34Os papéis de gênero em relacionamentos amorosos: Um estudo de caso 
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Revista Brasileira de Psicodrama

 ISSN 0104-5393 ISSN 2318-0498

Rev. Bras. Psicodrama vol.34  São Paulo  2026   23--2026

https://doi.org/10.1590/psicodrama.v34.764 

EDITORIAL

Resistências ontológicas e epistêmicas: O inegável corpo-ciência das mulheridades

Ontological and Epistemic Resistances: The Undeniable Body-Science of Womanhoods

Resistencias ontológicas y epistémicas: El innegable cuerpo-ciencia de las mujeridades

Marília Meneghetti Bruhn, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita, Aprovação final1  * 
http://orcid.org/0000-0002-7078-1530

Oriana Holsbach Hadler, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita2 
http://orcid.org/0000-0001-9736-2224

Pettra Roque Araújo da Silva, Conceitualização, Metodologia, Análise formal, Investigação, Escrita3 
http://orcid.org/0009-0009-9375-1578

1Universidade Federal do Sergipe – Colégio de Aplicação – Aracaju (SE), Brasil.

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Psicologia, Serviço Social, Saúde e Comunicação Humana – Departamento de Psicologia Social e Institucional – Porto Alegre (RS), Brasil.

3Universidade Federal do Delta do Parnaíba – Programa de Pós-Graduação em Psicologia – Parnaíba (PI), Brasil.


Dia 17 de outubro de 2008. Uma jovem de 15 anos é assassinada após passar mais de 4 dias em cárcere privado por seu ex-namorado que não aceitara o término do relacionamento (Boechat, 2026). O nome dela: Eloá Cristina Pimentel. Dezessete anos depois, Patrícia Gonçalves, de 42 anos, é morta a tesouradas e pauladas pelo marido na presença do filho de 5 anos de idade (Pilagallo, 2025). Um mês após esse feminicídio, outra mulher é assassinada com requintes de tortura e crueldade: arrastada pela Marginal Tietê até seu corpo não mais suportar. Tainara Souza Santos, de 31 anos, morreu na véspera do Natal de 2025 (Cruz & Stabile, 2025).

Ao findar do mesmo ano, duas servidoras, Allane de Souza e Layse Costa Pinheiro, também se tornam notícia por suas trágicas mortes: assassinadas por um colega de trabalho que recusava a chefia de mulheres (Grinberg & Gama, 2025).

O novo ano tem início e, em 2026, outras são vítimas de crimes horrendos: as mulheres trans Kemilly Bittencourt, assassinada violentamente e encontrada morta esquartejada em uma mata (Costa, 2026), e Alice Martins, cujo relato de seus pais gerou repercussões na mídia ao narrarem sobre como é perder uma filha com tanta brutalidade, revelam que a natureza misógina/machista estruturante da sociedade atinge qualquer prisma das mulheridades (Alcântara, 2026; Galera, 2025).

Este termo, cunhado por bell hooks (2019), aborda o ser mulher para além de uma questão atrelada a uma suposta natureza feminina e, ultrapassando noções biológicas, se ancora em questões interseccionais que abrangem múltiplas vivências e experiências de existências (Spaziani et al., 2024). Assim, ao pensarmos em um corpo vivo das mulheridades, apontamos um posicionamento que busca e reconhece a pluralidade de modos de habitar e ser no mundo.

Na potência desse conceito, por que começamos pelo peso do número que nos oprime e silencia, dessas mulheres e suas vidas dilaceradas? Globalmente, conforme relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), 137 mulheres são vítimas de feminicídio por dia no mundo (United Nations, 2025). O Brasil, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), ostenta a 5ª maior taxa de feminicídio do mundo, com 4,8 mortes para cada 100 mil mulheres. Segundo o Atlas da Violência (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [Ipea], 2025), nosso país atingiu um índice histórico recordista nesta última década: foram mais de 47 mil mulheres assassinadas.

Somente no 1º semestre de 2025 foram 718 feminicídios registrados no território brasileiro, além de 80 transfeminicídios no ano, o que significa mais de 4 mulheres mortas por dia por razões de gênero (Benevides, 2026; Procuradoria Especial da Mulher, 2025; Ramos, 2022). Neste ano, como forma de reconhecer e lutar contra a violência de gênero, temos a instituição do dia 17 de outubro, dia da morte de Eloá, como o Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio (Lei n.º 15.334, 2026).

É necessário sabermos desses nomes, dessas datas e dessas mulheres, e abrir este editorial com essa sombria realidade, pois é neste cenário de violência estrutural que a presença e a produção de conhecimento de mulheridades, especialmente no campo das ciências humanas e do psicodrama, assumem um papel de resistência. O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado no dia 11 de fevereiro pela ONU, nos lembra que a desigualdade de gênero e a violência patriarcal impactam também as produções científicas – conhecimentos que estabelecem o que é considerado realidade e que orientam decisões ético-políticas em escala global.

Apenas 33,7% dos pesquisadores no mundo são mulheres, de acordo com a pesquisa The Gender Gap da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 2024) que considerou dados de 95 países no período de 2018 a 2021, e as mulheres ocupam menos cargos de docência de ensino superior e de gestão acadêmica (Silva et al., 2021).

O efeito tesoura é um fenômeno internacional caracterizado pela sub-representação das mulheres nas ciências, o qual se agrava à medida que a carreira acadêmica avança (Silva et al., 2021). No Brasil, por exemplo, embora as mulheres sejam maioria nas bolsas de mestrado (54%) e doutorado (53%) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 2026), elas ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade, destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica (CNPq, 2024). Esse fenômeno é representado por um gráfico em formato de tesoura, não se limitando apenas a estatísticas, frias assim como a superfície da lâmina desse objeto cortante. A tesoura, arma utilizada em feminicídios como o de Patrícia e para simbolizar a desigualdade de gênero nas ciências, é o reflexo mais brutal de uma estrutura que nega a existência das mulheridades, começando pelo seu corpo e culminando na sua voz e capacidade de produzir conhecimento. Não há ciência que prospere onde a vida é negada.

Ao discorrer sobre vidas negadas, estamos falando não apenas das materialidades de corpos que são dilacerados em feminicídios e transfeminicídios, mas também do que é considerado como vida (Butler, 2015). Como escreve Conceição Evaristo (2021, p. 109): “eu sei que não morrer, nem sempre é viver”; mulheridades que não podem ser autoras de suas próprias existências, aprisionadas por normas e organizações patriarcais, não são reconhecidas como vidas vivíveis, mas como sujeitas precárias e violáveis, que não têm a possibilidade de contar as suas histórias e produzir conhecimentos sobre si próprias e o mundo. Não há separação entre vida e escrita, entre vida e produção de conhecimento (Anzaldúa, 2000); publicizar escritas e pesquisas das mulheridades é um ato de resistência ontológica e epistêmica.

Quando falamos de mulheres na pesquisa em psicodrama, nos remetemos à representação de Zerka Moreno como sendo o marco das mulheridades no que se refere ao ser feminino espontâneo, autêntico e criativo que não fica nos bastidores, mas vai à luta por um legado psicodramático que abriga as mulheres em suas diversidades (Berquó, 2025; Coelho, 2018). Contudo, por muito tempo, a perspectiva androcêntrica também predominou na história e na teoria psicodramática, majoritariamente reconhecida pela autoria de homens cis brancos.

O criador do psicodrama, Jacob Levy Moreno, em sua autobiografia, fez referências às “musas” que inspiraram a sua obra (Moreno, 1997). As musas, de acordo com a mitologia grega, são filhas de Zeus, fontes divinas de inspiração criativa, artística e científica (Mello, 2023). Apesar de Marianne Lornitzo, Gertrude Franchot, Florence Bridge, Grete Leutz e Zerka Toeman Moreno terem contribuído para a construção de ideias e conceitos psicodramáticos e para a sistematização e produção escrita da socionomia, elas são retratadas apenas como inspirações de produções intelectuais ao invés de autoras, produtoras de conhecimentos (Marineau, 1989).

Logo, o papel social de musa atribuído a mulheres contribui para a manutenção de uma lógica patriarcal, na qual as mulheres são frequentemente objetificadas, sexualizadas e desprovidas de autonomia autoral. Paradoxalmente, ao atribuir características de deusas – musas – a importantes mulheres autoras do psicodrama, simbolicamente parte de sua potência humana criativa é negada.

Entretanto, a metodologia socionômica, com sua ênfase na espontaneidade, na criatividade e na ação, é um solo fértil para a crítica feminista. Do Sul Global ecoam as vozes necessárias que rompem com a hegemonia eurocêntrica do saber. Pensadoras latino-americanas, como a peruana Virginia Vargas (2024) e a mexicana Sayak Valencia (2025), falam em “desobediência epistêmica” contra as hierarquias do conhecimento, construindo feminismos plurais baseados na busca pela autonomia e em categorias “sentipensantes” (Ribeiro, 2023). No Brasil, psicodramatistas têm articulado o psicodrama à crítica da conserva cultural patriarcal, revelando como as lógicas sociais opressoras se manifestam e se reproduzem nos papéis femininos como Maria da Penha Nery, Pettra Roque da Silva, Gabriela Vidal e Laura Vomero (Silva & Vomero, 2025; Vidal & Dias, 2023; Vomero & Nery, 2023, 2024).

No primeiro número da Revista Brasileira de Psicodrama (RBP), há mais de 35 anos, aproximadamente 70% dos autores eram nomeados por pronomes masculinos (Naffah et al., 1990). Já em 2025, um ano antes de a RBP ser qualificada com Qualis Capes A3, mais de 83% da autoria dos artigos publicados foi de pessoas que se nomeiam com pronomes femininos ou não binários. Além do aumento da representatividade na autoria de artigos, atualmente, a RBP tem mais de 72% do seu corpo editorial composto por mulheres e pessoas não binárias, sendo que os papéis de editor-chefe da revista, cargo de liderança que predominantemente é ocupado por homens em periódicos científicos (Araújo et al., 2025), são desempenhados por duas mães pesquisadoras.

Apesar do florescimento de produções críticas feministas, ainda há desafios em acolher a diversidade de interseccionalidades que compõem o corpo-ciência das mulheres. Essa crítica deve ser radicalmente inclusiva, acolhendo as intersecções de raça, classe e identidade. A contribuição da Teoria Queer e o posicionamento a favor das mulheres transgênero e das travestilidades são cruciais, pois demarcam um lugar no que tange às interseccionalidades e à ancestralidade no transativismo pela cidadania e pelo cuidado (Rodrigues et al., 2026).

Ao questionar a rigidez binária de gênero, a Teoria Queer permite que o psicodrama se torne um palco para a multiplicidade das existências, estimulando o protagonismo identitário de mulheres que foram historicamente excluídas e violentadas pela cisnormatividade. O trabalho com mulheres trans, conforme a literatura psicodramática tem explorado, é um ato de recuperar a vitalidade do corpo em ação e transformar um contexto social excludente. O Brasil, infelizmente, é o país que mais mata pessoas trans no mundo por mais de uma década consecutiva (Benevides, 2026), o que torna essa urgência ainda mais pungente.

Para que a ciência seja aberta, democrática e plural, ela deve reconhecer as epistemologias situadas, valorizando os saberes produzidos a partir de corpos e experiências marginalizadas (Soja & Giacomassi, 2025). Tal perspectiva converge com a crítica de um feminismo palestino de Sarah Ihmoud (2022), que denuncia a inexistência de neutralidade científica sob estruturas coloniais e patriarcais, propondo uma ciência que emerja de uma práxis decolonial na qual o corpo é reconhecido como o primeiro território de resistência.

Ihmoud (2022) aprofunda essa reflexão ao colapsar a distinção liberal entre o íntimo e o político, argumentando que as experiências de violência, cuidado e sobrevivência no espaço da intimidade não são meros detalhes biográficos, mas sim o cerne da teorização política. Dessa forma, a urgência de uma ciência que compreenda as desigualdades de gênero reside na capacidade de enxergar como o poder se manifesta nas escalas mais microscópicas da vida. Somente ao politizar a intimidade e desafiar a “política de eliminação”, que se manifesta tanto na ocupação territorial quanto no racismo e sexismo acadêmico, é que poderemos produzir saberes que rompam com as lógicas de morte e permitam a emergência de epistemologias comprometidas.

A mensagem é nítida: a ciência está incompleta e distorcida sem a participação plena, reconhecida e segura de todas as mulheridades – cisgênero, transgênero, gênero dissidentes, negras, indígenas, do Sul Global. A ciência não existe sem as mulheres e as diversidades de gênero, pois, sem suas perspectivas, ela não passa de um monólogo autoritário e excludente. Assentir o conhecimento das mulheridades é um imperativo ético e um passo fundamental para transformar a conserva cultural que hoje nos mata.

AGRADECIMENTOS

Não se aplica.

FINANCIAMENTONão se aplica.

DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIALNão se aplica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Não se aplica.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 06 de Fevereiro de 2026; Aceito: 06 de Fevereiro de 2026

* Autora correspondente: marilia_bruhn@hotmail.com

Editora de seção:

Heloisa Fleury https://orcid.org/0000-0001-5084-8390

CONFLITO DE INTERESSE

Nada a declarar.

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