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Journal of Human Growth and Development

versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.34 no.2 Santo André maio/ago. 2024  Epub 10-Fev-2025

https://doi.org/10.36311/jhgd.v34.16304 

ARTIGO ORIGINAL

Série temporal de mortalidade por avc da população adulta residente no estado do amazonas de 2000 a 2021

Iago Sales Orlandi, análise dos dados, discussão, redação e versão final do textoa 

Andressa Braz Carlini Pestana, análise dos dados, discussão dos resultados e redaçãob 

Breno Lage Pereira de Aguiar, análise dos dados e discussãoa 

Aline Bergamini Effgen Sena, análise dos dados e discussãoa 

Paulo André Stein Messetti, análise dos dados e discussãoc 

Francisco Naildo Cardoso Leitão, análise estatística, desenho do estudo e coleta de dadose 

Valdelias Xavier Pereirad 

Hugo Macedo de Souza Jrd 

Orivaldo Florencio de Sousa, análise estatística, desenho do estudo e coleta de dadosf  g 

Luiz Carlos de Abreu, desenho do estudoh 

aGraduação em Nutrição, Departamento de Educação Integrada em Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, Espírito Santo, Brasil;

bPrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, Espírito Santo, Brasil;

cProfessor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória. Vitória, Espírito Santo, Brasil.

dCentro Universitário FMABC, Santo ANdré, São Paulo, Brasil;

ePrograma de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, Espírito Santo, Brasil;

fCentro de Ciências da Saúde e Desportos, Universidade Federal do Acre. Vitória, Espírito Santo, Brasil.

gPrograma de Pós-Graduação e em Nutrição e Saúde, Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, Espírito Santo, Brasil;

hProfessor Titular-Livre junto à Universidade Federal do Espírito Santo, Orientador Pleno do Programa de Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Brasil


RESUMO

Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

O acidente vascular cerebral (AVC) representa uma das principais causas de mortalidade tanto no Brasil quanto no mundo. Apesar disso, existem escassos estudos epidemiológicos sobre o AVC nos diversos estados brasileiros. Portanto, este estudo foi conduzido com o propósito de analisar a mortalidade por AVC no estado do Amazonas, visando fornecer dados que possam contribuir para a formulação de políticas e estratégias de saúde eficazes para o controle da doença.

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

Um estudo ecológico de série temporal foi conduzido utilizando dados secundários do DATASUS, abrangendo a população adulta do Amazonas de 2000 a 2021. Foram analisados os óbitos totais e coeficientes de mortalidade para a população total e para as categorias de sexo e grupo etário. A análise revelou estabilidade nos coeficientes de mortalidade geral e nos grupos etários de 20 a 29 anos e 30 a 39 anos. Entretanto, observou-se um aumento significativo no coeficiente de mortalidade no grupo etário de 80 anos ou mais. A maioria dos óbitos ocorreu em indivíduos com 60 anos ou mais, sendo que os homens apresentaram consistentemente coeficientes de mortalidade superiores aos das mulheres

O que essas descobertas significam?

Embora o coeficiente de mortalidade por acidente vascular cerebral tenha se mantido estável para a população geral, foi observado um alto número de óbitos totais e uma tendência de aumento na mortalidade por AVC para o grupo etário de 80 anos ou mais. Isso sugere a necessidade de intervenções e estratégias de saúde voltadas para a prevenção e o manejo do AVC, especialmente entre os idosos.

Palavras-Chave: acidente vascular cerebral; mortalidade; epidemiologia

Resumo

Introdução

o acidente vascular cerebral (AVC) é uma das principais causas de morte no Brasil e no mundo, porém a literatura carece de estudos que analisem a mortalidade por AVC no estado do Amazonas.

Objetivo

analisar a mortalidade por acidente vascular cerebral no estado do Amazonas, no período de 2000 a 2021.

Método

trata-se de um estudo ecológico de séries temporais com dados secundários de 2000 a 2021 obtidos do Departamento de Informação do Sistema Único de Saúde (DATASUS), para o estado do Amazonas.

Resultados

o ano de 2021 registrou o mais elevado número de óbitos por AVC ao longo da série histórica analisada, com um total de 851 óbitos. Este ano apresentou ainda o mais alto coeficiente de mortalidade entre 2015 e 2021, atingindo 31,84. O sexo masculino apresentou maior coeficiente de mortalidade em relação ao sexo feminino para a maioria dos anos. O coeficiente de mortalidade demonstrou ser maior para indivíduos com faixa etária acima dos 60 anos. A população de 80 anos ou mais apresentou tendência crescente para o coeficiente de mortalidade, com uma Variação Percentual Anual (VPA) de 2,34% (IC:95%; 0.18; 4.54). Para a população total e para os grupos etários de 20 a 29 anos e 30 a 39 anos o coeficiente de mortalidade permaneceu estável.

Conclusão

O coeficiente de mortalidade para a população total apresentou estabilidade. Para os indivíduos com mais de 80 anos houve uma tendência de crescimento.

Palavras-Chave: acidente vascular cerebral; mortalidade; epidemiologia

RESUMO

Highlights

Há uma tendência de aumento no coeficiente de mortalidade por AVC no Amazonas para o grupo etário de 80 anos ou mais.

Na maioria dos anos o coeficiente de mortalidade dos homens foi superior ao das mulheres.

O coeficiente de mortalidade foi mais elevado nos grupos etários com 60 anos ou mais

Palavras-Chave: acidente vascular cerebral; mortalidade; epidemiologia

ABSTRACT

Authors summary

Why w as this study done?

Stroke (AVC) is one of the leading causes of mortality both in Brazil and globally. Despite this, there is a scarcity of epidemiological studies on stroke across various Brazilian states. Therefore, this study was conducted to analyze stroke mortality in the state of Amazonas, aiming to provide data that can contribute to the formulation of effective health policies and strategies for disease control

What did the researchers do and find?

We conducted an ecological time series study using secondary data from DATASUS, covering the adult population of Amazonas from 2000 to 2021. The study analyzed total deaths and mortality rates for the entire population, as well as by sex and age group categories. The analysis revealed stability in overall mortality rates and the age groups of 20-29 years and 30-39 years. However, we observed a significant increase in mortality rates in the age group of 80 years and older. Most deaths occurred in individuals aged 60 years and older, with men consistently showing higher mortality rates than women.

What do these findings mean?

While the stroke mortality rate remained stable for the general population, individuals aged 80 years and older experienced a high number of total deaths and a growing trend in stroke mortality. These findings emphasize the necessity for interventions and healthcare strategies specifically aimed at preventing and managing strokes, particularly among the elderly.

Key words: stroke; mortality; epidemiology

Abstract

Introduction

stroke is one of the leading causes of mortality in Brazil and worldwide, however, the literature lacks studies analyzing stroke mortality in the state of Amazonas.

Objective

to analyze stroke mortality in the state of Amazonas from 2000 to 2021.

Methods

the study is an ecological time-series study with secondary data from 2000 to 2021 obtained from the Department of Health Information and Informatics of the Unified Health System (DATASUS) for the state of Amazonas.

Results

the year 2021 recorded the highest number of stroke deaths over the analyzed historical series, with a total of 851 deaths. The mortality rate in 2021 was the highest compared to 2015 through 2021, reaching 31.84. The male sex had a higher mortality rate compared to the female sex for most years. The mortality rate was higher for individuals aged over 60. The mortality rate among people aged 80 or older has been increasing, with an Annual Percent Change (APC) of 2.34% (95% CI: 0.18; 4.54). For the entire population, as well as the age groups 20-29 and 30-39, the mortality rate remained constant.

Conclusion

the mortality rate for the total population remained stable. For individuals over 80 years old, there was a growth trend.

Key words: stroke; mortality; epidemiology

ABSTRACT

Highlights

There is an increasing trend in stroke mortality rates in Amazonas for the age group of 80 years and older.

In most years, the mortality rate among men was higher than that among women.

Mortality rates were highest in age groups 60 years and older.

Key words: stroke; mortality; epidemiology

INTRODUÇÃO

O acidente vascular cerebral (AVC) é uma patologia cerebrovascular caracterizada por um déficit neurológico imediato devido a uma lesão cerebral isquêmica ou hemorrágica1. Trata-se de uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo, afetando milhões de pessoas anualmente2,3. Esta condição coloca um ônus significativo sobre os sistemas de saúde e recursos sociais, exigindo intervenções eficazes de prevenção, tratamento e reabilitação4,5.

A ocorrência e os óbitos por AVC variam em relação aos grupos etários, sendo geralmente observado um aumento da incidência e mortalidade com a idade6. O sexo, a raça e o histórico familiar também são fatores de risco não modificáveis para a doença6,7. Além disso, indivíduos com diabetes, hipertensão, obesidade, dislipidemia, elevado grau de sedentarismo, tabagismo, consumo abusivo de álcool e estresse estão mais suscetíveis a sofrerem AVC6,7.

Cerca de 17 milhões de casos da doença ocorrem globalmente a cada ano3. Estima-se que entre 1 a 4 pessoas irão sofrer AVC ao longo de suas vidas8. Mais de 6 milhões de mortes por AVC são registradas anualmente, sendo a maioria delas associada ao AVC isquêmico9. Estes números evidenciam a significativa carga de mortalidade atribuída ao AVC e ressaltam a importância de medidas preventivas e tratamentos eficazes para mitigar este impacto global3.

Na América Latina, o AVC também apresenta uma alta incidência e está entre as principais causas de morte3. Diante do cenário, nas últimas décadas ocorreu um avanço em políticas para controle do AVC no Brasil10. Entretanto, apesar da tendência de queda no coeficiente de mortalidade nos últimos anos, esse declínio não está distribuído uniformemente por todas as regiões do país11,12.

Os estados brasileiros com melhor desenvolvimento econômico apresentam tendência semelhante de queda, enquanto os mesmos resultados não são encontrados em territórios mais pobres13,14. Especula-se que as diferenças socioeconômicas e de acesso aos serviços de saúde dos diferentes estados possam influenciar no número de óbitos por AVC.

O estado do Amazonas tem baixo índice de desenvolvimento socioeconômico e enfrenta desafios significativos em relação à saúde15,16. A vasta extensão geográfica, baixa densidade demográfica, limitada regionalização da assistência à saúde e a escassez de recursos econômicos contribuem para a existência de disparidades no acesso aos serviços de saúde15. Essas condições podem comprometer a eficácia das medidas de prevenção, diagnóstico e tratamento adequado de patologias como o AVC15,17. Apesar disso, a literatura carece de estudos que avaliem a epidemiologia do AVC no estado. Assim, o objetivo dessa pesquisa é analisar a mortalidade por AVC no estado do Amazonas, no período de 2000 a 2021.

MÉTODO

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo ecológico de série temporal baseado em dados secundários da população adulta do Amazonas, Brasil, de 2000 a 2021.

População e local de estudo

Considerou-se os dados referentes à população amazonense incluída na faixa etária de 20 a 80 anos ou mais, residente no Amazonas, no período de 2000 a 2021. O estado do Amazonas, localizado na região Norte, possui a maior extensão territorial entre os estados brasileiros com 1.559.255,881 km2, apresenta 3.941.175 milhões de habitantes e densidade demográfica de 2,53 habitantes/km2 16.

Coleta de dados

Todos os dados foram extraídos do banco de dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde do Ministério da Saúde (DATASUS) para o local de residência no período de 2000-2021 para a população total e estratificado por sexo e faixa etária. As informações do DATASUS são de acesso público e irrestrito.

Os dados populacionais utilizados foram provenientes do estudo “Estudo de Estimativas Populacionais por município, sexo e idade no período de 2000-2021” elaborado pelo Ministério da Saúde com base no Censo Populacional brasileiro de 2022. Esses dados são disponibilizados pelo banco de dados do DATASUS no endereço eletrônico: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?ibge/cnv/popsvsbr.def.

Os dados de óbitos do acidente vascular cerebral também foram extraídos do site do DATASUS no endereço eletrônico http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sih/cnv/nito.def. Todas as informações de óbitos incorporadas no DATASUS são provenientes do Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde.

Variável de estudo

A variável de estudo foi o óbito com a causa básica do acidente vascular cerebral ocorrido em residentes no estado do Amazonas. O acidente vascular cerebral (AVC) foi constituído pelos códigos I60 (hemorragia subaracnóide), I61 (hemorragia intracerebral), I63 (infarto cerebral) e I64 (não especificada como isquêmica ou hemorrágica), conforme a Classificação Internacional de Doenças versão 10. A variável AVC foi extraída para toda a população e estratificada por sexo (masculino e feminino) e faixa etária (20 a 29 anos, 30 a 39 anos; 40 a 49 anos; 50 a 59 anos; 60 a 69 anos; 70 a 79 anos; e, 80 anos ou mais) para anos civis entre 2000 e 2021.

Análise da estatística

Os dados sobre os óbitos por acidente vascular cerebral (AVC) para a população total, grupos etários e sexo foram extraídos por meio do sistema de transferência de arquivo do banco de dados Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde do Ministério da Saúde (http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?ibge/cnv/popsvsbr.def.) para arquivo no formato de valores separados por vírgula.

Para cada ano, entre 2000 e 2021, o coeficiente de mortalidade por 100.000 habitantes e a razão do coeficiente de mortalidade entre os sexos foram calculados com auxílio da planilha eletrônica Microsoft Office Excel. O cálculo do coeficiente de mortalidade foi feito pela divisão do número de óbitos por AVC pela população específica e o quociente da divisão foi multiplicado por 100 mil habitantes. A razão do coeficiente de mortalidade entre os sexos foi calculada pela divisão entre o coeficiente de mortalidade do sexo masculino pelo coeficiente de mortalidade do sexo feminino para cada ano18.

A regressão de Prais-Winsten foi utilizada para analisar a tendência do coeficiente de mortalidade por AVC nos anos de 2000 a 2021 com auxílio do programa Stata 17. A variável dependente foi o coeficiente de mortalidade por 100.000 habitantes. A variável independente foi o ano. Foram conduzidas análises abrangendo a população geral, com estratificação por sexo e faixa etária, subdividida em grupos de 20 a 29 anos, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos, 50 a 59 anos, 60 a 69 anos, 70 a 79 anos, e acima de 80 anos. A autocorrelação foi identificada pelo método de Durbin-Watson ajustado.

A variação percentual anual (VPA) para cada grupo etário foi computada seguindo os procedimentos sugeridos por Antunes e Cardoso19. Em resumo, as variáveis dependentes foram inicialmente transformadas logaritmicamente. Em seguida, utilizou-se a regressão de Prais-Winsten para estimar os valores beta e respectivos intervalos de confiança (IC) em 95%. Posteriormente, calculou-se a VPA e respectivos intervalos de confiança em 95% (IC95%) mediante a fórmula: (-1 + 10β estimado) X 100. Os modelos com valor de p igual ou inferior a 5% foram considerados com significância estatística.

Aspectos legais e éticos

Trata-se de um estudo com bancos de dados de domínio público e livre acesso. Portanto, a submissão no Comitê de Ética em Pesquisa não foi necessária.

RESULTADOS

A tabela 1 apresenta o número de óbitos e coeficiente de mortalidade do acidente vascular cerebral na população adulta do estado do Amazonas, Brasil, de 2000 até 2021. O ano de 2021 registrou o mais elevado número de óbitos ao longo da série histórica analisada, com um total de 851 óbitos, sendo 422 no sexo masculino e 429 no feminino. Este ano apresentou ainda o mais alto coeficiente de mortalidade entre 2015 e 2021, atingindo 31,84. O maior coeficiente de mortalidade de todo o período foi observado no ano de 2014, sendo de 33,45.

Tabela 1 : Número de óbitos e coeficiente de mortalidade do acidente vascular cerebral na população adulta do estado do Amazonas, Brasil, 2000 até 2021 

Óbitos Coeficiente de Mortalidade* Razão do Coeficiente de Mortalidade: Masculino / Feminino
Todos Masculino Feminino Todos Masculino Feminino
2000 446 222 224 31,73 31,49 31,98 0,98
2001 449 235 214 30,72 32,06 29,38 1,09
2002 422 221 201 27,79 29,02 26,55 1,09
2003 410 208 202 26,01 26,31 25,70 1,02
2004 429 224 205 26,24 27,33 25,14 1,09
2005 475 217 258 28,05 25,56 30,55 0,84
2006 510 275 235 29,11 31,32 26,89 1,16
2007 472 229 243 26,07 25,24 26,91 0,94
2008 575 299 276 30,76 31,93 29,59 1,08
2009 522 244 278 27,07 25,27 28,88 0,88
2010 559 303 256 28,12 30,45 25,79 1,18
2011 615 324 291 30,06 31,67 28,45 1,11
2012 650 350 300 30,89 33,30 28,49 1,17
2013 633 324 309 29,26 30,01 28,51 1,05
2014 744 386 358 33,45 34,82 32,10 1,08
2015 715 370 345 31,27 32,49 30,06 1,08
2016 653 331 322 27,79 28,30 27,28 1,04
2017 649 339 310 26,87 28,22 25,53 1,11
2018 645 323 322 25,99 26,19 25,80 1,02
2019 685 361 324 26,90 28,54 25,29 1,13
2020 674 360 314 25,83 27,78 23,90 1,16
2021 851 422 429 31,84 31,81 31,87 1,00

Fonte: Elaborado pelos autores, 2023, a partir do banco de dados. * Coeficiente de mortalidade por 100.000.

Com exceção dos anos de 2000, 2005, 2007, 2009 e 2021, os homens consistentemente apresentaram coeficiente de mortalidade superior ao das mulheres. A disparidade mais significativa entre os sexos ocorreu em 2010, quando o coeficiente de mortalidade masculino foi 18% maior. Além disso, o número de óbitos, para a maioria dos anos avaliados, foi mais elevado no sexo masculino em comparação ao sexo feminino (tabela 1).

Em 2021, foi registrado o maior número absoluto de óbitos para cinco grupos etários, abrangendo os grupos populacionais de 20 a 29 anos, 50 a 59 anos, 60 a 69 anos, 70 a 79 anos e 80 anos ou mais. Durante este período, foi verificado ainda o mais elevado número de mortes estratificado por faixa etária na série histórica, com 289 óbitos para indivíduos com idade superior a 80 anos. Esse grupo etário apresentou ainda predominância de óbitos absolutos, exceto de 2000 a 2004 e nos anos de 2006 e 2008 (tabela 2).

Tabela 2 : Número de óbitos por grupo etário por acidente vascular cerebral na população adulta do estado do Amazonas, Brasil, 2000 até 2021 

Grupo etário
20 - 29 anos 30 - 39 anos 40 - 49 anos 50 - 59 anos 60 - 69 anos 70 - 79 anos 80 anos ou mais
2000 5 19 58 72 94 99 99
2001 8 15 43 77 97 111 98
2002 5 17 36 72 94 104 94
2003 5 17 41 73 76 99 99
2004 4 15 45 65 99 107 94
2005 7 23 48 74 90 114 119
2006 8 20 58 61 90 140 133
2007 6 18 42 72 79 124 131
2008 11 12 50 89 110 152 151
2009 7 19 50 74 87 128 157
2010 4 21 50 93 102 139 150
2011 4 16 52 93 105 157 188
2012 7 28 53 91 124 168 179
2013 5 25 54 103 109 142 195
2014 8 28 67 112 139 182 208
2015 11 24 51 88 137 157 247
2016 11 25 53 103 112 153 196
2017 11 23 56 89 116 144 210
2018 6 24 54 71 119 163 208
2019 6 20 68 100 127 169 195
2020 7 22 60 90 123 148 224
2021 14 23 63 104 142 216 289

Fonte: Elaborado pelos autores, 2023, a partir do banco de dados.

O coeficiente de mortalidade foi maior com o avançar da idade, sendo particularmente pronunciado nas faixas etárias acima dos 60 anos, com um valor ainda mais significativo em indivíduos com idade superior a 80 anos. A análise temporal revelou períodos ascendentes e descendentes em relação ao coeficiente de mortalidade ao longo dos períodos. O ano de 2015 apresentou um pico notável no coeficiente de mortalidade para o grupo etário acima de 80 anos (figura 1).

Figura 1 : Taxa de mortalidade por acidente vascular cerebral por grupos etários na população adulta do estado do Amazonas, Brasil, 2000 a 2021 

Apenas indivíduos com 80 anos ou mais apresentaram tendência crescente, com uma VPA de 2,34% (IC:95%: 0.18; 4.54). Em contrapartida, nas faixas etárias de 40 a 49 anos, 50 a 59 anos, 60 a 69 anos e 70 a 79 anos, observou-se uma redução no coeficiente de mortalidade ao longo da série histórica, o maior decréscimo ocorreu entre os indivíduos de 50 a 59 anos, com uma VPA de -6,27% (IC:95%: -8.40; -4.09). Em relação à população total, demais grupos etários e ao sexo, a VPA do coeficiente de mortalidade permaneceu estacionária (tabela 3).

Tabela 3 : Variação percentual anual do coeficiente de mortalidade da doença acidente vascular cerebral por sexo e grupo etário na população do estado do Amazonas, Brasil, 2000 até 2021 

Beta p-valor VPA (IC95%) Tendência
Todos -0.00045 0.909 -0.10 (-1.94 ; 1.77) estacionária
Sexo
Masculino 0.00101 0.787 0.23 (-1.52 ; 2.01) estacionária
Feminino -0.00189 0.629 -0.43 (-2.26 ; 1.42) estacionária
Grupo Etário
20 a 29 anos 0.01027 0.492 2.39 (-4.57 ; 9.86) estacionária
30 a 39 anos -0.01137 0.089 -2.58 (-5.52 ; 0.44) estacionária
40 a 49 anos -0.02108 ≤ 0.001 -4.74 (-6.81 ; -2.61) declínio
50 a 59 anos -0.02811 ≤ 0.001 -6.27 (-8.40 ; -4.09) declínio
60 a 69 anos -0.02269 ≤ 0.001 -5.09 (-6.76 ; -3.39) declínio
70 a 79 anos -0.01357 ≤ 0.001 -3.08 (-4.66 ; -1.47) declínio
80 anos ou mais 0.01004 0.035 2.34 (0.18 ; 4.54) aumento

Fonte: Elaborado pelos autores, 2023, a partir do banco de dados. VPA: Variação percentual anual.

DISCUSSÃO

O coeficiente de mortalidade manteve-se estável para ambos os sexos, para os grupos etários de 20-29 anos e 30-39 anos e para a população total. Em oposição, houve um aumento do coeficiente de mortalidade no grupo etário de 80 anos ou mais, enquanto os demais grupos etários apresentaram um decréscimo. A razão do coeficiente de mortalidade entre os sexos foi frequentemente maior para os homens. Os maiores coeficientes de mortalidade ocorreram nas faixas etárias de 60 anos ou mais. Entre 2015 e 2021, o maior coeficiente de mortalidade ocorreu no ano de 2021.

Há uma tendência global de queda do coeficiente de mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC)20. Na região Sul e Sudeste do Brasil entre 2008 e 2018 houve uma diminuição no coeficiente de mortalidade13. Um estudo que avaliou a tendência do coeficiente de mortalidade por AVC no Brasil a partir dos 30 anos de idade, entre 2000 e 2009, mostrou que houve uma tendência de redução do coeficiente de mortalidade para indivíduos de 30-39 anos21. Em oposição, nosso estudo mostrou que os coeficientes de mortalidade se mantiveram estáveis para a população total, para os grupos etários de 20-29 anos e 30-39 anos e aumentou para indivíduos com mais de 80 anos no Amazonas.

O elevado coeficiente de mortalidade por AVC no estado do Amazonas pode ser atribuído aos significativos desafios de saúde enfrentados pela população. A centralização dos serviços em Manaus, a falta de acesso a serviços especializados em áreas remotas, a escassez de profissionais de saúde qualificados e as iniquidades estruturais no sistema de saúde comprometem o processo de regionalização15. Esses fatores podem limitar o acompanhamento longitudinal dos indivíduos, o que é fundamental para prevenção e tratamento dos fatores de riscos modificáveis associados ao AVC22,23. Além disso, prolonga o tempo de acesso aos serviços de urgência e emergência, podendo contribuir para um aumento do número de óbitos23.

Nossos resultados revelaram também maior coeficiente de mortalidade por AVC entre os homens em comparação às mulheres na maioria dos anos. Roni et al.24avaliaram a mortalidade por acidente vascular cerebral no estado do Pará e encontraram uma diferença significativa entre os sexos, com o coeficiente de mortalidade por AVC frequentemente mais alto entre os homens. As causas para essa disparidade são multifacetadas e podem incluir fatores sociais e culturais25.

A idade avançada é amplamente reconhecida como um fator de risco para mortalidade por AVC20. Assim, como foi observado neste estudo, muitas outras pesquisas mostraram que o coeficiente de mortalidade é mais elevado a partir dos 60 anos11,26. Isso pode ser explicado por uma combinação de fatores fisiológicos relacionados ao próprio envelhecimento e a presença de doenças crônicas nessa população27.

Franceschi et al.27ressaltam que o envelhecimento por si só está associado a processos como inflamação crônica, alterações estruturais e funcionais dos vasos sanguíneos, estresse oxidativo e disfunção mitocondrial. Além disso, há uma maior prevalência de diabetes, hipertensão e doenças cardíacas entre os idosos. Tais fatores podem corroborar para uma maior susceptibilidade ao AVC.

De forma semelhante aos nossos achados, Djaló et al.28 observaram que o coeficiente de mortalidade por AVC em 2021 superou o coeficiente dos quatro anos anteriores no estado de Pernambuco. Esse aumento pode ser atribuído ao desenvolvimento da pandemia de COVID-19, que impactou negativamente pacientes com AVC menos grave devido a atrasos no atendimento hospitalar, mudanças na organização do tratamento, sobrecarga nas UTIs e menor adesão aos protocolos29,30. Adicionalmente, alguns estudos sugerem um aumento na incidência de AVC associado à COVID-19, embora mais pesquisas sejam necessárias para esclarecer a fisiopatologia dessa relação31.

A motivação para esta pesquisa decorreu da escassez de estudos sobre os parâmetros epidemiológicos do acidente vascular cerebral no estado do Amazonas. O AVC é uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil e no mundo. A população do Amazonas enfrenta desafios únicos no acesso à saúde, que possivelmente influenciam nos altos índices do coeficiente de mortalidade na região.

Observou-se uma tendência temporal estacionária no coeficiente de mortalidade para a população geral, enquanto que, em indivíduos com 80 anos ou mais, houve uma tendência de aumento. Os resultados destacam a necessidade de intervenções e políticas públicas específicas para o controle do AVC no estado, especialmente entre os idosos com mais de 80 anos.

As limitações deste estudo incluem a possibilidade de erros, subnotificações e atrasos no registro das informações, o que pode influenciar nos resultados encontrados. Contudo, é relevante destacar que os procedimentos de registros no Sistema de Informação de Mortalidade são padronizados e realizados por profissionais treinados e capacitados, minimizando a possibilidade de equívocos32. Além disso, a robustez dos dados atenua os possíveis impactos causados pela subnotificação e pelo atraso nos registros.

É imperativo que os indicadores avaliados continuem sendo monitorados no estado, e que novas pesquisas sejam conduzidas para investigar os fatores subjacentes aos resultados observados. A inclusão de outras variáveis, como condições médicas pré-existentes, histórico familiar de doenças cardiovasculares, nível socioeconômico e acesso aos cuidados de saúde, é fundamental para uma avaliação mais abrangente. Estas podem ser exploradas em estudos futuros para uma análise mais detalhada do coeficiente de mortalidade por AVC no estado do Amazonas.

CONCLUSÃO

Observou-se uma tendência estável no coeficiente de mortalidade por acidente vascular cerebral para a população total e para os grupos etários de 20-29 anos e 30-39 anos. No entanto, para os indivíduos com mais de 80 anos, houve uma tendência de crescimento no coeficiente de mortalidade. A maior parte dos óbitos ocorreu em pessoas com mais de 60 anos. Paralelamente, ficou evidente a disparidade entre os sexos, com os homens frequentemente apresentando maiores coeficientes de mortalidade.

Para o futuro, é essencial monitorar de perto essas tendências e desenvolver estratégias de saúde pública específicas para os grupos mais vulneráveis, especialmente os idosos e os homens, visando reduzir a mortalidade nessas populações. Além disso, a pesquisa contínua sobre os fatores que contribuem para essas disparidades pode ajudar a formular políticas mais eficazes para melhorar a saúde e a longevidade da população.

Agradecimentos

S.A.

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Financiamento :Esta pesquisa não recebeu financiamento.

Recebido: Maio de 2024; Aceito: Junho de 2024; Publicado: Julho de 2024

Autor correspondente luizcarlos@usp.br

Conflito de interesses:

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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