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Revista Brasileira de Psicodrama

versión impresa ISSN 0104-5393versión On-line ISSN 2318-0498

Rev. Bras. Psicodrama vol.33  São Paulo  2025  Epub 14-Nov-2025

https://doi.org/10.1590/psicodrama.v33.716 

DOSSIÊ | PRÁTICAS ANTIRRACISTAS EM PROCESSOS GRUPAIS

Bibliodrama: uma ferramenta para letramento racial

Bibliodrama: a tool for racial literacy

Bibliodrama: una herramienta para la alfabetización racial

Laruse Andrade Souza, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final1  * 
http://orcid.org/0009-0006-5830-9547

Ivna Ariane Santos Vieira, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final1 
http://orcid.org/0009-0000-2165-2567

1Profissionais Integrados (Profint) – Aracaju (SE), Brasil.


RESUMO

Este artigo relata uma experiência de bibliodrama, realizada no contexto da Profissionais Integrados (Profint) – federada da Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap), em Sergipe –, que integrou literatura, música e dramatização, mobilizando o grupo em torno de reflexões sobre silenciamentos e opressões étnico-raciais. Utilizamos como referencial teórico a socionomia, mais especificamente a sociatria e o método psicodramático. A intervenção teve como objetivo promover uma reflexão e o reconhecimento de dores silenciadas, transformando-as em ação criativa e coletiva. A experiência evidenciou que o bibliodrama é uma ferramenta eficaz no processo de letramento racial, favorecendo a escuta e expressão de sentimentos e promovendo responsabilização ativa frente ao racismo.

PALAVRAS-CHAVE Bibliodrama; Letramento racial; Vivência; Psicodrama

ABSTRACT

This article reports on a Bibliodrama experience carried out within the context of Profint (Integrated Professionals), a member organization of FEBRAP (Brazilian Federation of Psychodrama) in Sergipe, which integrated literature, music, and dramatization, engaging the group in reflections on silencing and ethno-racial oppression. The theoretical framework adopted was Socionomy, specifically Sociatry and the psychodramatic method. The intervention aimed to foster reflection and recognition of silenced pain, transforming it into creative and collective action. The experience demonstrated that Bibliodrama is an effective tool in the process of Racial Literacy, encouraging the listening and expression of feelings and promoting active accountability in the face of racism.

KEYWORDS Bibliodrama; Racial literacy; Lived experience; Psychodrama

RESUMEN

Este artículo relata una experiencia de Bibliodrama realizada en el contexto de Profint (Profesionales Integrados), federada de FEBRAP (Federación Brasileña de Psicodrama) en Sergipe, que integró literatura, música y dramatización, movilizando al grupo en torno a reflexiones sobre silenciamientos y opresiones étnico-raciales. El marco teórico adoptado fue la Socionomía, específicamente la Sociatría y el método psicodramático. La intervención tuvo como objetivo promover la reflexión y el reconocimiento de dolores silenciados, transformándolos en acción creativa y colectiva. La experiencia evidenció que el Bibliodrama es una herramienta eficaz en el proceso de Alfabetización Racial, favoreciendo la escucha y la expresión de sentimientos, y promoviendo la responsabilización activa frente al racismo.

PALABRAS CLAVE Bibliodrama; Alfabetización racial; Vivencia; Psicodrama

INTRODUÇÃO

O racismo estrutural configura-se como um dos principais desafios das sociedades contemporâneas, atravessando subjetividades e impactando de maneira direta as relações sociais. A necessidade de promover espaços que favoreçam o reconhecimento, a escuta e a elaboração dessas marcas históricas e afetivas torna-se urgente, especialmente em contextos formativos. O bibliodrama, como prática que articula texto literário, dramatização e vivência grupal, revela-se uma metodologia potente para abordar questões étnico-raciais, promovendo o letramento racial de maneira experiencial e reflexiva.

Este artigo relata uma experiência de bibliodrama realizada na 16a Jornada de Psicodrama, que aconteceu em agosto de 2024 na Profissionais Integrados (Profint), federada da Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap), em Sergipe. Nesta jornada aconteciam vivências simultaneamente, e os participantes – profissionais e estudantes de diferentes raças, gêneros e idades – escolhiam as atividades de acordo com as temáticas de sua preferência. O tema da vivência que deu origem a este artigo foi Bibliodrama: textos literários e novas cenas. Os textos literários escolhidos para leitura durante a vivência tinham como temática questões raciais, já que a ideia para a construção deste trabalho surgiu a partir do grupo de estudos da professora Maria Célia Malaquias, Psicodrama e Relações Étnico-Raciais, carinhosamente chamado de Quilombo Malaquias, onde entendemos a necessidade de discutir tais questões buscando evidenciar como essa metodologia pode favorecer o reconhecimento de vivências silenciadas, a expressão afetiva e a responsabilização frente ao racismo. A atividade desenvolvida proporcionou a discussão sobre o potencial do bibliodrama como ferramenta de letramento racial, dialogando com autores que fundamentam as práticas psicodramáticas e os estudos sobre raça e subjetividade.

O artigo está organizado em cinco tópicos que oferecem uma visão geral dos conceitos trabalhados. Inicialmente, apresentamos o referencial teórico, abordando o bibliodrama e o letramento racial. Em seguida, descrevemos o método, relatamos e discutimos a experiência desenvolvida e, por fim, expomos as considerações finais.

REFERENCIAL TEÓRICO

Bibliodrama: texto literário e psicodrama, um campo de possibilidades
criativo-transformadoras

O bibliodrama é uma prática que resulta da articulação entre a biblioterapia e o psicodrama. A biblioterapia pode ser definida como “o cuidado com o desenvolvimento do ser mediante a leitura, narração ou dramatização de histórias” (Caldin, 2010, p. 188). Inicialmente apresentada por Ivna Vieira, uma das autoras e diretora deste artigo, como livrodrama (Vieira, 2018), essa proposta passou por um processo de aprofundamento conceitual até se consolidar como bibliodrama. O livrodrama consistia na dramatização a partir de livros, tendo como foco o objeto livro, sem uma compreensão mais refinada do que atuava terapeuticamente nesse processo.

Com o avanço dos estudos, especialmente a partir das contribuições de Carla Souza (2021), consolidou-se a compreensão de que o elemento terapêutico fundamental é a metáfora. Como afirma Souza (2021, p. 33), “o livro é apenas a cápsula que envolve o medicamento, que são as histórias; mas o que vai agir dentro do ser humano é a metáfora”. A linguagem simbólica se infiltra, adapta e conecta-se ao inconsciente, mobilizando afetos, memórias e transformações profundas.

Restringir a biblioterapia apenas ao livro, como no livrodrama, é não reconhecer plenamente o valor terapêutico do texto literário enquanto metáfora. Assim, o prefixo “biblio” não se limita ao objeto livro, mas se refere ao conteúdo ficcional que ele veicula. A partir dessa matriz, desenvolveu-se o bibliodrama, cujo foco central é a interação entre o texto literário metafórico e a criação de novas cenas por meio da dramatização. Essa prática possibilita que, individual ou coletivamente, os participantes explorem sentidos e significados não apenas pela análise racional, mas, sobretudo, pela vivência emocional, simbólica e corporal.

O uso da literatura como instrumento de formação ética, como afirma Freire (2008), tem sido explorado por uma corrente de pensadores de diversas disciplinas humanas. Para este autor, a boa leitura é aquela que nos apresenta o humano na sua multiplicidade de expressões, correlacionando afetos e aspectos da cognição, da vontade, das escolhas, mas sem a preocupação de categorizá-las.

Essa perspectiva dialógica entre o texto e a experiência dos participantes favorece a criação de “novas cenas” – encenações improvisadas que emergem de afetos, memórias e questões evocadas pela leitura, sem a necessidade de reproduzir fielmente o conteúdo original. O texto, nesse contexto, não é um roteiro fixo, mas um convite à cocriação e à ressignificação, sendo continuamente atualizado pelos sujeitos que dele participam. Portanto, essa concepção de leitura como experiência relacional dialoga diretamente com os fundamentos do psicodrama, método criado por Jacob Levy Moreno, que concebe o ser humano como relacional, criativo e transformador.

Ancorado nos pressupostos psicodramáticos, o bibliodrama parte da ideia de que a ação criativa possibilita a transformação subjetiva. A dramatização de cenas inspiradas em textos convoca os participantes a confrontarem aspectos de sua história, emoções e valores, favorecendo processos de elaboração subjetiva e transformação social. A literatura mobiliza afetos e conteúdos, enquanto o psicodrama oferece os recursos teóricos e técnicos para sistematizar e trabalhar as inter-relações individuais e grupais.

O bibliodrama cria um espaço protegido e acolhedor, onde questões pessoais e coletivas podem ser exploradas de forma ética e respeitosa. A proposta parte de um tema pré-definido, mas permite que o grupo, espontaneamente, construa os temas a serem trabalhados, utilizando o texto literário, enquanto conserva cultural, como aquecedor externo e sensibilizando para o desempenho criativo dos papéis na dramatização.

Ler, nesse contexto, vai além da obra: o texto é uma construção subjetiva do autor que, ao ser lido, encontra a subjetividade do leitor. É o olhar-se através do outro e com o outro; é compreender e experimentar o mundo pelos olhos e sentimentos de outra pessoa. Como afirma Contro (2020), a possibilidade de se colocar no lugar do outro é um fundamento valioso que orienta a teoria e a prática do psicodrama.

Quando o indivíduo lê o texto literário, conserva cultural, podem emergir ressonâncias e identificações. Surgem, assim, papéis imaginários que ficam conservados na subjetividade (Naffah, 1979). O bibliodrama propõe transformar esses papéis imaginários, mobilizados pela leitura, em papéis psicodramáticos, promovendo uma explosão criativa e espontânea.

Perazzo (1999) explicou que o papel psicodramático é aquele que é atuado unicamente no palco psicodramático e a sua função é conectar um papel imaginário com a espontaneidade e criatividade, abrindo espaço para que este volte à atuação – tornando-se, então, papel social e criando um novo status nascendi, claramente visível num processo que se segue à catarse de integração.

O psicodrama, por meio da realidade suplementar, resgata esse vir a ser individual como uma verdade psicodramática e poética. A realidade suplementar, invisível, revela-se ao sujeito na ação dramática, especialmente por meio da inversão de papéis e da intervenção espontânea de egos auxiliares, que o ajudam a incorporar novas dimensões criativas aos seus papéis sociais.

A aplicação do bibliodrama tem se mostrado relevante em processos de formação de grupos, desenvolvimento de competências socioemocionais e, mais recentemente, em práticas de letramento racial, funcionando como instrumento para problematizar questões de identidade, relações de poder e diversidade cultural. Ao possibilitar a dramatização de narrativas que abordam o racismo, por exemplo, o bibliodrama favorece o deslocamento de lugares de fala, a escuta empática e a elaboração simbólica de experiências socialmente marcadas.

Assim, o bibliodrama se configura como uma prática potente, que amplia os horizontes da leitura e da dramatização, promovendo processos de aprendizagem, transformação pessoal e intervenção social. Sua fundamentação teórico-metodológica ancora-se tanto nas contribuições do psicodrama quanto nas teorias da recepção literária e da hermenêutica dialógica, constituindo-se como um campo fértil para investigações acadêmicas e aplicações em diversos contextos profissionais.

Letramento racial

Em 2003 foi estabelecido por lei a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas (Lei n.º 10.639, 2003). Tal iniciativa faz parte de um processo de reparação histórica no que se refere às questões raciais, pois pessoas que concluíram o ensino médio se tornaram adultos sem ter a possibilidade de acessar tais conhecimentos.

As autoras do presente texto, mulheres brancas, formaram-se em psicologia em universidades diferentes, no início dos anos 2000, e não tiveram acesso nem ao conteúdo e nem a autores negros em seus currículos formativos. Isso demonstra as marcas do racismo e o quão atrasadas estamos enquanto sociedade.

A partir do Quilombo Malaquias, coordenado pela professora Maria Célia Malaquias, com proposta de ser online, foi possível acessar e discutir autores e autoras que tratam da temática, bem como perceber o quanto sabemos pouco e o quanto isso é necessário para nossa formação do ponto de vista pessoal e profissional.

Observa-se que a Resolução do Conselho Federal de Psicologia n.º 018/2002 é o documento que aborda a questão do racismo no Código de Ética do Psicólogo. O art. 3º desta resolução proíbe a conivência e a omissão perante o racismo. E o art. 4º proíbe o uso de técnicas psicológicas para reforçar preconceitos e discriminação racial (Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2002).

Iniciou-se, dessa forma, a nossa compreensão a respeito da necessidade de estudar as questões raciais. Tal estudo pode ser chamado de letramento racial, que é compreendido como um conjunto de práticas que questiona o regime racista e pode produzir consciência crítica das questões raciais (Severo, 2021). Dessa forma, “o Letramento Racial, que possibilita uma ação entre sujeitos (brancos e negros) que tem como compromisso político-social o combate ao racismo, através de uma reeducação que viabilize uma leitura crítica do racismo no Brasil e suas múltiplas ramificações” (Braúna et al., 2022, p. 2).

Ao promover o letramento racial é possível desconstruir preconceitos e desigualdades, criando uma sociedade mais justa e igualitária. Existem várias formas de se promover o letramento racial: leituras de autores e autoras negros; produção textual; incluir nas escolas conteúdos sobre a história e cultura africana e afro-brasileira (Lei n.º 10.639/03); análise crítica de filmes, séries, etc. (Schucman, 2020; Carine, 2023; Braúna et al., 2022).

No presente artigo é relatada uma vivência realizada com a participação, em sua maioria, de psicólogos psicodramatistas em formação, na qual utilizamos como recursos imagens, leitura de trechos de livros, e músicas de artistas negros e negras.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, do tipo pesquisa-ação (Thiollent, 1988). Dentro dessa abordagem utilizamos como referencial teórico a socionomia, mais especificamente a sociatria, que segundo Moreno (1975) é um ramo dedicado às relações e que tem como métodos o psicodrama, o sociodrama e a psicoterapia de grupo.

No trabalho socionômico em grupo, a investigação e intervenção ocorrem simultaneamente, pois, como afirma Marra (2004), tal método é, por essência, investigativo e fundamentado na pesquisa-ação. Conforme a perspectiva de Luiz Contro (2020), a pesquisa-ação crítica e a pesquisa-intervenção podem ser entendidas como estratégias amplas que integram diferentes métodos e técnicas, configurando um instrumento coletivo e participativo de intervenção sustentado por princípios epistemológicos comuns. Inserido nesse perfil, o psicodrama se estabelece como método qualitativo e participativo, transitando entre a pesquisa-intervenção e a pesquisa-ação crítica.

Contexto da vivência

A vivência foi realizada no âmbito da Profint, que promove encontros reflexivos e experienciados entre profissionais de diferentes áreas. A proposta foi elaborada e conduzida por duas psicólogas com formação em psicodrama e estudiosas no tema com o Quilombo Malaquias.

O encontro teve duração de 1h45min e contou com a participação de 10 integrantes com diversidade de idade, raça e gênero.

Procedimentos

O encontro foi organizado em seis etapas:

  • Acolhimento e apresentação: convite à presença e à escuta sensível.

  • Leitura de textos: fragmentos de obras de Audre Lorde, bell hooks, Manuel de Barros e Itamar Vieira Junior.

  • Escrita afetiva: convite à escrita livre a partir das emoções suscitadas pelos textos.

  • Escolha de imagens: cartões com imagens simbólicas foram disponibilizados para escolha, como apoio à expressão subjetiva.

  • Formação de grupos: os participantes se organizaram em pequenos grupos para compartilhar escritos e imagens e criar uma cena dramatizada inspirada nas reflexões coletivas.

  • Dramatização e partilha: apresentação das cenas criadas, seguida de compartilhar.

Aspectos éticos

Todos os participantes foram devidamente informados acerca dos objetivos da vivência e consentiram formalmente com a utilização dos dados, assegurando-se a preservação do anonimato e da confidencialidade. A condução da atividade observou estritamente os preceitos éticos aplicáveis às práticas grupais e ao psicodrama.

RELATO DA EXPERIÊNCIA E DISCUSSÃO

O relato da vivência foi elaborado pelas autoras imediatamente após sua realização, fundamentando-se em registros detalhados e memórias recentes da vivência, de modo a garantir a fidedignidade da descrição e a integridade dos aspectos emocionais e simbólicos emergentes durante o processo.

A análise da experiência foi realizada por meio da reflexão conjunta das autoras, considerando as anotações articuladas com o referencial teórico, as interações observadas e os significados atribuídos pelos participantes, visando a compreender os desdobramentos e impactos psicossociais decorrentes da vivência.

O encontro iniciou-se com um breve aquecimento inespecífico, acolhendo os participantes e convidando o grupo a um momento de presença e escuta. Desde o início foi apresentado o convite para uma vivência que integraria literatura, música e dramatização.

No aquecimento específico foram lidos fragmentos literários com forte carga simbólica e afetiva: o poema de Audre Lorde, “Uma litania pela sobrevivência”, citado em bell hooks (2023), que aborda a importância da fala como resistência; um poema de Manoel de Barros (2006), “Canção do ver”, evocando o olhar poético sobre a existência; e o primeiro capítulo do romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (2019), que trata das heranças históricas e afetivas do povo negro no Brasil. A leitura foi entremeada pela escuta das canções Cordeiro de Nanã, de Matheus Aleluia e Dadinho, que evoca ancestralidade e espiritualidade; e AmarElo, de Emicida, Felipe Vassão e DJ Dug, que fala sobre resistência, afeto e coletividade.

A proposta de intervenção baseou-se no bibliodrama, utilizando textos literários como “iniciadores”, estímulos mentais externos que favorecem o aquecimento do grupo para o desempenho espontâneo e criativo dos papéis. Segundo Perazzo (2010), os iniciadores, sejam físicos, mentais ou psicoquímicos, são instrumentos que despertam espontaneidade e criatividade, elementos fundamentais na prática psicodramática. No caso da vivência, os textos de autores negros, carregados de metáforas e memórias ancestrais, foram essenciais para introduzir o grupo na reflexão sobre as marcas do racismo e suas reverberações subjetivas.

A escolha por textos de autores negros insere-se na proposta de letramento racial, compreendido como um processo de desnaturalização das estruturas de poder que sustentam a branquitude1. Para Braúna et al. (2022), não há democracia plena sem cidadãos letrados em seu contexto social. É preciso incluir todos no processo de leitura e escrita crítica, de modo que se tornem agentes participativos na construção de uma sociedade mais justa. Essa perspectiva dialoga com a pedagogia freiriana, que compreende a educação como prática da liberdade e reconhece os sujeitos como portadores de saberes e de uma bagagem cultural historicamente situada.

Nesse sentido, o bibliodrama, ao convidar os participantes a entrarem simbolicamente em textos, papéis e cenas, favorece uma prática pedagógica que se alinha à perspectiva freireana de educação como processo dialógico e libertador. Para Freire (2007), a educação precisa ser um ambiente de acolhimento, diálogo e criação conjunta do saber, em oposição ao modelo bancário, que apenas deposita conteúdos nos sujeitos. No bibliodrama o texto dramatizado e as imagens simbólicas, como as cartas do jogo Dixit e das obras da artista Manuela Navas, funcionam como disparadores de um diálogo sensível, que permite não apenas compreender, mas sentir as marcas do racismo e seus atravessamentos subjetivos.

Durante a partilha foi possível perceber uma lacuna na formação educacional dos participantes em relação às questões étnico-raciais. Muitos relataram que só tiveram contato com autoras como Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento após a graduação, o que revela a ausência histórica de vozes negras nos currículos escolares e universitários. Como aponta Freire (2002), ler o mundo precede a leitura da palavra, e transformá-lo requer o reconhecimento crítico da realidade vivida. A ausência dessas leituras no percurso formativo reforça o silenciamento de experiências negras e a manutenção de uma lógica de poder centrada na branquitude.

Essa ausência curricular e o silenciamento das experiências negras podem ser compreendidos à luz do conceito de pacto narcísico da branquitude, formulado por Maria Aparecida Bento (2022). Segundo a autora, trata-se de um acordo inconsciente entre pessoas brancas para manter os privilégios raciais, o que implica o apagamento das violências históricas e o silêncio diante do sofrimento alheio. Esse silêncio cúmplice se manifesta também nas instituições de ensino, onde a ausência de vozes negras reforça a ideia de que o conhecimento válido é branco e universal. Ao romper com esse silêncio por meio da escuta, da escrita afetiva e da dramatização, os participantes puderam se reconhecer e se posicionar frente às estruturas raciais que atravessam suas histórias, tornando a experiência do bibliodrama também um gesto de descolonização simbólica.

Ao experienciar narrativas atravessadas pelo racismo e ocupar corporalmente lugares de exclusão ou privilégio, os participantes não apenas “aprendem sobre” o racismo; eles o sentem, reagem, ressignificam. Isso torna a prática profundamente política, como propõe Freire ao afirmar que toda educação é, em si, um ato político. O letramento racial, portanto, ultrapassa o campo da instrução e se torna uma experiência de transformação, como explica Freire (2007). Ensinar ultrapassa a mera transferência de conhecimentos; é um ato de partilha, diálogo e construção conjunta do saber.

Ao final das leituras e músicas, o grupo foi convidado a realizar uma escrita afetiva, registrando livremente o que os textos e canções haviam despertado em sua memória e emoção. Essa proposta foi inspirada na abordagem de Ana Holanda (2022), que defende a escrita como ferramenta de autoconhecimento e conexão com a própria história. Para a autora, a escrita afetuosa é uma forma de acolher o que sentimos e dar nome às nossas experiências.

A escrita afetuosa percorre nossas caixas internas, nossos medos, desejos, anseios e depois ganha o mundo, encontra o outro e o toca, marca, afeta. A autora propõe que o ato de escrever, quando feito com escuta interna e sensibilidade, permite acessar verdades que nem sempre vêm à tona na fala. Ao escrever, muitos participantes se depararam com lembranças até então silenciadas, como dores familiares, experiências de exclusão e sentimentos de não pertencimento.

Após a escrita, os participantes foram convidados a escolher uma imagem entre diversas cartas, imagens do jogo Dixit e da artista plástica Manuela Navas, dispostas no centro da roda. A escolha foi feita de forma intuitiva, buscando aquela imagem que melhor representasse o conteúdo emocional da escrita realizada.

Em pequenos grupos os participantes compartilharam seus textos e suas imagens, permitindo que novas ressonâncias surgissem. Em seguida, cada grupo foi convidado a construir uma cena dramatizada a partir das narrativas compartilhadas. As cenas criadas foram intensas e simbólicas:

  • Um grupo encenou uma mulher negra silenciada numa reunião de trabalho, que encontra força ao se reconectar com suas raízes ancestrais para expressar sua voz.

    Na cena as participantes, Y e W, formaram uma escultura corporal em dupla. Y posicionou-se de costas para W, cobrindo a boca com a mão, enquanto W levantou as duas mãos para o alto, em gesto expressivo. Foi solicitada a inversão de papéis, para que experimentassem a sensação de cada posição. Ambas relataram que ocupar o lugar com a boca tampada era bastante desconfortável e desagradável, evidenciando a dificuldade associada à limitação da fala e expressão.

    A construção dessa escultura revela não apenas o impacto do racismo, mas também a sobreposição de outras formas de opressão, como o machismo e o classismo. Essa articulação pode ser compreendida à luz do conceito de interseccionalidade, formulado por Kimberlé Crenshaw (Akotirene, 2020), que aponta como raça, gênero, classe e outros marcadores sociais se cruzam na constituição das experiências subjetivas. Nesse caso, a figura da mulher negra emerge como símbolo de resistência e, ao mesmo tempo, como expressão de múltiplas exclusões historicamente vividas.

  • Outro grupo representou uma família que, ao revisitar fotografias antigas, confronta-se com o apagamento da história de seus ascendentes negros. Na cena desse grupo o foco foram as cartas escritas pela emoção emergente da escuta dos textos.

    No centro do palco, F sentou-se em silêncio, sustentando a presença do grupo. J, com voz firme, leu duas cartas. X aproximou-se e leu sua carta quase ao lado de F, enquanto V, num gesto de acolhimento, sentou-se com ela em seu colo para ler outra. O momento foi permeado por uma atmosfera de escuta e intimidade, até que F, em solilóquio, disse pausadamente: “Me sinto desculpada”. O grupo permaneceu em silêncio por instantes, como se aquela frase tivesse pousado no ar, convidando todos a partilhar de sua força.

    Essa cena faz referência ao que Gonzalez (2020), Munanga (2007), Akotirene (2020), Davis (2016), Ribeiro (2019) e tantas outras chamam de invisibilidade ou apagamento da contribuição dos negros na história do país. As relações foram moldadas a partir de um processo de desvalorização e minimização das contribuições e das pessoas negras. No caso da cena apresentada, o racismo em famílias inter-raciais envolve questões complexas como a reprodução de estereótipos e negação da identidade racial. Carneiro (2020) aponta que o racismo pode se manifestar de forma velada, mesmo em espaços que deveriam ser de acolhimento e pertencimento, como o ambiente familiar.

    Para Kilomba (2019), a reflexão sobre o racismo deve ser constante dentro dessas famílias, e é necessário um trabalho consciente de desconstrução de privilégios e promoção da aceitação plena da identidade racial. Essa cena, portanto, ao escancarar o apagamento histórico de ascendentes negros dentro de uma família, proporcionou não apenas um momento de reconhecimento e crítica, mas também uma importante oportunidade de letramento racial para todas as pessoas presentes na vivência.

    Como destaca Severo (2021), o letramento racial abrange o desenvolvimento da consciência crítica sobre as estruturas de poder e a construção de narrativas que rompam com o silêncio e a naturalização do racismo. Nesse sentido, a cena funcionou como um disparador potente de reflexão coletiva, permitindo que o grupo identificasse as formas sutis e explícitas de racismo que atravessam os vínculos afetivos e familiares. Ao tornar visível o que tantas vezes é silenciado, a dramatização abriu espaço para a escuta, o incômodo e a elaboração, elementos essenciais para processos educativos antirracistas.

  • Um terceiro grupo mostrou personagens inicialmente distantes que, ao reconhecerem dores comuns, transformaram o sofrimento em solidariedade e ação coletiva. Os participantes O, C, A e P foram convidados a interagir com uma mala simbólica que estava no centro do palco. Um a um, retiravam objetos que representavam diferentes sentimentos ou vivências. “A” selecionava coisas boas, segurando-a com cuidado e aproximando-a de si, como se incorporasse aquela energia positiva. O e C, com gestos decididos, tiravam os elementos negativos e os lançavam para fora, simbolizando o descarte do que já não lhes servia. P não participou da cena, relatando que se sentia muito impactada emocionalmente naquele momento.

    A cena ganhou um momento de comunhão quando C sugeriu que todos os grupos fizessem juntos o movimento de retirar algo da mala. Esse convite gerou uma sensação de unidade e pertencimento que culminou em uma celebração coletiva, na qual todos se alegraram em conexão com o mundo e entre si.

    Essa cena trouxe forte a discussão apresentada por bell hooks (2023), no livro Irmãs do Inhame, sobre a irmandade entre mulheres negras como uma força vital nos processos de reconciliação e autorrecuperação. A autora propõe que a cura não é um processo individualizado, mas acontece na coletividade, no compartilhamento das dores e na escuta mútua entre irmãs que se reconhecem em suas lutas.

    A reconciliação, nesse contexto, não é submissa nem acrítica, mas sim um gesto de liberdade, que envolve um olhar empático, amoroso e politicamente comprometido com o cuidado. Assim, a irmandade torna-se território de reconstrução subjetiva, em que o vínculo entre mulheres atua como potência afetiva e política de transformação.

    O compartilhar, que se seguiu às dramatizações, foi marcado por emoção e escuta sensível. Muitos participantes expressaram surpresa com a intensidade da experiência. O participante O disse: “Nunca tinha falado sobre como o racismo me atravessou na infância; achava que não tinha me afetado, mas hoje percebo que está aqui, no meu corpo”. A participante F comentou: “A cena que criamos me fez ver que não estou sozinha. Outras pessoas sentem essa dor, mas também podem, juntas, transformá-la”.

    A escuta das histórias dramatizadas evidenciou não só a dor provocada pelo racismo, mas também como ele se entrelaça a outras dimensões da vida social. Ao considerar essas camadas múltiplas de opressão, como as que afetam especialmente mulheres negras, pessoas LGBTQIAPN+ ou moradores de periferias, é possível perceber a relevância de uma abordagem interseccional no processo de letramento racial. A interseccionalidade, nesse contexto, amplia a compreensão do sofrimento e aponta caminhos mais inclusivos de transformação.

    Severo (2021), ao propor o letramento racial como uma prática transformadora, aproxima esse processo das “técnicas de si” formuladas por Michel Foucault, exercícios de subjetivação que permitem ao sujeito se ver no mundo e refletir criticamente sobre os efeitos da racialização em sua trajetória. Nesse sentido, o bibliodrama revela-se uma ferramenta potente, pois mobiliza corpo, palavra, emoção e coletivo em uma vivência sensível e crítica. Ao dramatizar vivências e abrir espaço para o simbólico, contribui para desnaturalizar discursos racistas e fomentar modos de existência mais conscientes, engajados e comprometidos com a justiça racial.

    Importa destacar que o letramento racial, para ser de fato transformador, precisa dialogar com a complexidade das experiências humanas. Nesse sentido, a interseccionalidade de gênero oferece uma lente potente para compreender como o racismo atua de maneira diferenciada a depender de marcadores como gênero, classe, sexualidade e território. Incluir essa perspectiva amplia a potência do trabalho com o bibliodrama, pois permite acolher as múltiplas vozes que compõem o tecido social e que, muitas vezes, são silenciadas pelas abordagens únicas ou generalizantes.

    Segundo Malaquias et al. (2020), ampliar a consciência social e crítica potencializa a prática sociopsicoterapêutica no enfrentamento das relações de poder e na redução do preconceito, da discriminação e da exclusão vividos pela população negra, evidenciando a necessidade de ações contínuas para minimizar as diversas formas de violência que a atingem.

    A vivência foi encerrada com a música Cordeiro de Nanã, em um ritual coletivo de acolhimento e respeito às histórias partilhadas. Essa prática de fechamento reforçou a ideia de que o cuidado coletivo é também um ato político e de resistência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A vivência de bibliodrama realizada no contexto da Profint revelou-se uma experiência profundamente mobilizadora no processo de letramento racial. Mais do que promover reflexão, a atividade favoreceu a sensibilização do grupo e despertou respostas criativas frente às marcas das opressões étnico-raciais, acessando tanto a memória quanto o imaginário coletivo dos participantes.

O relato apresentado evidencia que o bibliodrama, ao articular literatura, música, escrita afetiva e dramatização, constitui um espaço potente de escuta profunda, expressão simbólica e elaboração compartilhada. Nesse cenário, experiências silenciadas encontraram voz, e o grupo pôde construir, de forma espontânea e colaborativa, cenas que desnaturalizaram discursos racistas e provocaram deslocamentos subjetivos importantes.

A escolha do tema para a vivência revelou-se especialmente significativa para o grupo, uma vez que os temas abordados atravessavam as experiências e os desafios vivenciados pelos participantes. Trabalhar o conteúdo em conjunto possibilitou um espaço de reflexão profunda e compartilhada, permitindo que questões pessoais e coletivas emergissem de forma sensível e integrada ao processo terapêutico grupal.

Entendemos que práticas como esta devem ser ampliadas e valorizadas em contextos tanto formativos quanto terapêuticos, pois fortalecem processos de conscientização e transformação social. O bibliodrama se apresenta, assim, não apenas como uma metodologia expressiva, mas como uma ferramenta ética e política que convida ao compromisso com a escuta, com o outro e com a mudança.

Nesse sentido, podemos afirmar que a vivência contribuiu para o exercício de uma racionalidade emancipatória, ao articular teoria e prática de forma crítica, dialógica e sensível. Trata-se da construção de sujeitos conscientes de sua história, de seus atravessamentos e de seu papel na transformação do mundo em que vivem.

Reconhecer o pacto narcísico da branquitude, como discute Vomero (2022), e investir na construção de relações télicas é passo essencial para promover experiências autênticas de identificação e reparação do racismo. Foi nessa perspectiva que as psicólogas diretoras desta vivência, a partir do reconhecimento de seus próprios privilégios e do aprofundamento nos estudos raciais, estruturaram a proposta e conduziram as cenas, reafirmando o compromisso ético e político de transformar relações e realidades.

AGRADECIMENTOS

Não se aplica.

FINANCIAMENTONão se aplica.

1Segundo Cida Bento (2022), o termo “branquitude” se refere à estrutura de poder racializada que molda oportunidades, identidades e lugares sociais. Segundo a autora, as pessoas brancas, ainda que inconscientemente, se beneficiam de um sistema que lhes dá vantagens desde o nascimento.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Não se aplica.

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Recebido: 09 de Julho de 2025; Aceito: 21 de Agosto de 2025

* Autora correspondente: laruseas@hotmail.com

Editor de seção:

Érico Douglas Vieira https://orcid.org/0000-0002-9845-2245

CONFLITO DE INTERESSE

Nada a declarar.

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