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Journal of Human Growth and Development

versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.34 no.2 Santo André maio/ago. 2024  Epub 10-Fev-2025

https://doi.org/10.36311/jhgd.v34.15430 

ARTIGO ORIGINAL

Obesidade abdominal e níveis de estresse entre profissionais de segurança pública

Luiz Cláudio Barreto Silva Neto, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Busca bibliográfica, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise de dados, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritoa 

Tamires Dos Santos Vieira, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Busca bibliográfica, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise de dados, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritoa  b 

Marcele Lorentz Mattos de Souza, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Busca bibliográfica, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise de dados, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritoc 

Carlos Henrique Pagani Corrêa, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Desenho do estudo, Análise de dados, Preparação do manuscritob 

Elizeu Batista Borloti, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Coleta de dados, Análise de dados, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritob 

Pedro Luiz Ferro, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Coleta de dados, Análise de dados, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritob 

Adriana Madeira Álvares da Silva, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritoa  b 

Luis Carlos Lopes Júnior, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Busca bibliográfica, Coleta de dados, Desenho do estudo, Análise de dados, Preparação do manuscrito, Revisão do manuscritob 

aPrograma de Pós-Graduação em Nutrição e Saúde (PPGNS/UFES), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil;

bCentro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPSCG/UFES), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil;

cPrograma de Pós-Graduação em Biotecnologia (PPGBIOTEC/UFES), Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil.


RESUMO

Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

O estudo teve como objetivo relacionar a obesidade abdominal e o estresse entre profissionais de segurança pública. Com 216 participantes, encontramos associações entre esses fatores, enfatizando a importância de abordagens integradas para a saúde física e mental desses profissionais de segurança.

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

Os pesquisadores conduziram um estudo envolvendo 216 profissionais de segurança pública, examinando a relação entre obesidade abdominal e estresse. Foram realizadas medições, incluindo aferição da pressão arterial, avaliações antropométricas e foi aplicado o Inventário de Sintomas de Estresse de Lipp. Através de análises estatísticas utilizando SPSS v.25, descobriu-se uma forte associação entre obesidade abdominal e aumento de sintomas de estresse entre esses profissionais.

O que essas descobertas significam?

Estas descobertas sugerem uma possível ligação entre a obesidade abdominal e o aumento dos sintomas de estresse entre os profissionais de segurança pública. Isto sublinha a importância de abordar a saúde física e mental em profissões marcadas por elevado nível de estresse. A implementação de estratégias holísticas para gerir o estresse e promover estilos de vida mais saudáveis pode beneficiar significativamente o bem-estar destes indivíduos, reduzindo potencialmente o risco de doenças crônicas.

Palavras-Chave: obesidade; estresse psicológico; agentes de segurança pública; ciências da nutrição; saúde pública

Resumo

Introdução

O estilo de vida moderno, marcado pela rotina intensa e alimentação inadequada, contribui para o aumento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis, especialmente a obesidade, que pode ser influenciada pelo estresse. A relação entre estresse, estado nutricional e Doenças Crônicas Não Transmissíveis carece de estudos abrangentes no Brasil e no mundo, principalmente quando se refere aos profissionais de segurança pública.

Objetivo

avaliar a obesidade abdominal e sua associação com sintomas de estresse em profissionais de segurança pública na região metropolitana de uma capital do Brasil.

Método

o estudo faz parte do programa “SOMA-SI”, que investigou a saúde de agentes de segurança pública do Espírito Santo entre abril e dezembro de 2022. A amostra incluiu policiais, bombeiros e guardas municipais (n=216). Foram incluídos profissionais de segurança pública, adultos saudáveis e excluiu-se os servidores afastados ou sob tratamento psiquiátrico. Dentre as variáveis mensuradas incluiu-se as medidas de pressão arterial, avaliação antropométrica e Inventário de Sintomas de Estresse de Lipp. Utilizou-se o Statistical Package for Social Science (SPSS) v. 25 for Windows® para as análises estatísticas. Foram realizados testes qui-quadrado e Mann-Whitney a 5% de significância, explorando associações entre variáveis categóricas e diferenças nas medianas dos escores de estresse.

Resultados

a amostra foi composta predominantemente homens (75,5%) e não brancos (63,7%), revelou 61,6% com mais de 15 anos de trabalho, 81,1% com renda acima de seis salários mínimos e 77,3% com ensino superior completo. Os policiais militares representaram a maioria (67,6%), sendo 72,2% pais , 57,9% consumidores de álcool e 9,3% fumantes. A maioria apresentou excesso de peso (77,3%). Associações estatísticas foram observadas entre circunferência da cintura e sintomas de estresse (p = 0,004).

Conclusão

o estudo revelou uma ocorrência prevalente de adiposidade abdominal e estresse entre os agentes de segurança pública. Além disso, elucida uma prevalência significativa de excesso de peso na amostra, aliada a uma incidência pronunciada de sintomas de estresse. Estas descobertas sublinham uma relação complexa e mutuamente influente entre estas variáveis. No entanto, também enfatizam a necessidade de esforços de investigação mais amplas de modo a compreender o impacto do estresse nos indivíduos que trabalham em funções de agentes de segurança pública.

Palavras-Chave: obesidade; estresse psicológico; agentes de segurança pública; ciências da nutrição; saúde pública

RESUMO

Destaques

Existe uma maior frequência de sintomas de estresse e excesso de peso entre profissionais de segurança pública.

Os profissionais de segurança pública que apresentavam obesidade abdominal apresentaram maior frequência de sintomas de estresse.

Foi observado que os profissionais de segurança pública, que apresentaram níveis mais altos de glicemia em jejum, apresentaram maiores frequências de sintomas de estresse.

Palavras-Chave: obesidade; estresse psicológico; agentes de segurança pública; ciências da nutrição; saúde pública

ABSTRACT

Authors summary

Why was this study done?

This study aimed to establish a connection between abdominal obesity and stress among public safety personnel. With 216 participants, we identified associations between these factors, emphasizing the importance of integrated approaches to the mental and physical health of these security professionals.

What did the researchers do and find?

The researchers conducted a study involving 216 public safety personnel, examining the relationship between abdominal obesity and stress. They conducted measurements, including blood pressure checks and anthropometric assessments, and administered the Lipp’s Inventory of Stress Symptoms for adults. Through statistical analysis using SPSS v.25, they identified a potential association between abdominal obesity and heightened stress symptoms among these professionals.

What do these findings mean?

These findings suggest a link between abdominal obesity and a potential increase in stress symptoms among public safety personnel. This underscores the importance of addressing both physical and mental health in professions characterized by high stress. Implementing holistic strategies to manage stress and promote healthier lifestyles may significantly benefit the well-being of these individuals, potentially reducing the risk of chronic disease.

Key words: obesity; psychological stress; public safety personnel; nutrition sciences; public health

Abstract

Introduction

the modern lifestyle, characterized by intense routines and inadequate diets, contributes to the increase in non-communicable diseases (NCDs), especially obesity, which can be influenced by stress. The relationship between stress, nutritional status, and NCDs lacks comprehensive studies, especially concerning public security professionals.

Objective

to evaluate abdominal obesity and its association with stress symptoms in public safety personnel in a metropolitan region of a Brazilian capital.

Methods

the study is part of the “SOMA-SI” program, which investigated the health of public security agents in Espírito Santo between April and December 2022. The sample included police officers, firefighters, and municipal guards (n=216). Healthy adults, who were public safety personnel, were included, while those on leave or under psychiatric treatment were excluded. Blood pressure measurements, anthropometric assessments, and the Lipp’s Inventory of Stress Symptoms for adults were among the variables measured. The Statistical Package for Social Science (SPSS) v. 25 for Windows® was used for statistical analyses. Chi-square and Mann-Whitney tests were performed at a significance level of 5%, exploring associations between categorical variables and differences in median stress scores.

Results

the sample consisted of 216 participants, predominantly men (75.5%) and non-white (63.7%), revealing that 61.6% had more than 15 years of work experience, 81.1% had income above six minimum wages, and 77.3% had completed higher education. Military police officers represented the majority (67.6%), with 72.2% being parents, 57.9% alcohol consumers, and 9.3% smokers. Most participants had excess body fat (70.8%) and weight (77.3%). Statistical associations were observed between waist circumference and stress symptoms (p = 0.004).

Conclusion

the study uncovered a prevalent occurrence of abdominal adiposity and stress among public safety personnel. Furthermore, it elucidates a significant prevalence of excess weight within the sample, coupled with a pronounced incidence of stress symptoms. These findings underscore a complex and mutually influential relationship between these variables. However, they also emphasize the critical need for more extensive research efforts to understand the impact of stress on individuals working in public safety roles.

Key words: obesity; psychological stress; public safety personnel; nutrition sciences; public health

ABSTRACT

Highlights

There is a higher frequency of stress symptoms and excess weight among public security professionals.

Public security professionals with abdominal obesity expressed a higher frequency of stress symptoms.

It was observed that public security professionals with higher fasting blood glucose levels exhibited higher frequencies of stress symptoms.

Key words: obesity; psychological stress; public safety personnel; nutrition sciences; public health

INTRODUÇÃO

A dinâmica global contemporânea reflete uma profunda transformação nos padrões demográficos, nutricionais, urbanos e socioeconômicos. Esta interconexão complexa está redefinindo os contornos do estilo de vida em muitas sociedades, desencadeando uma transição multifacetada. A interação entre a transição demográfica e nutricional, juntamente com o processo de urbanização e o crescimento socioeconômico, está promovendo um modo de vida marcado por uma rotina vigorosa1.

Com frequência, esse padrão é identificado pelo consumo predominante de alimentos industrializados, cujo valor nutricional é reduzido, enquanto o teor calórico permanece elevado. Este cenário tem desempenhado um papel significativo no aumento da prevalência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs), notadamente a obesidade2.

Ao explorar as interconexões desses fatores, torna-se evidente o impacto dessa evolução sociodemográfica na saúde pública3. Paralelamente, às transformações socioculturais têm elevado os níveis de estresse na população em geral4,5, gerando impactos significativos para os sistemas de saúde em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, o estresse, conforme delineado pelo modelo trifásico de Selye6 apresenta uma dimensão relevante à essa discussão. A reação do organismo à intensificação da rotina e aos desafios modernos manifesta-se em fases distintas, desde a fase de alerta, com a liberação de adrenalina e noradrenalina, até a fase de resistência, caracterizada pela adaptação do organismo mediante a liberação de cortisol. No entanto, a fase de exaustão destaca a vulnerabilidade do organismo, sugerindo uma ligação potencial entre os desafios sociodemográficos contemporâneos e a suscetibilidade ao estresse psicossocial. Dessa forma, compreender essas interconexões amplifica a percepção sobre os múltiplos impactos na saúde, abrindo espaço para estratégias preventivas mais abrangentes.

Essa definição é defendida por Lipp7, como um estado de tensão que interrompe o funcionamento normal do corpo em resposta a eventos estressores, como mudanças no emprego, violência, perdas familiares, instabilidade financeira e doenças6,8,9 e utilizando o modelo definido por Selye6, em seu instrumento para avaliação desses sintomas em adultos10.

Nesse contexto, os profissionais da segurança pública, devido à natureza desafiadora de suas atividades, enfrentam constantemente riscos e situações perigosas11. Estudos no Brasil têm revelado altos índices de estresse nesse grupo, com uma prevalência em torno de 40%12,13, evidenciando uma relação direta entre a atividade policial e o estresse crônico14,15.

A influência negativa do estresse na função desempenhada pelo agente de segurança pública, seja por afastamentos para tratamentos psiquiátricos ou pela redução da produtividade, não somente impacta os custos do sistema de saúde, mas também compromete a efetividade das operações de segurança pública16,17.

A exposição excessiva ao estresse, com indivíduos principalmente na fase de exaustão, pode levar a problemas metabólicos, como hiperglicemia, resistência à insulina, dislipidemia18 e pode estar associado ao acúmulo de gordura na região central do abdômen, devido alterações na regulação hormonal, que ocorrem devido a exposição excessiva ao estresse, como a sensibilidade a grelina ou até mesmo a redução da sua produção, por comprometimento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA)19.

Em adição, o cortisol em excesso pode afetar negativamente as células beta do pâncreas, aumentando a produção de glicose no fígado e no corpo, contribuindo para resistência à insulina, podendo até mesmo levar ao desenvolvimento de diabetes tipo 2, além de outros problemas metabólicos20. Nesse sentido, há uma necessidade proeminente de estudos que abordem a relação entre o estresse, o estado nutricional e suas consequências em profissionais de segurança pública. Especialmente no contexto do estado do Espírito Santo, visando subsidiar estratégias preventivas e intervenções direcionadas para promover a saúde desses profissionais e otimizar sua performance nas atividades de segurança pública.

A escassez de estudos que abordam o estado nutricional desses profissionais, considerada um fator de risco para desenvolvimento de DCNTs21, representa uma lacuna na literatura científica. A associação da obesidade com diversas outras DCNTs as quais são responsáveis por um grande número de óbitos em todo o mundo independentemente do nível socioeconômico22, reforça a urgência de investigações que abordam essa relação. Neste sentido, a caracterização específica do estresse entre profissionais de segurança pública, sobretudo no estado do Espírito Santo, ainda carece de análises aprofundadas.

Deste modo, o objetivo deste estudo foi avaliar a obesidade abdominal e sua associação com sintomas de estresse em profissionais de segurança pública na região metropolitana de uma capital do Brasil.

MÉTODO

Desenho, local e período do estudo

Trata-se de um estudo transversal, que faz parte de um estudo maior intitulado “SOMA-SI - Um programa de Autogerenciamento do Bem- Estar a partir da análise do Estresse de Agentes da Segurança Pública do Espírito Santo”. Os dados foram coletados durante o período de abril a dezembro de 2022.

Amostra e critérios de elegibilidade

A amostra foi composta por agentes de segurança pública da Grande Vitória, Espírito Santo, abrangendo a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militares, Guarda Municipal de Vitória, Serra, Viana e Vila Velha.

Foi realizado o cálculo do tamanho amostral, sendo considerada a casuística dos servidores da segurança pública do estado do Espírito Santo, cuja população em 2021 correspondia a 3.723 indivíduos, sendo 2547 policiais militares, 649 bombeiros militares, 247 policiais federais e 280 guardas municipais. O número amostral foi calculado, fixando-se α em 5% (erro do tipo I) e levando-se em conta um poder de teste estatístico de 80% (β=0.20). Considerou-se no cálculo, uma prevalência entre obesidade no estado, 17.9%, evidenciado no último23 obteve-se o n amostral dessa pesquisa igual a 216 agentes da segurança pública.

Os critérios de inclusão incluíram: adultos > 18 anos de ambos os sexos; servidores da segurança pública e residente no estado do Espírito Santo; policiais pertencentes às forças de segurança, no âmbito estadual, federal e municipal em atividade na função. Foram excluídos desta pesquisa: os servidores da segurança pública que se encontravam afastados das atividades da polícia temporariamente ou definitivamente durante o estudo; apresentavam diagnóstico de algum transtorno de humor ou psiquiátrico, ou que estavam sob tratamento psiquiátrico.

Coleta de dados

Pressão arterial

A aferição da pressão arterial foi realizada, conforme metodologia validada por Mill24 no estudo ELSA Brasil, com os indivíduos em repouso de 5-10 minutos na posição sentada e com os pés apoiados no chão e após esvaziamento vesical, com braçadeira adequada para o perímetro do braço. Realizou-se uma primeira medida anotada, que foi descartada, e após feito mais duas medidas, com intervalo de um minuto entre as medidas, caso a diferença fosse maior que 5 mmHg era realizada uma terceira medida é depois calculado a média aritmética das duas últimas aferições24.

Avaliação antropométrica

A avaliação antropométrica foi realizada pela manhã, respeitando-se o jejum mínimo de 8 horas, por nutricionistas. Os participantes foram instruídos a jejuar por pelo menos 8 horas, não ingerir cafeína nem praticar atividade física nas 24 horas anteriores ao exame e retirarem todos os objetos metálicos como brincos, anéis, óculos.

A estatura foi avaliada com o uso de estadiômetro, com capacidade máxima de 2.10m e precisão de 0.5cm. O perímetro da cintura foi avaliado com o uso de fita métrica inelástica, com precisão de 0,1cm e comprimento máximo de 2m. Classificada de acordo com a referência25 realizada no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca26. O perímetro do quadril foi aferido no ponto de maior volume da região trocantérica26,27. O Índice de Massa Corpórea (IMC) foi calculado e classificado seguindo a referência da WHO25 para adultos, agrupando-se todos os indivíduos com baixo peso que apresentaram valores de IMC; 18.5 kg/m2, eutróficos: 18.5 a 24.9 kg/m2, sobrepeso: 25.0 a 29.9 kg/m2 e obesidade: IMC≥ 30 kg/m2 sendo categorizado em duas variáveis posteriormente, IMC: não excesso de peso:18,5kg/m2 até 24,9kg/m2, excesso de peso: >25kg/m2.

Inventário de sintomas de estresse

O Inventário de Sintomas de Estresse para Adultos de Lipp (ISSL), trata-se de um instrumento validado na população de jovens e adultos brasileiros com um alfa de Cronbach de 0,9110.

O Inventário de Sintomas de Stress para Adultos foi padronizado e validado por Lipp e Guevara7 e baseou-se num modelo trifásico desenvolvido por Selye6. As fases do estresse contidas no ISSL incluem a fase de alerta, resistência e exaustão. O inventário contém também um total de 53 questões fechadas, divididas em três dimensões, que versam sobre os sintomas físicos (34 itens) e psicológicos (19 itens).

Análise de dados

Os dados foram tabulados em planilha da Microsoft Excel e submetidos a uma análise prévia de consistência. Para a caracterização da amostra quanto ao perfil sociodemográfico, de saúde e estilo de vida, optou-se por apresentar as variáveis categorizadas, com os resultados em frequências relativa e absoluta. Para análise dos dados, adotou-se o teste qui-quadrado, com as variáveis categóricas, aquelas que eram variáveis contínuas foram categorizadas em dicotômicas, sendo então empregado o teste do qui-quadrado a 5% de significância. A fim de comparar a diferença das medianas dos escores fatoriais da circunferência da cintura entre os grupos de indivíduos sem sintomas ou com sintomas de estresse, pelo teste de Mann-Whittney, a 5% de significância. Para todas as análises estatísticas, utilizou-se o Statistical Package for Social Science versão 25.0 para Windows® (SPSS), com alfa fixado em 5%. A opção de não inclusão de dados omissos nos testes foi utilizada.

Aspectos éticos e legais da pesquisa

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (CEP-CCS-UFES), sob no do CAAE: 53145521.1.0000.50.60 estando em consonância com a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012) e sob o número de aprovação (5.163.467).

RESULTADOS

A amostra total foi constituída por 216 participantes e, destes, 75,5% eram do sexo masculino e 24,5% do sexo feminino, sendo a maior parte composta por declarados não brancos (63,7%). É possível observar que a maioria dos indivíduos relatou possuir 15 anos ou mais de trabalho (61,6%), renda abaixo de 5 salários mínimos (81,1%) e nível de escolaridade superior completo (77,3%). O maior percentual da amostra atua na polícia militar (67,6%), possui filhos (72,2%), consome bebidas alcoólicas (57,9%), não fuma atualmente (9,3%), está na classificação de risco normal pela circunferência da cintura (56,9%) e excesso de peso pelo IMC (77,3%) (tabela 1).

Tabela 1 : Características sociodemográficas e antropométricas dos agentes de segurança pública da Grande Vitória 

Características Total n (%) Feminino n(%) Masculino (%) Valor p
Raça/cor
Brancos 78(36,11) 19 (24,4%) 59 (75,6%) 0,94
Não brancos 137(63,43) 34 (23,8%) 103 (75,2%)
Sem informações 1(0,46)
Tempo de Trabalho
15 ou mais anos 133(61,6) 31 (23,3%) 102 (76,7%) 0,595
0 a 15 anos 83(38,4) 22 (26,5%) 61 (73,5%)
Renda
Até 5 salários mínimos 150(69,44) 35 (23,3%) 115 (76,7%) 0,318
6 salários mín. ou mais 35(16,20) 11 (31,4%) 24 (68,6%)
Sem informações 31(14,35)
Escolaridade
Médio ou Técnico 49(22,7) 8 (16,3%) 41 (83,7%) 0,129
Superior Completo 167(77,3) 45 (26,9%) 122 (73,1%)
Órgão de Atuação
Polícia Militar 146(67,6) 31 (21,2%) 115 (78,8%) 0,059a
Guarda Municipal 23(10,6) 7 (30,4%) 16 (69,6%)
Polícia Federal 19(8,8) 9 (47,4%) 10 (52,6%)
Corpo de Bombeiros 21(9,7) 3 (14,3%) 18 (85,7%)
SESP 7(3,2) 3 (42,9%) 4 (57,1%)
Hábito Etílico
Não bebe atualmente 91(42,1) 24 (26,4%) 67 (73,6%)
Bebe atualmente 125(57,9) 29 (23,2%) 96 (76,8%) 0,593
Tabaco
Não fuma 195(90,28) 50 (25,6%) 145 (74,4%) 0,293a
Fuma atualmente 20(9,26) 3 (15,0%) 17 (85,0%)
Sem informações 1(0,46)
Circunferência da cintura
Risco normal 123(56,9) 31 (25,2%) 92 (74,8%) 0,794
Risco aumentado 93(43,1) 22 (23,7%) 71 (76,3%)
IMC
Não Excesso 49(22,7) 13 (26,5%) 36 (73,5%) 0,712
Excesso de Peso 167(77,3) 40 (24,0%) 127 (76,0%)
Fase do estresse
Nenhuma 77(35,6) 15 (19,5%) 62 (80,5%)
Alerta 1(0,5) 0 (0,0%) 1 (100,0%)
Resistência 92(42,6) 22 (23,9%) 70 (76,1%) 0,279a,b
Quase-exaustão 16(7,4) 7 (43,8%) 9 (56,3%)
Exaustão 30(13,9) 9 (30,0%) 21 (70,0%)
Pressão arterial
Normal 124(57,41) 42 (33,9%) 82 (66,1%)
Alterada 91(42,13) 11 (12,1%) 80 (87,9%) <0,001
Sem informações 1(0,46)
Glicemia em jejum
Desejável 158(73,15) 44 (27,8%) 114 (72,2%)
Alterado 52(24,07) 7 (13,5%) 45 (86,5%) 0,036*
Sem informações 6(2,78)
Colesterol
Desejável 107(49,54) 32 (29,9%) 75 (70,1%)
Alterado 106(49,07) 20 (18,9%) 86 (81,1%) 0,61
Sem informações 3(1,39)
Triglicerídeos
Desejável 158(73,15) 39 (24,7%) 119 (75,3%)
Alterado 55(25,46) 13 (23,6%) 42 (76,4%) 0,876
Sem informações 3(1,39)
HDL
Desejável 211(99,1) 51 (24,2%) 160 (75,8%)
Alterado 2(0,93) 1 (50,0%) 1 (50,0%) 0,397a,b
Sem informações 3(1,39)
LDL
Desejável 104 (48,15) 32 (30,8%) 72 (69,2%)
Alterado 105(48,61) 20 (19,0%) 85 (81,0%) 0,5
Sem informações 7(3,24)

Legenda: IMC: Índice de massa corporal, Correção por Bonferroni 5x2=10 = 0,05/10=0,005; Sem informações: indivíduos que selecionaram a opção não responder.

A tabela 2 apresenta os resultados da análise de associação entre o estado nutricional e as classificações obtidas no ISSL Nota-se que foram identificados valores estatisticamente significativos para sintomas de estresse (p = 0,004).

Tabela 2 : Teste qui-quadrado de associação entre obesidade abdominal, variáveis sociodemográficas e classificação das fases do estresse, segundo inventário de sintomas de estresse de Lipp 

Características Total n (%) Percentual de Cintura
Risco Normal n (%) Risco Aumentado n (%) Valor p
Sexo
Feminino 53(24,5) 31(58,5) 22(41,5)
Masculino 163(75,5) 42(53,8) 36(46,2) 0,794
Raça
Brancos 78(36,3) 42(53,8) 36(46,2)
Não Brancos 137(63,7) 80(58,4) 57(41,6) 0,518
Sem informações 1(0,46)
Tempo de Trabalho
15 ou mais anos 133(61,6) 76(57,1) 57(42,9)
0 a 15 anos 83(38,4) 47(56,6) 36(43,4) 0,941
Renda
Até 5 salários mín. 150(81,1) 81(54,0) 69(46,0)
6 salários mín. ou mais 35(19,9) 21(60,0) 14(40,0) 0,520
Sem informações 31(14,35)
Escolaridade
Médio ou Técnico 49(22,7) 32(65,3) 17(34,7)
Superior Completo 167(77,3) 91(54,5) 76(45,5) 0,179
Órgão de Atuação
Polícia Militar 146(67,6) 81(55,5) 65(44,5)
Guarda Municipal 23(10,6) 15(65,2) 8(34,8)
Polícia federal 19(8,8) 14(73,7) 5(26,3)
Corpo de Bombeiros 21(9,7) 10(47,6) 11(52,4)
SESP 7(3,2) 3(42,9) 4(57,1) 0,373a
Hábito etílico
Não bebe atualmente 91(42,1) 49(53,8) 42(46,2)
Bebe atualmente 125(57,9) 74(59,2) 51(40,8) 0,616
Consumo de tabaco
Não fuma 195(90,28) 112(57,4) 83(42,6)
Fuma atualmente 20(9,26) 11(55,0) 9(45,0) 0,834
Sem informações 1(0,46)
IMC
Normal 49(22,7) 47(95,9) 2(4,1)
excesso de peso 167(77,3) 76(45,5) 91(54,5) >0,001*
Fase do estresse
Nenhuma 77(35,6) 54(70,1) 23(29,9)
Alerta 1(0,5) 0(0) 1(100)
Resistência 92(42,6) 49(53,1) 43(46,7)
Quase-exaustão 16(7,4) 5(31,3) 11(68,8)
Exaustão 30(13,9) 15(50) 15(50) 0,016a,*,c
Estresse (Sim ou Não)
Nenhum 77(35,5) 54(70,1) 23(29,9)
Em alguma fase 139(64,5) 69(49,6) 70(50,4) 0,004*
Pressão arterial
Normal 124(57,41) 76(61,3) 48(38,7)
Alterada 91(42,13) 47(51,6) 44(48,4) 0,158
Sem informações 1(0,46)
Glicemia em jejum
Desejável 158 (73,15) 91(57,6) 67(42,4)
Alterado 52 (24,07) 29(55,8) 23(44,2) 0,818
Sem informações 6(2,78)
Colesterol
Desejável 107 (49,54) 56(52,3) 51(47,7)
Alterado 106 (49,07) 66(62,3) 40(37,7) 0,143
Sem informações 3(1,39)
Triglicerídeos
Desejável 158(73,15) 92(58,2) 66(41,8)
Alterado 55(25,46) 30(54,5) 25(45,5) 0,634
Sem informações 3(1,39)
HDL
Desejável 211(99,1) 120(56,9) 91(43,1)
Alterado 2 (0,93)
Sem informações 3(1,39) 2(100,0) 0(0,0) 0,220a,c
LDL
Desejável 104 (48,15) 55(52,9) 49(47,1)
Alterado 105 (48,61) 64(61,0) 41(39,0) 0,239
Sem informações 7(3,24)

Legenda: IMC: Índice de massa corporal ; SESP=Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social HDL: Lipoproteína de Alta Densidade. LDL: Lipoproteína de Baixa Densidade. Sem informações: indivíduos que selecionaram a opção não responder.

A figura 1, representa o resultado da análise de Mann-whitney da relação entre adiposidade abdominal e o estresse em alguma fase do questionário de sintomas de estresse de Lipp.

Figura 1 : Relação entre adiposidade abdominal e estresse em alguma fase ISSL*p-valor= 0,0035 

DISCUSSÃO

O presente estudo procurou analisar a relação entre a adiposidade abdominal e os sintomas de estresse em profissionais de segurança pública, seguindo os critérios estabelecidos por Lipp. Uma análise detalhada da amostra em relação ao sexo revelou associações significativas entre a faixa etária, tempo de serviço, tipo de serviço (interno/externo), renda, órgão de atuação e presença de filhos. No entanto, não se observou associação direta dessas variáveis com os sintomas de estresse nem com medidas antropométricas. Porém, foi encontrada uma correlação estatisticamente significante entre a circunferência abdominal e o estresse, na amostra.

Nesse contexto, é crucial destacar que a exposição prolongada ao estresse pode estar relacionada ao acúmulo de gordura na região central do abdômen, conforme constatado neste estudo. Esse resultado pode ter relação com modificações na regulação hormonal, afetando a sensibilidade à grelina e, em alguns casos, resultando na redução de sua produção, devido ao comprometimento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA)19. A conexão entre estresse prolongado e obesidade abdominal também mostrou associação com sintomas de estresse em outros estudos28,29. Sendo essa conexão bidirecional, pois o estresse pode influenciar a obesidade abdominal e vice-versa, criando um ciclo potencialmente prejudicial à saúde30. Essa condição pode levar a problemas metabólicos, como hiperglicemia, resistência à insulina e dislipidemia18.

Vale destacar que exposição prolongada ao estresse e, consequentemente, ao cortisol, aumentam os níveis de glicose no sangue e estimulam a maturação dos precursores dos adipócitos, promovendo o excesso de gordura corporal31. E essa elevação do cortisol estimula as vias de recompensa mesolímbicas do cérebro, levando ao aumento da ingestão de alimentos palatáveis ricos em açúcar32. Em um estudo com 3.000 participantes, foi observado que indivíduos regularmente expostos a situações estressantes apresentaram uma probabilidade maior de desenvolver obesidade e diabetes tipo 2 em comparação com aqueles com baixa exposição ao estresse33, corroborando com os achados de nossa pesquisa.

No presente estudo, apesar de não ter sido encontrado uma conexão entre os níveis de glicemia em jejum e o estresse, vale destacar a complexa relação entre a saúde mental e física, encontrada em outros estudos, onde a glicemia apresenta associação com o estresse psicológico9,32,34. No entanto, sabemos que a aferição da glicemia de jejum em profissionais de segurança pública pode não ser sensível quando nos deparamos com indivíduos altamente estressados e que fizeram turnos à noite35.

O eixo HPA, é um regulador importante dos hormônios glicocorticoides, desempenhando um papel fundamental no controle da glicose durante momentos de estresse agudo36,37. O cortisol, produto final, produzido pelo HPA, estimula a produção de glicose e a redução do glicogênio, além de diminuir a captação de glicose pelos tecidos periféricos, aumentando assim sua concentração na corrente sanguínea e resultando em hiperglicemia38. A ativação persistente do eixo HPA por estímulos estressantes resulta na liberação elevada de glicocorticoides, a principal resposta hormonal ao estresse, podendo perturbar a regulação normal da glicose39. Além disso, foi observada uma ativação constante desse eixo até mesmo em pacientes com diabetes tipo 240.

Em resumo, embora nossa pesquisa não tenha identificado uma associação entre estresse e glicemia em jejum, cabe ressaltar que a interação entre esses fatores é multifacetada e complexa. Estudos futuros, considerando variáveis adicionais e abordando a heterogeneidade da resposta ao estresse e análises mais robustas, devem ser considerados.

Cabe destacar outro mecanismo relatado em pesquisas que apontam que o estresse crônico pode impactar os hormônios reguladores do apetite, como grelina e leptina. Essa influência pode resultar na redução da sensação de saciedade, causando mudanças no comportamento alimentar, levando a um consumo de alimentos mais palatáveis e contribuindo para o acúmulo de gordura abdominal19, 41.

É importante ressaltar a predominância de indivíduos do sexo masculino entre os agentes de segurança pública, refletindo um padrão observado em outros estudos com esse público28,42. Possuindo relação com a glicemia e pressão arterial alinhando-se com a literatura que aponta diferenças na busca por serviços de saúde entre homens e mulheres, indicando que homens tendem a procurar menos por serviços de saúde43-45. Quando o fazem costumam apresentar o estado mais avançado ou mais crítico da doença28.

Entretanto, observou-se uma predominância de excesso de peso na amostra, ultrapassando as médias populacionais do estado, conforme dados do último Vigitel23. Esse achado é consistente com resultados recorrentes em pesquisas sobre agentes de segurança42,46,47. Isso se alinha a uma alta frequência de sintomas de estresse na amostra (63,4%), sendo um valor significativo na fase de exaustão (13,9%), excedendo valores observados em outras localidades, o que pode indicar uma relação complexa entre estresse e obesidade42,47.

Apesar do presente estudo se referir a um delineamento transversal, fato este que não permite estabelecer relações precisas no que tange a causalidade. Contudo, essas descobertas e discussões são cruciais para a compreensão dos fatores que contribuem para a saúde desses profissionais, pois podem embasar estratégias de intervenção e políticas voltadas para a promoção da saúde mental e física dessa população.

Além disso, cabe ressaltar que existe uma escassez de estudos sobre essa temática, especialmente no Brasil, e os fatores que podem explicar essa lacuna são: a relutância de algumas instituições e policiais em aderirem às intervenções ou pesquisas sobre saúde mental, o medo dos policiais quando a confidencialidade dos dados que estão sendo informados, medo de demonstrar fraqueza diante dos colegas de profissão e da instituição48,49. E isso repercutiu também no nosso estudo, como uma limitação, onde algumas variáveis foram apontadas a opção “prefiro não responder” pelos policiais.

Recomenda-se também a utilização de métodos adicionais que permitam avaliar com maior precisão o grau de influência exercido pelo estresse e a obesidade abdominal nos agentes de segurança pública.

CONCLUSÃO

O estudo revelou maior frequência de adiposidade abdominal em agentes de segurança pública com maiores níveis de sintomas de estresse, além de demonstrar frequência elevada de excesso de peso na amostra, a alta incidência de sintomas de estresse, indicando uma relação complexa e bidirecional entre ambas as variáveis. Além de corroborar com descobertas prévias sobre a associação entre estresse prolongado e obesidade abdominal, a pesquisa identificou correlações entre glicemia, pressão arterial e características demográficas, como sexo e idade.

Agradecimentos

Gostaríamos de agradecer a todos os profissionais de segurança pública do Espírito Santo que participaram desse estudo.

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Financiamento: Não houve financiamento.

Recebido: Maio de 2023; Aceito: Dezembro de 2023; Publicado: de 2024

Autor correspondente lopesjr.lc@gmail.com

Conflitos de interesses :

Os autores declaram não haver nenhum conflito de interesse.

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