O café espera ao lado da mesinha de apoio. A luz que entra na janela recorta a sala com a exatidão sensível dos raios dormentes de um sol que se põe a levantar. As crianças estão dormindo ainda, mas a vida lá fora segue em sua crueza mundana: países são bombardeados ainda que um cessar-fogo tenha sido divulgado, animais dóceis são torturados em praias não tão distantes, indígenas são expulsos de suas terras originárias, mulheres são mortas e violentadas, escândalos de bilionários e pornografia infantil são descobertos, e assim o mundo vai nos consumindo e obstruindo nossas existências. Até que chega o livro de Érico. A obra de Érico Vieira (2025), intitulada A distopia cotidiana dos oprimidos: psicodrama e exclusão social, nos força a esperançar (Freire, 1992).
Este livro apresenta-se como um marco teórico-prático fundamental para aqueles que buscam forças para seguirem lutando contra as injustiças sociais em meio a um cenário praticamente distópico, não fosse a certeira realidade que nos assola. A obra de Érico é essencial não somente para psicodramatistas, como para todas as pessoas que buscam compreender os processos de subjetivação em contextos de vulnerabilidade social no Brasil e no mundo. Fruto de 11 anos de um trabalho sistematizado que articula as dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão, o livro transcende a mera aplicação técnica para consolidar o psicodrama como uma crítica contundente à ordem social vigente.
Tomando como fio condutor a Revolução Criadora de Moreno (1975/2012), o autor estabelece como premissa ética e metodológica o compromisso de liberar a vida onde esta se encontra obstruída, em uma atualização do psicodrama (Vieira, 2017). Para tanto, a obra propõe um mergulho na historicidade dos sujeitos ao validar a profundidade das trajetórias singulares diante do apagamento promovido pela exclusão; o autor questiona as forças instituídas que buscam impor uma universalidade das subjetividades ignorando as particularidades da dor produzida pelas estruturas de poder.
A fundamentação teórica é robusta e permite que o autor aprofunde o psicodrama não apenas como método clínico, mas como ferramenta de análise da racionalidade neoliberal. O autor convoca as pessoas leitoras a pensar sobre os mundos de morte e não pertencimento gerados por um projeto de país que historicamente privilegia grupos dominantes. Érico denuncia a produção social do sofrimento e a lógica de exploração dos seres, propondo uma ruptura radical com a “clínica da cura” tradicional. Em seu lugar, aposta nos saberes dos usuários e na horizontalidade da relação terapêutica e pedagógica. O que este livro nos convoca é à retomada de um psicodrama voltado para a implicação ético-política com o público.
No primeiro ato, Parte I – Reflexões teóricas: subcidadania, subjetividade e psicodrama, Érico nos apresenta as condições de possibilidade para a banalização da desigualdade social enquanto racionalidade fundante das subjetividades brasileiras. Um dos pontos altos desta seção é a discussão sobre a espontaneidade criadora e suas interseccionalidades. O autor sustenta a dimensão política desse conceito como “possibilidade de resistência, de diferenciação, de criação de descontinuidade e rupturas” (p. 54). E vai além: ele urge para uma politização da teoria psicodramática, lembrando de sua gênesis ontoepistêmica, aquela que faz convocar a um posicionamento contra-hegemônico: “O psicodrama não deve ficar distante dos conflitos históricos em que todas as pessoas devem tomar partido. O psicodrama seria uma mistura de carne e sonho, corpo e imaginação. Imaginações encarnadas” (p. 57). É preciso tomar a imaginação como prática libertária e transgressora.
Nesse sentido, o livro oferece a força necessária para romper com a conserva colonial brasileira (Vomero & Malaquias, 2025; Vomero & Nery, 2023), buscando desarticular a lógica de que o Brasil é um território exclusivo para elites. Nos faz encarar os privilégios e a privatização da prática psicodramática brasileira e nos lembra que, independentemente do contexto de atuação, há de se considerar a política e as relações de poder presentes nas intervenções sociátricas.
Contudo, este posicionamento não é somente lançado ao relés, pois no segundo ato, Parte II – Incursões socionômicas no campo, Érico apresenta imersões coletivas em práticas de cuidado em saúde como ferramentas propositivas de ação diante da desigualdade social. É como Devanir Merengué (2013, p. 10) nos apresenta em seu prefácio da obra: “Érico e seus alunos transformam a indignação em co/moção, movendo-se juntos”, são “protagonistas da recusa”, pois se recusam a apaziguar-se em um mundo de injustiças. Érico nos mostra o quanto somos povoados com uma arma de guerrilha, parte de nossa alma latino-americana, que se manifesta pela força política da imaginação (Vasconcelos et al., 2022).
Dividida em cinco subseções, esta segunda parte da obra nos leva a caminhar junto a uma clínica das margens, projeto de pesquisa e extensão de uma universidade pública federal, que oferece cuidados em saúde mental a partir de plantões psicológicos em uma casa de apoio de uma cidade no Centro-Oeste brasileiro. O público: pessoas em situação de rua, andarilhos, desempregados, figuras excluídas do giro de mercado formal, trabalhadores de baixa renda. Vozes que importam e nos lembram da máxima moreniana de que uma resposta nos leva a uma centena de perguntas, entre as quais: “como a desigualdade e a injustiça sociais acontecem na vida cotidiana?” (p. 85). Os registros para essa e uma série de outras perguntas que nos levam a dar novos sentidos para a distopia cotidiana dos oprimidos são carregados com base nas narrativas de 237 diários de campo, gerados entre 2019 e 2022, que transbordam as marcas da escassez e das opressões tanto banalizadas em nossa lida diária: o desejo de morrer por não conseguir mais pagar o aluguel de sua casa, as formas humilhantes suportadas em uma vida mortificada, a sensação de estar vivendo em uma corda bamba cuja queda seria fatal, a culpabilização de que a pobreza seria um valor atribuído por seu desmerecimento, a impotência do trabalhador, o sentimento e a percepção de invisibilidade, o sentido de lixo humano, entre tantos outros relatos e afetos que partem da escuta do sofrimento.
Baseados nesses narratórios, entendemos que a distopia aqui não é um futuro temível e distante, mas a própria malha de poder sobre a vida que, ao normalizar a exclusão, transforma o sofrimento das margens em um componente útil e administrável da engrenagem social. É a materialização de dispositivos de governo das vidas que confinam sujeitos a uma docilidade forçada pela escassez.
Ao problematizar a distopia em sua obra, Érico nos faz compreender que ela se sustenta por regimes de verdade que naturalizam a subcidadania. No entanto, o psicodrama proposto por Érico atua como uma prática de liberdade, uma ética que subverte a lógica da mortificação. Ao fazer brotar os diários de campo e as narrativas de dor, o autor opera uma verdadeira arqueologia das subjetividades silenciadas, transformando o espaço da clínica das margens em heterotopias: “lugares que se opõem a todos os outros, destinados, de certo modo, a apagá-los, neutralizá-los ou purificá-los. São como que contraespaços” (Foucault, 2013, p. 20), permitindo que os sujeitos deixem de ser objetos de intervenção para se tornarem inventores de suas próprias existências.
O café já esfriou e as crianças acordaram; com elas, meu olhar sobre a força revolucionária que o psicodrama e as ferramentas grupais podem provocar nas distopias cotidianas. As perguntas que encerram o livro me convocam: “Para que existem psicodramatistas?” (p. 184). A contribuição de Érico Vieira é essencial para que possamos olhar nossas práticas e buscar o que essa pergunta significa na contemporaneidade. Ao integrar teoria e prática de forma indissociável, A distopia cotidiana dos oprimidos: psicodrama e exclusão social reafirma o potencial revolucionário do psicodrama como via de resistência e de reinvenção da vida diante das cotidianas opressões de nossos dias. Que possamos seguir, lutando.














