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Journal of Human Growth and Development

versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.34 no.2 Santo André maio/ago. 2024  Epub 10-Fev-2025

https://doi.org/10.36311/jhgd.v34.15778 

ARTIGO ORIGINAL

Análise do perfil de vulnerabilidade da coinfecção de tuberculose em pessoas vivendo com HIV

Karllian Kerlen Simonelli Soaresa 
http://orcid.org/0000-0002-2296-1190

Willian Hiroshi Hisatugub 
http://orcid.org/0000-0001-8333-0539

Fernanda Mattos de Souzaa 
http://orcid.org/0009-0009-1311-5492

Ethel Leonor Noia Maciela 
http://orcid.org/0000-0003-4826-3355

Thiago Nascimento do Pradoa 
http://orcid.org/0000-0001-8132-6288

aLaboratório de Epidemiologia, Universidade Federal do Espírito Santo, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Vitória, Espírito Santo, Brasil;

bDepartamento de Tecnologia Industrial, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Espírito Santo, Brasil.


RESUMO

Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

Em decorrência de um processo metodológico diferenciado para o tratamento e a disposição dos dados. Pois ao realizar busca na literatura científica, foi constatado que após a inclusão de novas variáveis na ficha de notificação compulsória a partir de 2016, poucos estudos buscaram compreender o perfil da coinfecção TB-HIV no Espírito Santo- Brasil, usando banco de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação. A fim de abordar os fatores sociodemográficos e clínicos para favorecer a avaliação de medidas e o direcionamento de intervenções necessárias para o controle da cadeia de transmissão da doença entre as pessoas com a coinfecção TB-HIV e alcançar, consequentemente, as estratégias para o Fim da TB.

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

Foi realizado um processo metodológico de tratamento dos dados antes de realizar a análise descritiva e traçar o perfil epidemiológico. Com esse processo foi possível identificar que três casos ainda eram considerados negativos no banco da Tuberculose e ao realizar um Linkage entre o banco da TB e do HIV, foi constatado no banco HIV como positivo. Além do perfil de vulnerabilidade individual entre jovens, homens, raça/cor parda; vulnerabilidade programática, que cosiste no acesso aos serviços de saúde, por exemplo, a não realização do TDO e da Terapi Antiretroviral; e a vulnerabilidade social, sabendo que a dupla carga da doença proporciona aumento dos custos catastróficos para o indivíduo e família, grande parte dos registros verificam que os indivíduos não recebem transferência de renda do governo.

O que essas descobertas significam?

Que o perfil de vulnerabilidade encontrado está de acordo com a literatura e tem sido amplamente discutida ao longo dos anos, porém mesmo com avanço científico e tecnológico ainda existem dificuldades para colocar em prática os problemas elencados e proporcionar o acesso à saúde e aos direitos do cidadão.

Palavras-Chave: tuberculose; HIV; epidemiologia; perfil de saúde; saúde pública

Resumo

Introdução

estudos que buscam identificar e traçar o perfil de vulnerabilidade, contribuem para o direcionamento de intervenções necessárias a serem realizadas em pessoas com a coinfecção tuberculose (TB) e HIV (sigla em inglês para human immunodeficiency vírus), para alcançar o Fim da TB.

Objetivo

descrever o perfil da pessoa com a coinfecção tuberculose e HIV, no período de 2016 a 2018, no Espírito Santo – Brasil.

Método

trata-se de um estudo transversal e descritivo, com uso de dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) TB e HIV, através de um processo metodológico de preparação do banco e análise descritiva de dados, as informações foram codificadas e armazenadas anonimamente em um banco de dados no Excel for Windows®; após utilizou-se o pacote estatístico STATA, versão 16 (StataCorp LP, College Station, TX, EUA) para realização das análises descritivas com identificação dos valores relativos e absolutos, e foram geradas tabelas para análise dos dados. O estudo obteve aprovação junto ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (CEP/CCS/UFES) sob o parecer de nº 4022892 em 12/05/2020.

Resultados

de um total de 4.428 casos, 325 casos eram de coinfecção TB-HIV, 322 casos foram localizados no banco SINAN-TB e três casos foram localizados após linkage com o banco SINAN-HIV que apresentaram registro de resultado negativo para o teste diagnóstico de HIV no banco SINAN-TB. Verificou-se um perfil com predomínio de homens (71%), jovens (20 a 39 anos) (52%), pardos (59%), tempo de estudo de até 8 anos (25%), do qual 29% relatam etilismo 26% faziam uso de drogas ilícitas, 37% eram tabagistas, que apresentavam a forma pulmonar da doença (66%), relatam adesão à terapia antirretroviral (65%) e apenas 44% com desfecho de cura no encerramento e 20% interromperam o tratamento; a maioria dos casos (61%) não realizaram o tratamento diretamente observado e apenas 6,9% dos casos relataram receber auxílio pelo programa de transferência de renda do governo.

Conclusão

a fim de garantir uma abrangência maior no controle da tuberculose em PVHIV, é necessária a ampliação no diálogo entre as políticas de saúde e de suporte social; possibilitar o acesso aos serviços de saúde como o tratamento antiretroviral à todas as pessoas diagnosticadas com HIV, e tratamento diretamente observado (TDO) oportuno às pessoas que apresentam esse perfil de vulnerabilidade. A realização de novos estudos, é imprescindível para contribuir no avanço tecnológico e planejamento nas ações de serviço em saúde.

Palavras-Chave: tuberculose; HIV; epidemiologia; perfil de saúde; saúde pública

RESUMO

Highlights

Predominância dos casos da coinfecção TB-HIV em homens jovens, raça/cor parda e ensino fundamental completo.

Grande parte declara não ter realizado Tratamento Diretamente Observado (TDO).

Menos de dois terços dos casos registrados utilizavam a terapia anti retroviral.

Nem sequer metade dos casos (40%) apresentaram desfecho de cura ao final do tratamento.

Apenas 6% dos indivíduos declararam receber transferência de renda do governo.

Palavras-Chave: tuberculose; HIV; epidemiologia; perfil de saúde; saúde pública

ABSTRACT

Authors summary

Why was this study done?

It was done due to a different methodological process for the processing and arrangement of data. When carrying out a search in the scientific literature, it was found that after the inclusion of new variables in the compulsory notification form from 2016 onwards, few studies sought to understand the profile of TB-HIV co-infection in Espírito Santo, Brazil, using the System database of Notifiable Diseases Information. In order to address sociodemographic and clinical factors to favor the evaluation of measures and the targeting of interventions necessary to control the chain of transmission of the disease among people with TB-HIV co-infection and consequently achieve strategies for the end of TB.

What did the researchers do and find?

A methodological process of data processing was carried out before carrying out the descriptive analysis and outlining the epidemiological profile. With this process it was possible to identify that three cases were still considered negative in the Tuberculosis database, and when carrying out a Linkage between the TB and HIV database, they were found to be positive in the HIV database. In addition to the individual vulnerability profile among young people, men, mixed race/color; programmatic vulnerability, which consists of access to health services, for example, failure t carry out DOT and Antiretroviral Therapy; and social vulnerability, knowing that the double burden of the disease increases catastrophic costs for the individual and their family, most records show that individuals do not receive income transfers from the government.

What do these findings mean?

They mean that the vulnerability profile found is in accordance with the literature and has been widely discussed over the years, but even with scientific and technological advances there are still difficulties in putting into practice [solutions to] the problems listed and providing access to health and citizens’ rights.

Key words: tuberculosis; HIV; epidemiology; health profile; public health

Abstract

Introduction

studies that seek to identify and outline the vulnerability profile contribute to directing necessary interventions to be carried out in people with tuberculosis (TB) and HIV (acronym in English for human immunodeficiency virus) co-infection, to achieve the end of TB.

Objective

to describe the profile of people with tuberculosis and HIV co-infection, from 2016 to 2018, in Espírito Santo, Brazil.

Methods

this is a cross-sectional descriptive study, using secondary data from the Notifiable Diseases Information System (SINAN) for TB and HIV, through a methodological process of database preparation and descriptive data analysis, the information was encoded and stored anonymously in a database in Excel for Windows®; Afterwards, the STATA statistical package, version 16 (Stata Corp LP, College Station, TX, USA) was used to carry out descriptive analyses with identification of relative and absolute values, and tables were generated for data analysis. The study was approved by the Research Ethics Committee of the Health Sciences Center of the Federal University of Espírito Santo (CEP/CCS/UFES) under opinion number 4022892 on 05/12/2020.

Results

of a total of 4,428 cases, 325 cases were TB-HIV co-infection, 322 cases were located in the SINAN-TB database and three cases were located after linking with the SINAN-HIV database that presented a record of negative results for the diagnostic test of HIV in the SINAN-TB database. There was a profile with a predominance of men (71%), young people (20 to 39 years old) (52%), mixed race (59%), up to 8 years of schooling (25%), of which 29% reported alcohol consumption, 26% used illicit drugs, and 37% were smokers, who had the pulmonary form of the disease (66%), they reported adherence to antiretroviral therapy (65%) and only 44% had a cure outcome at closure and 20% stopped treatment; the majority of cases (61%) did not undergo directly observed treatment and only 6.9% of cases reported receiving assistance from the government’s income transfer program.

Conclusion

in order to ensure greater coverage of tuberculosis control in PLHIV patients, it is necessary to expand the dialogue between health and social support policies; enable access to health services such as antiretroviral treatment for all people diagnosed with HIV, and timely directly observed treatment (DOT) for people who present this vulnerability profile. Carrying out new studies is essential to contribute to technological advancement and planning in health service actions.

Key words: tuberculosis; HIV; epidemiology; health profile; public health

ABSTRACT

Highlights

Predominance of cases of TB-HIV co-infection in young men, mixed race/skin color and complete primary education.

Most declare that they did not undergo Directly Observed Treatment (DOT).

Less than two thirds of registered cases used antiretroviral therapy.

Not even half of the cases (40%) showed a cure outcome at the end of treatment.

Only 6% of individuals declared receiving income transfers from the government.

Key words: tuberculosis; HIV; epidemiology; health profile; public health

INTRODUÇÃO

A tuberculose (TB) é a principal causa de morte entre as pessoas que vivem com o HIV (sigla em inglês human immunodeficiency vírus) (PVHIV)1,2. A redução do acesso ao diagnóstico e tratamento da TB durante a pandemia do novo coronavirus disease 2019 (COVID-19) reverteu anos de progresso na prestação de serviços essenciais para o controle dessa doença. Globalmente, o número estimado de mortes por TB aumentou entre 2019 e 2021, diferentemente do declínio observado entre 2005 e 20192. Em 2022 foi considerada a segunda principal causa de morte em todo o mundo.

No Brasil, entre 2012 e 2019, a proporção de casos novos de TB testados para HIV apresentou um aumento de cerca de 15%, chegando a 82,8% em 2019. Já em 2020 e 2021, houve um decréscimo de casos novos de TB testados para HIV, com proporções de 82,6% e 82,7%, respectivamente, em 2022 essa taxa foi de 79,7%2-4. Em 2022, enquanto a taxa de coinfecção foi de 8,4% no Brasil, o estado do Espírito Santo apresentou uma taxa de coinfecção 8,1% em 2020.

Além da infecção por HIV, outros fatores de risco estão relacionados a infecção e adoecimento por TB, como: a superlotação, o empobrecimento, as más condições de vida, o uso de drogas injetáveis, o uso do álcool, tabagismo, diabetes, falta de acesso à saúde e desnutrição, dentre outros1,2,5.

Um estudo publicado em 2021, realizado na República do Congo6, de 2014 a 2019, com 49.460 pessoas, identificou que situações relacionadas a má oferta dos serviços de saúde, atrelado as características inerentes dos indivíduos, como a coinfecção, por exemplo, aumenta o risco de desfechos desfavoráveis de óbito, perda de seguimento e ausência ou supressão da carga viral. Além disso o estudo sugere que abordar os estigmas sociais e desafios clínicos enfrentados na coinfecção TB/HIV pode favorecer o controle da cadeia de transmissão da tuberculose.

Estudos que buscam identificar e traçar o perfil de vulnerabilidade, favorece o direcionamento de intervenções necessárias a serem realizadas em pessoas com a coinfecção TB-HIV e alcançar, consequentemente, as estratégias para o Fim da TB7. O objetivo deste estudo foi traçar o perfil epidemiológico das pessoas com a coinfecção TB-HIV no Estado do Espírito Santo, Brasil.

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal e descritivo, com uso de dados secundários notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN-TB), no período de 2016 a 2018 e no SINAN-HIV, no período de 2007 a 2019, disponibilizados pela Secretaria de Estado da Saúde (SESA)8.

Foram incluídos no estudo, registros de casos diagnosticados com tuberculose e HIV, residentes no estado do Espírito Santo, local escolhido em decorrência da oportunidade de acesso ao banco de dados nominal, para realização de estratégia metodológica de tratamento dos dados; e foram excluídos registros que apresentavam duplicidade. Posteriormente foi realizada uma preparação dos dados, com análise de duplicidade e linkage com o banco HIV a fim de obter informação referente ao HIV; foram anonimizados e retirados da Secretaria Estadual de Saúde (SESA) em junho de 2022 para proceder com a análise, de acordo com a figura18.

Além das variáveis Tuberculose (CID10: A15-A19) e HIV (CID10: B20-B24), outras variáveis foram utilizadas, classificadas e analisadas de acordo os níveis de vulnerabilidade, conforme método de estudo publicado por Maciel e colaboradores em 20159. As variáveis utilizadas no “nível de vulnerabilidade individual” foram: sexo, idade, raça/cor, escolaridade e doenças associadas; para o “nível de vulnerabilidade programática”, as variáveis foram: forma da TB, baciloscopia de escarro, cultura, TDO, TARV durante o tratamento para a TB, Tipo de entrada e situação de encerramento; e para o nível de “vulnerabilidade social”, as variáveis utilizadas foram: populações especiais e beneficiário do programa de transferência de renda do governo.

As informações foram codificadas e armazenadas anonimamente em um banco de dados no Excel for Windows®; utilizou-se o pacote estatístico STATA, versão 16 (Stata Corp LP, College Station, TX, EUA) para realização das análises descritivas com identificação dos valores relativos e absolutos.

O estudo obteve aprovação junto ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (CEP/CCS/UFES) sob o parecer de nº 4022892 em 12/05/2020, conforme Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

RESULTADOS

O banco de dados do SINAN-TB, no período de 2016 a 2018, no Espírito Santo, Brasil, apresentou um total de 4.428 casos; após a realização das etapas descritas na figura 1, identificou-se 325 casos de coinfecção TB-HIV, dos quais 322 casos foram localizados no banco SINAN-TB e três casos foram localizados após linkage com o banco SINAN-HIV que apresentaram registro de resultado negativo para o teste diagnóstico de HIV no banco SINAN-TB.

Fonte: Autoria Própria, 2023.

Figura 1 : Fluxograma sobre a metodologia do processo de preparação dados no banco SINAN-TB, período de 2016 a 2018 

Entre os 325 casos de coinfecção TB-HIV, 232 (71%) eram do sexo masculino, 169 (52%) tinham entre 20 e 39 anos, 190 (59%) se autodeclaravam pardos, 80 (25%) tinham o ensino fundamental completo, 291 (89%) apresentaram aids, 96 (29%) alcoolismo, 85 (26%) faziam uso de drogas ilícitas, 122 (37%) eram tabagistas (tabelas 1 e 2).

Um total de 215 (66%) apresentaram a forma pulmonar da TB, apenas 55 (23%) tiveram o resultado positivo para a baciloscopia e 120 (36%) dos casos apresentaram resultado positivo para a cultura 143 (61%) casos não realizaram o TDO, 194 (65%) dos casos fizeram uso de TARV. Em relação ao tipo de entrada, 253 (77%) foram considerados casos novos; quanto a situação de encerramento dos casos, observa-se predomínio do desfecho de cura com 145 (44%) casos, 66 (20%) apresentaram óbitos por outras causas e 40 (12%) abandonaram o tratamento (tabela 3). Com relação ao aspecto social, o estudo mostrou que apenas 22 (6,9%) pessoas relataram receber auxílio pelo programa de transferência de renda do governo (tabela 4).

Tabela 3 : Distribuição dos fatores de vulnerabilidade programática relacionados a interrupção do tratamento da TB em PVHIV no Espírito Santo, período de 2016 a 2018 

CARACTERÍSTICAS Total N %
Forma N= 325
Pulmonar 215 66,1
Extrapulmonar 75 23,1
Pulmonar + Extrapulmonar 35 10,8
Baciloscopia N= 236
Positivo 55 23,3
Negativo 57 24,1
Não realizado 51 21,7
Não se aplica 73 30,9
Cultura N= 325
Positiva 120 36,9
Negativa 90 27,7
Em andamento 18 5,5
Não se aplica 97 29,9
Tratamento Diretamente Observado N= 233
Não 143 61,4
Sim 84 36,0
Ignorado 6 2,6
Terapia Antiretro viral durante Tratamento TB N= 297
Não 91 30,7
Sim 194 65,3
Ignorado 12 4,0
Entrada N= 325
Caso Novo 253 77,9
Recidiva 26 8,0
Reingresso após interrupção tratamento 12 3,7
Não Sabe 1 0,3
Transferência 27 8,3
Pós-óbito 6 1,8
Situação de Encerramento N= 323
Cura 145 44,9
Interrupção do tratamento 40 12,4
Óbito 12 3,7
Óbito por outras causas 66 20,4
Transferência 36 11,1
Mudança de diagnóstico 15 4,6
TB-DR 3 0,9
Mudança de esquema 5 1,5
Falência 0 0
Abandono Primário 1 0,3

Fonte: Própria Autoria, 2023.

Tabela 4 : Distribuição dos fatores de vulnerabilidade social relacionados a interrupção do tratamento da TB em PVHIV no Espírito Santo, período de 2016 a 2018 

CARACTERÍSTICAS Total N %
Beneficiário de Programa de Transferência do Governo N= 315
Não 203 64,5
Sim 22 6,9
Ignorado 90 28,6
Populações Especiais - Imigrantes N= 320
Não 307 95,9
Sim 0 0,0
Ignorado 13 4,1
Populações Especiais – Privados de liberdade N= 320
Não 294 91,9
Sim 16 5,0
Ignorado 10 3,1
Populações Especiais – População de Rua N= 320
Não 280 87,5
Sim 31 9,7
Ignorado 9 2,8

Fonte: Autoria Própria, 2023.

DISCUSSÃO

Ao longo dos últimos anos, diversos avanços foram alcançados pelos programas de controle da TB em todas as esferas de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). Contudo, ainda existem desafios a serem superados para o alcance do objetivo de acabar com a TB como um problema de saúde pública no Brasil. O perfil sociodemográfico identificado neste estudo corrobora com a literatura no que se refere à vulnerabilidade individual, social e programática10-12. Observa-se a recorrência de casos da coinfecção TB-HIV em homens jovens, raça/cor parda e ensino fundamental completo. A maioria apresentou a forma pulmonar da doença, entrada como caso novo, um número expressivo declarou ser tabagista e não ter realizado TDO. Menos de dois terços dos casos registrados utilizavam a TARV e sequer metade dos casos apresentaram desfecho de cura ao final do tratamento.

As limitações do estudo estão relacionadas ao pequeno tamanho amostral devido ao período considerado para estudo, que foi escolhido em decorrência da inserção de novas variáveis de interesse disponíveis na versão 5 da ficha de notificação, como: a inclusão de populações especiais (população privada de liberdade, população de rua, profissional de saúde e imigrante), beneficiário do programa de transferência de renda do governo, TARV durante o tratamento para a TB, teste molecular rápido para TB (TMR-TB), teste de sensibilidade, e se transferência (informar local de transferência), e a alteração nas variáveis “se extrapulmonar” (retirada a segunda opção), “baciloscopia de escarro”(retirada a segunda baciloscopia), “doenças e agravos associados” (incluído uso de drogas ilícitas e tabagismo) e “baciloscopia de acompanhamento” (incluído após 6° mês)13. Uma amostra maior permitiria a elaboração de análises mais robustas, a fim de avaliar associações e a identificação de perfis preditivos.

A TB, além de persistente, é também perpetuadora da pobreza, pois compromete a saúde dos indivíduos e suas famílias, o que causa impactos econômicos e sociais14. Ao considerar as variáveis relacionadas à vulnerabilidade social, os achados deste estudo revelam a manutenção da distribuição desigual do número de casos concentrando-se nos grupos sociais desfavorecidos. Uma revisão sistemática publicada em 2022, identificou que a dupla carga da doença, coinfecção TB-HIV, aumenta em até 81% os custos catastróficos pela doença10,11,12,15. Um estudo realizado no Brasil identificou que 41% das pessoas com TB experimentaram custos catastróficos e aumento da situação de pobreza durante o diagnóstico e tratamento da doença, incluindo a perda de renda por incapacidade ao trabalho16. Atrelado a esta situação, é verificado que não receber recursos de transferência de renda do governo, agrava o estado de vulnerabilidade, compromete o acesso aos serviços de saúde e inviabiliza a adesão ao tratamento17.

Quanto às variáveis relacionadas à vulnerabilidade programática, ou seja, situações em que as instituições contribuem com os contextos desfavoráveis, a minoria dos casos teve acesso ao TDO, que é o acompanhamento durante a tomada de medicação, estratégia preconizada pelo Ministério de Saúde (MS) para o PVHIV, pessoas em situação de rua, usuários de drogas e pessoas privadas de liberdade, pois apresentam maiores chances de desistirem do tratamento, o que pode resultar na resistência a medicamentos e aumento nas taxas de transmissão da doença7,18. Um estudo realizado em São Paulo, no período de 2010 a 2015, com 10.389 casos de coinfecção TB-HIV, identificou que a interrupção do tratamento está relacionado a cobertura de TDO, ou seja, quanto menor a cobertura de TDO, maior será a taxa de interrupção do tratamento; aumentando a cadeia de transmissão da doença19.

Observa-se também que mais de um terço da população avaliada não fazia uso da TARV, diferentemente do proposto pelo MS desde 2013, que recomenda o tratamento oportuno com a TARV em todas as PVHIV14. A adesão a TARV está relacionado a um melhor prognóstico da coinfecção por minimizar a replicação viral e favorecer o fortalecimento dos linfócitos T CD42,19,20.

O MS também recomenda que todo o usuário diagnosticado com TB precisa ser testado para HIV, pois o diagnóstico precoce possibilitará um melhor prognóstico7. Porém, verificou-se que três usuários foram considerados negativos para HIV no banco SINAN-TB apesar de terem sido identificados no banco SINAN-HIV após linkage. Indicando novamente situação de vulnerabilidade programática, que pode ser resolvido mediante a implantação de um sistema de informação interligado, capaz de identificar e associar os registros a fim de proporcionar avaliação dos dados por meio da vigilância.

Ao considerar o desfecho, observou-se que a cura apresentou maior frequência, porém esse percentual não chegou a ser nem a metade dos casos. Um estudo transversal realizado em São Paulo, entre 2010 a 2014 e com uso de dados secundários, identificou que a ocorrência do desfecho de cura em casos de coinfecção TB-HIV foi menor quando comparado aos casos com TB, o que pode estar associado ao uso de múltiplos medicamentos, efeitos adversos, falta de suporte familiar e despreparo da equipe de saúde na realização do atendimento aos casos de coinfecção; diante disso, torna-se necessário o fortalecimento dos programas de saúde, descentralização da assistência e do acompanhamento dos casos, com intuito de aumentar as taxas de cura e minimizar desfechos desfavoráveis20.

Dificuldades de acesso aos direitos do cidadão e outras situações de vulnerabilidade são de responsabilidade do Estado. É possível verificar uma mobilização por parte das políticas a fim de promover uma melhor relação entre a assistência social e políticas públicas de atenção às doenças infecciosas atreladas à vulnerabilidade, como a infecção HIV e TB. Dentre as estratégias estão: articular atividades de promoção à saúde e acompanhamento da saúde, além da garantia de proteção social, como acompanhamento familiar e transferência de renda aos usuários e familiares acometidos por esses problemas de saúde pública21. Porém, não basta apenas ter políticas robustas e abrangentes, cabe agora a criação de sistema de referência de pacientes que precisam de assistência social dentro do SUS, a fim de direcionar subsídios necessários para o controle desse problema de saúde pública.

Além de identificar um perfil sociodemográfico de vulnerabilidade, foi possível também repensar em práticas de saúde que ainda não foram integralmente implementadas, a fim de proporcionar o controle dessa dupla carga de doenças. É necessário que, aliado ao fortalecimento das ações de saúde, haja também o incremento das ações de políticas de inclusão e proteção de direitos, como os programas sociais, bem como evitar o crescimento dos índices de interrupção do tratamento entre as PVHIV, com foco nas Estratégias pelo fim da TB até 2035.

CONCLUSÃO

O perfil da coinfecção TB/HIV se deu em pessoas do sexo masculino, jovens, de raça/cor parda e ensino fundamental completo, com forma pulmonar da tuberculose, e tipo de entrada, como caso novo. Observou-se também um número expressivo de pessoas tabagistas e que não realizaram o TDO. Menos de dois terços dos casos registrados utilizavam a TARV, apenas 40% dos casos apresentaram desfecho de cura ao final do tratamento, e uma quantidade mínima de pessoas tiveram acesso ao benefício de programa de transferência do governo.

A fim de garantir uma abrangência maior no controle da tuberculose em PVHIV, é necessária a ampliação no diálogo entre as políticas de saúde e de suporte social; possibilitar o acesso aos serviços de saúde como o tratamento antiretroviral à todas as pessoas diagnosticadas com HIV, e um tratamento diretamente observado (TDO) oportuno às pessoas que apresentam esse perfil de vulnerabilidade. A realização de novos estudos, é imprescindível para contribuir no avanço tecnológico e planejamento nas ações de serviço em saúde.

Tabela 1 : Distribuição dos fatores demográficos de vulnerabilidade individual relacionados a interrupção do tratamento da TB em PVHIV no Espírito Santo, período de 2016 a 2018 

CARACTERÍSTICAS Total N %
Gênero N= 325
Feminino 93 28,6
Masculino 232 71,4
Idade, anos N= 325
< 20 6 1,9
20-39 169 52,0
40 – 59 135 41,5
> 60 15 4,6
Raça/cor da pele N= 321
Branca 68 21,1
Preta 37 11,5
Parda 190 59,2
Ignorado 26 8,2
Escolaridade, anos estudo N= 325
Analfabeto 9 2,88
1 a 4 anos 52 16,6
5 - 8 anos 80 25,5
9 a 12 anos 69 22,0
> 12 anos 14 4,5
N/A 89 28,5

Fonte: Própria autoria, 2023.

Tabela 2 : Distribuição dos fatores clínicos de vulnerabilidade individual relacionados a interrupção do tratamento da TB em PVHIV no Espírito Santo, período de 2016 a 2018 

CARACTERÍSTICAS Total N %
Doenças – aids N= 325
Não 26 8,0
Sim 291 89,6
Ignorado 8 2,4
Doenças – alcoolismo N= 322
Não 211 65,5
Sim 96 29,8
Ignorado 15 4,7
Doença – diabetes N= 322
Não 289 89,8
Sim 9 2,8
Ignorado 24 7,4
Doença - saúde mental N= 322
Não 287 89,1
Sim 13 4,0
Ignorado 22 6,9
Doença - uso drogas ilícitas N=324
Não 219 67,6
Sim 85 26,2
Ignorado 20 6,2
Doença – tabagismo N=322
Não 180 55,9
Sim 122 37,9
Ignorado 20 6,2
Doença – outra N= 297
Não 249 83,8
Sim 24 8,1
Ignorado 24 8,1

Fonte: Própria Autoria, 2023.

REFERÊNCIAS

1. Furin J, Cox H, Pai M. Tuberculosis. Lancet. 2019, 393(10181):1642-1656. doi: 10.1016/S0140-6736(19)30308-3. [ Links ]

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Órgão Financiador da Pesquisa : Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo, Nº 84320761/182018

Recebido: Janeiro de 2024; Aceito: Maio de 2024; Publicado: de 2024

Autor correspondente enf.karllian@gmail.com

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