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Revista Brasileira de Psicodrama

versão impressa ISSN 0104-5393

Rev. bras. psicodrama vol.20 no.1 São Paulo jun. 2012

 

Notas Bio-Bibliográfica

Bio-bibliographical notes

 

Vera Königsberger

 

 

Wilson Castello de Almeida

Psicoterapeuta com formação em psiquiatria, psicodrama e psicanálise

Endereço para correspondência

 

Vera K, assim conhecida de forma afetuosa pelos muitos amigos, alunos e pacientes, em 1962 formou-se bacharel em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Aí estava lançado, de modo marcante, o início de sua vida profissional, toda ela de profunda dedicação aos estudos e à clínica.

Especializou-se em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica e teve formação como Diretora de Psicodrama e Sociodrama pela Associação Argentina de Sociodrama e Psicodrama.

Fora suas diplomações, Vera tinha aguda percepção da necessidade de trabalhar em grupo. Sabia que o talento e os dons necessitam do estímulo, do incentivo e da bênção. Assim era a sua caminhada. Estimulava, incentivava e, porque não dizer, abençoava os que tinham o privilégio de gozar de sua professoral amizade.

Rodeava-se de jovens psicólogas e médicos em seu consultório na rua Gabriel Monteiro da Silva, verdadeira escola de temas psi: a psicologia latu senso, o psicodrama, a psicanálise e o treinamento com os variados "testes" da área.

Era titulada como Professora de Psicologia Geral e Experimental no Curso de Psicologia do Instituto Sedes Sapientiae.

Em seu currículo constam imersões em vários assuntos: técnicas de ajustamento, orientação vocacional, psicoterapia de crianças, dificuldades na aprendizagem, genética do comportamento, fenomenologia, J. L. Moreno, Freud e Lacan.

Participou de inúmeros congressos nacionais e internacionais no campo da psiquiatria, psicologia, neurologia distúrbios cerebrais mínimos, distúrbios psicomotores da criança. Em 1970, fez parte da Comissão Científica do V Congresso Internacional de Psicodrama, ocupando o lugar de relatora oficial.

Vera K, como a conheci, mantinha a relação médico-paciente com muita ética e, era de sua filosofia, nunca constranger o outro com obrigações de confidências inadequadas. Seu contato era mágico: um sorriso, uma pergunta solta e um olhar inventivo. Assim, a confiança se estabelecia de imediato, permitindo a "centelha moreniana", já posta na sua origem judaica. Nascera na Alemanha, na cidade de Cottbus, mas poder-se-ia dizer, era uma brasileira nata. Sua forma de trabalhar se caracterizava por saber escutar: palavras ditas e não ditas, mal ditas e bem ditas. Vera era uma lacaniana intuitiva. Sabia das coisas.

Foi professora de Teorias e Técnicas Psicoterápicas na Residência em Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina nos anos de 1973 a 1978. Como pesquisadora, destacou-se nos seus estudos na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), com as hipóteses sobre a imagem corporal e a personalidade, o que ocorreu durante o ano de 1965. Foi fundadora e diretora da Clínica de Psicologia da PUC de Campinas e escolhida para paraninfar a turma de licenciatura de 1966.

"Nossa habilidade em compreender as pessoas está atrofiada por falta de exercícios", disse alguém sabiamente. Vera exercitou com pertinácia, insistência mesmo, essa possibilidade humana, que é o cerne da nossa tarefa, tarefa operária. Sua habilidade para apreender os sentimentos secretos de cada qual, em serena observação, intuída ou vivenciada, devia-se à capacidade de um acolhimento amplo e generoso.

Participante de uma rede sociométrica robusta, qualitativamente densa, promovia aproximações pessoais férteis, ampliando os laços de amizade de todos que se achegavam à sua grei. Sabia receber amigos e alunos na intimidade de sua vida familiar, ora em tertúlias de fim de tarde, ora em elegantes almoços de sábado. Todos nos reconheceremos ali. Nessas reuniões, Vera sabia ouvir e observar, argutamente. Sempre havia, entre os convidados, alguém de área profissional diversa. Filósofos, artistas, psicoterapeutas davam contribuição valiosa naquela ciranda, e podia-se perceber o encantamento de Vera K quando o grupo alçava voos intelectuais ousados. Socraticamente ela ia tecendo perguntas e perguntas, a todos os presentes, dando oportunidade para que todos se entrosassem.

Seu dom era o de conhecer e decifrar pessoas, fazendo-o com graça e respeito. Aqui deixo as homenagens de todos pela sua memória.

 

 

Endereço para correspondência
Wilson Castello de Almeida

Rua João Moura, 627 cj. 124 Pinheiros

São Paulo, SP
e-mail: castellowa@terra.com.br