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Journal of Human Growth and Development
versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598
J. Hum. Growth Dev. vol.33 no.2 Santo André maio/ago. 2023 Epub 02-Dez-2024
https://doi.org/10.36311/jhgd.v33.14615
ARTIGO ORIGINAL
Descrição do método científico de elaboração e validação de tecnologias educativa no formato digital: um estudo metodológico
aPrograma de Pós-Graduação em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde, Universidade Estadual do Ceará (UECE). Fortaleza, CE, Brasil;
bLaboratório de Escrita Científica da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (EMESCAM). Vitória, ES, Brasil;
cPrograma de Pós-Graduação em Ciências Médicas, Faculdade Medicina Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil;
dSchool of Medicine, University of Limerick, Limerick, Ireland;
ePrograma de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Centro Universitário FMABC (FMABC), Santo André, Brasil;
fCurso de Enfermagem e Laboratório de Escrita Científica, Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (EMESCAM), Vitória, Brasil;
gPrograma de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (EMESCAM), Vitória, Brasil.
Introdução
o uso de tecnologias digitais constitui como um processo que permite a dinamização no processo de cuidar, pautada nos aspectos relacionados a criticidade e criatividade. Enfatiza-se, que o desenvolvimento de tecnologias deve, portanto, insere-se em um contexto por mudanças e inovação em resposta a demanda de saúde da população devendo seguir um percurso metodológico preciso que vai desde a construção à validação da aparência, conteúdo e efeito.
Objetivo
descrever o método científico de elaboração e validação de tecnologias educativas no formato digital.
Método
estudo metodológico, conduzido de acordo com as seguintes etapas: elaboração do projeto de pesquisa e submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa; levantamento dos dados; elaboração do conteúdo, roteiro, ilustrações e diagramação da cartilha; e validação da tecnologia educacional.
Resultados
o processo de elaboração de uma tecnologia requer rigor metodológico, possibilitando coerência entre teoria e finalidade do produto desejado, garantindo qualidade interna da tecnologia elaborada. O uso de tecnologias educativas em saúde reforça informações, servindo como guia para orientações quanto ao cuidado e auxiliando nas tomadas de decisões. Inovações tecnológicas em saúde, consiste em um processo sócio-técnico, permeado por reflexões e experiências profissionais e usuários.
Considerações finais
tecnologias educacionais representam um recurso potencializador para o desenvolvimento de práticas de educação em saúde, estimulando maior interação entre profissionais e usuários, e uma postura ativa quanto a ações de autocuidado relacionado a sua condição de saúde.
Palavras-Chave: materiais de ensino; educação em saúde; estudos de validação
Introduction
the use of digital technologies constitutes a process that allows the dynamization of the care process, based on aspects related to criticality and creativity. It is emphasized that the development of technologies must, therefore, be inserted in a context for changes and innovation in response to the population’s health demand, and must follow a precise methodological path that goes from the construction to the validation of the appearance, content and effect.
Objective
to describe the scientific method of elaboration and validation of educational technologies in digital format.
Methods
methodological study, conducted according to the following steps: development of the research project and submission to the Research Ethics Committee; data collection; elaboration of the content, script, illustrations and layout of the booklet; and validation of educational technology.
Results
the process of developing a technology requires methodological rigor, enabling coherence between theory and the purpose of the desired product, guaranteeing the internal quality of the developed technology. The use of educational technologies in health reinforces information, serving as a guide for guidelines regarding care and assisting in decision-making. Technological innovations in health, consists of a socio-technical process , permeated by professional and user reflections and experiences.
Final considerations
educational technologies represent a potential resource for the development of health education practices, encouraging greater interaction between professionals and users, and an active attitude regarding self-care actions related to their health condition.
Key words: teaching materials; health education; validation studies
Síntese dos autores
Por que este estudo foi feito?
Para ampliar o conhecimento sobre construção e validação de tecnologias em saúde, expandindo conceitos teóricos sobre esses processos, e fortalecendo as discussões sobre o reconhecimento de tecnologias como produtos de inovação quanto a prática de educação em saúde.
O que os pesquisadores fizeram e encontraram?
Estudo metodológico com o objetivo de descrever o método científico de elaboração e validação de tecnologia educativa para uso de práticas de educação em saúde.
O que essas descobertas significam?
Espera-se contribuir para o conhecimento acerca do desenvolvimento e validação de tecnologias em saúde, podendo ser utilizadas por profissionais da saúde como ferramentas de construção de saberes em práticas ancoradas por discussões reflexivas.
INTRODUÇÃO
A pluralidade do conceito de tecnologia é polissêmico, permitindo diversas vertentes ideológicas no campo da saúde. Nesse contexto, o termo tecnologia não pode ser compreendido apenas como um equipamento, mas também como o saber/fazer operante que dá sentido e razão ao próprio equipamento, relacionando-se diretamente com as características do sujeito – como capacidade e criatividade e suas ações1.
As tecnologias correspondem a processos concretizados a partir da experiência cotidiana do cuidar em saúde ou de pesquisas sobre o desenvolvimento de um conjunto de atividades produzidas e controladas pelos seres humanos2. São aplicadas como ferramentas para mediar ações de educação em saúde, pois possibilitam aos indivíduos pensar, refletir e agir quanto ao seu autocuidado3.
Destarte, elucida-se que o uso de tecnologias na saúde constitui como um processo que permite a dinamização no processo de cuidar, pautada nos aspectos relacionados a criticidade e criatividade. Enfatiza-se, que o desenvolvimento de tecnologias deve, portanto, inserir-se em um contexto por mudanças e inovação em resposta à demanda de saúde da população4.
O uso de tecnologia na saúde almeja o aperfeiçoamento da prática do cuidado, que perpassam desde o caráter intervencionista até o caráter relacional, moldando as práticas de saúde a partir dos usos das tecnologias e suas vinculações teóricas5.
Nesse contexto, o termo tecnologia ganha novas configurações e classificações na busca de melhor aplicabilidade no cuidado em saúde. Apontam-se três modalidades de tecnologias: tecnologias educacionais, caracterizada como um conjunto de conhecimento sistemático que permite o desenvolvimento de ações educacionais entre profissionais e usuário; tecnologia gerencial que envolve ações teórico-práticas, utilizadas gerenciamento da assistência e dos serviços de saúde; e tecnologias assistências constituindo-se num conjunto de ações instrumentais na assistência6.
Reconhece a necessidade de tecnologias inovadoras no cuidado e em ações de educação em saúde, uma vez que poderá promover avanços significativos quanto a gerar sujeitos que se assumam críticos e protagonistas no cuidado de sua saúde. Dessa maneira, a presente pesquisa contribuirá para o conhecimento sobre tecnologias em saúde ao permitir reflexões sobre o processo de elaboração e validação de tecnologias.
Assim, o estudo tem como objetivo descrever o método científico de elaboração e validação de tecnologia educativa.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico relacionado a pesquisas referentes a investigações dos métodos de obtenção, organização e análise dos dados, permitindo à descrição de forma sistemática a elaboração e análise dos instrumentos e técnicas de pesquisa, de modo a permitir a construção de um instrumento que seja confiável, preciso e utilizável, podendo ser aplicado por outros pesquisadores7.
O presente estudo visa descrever o processo de desenvolvimento de uma tecnologia em saúde, fundamentando-se em características essenciais para a elaboração e validação de tecnologias, utilizando como bases teóricas referenciais metodológicos de múltiplos estudos que desenvolveram tecnologias educacionais nos diversos contextos da saúde.
São diversos os percursos desenvolvidos por autores para a elaboração de tecnologias em saúde, a saber: desenvolvimento de instrumentos de medição elaboração de materiais educacionais8,9; para materiais educativos digitais10; construção de vídeos11,12 para o desenvolvimento de manuais de orientações para o cuidado. A figura 1 apresenta os diversos percursos para o desenvolvimento de uma tecnologia em saúde.

Fonte: Elaborada pelos autores.
Figura 1 : Percursos para elaboração de tecnologias em saúde. Crato, Ceará, Brasil, 2022
Este estudo terá como suporte teórico as etapas propostas pela autora Echer12 para o desenvolvimento e validação de materiais educativos; processo abrange sete etapas evidenciadas na figura 2.

Fonte: Imagem adaptada Echer (2005).
Figura 2 : Fluxogramas das etapas metodológicas utilizadas no desenvolvimento da tecnologia educativa. Crato, Ceará, Brasil, 2022
Parte 1- Construção da tecnologia
Submissão do projeto ao Comitê de ética em Pesquisa
A primeira etapa corresponde à elaboração de um projeto de pesquisa, sendo posteriormente submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), para apreciação e emissão do parecer de pesquisa.
Levantamento bibliográfico
A elaboração do material é realizada a partir da seleção de conteúdos na literatura, com publicações disponíveis sobre o tema, permitindo sintetizar os conhecimentos científicos existentes.
A busca do conhecimento científico relacionada ao tema abordado pode ser realizada inicialmente, por meio de uma revisão integrativa das produções científica sobre o tema. Para nortear o processo de desenvolvimento de uma revisão integrativa, seguem as etapas, a saber, com definição do tema e formulação dos objetivos e da questão norteadora; busca na literatura e estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos; categorização dos estudos; avaliação dos estudos; interpretação dos resultados e apresentação da revisão/síntese do conhecimento13.
Exploração dos cenários/realidade investigada
Na elaboração de materiais educativos, tornar-se essencial que se busque conhecer a realidade do ambiente a ser estudada e as experiencias dos sujeitos, para que sejam priorizadas as necessidades da população-alvo14.
As estratégias de coleta de dados para essa fase, podem ser mediante instrumentos de pesquisa qualitativa ou quantitativa, a depender do objeto de estudo e, até mesmo, da expertise do pesquisador.
Para estudos quantitativos, podem seguir diferentes tipos de estratégias de coletas de dados, a depender do tipo de estudo que foi definido pelo pesquisador: coletas por dados públicos, questionários, formulários, prontuários, dentre outros.
Para esse estudo, traz-se exemplos de estratégias de pesquisas de abordagem qualitativa, destacando as entrevistas semiestruturadas que valoriza a presença do pesquisador e oferece as possíveis perspectivas para que o informante posa alcançar a liberdade e a espontaneidade necessária a uma investigação de enfoque qualitativo15. Ainda também pode ser realizada mediante a realização de grupos focais, permitindo a identificação de quais aspectos a população alvo considera importante conter em na tecnologia educacional16.
Parte 2: Elaboração da tecnologia educativa em saúde
Dos passos de elaboração
Após a coleta de dados, o pesquisador realizará o consolidado das informações, utilizando as análises específicas de acordo com o proposto e assim, iniciou o processo em si, da elaboração da tecnologia educativa.
O pesquisador desenhará o primeiro rascunho do material, indicando a ordem dos assuntos a serem abordados, apresentação dos textos, as cores selecionadas, as figuras que nortearam o diagramador na construção dos desenhos da tecnologia e as referências utilizadas.
O diagramador, especialista em construção de material tecnológico, desenvolverá a tecnologia tendo como base a apresentação inicial feita pelo pesquisador, sendo este um processo final da elaboração para se iniciar a fase de validação.
Para tanto, ressalta-se que o processo de desenvolvimento de uma tecnologia educativa em saúde envolve a elaboração textual, confecção das ilustrações e diagramação. Assim, destaca-se a necessidade de um material que possa atender as necessidades do público para qual se destina, respondendo as dúvidas mais frequentes sobre o tema, de forma que possibilite uma fácil compreensão para os leitores, de forma atrativa, objetiva e não extensa.
Em relação à linguagem, destaca-se a necessidade de um texto breve, direto, com linguagem simples e compreensível9. A mensagem registrada no material educativo, formada pelo conteúdo selecionado anteriormente, pode ser interpretada de formas distintas, e o leitor pode se encontrar no momento da leitura sem ajuda de profissionais qualificados para sanar suas dúvidas. Desta forma, a linguagem científica não deve ser utilizada e deve-se fazer uso de ilustrações que complementam a mensagem do texto escrito17,18.
Destaca-se ainda a necessidade da transformação da linguagem cientifica, de modo a torná-la adequada a todas as pessoas, independente do grau de instrução9. Estudo que construiu e validou uma cartilha para prevenção do Zika vírus, optou por textos e narrativas com sentenças curtas, empregando palavras comuns na voz ativa e imagens atrativas, permitindo fácil compreensão aos leitores, mesmo para os de pouca ou nenhuma escolaridade16.
As ilustrações e texto devem facilitar a compreensão dos ensinamentos. Esse fato se torna importante, por permitir o desenvolvimento de práticas de educação em saúde com linguagem acessível. As tecnologias desenvolvidas possibilitam o fortalecimento de orientações para pacientes e familiares, sendo, indispensável escrevê-la em uma linguagem que todos entendam12.
Nesse sentido, destaca-se a necessidade do entendimento que nessa fase de elaboração da tecnologia, deve-se levar em consideração o objeto de estudo e público-alvo, pois a formatação da mesma deve vir atendendo as especificidades em especial, do público a que se destina a tecnologia.
Considera-se, pois, uma fase de suma importância no processo de elaboração de tecnologias, e que deve ser rigorosamente trabalhado, desde o conteúdo a ser abordado à apresentação desses conteúdos, assim como, demais elementos inclusos que fazem parte de materiais com fins educativos.
Validação do material desenvolvido
Finalizada a elaboração da tecnologia no que se refere ao texto e imagens, segue-se o processo de validação do material desenvolvido, quanto ao conteúdo, aparência e adequabilidade da tecnologia, realizada por meio da avaliação com juízes e posteriormente com o público-alvo.
A validação é um processo no qual se examina, com precisão, determinado instrumento ou inferência realizada a partir de escores estabelecidos19. Esta etapa é considerada indispensável para o processo de elaboração de instrumentos, pois permite verificar se as medidas representadas no mesmo são válidas e confiáveis20.
Destaque para a compreensão da divisão dos juízes para distinção de cada grupo quanto a escolha dos participantes no processo de validação de um material educativo. Assim, divide-se os juízes em três grupos: 1) juízes de conteúdo (pesquisadores/docentes com experiência na área de interesse, tecnologias educativas e/ou validação de instrumentos); 2) juízes técnicos (profissionais com experiência na temática estudada); 3) juízes com experiência profissional em design e marketing21.
Para Echer12, a avaliação por diferentes profissionais é a ocasião em que realmente se pode dizer que o trabalho está sendo feito em equipe, valorizando diferentes perspectivas sobre o mesmo foco.
No tocante ao número de juízes, a literatura é diversificada. Pasquali8 recomenda de seis a 20 pessoas; enquanto Lynn22 já diz que a necessidade é de no mínimo três juízes, sendo desnecessário um número superior a 10. Fehring23 recomenda de 25 a 50 especialistas.
Na fase da validação permite ser testada a qualidade interna da tecnologia em saúde. Nesse contexto, a validade designa-se a atributo hipotético de que a tecnologia estará apta a realizar a tarefa para qual ela se propõe fazer, com a mínima presença de erro8.
Existem múltiplos tipos de validade, conforme apresentadas na figura 4, a exemplo: validade de constructo, que se refere à demonstração de que o instrumento realmente mede aquilo a que se propõe medir, do qual pode-se realizar afirmações ao interpretar os resultados na execução de um teste, expressando por meio de uma ou mais variáveis o significado teórico do conceito24; de critério que permite avaliar se a medida investigada possui relação empírica quanto em predizer um desempenho específico do sujeito25. Esse tipo de validação pode ocorrer de dois tipos: validade preditiva que define um critério adequado e validade concorrente que mede é válida independentemente do próprio teste, este de critério8.

Fonte: Elaborada pelos autores.
Figura 4 : Fluxograma com os tipos de validação. Crato, Ceará, Brasil, 2022
Acrescenta que as evidências de validade de critério são obtidas mediante a comparação entre o instrumento investigado e um outro instrumento, denominado como critério externo, que possui o mesmo fim, mas que já possui evidências comprovadas de sua validade26.
Validações de aparência, consiste em um julgamento quanto à clareza e a compreensão; a de conteúdo que se refere à verificação da adequação dos conceitos utilizados bem como uma forma de analisar se os itens e textos utilizados são representativos dentro do universo de todo o produto27.
A validade de conteúdo constitui uma representação de uma amostra do universo do conteúdo que a tecnologia educacional necessita conter19,28, correspondendo a uma avaliação do quanto uma amostra de itens é representativa dentro de um universo definido ou de domínio de um conteúdo27.
Instrumentos para coleta de dados referentes ao processo de validação com juízes especialistas
Para o desenvolvimento do processo de validação de uma tecnologia é necessário que se busque instrumentos de avaliação que permita verificar a presença do atributo de validade28. A figura 5 apresenta os instrumentos utilizados em estudos metodológicos para o processo de validação com especialistas.

Fonte: Elaborada pelos autores.
Figura 5 : Instrumentos para coleta de dados. Crato, Ceará, Brasil, 2022
Estudos que validaram suas tecnologias com especialistas de conteúdo e técnicos, utilizaram o Suitability Assessment of Materiais (SAM), que consiste em um instrumento que permite desenvolver um método sistemático de avaliação da adequação de materiais da saúde de forma objetivo, num curto tempo de avaliação19,29. O SAM é um instrumento de avaliação da adequação de materiais inicialmente pensado para uso com materiais impressos e ilustrações, mas que também tem sido aplicado a instruções em vídeos e áudios de maneira bem-sucedida No instrumento SAM há uma lista para checar atributos relacionados a conteúdo, estilo de escrita, aparência, motivação e adequação cultural do material educativo9.
Outro instrumento utilizado por pesquisadores corresponde a um questionário, que permitindo avaliar os itens da tecnologia quanto aos seguintes critérios, a saber: clareza da linguagem, pertinência prática e relevância teórica. Para isso utiliza a escala de Likert, onde 1) Pouquíssima; 2) Pouca; 3) Média; 4) Muita e 5) Muitíssima16,30.
O instrumento utilizado por Dodt, Ximenes e Oriá20 e adaptado por Santos31 avalia a tecnologia em relação à clareza das figuras por meio da compreensão de fichas-roteiro, quanto ao grau de relevância da presença da figura, composição visual e apropriação do conteúdo para o público-alvo.
Análise dos dados da validação
Estudos de validação adotam múltiplos processos de para analisar o nível de concordância entre os especialistas. O Índice de Validade de Conteúdo (IVC) é comumente utilizado para medir a proporção ou porcentagem de especialistas quanto a representatividade dos itens em relação ao conteúdo em estudo32.
O IVC mede a proporção dos juízes em concordância sobre determinado aspecto do instrumento. Permite analisar cada item separadamente e depois o instrumento como um todo. Esse método utiliza a escala Likert para avaliar a concordância e a representatividade dos itens e as respostas.
O IVC das escalas de likert pode ser calculado com base em três equações matemáticas: S-CVI/Ave (média dos índices de validação de conteúdo para todos os índices da escala); S-CVI/UA (proporção de itens de uma escala que atinge os escores 4 “Muito” e 5 “Muitíssimo” e o I-CVI (Validade de conteúdo dos índices individuais)33.
Os itens que recebem pontuação ‘’1’’ ou ‘’2’’ são revisados ou eliminados pelo fato de ter validade de conteúdo inferior a 0,78 por três ou mais experts. Para que uma tecnologia seja julgada com validade de conteúdo de boa qualidade, deve atingir um IVC de 0,78 e/ou superior. Desta forma, o IVC foi definido com a proporção de itens que receberam pontuação de 3 ou 4 pelos especialistas33.
O Coeficiente de Correlação Intraclasse (ICC) permite estimar a estabilidade de variáveis contínuas, levando em consideração os erros de medida. a correlação intraclasse é considerada a melhor medida para avaliar a correlação intra e interobservador, por analisar a correlação e a concordância entre os resultados, além de permitir que seja demonstrado a força da relação entre as classificações dos observadores27.
O coeficiente Kappa é uma medida utilizada para avaliação interobservadores, aplicado a variáveis categóricas. Trata-se de uma medida de concordância entre os avaliadores e assume valor máximo igual a 1,00. Quanto maior o valor de Kappa, maior a concordância entre os observadores. Valores próximos ou abaixo de 0,0 e 0,2 indicam à inexistência de concordância34.
Validação com o público-alvo: aparência
Validada a tecnologia pelos juízes especialista, em seguida pode ser realizada uma consulta junto ao público-alvo, com o intuito de ampliar e reafirmar a confiabilidade do material produzido, objetivando avaliar se o material proposto é compreensível para o público ao qual se destina, permitindo avaliar quantos aos aspectos relacionados aos objetivos, organização, estilo da escrita, aparência e motivação6.
Aponta que na análise semântica, corresponde a construção de teste juntos aos sujeitos para qual a tecnologia foi elaborada. Destaca-se pontos importantes na análise semântica, no processo de validação do instrumento, a saber: verificar se o conteúdo é inteligível para o estrato mais baixo (habilidade) da população; evitar desproporção na formulação e apresentação do conteúdo verificar se os itens são inteligíveis para o estrato mais baixo (de habilidade) da população meta e, por isso, a amostra para esta análise deve ser feita com este estrato; e para evitar deselegância na formulação dos itens, a análise semântica deverá ser feita também com uma amostra mais sofisticada (de maior habilidade) da população meta (para garantir a chamada validade aparente do teste)35.
Considera-se a validação semântica, como um processo subjetivo de validar um instrumento desenvolvido junto a um grupo de pessoas quanto aos aspectos relacionados a clareza, facilidade de leitura, compreensão e apresentação dos itens do instrumento36.
Estudos apontam, que durante o processo de validação de suas tecnologias com o público-alvo, fizerem uso do mesmo instrumento utilizado na validação com os juízes especialistas, permitindo assim, avaliar a qualidade do material educativo a partir dos domínios de conteúdo, exigência de alfabetização, ilustrações, layout e apresentação, estimulação do aprendizado e adequação cultural, sendo possível classificar os itens como superior, adequado, não adequado e não aplicado4,37.
Efeito da tecnologia educativa: validação clínica
Infere a importância de verificar a confiabilidade da tecnologia elaborada e validada por juízes e público-alvo. Esse processo de validação externa, tem como objetivo avaliar o efeito da tecnologia educativa e pode ser realizado por meio de um estudo experimental ou quase experimental, permitindo que as tecnologias para intervenções ou modos de cuidado possam ser testadas38.
Em estudos experimentais, o pesquisador se constitui como sendo um agente ativo, pois há a manipulação intencional de uma ou várias ações ou intervenções com o objetivo de analisar os seus possíveis efeitos. Dessa forma, manipulam-se uma ou mais variáveis independentes para avaliar as consequências da manipulação sobre uma ou mais variáveis dependentes dentro de uma situação controlada pelo pesquisador39.
Os estudos experimentais devem possuir três propriedades essenciais: manipulação (o pesquisador faz alguma intervenção direcionada aos participantes do estudo); controle (o pesquisador introduz controles sobre a situação experimental, como grupo controle/comparação); e randomização (o pesquisador designa aleatoriamente os participantes para os grupos controle/comparação e experimental/intervenção)27.
No que corresponde aos estudos quase-experimental ou experimento não aleatório, esse não possui características de randomização ou grupo controle, no qual o investigador intervém na característica que está sendo investigada, entretanto não há alocação aleatória dos participantes27,40. Este inclui apenas o grupo experimental, no qual, utiliza-se o momento antes e depois de intervenções, permitindo que cada sujeito funcione como seu próprio controle. Desta forma, possibilita observar relações de causa e efeito41.
Destaque para a utilização do Inquérito Conhecimento, Atitude e Prática (CAP), como instrumento que permite avaliar o efeito de uma tecnologia educacional em uma intervenção de educação em saúde, sendo possível verificar se a tecnologia é um instrumento de promoção da saúde facilitador do processo educativos42.
O instrumento CAP tem como objetivo identificar dados de uma determinada população, visando mensurar eficácia de intervenções em saúde. Conceitua-se conhecimento como a capacidade de adquirir e reter informações a serem utilizadas, uma mistura de compreensão, experiência, discernimento e habilidade; Atitude como inclinação para reagir de certo modo a certas situações; ver e interpretar eventos de acordo com certas predisposições; organizar opiniões dentro de uma estrutura inter-relacionada e coerente; e Prática como aplicação de regras e conhecimentos que levam à execução da ação e maneira ética43.
DISCUSSÃO
O uso de tecnologias caracteriza-se como uma ferramenta emancipatória, sobretudo na possibilidade de mudanças de atitudes e adesão às práticas preventivas, uma vez que favorece a multiplicação de saberes e conhecimentos entre indivíduos quanto ao seu autocuidado, de modo a favorecer o processo de comunicação e orientação de profissionais de saúde, pacientes e comunidade44.
As tecnologias representam suporte na transmissão de informações baseadas em evidências clínicas. Nessa perspectiva, considera-se relevante, no processo de elaboração de materiais educativos em saúde, a interdisciplinaridade dos conhecimentos que se complementam e tornam a tecnologia mais atrativa, utilizando os pilares de ensino e o conhecimento científico45.
Estudos revelam que tecnologias melhoram o conhecimento dos profissionais de saúde na sua práxis, dada a sua facilidade que proporcionam para mediar o processo ensino-aprendizagem. Trata-se ainda de um recurso eficaz para o desenvolvimento de práticas de educação em saúde46,47.
Destaca-se à educação em saúde como um processo pedagógico que induz a um pensamento crítico-reflexivo entre os participantes. Revelando a realidade coletiva, e a emancipação e autonomia dos sujeitos, além de capacitá-los quanto a tomadas de decisões de saúde para o autocuidado48.
No entanto, revela-se a necessidade de elaboração de tecnologias em saúde direcionadas às intervenções de educação e promoção à saúde como matérias inovadoras e criativas, que possibilite o maior interesse de aprendizado49.
O emprego de tecnologias de educação em saúde inovador potencializa o conhecimento do público-alvo e desperta o interesse do aprendiz, para debates sobre saúde e bem-estar, uma vez que favorece a construção de espaços voltados para a promoção da saúde50,51.
Desse modo, observa-se as tecnologias como estratégias que permitem a junção entre a aprendizagem significativa e o reconhecimento da importância de habilidades para cuidados com a saúde, estimulando comportamentos saudáveis no enfrentamento do processo saúde-doença que demandam mudanças temporárias ou permanentes52.
Santos31 aponta como principais inovações na elaboração de uma tecnologia em saúde, a saber: tecnologia direcionada para a população-alvo; repasse de saberes e conhecimentos que interferem no processo de desenvolvimento de ações voltadas para prevenção e promoção da saúde; processo participativo na elaboração da tecnologia, identificando temas que se revelam importantes para o seu autocuidado.
Destaca-se crescente o desenvolvimento de estudos voltados para elaboração de tecnologias educacionais no campo da saúde, como estratégias que permitem subsidiar a produção do cuidado, de modo a oportunizar uma relação horizontalizada e dialógica entre profissionais e usuários, ressaltando assim, a relevância deste protocolo, uma vez que, ao trazer um passo a passo de como estruturar a elaboração de tecnologias educativas, oportuniza ao pesquisador elaborar uma tecnologia educativa respeitando o método científico para esse tipo de estudo.
Nesse contexto, a elaboração de uma tecnologia educacional em saúde de qualidade, viabiliza o desenvolvimento de estratégias de educação em saúde pautadas em saberes estruturados, direcionados para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem e incentivando práticas saudáveis53.
O desenvolvimento de tecnologias educacionais no campo da saúde, quando adequadas ao contexto socioeconômico e cultural da população para o qual se destina, consiste em ferramentas potentes para redução de iniquidades relacionadas ao contexto saúde. Assim, ressalta exitosa o uso dessas tecnologias em estratégias de educação em saúde, haja visto que possibilita o reconhecimento do usuário quanto a ações de prevenção de um determinado agravo, e permitindo que atue como multiplicador de saberes16.
Nesse interim, considerando a relevância do conhecimento do passo a passo da elaboração de tecnologias educativas, apresentou-se nesse artigo algumas ideias de como elaborar seguindo um rigor metodológico, ilustrando que cada passo requer um cuidado minucioso que vai desde o objeto dessa tecnologia ao público que se destina. As escolhas dos caminhos que o pesquisador seguirá são cruciais para o êxito da tecnologia quanto a de fato promover mudanças na realidade/público destinada.
Por fim, apresenta-se na figura 6, a súmula das etapas do processo de elaboração de tecnologia educativa, sendo esse o protocolo apresentado neste material.
CONCLUSÃO
Para a solução de problemas existentes na sociedade, tem-se a pesquisa científica como essencial para o desenvolvimento tecnológico, entretanto, para que seja considerada científica, esta deve seguir uma série de procedimentos sistemáticos de investigação, o que garante o rigor necessário para o alcance dos resultados.
Sabe-se, pois, que é o método científico que dá o valor e a confiabilidade científica à pesquisa, direcionando à produção de conhecimentos válidos. Assim, o presente artigo traz uma discussão em cima da elaboração de tecnologias educativas, buscando elucidar passos que viabilizam a construção dessas tecnologias da forma mais confiável.
Ao falar de tecnologias educacionais, fala-se de um produto de reflexão quanto ao desenvolvimento de processos de emancipação dos sujeitos, contribuindo para transformações de práticas dos profissionais acerca de ações voltadas para promoção da saúde; assim, quando se tem um produto que foi construído seguindo um rigor científico respeitando princípios e diretrizes do método traçado pelo pesquisador, tem-se uma tecnologia que de fato alcançará os objetivos que ela propôs, uma vez que ao envolver coleta de dados sistematizada, validação por especialistas da área, pelo próprio público-alvo e ainda, avaliando seu efeito, tem-se uma tecnologia elaborada rigorosamente trazendo um conhecimento válido.
Agradecimentos
À CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) pela concessão de bolsa de estudos à autora Sabrina Alaide Amorim Alves. À Fundação de Amparo à Pesquisa do estado do Espírito Santo pela concessão de bolsa de estudos à autora Nathalya das Candeias Pastore Cunha.
Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo – FAPES, pelo apoio financeiro para a execução deste projeto, por meio do edital 05/2023- Fapes- Publicação de Artigos Técnico-Científicos—2◦ Ciclo.
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Recebido: Janeiro de 2023; Aceito: Maio de 2023; Publicado: Agosto de 2023









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