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Journal of Human Growth and Development

Print version ISSN 0104-1282On-line version ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.34 no.1 Santo André Jan. 2024  Epub Jan 20, 2025

https://doi.org/10.36311/jhgd.v34.15779 

ARTIGO ORIGINAL

Adesão à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercícios físicos em crianças e adolescentes com fibrose cística

Larissa Pereira Módolo, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Revisão de literatura, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise dos dados, Redação do manuscrito, Revisão do manuscritoa 

Luana Bergamim Uliana, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Revisão de literatura, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise dos dados, Redação do manuscrito, Revisão do manuscritoa 

Fernanda Mayrink Gonçalves Liberato, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Revisão de literatura, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise dos dados, Revisão do manuscritoa 

Luana da Silva Baptista Arpini, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Revisão de literatura, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise dos dados, Revisão do manuscritob 

Cíntia Helena Santuzzi, Todos os autores contribuíram para o manuscrito Análise dos dados, Revisão do manuscritoa 

Roberta de Cássia Nunes Cruz Melotti, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Revisão de literatura, Coleta de dados, Desenho do estudo, Revisão do manuscritob 

Flavia Marini Paro, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Revisão de literatura, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise dos dados, Redação do manuscrito, Revisão do manuscritoa 

aDepartamento de Educação Integrada em Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil;

bHospital Estadual Infantil Nossa Senhora da Glória, Vitória, ES, Brasil.


Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

Esta pesquisa apresenta novas informações sobre adesão à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercícios físicos entre crianças e adolescentes com doença cística.

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

Em nosso estudo, investigamos a adesão à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercícios físicos entre crianças e adolescentes com fibrose cística. Os resultados mostraram que a adesão foi inferior ao recomendado e aumentou com a idade e gravidade da doença.

O que essas descobertas significam?

Considerando que a fisioterapia respiratória, as técnicas de desobstrução das vias aéreas e o exercício físico são recomendados para todos os indivíduos com fibrose cística, e a baixa adesão a eles está relacionada a piores prognósticos, nossos achados mostraram alguns fatores relacionados à má adesão e destacaram a necessidade de estratégias para aumentar a adesão precoce.

Palavras-Chave: Fisioterapia; fibrose cística; exercício; cooperação do paciente; prática clínica baseada em evidências

Resumo

Introdução

fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução das vias aéreas e exercícios físicos estão associados a melhores prognósticos na fibrose cística (FC), contudo a adesão dos pacientes é um desafio.

Objetivo

avaliar a adesão das crianças e adolescentes com FC à fisioterapia respiratória, às técnicas de desobstrução das vias aéreas e ao exercício físico e analisar fatores relacionados à adesão.

Método

estudo retrospectivo que incluiu crianças e adolescentes com FC de um centro de referência pediátrico brasileiro. Os dados foram coletados dos registros eletrônicos da equipe multidisciplinar responsável pelo atendimento desses pacientes no centro de referência.

Resultados

a amostra incluiu os 83 pacientes cadastrados no centro de referência, com média de idade de 7,88 ± 4,88 anos, entre os quais, 28,9% não faziam fisioterapia respiratória semanalmente, 66,3% não praticavam exercícios físicos regularmente, e apenas 38,6% praticavam as técnicas de desobstrução das vias aéreas de 6 a 7 vezes por semana. Adesão às técnicas de desobstrução das vias aéreas apresentou associação positiva com idade (p<0,01) e correlação negativa com: VEF1 (r =-0,39; p=0,03), FEF25-75% (r=-0,36; p=0,02), VEF1/CVF (r=-0,43; p=0,01) e escore de Shwachman-Kulczycki (r=-0,34; p<0,01). Adesão ao exercício físico associou-se positivamente à idade (p<0,01). A utilização de financiamento público de serviços de fisioterapia associou-se a menor escore de Shwachman-Kulczycki (p=0,02). A região metropolitana apresentou o maior percentual de indivíduos que utilizam serviços de fisioterapia não públicos (p<0,01).

Conclusão

a adesão à fisioterapia respiratória, às técnicas de desobstrução das vias aéreas e ao exercício físico foi inferior às recomendações. A adesão às técnicas de desobstrução das vias aéreas e ao exercício físico aumentou com a idade, e a adesão às técnicas de desobstrução também se associou à gravidade da doença, o que reforça a necessidade de estratégias para aumentar a adesão precocemente.

Palavras-Chave: Fisioterapia; fibrose cística; exercício; cooperação do paciente; prática clínica baseada em evidências

Highlights

A adesão à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercício físico foi inferior ao recomendado entre a população pediátrica com fibrose cística.

A adesão aumentou com a idade e gravidade da doença.

Os resultados destacaram a necessidade de estratégias para aumentar a adesão precocemente.

Palavras-Chave: Fisioterapia; fibrose cística; exercício; cooperação do paciente; prática clínica baseada em evidências

Authors summary

Why was this study done?

This research presents new information about adherence to chest physiotherapy, airway clearance techniques and physical exercise among children and adolescents with cystic fibrosis.

What did the researchers do and find?

In our study, we investigated the adherence to chest physiotherapy, airway clearance techniques and physical exercise among children and adolescents with cystic fibrosis. The results showed that the adherence was lower than recommended and increased with age and disease severity.

What do these findings mean?

Considering that chest physiotherapy, airway clearance techniques and physical exercise are recommended for every individual with cystic fibrosis, and poor adherence to them is related to worse outcomes, our findings showed some factors related to poor adherence and highlighted the need for strategies to increase adherence early.

Key words: physical therapy; cystic fibrosis; exercise; patient compliance; evidence-based practice

Abstract

Introduction

chest physiotherapy, airway clearance techniques, and physical exercise are associated with better outcomes in cystic fibrosis, but adherence to these recommendations remains a challenge.

Objective

to assess adherence to chest physiotherapy, airway clearance techniques, and physical exercise by children and adolescents with cystic fibrosis and analyze the factors related to adherence.

Methods

retrospective study of children and adolescents with cystic fibrosis from a pediatric referral center in Brazil. Data were collected from electronic records of the multidisciplinary team responsible for caring for these patients at the referral center.

Results

the sample included all 83 patients registered at the referral center, with a mean age of 7.88 ± 4.88 years. Among them, 28.9% did not have weekly chest physiotherapy, 66.3% did not practice physical exercise regularly, and only 38.6% practiced airway clearance techniques from 6 to 7 times a week. Higher adherence to airway clearance techniques was associated with higher mean age (p<0.01) and correlated with FEV1 (r=-0.39; p=0.03), FEF25-75% (r =-0.36; p=0.02), FEV1/FVC (r =-0.43; p=0.01) and lower mean Shwachman-Kulczycki Score (r=-0.34; p<0.01). Higher physical exercise adherence was associated with a higher mean age (p<0.01). Individuals using public financing of physiotherapy services had a lower Shwachman-Kulczycki Score (p=0.02) than those using non-public services. The metropolitan region had a higher percentage of individuals using non-public services than other regions (p<0.01).

Conclusion

adherence to chest physiotherapy, airway clearance techniques and physical exercise was lower than recommendations. Airway clearance techniques and physical exercise adherence increased with age, and airway clearance techniques adherence was associated with the high severity of disease. These results suggest that patients only increase adherence when they get older and the disease worsens, highlighting the need for strategies to increase adherence early.

Key words: physical therapy; cystic fibrosis; exercise; patient compliance; evidence-based practice

Highlights

The adherence to chest physiotherapy, airway clearance techniques and physical exercise was lower than recommended among the pediatric population with cystic fibrosis.

The adherence increased with age and disease severity.

Key words: physical therapy; cystic fibrosis; exercise; patient compliance; evidence-based practice

INTRODUÇÃO

A fibrose cística (FC) é uma doença genética autossômica recessiva caracterizada por variantes no gene Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator (CFTR)1, que causam anormalidades no transporte epitelial. As disfunções da CFTR estão associadas ao comprometimento de múltiplos órgãos e à redução da expectativa de vida1. Os sistemas digestivo e respiratório são os mais afetados, e o comprometimento respiratório progressivo é a principal causa de morbidade e mortalidade na FC2.

A progressão da deterioração da função pulmonar na FC é não linear e tem uma elevada variabilidade na taxa de declínio ao longo da vida. Contudo, a taxa de declínio da função pulmonar nesses pacientes tem apresentado redução ao longo das últimas décadas devido à evolução do tratamento3.

O aumento da expectativa de vida dos indivíduos com FC tem sido atribuído a diversos fatores, como maior eficiência no diagnóstico4,5, evolução dos medicamentos; tratamento em centros especializados, acompanhamento da equipe interdisciplinar2,4,5, e maior conhecimento sobre a importância do tratamento das infecções, melhorando a depuração mucociliar nas vias aéreas e corrigindo deficiências nutricionais2,4.

Portanto, a assistência multidisciplinar aos indivíduos com FC é considerada fundamental pelas diretrizes nacionais5 e internacionais6-8, que incluem a recomendação de fisioterapia respiratória regular e contínua, incluindo técnicas de desobstrução das vias aéreas, para todos os pacientes com FC desde o diagnóstico5-8, com frequência diária4,5,8.

A fisioterapia respiratória melhora a depuração mucociliar4,6-9, contribui para prevenir infecções4 e retardar a progressão da doença pulmonar7,8.Além disso, a fisioterapia respiratória é fundamental para melhorar a aptidão cardiovascular e para prevenir e tratar complicações musculoesqueléticas, entre outras indicações7,8. A atividade física e o exercício também são recomendados6-8 para todos os indivíduos com FC, com frequência de exercício de 3 a 5 vezes por semana e duração do exercício de 20 a 30 minutos5. No entanto, a adesão a essas recomendações é um desafio importante e a baixa adesão está relacionada a piores desfechos4. Portanto, estudos sobre a adesão de pacientes com FC à fisioterapia respiratória e ao exercício físico são importantes para planejar estratégias que aumente a adesão, com benefícios importantes nos resultados do tratamento.

Assim, este estudo teve como objetivo investigar a adesão à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercício físico em crianças e adolescentes com fibrose cística e analisar as associações de variáveis clínicas e demográficas com a adesão.

MÉTODO

Desenho do estudo

Este é um estudo retrospectivo transversal.

Local do estudo e período

A coleta de dados foi realizada no Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória, único centro pediátrico de referência para tratamento de indivíduos com FC no estado do Espírito Santo (ES), Brasil. Foram incluídos pacientes cadastrados no centro de referência, entre maio de 2018 e março de 2019.

População do estudo e critérios de elegibilidade

Foram incluídos no estudo crianças e adolescentes, de ambos os sexos, com até 18 anos de idade, cadastrados no serviço de FC do centro de referência, entre maio de 2018 e março de 2019, com diagnóstico de FC, confirmado por meio de teste do suor ou exame genético. Os critérios de exclusão foram registros incompletos que impossibilitassem a coleta de dados. Por ser o único centro pediátrico de referência para tratamento de FC no estado do ES, é esperado que ali estejam cadastrados todos os pacientes com diagnóstico de FC do estado.

Coleta de dados

Os dados foram coletados dos prontuários eletrônicos da equipe médica e multidisciplinar do serviço de FC do centro de referência.

Na avaliação da função pulmonar foram coletados os dados da espirometria mais recente (até seis meses), realizado de acordo com os critérios da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia10. A espirometria foi realizada em pacientes a partir dos sete anos de idade, capaz de completar o teste. Portanto, todos os resultados referentes à função pulmonar incluem apenas indivíduos maiores de sete anos que conseguem realizar o exame de espirometria.

Foram coletados os seguintes dados espirométricos: volume expiratório forçado no primeiro segundo (VEF1), capacidade vital forçada (CVF), relação entre volume expiratório forçado no primeiro segundo e capacidade vital forçada (VEF1/CVF); fluxo expiratório forçado entre 25-75% da capacidade vital forçada (FEF25-75%).

Utilizamos o Escore de Shwachman-Kulczycki (SK) para classificar os pacientes quanto à gravidade da doença (< 40 = grave; 41-55 = ruim; 56-70 = médio; 71-85 = bom; e 86-100 = excelente)11.

Os seguintes dados também foram coletados dos prontuários do fisioterapeuta. Essas informações faziam parte do formulário padrão elaborado pela equipe de fisioterapeutas do serviço.

  1. O paciente está fazendo fisioterapia respiratória? Caso a resposta fosse sim, eram coletados os seguintes dados: frequência semanal, local de atendimento de fisioterapia respiratória e forma de financiamento de acesso ao serviço de fisioterapia (público, plano/convênio de saúde ou privado).

  2. O paciente pratica em casa as técnicas de desobstrução de vias aéreas ensinadas e prescritas pelo fisioterapeuta? Se a resposta fosse sim, eram coletados a frequência semanal e o tipo de técnicas de desobstrução das vias aéreas. Em relação às crianças menores de 6 anos, foi questionado aos pais ou responsáveis se eles vinham realizando em seu filho as técnicas de desobstrução de vias aéreas domiciliares ensinadas e prescritas pelo fisioterapeuta.

  3. O paciente pratica exercício físico ou desporto? Caso a resposta fosse sim, eram coletadas a frequência semanal e a modalidade de exercício.

Na apresentação dos resultados e ao longo do artigo, essas três variáveis foram denominadas fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercício físico, respectivamente.

Análise dos dados

O Statistical Package for Social Sciences (IBM SPSS Statistics 20, IBM, Armonk, NY, US) foi usado para a análise estatística. Os dados categóricos foram apresentados em suas frequências absolutas e relativas. As variáveis contínuas foram apresentadas como média, desvio padrão (DP), valores mínimos e máximos. O teste de Shapiro-Wilk foi utilizado para avaliar a normalidade dos dados. Os testes qui-quadrado e exato de Fisher foram utilizados para variáveis categóricas. O teste de Mann-Whitney e o teste de Kruskal-Wallis foram utilizados para avaliar as diferenças entre os grupos. Para analisar as correlações foi utilizado o coeficiente de correlação de Spearman. A força da correlação foi determinada pelo valor do coeficiente de correlação (r), de acordo com os seguintes critérios: se 0 < r < 0,3, há correlação fraca; se 0,3 < r < 0,6, há correlação moderada; se 0,6 < r < 0,9, há forte correlação; se 0,9 < r < 1, há uma correlação muito forte12.O nível de significância adotado foi de 5%.

Aspectos éticos e legais da pesquisa

O Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do ES aprovou este estudo (CAAE: 73680617.9.0000.5060).

RESULTADOS

A amostra incluiu todos os 83 pacientes cadastrados e atendidos no centro de referência pediátrica com diagnóstico de FC. Nenhum paciente precisou ser excluído, considerando os critérios previamente estabelecidos.

A média de idade dos pacientes foi de 7,88 ± 4,88 anos, variando de zero anos e três meses a 17 anos e nove meses. A média do IMC/I foi de 16,31±2,07, variando de 13,20 a 22,50. A maioria era do sexo masculino (54,2%) e 48,2% eram brancos. Na avaliação da função pulmonar, os percentuais dos valores previstos de VEF1, FEF25-75% e FEF25-75/CVF ficaram abaixo dos valores de referência10 (tabela 1). O SK médio foi de 89,82 ± 11,57, variando de 50 a 100. Portanto, o escore de SK apresentado pelos pacientes variou de ruim a excelente. Na avaliação nutricional, houve maior prevalência de indivíduos classificados como eutróficos (72,3%). A maioria dos indivíduos residia na Região Metropolitana do ES (60,2%). Detalhes sobre as características clínicas e demográficas estão na tabela 1.

A tabela 2 apresenta os resultados referentes à adesão dos pacientes à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercício físico. Observou-se que 28,9% dos pacientes não eram atendidos semanalmente pelo fisioterapeuta e 41% eram atendidos pelo fisioterapeuta apenas uma ou duas vezes por semana. A região com maior proporção de crianças e adolescentes com FC atendidos semanalmente por fisioterapeuta foi a região metropolitana. Por outro lado, a Região Norte apresentou a menor proporção, apenas 57,1%. A maioria dos indivíduos utilizou financiamento público para atendimento de fisioterapia respiratória (69,5%).

A prática de exercício físico estava presente na rotina semanal de apenas 33,7% dos pacientes. A tabela 2 apresenta a frequência semanal de prática de exercícios físicos.

Porém, quando consideramos apenas os participantes a partir dos 6 anos (idade escolar), 47,2% praticavam exercício físico pelo menos uma vez por semana.

Em relação às técnicas de desobstrução de vias aéreas, a maioria dos pacientes (68,7%) relatou praticá-las; entretanto, apenas 38,6% dos indivíduos praticavam as técnicas com frequência de 6 a 7 vezes por semana (tabela 2).

Além disso, quando incluídos na análise apenas indivíduos com idade igual ou superior a 6 anos (n=53; 63,85%), o percentual de indivíduos que realizaram técnicas de desobstrução de vias aéreas aumentou para 84,9%, mas apenas 50,9% relataram praticá-las 6 a 7 vezes por semana.

As modalidades de exercício físico mais citadas foram futebol (28,6%), luta livre (25%), ciclismo (14,3%) e natação (14,3%). As técnicas de desobstrução das vias aéreas mais citadas foram oscilação oral de alta frequência (91,2%), pressão expiratória positiva (43,9%) e padrões respiratórios (17,5%), sem informação sobre que tipo de padrão respiratório nos registros.

A tabela 3 mostra a associação entre as características dos participantes e as variáveis fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução das vias aéreas e exercício físico. Não houve características associadas à realização de fisioterapia respiratória.

Maior adesão às técnicas de desobstrução das vias aéreas esteve associada a maior média de idade (p < 0,01), menor média das variáveis de função pulmonar VEF1 (p = 0,01), FEF25-75% (p = 0,02) e VEF1/CVF (p = 0,01), e menor média em SK (p<0,01). Em relação ao exercício físico, a maior adesão esteve associada apenas à maior média de idade (p < 0,01) (tabela 3).

A tabela 4 mostra os coeficientes de correlação entre as variáveis estudadas. SK teve correlação negativa moderada com a idade, correlação positiva moderada com: CVF e correlações positivas fortes com: VEF1, CVF e FEF25-75%. Além disso, a frequência semanal das técnicas de desobstrução das vias aéreas apresentou correlações negativas moderadas com: escore SK, VEF1, VEF1/CVF e FEF25-75%.

A tabela 5 mostra a associação entre a forma de financiamento da assistência fisioterapêutica e as demais variáveis. O grupo de participantes com financiamento não público (privado, plano de saúde e convênio médico) apresentou maiores escores de SK (p = 0,02) e maior percentual de pacientes residentes na Região Metropolitana (93,3%) do que o grupo de indivíduos com financiamento público (51,3%), p<0,01.

DISCUSSÃO

Os resultados mostraram baixa adesão de crianças e adolescentes com FC à fisioterapia respiratória, exercícios físicos e técnicas de desobstrução de vias aéreas. De fato, 28,9% dos participantes não recebiam atendimento de fisioterapia respiratória, apenas 3,6% faziam fisioterapia diariamente, 38,6% relataram adesão diária às técnicas de desobstrução das vias aéreas e 18% relataram adesão ao exercício físico três ou mais vezes por semana.

A baixa adesão à fisioterapia respiratória diária é preocupante, uma vez que está correlacionada com piores resultados, com declínio acelerado da função pulmonar e necessidade de maiores intervenções com antibióticos4. Uma revisão sistemática concluiu que a fisioterapia respiratória tem um efeito a curto prazo no aumento no transporte e eliminação de secreções em pacientes com FC9, corroborando a recomendação de que a fisioterapia deve ser feita diariamente7. Portanto, aumentar a adesão e o acesso à fisioterapia é crucial para melhorar os resultados dos pacientes com FC.

Contudo, muitos indivíduos com FC e seus familiares enfrentam desafios com a rotina de deslocamentos até centros de tratamento especializados, às vezes localizados a dezenas ou até centenas de quilômetros de distância de suas residências13, o que pode comprometer seriamente a adesão. No presente estudo, a região Norte, que é a região mais distante do centro de referência, teve a menor proporção de indivíduos com FC que relataram realizar fisioterapia respiratória (apenas 57,1%), enquanto a região Metropolitana teve a maior adesão (74%). Além disso, embora 41,2% dos pacientes da região Metropolitana utilizassem serviços não públicos de fisioterapia, 99,5% dos pacientes de outras regiões relataram utilizar serviços públicos de fisioterapia, o que pode estar relacionado às diferenças socioeconômicas e ao acesso aos serviços de saúde entre as regiões. Há necessidade de estudar a adesão às terapias de FC e formular estratégias para aumentar a adesão e superar as barreiras14,15. Sem dúvida, os serviços públicos de fisioterapia para crianças e adolescentes com FC no município de residência são uma estratégia de baixo custo, simples e fundamental superar barreiras e aumentar a adesão.

A telefisioterapia, que pode incluir telemonitoramento, telecoaching e telerreabilitação, tem sido cada vez mais utilizada na fisioterapia16, e ferramentas tecnológicas têm sido cada vez mais aplicadas para melhorar a educação em saúde17. Portanto, essa poderia ser uma alternativa para aumentar o acesso à fisioterapia para alguns pacientes com FC que vivem em regiões mais distantes.

Em um estudo com população pediátrica com FC de 6 a 17 anos, 59% dos pacientes relataram realizar técnicas de desobstrução de vias aéreas diariamente18. Nossa amostra apresentou menor adesão, pois apenas 38,6% dos pacientes relataram realizar técnicas de desobstrução de vias aéreas 6 a 7 dias por dia. semana. Contudo, nossa amostra também incluiu indivíduos com idade inferior a 6 anos, o que pode explicar a menor adesão, pois nossos resultados mostraram maior média de idade entre os pacientes que relataram praticar técnicas de desobstrução de vias aéreas (9,18 ± 4,54 anos) versus pacientes que não as praticaram (5,04 ± 4,49 anos), p<0,01.

É importante avaliar a adesão em crianças com FC com menos de 6 anos de idade. A adesão nessa idade depende basicamente dos pais ou responsáveis, que devem garantir que a criança realize as técnicas prescritas pelos fisioterapeutas. Vale ressaltar que técnicas de desobstrução de vias aéreas com frequência diária são recomendadas desde o diagnóstico de FC2,4,5,7. Portanto, estratégias educativas para aumentar a conscientização sobre a doença e o treinamento dos pais poderiam ser ferramentas para aumentar a adesão nesta idade14.

Adultos com FC apresentam taxas de adesão mais elevadas do que a população pediátrica19,20, o que também sugere que a adesão aumenta com a idade. Apenas uma contradição foi encontrada sobre a associação positiva entre adesão e idade. Um estudo realizado na Espanha constatou que a adesão ao tratamento piorou com a idade e a gravidade da doença; entretanto, o mesmo estudo mencionou que a adesão aumentou com a percepção da importância do tratamento e seu impacto na qualidade de vida20. É importante ressaltar que esse tipo de percepção e conscientização tem tendência a aumentar com o aumento da idade e da escolaridade.

O SK é amplamente utilizado para monitorar a gravidade da FC, refletindo adequadamente o comprometimento da função pulmonar11. No presente estudo, o SK apresentou correlação negativa com a idade e positiva com a função pulmonar, o que corrobora dados bem estabelecidos da literatura21,22.

Além disso, a frequência de técnicas de desobstrução de vias aéreas apresentou correlação negativa com o SK e com variáveis de função pulmonar, o que significa maior adesão entre indivíduos com doença mais grave. Feiten et al.18 e Arias et al.21 não relataram resultados significativos ao relacionar adesão ao SK. Em contrapartida, o SK e a função pulmonar foram significativamente menores em pacientes com alta adesão em outros estudos19,20. A hipótese para esta associação é que a gravidade da doença piora os sintomas respiratórios, aumentando a percepção dos benefícios das técnicas de desobstrução das vias aéreas. Corroborando essa hipótese, o índice de massa corporal foi negativamente correlacionado com a adesão às técnicas de desobstrução das vias aéreas em adultos com FC em outro estudo23. O baixo peso corporal na FC tem sido relacionado a pior função pulmonar24 e qualidade de vida25. Além disso, o baixo peso corporal aumenta o impacto dos sintomas respiratórios na qualidade de vida26, o que provavelmente contribui para conscientizar o paciente da necessidade de técnicas de desobstrução das vias aéreas, aumentando a adesão.

É preocupante que os pacientes com doença menos grave tenham pouca adesão às técnicas de desobstrução das vias aéreas, pois provavelmente aumentarão a adesão apenas quando ocorrerem danos pulmonares irreversíveis14,19. Portanto, a educação em saúde tem um papel fundamental na conscientização dos pacientes com doença menos grave sobre a importância da adesão para melhorar seu prognóstico. Algumas estratégias sugeridas para aumentar a adesão ao tratamento foram monitoramento telefônico, visitas domiciliares27, educação, automonitoramento, lembretes, treinamento dos pais, entrevistas motivacionais e terapia comportamental14. Em crianças com FC, o monitoramento telefônico e as visitas domiciliares demonstraram melhorar a adesão ao tratamento, a função pulmonar e a qualidade de vida28.

Aumentar o diagnóstico precoce é outra estratégia importante para garantir atenção especializada precoce e adesão à fisioterapia desde o início da vida, melhorando o prognóstico da doença. A Atenção Primária à Saúde desempenha papel fundamental nesse processo. O algoritmo de triagem neonatal para FC utilizado no Brasil está disponível gratuitamente no sistema público de saúde para todos os recém-nascidos, juntamente com a triagem para outras doenças. Se o rastreio for positivo, são realizados testes de diagnóstico para confirmar ou descartar FC. Imediatamente após o diagnóstico, a FC requer tratamento multidisciplinar precoce5. No entanto, estudos em diferentes estados brasileiros, incluindo o Espírito Santo, mostraram que uma proporção relevante de pacientes é diagnosticada tardiamente28,29. Portanto, são necessárias estratégias de promoção e educação em saúde.

As técnicas mais recomendadas aos pacientes com FC por fisioterapeutas de nove centros de referência no Brasil, incluindo este centro de referência, foram huffing (61,1%), oscilação oral de alta frequência (52,0%) e pressão expiratória positiva (45,3%)30. No presente estudo, as técnicas mais citadas pelos pacientes foram oscilação oral de alta frequência (91,2%), pressão expiratória positiva (43,9%) e padrões respiratórios (17,5%). A adesão pode variar dependendo da técnica de desobstrução das vias aéreas utilizada14, e ‘não gostar da técnica’ foi relatado como um dos motivos para a baixa adesão18.

As Diretrizes para Diagnóstico e Tratamento da FC recomendam a prática de exercícios aeróbicos e anaeróbicos, com frequência de 3 a 5 vezes por semana5. Apesar disso, em nossa amostra, apenas 33,7% dos pacientes realizavam exercício físico semanalmente, e apenas 18% realizavam exercício físico três ou mais vezes por semana. Fatores como percepção da importância do tratamento, efeitos imediatos, autoestima e apoio social e familiar influenciam a adesão à atividade física habitual31. No presente estudo também foi observado que a adesão ao exercício físico aumentou com a idade, possivelmente porque o estudo incluiu crianças menores de seis anos, em idade pré-escolar, portanto ainda sem acesso a exercícios e atividades esportivas nas escolas. Considerando apenas os indivíduos com seis anos de idade, a adesão aumentou para 47,2%, valor ainda muito baixo.

Em indivíduos com FC, o efeito benéfico do treinamento físico sobre a capacidade de exercício, função pulmonar e qualidade de vida foi relatado em uma revisão sistemática32. Além disso, um estudo anterior relatou associação entre variáveis do teste de esforço cardiopulmonar no limiar ventilatório e exacerbações na FC, concluindo que o percentual de V̇O2 no limiar ventilatório poderia servir como variável complementar para monitorar exacerbações em pessoas com FC33. Além disso, a redução na capacidade de exercício está associada ao declínio da função pulmonar e da expectativa de vida6.

Pacientes que utilizavam serviços públicos de fisioterapia apresentaram valores de CS mais baixos do que indivíduos que utilizavam serviços não públicos. Esse resultado sugere maior gravidade dos pacientes que utilizam serviços públicos de fisioterapia. Isso pode estar relacionado ao status social dos pacientes. O baixo estatuto socioeconômico tem um efeito negativo na saúde da dos pacientes com FC34,35, e tem sido relatado que pessoas com FC provenientes de meios socioeconômicos desfavorecidos morrem mais jovens do que aquelas em situação mais favorecida35. Esta questão merece outros estudos, mas reforça a necessidade de oferecer serviços públicos de fisioterapia a todos os pacientes com FC em seus municípios. Tem sido recomendado às equipes de saúde implementar intervenções para reduzir as disparidades nos centros de FC e estudar o seu impacto34.

O desenho retrospectivo deste estudo pode apresentar algumas limitações, como imprecisão de algumas informações e viés de seleção e memória. No entanto, esse risco de viés foi reduzido porque a equipe do programa de fibrose cística deste hospital está acostumada a realizar muitos projetos de pesquisa e os prontuários são muito precisos e completos em suas informações, além disso, esses pacientes são avaliados rotineiramente em intervalos que variam de 15 dias a 3 meses. Embora a amostra possa ser considerada relativamente pequena e restrita a um único centro, ela é representativa de toda a população de um estado brasileiro, que possui 3.833.486 habitantes, pois o estudo incluiu toda a população de crianças e adolescentes com FC cadastrados no único centro de referência pediátrica do Estado, onde estão cadastrados todos os pacientes com FC do ES.

CONCLUSÃO

Concluindo, o estudo mostrou adesão à fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução de vias aéreas e exercícios físicos muito abaixo do recomendado. A adesão ao exercício físico e às técnicas de desobstrução das vias aéreas aumentou com a idade, e uma maior adesão ao exercício respiratório foi associada a uma maior gravidade da doença. Esses resultados sugerem que os pacientes só aumentam a adesão à medida que envelhecem e a doença piora, destacando a necessidade de estratégias para aumentar a adesão precoce.

Tabela 1 : Características demográficas, antropométricas, e clínicas de crianças e adolescentes com fibrose cística. Vitoria/Espírito Santo, Brasil, 2018-2019. 

Características
Idade (n=83), anos e meses: média (DP); [min-máx] 7,88 (4,89); [0a3m-17a9m]
De 0a3m a 5a11m 30 (36,15)
De 6a a 11a11m 32 (38,55)
De 12a a 17a9m 21 (25,30)
IMC, kg/m2: média (DP); [min-máx] 16,31 (2,07); [13,20-22,50]
Sexo (n=83), Masculino/ Feminino n (%) 45 (54,2)/ 38 (45,8)
Raça / Cor (n=83), n (%)
Branco 40 (48,2)
Preto 38 (45,8)
Pardo 5 (6,0)
Função Pulmonar (% do predito), (n=46), média (DP)
VEF1 79,14 (29,41)
CVF 92,74 (24,64)
VEF1/CVF 81,71 (13,51)
FEF25-75% 64,26 (37,51)
FEF25-75/CVF 63,55 (30,02)
Estado Nutricional (n=83), n (%)
Desnutrição e desnutrição grave 9 (10,8)
Eutrófico sob risco nutricional 12 (14,5)
Eutrófico 60 (72,3)
Sobrepeso 2 (2,4)
Escore de Shwachman-Kulczycki, média (DP); [min-máx] 89,82 (11,57); [50-100]
Região (n=83), n (%)
Metropolitana 50 (60,2)
Central 13 (15,7)
Sul 10 (12,0)
Norte 7 (8,4)
Municípios de outros estados 3 (3,6)

Fonte: autor

DP, desvio padrão; min, valor mínimo; máx, valor máximo; a, anos; m, meses; IMC, índice de massa corporal; VEF1, volume expiratório forçado no primeiro segundo; CVF, capacidade vital forçada; VEF1/ CVF, VEF1/ CVF taxa; FEF25-75%, fluxo expiratório forçado entre 25-75% da CVF; FEF25-75/CVF, FEF25-75/CVF taxa.

Tabela 2 : Análise descritiva dos pacientes que realizam fisioterapia respiratória, exercício físico e técnicas de desobstrução das vias aéreas (N = 83) 

Características n (%)
Indivíduos que realizam fisioterapia respiratória regularmente 59 (71,1)
Frequência de atendimentos fisioterapia respiratória (vezes por semana)
1 - 2 34 (41)
3 - 5 15 (18,1)
6 - 7 8 (9,6)
Sem informação 2 (2,4)
Macrorregiões de residência no Estado do ES
Metropolitana 37 (74,0)
Central 7 (70,0)
Sul 9 (69,2)
Norte 4 (57,1)
Municipios de outros estados 2 (66,7)
Forma de financiamento do acesso ao serviço de fisioterapia
Público 41 (69,5)
Plano de saúde / Seguro saúde 5 (8,5)
Privado 10 (16,9)
Sem informação 3 (5,1)
Adesão ao exercício físico 28 (33,7)
Frequência de exercício físico (vezes por semana)
1 - 2 13 (15,7)
3 - 5 9 (10,8)
6 - 7 6 (7,2)
Adesão às técnicas de desobstrução das vias aéreas 57 (68,7)
Frequência das técnicas de desobstrução das vias aéreas (vezes por semana)
1 - 2 3 (3,6)
3 - 5 4 (4,8)
6 - 7 32 (38,6)
Sem informação 2 (2,4)

Fonte: autor.

ES, Estado do Espírito Santo.

Tabela 3 : Associação das características dos participantes com as variáveis: fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução das vias aéreas e exercício físico 

Características Fisioterapia respiratória p-valor Técnicas de desobstrução das vias aéreas p-valor Exercício físico p-valor
Não Sim Não Sim Não Sim
Idade, média (DP) 9,33 (5,42) 7,29 (4,58) 0,09b 5,04 (4,49) 9,18 (4,54) <0,01b 6,73 (4,99) 10,14 (3,86) <0,01b
Raça, n (%)
Branco 9 (37,5) 31 (52,5) 0,21a 12 (46,2) 28 (49,1) 0,80a 23 (41,8) 17 (60,7) 0,10a
Preto / Pardo 15 (62,5) 28 (47,5) 14 (53,8) 29 (50,9) 32 (58,2) 11 (39,3)
Função pulmonar (% predito), média (DP)
VEF1 85,50 (26,15) 75,23 (31,08) 0,27c 101,17 (17,13) 75,47 (29,56) 0,01c 75,45 (27,80) 82,50 (31,05) 0,37b
CVF 95,56 (21,84) 91,00 (26,48) 0,56c 107,17 (19,01) 90,33 (24,86) 0,12c 89,45 (22,89) 95,73 (26,29) 0,41c
FEF25-75% 73,44 (35,28) 58,62 (38,39) 0,21c 93,83 (16,86) 59,33 (37,86) 0,02b 60,80 (38,48) 67,41 (37,23) 0,64b
VEF1/CVF 86,06 (11,02) 79,04 (14,38) 0,08b 93,00 (4,69) 79,83 (13,61) 0,01b 81,65 (13,43) 81,77 (13,90) 0,99b
S-K, média (DP) 88,33 (10,90) 90,42 (11,86) 0,24b 95,58 (5,89) 87,19 (12,57) <0,01b 90,09 (11,41) 89,29 (12,07) 0,95b

Fonte: autor.

DP, desvio padrão; VEF1, volume expiratório forçado no primeiro segundo; CVF, capacidade vital forçada; FEF25-75%, fluxo expiratório forçado entre 25-75% da CVF; VEF1/CVF, VEF1/CVF taxa; S-K, Escore de Shwachman-Kulczycki ; p-valor < 0,050; a Teste Chi-quadrado; b Teste de Mann-Whitney; c Teste T para médias.

Tabela 4 : Fisioterapia respiratória, técnicas de desobstrução das vias aéreas, e exercício físico: correlações com as características dos pacientes 

Características r p-valor
Escore de Shwachman-Kulczycki
Idade -0,35* <0,01
Função pulmonar
VEF1 0,66* <0,01
CVF 0,63* <0,01
VEF1/CVF 0,49* <0,01
FEF25-75% 0,62* <0,01
Fisioterapia respiratória (frequência semanal)
Escore de Shwachman-Kulczycki 0,06 0,57
Função pulmonar
VEF1 -0,15 0,34
CVF -0,09 0,55
VEF1/CVF -0,22 0,17
FEF25-75% -0,18 0,27
Exercício físico (frequência semanal)
Escore de Shwachman-Kulczycki 0,02 0,87
Função pulmonar
VEF1 0,28 0,07
CVF 0,28 0,07
VEF1/CVF 0,09 0,58
FEF25-75% 0,20 0,19
Técnicas de desobstrução das vias aéreas (frequência semanal)
Escore de Shwachman-Kulczycki -0,34* 0,01
Função pulmonar
VEF1 -0,39* 0,03
CVF -0,36 0,05
VEF1/CVF -0,43* 0,02
FEF25-75% -0,43* 0,02

Fonte: autor

r, coeficiente de correlação; VEF1, volume expiratório forçado no primeiro segundo; CVF, capacidade vital forçada; VEF1/CVF, VEF1/CVF taxa; FEF25-75%, fluxo expiratório forçado entre 25-75% da CVF; * p-valor < 0,050.

Tabela 5 : Associação entre as características dos participantes e as formas de financiamento ao serviço de fisioterapia 

Características Formas de financiamento do serviço de fisioterapia p-valor
Público Não-publico
Idade, média (DP) 7,34 (4,39) 6,93 (5,02) 0,66a
Raça, n (%) 0,07b
Branco 19 (46,3) 11 (73,3)
Preto / Pardo 22 (53,7) 4 (26,7)
Fisioterapia respiratória (s) 2,4 (1,22) 3,93 (2,52) 0,13a
Técnicas de desobstrução das vias aéreas (s) 4,18 (3,35) 3,83 (3,38) 0,90a
Exercício Físico (s) 1,24 (2,22) 1,33 (1,84) 0,66a
Função pulmonar (% predito), média (DP)
VEF1 67,40 (29,56) 98,25 (17,50) 0,06a
CVF 84,35 (24,37) 110,50 (20,17) 0,09a
VEF1/CVF 76,40 (15,37) 87,75 (5,12) 0,24a
FEF25-75% 50,50 (39,29) 83,25 (15,59) 0,11a
S-K, média (DP) 88,17 (13,03) 95,33 (6,94) 0,02a
Região, n (%)
Metropolitana 20 (51,3) 14 (93,3) <0,01c
Outras regiões 19 (48,7) 1 (6,7)

Fonte: autor.

DP, desvio padrão; s, vezes por semana; VEF1, volume expiratório forçado no primeiro segundo; CVF, capacidade vital forçada; VEF1/CVF, VEF1/CVF taxa; FEF25-75%, fluxo expiratório forçado entre 25-75% da CVF; S-K, Escore de Shwachman-Kulczycki; p-valor < 0,05; a Teste de Mann-Whitney; b Teste Chi-quadrado; c Teste Exato de Fisher.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Hospital Estadual Infantil Nossa Senhora da Glória.

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Financiamento: O projeto, os autores e os coautores não receberam financiamento.

Recebido: Novembro de 2023; Aceito: Novembro de 2023; Publicado: Abril de 2024

Autor correspondente: flamarp@yahoo.com; flavia.paro@ufes.br

Conflitos de interesse:

Os autores não têm conflito de interesse.

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