ABRINDO CAMINHOS
Debater a saúde mental da população negra exige que desloquemos o foco da singularidade para os atravessamentos históricos, sociais e raciais que moldam essa realidade. É fundamental reconhecer as feridas abertas por séculos de escravização, desumanização e exclusão, que fizeram do racismo antinegro uma engrenagem perversa e estrutural que organiza, pelas instituições, os desdobramentos das vidas negras no Brasil.
Este artigo propõe uma articulação entre o psicodrama e o aquilombamento como possibilidade ético-política de práticas coletivas de cuidado antirracistas enraizadas na ancestralidade, na escuta sensível e na construção de vínculos comunitários. Mediante uma abordagem teórico-ensaística ancorada em autoras e autores como Silvio Almeida (2019), Sueli Carneiro (2023), Frantz Fanon (2020), Grada Kilomba (2019), Beatriz Nascimento (2006; 2021; 2022) e Guerreiro Ramos (2023), questionamos epistemologias hegemônicas da saúde mental que desconsideram a experiência racializada como elemento de peso da clínica.
O texto costura crítica teórica, e nele apresentamos algumas conexões entre racismo, saúde mental e cuidado coletivo, mergulhamos no conceito de aquilombamento, navegamos pelo psicodrama brasileiro e tecemos possibilidades de interlocução entre eles, ilustrando-as com a prática situada e tensionando-as com posicionamento político. Defendemos que os modelos de atenção eurocentrados falham em responder à complexidade dos modos de adoecimento, mas também de acolhimento e cura da população negra. É urgente deslocar o olhar da centralidade da pessoa para a potência terapêutica do grupo. Aquilombar-se, aqui, é ação: constituição de proteção mútua, reconstrução coletiva e (re)existência. É compreender que o grupo, enquanto espaço vivo, simbólico e político, pode se tornar um território de escuta, afeto, valorização e transformação.
A análise ancora-se em uma experiência grupal conduzida no contexto da 3ª Kizomba Psicodramática, na qual o sociodrama operou como dispositivo de escuta, denúncia e criação coletiva. A prática, registrada com autorização prévia das/dos participantes, sustenta o argumento central: o grupo aquilombado é lugar de elaboração subjetiva, acolhimento das diferenças, produção de saúde e construção de contornos comunitários de cuidado.
Este artigo também é recusa ao silêncio. Inscreve-se no compromisso com práticas clínicas e psicodramáticas que se orientam pela ética, enfrentam o racismo, no entendimento de que cuidar de vidas negras é comprometer-se com a construção de possibilidades futuras, de reparação histórica, de justiça social e de honra à memória e à ancestralidade.
ENTRE PALCOS E QUILOMBOS
Racismo, saúde mental e cuidado coletivo
É imperativo reconhecer a marca indelével e devastadora do racismo institucional e estrutural, ao abordarmos a saúde mental da população negra. Referimo-nos a um sistema que opera de modo sistematizado e contínuo, produzindo consequências nefastas nas subjetividades e relações sociais. Para além de um fenômeno histórico, o racismo segue, em nossa atualidade, como um dispositivo ativo de controle, balizando o acesso a direitos, a circulação de corpos e a maneira como o discurso e as práticas — incluindo as que integram o campo da saúde mental — são produzidos e legitimados.
Como Carneiro (2023) nos mostra em seu livro Dispositivo de racialidade, o racismo não pode ser entendido apenas como uma questão secundária acerca do tecido social brasileiro, mas sim como algo profundamente enraizado na própria estrutura que molda tudo, as instituições e organizações, os discursos, as decisões políticas, as crenças, os valores, os comportamentos e até mesmo a forma como vemos e estabelecemos relações com o mundo. A autora desafia-nos a compreender como esse sistema cria desvantagens injustas, do ponto de vista tanto material quanto simbólico, prescrevendo o valor da vida de pessoas negras. O referido sistema dita, ainda, o que pode ser considerado válido em termos de conhecimento, de políticas públicas e saúde.
Essa lógica perversa funciona pela via da exclusão e da negação, empurrando sistematicamente as pessoas negras para uma única possibilidade de existência, a da subalternidade. É por meio desse mecanismo, em que a brancura passa a significar o que é ser humano, que os corpos negros são posicionados fora da norma, sendo a cor da pele o marcador que os distancia do ideal de humanidade. Como resultado desse processo, impõe-se um rebaixamento na escala social, e os corpos negros passam a ser vistos como inferiores, a quem se podem determinar destinos e endereçar violências físicas, simbólicas, epistemológicas etc. ao longo da história (Carneiro, 2023).
Corroborando essa discussão, Almeida (2019) argumenta que o racismo transcende a mera manifestação de comportamentos e ações de uma pessoa, ou até mesmo de várias, em conjunto. Ele define o racismo como uma tecnologia de poder que sustenta a disparidade entre grupos de diferentes identidades raciais quando, ao posicionar pessoas brancas no lugar de controle e supremacia, garante a elas reconhecimento e acesso a direitos e benefícios materiais e simbólicos que são negados aos demais, consolidando tais direitos e benefícios, portanto, como privilégios. O autor ratifica o quanto essa estrutura, que funciona sob a égide institucional, vai determinar igualmente os modos de pensar, de sentir e de edificar subjetividades. Em vista disso, tem-se a urgência de abordagens teóricas, clínicas e psicossociais que contemplem o racismo como elemento fundante de adoecimento mental de pessoas negras.
Dito isso, este artigo baseia-se na compreensão de que o sofrimento psíquico da população negra não pode ser dimensionado apenas no campo da experiência individual. Ele é a expressão de uma ferida coletiva historicamente construída, desde o sequestro forçado de pessoas negras de seu continente-mãe (África), seguido pela escravização brutal, que perdurou por mais de três séculos. A essa barbárie, somou-se um longo e contínuo processo de desumanização, animalização e objetificação de corpos e psiquês negras. Referimo-nos a uma das maiores violências grupais já perpetradas em território brasileiro, que se desdobrou, geração após geração, e se perpetua, em ciclos persistentes de exclusão, marginalização, violências e negação sistemática de direitos.
Nesse contexto, é evidente a insuficiência de abordagens teóricas e terapêuticas que considerem em suas práticas o agenciamento do racismo como fator central e determinante no campo da saúde mental. Como consequência direta, os processos de formação de profissionais carregam essa defasagem, perpetuando um modelo de atenção ainda alicerçado na ótica eurocentrada, uma lógica que, ao universalizar a experiência humana tendo o homem branco, cisgênero, heterossexual e de classe média como representante, silencia e invisibiliza outras possibilidades de se compreender a humanidade e seus problemas, outras formas de existir, de pensar saúde, de adoecer, de buscar cuidado e de ter acolhimento, por exemplo.
Essa lacuna nas abordagens reverbera e incide na prática dos profissionais das diversas áreas — psicologia, psiquiatria, assistência social, terapia ocupacional, entre outras —, fazendo com que, ainda que de maneira não intencional, as mesmas lógicas de exclusão social e violências sejam reproduzidas no contexto de produção de saúde. Como nos aponta Carneiro (2023), o racismo orquestra-se como um filtro que contorna e determina o acesso a direitos, incluindo o direito ao cuidado e ao reconhecimento das especificidades do sofrimento negro. Ou seja, é uma lógica nefasta que se resvala no modo como a pessoa é ouvida, acolhida e diagnosticada, em como vai ser pensada e planejada a intervenção, incluindo o seu território como agente, e também nas políticas públicas, revertendo-se igualmente na invisibilização das experiências racializadas de sofrimento.
Quando concebemos a relação entre sofrimento psíquico e processos sociais/históricos, coletivos, estruturais, precisamos deslocar o nosso olhar e escuta da centralidade da pessoa e reconhecer as dimensões comunitárias de adoecimento, mas também de cura. Esse reposicionamento demanda uma reformulação no campo do cuidado, sobretudo em saúde mental, ultrapassando o formato individualizante e patologizante, ainda hegemônico, e que se comprometa, indispensavelmente, com uma perspectiva antirracista e de justiça social.
Nessa conjuntura, as práticas grupais afloram como meios potentes de (co)construção subjetiva, (res)significação coletiva, (re)existência política e reparação material e simbólica. O grupo vai além de um lugar técnico-terapêutico, para se configurar como um espaço representativo de produção de sentido, acolhida, escuta, pertencimento, memória, afeto e restauração da dignidade historicamente usurpada. Isto posto, cuidar da saúde mental da população negra exige reconhecer e valorizar a magnitude dos vínculos coletivos como caminhos possíveis e essenciais de cura.
Aquilombamento como tecnologia ancestral
A potencialização do coletivo como território terapêutico, especialmente em cenários de opressão, já foi debatida por Fanon (2020), quando ele pontuou que a libertação subjetiva da pessoa negra necessita de um movimento construído comunitariamente rumo à descolonização. Para ele, o trauma causado pelo racismo não pode ser tratado de maneira individualizada, pois é no encontro com o outro — no espaço relacional — que surgem partilhas e narrativas contra-hegemônicas com substrato suficiente para restituição de sentidos, identidades e pertencimento.
Nesse mesmo ritmo, o resgate de práticas coletivas de cuidado, ancestralmente alicerçadas pelas populações africanas e afrodiaspóricas1, nos anuncia um aspecto profundo da saúde mental que extrapola os limites da normatividade biomédica. Convoca-se uma ética do vínculo, baseada em solidariedade, em que a escuta é o sustento da vida. Como nos comunica Kilomba (2019), o silêncio historicamente incumbido às vozes negras carece ser rescindido por narrativas e performances até então não ouvidas. Por conseguinte, os espaços grupais, sobretudo em práticas psicodramáticas, têm a possibilidade de se tornarem terra fértil para a reedição dessas cenas e para a reconstituição simbólica de subjetividades violentadas e subalternizadas.
Quando o antirracismo é admitido como eixo técnico-ético-político das práticas grupais, abrimos precedente para que a pessoa deixe de ser vista como alguém que precisa se adaptar a um padrão social e passamos a assumir a postura de denúncia, enfrentamento, não obediência, questionamento e transformação desse padrão. É nesse cenário que o conceito de aquilombamento, resgatado por intelectuais negros como Beatriz Nascimento (2006; 2021; 2022), surge como uma base epistemológica e política potente para se compreender o grupo como território de resistência e cuidado.
O termo kilombo vem do idioma kimbundu, de origem bantu (África Centro-Ocidental), e significa sociedade guerreira, acampamento ou ajuntamento. Em território brasileiro, inicialmente, os quilombos eram as comunidades formadas por pessoas negras escravizadas, em fuga e não aceitação do regime violento escravocrata, que se organizavam em grupamentos sociais alternativos e que representavam risco para a harmonia do arranjo colonial (Nascimento, 2006).
Do ponto de vista histórico, Nascimento (2006) afirma que foi no fim do século XIX que o quilombo se expandiu em contornos ideológicos, para além do territorial e do institucional, e passou a ser visto em sua dimensão simbólica e política de reorganização da vida negra, de resistência e contra as formas de opressão.
Ao longo do tempo, o conceito permaneceu representativo e atrelado ao engajamento de pessoas negras. Atualmente, mantém-se em seu papel ideológico e dá sentido de luta coletiva rumo à liberdade, à justiça, à igualdade e à solidariedade comunitária, mas também de afirmação da identidade, de pertencimento e de valorização da vida.
Nessa ótica, aquilombar-se é estratégia ancestral e política de insurgência, de autoproteção coletiva, fundada por meio de redes solidárias diante da necropolítica, que persiste em aniquilar e adoecer corpos e psiquês negras (Mbembe, 2018). Nascimento (2021) lembra que o aquilombamento é um movimento contínuo e que pode se fazer presente como possibilidade em muitos locais, como, por exemplo, nos terreiros, nos coletivos culturais, nos espaços de trabalho comunitários, nas rodas de samba, nos mais variados grupos, em suas mais diversas formas de relação etc. Quilombo é qualquer lugar onde a vida negra pode florescer com dignidade e escuta (Nascimento, 2021; 2022).
Quando falamos de aquilombamento, consideramos as múltiplas camadas de significado que se intercruzam em uma perspectiva emancipadora e transformadora das vidas negras. Historicamente, o termo faz referência direta aos espaços de autonomia perante o regime escravagista e o colonialismo. Politicamente, diz respeito à prática de enfrentamento às estruturas racistas. Epistemologicamente, responde pela produção de conhecimento por intermédio de experiências negras, por pessoas negras. No tocante à dimensão afetiva e comunitária, possibilita redes de acolhimento e apoio mútuo. Como território, pleiteia espaços — físicos e simbólicos — de liberdade e pertencimento. Por fim, mas não menos importante, em sua esfera espiritual, reconecta vínculos com as ancestralidade e cosmogonia africanas, interrompidas pela diáspora.
Dito isso, aquilombar-se é reorganizar a vida considerando esses eixos de pactuação, nos quais, ao mesmo tempo, acessamos memória e vislumbramos o futuro, nos refugiamos, mas nos reinventamos, baseados na confiança e no respeito a cada singularidade que compõe a pluralidade. Ao compreender o grupo como espaço de aquilombamento, considera-se não apenas a sua representação como um lugar físico ou histórico, porém como símbolo vivo e orgânico, carregado de sentido, intenção e propósito.
Soma-se a isso a reivindicação por uma escuta que leve em conta também a diversidade e interseccionalidade das vivências e subjetividades racializadas, considerando que as formas de sofrer, adoecer, resistir, se cuidar, curar e criar não são universais. Ou seja, há uma infinidade de possibilidades de contemplar o mundo que nos cerca, e uma única explicação não consegue sintetizar a vida de todas as pessoas.
O psicodrama brasileiro
O psicodrama foi criado por Jacob Levy Moreno, tendo como marco histórico inicial o sociodrama público dirigido em 1º de abril de 1921, no Komödienhaus, em Viena, Áustria. A partir daí, Moreno elaborou um denso campo de estudos e métodos de intervenção grupal — a socionomia —, partindo da Europa e desenvolvendo-se nos Estados Unidos, isto é, uma contribuição fundamental para a psiquiatria e a psicoterapia de grupo (Federação Brasileira de Psicodrama, 2021; Formiga, 2025).
No Brasil, as primeiras práticas socionômicas datam do fim da década de 1940, com Alberto Guerreiro Ramos no contexto do Teatro Experimental do Negro. Motta (2008) organiza um relato abrangente das memórias e história do psicodrama brasileiro, reconhecendo Guerreiro Ramos como pioneiro e trazendo outras personalidades que colaboraram com a implantação do psicodrama no país. A autora também destaca o V Congresso Internacional de Psicodrama e o I Congresso de Comunidades Terapêuticas, realizados em 1970 no Museu de Arte de São Paulo (MASP), em São Paulo, SP, como marcos que impulsionaram a organização do movimento psicodramático brasileiro, culminando na fundação da Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap), em 1976. Esses registros revelam que a institucionalização da abordagem se deu, majoritariamente, com base no campo clínico e na atuação de profissionais da saúde, especialmente psiquiatras e psicólogos/as.
Somente após o VI Congresso Brasileiro de Psicodrama (1988), fez-se uma reforma estatutária da Febrap, tendo como um dos pontos principais o fim da exclusividade dos cursos clínicos e ampliando o espaço para as formações em psicodrama socioeducacional ou aplicado. A partir dos anos 2000, houve crescimento nas intervenções socionômicas grupais em espaços públicos, que, embora já existissem e marcassem o movimento, eram menos frequentes (Motta, 2008; Wechsler et al., 2023).
Assim, a história do psicodrama, tanto de forma geral quanto no Brasil, é marcada pelo apagamento, ainda que parcial, de algumas de suas vertentes. Segundo Ribeiro (2024), Moreno desenvolveu a abordagem fundamentada em três eixos epistemológicos: a medicina (terapêutica), a sociologia e a cosmodinâmica. No esforço de reconhecimento científico da proposta moreniana no início do século XX, a raiz cosmológica foi a primeira a ser silenciada. No caso brasileiro, para a consolidação da abordagem no campo da saúde, foi a raiz sociológica que se viu negligenciada, em função da ênfase quase exclusiva no campo clínico. Embora Alberto Guerreiro Ramos tenha sido o primeiro a aplicar a metodologia socionômica e publicar textos sobre psicodrama, sociodrama e grupoterapia no país, sua contribuição foi por muito tempo esquecida nas narrativas oficiais do psicodrama brasileiro.
Guerreiro Ramos, sociólogo negro, compreendia o psicodrama como uma ferramenta de reorganização das relações sociais e de combate ao racismo estrutural, abordando o sofrimento psíquico em sua dimensão coletiva, ética e política (Malaquias, 2020; Oliveira, 2025). Como vimos anteriormente, a dimensão social do psicodrama resistiu no século XX, mas seu fortalecimento e crescente relevância só foram observados na virada para o século XXI.
Recontar a história do psicodrama brasileiro é, portanto, um exercício de descolonização do olhar. Significa reconhecer os epistemicídios, resgatar contribuições como as de Guerreiro Ramos e fortalecer uma identidade brasileira do nosso fazer socionômico. Nesse movimento, reafirmamos a importância de integrar a crítica de Guerreiro Ramos (2023, p. 246): “O Brasil é, pois, do ponto de vista étnico, um país de mestiços”. Que possamos, então, construir um modo mestiço de fazer psicodrama — enraizado, coletivo e comprometido com as lutas sociais que atravessam o país. Ao revisitarmos essa história, abrimos caminho para entrelaçá-la com o aquilombamento como proposta viva de cuidado, pertencimento e reorganização ética das relações.
Psicodrama e aquilombamento: tecendo possibilidades
No atual momento do psicodrama brasileiro, há muito sendo feito em termos de psicodramas e sociodramas públicos, nos mais variados contextos. A ampliação do campo para espaços sociais e coletivos, do início do século XXI em diante, tem sido acompanhada por uma produção teórica crescente (Mascarenhas, 2008; Motta et al., 2011; Wechsler et al., 2023; Zampieri, 2011). Especificamente a respeito da utilização do método socionômico para se trabalhar as relações étnico-raciais, Moreno (2013) introduz o tema em seu protocolo psicodramático “O problema negro-branco”, e Guerreiro Ramos propõe a grupoterapia como um método de intervenção socionômica com essa intenção (Malaquias, 2020; Oliveira, 2025). Seguindo esse legado, somam-se experiências realizadas e documentadas no Brasil (Crisostono & Ribeiro, 2024; Malaquias, 2023; Malaquias et al., 2025; Oliveira, 2024; Oliveira & Santos, 2025).
Diante desse campo em crescimento, qual é a contribuição que nós, autoras deste artigo, podemos oferecer? Nossa proposta se situa no entrelaçamento epistemológico — ou talvez na fertilização — entre psicodrama e aquilombamento. Propomos deslocar o olhar dos métodos e técnicas utilizados na intervenção para a forma como compreendemos as relações que se constroem no palco, na plateia e no compartilhar — como possibilidades de reorganização coletiva, nas quais o aquilombamento não é tema, mas tecnologia viva de cuidado.
Moreno (2013) postula que o/a diretor/a do psicodrama executa três funções. Ele é o produtor, ocupando-se de dirigir a cena utilizando as técnicas psicodramáticas; o terapeuta principal, responsabilizando-se pelo valor terapêutico da produção e orientando a espontaneidade dos sujeitos; e o analista social. Concentramo-nos aqui na função de analista social, com base no princípio de que vivemos em uma realidade social violenta cujas diferenças se refletem em desigualdades adoecedoras e cerceadoras de direitos. Assim, propomos um tensionamento haja vista a compreensão racializada: de que grupo estamos falando? Quem pode falar nesse palco? Que corpos podem protagonizar seus dramas sem que, para isso, sejam colocados no lugar de subalternos, estigmatizados ou exotificados?
Tais perguntas nos levam a pensar em grupo para além do manejo das técnicas, em que o palco seja vivo, orgânico, território promissor para que histórias, afetos, dores, angústias, fragilidades e potencialidades de qualquer pessoa, independentemente de sua cor, crença, orientação sexual, classe, identidade de gênero, local de nascimento etc., sejam possíveis de ser encenados, acolhidos, ouvidos e valorizados.
Santos (2023), numa perspectiva quilombola, afirma: “Enquanto a sociedade se faz com os iguais, a comunidade se faz com os diversos. Nós somos os diversais, os cosmológicos, os naturais, os orgânicos” (Santos, 2023, p. 29). O autor convida-nos a olhar criticamente para a tendência, em uma sociedade eurocêntrica, de uniformizar e universalizar o ser humano. Esse ser humano “universal” é moldado à imagem da branquitude. Na universalização, as diferenças são apagadas, e os/as diferentes, invisibilizados/as. É o que Vomero (2022) denomina como conservas culturais coloniais: valores sociais cristalizados e oriundos de visões de mundo eurocentradas, racistas e patriarcais.
Assim, o convite que tomamos para o psicodrama é o de que aquilombar-se significa uma prática decolonial ou contracolonial, em que o/a diretor/a está atento/a a confrontar uma lógica de violências e exclusões. É criar cenas, vínculos e ações pautados na ética relacional e no comprometimento político com a escuta do sofrimento negro. Trata-se de legitimar o grupo como ambiente de resistência e produção de cuidado, no qual seja possível a elaboração de formas autorais, espontâneas, criativas e saudáveis de estar no mundo, por meio de pactos comunitários, engajados e de valorização das vidas.
Nessa perspectiva, há um reposicionamento não apenas da escuta, mas também do método e do próprio setting, que, ao se configurar como espaço simbólico e continente, se compromete com a visibilidade de todas as pessoas. Referimo-nos a uma via que possibilita a ruptura do silêncio e a emergência das vozes, sobretudo daquelas que podem falar sobre o que é experienciar esse mundo atravessado pelo racismo sendo uma pessoa negra. Isso exige a implicação ética do/a psicodramatista/diretor/a — em seu papel social, identidade racial, de gênero e de classe —, pois, conforme nos lembra Silva (2025 apudPinto, 2025), diante da dor negra, não há neutralidade possível. É inexorável posicionar-se.
Um jornal vivo sobre o amor
Passamos a apresentar o relato de um sociodrama que dirigimos em outubro de 2024, no contexto da 3ª Kizomba Psicodramática, na modalidade online. O sociodrama “Diálogos entre Moreno e bell hooks: um jornal vivo sobre o amor” utilizou a metodologia do jornal vivo, criada por J. L. Moreno, com o objetivo de dramatizar coletivamente uma notícia veiculada na mídia com inspiração no teatro da espontaneidade (França, 2015), e articulou as proposições de bell hooks sobre o amor como ação política, buscando ampliar o entendimento para além do ideal de amor romântico (Zacarias, 2021). A atividade contou com 32 participantes, entre negras/os e brancas/os.
A Kizomba Psicodramática integra a programação do Grupo de Estudos Psicodrama e Relações Étnico-Raciais, coordenado por Maria Célia Malaquias e carinhosamente apelidado por suas/seus integrantes de Quilombo Malaquias. Ou seja, estávamos em um grupo que, por si só, incorpora as características de aquilombamento.
O aquecimento da atividade se deu por meio de notícias então atuais sobre o amor, organizadas em quatro eixos: amor-próprio, amor na dimensão afetivo-sexual, amor comunitário e amor cósmico. Após a criação de cenas em pequenos grupos, o coletivo escolheu para dramatização a cena denominada “Amizade”, inspirada em uma notícia pertencente ao eixo do amor comunitário, abordando a cantora Preta Gil, que, em processo de recuperação de um câncer, ressaltava a importância do amparo dos amigos, em contraposição à expectativa que geralmente colocamos no amor romântico (Andrade, 2024).
A cena foi embalada pela música “A amizade” (Augusto et al., 1991), do conjunto Fundo de Quintal. O grupo ocupou o palco, demarcado pelo recurso do destaque da plataforma Zoom, com movimentos corporais, principalmente de braços e mãos, expressões simbólicas e, em pausas na canção, partilha de palavras e frases como: abraço, amizade pelo outro, amizade pela comunidade, amizade com o cosmos, apoio, amizade que une, amizade que reforça, amizade que acolhe todos os amores, suporte, amor verdadeiro.
A cena desdobrou-se com a entrada de pessoas da plateia no palco, que passaram a integrar a dança, até que não houvesse mais distinção entre quem atuava e quem assistia à cena; todo o grupo estava envolvido, vivenciando um aquilombamento afetivo em que a amizade ocupou lugar de afeto, presença e reconstrução de si. Frases como “valeu por você existir, amigo” e “se eu dou conta de sofrer, eu dou conta de amar” emergiram como sínteses coletivas.
O grupo compartilhou sentidos de resistência, afeto e reconstrução de si por meio da amizade e da coletividade. A experiência mostrou como o palco psicodramático pode se tornar território de cuidado comunitário e ético, em consonância com a proposta de aquilombamento: uma tecnologia de insurgência e reorganização de vínculos marcada pela escuta, pelo acolhimento e pela ação política do amor. O grupo pode funcionar como um território de reinvenção da vida, um lugar em que as lógicas supremacistas são desmanteladas em nome de uma reformulação, os saberes ancestrais são valorizados, como a oralidade, a corporeidade, a música de raiz ancestral, a espiritualidade, em seus mais diversos ritos e sentidos, sendo essas formas legítimas de expressão e elaboração de sofrimento.
A vivência sociodramática fez emergir uma narrativa reeditada sobre o amor, deslocando a centralidade do amor romântico e reiterando o papel da amizade e da comunidade como espaço de cura e aliança. Aproximou-se, assim, da noção de aquilombamento como reorganização ética das relações, em diálogo com os princípios de confluência, diversidade e reciprocidade apresentados por Santos (2023). Aqui temos uma dimensão poética do cuidado que encerra o isolamento social posto e produzido pelas engrenagens raciais hierárquicas e desiguais, para agigantar o senso de pertencimento e de identidade, por intermédio da oferta de alicerçamento e edificação mútua, em um mundo que vive tempos de necropolítica (Mbembe, 2018).
Esse é um fluxo de importância suntuosa, pois comprometer-se com o cuidado coletivo e aquilombado entre pessoas negras e racializadas é um gesto contra-hegemônico, de valorização e afirmação de quais vidas importam. Nas práticas psicodramáticas, isso nos informa que os palcos também podem (e devem) ser espaços para que a ancestralidade seja convocada, reverenciada, referenciada, onde as corporeidade e estética negras sejam celebradas, valorizadas, as dores e fragilidades encontrem amparo, acolhida e conforto. Nesse gesto, aquilombar-se no palco significa reconstruir epistemologias pelo afeto, escuta e criação coletiva. Nele, o grupo torna-se quilombo, e a cena, território de enraizamento e liberdade.
QUEM FALOU QUE EU ANDO SÓ?
Quisemos, ao longo deste artigo, soprar palavras que ecoam por aqui. Palavras que reverenciam as memórias das nossas mais velhas e dos nossos mais velhos, ao mesmo tempo que convocam as escutas das nossas e dos nossos iguais, das nossas mais novas, dos nossos mais novos, com o propósito de romper com silêncios antigos.
Diante do racismo estrutural que atinge, de forma sistemática, corpos e psiquês negros, compreender o cuidado coletivo como prática antirracista é, simultaneamente, um posicionamento ético-político e uma urgência de vida. Não há possibilidade de avanço social ou de revolução enquanto nossos corpos e afetos estiverem adoecidos. Sobretudo, não há nenhuma chance de cura que não seja pelo coletivo.
Há algo em nós que insiste e persiste. Que pulsa. Que (re)existe mesmo quando tudo nos soterra em silêncio, em cansaço, em desistência. Apostamos que é a herança do tambor — que bate dentro do peito, em consonância com os nossos corações — e nos lembra: estamos vivas, vivos e vives. E viver, para nós, é também lutar. A nossa escolha tem uma direção: viver bem. Com dignidade, afeto e alegria plena. Porque essa é, para nós, uma das formas mais potentes de afirmar: eles não passarão!
Fortalecer espaços de aquilombamento é criar territórios em que a vida negra possa cuidar e ser cuidada, existir com raízes negadas, mas também com capacidade de brotar. Aquilombar-se é mais do que estar junto. É trocar gestos de amor ancestral, afirmar e valorizar a vida, é se deixar atravessar e transmutar para um novo que só existe porque todes existem.
Entrelaçar psicodrama e aquilombamento não foi ousadia, mas necessidade, e nós, duas psicodramatistas esperançosas — uma mulher negra e uma mulher branca —, acreditamos que o grupo pode e deve ser morada. Palco e território. Círculo que faz roda, acolhe e transforma. A que a fala chega quando pode — e, quando chega, é para ter lugar.
Por fim, mas sem fim, não buscamos concluir. Nosso alvo é a continuidade. Cada partilha, cada palco, cada roda aquilombada é um novo começo. Seguimos, portanto, tecendo cenas com mãos entrelaçadas, corpos presentes, corações atentos, inundados de afeto e espírito comprometido, garantindo que, onde estivermos, vidas negras possam florescer.
Num até breve, deixamos pactuada nossa intenção: compor vínculos por aí.














