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Journal of Human Growth and Development

versão impressa ISSN 0104-1282versão On-line ISSN 2175-3598

J. Hum. Growth Dev. vol.34 no.2 Santo André maio/ago. 2024  Epub 10-Fev-2025

https://doi.org/10.36311/jhgd.v33.15810 

ARTIGO ORIGINAL

Pandemia da COVID-19 e seu reflexo no rastreamento do câncer de mama no Brasil

Uauira De Melo Medeiros Cunhaa 
http://orcid.org/0009-0004-5324-0558

Kerle Dayana Tavares de Lucenab 
http://orcid.org/0000-0001-9918-306X

Luiz Vinicius de Alcantara Sousac 
http://orcid.org/0000-0002-6895-4914

aLaboratório de Epidemiologia e Análise de Dados – Centro Universitário FMABBrasil uauira@gmail.com

bUniversidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas.Brasil kerle.lucena@uncisal.edu.br

aLaboratório de Epidemiologia e Análise de Dados – Centro Universitário FMABCBrasilluiz.alcantara@fmabc.net


RESUMO

Síntese dos autores

Por que este estudo foi feito?

O que os pesquisadores fizeram e encontraram?

O que essas descobertas significam?

Palavras-Chave: Neoplasias de mama; Programas de rastreamento; Políticas Públicas de Saúde; Sistemas de Informação em Saúde; COVID-19

Resumo

Introdução

o câncer de mama tem sido a principal causa de morte entre mulheres no Brasil e no mundo. Durante os anos de isolamento social devido à COVID-19, serviços de saúde, incluindo o rastreamento do câncer de mama, foram suspensos na tentativa de conter a disseminação do vírus, interferindo na detecção e tratamento precoce do câncer de mama, meios efetivos para redução de mortalidade.

Objetivo

Identificar como a pandemia de COVID-19 interferiu no itinerário terapêutico do câncer de mama nas regiões brasileiras.

Método

Trata-se de um estudo observacional, de caráter ecológico, realizado através de análise secundária de dados disponíveis no site do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

Resultado

Foram coletadas informações da realização de todos os exames de mamografia bilateral de rastreamento em mulheres de 50 a 69 anos de idade, casos positivos e modalidades terapêuticas no período de 2018 a 2022. Os dados mostraram que a pandemia impactou de forma diferente as regiões brasileiras exigindo estratégias e investimentos diversos para garantir o acesso aos serviços de saúde e minimizar os impactos da pandemia.

Conclusão

Apesar da pesquisa não apresentar resultados estatisticamente significantes, a região sudeste se destacou no registro de casos, mas apresenta uma queda de casos registrados entre 2021 e 2022. Em contrapartida, a região norte apresentou os menores números de casos em todos os anos

Palavras-Chave: Neoplasias de mama; Programas de rastreamento; Políticas Públicas de Saúde; Sistemas de Informação em Saúde; COVID-19

ABSTRACT

Authors summary

Why was this study done?

-

What did the researchers do and find?

-

What do these findings mean?

-

Key words: Breast neoplasms; Screening programs; Public Health Policies; Health Information Systems; COVID-19

Abstract

Introduction

breast cancer has been the leading cause of death among women in Brazil and worldwide. During the years of social isolation due to COVID-19, health services, including breast cancer screening, were suspended in an attempt to contain the spread of the virus, interfering with the early detection and treatment of breast cancer, effective means of reducing mortality.

Objective

to identify how the COVID-19 pandemic has interfered with the therapeutic itinerary for breast cancer in Brazilian regions.

Method

this is an observational, ecological study, carried out through secondary analysis of data available on the website of the Department of Informatics of the Unified Health System (DATASUS).

Results

information was collected from all screening bilateral mammography exams in women aged 50 to 69 years, positive cases, and therapeutic modalities from 2018 to 2022. The data showed that the pandemic impacted Brazilian regions differently, requiring different strategies and investments to ensure access to health services and minimize the impacts of the pandemic.

Conclusion

although the survey did not show statistically significant results, the southeast region stood out in the registration of cases, but shows a drop-in case registered between 2021 and 2022. On the other hand, the northern region had the lowest number of cases in all years.

Key words: Breast neoplasms; Screening programs; Public Health Policies; Health Information Systems; COVID-19

INTRODUÇÃO

Globalmente, o câncer de mama é a neoplasia maligna mais frequentemente diagnosticada e a principal causa de morte relacionada ao câncer em mulheres1. Tem como conceito ser um grupo heterogêneo de doenças, com comportamentos distintos em que sua heterogeneidade pode ser observada pelas variadas manifestações clínicas e morfológicas, diferentes assinaturas genéticas e consequentes diferenças nas respostas terapêuticas2.

O câncer de mama de mama é uma doença rara em mulheres jovens, sendo sua incidência mais expressiva a partir dos 40 anos, acometendo a maioria das mulheres a partir dos 50 anos. Homens também desenvolvem câncer de mama, mas estima-se que a incidência nesse grupo represente apenas 1% de todos os casos da doença3.

No Brasil, o câncer de mama é a primeira causa de morte por câncer em mulheres. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estimou que, para cada ano do triênio 2020/2022, fossem diagnosticados no Brasil, 66.280 novos casos de câncer de mama. A taxa de mortalidade por câncer de mama no país, ajustada pela população mundial, foi 11,84 óbitos/100.000 mulheres, em 2020, com as maiores taxas nas regiões Sudeste e Sul, com 12,64 e 12,79 óbitos/100.000 mulheres, respectivamente2.

A detecção e tratamento precoces são considerados os meios mais efetivos para a redução da mortalidade por câncer de mama e as estratégias para a detecção precoce são o diagnóstico precoce e o rastreamento, sendo esses realizados principalmente no âmbito da Atenção Básica, observando as evidências científicas, os protocolos nacionais e a realidade loco regional, conforme disposto na Política Nacional para Prevenção e Controle de Câncer (PNPCC)3-5.

A mamografia representa o método mais importante, tanto no rastreamento quanto no diagnóstico do câncer de mama, porém apresenta limitações não permitindo a detecção de todos os tipos de cânceres, especialmente nas mulheres com mamas densas e nas de alto risco com mutação no gene supressor do câncer mamário, BRCA1 e BRCA26. A produção de mamografia no SUS engloba mamografia de rastreamento, indicada para mulheres de 50 a 69 anos sem sinais e sintomas de câncer de mama, a cada dois anos; e mamografia diagnóstica, indicada para avaliar lesões mamárias suspeitas em qualquer idade, também em homens, ressaltando que no ano de 2020, foram realizadas 2.572.236 mamografias no SUS, sendo 300.447 mamografias diagnósticas e 2.271.789 mamografias de rastreamento5.

Durante os anos de isolamento social devido a COVID-19 (2020 e 2021), alguns serviços de saúde foram suspensos como forma de conter a disseminação do vírus, incluindo o rastreamento e interferindo no diagnóstico precoce do câncer de mama. Uma pesquisa da OMS realizada em 2020 indicou que o tratamento contra o câncer havia sido interrompido em mais de 40% dos países pesquisados durante a pandemia. Os achados da pesquisa foram apoiados por estudos publicados indicando que atrasos no diagnóstico, interrupções e abandono da terapia aumentaram significativamente6.

Dessa forma, conhecer a dimensão da interferência da pandemia de COVID-19 após a desorganização do rastreio do câncer de mama no Brasil e suas variáveis sociodemográficas, torna possível planejar estratégias para recuperar os algoritmos de rastreio e minimizar o potencial impacto negativo no prognóstico do câncer de mama, uma vez que o diagnóstico precoce tem aqui, papel destacado, sendo um dos componentes da linha de cuidado prevista na Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC).

Sendo assim, o objetivo dessa pesquisa foi identificar como a pandemia de COVID-19 interferiu no itinerário terapêutico do câncer de mama nas regiões brasileiras.

MÉTODO

Trata-se de um estudo observacional, de caráter ecológico, que foi realizado através de análise secundária de dados disponíveis no site do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), visando avaliar o impacto da política de restrição e isolamento impostos pela pandemia de COVID-19 entre os anos 2018 e 2022 na realização de exames de rastreamento de câncer de mama em todas as regiões do Brasil.

Foram coletadas informações registadas no Sistema Único de Saúde, disponíveis no DATASUS da realização de todos os exames de mamografia bilateral de rastreamento em mulheres de 50 a 69 anos de idade, idade preconizada pela Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC)7,8.

A definição de câncer de mama se deu de acordo com a décima revisão da Classificação Internacional das Doenças (CID10) no código C50, que correspondem a Neoplasia maligna de mama.

Os dados sobre o rastreio foram coletados no Sistema de Informação do Câncer – SISCAN. Já para os dados sobre tratamento, a coleta foi realizada no Painel de monitoramento de tratamento oncológico: PAINEL-ONCOLOGIA. Sistemas esses, disponíveis no site do Departamento de Informática do SUS (DATASUS), que é a base oficial dos dados sobre a saúde pública do Brasil, sendo disponível para acesso livre ao usuário no site http://datasus.saude.gov.br/.

Para a análise de tendência, foi utilizado o modelo de análise linear generalizada de Prais-Winsten, em que as variáveis independentes (X) foram os anos de realização dos procedimentos e as regiões foram consideradas variáveis dependentes (Y). Foi utilizado o cálculo dos intervalos de confiança (IC) dos procedimentos - IC95%= [-1+10bmínimo] *100%; [-1+10bmáximo] *100%, para se verificar a existência de autocorrelação da série, foi aplicado o teste de Durbin-Watson9,10.

O nível de confiança foi de 95% e o programa estatístico utilizado foi o Data Analysis and Statistical Software for Professionals (Stata) versão 16.0®. Como este estudo foi baseado em dados secundários, não sendo capaz de identificar o indivíduo e os dados estarem disponíveis na internet de forma livre e irrestrita, não houve necessidade deste projeto de pesquisa ter sido enviado ao Comitê de Ética em Pesquisa para sua apreciação, segundo expresso na Resolução nº 510/2016.

RESULTADOS

Na tabela 1, pode-se observar a variação anual dos casos registrados, procedimentos e mamografias realizadas entre 2018 e 2022 por regiões do país. Pode-se observar que o Sudeste se destaca das demais regiões em todos os anos, tendo um maior número de casos registrados como positivos em 2019 (n=12042) e um menor número em 2022 (n=8207), contrapondo-se com a região Norte, que apresenta os menores números de casos em todos os anos, destacando-se o ano de 2022 com o menor número de casos registrados (n=561).

Tabela 1 Variação anual da cobertura dos casos registrados, procedimentos e mamografias realizadas entre 2018 e 2022 por regiões do país. 

Procedimentos Número de procedimentos realizados Regressão Linear
2018 2019 2020 2021 2022 β p r2
Casos registrados
Norte 801 940 1010 939 561 - 48.10 0.475 0.1814
Nordeste 5041 5854 5266 6064 4289 -129.4 0.635 0.0845
Sudeste 10160 12042 10684 11803 8207 -414.5 0.474 0.1818
Sul 4540 5117 4751 4932 4050 -116.5 0.449 0.2008
Centro-Oeste 1379 1514 1391 1449 951 -92.1 0.230 0.2392
Total 22021 25467 23002 20887 18058
Segmentectomia
Norte 179 240 198 205 160 -7.3 0.523 0.1478
Nordeste 630 729 571 475 358 -79.8 0.046 0.7829
Sudeste 1767 2341 1808 1763 1556 -100 0.348 0.2910
Sul 727 744 657 614 720 -14.4 0.487 0.1725
Centro-Oeste 266 333 238 254 214 -18.3 0.238 0.4188
Total 3569 4387 3472 3311 3008
Mastectomia radical
Norte 53 66 30 33 20 -9.9 0.076 0.7035
Nordeste 226 229 182 166 178 -15.9 0.061 0.7416
Sudeste 434 462 356 253 325 -42.7 0.103 0.6422
Sul 113 58 68 86 60 -7.8 0.350 0.2886
Centro-Oeste 66 63 47 47 78 .8 0.879 0.0091
Total 892 878 683 585 661
Mastectomia simples
Norte 92 59 41 49 52 -9 0.170 0.5188
Nordeste 220 194 115 155 240 .1 0.996 0.0000
Sudeste 321 371 239 212 302 -19.7 0.405 0.2374
Sul 127 117 66 52 57 -20.5 0.029 0.8380
Centro-Oeste 51 49 24 47 55 .6 0.901 0.0060
Total 811 790 485 515 706
Cirurgia reconstrutiva
Norte 27 35 19 18 54 3.7 0.509 0.1568
Nordeste 132 192 176 235 322 42.3 0.022 0.8634
Sudeste 828 870 421 388 533 -107.2 0.147 0.5578
Sul 261 263 151 122 203 -25.7 0.246 0.4081
Centro-Oeste 90 134 71 62 83 -8.6 0.405 0.2378
Total 1338 1494 838 825 825
Quimioterapia
Norte 306 447 586 643 242 6.8 0.921 0.0039
Nordeste 2512 3517 3484 4034 1703 -110.1 0.764 0.0348
Sudeste 4469 6788 6809 7318 2931 -254.6 0.730 0.0456
Sul 2166 3037 3162 3135 1393 -144.8 0.632 0.0861
Centro-Oeste 587 881 892 935 419 -28.2 0.752 0.0383
Total 10040 14670 14670 16665 7688
Radioterapia
Norte 17 30 25 36 17 .6 0.854 0.0131
Nordeste 121 357 341 252 133 -8.1 0.854 0.0132
Sudeste 417 683 673 599 220 -47.8 0.526 0.1457
Sul 170 284 304 306 143 -3.2 0.918 0.0041
Centro-Oeste 54 70 86 105 27 -1.9 0.872 0.0101
Total 779 1424 1429 1298 540
Mamografia rastreio
Norte 108392 109765 86176 103492 127027 3099.7 0.582 0.1122
Nordeste 868610 877607 498938 794687 886278 -4758.4 0.942 0.0021
Sudeste 1973699 1917336 1125510 1476370 1850650 -68706.4 0.622 0.0908
Sul 786237 771831 449853 584876 725541 -30834.7 0.576 0.1153
Centro-Oeste 121690 159774 84787 143306 187695 11554.2 0.425 0.2203
Total 3952628 3941313 2124264 4097731 3765191

Fonte: Dados da Pesquisa 2023.

Quanto aos procedimentos realizados, a região Nordeste apresenta um decréscimo significativo em segmentectomias, com (n=630) procedimentos em 2018 para (n=358) procedimentos em 2022 (p=0,046).

Dentre os demais tipos de cirurgias (mastectomia radical, mastectomia simples e cirurgia reconstrutiva), destaca-se a redução da mastectomia simples na região Sul (n=127) em 2018 para (n=57) em 2022 (p=0,029) e um aumento de cirurgias reconstrutivas (n=132) em 2018, para (n=322) em 2022, na região Nordeste (p=0,022).

Ainda quanto aos procedimentos, a quimioterapia e a radioterapia não demostraram diferenças significantes em nenhuma região, mas pode-se observar que a região Sudeste apresenta o maior número de quimioterapias em 2021 (n=7318) e o menor número em 2022 (n=2931) e a radioterapia é a terapia menos realizada na região Norte em 2018 e 2022, apresentando os mesmos números nestes anos (n=17).

Em relação à mamografia bilateral de rastreio, não houve resultados significantes, porém, a região Sudeste em 2018 (n=1973699) teve o maior número de realizações, enquanto a região Norte teve, em 2020, o menor número (n=86176), se comparadas às demais regiões entre os anos estudados.

A tabela 2 apresenta a análise da diferença percentual dos procedimentos realizados entre o período pré-pandêmico (2019-2020) e pandêmico (2020-2021). A região Sudeste mostra uma maior diferença percentual de casos positivos (-11,3%) entre 2019-2020, já entre 2020-2021 a região Norte lidera esse percentual (-7,0%).

Tabela 2 Diferença percentual dos procedimentos realizados no período pré-pandêmico e pandêmico. 

Procedimentos Número de procedimentos realizados Diferença percentual 2019 - 2020 (%) Número de procedimentos realizados Diferença percentual 2020 - 2021 (%)
2019 2020 2020 2021
Casos positivos
Norte 940 1010 7,4 1010 939 -7
Nordeste 5854 5266 -10 5266 6064 15,2
Sudeste 12042 10684 -11,3 10684 11803 10,5
Sul 5117 4751 -7,2 4751 4932 3,8
Centro-Oeste 1514 1391 -8,1 1391 1449 4,2
Segmentectomia
Norte 240 198 -17,5 198 205 3,5
Nordeste 729 571 -21,7 571 475 -16,8
Sudeste 2341 1808 -22,8 1808 1763 -2,5
Sul 744 657 -11,7 657 614 -6,5
Centro-Oeste 333 238 -28,5 238 254 6,7
Mastectomia radical
Norte 66 30 -54,5 30 33 10
Nordeste 229 182 -20,5 182 166 -8,8
Sudeste 462 356 -22,9 356 253 -28,9
Sul 58 68 17,2 68 86 26,5
Centro-oeste 63 47 -25,4 47 47 0
Mastectomia simples
Norte 59 41 -30,5 41 49 19,5
Nordeste 194 115 -40,7 115 155 34,8
Sudeste 371 239 -35,6 239 212 -11,3
Sul 117 66 -43,6 66 52 -21,2
Centro-Oeste 49 24 -51 24 47 95,8
Cirurgia reconstrutiva
Norte 35 19 -45,7 19 18 -5,3
Nordeste 192 176 -8,3 176 235 33,5
Sudeste 870 421 -51,6 421 388 -7,8
Sul 263 151 -42,6 151 122 -19,2
Centro-Oeste 134 71 -47 71 62 -12,7
Quimioterapia
Norte 447 586 31,1 586 643 9,7
Nordeste 3517 3484 -0,9 3484 4034 15,8
Sudeste 6788 6809 0,3 6809 7318 7,5
Sul 3037 3162 4,1 3162 3135 -0,9
Centro-Oeste 881 892 1,2 892 935 4,8
Radioterapia
Norte 30 25 -16,7 25 36 44
Nordeste 357 341 -4,5 341 252 -26,1
Sudeste 683 673 -1,5 673 599 -11
Sul 284 304 7 304 306 0,7
Centro-Oeste 70 86 22,9 86 105 22,1
Mamografia rastreio
Norte 109765 86176 -21,5 86176 103492 20,1
Nordeste 877607 498938 -43,1 498938 794687 59,3
Sudeste 1917336 1125510 -41,3 1125510 1476370 31,2
Sul 771831 449853 -41,7 449853 584876 30
Centro-Oeste 159774 84787 -46,9 84787 143306 69

Fonte: Dados da Pesquisa 2023.

Em relação à segmentectomia, a região Centro-Oeste apresenta o maior percentual de diferença (-28,5%) entre 2019-2020, embora todas as regiões tenham apresentado queda da segmentectomia neste período. Entre 2020-2021 (período pandêmico), a região Nordeste tem a maior diferença percentual (-16,8%).

Dentre os tipos de cirurgias (mastectomia simples, mastectomia radical e cirurgia reconstrutiva), observa-se uma diferença percentual bastante robusta nas mastectomias simples da região Centro-Oeste nos anos de 2019-2020 (-51%) e nos anos de 2020-2021 houve a menor diferença percentual (95,8%).

Na mamografia bilateral de rastreio, a maior diferença percentual entre 2019-2020 foi na região Centro-Oeste (-46,9%), já entre os anos de 2020-2021 houve a menor diferença percentual na mesma região (69%).

A tabela 3 apresenta a prevalência de intervenções realizadas em casos registrados de acordo com as regiões do país em 2020. Houve prevalência dos procedimentos de quimioterapia, radioterapia, mastectomia radical e simples na região Norte (p=0,001); na região Nordeste, houve prevalência apenas nos procedimentos de quimioterapia e radioterapia; na região Sudeste houve prevalência nos procedimentos de quimioterapia, radioterapia, mastectomia radical e simples (p=0,001); na região Sul houve prevalência apenas dos procedimentos de quimioterapia e radioterapia (p=0,001) e na região Centro-Oeste, houve prevalência nos procedimentos de quimioterapia, radioterapia, mastectomia radical e simples (p=0,001). A figura 1 apresenta a análise da tendência das taxas dos procedimentos de (a) Quimioterapia, (b) Radioterapia, (c) Cirguria reconstrutiva, (d) Mastectomia simples, (e) Casos positivos, (f) Segmentectomia e (g) Mastectomia radical, realizados entre as regiões brasileiras entre 2018 e 2022.

Tabela 3 : Estudo dos tratamentos e procedimentos realizados em casos registrados que receberam alguma intervenção de acordo com as regiões brasileiras em 2020. 

Regiões Intervenção p RP
Norte
Tratamento n
Radioterapia 17 <0,001 1
Quimioterapia 306 11,12
Mastectomia
Simples 125 <0,001 1
Radical 2224 8,48
Nordeste
Tratamento
Radioterapia 1204 <0,001 1
Quimioterapia 15250 5,38
Mastectomia
Simples 924 0,622 1
Radical 981 1,02
Sudeste
Tratamento
Radioterapia 2592 <0,001 1
Quimioterapia 28315 5,08
Mastectomia
Simples 1445 <0,001 1
Radical 1830 1,22
Sul
Tratamento
Radioterapia 1207 <0,001 1
Quimioterapia 12893 4,79
Mastectomia
Simples 419 0,148 1
Radical 385 0,9
Centro-Oeste
Tratamento
Radioterapia 342 <0,001 1
Quimioterapia 3714 4,83
Mastectomia
Simples 226 0,005 1
Radical 301 1,27

Fonte: Dados da Pesquisa 2023.

Figura 1 : Análise da tendência das taxas dos procedimentos (a) Quimioterapia, (b) Radioterapia, (c) Cirurgia plástica, (d) Mastectomia simples, (e) casos positivos, (f) Cirurgias e (g) Mastectomia, realizados entre as regiões brasileiras entre 2018 e 2022. Fonte: Dados da Pesquisa 2023. 

A região Centro-Oeste sempre se manteve com as maiores taxas de quimioterapia (a) no período estudado (2018-2020), ultrapassando 1%, ao contrário do que se pode observar na região Sudeste, que sempre mostrou as menores taxas do tratamento. Todas as regiões, entretanto, demonstraram alta acentuada na taxa de quimioterapia no ano de 2020, decrescendo até o ano de 2022, se aproximando das taxas do início do período.

No que se refere à taxa de radioterapia (b), a região Centro-Oeste, novamente, manteve-se com a maior taxa, enquanto a região Norte apresentou a menor taxa, quando comparada às outras regiões. Semelhantemente ao que ocorreu com as taxas de quimioterapia, as taxas de radioterapia tiveram tendência à acentuação em 2020 em quase todas as regiões do país. Apenas a região Norte não acompanhou a tendência, tendo suas maiores taxas de radioterapia apenas em 2021.

Com relação à taxa de cirurgia reconstrutiva (c), a região Centro-Oeste vinha se mantendo acima das demais regiões com taxa máxima de 0,09% em 2020, apresentando a partir de então, decréscimo acentuado até 2021, onde demonstra estabilização, mantendo a taxa em torno de 0,05% até 2022. A região Nordeste apresentava as menores taxas de cirurgia reconstrutiva em relação às demais regiões do país em 2018 e 2019. Entretanto, ela ultrapassou todas as regiões em 2021, com exceção do Sudeste e segue em tendência crescente de taxa, ao contrário da região Sudeste que teve decréscimos em suas taxas desde 2020, alcançando leve recuperação em 2022. No âmbito ainda da cirurgia reconstrutiva, há destaque também para a região Norte, que teve a menor taxa de todas as regiões em 2021 (0,02%), passando rapidamente para a maior taxa do país em 2022 (0,04%), com exceção do Centro-Oeste.

Em se tratando da mastectomia simples (d), a região Norte sempre se manteve com as maiores taxas quando comparada às demais regiões do país. A partir de 2019, entretanto, observa-se queda na taxa de mastectomia simples dessa região, partindo de um percentual de 0,09% para 0,04% em 2022. Todas as outras regiões mantiveram suas taxas sem variações significativas no período entre 2018 e 2022, tendo a região Sudeste como segunda maior taxa (abaixo da região Norte) com taxas flutuando entre 0,03% e 0,04%.

Ainda com relação à figura 1, no tocante à taxa de casos positivos (e), todas as regiões, com exceção da Centro-Oeste, seguiam uma tendência crescente e com taxas muito próximas nos anos de 2018 e 2019. Em 2020, é possível observar um aumento exuberante nas taxas do Centro-Oeste e que Mastectomia Simples 226 0,005 1 Radical 301 1,27 as demais regiões permaneciam seguindo a tendência crescente e com taxas próximas. A partir de 2020, no entanto, todas as regiões demonstram queda nas taxas de casos positivos e permaneceram decrescendo ao longo dos dois últimos anos estudados, até praticamente se equipararem em 2022, com taxas em torno de 0,40-0,50%.

As taxas de cirurgias como quadrantectomia, representadas na Figura 1 por Taxa de Segmentectomia (f), seguiam a tendência nacional crescente quando, após 2020, apresentaram queda em todas as regiões. Se comparada às demais regiões do país, mais uma vez, a região Centro-Oeste figura com a flutuação de taxa mais acentuada nesse tipo de intervenção, partindo de 0,3% em 2020 para 0,1% em 2022. A região Nordeste sempre teve taxas tímidas de segmentectomia (as menores dentre todas as regiões - em torno de 0,05%), tendo declínio desde 2020, não recuperando a curva até 2022.

A taxa de Mastectomia radical (g) sofreu as maiores variações na região Norte no período de 2018-2022. A partir de 2019, a taxa de mastectomia da região Norte declinou progressivamente, passando de 0,06% (a maior do país no ano de 2019), para 0,01% em 2022. A região Sul, manteve-se com as menores taxas desse procedimento desde 2018, seguida da região Sudeste e Nordeste. Estas três regiões (Sul, Sudeste e Nordeste) apresentaram aumento da taxa de mastectomia radical no ano de 2020, voltando aos percentuais do início do estudo em 2022. A região Centro-Oeste teve sua taxa de mastectomia radical reduzida de 2018-2019, apresentando a maior taxa do país em 2020, declinando em 2021 e voltando a subir em 2022, seguindo a tendência de maior taxa de mastectomia radical dentre as regiões do Brasil.

DISCUSSÃO

Este estudo não apresentou um impacto significativo na incidência de novos casos de câncer de mama no Brasil entre 2018 e 2022, mas pode-se observar que a região Sudeste se destaca no registro de casos em todos os anos, porém, apresenta uma queda de casos registrados entre 2021 e 2022. Em contrapartida, a região Norte apresenta os menores números de casos em todos os anos, mas também apresenta uma queda no ano de 2022. Apesar de não ter sido possível identificar resultados significantes, essas informações são relevantes para o monitoramento e aprimoramento das políticas públicas de prevenção e tratamento do câncer de mama.

Um estudo avaliou os efeitos de curto prazo da pandemia no rastreamento e diagnóstico por imagem da mama. Eles analisaram os dados do Consórcio de Vigilância do Câncer de Mama e compararam as recomendações de biópsia e os cânceres de mama diagnosticados antes e durante a pandemia em relação ao método de detecção e às características dos pacientes. O estudo mostrou que houve uma redução acentuada nas recomendações de biópsias em abril de 2020 em comparação com abril de 2019. Além disso, foram detectados 24% menos casos de câncer de mama de março a setembro de 2020 em comparação com o mesmo período em 2019. Esses resultados corroboram com os resultados desta pesquisa em comparação com a região Norte e a tendência geral de casos registrados, indicando que a pandemia afetou negativamente o diagnóstico e rastreamento de câncer de mama11.

Um estudo holandês recente descobriu uma diminuição de 67% nos cânceres detectados na triagem, enquanto os tumores não detectados na triagem diminuíram apenas 7%. De maneira semelhante, embora o número de cânceres sintomáticos tenha diminuído inicialmente na primavera de 2020, os volumes de câncer não detectados na tela se recuperaram rapidamente e ultrapassaram os números de 2019 em junho e julho de 2020. Os resultados sugerem que a pandemia teve um impacto significativo no rastreamento e diagnóstico por imagem da mama e na detecção de câncer12.

De acordo com o estudo brasileiro, houve uma redução na cobertura de rastreamento de câncer de mama durante o período de 2013 a 2021, com uma taxa de variação percentual anual de -1,78% no período de 2013 a 2019 e de -5,85% no período de 2013 a 2021. Além disso, em comparação a 2019, a cobertura de rastreamento diminuiu em 41% em 2020 e 21% em 202113.

A pandemia da COVID-19 colocou uma pressão significativa sobre os serviços de saúde, incluindo aqueles responsáveis pelo cuidado de pacientes com câncer. O principal desafio foi encontrar um equilíbrio delicado entre o risco de transmissão do vírus entre pacientes com câncer vulneráveis e os valiosos profissionais de saúde, garantindo a preservação dos recursos humanos e materiais, além do alívio da sobrecarga das instalações, sem comprometer a qualidade do tratamento oncológico14.

Pacientes com câncer de mama e seus médicos tiveram que pesar cuidadosamente os riscos de contrair o vírus com os benefícios dos tratamentos de câncer. Isso levou a mudanças significativas na abordagem ao tratamento, como atrasos na cirurgia, uso de terapia neoadjuvante e redução do número de visitas pessoais. A pandemia exigiu que os oncologistas se adaptassem para garantir a segurança dos pacientes e, ao mesmo tempo, fornecer o melhor tratamento possível para o câncer de mama15.

Durante a pandemia, os profissionais de saúde tiveram que ajustar suas recomendações de tratamento e gerenciamento para garantir a segurança dos pacientes, evitando o risco de infecção. Muitos consultórios adotaram visitas de telessaúde para casos não emergentes e consultas de acompanhamento, enquanto outros seguiram diretrizes que priorizavam exames e imagens de acordo com a necessidade médica e com capacidade limitada. Essas mudanças são ainda mais impactantes em pacientes com câncer, que podem apresentar maior suscetibilidade à infecção e progressão da doença. Muitos deles fazem uso de tratamentos médicos que podem resultar em imunossupressão, aumentando o risco de morbidade e mortalidade por infecções, como o COVID-19. Para minimizar o risco de eventos adversos e atrasos no tratamento, os médicos precisam encontrar um equilíbrio entre o manejo de malignidades e o controle da infecção16-20.

O diagnóstico precoce do câncer de mama é fundamental para permitir tratamentos menos invasivos e aumentar as chances de cura. Programas de triagem eficazes são necessários para detectar o câncer em estágios iniciais, permitindo a conservação da mama e evitando procedimentos mais invasivos. No entanto, durante a pandemia, o rastreamento tardio pode levar a um aumento nas taxas de mastectomia devido ao diagnóstico de cânceres palpáveis em estágios avançados, onde a conservação da mama não é uma opção20,14.

Devido à necessidade de minimizar a disseminação do COVID-19, vários países adotaram medidas de distanciamento social e limitações de transporte. O cumprimento dessas medidas, juntamente com o medo de contrair a doença, fez com que muitas mulheres adiassem ou cancelasse consultas médicas e exames de rastreamento de câncer de mama, mesmo em casos com sintomas. Como resultado, houve uma diminuição significativa no número de pacientes encaminhados e diagnósticos gerais de câncer de mama21-24.

Muitos programas de triagem em todo o mundo foram temporariamente suspensos e as consultas de cuidados primários, diagnóstico por imagem e biópsias de mama foram reduzidas em resposta ao aumento da demanda clínica e à escassez de recursos humanos e materiais. Além disso, a população elegível para triagem tem sido relutante em participar. Estes fatores contribuíram para a redução da capacidade de triagem em todo o mundo12,25-27.

Além dos registros de novos casos, os procedimentos para casos já diagnosticados também foram afetados, como por exemplo, a segmentectomia. A segmentectomia é um procedimento cirúrgico utilizado no tratamento do câncer de mama em estágio inicial, que consiste na remoção de uma parte da mama afetada pela doença. Durante a pandemia de COVID-19, as realizações de segmentectomias foram afetadas pela interrupção ou redução das atividades não emergenciais nos serviços de saúde em todo o país. Isso pode ter atrasado o tratamento do câncer de mama, levando a um pior prognóstico para a doença. Além disso, a sobrecarga dos sistemas de saúde também pode ter reduzido a disponibilidade de recursos e equipe médica para a realização da cirurgia25,28.

Os resultados desse estudo mostram que a região Nordeste foi a mais prejudicada nesse procedimento no período pandêmico. Nesse contexto, o desafio de evitar subtratamento e oferecer opções terapêuticas seguras e oportunas, sem comprometer os resultados, tem sido uma tarefa complexa. Diversas modificações terapêuticas foram desenvolvidas em resposta às novas condições, sendo rapidamente incorporadas às diretrizes e recomendações para o manejo do câncer de mama, especialmente no âmbito clínico durante a pandemia. Tais modificações foram caracterizadas, principalmente, por uma mudança de terapias cirúrgicas e internações para tratamentos conservadores e em casa. É notável que a era da pandemia de COVID-19 foi marcada pelo amplo uso da terapia hormonal neoadjuvante como tratamento econômico de primeira linha para tumores positivos para receptores hormonais (HR), tanto em câncer de mama em estágio inicial quanto em casos localmente avançados ou mesmo CDIS29.

Vários estudos também relataram redução no número de cirurgias de câncer de mama em diferentes países, principalmente países de baixa e média renda. Na China, estudos observaram uma queda significativa na proporção de pacientes submetidos a cirurgia, de 16,4% para 2,6%30. No Paquistão, houve uma redução de 35,5% nas cirurgias de câncer de mama, e as pacientes foram divididas em grupos de acordo com a prioridade da cirurgia. Pesquisadores documentaram que os procedimentos cirúrgicos foram divididos em grupos eletivos, semieletivos, emergência laranja e emergência vermelha, dependendo da prioridade e se a cirurgia poderia ser substituída por outras abordagens de tratamento31. Na Turquia, vários estudos também relataram uma queda no número de cirurgias de câncer de mama durante os estágios iniciais da pandemia, mas o número de cirurgias aumentou logo após a redução inicial, documentando um aumento durante o período inter pandêmico para níveis pré-pandêmicos32.

Ainda sobre os procedimentos, entre a mastectomia radical, mastectomia simples e cirurgia reconstrutiva, foi possível observar neste estudo que a mastectomia simples na região Sul apresentou uma queda significativa e a cirurgia reconstrutiva na região Nordeste também foi afetada. Percebe-se uma mudança significativa na abordagem cirúrgica para o tratamento do câncer de mama. Cirurgias mínimas e conservadoras da mama foram preferidas em detrimento de procedimentos extensos para minimizar o risco de complicações maiores, revisitas de pacientes, internações desnecessárias e prolongadas33,34. Quando a mastectomia foi indicada, a reconstrução mamária imediata não foi a opção preferencial. Em vez disso, a reconstrução tardia foi adotada em muitos casos para reduzir o tempo cirúrgico e o risco de complicações. A abordagem cirúrgica axilar não parece ter sido significativamente afetada, embora questões técnicas tenham sido levantadas em relação ao local e ao momento da vacinação contra COVID-19 ou à viabilidade do mapeamento de linfonodo sentinela (LS) com duplo traçador, sugerindo possíveis alternativas35,36.

O presente estudo corrobora com os achados de pesquisadores, que encontrou menores taxas de mastectomias por casos de câncer de mama no período de estudo nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, sendo 4%, 4,5% e 6,98%, respetivamente, sendo encontrado resultados semelhantes na América do Norte, Europa e Ásia, o que estava associada ao acesso das pacientes a serviços de cirurgia oncológica especializados e a outros recursos de terapia oncológica37,38.

Estudiosos da Turquia consideraram a administração de terapia sistêmica neoadjuvante até que as condições fossem melhoradas para tratamento cirúrgico. Para minimizar o atraso do tratamento durante a pandemia, pesquisadores sugeriram que o tratamento multidisciplinar deveria triar pacientes e agendar procedimentos cirúrgicos para otimizar a alocação dos recursos limitados para casos urgentes. No entanto, alguns estudiosos sugeriram que cirurgias reconstrutivas complexas deveriam ser adiadas em áreas onde a pandemia não está bem controlada devido à permanência prolongada no hospital para cirurgias reconstrutivas complexas e às possíveis complicações39.

Embora haja uma tendência atual em direção a procedimentos menos invasivos, os dados de uma revisão sistemática indicam uma diminuição nas taxas de segmentectomias e um aumento nas taxas de mastectomia. O aumento ligeiro nas taxas de mastectomia pode ser atribuído a recursos limitados para quimioterapia ou radioterapia40.

Quanto aos tratamentos, como radioterapia, quimioterapia e mamografia de rastreio, não foi possível observar resultado significante. Durante a pandemia, a realização desses procedimentos tem sido um desafio, mas medidas prioritárias foram implementadas pelas autoridades de saúde. A eficiência no uso dos recursos disponíveis, a priorização dos tratamentos mais benéficos e a minimização do risco de infecção são essenciais. A triagem de pacientes e funcionários, serviços de telemedicina, ajustes nos horários e regimes de tratamento, medicamentos orais ou subcutâneos e terapia de manutenção são algumas das medidas adotadas para reduzir a exposição ao COVID-19. No entanto, mesmo com essas medidas, a pandemia tem afetado negativamente todos os aspectos do tratamento do câncer, desde triagem e diagnóstico até cuidados paliativos41.

Analisando a prevalência dos tratamentos (quimioterapia e radioterapia) e procedimentos (mastectomia simples e mastectomia radical) nas regiões do Brasil, observamos prevalência da maioria dos procedimentos e tratamentos em todas as regiões, com exceção da mastectomia radical e simples na região Nordeste e na região Sul.

Estudos analisaram como a pandemia de COVID-19 afetou as taxas de mamografia e operações de câncer de mama, o estudo demonstrou que durante 2020, as taxas de mamografia foram mais impactadas do que o número de operações de câncer de mama, esta análise incidiu sobre as alterações ocorridas no início da pandemia de COVID-19 com alterações no atraso do atendimento centradas em março de 202042.

Os serviços de quimioterapia foram afetados pelas medidas protocolares de saúde implementadas para prevenir a transmissão do vírus COVID-19 para pacientes e profissionais de saúde. Essas mudanças são semelhantes às observadas em Roma, Itália, onde o surto de COVID-19 alterou a alocação de recursos médicos e afetou a tomada de decisão dos pacientes com câncer de mama em relação ao tratamento43.

Apesar das pressões associadas à pandemia de COVID-19, a cirurgia de câncer de mama pode ser realizada com segurança e integrada a um protocolo rigoroso para reduzir a exposição e transmissão do vírus. Para minimizar os atrasos no tratamento durante a pandemia, estudiosos propuseram que o tratamento multidisciplinar triasse pacientes e agendasse procedimentos cirúrgicos para otimizar a alocação dos recursos limitados em casos urgentes. No entanto, alguns estudiosos recomendaram adiar cirurgias reconstrutivas complexas em áreas onde a pandemia não está bem controlada, devido à permanência prolongada no hospital para esses procedimentos e às possíveis complicações44,45.

A pandemia também teve um impacto significativo na saúde mental dos pacientes oncológicos, levando a um sentimento de isolamento e redução do apoio social. É fundamental compreender como a pandemia afetou o tratamento do câncer de mama, incluindo a programação da cirurgia, a administração da quimioterapia e da radioterapia, já que o câncer de mama é uma condição amplamente difundida na população46.

De acordo com pesquisas realizadas, muitos pacientes expressam preocupações com relação a atrasos no tratamento, os quais podem levar ao aumento da depressão e ansiedade em indivíduos diagnosticados com câncer, fato que corrobora com nossas descobertas. A influência de fatores psicológicos não pode ser negligenciada na evolução da doença. Além disso, emoções como ansiedade e depressão têm impacto no diagnóstico e tratamento de pacientes com câncer de mama47.

De acordo com pesquisadores, sintomas de câncer, eficácia do tratamento, potencial de recorrência, resultados de saúde e informações inadequadas podem gerar incerteza nos pacientes com câncer. A pandemia da COVID-19 agravou ainda mais a situação, pois existe uma preocupação com o impacto potencialmente grave da COVID-19 em pacientes com câncer e seus efeitos psicológicos negativos, como solidão e isolamento. É importante considerar as necessidades dos pacientes com câncer no mesmo nível daqueles que recebem cuidados para a COVID-19 e outras doenças, já que a incerteza e o sofrimento emocional podem ter efeitos negativos nos resultados clínicos48.

Em resumo, o câncer de mama é uma das principais causas de morte por câncer em mulheres no Brasil, e a pandemia de COVID-19 trouxe desafios significativos para o tratamento e manejo dessa doença. A implementação de protocolos de segurança nos serviços de saúde oncológicos e a adoção de tecnologias de telemedicina foram algumas das medidas tomadas para garantir a continuidade do tratamento e minimizar o risco de exposição ao vírus.

É importante lembrar que a pandemia trouxe impactos psicológicos significativos em pacientes com câncer de mama, exacerbando sentimentos de incerteza e ansiedade em relação ao futuro e ao tratamento. É fundamental que os serviços de saúde oncológicos considerem mais do que nunca essas necessidades psicossociais dos pacientes e ofereçam suporte adequado, visando à melhoria da saúde mental desta população. Também a conscientização e educação das mulheres sobre a importância do autoexame e da detecção precoce do câncer de mama devem ser estimuladas e continuadas, tendo em vista que essas ações podem contribuir para minimizar os efeitos da pandemia sobre o itinerário do câncer de mama.

Devido à natureza dos dados, que foram obtidos de fontes secundárias, a análise se restringiu aos dados fornecidos pelo DATASUS, o que representa uma limitação deste estudo. É possível que haja subnotificação dos casos de câncer registrados.

CONCLUSÃO

O impacto da pandemia de COVID-19 no tratamento do câncer de mama no Brasil é significativo, com variações entre as regiões e os procedimentos adotados pelos hospitais. A pandemia afetou o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes, o que pode levar a consequências graves na saúde e na qualidade de vida desses indivíduos. Portanto, é necessário que medidas sejam tomadas para minimizar esses impactos, como a adoção de protocolos de segurança eficazes e o investimento em recursos para garantir o acesso aos serviços de saúde.

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) pelo apoio financeiro e incentivo proporcionado por meio do EDITAL FAPES Nº 18/2023, referente a Publicação de Artigos Técnicos-Científicos do ciclo 3.

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ORCID Authors

ORCID: 0009-0004-5324-0558;

ORCID: 0000-0001-9918-306X;

ORCID: 0000-0002-6895-4914;

Recebido: Março de 2024; Aceito: Maio de 2024; Publicado: Julho de 2024

Autor correspondente uauira@gmail.com

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