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Journal of Human Growth and Development

versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.34 no.2 Santo André maio/ago. 2024  Epub 10-Fev-2025

https://doi.org/10.36311/jhgd.v34.16302 

ARTIGO ORIGINAL

Analisando a saúde física prejudicada dos adolescentes: prevalência e fatores associados em mais de 100 mil escolares brasileiros

João Marcos Ferreira de Lima Silva, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Conceituação, Investigação, Metodologia, Recursos, Validação, Redação – rascunho original, Redação – revisão e ediçãoa  b 

Júlio Brugnara Mello, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Investigação, Validação, Redação – rascunho original, Redação – revisão e ediçãoc 

Maria do Socorro Cirilo-Sousa, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Investigação, Metodologiad 

Germana Freire Rocha Caldas, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Recursos, Redação – revisão e ediçãob 

Emilia Suitberta de Oliveira Trigueiro, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Recursos, Redação – revisão e ediçãob 

Francisco Winter dos Santos Figueiredo, Todos os autores contribuíram para o manuscrito, Conceituação, Curadoria de dados, Análise formal, Investigação, Metodologia, Administração do projeto, Recursos, Software, Supervisão, Validação, Visualização, Redação – revisão e ediçãoa  e 

aCentro Universitário FMABC, Santo André, Brasil;

bCentro Universitário Doutor Leão Sampaio, Juazeiro do Norte, Brasil;

ceFiDac Research Group, Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, Chile;

dDepartamento de Educação Física, Universidade Regional do Cariri, Brasil;

eInstituto Tocantinense Presidente Antônio Carlos, ITPAC-Palmas, Palmas, Brasil.


Resumo

Introdução

apesar das vastas evidências sobre diferentes fatores de risco e suas associações com comportamentos que afetam o desenvolvimento dos jovens, ainda existe uma lacuna na literatura, nas bases de evidências que abordem os componentes da saúde de forma integral.

Objetivo

o presente estudo tem como objetivo propor um indicador combinado com o intuito de concatenar comportamentos de risco em um único desfecho primário, denominado Saúde Física Prejudicada, e após isso, identificar indicadores socioeconômicos que possam ajudar a compreender como esse comprometimento afeta os estudantes brasileiros.

Método

trata-se de um estudo de análise transversal-secundária de uma base de dados pública brasileira (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar). Os dados estão disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (https://www.ibge.gov.br/). Selecionamos as informações sobre atividade física, percepção do estado nutricional e “esforço para mudança de peso” de 108.778 escolares com idade entre 11 e 18 anos. Após propor a variável “saúde física prejudicada”, utilizamos a regressão logística de Poisson com p<0,05 de significância aceitável.

Resultados

adotou-se saúde física prejudicada com base na seguinte composição e critérios: classificação negativa da atividade física, má percepção do estado nutricional e falta de esforço para mudança de peso. Características individuais (sexo e raça), alimentação (tabagismo e consumo de drogas), familiares (ex. não morar com os pais), uso de telefone e características geográficas apresentaram associação significativa com a prevalência de saúde física prejudicada.

Conclusão

coletivamente, as nossas evidências reforçam que o comprometimento da saúde física é influenciado por vários fatores, incluindo estilo de vida, contexto familiar e demográfico e uso de tecnologia. Este estudo fornece informações importantes para gestores no planejamento de políticas públicas eficientes para promoção da saúde dessa população, especialmente na intervenção no contexto social.

Palavras-Chave: determinantes sociais da saúde; comportamento sedentário; comportamentos de risco à saúde; adolescente

ABSTRACT

Authors summary

Why was this study done?

This research presents a novel approach regarding the classification of the physical health status of adoles cents. Based on data from more than 100,000 Brazilian adolescents, we were able to propose a new variable that proved to be a strong factor associated with known health parameters. This evidence is in line with the international trend of using variables together in an attempt to approximate a holistic understanding.

What did the researchers do and find?

In this transversal-secondary analysis study of a Brazilian public database (National School Health Survey), we selected information about physical activity, nutritional status perception, and “effort to change weight” and proposed the “impaired physical health” variable. Our evidence reinforces that impaired physical health is influenced by several factors, including lifestyle, family and demographic context, and technology use. This study provides essential information for managers in planning efficient public policies to promote health for this population, especially in intervention in the social context.

What do these findings mean?

The main evidence presented indicates that individual characteristics (gender and ethnicity), food (smoking and other drugs consumption), family (not living with parents), phone use and geographic characteristics showed a significant association with the prevalence of impaired physical health. These results reinforce that the impairment of physical health is influenced by several factors and provide important information for managers in planning efficient public policies to promote health for this population. The evidence indicates the need for local public policies since the prevalence of impaired physical health also varies according to the regions of the country.

Key words: Social Determinants of Health; Sedentary Behavior; Health Risk Behaviors; Adolescent

Abstract

Introduction

Despite the vast evidence on different risk factors and their associations with behaviours that affect the development of young people, there is still a gap in the literature, the evidence bases that ad-dresses the components of health in an integral way.

Objective

The present study aims to propose a combined indicator with the intention of concatenating risk behaviours into a single primary outcome, called Health Impaired Physics, and after that, identify socioeconomic indicators that can help to understand how this commitment affects the Brazilian students.

Methods

This is a transversal-secondary analysis study of a Brazilian public database (National School Health Survey). The data are available from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (https://www.ibge.gov.br/). We selected the information about physical activity, nutritional status perception, and “effort to change weight” from 108778 schoolchildren aged between 11 and 18 years. After proposing the “impaired physical health” variable, we use the Poisson logistic regression with p<0.05 of acceptable significance.

Results

Impaired physical health was adopted based on the following composition and criteria: negative classification of physical activity, poor perception of nutritional status and lack of effort to change weight. Individual characteristics (gender and race), food (smoking and drug consumption), family (e.g. not living with parents), phone use and geographic characteristics showed a significant association with the prevalence of impaired physical health.

Conclusion

Collectively, our evidence reinforces that physical health impairment is influenced by several factors, including lifestyle, family and demographic context, and technology use. This study provides important information for managers in planning efficient public policies to promote health for this population, especially in intervention in the social context.

Key words: Social Determinants of Health; Sedentary Behavior; Health Risk Behaviors; Adolescent

ABSTRACT

Highlights

The impairment of physical health variable are indicated as potential health risk factors to which children and adolescents are ex-posed in the school context.

The individual characteristics as gender and ethnicity, diet, smoking and consumption of other drugs, family, telephone use and geographic characteristics were significantly associated with the prevalence of impaired physical health.

The impairment of physical health is influenced by several factors and provide important information for managers in planning efficient public policies to promote health for this population.

Key words: Social Determinants of Health; Sedentary Behavior; Health Risk Behaviors; Adolescent

Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

Esta pesquisa apresenta uma abordagem inovadora em relação à classificação do estado de saúde física de adolescentes. Com base em dados de mais de 100 mil adolescentes brasileiros, conseguimos propor uma nova variável que se mostrou um forte fator associado a parâmetros de saúde conhecidos. Esta evidência está em linha com a tendência internacional de utilizar variáveis em conjunto, numa tentativa de aproximar uma compreensão holística.

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

Neste estudo de análise transversal-secundária de uma base de dados pública brasileira (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), selecionamos informações sobre atividade física, percepção do estado nutricional e “esforço para mudança de peso” e propusemos a variável “saúde física prejudicada”. Nossas evidências reforçam que a saúde física prejudicada é influenciada por vários fatores, incluindo estilo de vida, contexto familiar e demográfico e uso de tecnologia. Este estudo fornece informações essenciais para gestores no planejamento de políticas públicas eficientes para promoção da saúde dessa população, especialmente na intervenção no contexto social.

O que essas descobertas significam?

As principais evidências apresentadas indicam que características individuais (gênero e etnia), alimentares (tabagismo e consumo de outras drogas), familiares (não morar com os pais), uso de telefone e características geográficas apresentaram associação significativa com a prevalência de saúde física prejudicada. Esses resultados reforçam que o comprometimento da saúde física é influenciado por diversos fatores e fornecem informações importantes para os gestores no planejamento de políticas públicas eficientes para promoção da saúde dessa população. As evidências indicam a necessidade de políticas públicas locais, uma vez que a prevalência de problemas de saúde física também varia de acordo com as regiões do país.

Highlights

O comprometimento das variáveis saúde física são apontadas como potenciais fatores de risco à saúde aos quais crianças e adolescentes estão expostos no contexto escolar.

As características individuais como sexo e etnia, alimentação, tabagismo e consumo de outras drogas, família, uso de telefone e características geográficas estiveram significativamente associadas à prevalência de saúde física prejudicada.

O comprometimento da saúde física é influenciado por diversos fatores e fornece informações importantes para gestores no planejamento de políticas públicas eficientes para promoção da saúde dessa população.

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial de crianças e adolescentes ocorre de forma harmoniosa e simultânea, mediante condições favoráveis ao seu aprimoramento. Estímulos sensório-motores (ex. atividade física diária, esportes, dança, educação física escolar), alimentação adequada e boa autopercepção (ex. autoeficácia, autocompetência, autoimagem) são fatores fundamentais para o desenvolvimento da capacidade física, capacidades cognitivas e psicossociais1,2. Por outro lado, os comportamentos alimentares pouco saudáveis3, a obesidade4, o alcoolismo5 e o sedentarismo6 são denominados comportamentos de risco, pois afetam negativamente a saúde e o desenvolvimento da população jovem7.

Monitorar, em escala populacional, os fatores de risco para o desenvolvimento saudável da população é um desafio governamental, especialmente nos países em desenvolvimento8. Nestes casos (como o do Brasil, onde este estudo foi desenvolvido), as estratégias de monitoramento devem levar em conta a ampla desigualdade social e econômica, considerando quais fatores podem ser modificados para proporcionar condições de equidade aos jovens. Desta forma, nota-se a relevância de pesquisas e acompanhamentos periódicos em grande escala9,10.

No contexto brasileiro, os hábitos de vida avaliados em larga escala têm sido considerados como fatores que podem influenciar diretamente na saúde da população adolescente. Dentre os principais hábitos avaliados, destacam-se as atividades físicas regulares e o tempo gasto em comportamento sedentário (por exemplo, tempo de tela, tempo reclinado ou sentado, deitado sem dormir) por estarem associados a diversos componentes cardiovasculares11, musculoesqueléticos12, saúde mental13e com desempenho cognitivo14.

Nesse contexto, Brand et al. (2020)15 mostram que o núcleo familiar (especialmente a mãe) foi identificado como importante para a promoção de uma vida fisicamente ativa e de uma alimentação saudável15,16. Embora os pais/responsáveis desempenhem um papel fundamental no estado de saúde da criança17,18, outros fatores parecem influenciar também os hábitos de saúde (por exemplo, fatores sociais e educacionais, género e estatuto socioeconómico), tanto positiva como negativamente.

Moura et al. (2018)19 mostraram que mulheres e meninas adolescentes com baixo nível socioeconômico apresentavam maiores taxas de inatividade física e nutrição inadequada no Brasil. Outros aspectos socioeconômicos como o uso de telas, mas principalmente o uso constante de smartphones, também foram identificados como fator correlacionado aos níveis de obesidade e sedentarismo, sendo mediados por características pessoais como autopercepção de imagem, gênero e idade20. Por fim, o uso excessivo de mídias sociais e jogos eletrônicos também é apontado como fator que promove danos à saúde biopsicossocial (especialmente à autoimagem), favorecendo o uso de drogas lícitas e ilícitas e o sedentarismo21.

Apesar da vasta evidência sobre diferentes fatores de risco e suas associações com comportamentos que afetam o desenvolvimento dos jovens, ainda existe uma lacuna na literatura, na base de evidências que aborda os componentes da saúde de forma integral (ou saúde planetária)22. A evidência sobre comportamentos de risco isolados, utilizando como variáveis de resultado, muitas vezes desconsidera a complexidade dos fenómenos e as suas interinfluências15,19,20. Ao avaliar os fenômenos de saúde de forma única, os diferentes fatores relacionados ao comprometimento da saúde são negligenciados, pois além de serem avaliados com base em diversas variáveis de resultado, também são influenciados por diversos fatores individuais, sociais, econômicos e familiares19.

Contudo, uma possibilidade de abordar as variáveis de saúde do adolescente de forma complexa é tentar identificar um conjunto de condições que possam expressar uma realidade/característica23. Alguns estudos16-19 já utilizaram estratégias de unificação de variáveis para representar um fenômeno de saúde. Este conjunto de variáveis pode constituir um indicador de alerta mais sensível, revelando uma realidade que exige uma atuação mais pontual, mas sobretudo multidisciplinar.

Realizar um estudo considerando essa lacuna é um desafio, pois é necessário coletar diversas variáveis em uma amostra suficientemente heterogênea para representar a população e grande o suficiente para suportar inferências estatísticas. Dessa forma, os dados produzidos por pesquisas realizadas por órgãos governamentais podem auxiliar nesse processo por terem procedimentos de coleta padronizados e possibilitarem amplo alcance na população. Além disso, o processo de criação de métodos e estratégias para avaliar/interpretar dados em larga escala é uma forma de fornecer feedback à própria investigação governamental.

Com o objetivo de padronizar o processo de avaliação das condições de saúde de crianças em idade escolar, o Ministério da Saúde do Brasil propôs a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE)24, correspondendo à maior investigação realizada no país envolvendo estudantes da comunidade e adolescentes. A PeNSE proporcionou um rico panorama dos fatores sociais, parentais, geográficos, estruturais e físicos dos estudantes brasileiros9,25, contribuindo com indicadores que poderão orientar ações locais na busca por melhorias nas condições dessas populações.

Ao colaborar com o desenvolvimento e aprimoramento da estratégia de pesquisa da PeNSE, e considerando a lacuna científica apresentada anteriormente, o presente estudo tem como objetivo propor um indicador combinado com o intuito de concatenar comportamentos de risco em um único desfecho primário, denominado Saúde Física Prejudicada (SFP), em seguida, identificar indicadores socioeconômicos que possam ajudar a compreender como esse comprometimento afeta os estudantes brasileiros investigados no projeto PeNSE, edição 2012.

MÉTODO

Desenho do estudo, participantes e fonte de dados

Trata-se de um estudo de análise transversal-secundária de uma base de dados pública brasileira da PeNSE. Os dados estão disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (https://www.ibge.gov.br/). A primeira edição da PeNSE foi realizada em 2009, avaliando 60.973 estudantes das 26 capitais e do Distrito Federal do Brasil. A segunda edição da PeNSE, realizada em 2012, ampliou seu escopo, incluindo questões relacionadas ao trabalho, hábitos de higiene, saúde mental, utilização de serviços de saúde e prevalência de asma, ampliando seu alcance para além das capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, abrangendo um total de 109.104 alunos.

Para os dados de 2012, alguns municípios, fora das capitais, foram agrupados em um estrato para cada uma das Unidades da Federação, totalizando 26 estratos. As unidades amostrais primárias foram as escolas, as secundárias foram as salas de aula e os escolares constituem a amostra em cada estrato de cada cidade e da capital brasileira. A amostra foi randomizada e equiprovabilidade para cidades e capitais. Em 2012 a coleta de dados foi realizada com smartphones, nos quais foi inserido o questionário autoaplicável24.

O IBGE possui um diretório público, e foram coletados dados disponíveis pela PeNSE 201224 referentes a 108.778 escolares do sexo feminino (n=51.931; 48,0%) e do sexo masculino (n=57.036; 52,0%) com idade entre 11 e 18 anos (ver na íntegra os métodos de amostragem em www.ibge.gov.br/). Os participantes que autorreferiram as três questões fundamentais para a classificação da SFP foram considerados elegíveis para a análise do presente estudo, desconsiderando os demais participantes deste estudo.

Variáveis

Dois grupos de variáveis foram considerados para o desenvolvimento do presente estudo: 1) variáveis relacionadas ao desfecho combinado que passou a ser denominado SFP; e 2) variáveis potencialmente relacionadas à SFP.

Variáveis componentes da SFP

Para criar a variável SFP unimos três variáveis categóricas (figura 1). Como a SFP é uma variável categórica composta, consideramos que um adolescente com SFP deveria estar nas três categorias ao mesmo tempo: classificação negativa de atividade física, má percepção do estado nutricional e falta de esforço para mudança de peso. Destacamos que essas condições são apontadas pela literatura científica como potenciais fatores de risco à saúde a que estão expostas crianças e adolescentes em contexto escolar26.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Figura 1 : Critérios para classificação dos participantes em Saúde Física Prejudicada 

Em relação à atividade física, esta foi avaliada registrando-se o número de dias em que são realizados pelo menos 60 minutos de atividade física (questão B03011 - PeNSE). A classificação de insuficientemente ativo correspondeu a um volume inferior a 3 dias, o que corresponde à prática de atividade física inferior a 180 minutos por semana. Quanto à percepção do estado nutricional (questão B11001 – PeNSE), foram considerados inadequados aqueles que se declararam classificados como “magros”, “muito magros”, “gordos” e “muito gordos”. Em relação ao peso corporal (questão B11002 – PeNSE), as alternativas: “Estou tentando perder peso”, “Estou tentando ganhar peso” ou “Estou tentando manter o mesmo peso” foram consideradas inadequadas.

Variáveis potencialmente relacionadas à SFP

Como variáveis potencialmente relacionadas à SFP foram consideradas sexo, raça/etnia, idade, residência com pai e/ou mãe, uso de celular, acesso à internet e consumo de cigarro, álcool e outras drogas. Foi coletada a idade em anos do participante, utilizamos esta variável como contínua e categórica. Quanto à raça/etnia, os participantes poderiam se declarar brancos, negros, amarelos, pardos ou indígenas, é a linguagem literal utilizada no questionário da PeNSE. Para este estudo, adaptamos para leitura universal seguindo as diretrizes da APA para falar sobre identidade racial e étnica com inclusão e respeito. Usamos negros, indígenas, brancos, afro-americanos e nativos americanos24. As demais variáveis apresentaram respostas dicotômicas (sim ou não).

Aspectos éticos

Por se tratar de um estudo baseado em dados secundários extraídos de bases de dados públicas onde não é possível identificar os participantes do estudo. Não foi necessária a aprovação de Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, conforme orienta a resolução nº 510, de 7 de abril de 2010, do Conselho Nacional de Saúde27.

Análise Estatística

A partir dos microdados da PeNSE 2012, foi criada uma nova variável resultado do estudo (SFP) (ver figura 1). A SFP foi considerada variável dependente, enquanto sexo, raça/etnia, idade, residência com pai e/ou mãe, uso de telefone, acesso à internet e consumo de tabagismo, álcool e outras drogas foram considerados variáveis independentes na regressão de Poisson com variância robusta. Para interpretação dos resultados foram analisados: a Razão de Prevalência (RP), o Intervalo de Confiança de 95%, o Coeficiente de Determinação (R2) e o valor de p. Para analisar a prevalência de SFP em função de cada variável individualmente, foi utilizado o teste Qui-Quadrado. A análise dos dados foi realizada por meio do software estatístico R (R Project). O nível de significância foi adotado em p<0,05.

RESULTADOS

Observamos que as regiões Sul, Sudeste e Nordeste possuem os estados com maiores frequências de SFP. A figura 2 mostra a prevalência de SFP em escolares investigados pelos estados brasileiros, destacando que negros e afro-americanos representam percentuais mais elevados.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Figura 2 : Distribuição geográfica da prevalência de Saúde Física Prejudicada de escolares residentes no Brasil em 2012 

No geral, a prevalência de SFP foi de 9,4% dos escolares, com diferenças estatísticas segundo sexo, etnia, morar com o pai/responsável e uso de telefone. Não foram encontradas diferenças significativas em relação à idade, morar com a mãe/responsável e acesso à internet (tabela 1).

Tabela 1 : Prevalência e fatores associados à saúde física prejudicada em crianças e adolescentes brasileiros, PeNSE-2012 

Variáveis N (%) SFP (%) valor p* RP (IC 95%) valor p**
108778 (100%) 10221 (9,4%)
Gênero
Masculino 51931 (47,6) 3964 (38,8) <0,001 - -
Feminino 57036 (52,3) 6257 (61,2) 1,43 (1,38; 1,49) <0,001
Etnia
Indivíduos brancos 37632 (34,6) 3680 (36,0) <0,001 - -
Preto 14495 (13,3) 1440 (14,1) 1,02 (0,96; 1,08) 0,612
Americano nativo 4817 (4,4) 517 (5,1) 1,01 (1,001; 1,2) 0,048
Afro-americano 48176 (44,2) 4250 (41,6) 0,90 (0,86; 0,94) <0,001
Indígena 3781 (3,5) 327 (3,2) 0,88 (0,79; 0,99) 0,003
Grupo de idade
10 - 12 858 (0,8) 96 (0,8) 0,256 - -
13 - 15 72417 (66,5) 6788 (66,5) 0,83 (0,69; 1,01) 0,068
15 - 18 35692 (32,7) 3337 (32,8) 0,84 (0,69; 1,01) 0,066
Morando com o pai
Sim 69188 (63,6) 6308 (61,8) <0,001 0,92 (0,89; 0,96) <0,001
Não 39626 (36,4) 3902 (38,2) - -
Morando com a mãe
Sim 96903 (89,0) 9063 (88,7) 0,362 0,97 (0,92; 1,03) 0,316
Não 12008 (11,0) 1157 (11,3) - -
Uso do telefone
Sim 94116 (86,5) 8666 (84,8) <0,001 0,87 (0,83; 0,92) <0,001
Não 14740 (13,5) 1552 (15,2) - -
Acesso à internet
Sim 69173 (63,6) 6435 (63,0) 0,255 0,97 (0,93; 1,01) 0,211
Não 39665 (36,4) 3781 (37,0) - -

SFP: Saúde Física Prejudicada; *Qui-quadrado; ** Regressão logística de Poisson; RP: Razão de prevalência; IC 95%: Intervalo de confiança de 95%. Fonte: Elaborado pelos autores.

Com base na regressão de Poisson, foram estimados valores ajustados da razão de prevalência, observando que as meninas apresentam RP de 1,43 (p<0,00) em relação aos meninos, ou seja, uma prevalência de SFP 43% maior, independentemente das demais variáveis incluídas na análise. A variável etnia não apresentou significância estatística para estudantes negros em relação aos estudantes brancos. Os estudantes nativos americanos tiveram apenas 1% a mais do que os estudantes brancos (p<0,05), enquanto os estudantes afro-americanos e indígenas tiveram 10% menos prevalência de reação aos indivíduos brancos (p<0,01). Embora a progressão da faixa etária tenha apresentado redução nos valores de RP, essas alterações em relação à faixa etária de referência (10 a 12 anos) não apresentaram significância estatística.

Escolares que moram com o pai têm prevalência 8% menor de ter SFP (RP: 0,92; p<0,001), enquanto que moram com a mãe tiveram 3% menos SFP, porém esse resultado não foi significativo no modelo ajustado (RP: 0,97; p>0,05). Esse comportamento protetor também foi observado entre os estudantes que utilizam celular, com prevalência 13% menor de SFP (RP: 0,87; p<0,001).

A figura 3 mostra a prevalência de SFP em função da idade e do sexo dos escolares. Encontramos maior prevalência de SFP nas idades de até 11 anos e redução significativa entre os meninos ao longo dos anos (p<0,001). As meninas apresentam prevalência maior que os meninos a partir dos 11 anos, sem apresentar diferenças significativas entre as idades.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Figura 3 : Prevalência de Saúde Física Prejudicada com a idade segundo sexo 

A tabela 2 apresenta a relação de outros hábitos de risco (tabagismo, álcool e outras drogas) com a prevalência de SFP. Verificamos que apenas o hábito de fumar esteve associado à prevalência de SFP (p<0,001). Quando analisado de forma ajustada a partir das variáveis identificadas como significativas na tabela 1 (sexo, morar com o pai, etnia e uso de telefone), o tabagismo (RP: 1,09; p<0,01) permaneceu como variável significativa e o consumo de outras drogas (RP: 1,08; p<0,05) também foi identificado como associado à prevalência de SFP.

Tabela 2 Associação entre saúde física comprometida e hábitos de risco 

Variáveis N (%) SFP (%) RP Valor PR Valor
Não Sim de p** ajustado de p**
108778 98.557 10221 (IC 95%) (IC 95%)
(100%) (90,6%) (9,4%)
Fumar 22753 20463 2290 1,07 <0,001 1,09 <0,001
(100%) (89,9) (10,1) (1,03-1,12) (1,05-1,13)
Álcool 72930 66021 6909 1,01 0,216 1,003 0,588
(100%) (90,5) (9,5) (0,99-1,02) (0,98-1,02)
Outras drogas 8397 7565 832 1,06 0,095 1,08 0,027
(100%) (90,1) (9,9) (0,98-1,14) (1,01-1,16)

SFP: Saúde Física Prejudicada; ** Regressão logística de Poisson; RP: Razão de prevalência; IC 95%: Intervalo de confiança de 95%. Fonte: Elaborado pelos autores.

DISCUSSÃO

Neste estudo, analisamos o comprometimento da saúde física com base na combinação de três variáveis de desfecho (atividade física, estado nutricional e peso corporal) e identificamos diferentes fatores associados à prevalência de SFP em escolares brasileiros. Ressaltamos que as condições escolhidas para criação da variável SFP são apontadas pela literatura científica como potenciais fatores de risco à saúde aos quais crianças e adolescentes estão expostos no contexto escolar26. Optamos pela atividade física por apresentar alto nível de relação com variáveis fisiológicas e psicológicas da saúde dos adolescentes28,29. A percepção do estado nutricional e a variável “fazer esforço para mudar o peso corporal” foram escolhidas por serem facilmente avaliadas por professores, pesquisadores e demais profissionais de saúde. Além disso, recomenda-se que, na avaliação da saúde física, sejam consideradas variáveis de autopercepção e também do próprio comportamento17-19. Por este motivo, optámos por avaliar se os adolescentes fizeram (ou já fizeram) algum esforço para alterar o peso, como forma de avaliar indiretamente os comportamentos.

As principais evidências apresentadas indicam que características individuais (sexo e etnia), alimentação (tabagismo e consumo de outras drogas), família (não morar com os pais), uso de telefone e características geográficas apresentaram associação significativa com a prevalência de SFP. Esses resultados reforçam que o comprometimento da saúde física é influenciado por diversos fatores e fornecem informações importantes para os gestores no planejamento de políticas públicas eficientes para promoção da saúde dessa população. As evidências indicam a necessidade de políticas públicas locais, uma vez que a prevalência da SFP também varia de acordo com as regiões do país. Observamos que as regiões Sul, Sudeste e Nordeste apresentam as maiores frequências de SFP, o que pode ser explicado, em parte, pela maior inatividade física apresentada pela população dessas regiões30. A inatividade física também pode explicar a maior prevalência de SFP em adolescentes do sexo feminino quando comparado ao sexo masculino. Estudos anteriores demonstraram que, na realidade brasileira, as adolescentes do sexo feminino praticam menos atividades físicas29,30, influenciando negativamente na saúde desta população. Embora as aulas de Educação Física na escola tenham promovido maior participação de adolescentes do sexo feminino, os desafios sociais e culturais ainda enfrentados por meninas e mulheres no que diz respeito à prática de atividade física indicam a necessidade de políticas públicas voltadas para esta população31.

A etnia também foi identificada como fator associado à SFP, sendo mais prevalente em indivíduos brancos, negros e adolescentes nativos americanos. Alguns fatores podem atuar como mediadores e explicar esses achados. Estudos anteriores demonstraram que os adolescentes brancos apresentam um maior consumo de álcool32 e uma maior prevalência de distúrbios alimentares33, impactando negativamente a sua saúde. Por outro lado, a inatividade física, que também compromete a saúde, é mais prevalente em brasileiros que se declaram negros ou afro-americanos34. Os aspectos económicos podem explicar, em parte, estas diferenças, uma vez que os indivíduos brancos historicamente tiveram mais privilégios sociais e económicos, enquanto a população negra enfrenta diferentes tipos de segregação. Consequentemente, encontra mais barreiras à participação em atividades físicas recreativas e menos oportunidades relacionadas à saúde. Assim, gênero, classe e etnia são fatores que se cruzam e devem ser levados em consideração na elaboração de políticas públicas para a saúde de crianças e adolescentes.

Ao investigarmos os fatores familiares, verificamos que morar com o pai reduz a prevalência de SFP, mas morar com a mãe não parece ser um fator significativo. A relação entre família e adolescente é complexa e diversificada, com diferentes facetas. Por exemplo, Peres et al. (2008)35 mostraram que as taxas de várias SFP eram menores entre os adolescentes que viviam com ambos os pais e maiores entre aqueles que não viviam com nenhum deles, indicando os familiares como um fator de apoio que favorece uma vida saudável. Por outro lado, Costa et al. (2007)36 mostraram que dentre os motivos para os adolescentes iniciarem o uso de álcool, destacam-se a curiosidade, estar com os pais e amigos, sendo a família um facilitador do consumo de álcool.

Neste estudo avançamos no conhecimento e apresentamos um novo elemento para pesquisa ao mostrar que pais e mães exercem influências diferentes na saúde de seus filhos. Na presente investigação não investigamos o envolvimento dos pais nas atividades físicas realizadas pelos escolares. Mas, no contexto brasileiro, sabemos que a disposição de crianças e adolescentes em iniciar ou permanecer fisicamente ativos parece estar associada ao convívio com pessoas que realizam esse tipo de rotina37,38. Os pais exercem grande influência e muitas vezes incentivam os filhos a praticar atividades39, agindo de forma protetora para a SFP quando analisada isoladamente e permanecendo significativo quando considerado no modelo ajustado.

Os resultados do nosso estudo também mostram que o uso do telefone celular é um fator que diminui a prevalência da SFP. Podemos explicar esta constatação a partir de uma relação indireta com o nível socioeconômico desses estudantes, uma vez que a pose do telefone pode ser interpretada - hipoteticamente - como um sinal indireto de melhor acesso a infraestrutura, alimentação e oportunidades de cuidados. Além disso, Georgeson et al. (2020)40 mostraram recentemente que recursos tecnológicos, como smartphones, têm sido utilizados para realizar intervenções que visam a mudança de comportamento em favor da saúde de crianças e adolescentes. Além disso, Aschbrenner et al. (2019)41mostraram que o telefone pode ser utilizado pelos agentes de saúde pública como tecnologia para promover a atividade física e, consequentemente, proteger a SFP, indicando seu potencial no desenvolvimento de estratégias de promoção da saúde.

Ao investigar fatores de risco à saúde, encontramos elevada prevalência de uso de álcool (67%) entre escolares brasileiros. Estudos realizados no início dos anos 2000 mostraram que aproximadamente 48% dos adolescentes brasileiros consumiam bebidas alcoólicas42, indicando um possível aumento dessa prevalência nos últimos anos. A adolescência é particularmente importante neste debate porque é indicada como o momento do primeiro contato com álcool e outras drogas, sendo estimulada principalmente pela interação social43. A preocupação com o uso de álcool na adolescência e sua continuidade na vida adulta se deve aos diversos danos gerados ao organismo e, consequentemente, à saúde de seus usuários.

Além das consequências diretas da intoxicação, existem consequências de longo prazo que podem interferir na vida do adolescente, como aprendizado, perspectivas de emprego, comportamentos de risco no trânsito, situações de violência, como envolvimento em brigas, violência sexual e doméstica, e entre outros44. Portanto, embora não tenha havido evidência de associação significativa entre consumo de álcool e SFP, o elevado percentual de participantes que já consumiram álcool merece destaque e chama a atenção dos formuladores de políticas de saúde no país.

No presente estudo, o tabagismo esteve significativamente associado à SFP, com prevalência de SFP 7% maior nos participantes que mantiveram esse comportamento. Quando analisado em conjunto com o consumo de álcool e outras drogas, sua prevalência ajustada foi 9% maior, expondo uma interação com o consumo de outras drogas. O consumo de tabaco está diretamente relacionado com uma variedade de problemas de saúde, especialmente problemas respiratório45 e o desenvolvimento de cancro do pulmão46, comprometendo ainda mais quando o tabagismo começa na adolescência45. Seo & Huang (2012)47 destacaram em seu estudo que o tabagismo interfere na disposição para realizar atividades físicas, especialmente pela percepção de comprometimento do desempenho físico, além do efetivo comprometimento respiratório. Esses fatores juntos tornam-se agravantes para a saúde dos adolescentes e reforçam sua importância no desenvolvimento de estratégias de saúde pública para adolescentes.

Analisando apenas o consumo de outras drogas, a razão de prevalência não apresentou associação significativa, porém, quando analisada em conjunto com tabagismo e álcool, passou a apresentar significância estatística, com prevalência 8% maior nos participantes classificados com SFP. O consumo de outras drogas representa um alerta que deve ser levado em consideração pelos gestores da saúde e da educação, principalmente quando os resultados dizem respeito aos alunos do ensino fundamental, momento de transição para a adolescência com perspectiva de maior independência familiar e convívio social. Crianças em idade escolar que fumam, consomem álcool ou outros tipos de drogas tendem a perceber um comprometimento em sua capacidade física ou imagem corporal, o que influencia seu comprometimento em iniciar ou permanecer fisicamente ativo47.

Por fim, nosso estudo demonstrou que a variável SFP pode ser facilmente coletada e avaliada em pesquisas futuras. Além de pesquisas, professores e profissionais de saúde podem utilizar um simples questionário de avaliação para obter um perfil de saúde física dos adolescentes, que mostramos estar associado a diversas variáveis sociodemográficas.

Apesar dos importantes resultados trazidos pelo nosso estudo e de sua aplicabilidade prática para gestores de saúde, é importante reconhecer suas limitações. Em primeiro lugar, a recolha de dados foi realizada através de uma base de dados pública disponibilizada pelo governo nacional. Embora o mapeamento nacional tenha sido realizado de forma padronizada, não temos acesso nem fornecemos parâmetros de confiabilidade para coleta de dados. Além disso, as variáveis investigadas neste estudo corresponderam às coletadas pela PeNSE, indicando a possibilidade de investigar a influência de outras variáveis nos parâmetros de saúde de escolares brasileiros. Por fim, nossos resultados são uma primeira indicação de uma variável que pode ser utilizada para monitorar o estado de saúde física de adolescentes, porém, sugere-se que os resultados obtidos neste trabalho sejam comparados com pesquisas anteriores para validar sua aplicabilidade para diferentes situações.

CONCLUSÃO

As principais evidências apresentadas indicam que características individuais (gênero e etnia), alimentação (tabagismo e consumo de outras drogas), família (não morar com os pais), uso do telefone e características geográficas estiveram significativamente associadas à prevalência de saúde física prejudicada. Esses resultados reforçam que o comprometimento da saúde física é influenciado por diversos fatores e fornecem informações importantes para os gestores no planejamento de políticas públicas eficientes para promoção da saúde dessa população.

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Financiamento : Esta pesquisa não recebeu nenhum subsídio específico de agências de financiamento dos setores público, comercial ou sem fins lucrativos.

Recebido: Janeiro de 2024; Aceito: Março de 2024; Publicado: Julho de 2024

Autor correspondente joaomarcosef@gmail.com

Conflitos de interesse:

Os autores não relatam nenhum conflito de interesses.

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