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Revista Brasileira de Psicodrama

versão impressa ISSN 0104-5393versão On-line ISSN 2318-0498

Rev. Bras. Psicodrama vol.34  São Paulo  2026  Epub 17-Abr-2026

https://doi.org/10.1590/psicodrama.v34.765 

RESENHA DE LIVRO

A distopia cotidiana dos oprimidos: Psicodrama e exclusão social

The everyday dystopia of the oppressed: Psychodrama and social exclusion

La distopía cotidiana de los oprimidos: Psicodrama y exclusión social

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Psicologia, Serviço Social, Saúde e Comunicação Humana – Departamento de Psicologia Social e Institucional – Porto Alegre (RS), Brasil.


O café espera ao lado da mesinha de apoio. A luz que entra na janela recorta a sala com a exatidão sensível dos raios dormentes de um sol que se põe a levantar. As crianças estão dormindo ainda, mas a vida lá fora segue em sua crueza mundana: países são bombardeados ainda que um cessar-fogo tenha sido divulgado, animais dóceis são torturados em praias não tão distantes, indígenas são expulsos de suas terras originárias, mulheres são mortas e violentadas, escândalos de bilionários e pornografia infantil são descobertos, e assim o mundo vai nos consumindo e obstruindo nossas existências. Até que chega o livro de Érico. A obra de Érico Vieira (2025), intitulada A distopia cotidiana dos oprimidos: psicodrama e exclusão social, nos força a esperançar (Freire, 1992).

Este livro apresenta-se como um marco teórico-prático fundamental para aqueles que buscam forças para seguirem lutando contra as injustiças sociais em meio a um cenário praticamente distópico, não fosse a certeira realidade que nos assola. A obra de Érico é essencial não somente para psicodramatistas, como para todas as pessoas que buscam compreender os processos de subjetivação em contextos de vulnerabilidade social no Brasil e no mundo. Fruto de 11 anos de um trabalho sistematizado que articula as dimensões do ensino, da pesquisa e da extensão, o livro transcende a mera aplicação técnica para consolidar o psicodrama como uma crítica contundente à ordem social vigente.

Tomando como fio condutor a Revolução Criadora de Moreno (1975/2012), o autor estabelece como premissa ética e metodológica o compromisso de liberar a vida onde esta se encontra obstruída, em uma atualização do psicodrama (Vieira, 2017). Para tanto, a obra propõe um mergulho na historicidade dos sujeitos ao validar a profundidade das trajetórias singulares diante do apagamento promovido pela exclusão; o autor questiona as forças instituídas que buscam impor uma universalidade das subjetividades ignorando as particularidades da dor produzida pelas estruturas de poder.

A fundamentação teórica é robusta e permite que o autor aprofunde o psicodrama não apenas como método clínico, mas como ferramenta de análise da racionalidade neoliberal. O autor convoca as pessoas leitoras a pensar sobre os mundos de morte e não pertencimento gerados por um projeto de país que historicamente privilegia grupos dominantes. Érico denuncia a produção social do sofrimento e a lógica de exploração dos seres, propondo uma ruptura radical com a “clínica da cura” tradicional. Em seu lugar, aposta nos saberes dos usuários e na horizontalidade da relação terapêutica e pedagógica. O que este livro nos convoca é à retomada de um psicodrama voltado para a implicação ético-política com o público.

No primeiro ato, Parte I – Reflexões teóricas: subcidadania, subjetividade e psicodrama, Érico nos apresenta as condições de possibilidade para a banalização da desigualdade social enquanto racionalidade fundante das subjetividades brasileiras. Um dos pontos altos desta seção é a discussão sobre a espontaneidade criadora e suas interseccionalidades. O autor sustenta a dimensão política desse conceito como “possibilidade de resistência, de diferenciação, de criação de descontinuidade e rupturas” (p. 54). E vai além: ele urge para uma politização da teoria psicodramática, lembrando de sua gênesis ontoepistêmica, aquela que faz convocar a um posicionamento contra-hegemônico: “O psicodrama não deve ficar distante dos conflitos históricos em que todas as pessoas devem tomar partido. O psicodrama seria uma mistura de carne e sonho, corpo e imaginação. Imaginações encarnadas” (p. 57). É preciso tomar a imaginação como prática libertária e transgressora.

Nesse sentido, o livro oferece a força necessária para romper com a conserva colonial brasileira (Vomero & Malaquias, 2025; Vomero & Nery, 2023), buscando desarticular a lógica de que o Brasil é um território exclusivo para elites. Nos faz encarar os privilégios e a privatização da prática psicodramática brasileira e nos lembra que, independentemente do contexto de atuação, há de se considerar a política e as relações de poder presentes nas intervenções sociátricas.

Contudo, este posicionamento não é somente lançado ao relés, pois no segundo ato, Parte II – Incursões socionômicas no campo, Érico apresenta imersões coletivas em práticas de cuidado em saúde como ferramentas propositivas de ação diante da desigualdade social. É como Devanir Merengué (2013, p. 10) nos apresenta em seu prefácio da obra: “Érico e seus alunos transformam a indignação em co/moção, movendo-se juntos”, são “protagonistas da recusa”, pois se recusam a apaziguar-se em um mundo de injustiças. Érico nos mostra o quanto somos povoados com uma arma de guerrilha, parte de nossa alma latino-americana, que se manifesta pela força política da imaginação (Vasconcelos et al., 2022).

Dividida em cinco subseções, esta segunda parte da obra nos leva a caminhar junto a uma clínica das margens, projeto de pesquisa e extensão de uma universidade pública federal, que oferece cuidados em saúde mental a partir de plantões psicológicos em uma casa de apoio de uma cidade no Centro-Oeste brasileiro. O público: pessoas em situação de rua, andarilhos, desempregados, figuras excluídas do giro de mercado formal, trabalhadores de baixa renda. Vozes que importam e nos lembram da máxima moreniana de que uma resposta nos leva a uma centena de perguntas, entre as quais: “como a desigualdade e a injustiça sociais acontecem na vida cotidiana?” (p. 85). Os registros para essa e uma série de outras perguntas que nos levam a dar novos sentidos para a distopia cotidiana dos oprimidos são carregados com base nas narrativas de 237 diários de campo, gerados entre 2019 e 2022, que transbordam as marcas da escassez e das opressões tanto banalizadas em nossa lida diária: o desejo de morrer por não conseguir mais pagar o aluguel de sua casa, as formas humilhantes suportadas em uma vida mortificada, a sensação de estar vivendo em uma corda bamba cuja queda seria fatal, a culpabilização de que a pobreza seria um valor atribuído por seu desmerecimento, a impotência do trabalhador, o sentimento e a percepção de invisibilidade, o sentido de lixo humano, entre tantos outros relatos e afetos que partem da escuta do sofrimento.

Baseados nesses narratórios, entendemos que a distopia aqui não é um futuro temível e distante, mas a própria malha de poder sobre a vida que, ao normalizar a exclusão, transforma o sofrimento das margens em um componente útil e administrável da engrenagem social. É a materialização de dispositivos de governo das vidas que confinam sujeitos a uma docilidade forçada pela escassez.

Ao problematizar a distopia em sua obra, Érico nos faz compreender que ela se sustenta por regimes de verdade que naturalizam a subcidadania. No entanto, o psicodrama proposto por Érico atua como uma prática de liberdade, uma ética que subverte a lógica da mortificação. Ao fazer brotar os diários de campo e as narrativas de dor, o autor opera uma verdadeira arqueologia das subjetividades silenciadas, transformando o espaço da clínica das margens em heterotopias: “lugares que se opõem a todos os outros, destinados, de certo modo, a apagá-los, neutralizá-los ou purificá-los. São como que contraespaços” (Foucault, 2013, p. 20), permitindo que os sujeitos deixem de ser objetos de intervenção para se tornarem inventores de suas próprias existências.

O café já esfriou e as crianças acordaram; com elas, meu olhar sobre a força revolucionária que o psicodrama e as ferramentas grupais podem provocar nas distopias cotidianas. As perguntas que encerram o livro me convocam: “Para que existem psicodramatistas?” (p. 184). A contribuição de Érico Vieira é essencial para que possamos olhar nossas práticas e buscar o que essa pergunta significa na contemporaneidade. Ao integrar teoria e prática de forma indissociável, A distopia cotidiana dos oprimidos: psicodrama e exclusão social reafirma o potencial revolucionário do psicodrama como via de resistência e de reinvenção da vida diante das cotidianas opressões de nossos dias. Que possamos seguir, lutando.

AGRADECIMENTOS

Agradecimentos à força de resistência de Érico Douglas Vieira e a todos os psicodramatistas ativos na luta contra os fascismos cotidianos.

DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIALNão se aplica.

FINANCIAMENTONão se aplica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.

REFERÊNCIAS

Foucault, M. (2013). O corpo utópico, as heterotopias. n-1 edições. [ Links ]

Freire, P. (1992). Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra. [ Links ]

Merengué, D. (2013). Literatura da recusa: protagonismo e resistência. Revista Brasileira de Psicodrama, 21(1), 127-140. https://revbraspsicodrama.org.br/rbp/article/view/321Links ]

Moreno, J. L. (2012). Psicodrama. Cultrix. (Obra original publicada 1975) [ Links ]

Vasconcelos, M. F. F., Melo, M. R., Carvalho, M. C., & Venancio, K. M. S. (2022). Pela realidade suplementar desses (nossos) tempos. Revista Brasileira de Psicodrama, 30(1), 1-10. https://doi.org/10.1590/psicodrama.v30.588 [ Links ]

Vieira, E. D. (2017). O Psicodrama e a pós-modernidade: espontaneidade como via de resistência aos poderes vigentes. Revista Brasileira de Psicodrama, 25(1), 59-67. Recuperado de https://www.revbraspsicodrama.org.br/rbp/article/view/164/150Links ]

Vieira, E. D. (2025). A distopia cotidiana dos oprimidos: psicodrama e exclusão social. Ágora. [ Links ]

Vomero, L. S. Z., & Malaquias, M. C. (2025). Desobediência neoliberal: um relato de fracasso. Revista Brasileira de Psicodrama, 33, 1-10. https://doi.org/10.1590/psicodrama.v33.682 [ Links ]

Vomero, L. S. Z., & Nery, M. P. (2023). Uterodrama: descolonizando corpo e menstruação. Revista Brasileira de Psicodrama, 31(1), 1-10. https://doi.org/10.1590/psicodrama.v31.597 [ Links ]

Recebido: 08 de Fevereiro de 2026; Aceito: 21 de Fevereiro de 2026

*Autora correspondente: orianahadler@gmail.com.

Editora de seção:

Marília Meneghetti Bruhn https://orcid.org/0000-0002-7078-1530

CONFLITO DE INTERESSE

Nada a declarar.

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