2020.

População de estudo e critérios de elegibilidade

Em 2019, a instituição tinha 2.667 estudantes matriculados em 11 cursos de graduação. Para esta pesquisa foram escolhidos quatro cursos: Arquitetura, Engenharia, Psicologia (duração de 5 anos cada), oferecidos em turno parcial nos períodos matutino e noturno, e Medicina (duração de 6 anos) oferecido em turno integral. No início da coleta, estes cursos apresentavam um total de 1.333 estudantes matriculados. Foram incluídos apenas estudantes que estavam devidamente matriculados e com idade maior que 18 anos.

Foi calculado um tamanho de amostra de 461 sujeitos para estimar a proporção de ocorrência do desfecho comer noturno em 50% da população (com o acréscimo de 20% para possíveis perdas e recusas). O cálculo (utilizando o método de Wald) considerou nível de confiança de 95%32, buscando obter o maior número de participantes dos quatro cursos escolhidos.

Coleta de dados

Inicialmente foi realizado uma conversa prévia com o professor presente em sala no momento da coleta e solicitado a permissão para uso de aproximadamente 15 minutos da sua aula. Após isso, o pesquisador apresentou aos estudantes a pesquisa, seus objetivos, métodos, riscos, benefícios e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), enfatizando que a participação se daria de forma totalmente voluntária.

Os participantes assinaram o TCLE e começaram a preencher o questionário e o formulário, que foram entregues pela pesquisadora responsável deste estudo, nas suas próprias carteiras em sala de aula.

Para a coleta de dados foram autoaplicados dois questionários: o instrumento Night Eating Questionnaire (NEQ)33, uma ferramenta amplamente utilizada para rastrear e avaliar a gravidade da SCN, e um formulário específico para este estudo para obter informações do participante que eram necessárias ao estudo.

O NEQ é um questionário para quantificação de comportamentos da SCN, sendo um instrumento de triagem da síndrome e quantificação de seus sintomas34. No Brasil, três versões diferentes do NEQ foram validadas. Este estudo utilizou a primeira versão publicada33. As duas versões produzidas posteriormente tinham a intenção de adaptar o questionário para populações específicas: para adultos com menor escolaridade35 e para adolescentes36. Como os participantes deste estudo estavam cursando o nível superior de ensino e já haviam deixado a adolescência, estas versões não seriam adequadas a esta pesquisa.

Foi utilizada a versão NEQ validada em português no Brasil, que contém 14 perguntas com cinco possibilidades de resposta em uma escala Likert de 0 a 4 pontos33. A soma de todas as questões pontuadas origina o escore NEQ, que apresenta valor máximo de 56 pontos. A pontuação maior ou igual a 25 do escore NEQ foi usada como critério para determinação da prevalência de Síndrome do Comer Noturno37. Outro ponto de corte (NEQ≥30) também foi usado em algumas análises para maior especificidade da determinação da SCN37.

Os participantes preencheram adicionalmente o formulário sobre aspectos demográficos, de saúde, vida acadêmica, trabalho e moradia. Foram solicitadas informações sobre sexo, idade, peso e altura para cálculo do índice de massa corpórea (IMC), curso em que se encontra matriculado, período e ano. Foi questionado ainda se o estudante trabalhava, em qual período do dia e por quantas horas ao dia. Sobre o período de trabalho, as possibilidades de resposta eram: manhã; tarde; noite; manhã e tarde; ou outro período distinto. Sobre o número de horas de trabalho diário, os estudantes que trabalhavam foram divididos em quatro grupos: até 4 horas de trabalho por dia; 4 e 8 horas diárias; 12 horas diárias; ou 24 horas seguidas. Os dois últimos grupos consideravam a possibilidade de trabalho em regime de plantão. Em relação à variável moradia, foi perguntado se moravam na casa dos pais com as alternativas “sim” ou “não”. Para aqueles que responderam não morar com os pais foi solicitado informar se moravam sozinhos, com amigos ou parceiro.

Por serem autoaplicados e autoexplicativos, os questionários minimizaram a possibilidade de constrangimento por exposição do participante no momento da coleta de dados. Os questionários foram distribuídos pela primeira autora deste manuscrito, que ficou à disposição para esclarecimentos de eventuais dúvidas.

Ao longo de 7 meses de coleta foram obtidos 920 questionários, dos quais 20 questionários foram excluídos devido à idade ser inferior a 18 anos. Assim, a amostra final foi composta por 900 participantes, representando 67,5% de todos os estudantes matriculados nos quatro cursos selecionados para este estudo. Todos semestres letivos dos quatro cursos foram contemplados na amostra final, com porcentagens variando entre 50 e 75% em relação ao total de matriculados.

Análise de dados

As variáveis que integraram o perfil da população estudada (sexo, curso, ano de curso, período de estudo, trabalho, período de trabalho, categorias de horas de trabalho por dia, moram ou não na casa dos pais) foram analisadas por meio frequências absolutas e relativas. As variáveis quantitativas (idade, índice de massa corporal e escore NEQ), por não apresentarem aderência a distribuição normal, foram apresentadas por medianas e percentis 25 e 75%. O Teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para avaliar a aderência das variáveis quantitativas a distribuição normal. Para analisar associação entre variáveis qualitativas e SCN utilizou-se teste de Qui-quadrado, e para analisar associação entre variáveis quantitativas e SCN utilizou-se teste de Mann-Whitney. O nível de significância adotado foi de 95%. O programa utilizado foi o Stata® (StataCorp, LC) versão 11.038.

Aspectos éticos de legais de pesquisa

A pesquisa seguiu os preceitos de diretrizes nacionais e internacionais para investigações envolvendo seres humanos, particularmente a Resolução nº 466/2012 sobre normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos39, e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Santa Maria/Paraíba, sob número do parecer nº 3.550.266 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (C.A.A.E. 16597519.2.0000.5180).

RESULTADOS

Foram avaliados 900 estudantes universitários de quatro cursos oferecidos pela instituição de ensino superior analisada: Arquitetura, Engenharia, Medicina e Psicologia (tabela 1). A distribuição percentual dos estudantes participantes entre cursos, semestre letivo do curso e ano letivo do curso refletiu aproximadamente a proporção dos matriculados no início da coleta. O curso de maior adesão à pesquisa foi Psicologia com 75,7% (215 entre 284 matriculados) e o curso de menor proporção foi a Engenharia com 53,2% (177 entre 333 matriculados). Em relação aos anos e períodos dos quatro cursos as porcentagens de adesão variaram entre 50 e 75% em relação ao total de matriculados.

Tabela 1 : Características sociodemográficas de 900 estudantes universitários de uma instituição de ensino privada. Cajazeiras/Paraíba – 2020 

VARIÁVEIS N (%) ou Mediana e (IC95%)
Demográfica Sexo Masculino 417 (46,3%)
Feminino 483 (53,7%)
Idade (anos) 22 (18-34)
Saúde IMC kg/m2 23,5 (18,5-31,4)
Escore NEQ 19 (12-31)
Síndrome do Comer Noturno NEQ≥25 151 (16,8%)
NEQ≥30 60 (6,67%)
Vida Acadêmica Curso Arquitetura 195 (21,7%)
Engenharia 177 (19,7%)
Medicina 313 (34,8%)
Psicologia 215 (23,9%)
Ano letivo do Curso 1o 183 (20,3%)
2o 172 (19,1%)
3o 203 (22,6%)
4o 193 (21,4%)
5o 95 (10,6%)
6o 54 (6,0%)
periodo de estudo Matutino 191 (21,2%)
Noturno 397 (44,1%)
Integral 312 (34,7%)
Trabalho tem trabalho 285 (31,7%)
Período de trabalho Manhã 49 (17,2%)
Tarde 52 (18,3%)
Noite 28 (9,8%)
Manhã e tarde 127 (44,6%)
Outros* 29 (10,2%)
Horas de trabalho por dia Até 4 h 93 (32,6%)
De 4 a 8 h 155 (54,4%)
12 h 27 (9,5%)
24 h 10 (3,5%)
Moradia Mora fora da casa dos pais 462 (51,3%)
Se não mora com os pais, com que mora Sozinho 157 (34%)
Amigos 214 (46,3%)
Parceiro(a) 91 (19,7%)

IMC: Índice de Massa Corporal; NEQ: Night Eating Questionnaire. *Outros: Tarde e noite ou Manhã, tarde e noite.

Os participantes eram em sua maioria do sexo feminino (53,7%) e a mediana de idade foi 22 anos. Quanto ao Índice de Massa Corporal (IMC) a mediana encontrada foi de 23,5 kg/m2. O valor da mediana do escore NEQ para todos os sujeitos foi 19. Dos 900 participantes, 151 apresentaram um escore NEQ maior ou igual a 25, resultando em uma prevalência de 16,8% da SCN. Sessenta estudantes (6,67%) atingiram escore NEQ igual ou superior a 30. Quanto à variável trabalho, 31,7% dos estudantes afirmaram ter um emprego. Entre estes estudantes, a maioria trabalhava por 4 a 8 horas diárias (54,4%) e no turno compreendendo manhã e tarde (44,6%). Sobre a moradia, 51,3% dos universitários informaram que não moravam com os pais e destes, 46,3% afirmaram morar com amigos.

O escore NEQ e a prevalência da SCN (pelo critério NEQ≥25) foram analisados em função das variáveis do estudo (tabela 2). Entre os estudantes com emprego, notou-se que a prevalência da SCN foi maior para aqueles que trabalham no período da tarde e menor para aqueles que trabalham à noite (p=0,031). Não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre a prevalência da síndrome para as outras variáveis. Em relação ao escore NEQ dos universitários, não houve associação com significância estatística. Ressalta-se, no entanto, que as comparações de escore NEQ para algumas variáveis estiveram próximos do limite da significância: mulheres apresentaram tendência de escore maior que homens (p=0,053); houve tendência de diferenças de escores entre os cursos (p=0,078), estudantes que trabalham apresentaram tendência de menor escore (p=0,086). Estas tendências motivaram a busca por associações entre subgrupos da casuísta.

Tabela 2 : Escore NEQ e prevalência da Síndrome do Comer Noturno (NEQ≥25), segundo características dos estudantes universitários de uma instituição de ensino privada. Cajazeiras/Paraíba – 2020. 

Variáveis Escore NEQ* Mediana (IC95%) p NEQ ≥25 N (%) p
Sexo Masculino 19 (18-20) 0,053 66 (15,8%) 0,478
Feminino 20 (19-20) 85 (17,6%)
Curso Arquitetura 20 (19-20) 0,078 29 (14,9%) 0,626
Engenharia 19 (18-20) 29 (16,4%)
Medicina 19 (18-20) 51 (16,3%)
Psicologia 21 (20-22) 42 (19,4%)
Ano (letivo) de Curso 1o 19 (18-20) 0,974 29 (15,8%) 0,863
2o 20 (18,6-20,3) 27 (15,7%)
3o 19 (19-21) 39 (19,2%)
4o 20 (19-20) 33 (17,1%)
5o 20 (18-22) 13 (13,7%)
6o 19 (18-21,7) 10 (18,5%)
Período de estudo Matutino 20 (19-21) 0,134 32 (16,8%) 0,962
Noturno 20 (19-21) 68 (17,1%)
Integral 19 (18-20) 51 (16,34%)
Trabalha Não 20 (19-20) 0,086 106 (17,2%) 0,589
Sim 19 (18-20) 45 (15,8%)
Período de trabalho Manhã 20 (17-22) 0,087 6 (12,2%) 0,031
Tarde 20 (18-22,6) 16 (30,8%)
Noite 16 (14-20) 2 (7,1%)
Manhã e tarde 19 (18-20) 16 (12,6%)
Outros 19 (16,7-22) 5 (17,2%)
Horas de trabalho por dia Até 4 h 19 (18-20) 0,705 16 (17,20%) 0,676
De 4 a 8 h 19 (18,7-20,2) 22 (14,2%)
12 h 17 (15,9-20,1) 6 (22,2%)
24 h 17 (14,3-23,3) 1 (10%)
Mora fora da casa dos pais Não 19 (19-20) 0,588 68 (15,5%) 0,327
Sim 20 (19-20) 83 (18%)
Se não mora com os pais, com quem mora Sozinho 19 (18-21) 0,964 27 (17,2%) 0,873
Amigos 20 (19-21) 38 (17,8%)
Parceiro(a) 20 (18-21) 18 (19,8%)

NEQ: Night Eating Questionnaire

Foram realizadas comparações da prevalência da SCN entre homens e mulheres em função de algumas das variáveis do estudo (tabela 3). No curso de Engenharia, a proporção de estudantes atingindo o critério da SNC foi maior para o sexo feminino (p=0,007). No curso de Psicologia, ocorreu o inverso: a proporção de estudantes atingindo o critério da SNC foi maior para o sexo masculino (p=0,035). Destaca-se que no curso Engenharia havia predomínio de homens matriculados (76,3%) e no curso de Psicologia havia predomínio de mulheres matriculadas (79,1%). Nos outros dois cursos o número de mulheres matriculadas era maior (50,8% na Arquitetura e 55,2% na Medicina), mas a distribuição de matriculados por sexo foi mais equilibrada. Não foi encontrada associação estatisticamente significativa quando comparada a prevalência da SCN entre homens e mulheres para as demais variáveis pesquisadas (período de estudo, trabalho, período de trabalho e se mora ou não na casa dos pais).

Tabela 3 : Comparação da prevalência da Síndrome do Comer Noturno (NEQ≥25) entre homens e mulheres, segundo características dos estudantes universitários. Cajazeiras/Paraíba – 2020 

Variáveis NEQ≥25 p
Masculino (%) Feminino (%)
Curso Arquitetura 13,5 16,2 0,689
Engenharia 11,9 31,0 0,007
Medicina 16,3 16,3 >0,999
Psicologia 31,1 16,5 0,035
Período de estudo Matutino 18,0 16,2 0,836
Noturno 14,8 19,9 0,185
Integral 16,4 16,3 >0,999
Trabalha Não 16,3 17,9 0,663
Sim 15,2 16,7 0,743
Período de trabalho Manhã 15,4 8,70 0,671
Tarde 27,6 34,8 0,763
Noite 5,6 10,0 >0,999
Manhã e tarde 10,5 15,7 0,423
Outros 22,7 0,00 0,296
Mora fora da casa dos pais Não 14,7 20,5 0,114
Sim 16,9 14,2 0,510

NEQ: Night Eating questionnaire.

Também foram comparadas as prevalências da síndrome de estudantes que moram com os pais a aqueles que não moram com os pais em função de variáveis do estudo (tabela 4). Foi possível observar que as diferenças de prevalência da SCN para estudantes que trabalham à tarde e à noite que foram verificadas no universo completo do estudo se mantêm para o subgrupo que mora com os pais (p=0,026), mas não têm significância estatística para o subgrupo dos estudantes que não moram com os pais. Não foram identificadas outras diferenças significativas para este tipo de comparação.

Tabela 4 : Comparação da prevalência da Síndrome do Comer Noturno (NEQ≥25) apenas entre estudantes que moram fora da casa dos pais (n=462) ou apenas entre estudantes que moram na casa dos pais (n=438), segundo características dos universitários. Cajazeiras/Paraíba – 2020 

Variáveis NEQ≥25
Apenas estudantes que moram fora da casa dos pais (%) p Apenas estudantes que moram na casa dos pais (%) p
Curso Arquitetura 17,7 0,890 13,5 0,515
Engenharia 16,7 16,2
Medicina 17,4 10,9
Psicologia 21,1 18,7
Período de estudo Matutino 18,6 0,957 15,7 0,645
Noturno 18,5 16,4
Integral 17,5 10,9
Trabalha Não 19,2 0,275 14,8 0,587
Sim 14,5 16,8
Período de trabalho Manhã 17,7 0,769 9,4 0,026
Tarde 23,5 34,3
Noite 10,0 0,0
Manhã e tarde 12,2 12,8
Outros 14.3 25.0

DISCUSSÃO

Na instituição de ensino superior analisada a proporção de estudantes atingindo o critério de screening da SCN foi 16,8% ou aproximadamente 1 a cada 6 participantes. Esta proporção se destaca como a maior prevalência dentre os achados na literatura científica para populações de estudantes universitários em diferentes países, cujos dados foram coletados antes de 202011-23. Alguns destes estudos excluem estudantes que apresentam evidências de distúrbios de compulsão alimentação (por exemplo o estudo realizado nos Estados Unidos12), reduzindo a taxa de prevalência. No presente estudo, não se investigaram outras patologias alimentares.

Os dados disponíveis na literatura sugerem que a prevalência da SCN em estudantes universitários possa ser mais alta em alguns países como Turquia, Arábia Saudita, Malásia, Brasil e China, onde foram verificados valores de 9,5% a 15,0%15,17,20-22. O resultado encontrado neste estudo se aproxima mais desta faixa de variação. Nos demais países, a prevalência de SCN entre estudantes universitários variou em um patamar inferior, entre 1,2 e 5,8%11-14,20. É possível especular que diferenças culturais, socioeconômicas e dos sistemas educacionais justifiquem as disparidades entre países em relação à prevalência estimada de SCN nos estudantes. Outra hipótese a ser considerada seria algum nível de variação dos resultados obtidos pelas versões do NEQ em diferentes idiomas.

Entre os estudantes participantes, observou-se tendência de maior escore NEQ para as mulheres. Ao investigar mais detalhadamente esta questão, foram encontradas diferenças da prevalência de SCN entre os sexos que eram relacionadas ao curso em que o estudante estava matriculado. No curso de Engenharia, a prevalência de SCN foi maior entre mulheres, coerentemente a tendência de maior pontuação do escore NEQ para este sexo. No entanto, inesperadamente, no curso de Psicologia verificou-se que os homens apresentaram maior prevalência de SCN. Tal ponto contrapõe, nos dois cursos, o número de estudantes matriculados em cada um deles, sendo o curso de Engenharia na sua maioria masculino, e o curso de Psicologia na sua maioria feminino. A maior prevalência da síndrome nos dois casos poderia estar associada ao incômodo de pertencer a uma minoria. Apesar da evolução da sociedade no sentido de diminuir a segregação sexual no campo social e profissional, no ensino superior algumas áreas ainda persistem como predominantemente femininas ou masculinas40,41. A colisão entre o ideal contemporâneo de equidade entre os sexos e a constatação da existência na universidade de ambientes dominados por um dos sexos poderiam gerar um conflito particularmente estressante para o grupo minoritário.

Foram identificados 285 estudantes trabalhadores, correspondendo a 31,7% dos participantes. Em todo o mundo uma fração relevante dos estudantes de ensino superior exerce trabalho remunerado durante a graduação42-50 Este trabalho do estudante universitário usualmente tem por finalidade custear suas despesas pessoais, sua moradia e seus estudos. Discute-se bastante as possíveis implicações do trabalhar durante o período em que frequenta as aulas. A jornada diária ampliada pela soma dos períodos de estudo e trabalho pode interferir na saúde. Pesquisas mostram que estudantes universitários que trabalham apresentam pior qualidade do sono que seus pares que não estudam, apresentando risco aumentado de privação de sono e de distúrbios do sono45,46,48,49. Também se nota maior fadiga e redução da atividade física46,48. Além disso, vários artigos apontam para o prejuízo no desempenho acadêmico do estudante que trabalha42-44,47,50.

Nesta pesquisa, estudantes trabalhadores apresentaram uma distribuição de escores NEQ que esteve próxima de diferir estatisticamente dos estudantes que não trabalham. No entanto, a tendência encontrada foi de menor escore NEQ para os estudantes que trabalham. Resultado semelhante tinha sido observado por nosso grupo em outra amostragem de estudantes brasileiros17. A eventual redução do escore NEQ entre estudantes trabalhadores, caso confirmada, contestaria a suspeita que o trabalho simultâneo ao estudo poderia favorecer a SCN. Tais evidências preliminares podem ser interpretadas como indícios que existe uma relação mais complexa entre o trabalho de estudantes e sinais da SCN. Aspectos do trabalho dos estudantes que reforçam os comportamentos da síndrome coexistiriam com aspectos de efeito oposto, atenuando a síndrome. O primeiro passo para verificar a adequação desta hipótese seria identificar cofatores interferentes.

Verificou-se que o arranjo de moradia e o horário de trabalho dos estudantes poderiam ser alguns destes cofatores. Entre estudantes que moram com os pais, a prevalência de SCN foi maior para aqueles que trabalham a tarde e menor entre estudantes que trabalham à noite. As implicações da moradia e do horário do trabalho sobre a SCN que foram encontrados são intrigantes. Baseando-se na literatura relacionada, seria razoável esperar o inverso: maior prevalência da síndrome entre os estudantes que trabalham à noite e que este efeito fosse mais pronunciado entre aqueles que não moram na casa dos pais. Em relação à jornada de trabalho, quando avança sobre o horário de dormir pode causar sobrepeso e obesidade devido a mudanças no padrão alimentar51,52. Em relação à moradia, quando estudantes deixam a casa da família seus os hábitos de alimentação se tornam menos saudáveis53,54. Os resultados deste estudo apontam para relações entre trabalho, moradia e SCN entre estudantes universitários que aparentemente não se enquadram em um modelo simples. Novos estudos serão necessários para esclarecer melhor estas relações.

O presente estudo apresentou como principais limitações: o uso de informações obtidas de questionários autoaplicados que pode ter vieses intrínsecos de compreensão das questões e parcialidade nas respostas dos entrevistados; a ausência de investigação de outros distúrbios alimentares; a inclusão de participantes de uma única instituição de ensino superior; e o delineamento transversal que não permite estabelecer relações de causalidade entre os fenômenos estudados. Finalmente, o contexto cultural e social do Brasil, bem como sua estrutura do ensino superior, apresenta características peculiares, não sendo possível extrapolar a priori a interpretação dos resultados desta pesquisa para estudantes de outros países.

Em conclusão, a prevalência da SCN encontrada entre os estudantes universitários brasileiros foi alta (16,8%), particularmente em duas situações: (1) estar matriculado um curso de graduação com predominância de estudantes do outro sexo; e (2) morar com os pais e trabalhar no período da tarde. Estas observações podem ser úteis na identificação de subpopulações de estudantes com risco aumentado de distúrbios de alimentação.

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Recebido: Maio de 2023; Aceito: Julho de 2023; Publicado: Agosto de 2023

Autor correspondente ricardo.souto@fmabc.br

Conflito de interesses:

Os autores declaram não ter conflito de interesses.

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