INTRODUÇÃO
O presente estudo analisa a primeira temporada da série Anne with an E, composta por sete episódios, com foco na trajetória da protagonista Anne Shirley, uma adolescente órfã prestes a ser adotada. Ao longo dos episódios, a personagem é inserida em diferentes contextos que exigem adaptação emocional e social. Inicialmente, ela precisa conquistar a confiança da família que a adotou, os Cuthbert, um casal de irmãos, a fim de ser aceita e se sentir pertencente.
Durante a trama, enfrenta desafios no ambiente escolar e nas relações sociais mais amplas, no qual precisa demonstrar ser uma boa influência para os pais das colegas antes mesmo de ser considerada uma verdadeira amiga. Trata-se de um processo complexo, especialmente devido à sua personalidade intensa, imaginativa e fora dos padrões esperados. Ainda assim, Anne conquista o afeto de muitos ao seu redor por meio de sua autenticidade. A partir da observação da narrativa, pretende-se compreender a trajetória da personagem sob a perspectiva do psicodrama, que oferece ferramentas conceituais para analisar seu processo de desenvolvimento pessoal e relacional.
O psicodrama é uma abordagem psicoterapêutica criada por Jacob Levy Moreno, que emprega dramatizações espontâneas para explorar conflitos internos, relações interpessoais e padrões de comportamento, baseando-se na premissa de que a ação e a interação social são fundamentais para a percepção da psique (Oliveira & Alves, 2023). De acordo com Moreno (1997, p. 32), “o psicodrama de minha vida precedeu o psicodrama como método”, ou seja, o autor ressalta que a sua própria vida era o psicodrama, antes mesmo de a abordagem desenvolver o método de forma sistêmica. Essa afirmação, em seu caráter epistemológico, se vincula ao conceito de espontaneidade, compreendida como a capacidade de agir de modo “adequado” diante de situações novas e problemas antigos, ou respostas novas a problemas novos (Nery & Costa, 2008).
Uma das formas de desenvolver a espontaneidade, conceito central no psicodrama, é por meio da técnica do role-play – em sua tradução, jogo de papéis. Essa metodologia psicodramática antecede o ato espontâneo e possibilita ao sujeito representar, de forma dramática, situações da vida real, elaborando emoções e conflitos por meio da ação (Monteiro, 2020). No contexto deste estudo, o termo refere-se especificamente às situações em que a personagem assume ou encena papéis imaginários como forma de explorar experiências ou ensaiar modos de agir diante de determinadas situações narrativas. Nesse sentido, o conceito é utilizado de modo distinto de outras técnicas psicodramáticas, como o solilóquio, a inversão de papéis ou o espelhamento, que envolvem procedimentos específicos do método, bem como de manifestações mais amplas da realidade suplementar.
De acordo com Tanzi et al. (2014), o uso do role-play permite transformar discursos em atitudes concretas, facilitando a expressão de sentimentos ocultos presentes nas relações e comunicações humanas mais complexas. Dessa forma, essa técnica favorece uma compreensão mais nítida dos papéis que o indivíduo desempenha ou poderá vir a desempenhar, contribuindo para a ampliação de sua espontaneidade e consciência relacional.
Ao falar sobre espontaneidade, torna-se indispensável abordar também o conceito de conserva cultural, uma vez que ambos se articulam como dimensões complementares no psicodrama. Reconhecer as conservas culturais presentes na história da protagonista Anne é crucial para o desenvolvimento da espontaneidade na personagem, que precede a técnica role-play. Contudo, a conserva cultural é uma cristalização de uma ação criativa, passando a se incorporar ao acervo cultural da sociedade, podendo ser livro, escultura, comportamento, norma ou conduta e ser modificado quando surge um novo processo espontâneo-criador (Menegazzo et al., 1995).
Nesse contexto, a espontaneidade pode ser compreendida como uma energia dinâmica: ao mesmo tempo que se conserva, também se transforma, à medida que interage com experiências vividas e com o meio social. Justifica-se, assim, a relevância deste estudo, ao considerar que a técnica do role-play é amplamente utilizada pela protagonista como forma de expressão espontânea, permitindo-lhe explorar sua relação com a realidade e com as conservas culturais. Por meio dessa técnica, o sujeito exercita seu livre-arbítrio, expressando-se de maneira autêntica e experimentando múltiplas possibilidades de ser e agir no mundo (Carvalho, 2021; Ramalho, 2021).
Adicionalmente, as conservas culturais desempenham papel significativo nesse contexto, pois representam um conjunto de experiências anteriormente vividas com criatividade e espontaneidade, armazenadas na memória psíquica e social do indivíduo. Tais conservas podem ser reativadas quando o sujeito se depara com situações semelhantes às anteriormente vivenciadas, favorecendo a retomada de ações criativas (Vitali, 2024).
Assim, este trabalho analisa de forma articulada os conceitos de conserva cultural, role-play e espontaneidade, compreendendo-os como recursos integrados. A investigação orienta-se pela seguinte questão: como o uso do role-play na série Anne with an E se relaciona com a construção da espontaneidade da protagonista? Para isso, o estudo examina cenas selecionadas que evidenciam o aquecimento para a ação e possíveis transformações das conservas culturais ao longo da trajetória da personagem.
O objetivo geral é analisar a articulação entre role-play e espontaneidade na narrativa da série. Como objetivos específicos, busca-se: a) identificar cenas em que a protagonista recorre à técnica diante de situações desafiadoras; b) examinar indícios de reorganização espontânea após essas dramatizações; c) discutir possíveis repercussões dessas experiências na transformação de conservas culturais.
MÉTODO
Esta pesquisa se caracteriza como um estudo qualitativo de natureza exploratória descritiva, cuja finalidade é aprofundar a compreensão de fenômenos ainda pouco investigados, por meio da interpretação de significados atribuídos em contextos específicos. Esse tipo de abordagem é amplamente utilizado quando se busca explorar experiências, percepções e relações simbólicas em contextos sociais ou culturais diversos (Freitas et al., 2023). A investigação utiliza como técnica a análise de conteúdo audiovisual. O objeto de análise é a primeira temporada da série Anne with an E, produzida pela Netflix, com foco na trajetória da protagonista Anne Shirley Cuthbert.
A fundamentação teórica foi construída de forma articulada à análise, adotando uma abordagem narrativa que acompanha o desenvolvimento dos conceitos centrais do psicodrama. Essa estratégia favorece a integração entre teoria e objeto analisado, permitindo que os conceitos emerjam da leitura interpretativa do material audiovisual. O referencial teórico baseia-se principalmente em obras clássicas do psicodrama e em artigos acadêmicos selecionados nas bases PePsic, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Revista Brasileira de Psicodrama.
A coleta dos dados ocorreu no período de fevereiro a março de 2025. O corpus da pesquisa foi composto por seis cenas da primeira temporada da série, sendo cada cena considerada como unidade de análise do estudo. A seleção seguiu os seguintes critérios de inclusão: 1) eleger as cenas da primeira temporada; 2) selecionar aquelas que, simultaneamente, envolvem a dimensão da espontaneidade, caracterizando o processo de aquecimento para a realidade com a técnica role-play em situações desafiadoras de relacionamento interpessoal e individual da protagonista Anne.
Neste estudo, considerou-se como manifestação de role-play as situações narrativas em que a personagem dramatiza ou encena papéis fictícios ou imaginários, utilizando essa ação como forma de expressar emoções, ensaiar interações ou elaborar experiências vividas. Ressalta-se que a escolha por analisar exclusivamente a primeira temporada da série Anne with an E se deu por critérios de viabilidade e profundidade analítica. Considerando o volume de conteúdo da série, o corpus foi delimitado à primeira temporada, garantindo um recorte coerente com os objetivos da pesquisa e a análise aprofundada das cenas selecionadas. As cenas selecionadas estão expostas no Quadro 1.
Quadro 1 Cenas selecionadas
| Cenas | Tempoinicial | Tempofinal | Temporada e episódio |
|---|---|---|---|
| Princesa Cordélia | 31:23 | 32:05 | T1, ep. 1 |
| Anne e Diana na floresta | 1:18:06 | 1:28:16 | T1, ep. 1 |
| Primeiro dia de aula | 4:08 | 5:09 | T1, ep. 3 |
| Chá com sua amiga Diana | 14:44 | 15:12 | T1, ep. 5 |
| Como expressar a beleza de Green Gables com as palavras | 11:38 | 12:35 | T1, ep. 1 |
| Anne expressa seus pensamentos sobre Gilbert | 20:40 | 21:10 | T1, ep. 7 |
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Para analisar os dados, utilizou-se a etnografia de tela, mais bem compreendida como uma abordagem que estabelece um diálogo entre a revisão teórica e o objeto de análise do pesquisador. Segundo Penafria (2009), essa metodologia envolve inicialmente a decomposição do audiovisual em seus elementos constitutivos, como as cenas, os personagens e enquadramentos, seguida por uma reconstrução interpretativa que busca compreender como esses elementos se articulam com os conceitos teóricos.
A etnografia de tela propõe uma análise fílmica que considera o contexto sociocultural da obra, bem como o ponto de vista do observador e as provocações do audiovisual. Balestrin e Soares (2014) destacam a importância de refletir sobre de onde se olha para a narrativa e quais sentidos emergem desse encontro entre espectador e obra, valorizando o olhar crítico e situado na interpretação audiovisual.
O processo de análise foi desenvolvido em três etapas complementares. Na primeira, realizou-se a decomposição do material audiovisual, com a identificação e descrição detalhada das cenas selecionadas, considerando os elementos narrativos, as ações da protagonista e o contexto relacional apresentado. Na segunda etapa, procedeu-se à interpretação das cenas à luz dos conceitos da teoria psicodramática, buscando compreender como os elementos observados se articulam com as noções de espontaneidade, role-play e conserva cultural. Por fim, na terceira etapa, os conteúdos interpretados foram organizados por meio de um processo de categorização analítica que possibilitou agrupar as cenas de acordo com os tipos de papéis identificados, resultando nas categorias papéis cênicos e papéis do cotidiano (Penafria, 2009).
No percurso da análise, a decomposição das cenas foi realizada por meio de um quadro estruturado com os seguintes critérios: descrição da cena; episódio correspondente; e a divisão dos momentos em que aparecem os conceitos de espontaneidade, role-play e conserva cultural. Para fins analíticos, considerou-se como manifestação de espontaneidade as situações em que a personagem apresenta respostas criativas ou inovadoras diante de circunstâncias novas ou desafiadoras, especialmente quando utiliza a imaginação ou a dramatização para reorganizar a experiência vivida.
Já a conserva cultural foi identificada nas cenas em que a personagem reproduz normas, padrões de comportamento ou significados socialmente aprendidos, frequentemente associados a experiências anteriores que orientam sua forma de agir ou interpretar determinadas situações. A seguir, apresenta-se, no Quadro 2, o quadro-modelo como exemplo:
Quadro 2 Organização das cenas.
| Cenas | Numeração do episódio |
|---|---|
| Descrição | Síntese da cena analisada, com foco nas ações da protagonista e no contexto |
| Conserva cultural | Identificação de padrões, normas ou comportamentos socialmente aprendidos presentes na cena |
| Role-play | Indicação de situações em que há encenação de papéis pela personagem |
| Espontaneidade | Identificação de respostas espontâneas/novas diante de situações desafiadoras |
Fonte: Elaborado pelas autoras.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A presente análise concentra-se em cenas específicas da série Anne with an E, selecionadas por apresentar de forma representativa os conceitos de espontaneidade, role-play e conserva cultural, conforme proposto pela abordagem psicodramática.
Para organizar a análise das cenas, organizou-se o conteúdo em duas categorias: papéis cênicos e papéis do cotidiano. Essa separação visa identificar as diferentes formas pelas quais Anne utiliza o role-play para expressar-se, explorar possibilidades e enfrentar desafios reais ou simbólicos.
Em cada grupo foram, ainda, definidas subcategorias que permitissem uma compreensão mais refinada das situações vivenciadas: nos papéis cênicos, distinguem-se os papéis idealizados (personagens fantasiosos ou inspirados em narrativas clássicas) e os papéis ensaiados (representações construídas para preparar-se para interações sociais ou rituais simbólicos); já os papéis do cotidiano são desempenhados pelo sujeito no seu dia a dia.
Papéis cênicos
No psicodrama, os papéis cênicos referem-se a um papel desempenhado pelo protagonista, de maneira simbólica e imaginária. Esse conceito é uma forma simples de expressar particularidades internas do ser, como algo desejado na vida real, ou seja, a dramatização permite ao sujeito experimentar versões de si mesmo ainda não vividas, abrindo espaço para reorganizar a sua identidade no contexto social. Sendo assim, os papéis cênicos no contexto psicodramático se destacam pela importância na construção da identidade e na expressão da subjetividade (Dedomenico, 2013).
Papéis idealizados
Princesa Cordélia
Esta cena é o momento em que Anne chega à casa dos irmãos Cuthbert. Ao perceber que o orfanato enviou uma menina, em vez de um menino, Marilla Cuthbert reage com frieza e desapontamento, demonstrando nítida insatisfação com o erro da instituição. Apesar da resistência inicial, Marilla permite que Anne passe apenas uma noite na residência, informando que, na manhã seguinte, ela será enviada de volta ao orfanato. Diante dessa situação, Anne é levada a um quarto simples, porém aconchegante, com uma cama arrumada e uma janela que proporciona uma bela vista da paisagem local.
Esse espaço, ainda que provisório, adquire um valor significativo para a personagem, pois representa pela primeira vez a possibilidade de pertencimento e estabilidade. Emocionada, Anne transforma o ambiente em um cenário de fantasia e encena, de forma expressiva, sua identidade imaginária como “Princesa Cordélia”. Com gestos amplos, olhar extasiado e palavras poéticas, ela se coloca no papel de uma jovem enclausurada em uma torre, vivendo um momento digno de ser eternizado nas páginas de um livro.
Neste momento, com flores nas mãos, expressa-se da seguinte maneira: “Eu, princesa Cordélia, guardarei este presente para sempre. Querida Rainha, o que é o meu beijo pra ouvir a minha devoção?” A dramatização reflete tanto a euforia pela possibilidade de ter um lar quanto a tristeza diante da iminente despedida, evidenciando a dualidade emocional da personagem e o seu desejo profundo por afeto, segurança e reconhecimento.
Observa-se que a conserva cultural se manifesta no gesto de Anne ao mencionar que guardaria as flores em um livro como forma de preservar a lembrança daquele momento. O ato de conservar objetos simbólicos remete a um costume social, relacionado à valorização de memórias afetivas. Segundo Vitali (2024), conservas culturais são expressões criativas que, ao serem preservadas, tornam-se fontes armazenadas de espontaneidade, podendo ser acessadas em novos momentos da vida. Assim, ao guardar as flores, Anne cria um marco simbólico de sua experiência, atribuindo sentido ao que viveu e criando uma memória que poderá sustentá-la em futuras situações.
Nesta cena, o role-play aparece quando a protagonista assume o papel de “Princesa Cordélia”, explorando sua identidade por meio de uma cena imaginária, na qual interage simbolicamente com uma figura fictícia, a fim de se preparar para a despedida do quarto e da família. É como um preparo para lidar com a situação de forma leve, sem perder a esperança de ser pertencente a uma família.
Considerando os elementos analisados, observa-se que o role-play é uma técnica na qual a protagonista constrói seu próprio cenário dramático para expressar sentimentos, emoções e sensações, com base no contexto em que está inserida. A partir dessa construção simbólica, adota uma nova postura, com atitudes e movimentos que resgatam a capacidade de arriscar-se e ousar, abrindo-se à experiência do novo (Carvalho, 2021). Nesse sentido, ao encenar a personagem “Princesa Cordélia” e transformar o quarto em um cenário imaginário, Anne parece construir um espaço simbólico de elaboração, o que sugere uma forma de enfrentamento mais organizada da situação vivida.
A encenação feita por Anne ao adotar o papel de Princesa Cordélia pode ser interpretada como mais do que um simples exercício imaginativo, configurando um possível ensaio simbólico por meio do qual a protagonista experimenta uma nova forma de estar no mundo. Essa abertura à realidade suplementar, mediada pela espontaneidade e pela criatividade, também se expressa no modo como os papéis são desenvolvidos ao longo da vida. Esse movimento pode ser compreendido à luz do desenvolvimento progressivo dos papéis descrito pela teoria psicodramática. Nesse processo, a personagem não apenas imita modelos disponíveis (role-taking), mas experimenta simbolicamente o papel (role-playing), abrindo caminho para respostas mais espontâneas e criativas, nas quais imprime sentidos singulares à experiência vivida (role-creating) (Almeida et al., 2023).
Essa prática se aproxima do que Vidal e Cardoso (2020) descrevem ao enfatizar o valor da dramatização como um espaço de treino de papéis. Para as autoras, ao assumir papéis fictícios, o sujeito exercita modos de agir, sentir e se posicionar diante da realidade, o que contribui diretamente para sua capacidade de enfrentamento e adaptação. No caso de Anne, o papel de princesa oferece não apenas proteção simbólica diante da iminente separação, mas também sustenta a construção de uma narrativa pessoal em que ela se reconhece como alguém digna de afeto e pertencimento.
Por fim, a espontaneidade da personagem aparece na forma como ela reage de modo criativo e autêntico à situação de insegurança. Ao assumir o papel de “Princesa Cordélia”, Anne não segue um roteiro, mas cria uma cena simbólica que lhe permite ressignificar a experiência de estar em um lar temporário. Nesse momento, a personagem responde de maneira criativa à situação de insegurança, produzindo uma reorganização da experiência; assim, sua resposta espontânea revela um movimento autêntico de expressão, mesmo diante da incerteza sobre o que a espera naquele novo ambiente (Lima & Macuch, 2024).
Anne e Diana na floresta
A cena analisada refere-se ao momento em que Anne se esforça para manter uma postura socialmente adequada diante de sua nova amiga Diana, ficando em silêncio por um determinado tempo. Durante uma caminhada, Diana revela sua timidez ao dizer que tem dificuldade para imaginar. Em resposta, Anne expressa sua natureza espontânea, afirmando que, para ela, viver sem imaginação seria uma verdadeira agonia.
Na tentativa de compartilhar com a amiga a intensidade de seu mundo interno, Anne começa a encenar diferentes personagens. Ela se transforma em uma princesa presa numa torre, em Joana d’Arc cavalgando rumo à batalha, e em uma noiva desconsolada que vive à beira-mar à espera do amado desaparecido após um naufrágio. Por meio dessas dramatizações, Anne não apenas expressa sua criatividade, como também parece convidar Diana a compartilhar de uma dimensão mais sensível e simbólica da realidade construída na interação entre ambas.
Nesse contexto, observa-se a presença de uma conserva cultural quando Anne permanece em silêncio durante a caminhada, em atenção à orientação recebida de Marilla para não falar em excesso, um traço de sua personalidade frequentemente mal interpretado. Ao tentar conter sua espontaneidade, Anne busca adaptar-se às expectativas sociais de bom comportamento diante da nova amiga e de sua família, revelando como normas culturais internalizadas moldam sua conduta em situações formais de convivência.
Essa atitude reflete experiências passadas no orfanato, onde sua expressividade foi reprimida, gerando um padrão de contenção que passou a orientar seu comportamento inicial. No entanto, ao longo da interação com Diana, Anne retoma sua espontaneidade e, movida pela vontade de se conectar, rompe o silêncio e dá início a uma série de dramatizações criativas. Nesse momento, a cena sugere uma possível superação da conserva por meio da ação espontânea, possibilitando a livre expressão de seu mundo interno (Vitali, 2024).
Ao analisar os elementos que envolvem a técnica de role-play, esta é evidenciada quando a personagem assume diversos papéis fictícios com sua amiga, vivenciando diferentes narrativas com expressividade e criatividade. Diante disso, o role-play é uma liberdade de o indivíduo ousar-se, permitindo explorar a gama de possibilidades de experienciar a vida (Carvalho, 2021). No entanto, Anne agarra a primeira oportunidade que lhe aparece de expressar de maneira livre a sua imaginação, revivendo o que passa em sua cabeça de forma lúdica e vivencial.
A forma como Anne dramatiza suas ideias durante a caminhada e encena diferentes personagens nesta cena sugere não apenas uma maneira de expressar sua imaginação, mas também uma tentativa de estabelecer conexão afetiva com a amiga. Ao encenar papéis ficcionais de forma vívida e envolvente, Anne traduz simbolicamente sentimentos e experiências difíceis de serem ditas diretamente. Como apontam Vidal e Cardoso (2020), a dramatização pode operar como uma linguagem criativa que favorece o encontro com o outro, atuando como mediadora nas relações e ampliando as possibilidades de comunicação. Nesse sentido, os papéis idealizados assumidos por Anne não servem apenas à sua própria elaboração interna, mas também como uma ponte para criar vínculos, romper o silêncio e afirmar seu desejo de pertencimento em um novo contexto relacional.
Portanto, a cena sugere a presença de espontaneidade na forma como Anne cria livremente, sem se prender a padrões fixos, transformando a realidade por meio da imaginação. Desse modo, é de suma importância a espontaneidade que se manifesta na relação entre espaço e corpo, sujeito e mundo, material e social, influenciando novas respostas no momento presente e adaptando-se a situações inovadoras ou já conhecidas (Vitali, 2024). Por conseguinte, a protagonista adapta-se a uma situação antiga que é existente dentro de si, em um contexto novo que é uma nova história de vida, ganhando uma nova oportunidade de fazer amizades saudáveis.
As cenas analisadas demonstram como Anne recorre à dramatização de papéis idealizados como forma de acessar e expressar seus conteúdos emocionais. Ao encenar personagens como uma princesa solitária, uma guerreira histórica ou uma noiva enlutada, ela não apenas manifesta sua imaginação, mas também constrói uma ponte simbólica entre o que sente e o que deseja viver. Aqui, o role-play pode ser interpretado como uma linguagem dramatizada por meio da qual Anne parece reorganizar afetos, experimenta possibilidades e ensaia modos de estar no mundo diante das exigências de seus novos vínculos e contextos sociais. Como aponta Bustos (1984), o papel psicodramático não é apenas o reflexo de uma função social ou pessoal, mas uma construção simbólica por meio da qual o sujeito pode reorganizar sua vivência emocional e ampliar sua identidade.
Esse tipo de ação espontânea dialoga com a noção de realidade suplementar desenvolvida por Jacob Levy Moreno, que compreende esse espaço como um território intermediário entre a realidade e a fantasia, no qual o sujeito pode viver simbolicamente papéis e situações ainda não concretizados. É nesse contexto que o role-play adquire valor psicodramático, pois se torna uma ferramenta para acessar experiências internas, elaborar conflitos e criar novos sentidos para a própria história – como afirmou Moreno (1993), ao dizer que o psicodrama é o ensaio da vida em si. Assim, ao dramatizar esses papéis idealizados, Anne não está apenas brincando: ela está criando, integrando e se transformando.
Papéis ensaiados
Primeiro dia de aula
Esta cena analisada refere-se ao primeiro dia de aula de Anne, momento em que a personagem ensaia no caminho da sua casa até a escola maneiras de se comportar com os novos colegas. Durante esse processo, ela enfeita seu chapéu com flores coloridas encontradas pelo caminho, expressando-se espontaneamente. Ao adornar seu chapéu com flores e ensaiar modos de se apresentar aos colegas, Anne acessa conservas culturais associadas ao papel feminino, internalizadas desde a infância por meio de narrativas sociais que valorizam atributos como delicadeza, autocontenção e agradabilidade. No entanto, ao reinterpretar esses elementos com espontaneidade, a cena sugere que Anne transforma essas referências em expressões mais autênticas de si mesma.
Conforme destacam Vidal e Dias (2023), as conservas culturais associadas ao feminino tendem a restringir a espontaneidade ao impor modelos fixos de comportamento. No entanto, quando essas referências são tensionadas em contextos criativos, como nos jogos ou na imaginação dramatizada, elas podem se tornar terreno fértil para a construção de novos modos de ser, ampliando o repertório de papéis disponíveis e permitindo reorganizações identitárias mais autênticas.
Ao encenar diferentes papéis para se apresentar aos colegas, Anne se envolve em um exercício de role-play que ultrapassa a dimensão da fantasia e se aproxima de um treino relacional. Nesse ensaio dramatizado, ela busca experimentar modos de ser que facilitem sua aceitação no novo grupo social. O ensaio realizado no caminho até a escola sugere um movimento antecipatório de preparação relacional (Russo, 2020). Esse movimento é evidente quando Anne testa falas, posturas e expressões na tentativa de prever o impacto que causará nos outros. Trata-se de uma dramatização antecipatória, em que a espontaneidade não se opõe à preparação, mas se integra ao processo de adaptação identitária. Com isso, Anne ensaia um papel social desejado sem apagar sua autenticidade; ao contrário, é por meio do lúdico e do imaginado que ela mantém viva a sua expressão criativa.
Considerando os elementos analisados, observa-se que a espontaneidade de Anne é apresentada no momento em que improvisa elogios e compartilha livremente suas impressões, sem seguir um roteiro fixo, revelando sua autenticidade e criatividade. Contudo, a fonte da espontaneidade existe dentro do ser, que fluirá conforme o momento presente. É necessário um estado de aquecimento prévio antes de a ação ocorrer, ou seja, é a relação com o outro que possibilita o aparecimento da espontaneidade; isso significa que são as relações que desabrocham a espontaneidade existente em cada ser (Ramalho, 2021). Assim sendo, a cena sugere uma personagem que expressa com espontaneidade em suas relações a sua essência de maneira animada e livre.
Chá com sua amiga Diana
Com base na análise realizada, verifica-se na cena o momento em que Anne está entrando na puberdade, marco que, para Marilla Cuthbert, representa um momento importante na formação da jovem e merece ser celebrado. Sensível ao valor dessa transição, Anne decide preparar um chá especial para sua amiga Diana Barry, com o intuito de comemorar não apenas sua menarca, mas também seu amadurecimento emocional e social.
Durante a preparação e execução do chá, Anne demonstra traços de hospitalidade e cuidado, revelando o quanto valoriza os ritos sociais como expressão de afeto e pertencimento. A protagonista assume, de forma espontânea e teatral, o papel de anfitriã, adotando uma postura refinada e cordial. Sua encenação é marcada por improvisação criativa e entusiasmo, característica recorrente em sua personalidade, e reforça a importância que ela atribui aos vínculos interpessoais e aos pequenos gestos de carinho.
Nesse contexto, a conserva cultural se manifesta por meio da expressão de gratidão e hospitalidade demonstrada pela protagonista, seguindo normas sociais de cortesia e boas maneiras, comuns em situações de recepção. Esses comportamentos refletem padrões culturais estabelecidos, como gestos de acolhimento e educação. Observa-se, nessa cena, a atualização de uma conserva cultural vinculada aos rituais de hospitalidade e às normas de convivência social, que orientam a forma como Anne organiza o encontro com a amiga (Ramalho, 2021). Em síntese, a personagem reproduz práticas tradicionais que a auxiliam para receber sua amiga, revelando comportamentos socialmente aprendidos.
Embora o comportamento de Anne revele traços de conservas culturais associadas à hospitalidade, como o preparo da mesa e a gentileza nos gestos, esses elementos não são repetidos de forma mecânica. Ao contrário, são retrabalhados com sensibilidade, espontaneidade e inventividade. Como afirma Moreno (1993), a espontaneidade é aquela que emerge em resposta ao momento presente, conectada ao real e à situação emocional vivida. Anne improvisa perguntas, gestos e expressões de cuidado que não seguem um roteiro, mas refletem sua intenção de oferecer acolhimento. Nesse processo, ela transforma normas sociais tradicionais em expressões afetivas pessoais, indicando um amadurecimento de seus papéis relacionais.
O role-play acontece quando Anne assume o papel de anfitriã, encenando como deve agir durante o chá. Portanto, essa técnica tem como finalidade desenvolver novos papéis sociais (Lima & Macuch, 2024). Nesse processo, cria um ambiente de atenção e acolhimento, representando um papel social em um cenário fictício cuidadosamente construído por sua imaginação.
A preparação do chá, os gestos de gentileza e o cuidado com os detalhes podem ser interpretados como imagens simbólicas que sugerem um desejo de pertencimento e reconhecimento. Como discute Silva (2023), o uso de gestos simbólicos amplia a autopercepção e favorece o surgimento de formas criativas de enfrentamento de conflitos. Embora a situação encenada por Anne não tenha sido planejada como uma intervenção formal, ela atua sobre si mesma de maneira semelhante, utilizando os elementos disponíveis para construir um ritual de passagem que a ajuda a integrar sua nova condição de jovem mulher.
A cena sugere a presença de espontaneidade, especialmente quando Anne reage de forma entusiástica e natural à situação, fazendo perguntas sem qualquer planejamento prévio. Sua fala expressa o prazer genuíno em receber a amiga, revelando uma interação afetuosa e informal. Dessa forma, a teoria moreniana, como ressaltam Vitali e Castro (2023), nos ajuda a entender que a espontaneidade é a capacidade de corresponder de maneira saudável ao mundo, conectando-se com o momento e contexto atual, de maneira autêntica e verdadeira.
As cenas analisadas sob a categoria de papéis ensaiados demonstram como Anne utiliza a imaginação de forma ativa e aplicada, criando uma espécie de ensaio simbólico para interações sociais reais. Essa articulação entre imaginação e vida concreta se aproxima do que Khouri (2024) descreve como realidade suplementar no psicodrama interno: um território subjetivo no qual o sujeito pode, mesmo fora do setting terapêutico, experimentar outras formas de ser e reorganizar suas respostas emocionais. Ao preparar um chá ou imaginar falas para o primeiro dia de aula, Anne não apenas dramatiza possíveis interações; ela cria um espaço simbólico onde é possível exercitar novos papéis, testar modos de vínculo e fortalecer sua presença diante do outro.
Papéis do cotidiano
Os papéis do cotidiano são papéis que o indivíduo percorre em sua vida diária, podendo ser o de filha, amiga, aluno, profissional. Esses papéis são vividos com constância, ajustados conforme normas culturais, condutas e até mesmo expectativas do meio social. Desenvolvidos ou limitados, podem ser autênticos mediando o sofrimento do indivíduo. Para Bustos (1984), os papéis do cotidiano seriam os papéis sociais, que fazem parte da tríade fundamental dos papéis humanos, ao lado dos fisiológicos e dos psicodramáticos, e se constroem a partir da interação entre os estereótipos culturais e a espontaneidade do sujeito. Em síntese, não são apenas funções externas, mas expressões que articulam o eu com o mundo social e, por isso, podem tanto restringir quanto promover o desenvolvimento pessoal.
Como expressar a beleza de Green Gables em belas palavras
A cena observada encontra-se nesse papel do cotidiano por corresponder ao momento em que Anne é recebida na estação de trem pelo seu futuro pai adotivo, Matthew. Ele a busca em uma carroça e, durante o trajeto, a protagonista permanece de pé e abre os braços, dizendo para Matthew que vai encenar uma forma de expressar-se, usando as seguintes palavras: “Por exemplo: eu estou extasiada com essa gloriosa paisagem”. A cena evidencia a manifestação verbal de Anne, que demonstra um sentimento de alívio por poder se comunicar livremente.
Nesse momento, evidencia-se que a conserva cultural é apresentada quando Anne relata que, durante a infância, ouviu repetidamente que crianças deveriam permanecer caladas, o que demonstra um contexto de repressão à expressão infantil. Dado o exposto, a conserva cultural não se fixa em conservas cristalizadas, porém, por meio delas é possível reinventar uma nova maneira de expandir a espontaneidade existente a partir de um novo começo, conectando-se no aqui e agora (Vitali, 2024).
A presença dessa norma internalizada, a de que crianças devem permanecer caladas, se faz sentir de maneira sutil, mas presente, na cena. A fala de Anne, ao lembrar que era constantemente repreendida por se expressar, não apenas denuncia um passado de repressão, mas evidencia o quanto essa regra ainda ecoa em sua forma de existir. Contudo, o silêncio de Matthew, que não a interrompe nem a julga, parece configurar um espaço relacional distinto, no qual Anne passa a falar com maior liberdade.
Como observa Ramalho (2021), é justamente em situações de vínculo não ameaçador que a espontaneidade encontra brechas para emergir, reconfigurando vivências marcadas por contenções anteriores. O gesto de Anne manter-se de pé, falar animadamente, elogiar a paisagem torna-se, assim, um pequeno ato de reinvenção de si diante de uma relação que não exige silêncio, mas oferece escuta.
Nesse sentido, a cena pode ser compreendida como um momento de aquecimento espontâneo, no qual o vínculo acolhedor estabelecido com Matthew parece favorecer as condições relacionais para que Anne se autorize a falar, mover-se e expressar-se livremente. No psicodrama, o aquecimento constitui uma etapa fundamental para a emergência da espontaneidade, pois prepara o sujeito para a ação criativa ao reduzir tensões e ampliar a disponibilidade relacional (Moreno, 1993). Assim, a fala fluida de Anne não é apenas um traço de sua personalidade, mas um efeito direto do campo relacional que favorece sua expressão autêntica.
À luz do que foi observado, a técnica do role-play se manifesta quando a protagonista permanece em pé na carroça, utilizando o corpo e a fala para comunicar algo que vai além da conversa imediata. Anne transforma aquele espaço transitório em uma cena dramatizada, onde ensaia a experiência de ser ouvida e acolhida. Sua postura ereta, o tom animado e a linguagem vívida revelam uma atuação espontânea em que se autoriza a experimentar um lugar subjetivo diferente daquele imposto em sua história no passado.
Como destacam Lima e Macuch (2024), o role-play no psicodrama pode favorecer a reorganização de papéis sociais ao permitir que o sujeito explore, em ação, modos de ser que ainda não estavam plenamente acessíveis em sua vida cotidiana. Nesse mesmo sentido, Silva (2023) ressalta que determinadas ações simbólicas, mesmo que realizadas fora do setting terapêutico, podem funcionar como instrumentos de ampliação da autopercepção e de enfrentamento criativo de conflitos. Assim, o gesto de Anne, aparentemente simples, contém em si um exercício de reorganização do eu, em um cenário no qual sua presença já não é reprimida, mas legitimada.
Por fim, a espontaneidade de Anne se revela na liberdade com que expressa suas percepções, sem medo de ser corrigida ou silenciada. Esse breve momento de fala fluida sinaliza uma abertura interna para experiências relacionais mais autênticas. Conforme aponta Vitali (2024), a criatividade psíquica se manifesta quando a espontaneidade encontra espaço para emergir, transformando a vivência em ação significativa. Nesse contexto, Anne não apenas fala: ela se permite existir com maior liberdade, dando início a uma reconfiguração simbólica de si mesma diante do outro.
Anne expressa seus pensamentos sobre Gilbert quando está sozinha
Nesta cena analisada, Anne dramatiza como gostaria de ter acolhido Gilbert, expressando-se de forma inconformada diante da reação que ele teve após ela tentar consolá-lo pela morte do pai. Durante a tentativa de apoio, Anne havia feito uma comparação entre suas histórias, ressaltando que ambos eram órfãos e que isso, de certo modo, poderia ter um lado positivo. A reação negativa de Gilbert a essa fala parece mobilizar em Anne a necessidade de elaborar a situação, o que ela passa a fazer por meio da dramatização.
Evidencia-se a presença da conserva cultural quando Anne se expressa sozinha em uma pequena cabana de madeira, espaço que costumava frequentar com suas amigas para compartilhar vivências e produções escritas. Ao relembrar sua condição de órfã, ela retoma uma forma conhecida de dar sentido à dor, comparando-a com a história de Gilbert. Essa repetição de sentido reflete um padrão internalizado de lidar com o sofrimento, o que caracteriza uma cristalização simbólica da experiência. Segundo Vidal (2021), as conservas culturais se sustentam em conteúdos passados e reaparecem quando o sujeito precisa reorganizar situações semelhantes, guiando a ação com base em referências já consolidadas.
Diante do exposto, observa-se que Anne recorre ao role-play como forma de elaborar emocionalmente o conflito com Gilbert, adotando uma postura firme e ensaiando uma resposta que lhe permita recuperar o controle da situação. Ao dramatizar, Anne parece construir uma cena interna que funciona como um espaço simbólico de reorganização subjetiva. Esse momento revela-se essencial para que Anne transforme sua frustração em uma resposta mais consciente, preparando-se para lidar com situações semelhantes de forma menos impulsiva. Nesse contexto, o role-play pode indicar um suporte para o ajustamento emocional e relacional do sujeito diante das exigências do meio (Ramalho, 2021).
Nesse processo de dramatização, o movimento realizado por Anne sustenta-se no princípio do “como se”, no qual a cena interna permite vivenciar simbolicamente uma situação relacional real, favorecendo a elaboração afetiva e a construção de respostas mais ajustadas ao vínculo (Monteiro, 2020; Moreno, 1993). Ao ensaiar essa resposta em um espaço protegido pela imaginação, a personagem consegue integrar emoção e reflexão, transformando a vivência de frustração em aprendizado relacional.
No plano relacional, a cena também revela um desencontro entre os papéis desempenhados por Anne e Gilbert, apontando para uma dinâmica momentaneamente assimétrica. Embora o vínculo entre os dois seja, em essência, simétrico, como o de colegas ou amigos, Anne assume um papel ativo de consolo, enquanto Gilbert não corresponde a essa expectativa. De acordo com Bustos (2001), os vínculos assimétricos envolvem papéis complementares e polarizados, que podem gerar conflitos quando não há reconhecimento mútuo das necessidades. Nesse contexto, o role-play pode ser interpretado como um recurso que possibilita a Anne ensaiar uma nova forma de se posicionar diante do outro, favorecendo a reorganização subjetiva desse impasse.
Por fim, a cena sugere a presença de espontaneidade na forma como Anne constrói sua resposta a partir dessa experiência do role-play. Ao se permitir vivenciar seus sentimentos com liberdade, sem recorrer às explicações habituais, Anne abre espaço para uma reação mais autêntica e ajustada ao momento vivido. A espontaneidade, nesse contexto, revela-se como um desdobramento do processo de elaboração interna iniciado pela dramatização. Segundo Vitali (2024), ela se atualiza quando o sujeito, ao se aquecer emocionalmente, é capaz de acessar formas de agir que dialogam com sua singularidade e com as exigências da realidade.
Em relação às demais cenas analisadas, esta representa um momento distinto no percurso da protagonista, pois evidencia um avanço em seu desenvolvimento emocional. Enquanto nas cenas anteriores Anne utilizava o role-play como forma de experimentar possibilidades, ensaiar comportamentos e afirmar sua identidade diante de situações novas, nesta cena com Gilbert observa-se uma postura mais reflexiva. A dramatização não ocorre no intuito de preparar-se para algo que ainda virá, mas como forma de ressignificar uma experiência já vivida.
Anne não apenas revisita o ocorrido, mas elabora internamente sua participação na situação, reconhecendo o impacto de sua fala e considerando o sentimento do outro. Esse movimento sugere um possível amadurecimento da espontaneidade, que agora não se expressa apenas como criatividade impulsiva, mas como capacidade de reorganizar afetos e relações de forma mais consciente. Trata-se de uma espontaneidade que integra a empatia, permitindo à personagem ser ela mesma, sem abrir mão de sua autenticidade, mas com maior sensibilidade diante do sofrimento do outro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise sugere que o desenvolvimento da espontaneidade em Anne ocorre de forma processual e crescente, mediado por experiências simbólicas e relacionais nas quais o role-play aparece como uma estratégia que parece favorecer processos de elaboração. As cenas analisadas mostraram como a protagonista recorre à dramatização para ensaiar papéis, reorganizar emoções e enfrentar situações novas ou desafiadoras, favorecendo respostas mais conscientes e ajustadas ao contexto e sustentando a transformação de conservas culturais cristalizadas ao longo de sua trajetória.
A articulação entre conservas culturais, role-play e espontaneidade mostrou-se eficaz para compreender os movimentos subjetivos da personagem. Ao longo da narrativa, observa-se o amadurecimento de Anne a partir da integração entre passado e presente, desejo e realidade, imaginação e ação. Nesse sentido, a pesquisa respondeu à pergunta proposta e ampliou a compreensão sobre a manifestação dos conceitos psicodramáticos na vida cotidiana, ainda que em um contexto ficcional, como operadores de mudança.
Entre os pontos fortes do estudo, destaca-se a aplicação da teoria psicodramática na análise de uma obra audiovisual, ampliando o campo de utilização desses conceitos para além do setting terapêutico. A etnografia de tela revelou-se um recurso potente para captar sutilezas simbólicas e afetivas, permitindo uma leitura sensível e contextualizada das cenas.
Como limitação, ressalta-se a dificuldade em delimitar tecnicamente o role-play, considerando sua aproximação com outras práticas, como o monólogo interno ou a inversão de papéis, bem como a escassez de bibliografia recente sobre a técnica. Para estudos futuros, sugere-se aprofundar a investigação sobre o uso espontâneo de técnicas psicodramáticas em narrativas audiovisuais e explorar a aplicação do role-play em outros cenários.
Conclui-se que o psicodrama, mais do que uma técnica terapêutica, constitui uma linguagem expressiva do ser no mundo. Mesmo em uma narrativa ficcional, é possível vislumbrar o movimento criativo do sujeito em direção a formas mais autênticas de viver e se relacionar, simbolizadas pelo processo de amadurecimento e reinvenção da protagonista ao longo de sua trajetória.














