INTRODUÇÃO
Iniciamos este artigo tomando como base as considerações da professora Ynaê Lopes dos Santos (2022) sobre a formação do povo brasileiro a partir de uma perspectiva eurocêntrica, pois foram os portugueses que iniciaram a colonização no Brasil, primeiro colonizando os povos originários no século 16. Historicamente, em 22 de abril de 1500 aqui chegaram como descobridores (exploradores e invasores os definem melhor!), para explorar e tomar posse das ricas terras do pau-brasil.
Os nativos habitantes da América foram denominados de índios, pois os europeus acreditavam ter chegado à Índia. Estas sociedades não tiveram suas práticas culturais, políticas, sociais e econômicas consideradas e respeitadas. Essa história ficou escondida por trás da colonização exploratória e violenta.
Conforme Francisco (2020), a chegada invasiva dos europeus e o contato com esses povos originários resultou em um olhar distorcido sobre sua cultura e seus comportamentos estranhos e desconhecidos pela raça branca.
Somos seres humanos; nossas histórias e trajetórias não podem ser esquecidas, precisam ser resgatadas para ressignificação e valorização do lugar que ocupamos na sociedade. Os negros e indígenas são os que mais sofrem com a escolha deliberada desse esquecimento, com a desqualificação de povos, o extermínio de etnias e a não demarcação de suas terras
Dessa forma, tratar sobre letramento racial nesse país é sobretudo conhecer nossa história – que já se inicia com a predominância da supremacia branca, pois os portugueses já traficavam africanos para escravizá-los em Lisboa. Em 1495 já constituíam 10% da população lisboeta (Santos, 2022) e possuíamknow-how em escravizar pessoas.
Pois bem, além de escravizar os povos originários, foi muito fácil para eles trazerem para o Brasil africanos para escravizá-los também. A narrativa racista diz que os próprios africanos escravizavam os seus, no entanto essa é mais uma história forjada para que a branquitude mantenha seu espaço de dominação e privilégios políticos e econômicos, conforme a autora nos indica:
Assim como aconteceu na Europa, na Ásia, nas Américas e na Oceania, era frequente no continente africano que povos vizinhos entrassem em conflito. Em inúmeras situações, o resultado desses embates bélicos era a captura de cativos de guerra, que seriam escravizados. Desse modo, é possível dizer que a escravidão era uma instituição que existia em muitas sociedades africanas antes mesmo do contato com europeus e muçulmanos. No entanto, tinha contornos diferentes do que a economia mercantilista organizada a partir de meados do século XV. Isso quer dizer que os africanos escravizavam seus irmãos? Não. Essa é uma pergunta leviana e, no limite, racista
A história nos mostra que não havia relação mercantilista entre as pessoas escravizadas na África. No entanto, algumas chefaturas africanas começaram a vender seus escravizados para obtenção de poder dentro da sociedade que comandavam, como forma de se livrarem dos conflitos internos, pois muitos cativos eram guerreiros de sociedades inimigas. O comércio de pessoas ficou como um negócio lucrativo e vantajoso para os portugueses, inclusive com apoio da Igreja Católica, onde nela encontraram salvaguarda para a sua legalização (Santos, 2019).
Depois, traficaram os africanos no século 18. Essa última colonização, melhor denominada como diáspora, trouxe consigo pessoas com uma outra cultura exercendo influências e transformações não apenas na demografia brasileira, mas na história de um povo que se constituiu a partir de um “[...] esquema étnico-racial delineado e hierarquizado, no qual a religião professada e a cor da pele eram critérios taxonômicos importantes” (Santos, 2022, p. 30).
O Brasil Colônia, marcado pela dominação portuguesa, dinamizou o tráfico de pessoas africanas para o Nordeste do país movido pela produção da cana-de-açúcar naquela região; assim, juntamente aos indígenas, realizavam trabalho forçado tanto na lavoura quanto na produção do açúcar para exportação, gerando lucro e enriquecimento da coroa portuguesa.
Santos (2022) discute sobre a abolição da escravidão de forma crítica, pois o fim formal da escravidão em 1888 através da chamada Lei Áurea deixou as pessoas em total desamparo, sem políticas públicas de reparação ou inclusão social dos ex-escravizados. Aí está um dos marcos que sustentam o chamado mito da democracia racial, ou seja, a falsa ideia de igualdade após a abolição. Isso só reforça e revela um país construído e estruturado pelo racismo. A ausência de ações de reparação e inclusão levou à marginalização sistemática da população negra.
A escravidão foi um pilar econômico fundamental, sobretudo no Nordeste e depois no Sudeste, e a construção do imaginário da superioridade branca e inferioridade negra foi usada para justificar a exploração. A abolição, portanto, não significou liberdade plena, mas sim a permanência de estruturas de exclusão racial e sedimentação da relação colonizador-colonizado, conforme discute o filósofo quilombola Antônio Bispo dos Santos (2015), o Nego Bispo:
Vamos compreender por colonização todos os processos etnocêntricos de invasão, expropriação, etnocídio, subjugação e até de substituição de uma cultura pela outra, independentemente do território físico geográfico em que essa cultura se encontra. E vamos compreender por contra colonização todos os processos de resistência e de luta em defesa dos territórios dos povos contra colonizadores, os símbolos, as significações e os modos de vida praticados nesses territórios. Assim sendo, vamos tratar os povos que vieram da África e os povos originários das Américas nas mesmas condições, isto é, independentemente das suas especificidades e particularidades no processo de escravização, os chamaremos de contra colonizadores. O mesmo faremos com os povos que vieram da Europa, independentemente de serem senhores ou colonos, os trataremos como colonizadores
E Oliveira (2022, p. 4) complementa nos dizendo que “[...] a escravidão foi um regime legitimado e natural. O Brasil se constituiu tendo como base esse regime, impactando de forma intensa as relações em nossa sociedade. Portanto, temos em nossa matriz a marca da violência, opressão e subjugação”.
Com o transcorrer dos séculos, outras populações da Europa chegaram ao Brasil através da promoção de políticas de imigração europeia com o intuito de branqueamento populacional. Sabemos que o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão e, talvez por isso, atualmente é o campeão em desigualdade social, com a prática de um racismo silencioso, perverso e estruturado.
Seyferth (2002) analisa como a ideia de raça influenciou fundamentalmente a política de colonização brasileira desde 1818, demonstrando que a questão racial estava subjacente aos projetos imigrantistas antes mesmo de a palavra raça integrar o vocabulário científico nacional. A autora evidencia que o pressuposto da superioridade branca serviu como argumento justificativo para um modelo de colonização baseado na pequena propriedade familiar com imigrantes europeus, distinto da grande propriedade escravista.
A política de colonização europeia privilegiou sistematicamente correntes imigratórias brancas, especialmente alemãs e italianas, direcionadas para a região Sul do país, onde foram estabelecidas colônias etnicamente homogêneas. A legislação imigratória, embora raramente explicitasse critérios raciais, os subsumia no conceito de imigração europeia, excluindo sistematicamente africanos e asiáticos do projeto colonizador.
Seyferth ainda demonstra que, com a Proclamação da República, intensificou-se o debate sobre a miscigenação, configurando um nacionalismo étnico que subordina a nacionalidade à raça. O mito do branqueamento racial emergiu como solução para a questão racial brasileira, propondo que a imigração europeia conduziria ao clareamento gradual da população através da miscigenação seletiva.
Portanto, a alma do Brasil se apresenta em cores variadas e diversos costumes, fazendo da mestiçagem a nossa representação nacional. E essa mistura de etnias e cores se consolidou, muitas das vezes, através de práticas violentas e forçadas, gerando também uniões, ritmos, artes, esportes, aromas, culinárias e literaturas mistas. A alma mestiça do Brasil é o resultado da mistura entre ameríndios, africanos e europeus que desde o início das colonizações foi construída por meio de práticas discriminatórias que se estendem até os dias atuais, como nos esclarece Schwarcz e Starling (2015, p. 15):
Marca forte e renitente, a herança da escravidão condiciona até nossa cultura, e a nação se define a partir de uma linguagem pautada em cores sociais. Nós nos classificamos em tons e meios tons, e até hoje sabemos que quem enriquece, quase sempre, embranquece, sendo o contrário também verdadeiro.
Um estudo recente sobre a miscigenação em nosso país, liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP), analisou o genoma de todas as regiões do Brasil. Os resultados foram publicados na revista Science nesse ano de 2025 (Fig.1).
O estudo representado na imagem acima demonstra que a miscigenação do nosso povo tem raízes na história evolutiva das comunidades indígenas, bem como na complexa interação demográfica que resultou da imigração histórica tanto forçada – pessoas escravizadas e refugiadas – quanto voluntária.
Observando o mapa acima, ressaltamos a predominância da migração europeia nas regiões Sul e Sudeste, enquanto a africana se concentra na região Nordeste. O relato de nossa experiência se refere às diferenças que encontramos nas duas vivências em ambas as regiões.
DESENVOLVIMENTO
Nossa primeira vivência online aconteceu no 14º Congresso Iberoamericano de Psicodrama, realizado no período de 27 a 30 de setembro de 2023 na cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina, região Sul do Brasil. O evento aconteceu tanto na modalidade presencial quanto online (Plataforma Zoom Meet), com algumas atividades híbridas, dentre elas rodas de conversas, muitos trabalhos e vivências, realizados em espanhol e português. Com o tema “O que passa na Ponte” – caminhos que se cruzaram nos possíveis encontros entre psicodramatistas de diversos países –, estiveram presentes no evento participantes de países da América Latina e Península Ibérica.
A segunda vivência também aconteceu online (Plataforma Google Meet), na 2ª edição da 16ª Jornada de Psicodrama da Profissionais Integrados (Profint), que foi realizada em modo semipresencial nos dias 2 e 3 de agosto de 2024. A Profint é uma das federadas da Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap) em Aracaju, capital de Sergipe, região Nordeste brasileira. Ela promove jornadas de psicodrama periodicamente, com atividades diversas como trabalhos científicos, rodas de conversa e vivências.
Com estas duas vivências em duas regiões do país, com ressonâncias distintas, como psicodramatistas e integrantes de um grupo de estudos sobre relações raciais, fomos levadas a pesquisar para compreender essas diferenças. E nisso encontramos respostas convincentes de como o nosso país foi formado.
Ao analisarmos a sociedade brasileira, recorremos a Guerreiro Ramos, citado em artigo de Oliveira (2025), que afirma que é necessário considerarmos o antirracismo e uma visão crítica nessa análise a partir de nossa história de construção étnico-racial e social. Para Ramos, a desigualdade brasileira só será resolvida quando a patologia das pessoas brancas for considerada, integrada e tratada nos seus lugares de privilégio, com a devida tomada de consciência de sua racialidade, ou seja, a branquitude.
A questão racial estava subjacente aos projetos imigrantistas desde 1818… desde então a imigração passou a ser representada como um amplo processo civilizatório e forma mais racional de ocupação das terras devolutas. O pressuposto da superioridade branca, como argumento justificativo para um modelo de colonização com pequena propriedade familiar baseado na vinda de imigrantes europeus – portanto distinto da grande propriedade escravista – foi construído mais objetivamente a partir de meados do século XIX… num contexto de povoamento em que os imigrantes alemães aparecem como antítese da brasilidade
Daniel Russell Oliveira (2025) apresenta uma proposta prática para utilizar o psicodrama no combate ao racismo. Refere Alberto Guerreiro Ramos e o Teatro Experimental do Negro com uma metodologia vivencial que vai além da simples discussão intelectual sobre o tema. O autor demonstra como o psicodrama pode ser uma ferramenta poderosa para a transformação social, permitindo que os participantes não apenas compreendam cognitivamente os impactos do racismo, mas que os vivenciem emocionalmente através do psicodrama. Isso facilita a expressão e transformação de atitudes e comportamentos. Daniel Russell, ainda, posiciona a luta antirracista como uma responsabilidade coletiva, utilizando o psicodrama para despertar essa consciência em todos os participantes, independentemente de sua origem racial. Segue-se então a nossa experiência com dois sociodramas:
Apresentação
Nos apresentamos nos papéis de diretora e ego auxiliar, relatando brevemente nossas diferentes trajetórias no letramento racial e nosso processo de racialização como integrantes do Grupo de Estudos e Relações Raciais coordenado pela psicodramatista Maria Célia Malaquias. Uma das autoras se apresenta como mulher cis-hétero e branca, embora tenha uma ancestralidade indígena longínqua e muito pouco identificada no seu próprio contexto intrafamiliar, onde há somente uma transmissão oral com pouca precisão. A outra autora se apresenta como mulher cis-hétero, parda, com ancestralidade negra, indígena e portuguesa identificadas no contexto intrafamiliar. Ambas as autoras fazem parte do mesmo grupo de estudos há mais de quatro anos no Quilombo Malaquias. Enfatizamos nossa disposição de compartilhar dessa experiência do nosso aprendizado como forma de resistência ao racismo e aos absurdos que foram naturalizados no mundo, nos relacionamentos, e que causam sofrimento psíquico nas pessoas, promovendo a desigualdade e a injustiça entre os seres humanos.
Aquecimento inespecífico
O aquecimento inespecífico foi conduzido por uma das autoras psicodramatista e com formação internacional em Análise Bioenergética: as pessoas participantes experimentaram uma classe de exercícios corporais originados da Análise Bioenergética de Alexander e Leslie Lowen (1985): centramento, desbloqueio dos anéis, respiração e grounding, além de exercícios polivagais para segurança e conexão de Deb Dana (2023), baseado na Teoria Polivagal de Stephen Porges (2023). O objetivo desses exercícios foi promover segurança, conexão e confiança entre os participantes para lidar com um tema tão sensível.
Aquecimento específico
As pessoas participantes receberam a seguinte consigna da diretora: “Para que esta vivência aconteça, as câmeras devem permanecer abertas. Ao ouvir as frases ditas pela ego auxiliar, fechem as câmeras se nunca tiverem ouvido ou visto alguém dizê-las; e quem já viveu ou ouviu as frases permaneça com a câmera aberta”.
A ego auxiliar abriu a sua câmera caracterizada do possível personagem requerido pela frase racista ouvida de forma recorrente por pessoas que sofrem racismo, e após cada frase dita pela ego auxiliar em cena, a diretora repetia a consigna.
A seguir, a descrição das frases e da atuação:
Meu filho, não saia sem o documento de identidade para não ser confundido com um ladrão.
Posso colocar a mão no seu cabelo?
Sabia que meu cabelo é ruim igual ao seu? Eu tenho vergonha… por isso eu escondo o cabelo assim. Ou então eu aliso, assim.
Não quero brincar com você. Você é feio porque é preto.
Você tem um pé na Senzala ou na cozinha?
Meu filho, estude porque você sendo preto as coisas podem ficar mais difíceis para você.
Você é uma branca encardida!
Como você lava seu cabelo? A água entra?
Seu macaco!
Seu cabelo é igual o da Medusa.
Não se meta em briga na rua porque podem te confundir com um marginal.
Não saia de casa de chinelo para não ser confundido com vagabundo.
Eita neguinha gostosa, da cor do pecado!
Ela é bonitinha, mas a pele é encardida e o cabelo, ruinzinho.
Esse cabelo de balaio não puxou à nossa família.
Cenas de ação online
A ego auxiliar, seguindo as consignas da diretora, abria sua câmera caracterizada ora como uma pessoa negra – usando um turbante na cabeça –, ora como pessoa branca – deixando seus cabelos lisos soltos –, a depender do significado de cada frase proferida, alternando o abrir e fechar de sua câmera entre uma frase e outra.
A mãe negra cuidava de seus filhos dizendo frases para protegê-los de atitudes racistas, enquanto a pessoa branca conversava com pessoa(s) negra(s) de forma preconceituosa. O plural entre parênteses nessa última frase se deve ao fato de que na vivência sudestina (no Congresso Iberoamericano) havia somente uma pessoa negra numa plateia de 12 pessoas. Já na vivência nordestina (Jornada da Profint), a plateia, em torno de 25 participantes, era majoritariamente composta de pessoas pardas e pretas.
As frases ditas, uma de cada vez, eram diferentes e intercaladas pelas duas personagens representadas pela ego auxiliar, conforme descrito anteriormente.
Compartilhamento
Na região Nordeste as pessoas compartilharam seus sentimentos e relembraram cenas em que já sofreram, praticaram ou viram alguém sofrer racismo.
A cada ação, a raiva era o sentimento mais óbvio. A diretora utilizou como recurso interventivo as cenas curtas originadas do relato das pessoas que iam se colocando como disponíveis para dramatizar: foi solicitado que cada participante dissesse o que não foi dito nas cenas curtas narradas. Eram sentimentos de raiva e vergonha.
Com o público de maioria parda e preta na experiência da região Nordeste, a ego auxiliar ficou muito sensibilizada e sentia vergonha de proferir frases racistas e discriminatórias naquela função. Segundo ela, seu desconforto aumentava a cada cena, a angústia apertava seu peito a cada frase que dizia, até que a vergonha se apoderou dela nessa fase de compartilhamento. Vendo e ouvindo pessoas negras (pretas e pardas) falarem sobre o sofrimento pelo qual passavam antes de se racializarem, o choro foi incontrolável. Ela precisava compartilhar sua vergonha como mulher branca em seu lugar de privilégio. Ao final da experiência, ela pediu desculpas em nome da branquitude pelo que foi feito ao longo dos anos e da história. Por meio de piadas com frases racistas, zombaria e indignidade de pessoas negras, estamos imersos em uma cultura discriminatória, violenta, preconceituosa e supremacista, após mais de três séculos de escravidão. Um horror de crueldade!
Durante a troca houve um clima de grande emoção, e após as cenas as pessoas expressaram vários sentimentos, como alívio por ter dito o que não foi dito na hora do acontecido na vida real, vergonha, raiva e indignação.
Já na experiência das regiões Sul e Sudeste o compartilhamento foi bem diferente: a carga emocional foi diferente, pois havia somente uma pessoa negra presente. Como a plateia era majoritariamente de pessoas brancas, o clima predominante era de surpresa e estupefação, vergonha e tristeza. Não houve cenas, pois as pessoas brancas estavam muito emocionadas; compartilharam seus sentimentos ao perceberem-se racistas e ao verem que apenas uma permanecia com a câmera aberta (a única pessoa preta presente). Surpresas, as pessoas brancas nos pediram referências, indicações de leituras e grupos de estudos para um melhor letramento racial. Muita gente sequer tinha a ideia de tamanho preconceito e racismo estruturado, inclusive entre nós, psicodramatistas. A única pessoa negra presente compartilhou a sua experiência de humilhações que sofreu e também do alívio de poder compartilhar e contribuir para que pessoas brancas tomem consciência do racismo estrutural. Esta participante não encontrou ressonância entre seus pares de plateia (branquitude), que apesar de comovidos nunca haviam experimentado e nem se dado conta do que vivem as pessoas pretas e pardas.
A experiência terminou deixando em nós – unidade funcional – um sentimento de gratificação que nos encoraja a continuar enfrentando o racismo e seus absurdos através do psicodrama/sociodrama como uma poderosa ferramenta de resistência.
Em um país gigante, essas duas culturas distintas foram expressas nos sociodramas, a partir de sentimentos e emoções atravessados pela nossa história, marcada pelo eurocentrismo do homem universal desde que fomos invadidos pelos portugueses que se apropriaram das nossas terras. Esses colonizadores exterminaram nossos povos originários e escravizaram povos da África que foram sequestrados e trazidos por imigração forçada para nosso país e, junto com os indígenas, submetidos aos brancos europeus, com as chancelas concedidas à branquitude europeia. Vieram pessoas de outros países da Europa para o nosso país, colonizando o Sul e Sudeste.
Malaquias ressalta que, para Jacob Levy Moreno, o sociodrama é método fundamental para tratar de fatores coletivos. Os participantes da vivência, conectados online, “organizados pelos seus papéis sociais e culturais” (Malaquias, 2020, p. 67), compõem o grupo de sujeitos que compartilham o tema coletivo proposto e que devem ser colocados no palco para resolver seus conflitos, pois no sociodrama o grupo equivale ao indivíduo.
Nas duas vivências o palco se localizava na casa de cada participante; a internet era apenas o meio de conexão, e os temas específicos para cada grupo em cada região do nosso país destacaram os fatores culturais, históricos e sociais próprios.
Citando Moreno, Malaquias (2020) reforça que o sociodrama deve buscar métodos de ação profunda considerando sempre a cultura dos grupos, reconhecendo que o homem é um intérprete de papéis e que os papéis são constituídos de elementos privados (subjetividade) e coletivos (culturais). Portanto, a cultura impõe-se aos indivíduos constituídos por ela, conforme nos explica.
Para o estudo das inter-relações culturais, o procedimento sociodramático é idealmente adequado, especialmente quando duas culturas coexistem em proximidade física e seus membros se encontram, respectivamente, num processo contínuo de interação e permuta de valores. São exemplos a situação negro-branco, índio americano-branco e todas as minorias culturais e raciais dos Estados Unidos
A referida autora segue, ainda com base em Moreno, ressaltando que no sociodrama, onde um grupo vai experimentar um problema social permanente, abrem-se portas para uma terapêutica social na qual egos auxiliares e diretor devem possibilitar a expressão dos participantes, apontando a necessidade de planejar com cuidado para que a equipe (unidade funcional) seja devidamente preparada para lidar de forma ética e cuidadosa com as temáticas protagônicas emergentes – propondo o preparo de quem vai lidar com temáticas raciais, ou seja, o letramento racial dos psicodramatistas. Esse letramento não deve ser reduzido apenas a leituras e cursos sobre o racismo, mas é necessário que essa temática possa atravessar a subjetividade do sujeito, de maneira que este se torne capaz de ampliar a sua visão do mundo e manejar o psicodrama a serviço da verdade dos grupos, considerando sempre a sua soberania e a livre expressão da espontaneidade criadora para transformação de uma sociedade na qual o universalismo branco impera.
Vomero (2022) apresenta uma crítica necessária ao movimento psicodramático brasileiro propondo uma decolonização urgente da teoria e prática e a desconstrução do universalismo do homem universal (branco, cisgênero, heterossexual, cristão) que tem servido como padrão nas formações e práticas psicodramáticas. A autora ressalta o psicodramatista como um agente que deve reconhecer e abandonar seus privilégios de branquitude; questionar constantemente sua prática; evitar a neutralidade alienante; e trabalhar ativamente para decolonizar, ou melhor, contracolonizar, conforme Nego Bispo, tanto os conceitos quanto a prática psicodramática, promovendo um reconhecimento verdadeiro do eu e do tu que transcenda as armadilhas coloniais e racistas (Santos, 2015).
CONCLUSÃO
As vivências sociodramáticas online realizadas nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil revelaram como as diferenças sócio-históricas regionais se manifestam de forma diversa nas experiências sobre questões étnico-raciais. A metodologia sociodramática, aplicada em contextos digitais, demonstrou sua potência como ferramenta de transformação social, permitindo que a diversidade cultural e histórica de cada região emergisse de maneira autêntica e transformadora. A internet funcionou como ponte de conexão, enquanto o palco de cada participante trouxe intimidade e segurança necessárias para o trabalho com uma temática tão sensível.
A diferença observada entre as duas experiências – o impacto emocional no Nordeste, com pessoas participantes majoritariamente negras, contrastando com a surpresa e busca por conhecimento no Sul/Sudeste, com público predominantemente branco – coloca em evidência como a formação étnico-racial brasileira continua reverberando nos corpos, afetos e nas memórias das pessoas. Essas diferenças não são casuais, mas reflexo direto dos processos históricos distintos que moldaram cada região: por um lado, a concentração de africanos escravizados no Nordeste açucareiro; por outro, a política de branqueamento através da imigração europeia no Sul e no Sudeste.
O nosso grande mestre Moreno (1993), em sua análise do sociodrama protocolado sob o título O problema Negro-Branco, sobre o princípio de identidade, destaca que é necessário ficarmos mais familiarizados com o verdadeiro papel vital no sentido psicodramático do termo. Precisamos viver e elaborar esses papéis étnico-sociais enquanto pessoas negras e brancas nos palcos da vida.
Nossa experiência revela que as práticas psicodramáticas brasileiras, como metodologia, nos possibilitam a expressão da diversidade étnico-racial como fundamento para uma prática de combate ao racismo e, ainda, como meio de despertar o letramento racial nesse grande Brasil tão diverso. Para que essa prática seja efetiva na luta antirracista, o letramento racial dos psicodramatistas não deve ser apenas competência técnica, mas sim compromisso pessoal diário com seus semelhantes e, também, um compromisso ético fundamental para uma sociedade mais justa e igualitária.















