Dia 17 de outubro de 2008. Uma jovem de 15 anos é assassinada após passar mais de 4 dias em cárcere privado por seu ex-namorado que não aceitara o término do relacionamento (Boechat, 2026). O nome dela: Eloá Cristina Pimentel. Dezessete anos depois, Patrícia Gonçalves, de 42 anos, é morta a tesouradas e pauladas pelo marido na presença do filho de 5 anos de idade (Pilagallo, 2025). Um mês após esse feminicídio, outra mulher é assassinada com requintes de tortura e crueldade: arrastada pela Marginal Tietê até seu corpo não mais suportar. Tainara Souza Santos, de 31 anos, morreu na véspera do Natal de 2025 (Cruz & Stabile, 2025).
Ao findar do mesmo ano, duas servidoras, Allane de Souza e Layse Costa Pinheiro, também se tornam notícia por suas trágicas mortes: assassinadas por um colega de trabalho que recusava a chefia de mulheres (Grinberg & Gama, 2025).
O novo ano tem início e, em 2026, outras são vítimas de crimes horrendos: as mulheres trans Kemilly Bittencourt, assassinada violentamente e encontrada morta esquartejada em uma mata (Costa, 2026), e Alice Martins, cujo relato de seus pais gerou repercussões na mídia ao narrarem sobre como é perder uma filha com tanta brutalidade, revelam que a natureza misógina/machista estruturante da sociedade atinge qualquer prisma das mulheridades (Alcântara, 2026; Galera, 2025).
Este termo, cunhado por bell hooks (2019), aborda o ser mulher para além de uma questão atrelada a uma suposta natureza feminina e, ultrapassando noções biológicas, se ancora em questões interseccionais que abrangem múltiplas vivências e experiências de existências (Spaziani et al., 2024). Assim, ao pensarmos em um corpo vivo das mulheridades, apontamos um posicionamento que busca e reconhece a pluralidade de modos de habitar e ser no mundo.
Na potência desse conceito, por que começamos pelo peso do número que nos oprime e silencia, dessas mulheres e suas vidas dilaceradas? Globalmente, conforme relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), 137 mulheres são vítimas de feminicídio por dia no mundo (United Nations, 2025). O Brasil, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), ostenta a 5ª maior taxa de feminicídio do mundo, com 4,8 mortes para cada 100 mil mulheres. Segundo o Atlas da Violência (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [Ipea], 2025), nosso país atingiu um índice histórico recordista nesta última década: foram mais de 47 mil mulheres assassinadas.
Somente no 1º semestre de 2025 foram 718 feminicídios registrados no território brasileiro, além de 80 transfeminicídios no ano, o que significa mais de 4 mulheres mortas por dia por razões de gênero (Benevides, 2026; Procuradoria Especial da Mulher, 2025; Ramos, 2022). Neste ano, como forma de reconhecer e lutar contra a violência de gênero, temos a instituição do dia 17 de outubro, dia da morte de Eloá, como o Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio (Lei n.º 15.334, 2026).
É necessário sabermos desses nomes, dessas datas e dessas mulheres, e abrir este editorial com essa sombria realidade, pois é neste cenário de violência estrutural que a presença e a produção de conhecimento de mulheridades, especialmente no campo das ciências humanas e do psicodrama, assumem um papel de resistência. O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado no dia 11 de fevereiro pela ONU, nos lembra que a desigualdade de gênero e a violência patriarcal impactam também as produções científicas – conhecimentos que estabelecem o que é considerado realidade e que orientam decisões ético-políticas em escala global.
Apenas 33,7% dos pesquisadores no mundo são mulheres, de acordo com a pesquisa The Gender Gap da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 2024) que considerou dados de 95 países no período de 2018 a 2021, e as mulheres ocupam menos cargos de docência de ensino superior e de gestão acadêmica (Silva et al., 2021).
O efeito tesoura é um fenômeno internacional caracterizado pela sub-representação das mulheres nas ciências, o qual se agrava à medida que a carreira acadêmica avança (Silva et al., 2021). No Brasil, por exemplo, embora as mulheres sejam maioria nas bolsas de mestrado (54%) e doutorado (53%) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 2026), elas ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade, destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica (CNPq, 2024). Esse fenômeno é representado por um gráfico em formato de tesoura, não se limitando apenas a estatísticas, frias assim como a superfície da lâmina desse objeto cortante. A tesoura, arma utilizada em feminicídios como o de Patrícia e para simbolizar a desigualdade de gênero nas ciências, é o reflexo mais brutal de uma estrutura que nega a existência das mulheridades, começando pelo seu corpo e culminando na sua voz e capacidade de produzir conhecimento. Não há ciência que prospere onde a vida é negada.
Ao discorrer sobre vidas negadas, estamos falando não apenas das materialidades de corpos que são dilacerados em feminicídios e transfeminicídios, mas também do que é considerado como vida (Butler, 2015). Como escreve Conceição Evaristo (2021, p. 109): “eu sei que não morrer, nem sempre é viver”; mulheridades que não podem ser autoras de suas próprias existências, aprisionadas por normas e organizações patriarcais, não são reconhecidas como vidas vivíveis, mas como sujeitas precárias e violáveis, que não têm a possibilidade de contar as suas histórias e produzir conhecimentos sobre si próprias e o mundo. Não há separação entre vida e escrita, entre vida e produção de conhecimento (Anzaldúa, 2000); publicizar escritas e pesquisas das mulheridades é um ato de resistência ontológica e epistêmica.
Quando falamos de mulheres na pesquisa em psicodrama, nos remetemos à representação de Zerka Moreno como sendo o marco das mulheridades no que se refere ao ser feminino espontâneo, autêntico e criativo que não fica nos bastidores, mas vai à luta por um legado psicodramático que abriga as mulheres em suas diversidades (Berquó, 2025; Coelho, 2018). Contudo, por muito tempo, a perspectiva androcêntrica também predominou na história e na teoria psicodramática, majoritariamente reconhecida pela autoria de homens cis brancos.
O criador do psicodrama, Jacob Levy Moreno, em sua autobiografia, fez referências às “musas” que inspiraram a sua obra (Moreno, 1997). As musas, de acordo com a mitologia grega, são filhas de Zeus, fontes divinas de inspiração criativa, artística e científica (Mello, 2023). Apesar de Marianne Lornitzo, Gertrude Franchot, Florence Bridge, Grete Leutz e Zerka Toeman Moreno terem contribuído para a construção de ideias e conceitos psicodramáticos e para a sistematização e produção escrita da socionomia, elas são retratadas apenas como inspirações de produções intelectuais ao invés de autoras, produtoras de conhecimentos (Marineau, 1989).
Logo, o papel social de musa atribuído a mulheres contribui para a manutenção de uma lógica patriarcal, na qual as mulheres são frequentemente objetificadas, sexualizadas e desprovidas de autonomia autoral. Paradoxalmente, ao atribuir características de deusas – musas – a importantes mulheres autoras do psicodrama, simbolicamente parte de sua potência humana criativa é negada.
Entretanto, a metodologia socionômica, com sua ênfase na espontaneidade, na criatividade e na ação, é um solo fértil para a crítica feminista. Do Sul Global ecoam as vozes necessárias que rompem com a hegemonia eurocêntrica do saber. Pensadoras latino-americanas, como a peruana Virginia Vargas (2024) e a mexicana Sayak Valencia (2025), falam em “desobediência epistêmica” contra as hierarquias do conhecimento, construindo feminismos plurais baseados na busca pela autonomia e em categorias “sentipensantes” (Ribeiro, 2023). No Brasil, psicodramatistas têm articulado o psicodrama à crítica da conserva cultural patriarcal, revelando como as lógicas sociais opressoras se manifestam e se reproduzem nos papéis femininos como Maria da Penha Nery, Pettra Roque da Silva, Gabriela Vidal e Laura Vomero (Silva & Vomero, 2025; Vidal & Dias, 2023; Vomero & Nery, 2023, 2024).
No primeiro número da Revista Brasileira de Psicodrama (RBP), há mais de 35 anos, aproximadamente 70% dos autores eram nomeados por pronomes masculinos (Naffah et al., 1990). Já em 2025, um ano antes de a RBP ser qualificada com Qualis Capes A3, mais de 83% da autoria dos artigos publicados foi de pessoas que se nomeiam com pronomes femininos ou não binários. Além do aumento da representatividade na autoria de artigos, atualmente, a RBP tem mais de 72% do seu corpo editorial composto por mulheres e pessoas não binárias, sendo que os papéis de editor-chefe da revista, cargo de liderança que predominantemente é ocupado por homens em periódicos científicos (Araújo et al., 2025), são desempenhados por duas mães pesquisadoras.
Apesar do florescimento de produções críticas feministas, ainda há desafios em acolher a diversidade de interseccionalidades que compõem o corpo-ciência das mulheres. Essa crítica deve ser radicalmente inclusiva, acolhendo as intersecções de raça, classe e identidade. A contribuição da Teoria Queer e o posicionamento a favor das mulheres transgênero e das travestilidades são cruciais, pois demarcam um lugar no que tange às interseccionalidades e à ancestralidade no transativismo pela cidadania e pelo cuidado (Rodrigues et al., 2026).
Ao questionar a rigidez binária de gênero, a Teoria Queer permite que o psicodrama se torne um palco para a multiplicidade das existências, estimulando o protagonismo identitário de mulheres que foram historicamente excluídas e violentadas pela cisnormatividade. O trabalho com mulheres trans, conforme a literatura psicodramática tem explorado, é um ato de recuperar a vitalidade do corpo em ação e transformar um contexto social excludente. O Brasil, infelizmente, é o país que mais mata pessoas trans no mundo por mais de uma década consecutiva (Benevides, 2026), o que torna essa urgência ainda mais pungente.
Para que a ciência seja aberta, democrática e plural, ela deve reconhecer as epistemologias situadas, valorizando os saberes produzidos a partir de corpos e experiências marginalizadas (Soja & Giacomassi, 2025). Tal perspectiva converge com a crítica de um feminismo palestino de Sarah Ihmoud (2022), que denuncia a inexistência de neutralidade científica sob estruturas coloniais e patriarcais, propondo uma ciência que emerja de uma práxis decolonial na qual o corpo é reconhecido como o primeiro território de resistência.
Ihmoud (2022) aprofunda essa reflexão ao colapsar a distinção liberal entre o íntimo e o político, argumentando que as experiências de violência, cuidado e sobrevivência no espaço da intimidade não são meros detalhes biográficos, mas sim o cerne da teorização política. Dessa forma, a urgência de uma ciência que compreenda as desigualdades de gênero reside na capacidade de enxergar como o poder se manifesta nas escalas mais microscópicas da vida. Somente ao politizar a intimidade e desafiar a “política de eliminação”, que se manifesta tanto na ocupação territorial quanto no racismo e sexismo acadêmico, é que poderemos produzir saberes que rompam com as lógicas de morte e permitam a emergência de epistemologias comprometidas.
A mensagem é nítida: a ciência está incompleta e distorcida sem a participação plena, reconhecida e segura de todas as mulheridades – cisgênero, transgênero, gênero dissidentes, negras, indígenas, do Sul Global. A ciência não existe sem as mulheres e as diversidades de gênero, pois, sem suas perspectivas, ela não passa de um monólogo autoritário e excludente. Assentir o conhecimento das mulheridades é um imperativo ético e um passo fundamental para transformar a conserva cultural que hoje nos mata.














