Quase por impulso, compro o livro. Queria entender Uterodrama. Começo a leitura de forma despretensiosa, diria até um pouco negligente. Apenas leio. Aos poucos, vou me envolvendo. Caminho distraidamente e, no primeiro tropeço, sou exigida a olhar atentamente o caminho: onde estão as pedras? As flores? Os impedimentos? As facilidades? E, principalmente, para onde esse caminho me leva?
Aceito minhas sensações e, sobretudo, o convite de Laura para compreender o sentido do uterodrama como método psicodramático. É sobre a experiência da leitura que escrevo esta resenha, com um profundo esforço de fidelidade à poética teórico-metodológica contida na escrita de Laura. Escolho chamá-la pelo primeiro nome, Laura, pois me sinto íntima. As palavras gestadas e paridas por ela revelam que sou compreendida como um ser que menstruou por muitos anos, portadora do sangue mensal divino que se torna “monstruação”.
O livro Uterodrama: reflorestando o corpo-território, de Laura de Souza Zingra Vomero, uma pessoa trans não-binária, apresenta uma escrita profunda, densa e, ao mesmo tempo, leve e fluida, produzindo uma leitura reflexiva sem ser exaustiva. Com essa combinação de profundidade e leveza, a autora aborda temas relacionados à experiência das pessoas que sangram, explorando o universo do corpo-território e as lógicas hegemônicas que incidem sobre esses corpos. Apresenta o uterodrama como uma metodologia psicodramática que toma o útero como palco psicodramático para a expansão da criatividade e da espontaneidade; uma proposta que transcende a clínica convencional e nos alerta para a responsabilidade política das intervenções no psicodrama.
O prefácio, escrito por Maria da Penha Nery, inicia-se adjetivando o livro como “desobediente”. Benditas sejam as desobediências que produzem confronto e sabedorias questionadoras dos modelos cronicamente estabelecidos. O olhar preciso de Laura para o útero, a menstruação e as relações de poder, raça e gênero que infeccionam os corpos sangrantes produz um texto atualíssimo, sustentado por uma pesquisa primorosa, aprofundada e com referências bibliográficas que dialogam entre si e se organizam em torno das ideias propostas pela autora.
Ao parir palavras que “são infinitas linhas, cordões-umbilicais que costuram sentenças e orações” (Vomero, 2025, p. 23), Laura faz poesia. Em Parindo palavras, alerta para a não linearidade de seu escrito e legitima a coerência com o que propõe no livro, pois um texto linear perde o caminho das palavras-imagens. Da leitura surge a imagem de um rio que nasce e deságua no mar, mas que, apesar de parecer seguir um único curso, a cada momento se transforma: continente e conteúdo se transmutam, despertando novas imagens. Ao subverter as encruzilhadas de tudo que se impõe como universal, inclusive as epistemologias, Laura desafia a “imaginar projetos futuros múltiplos e libertários, em direção à prática do bem viver” (Vomero, 2025, p. 23).
O livro está didaticamente dividido em três partes interligadas, não como blocos rígidos, mas como fluxos que se condensam, se aproximam e se afastam em um movimento dinâmico e ágil. Na primeira parte, Útero: uma ficção ocidental, a autora realiza um percurso histórico, filosófico e ideológico sobre as narrativas construídas em torno do útero, da menstruação e da invenção do gênero binário. Laura revela como essas construções serviram, e ainda servem, para aprisionar corpos com útero em estratégias de dominação.
Na pré-história, a narrativa ocidental, atravessada pelo binarismo, constrói a figura da mulher cisgênera a partir de sua capacidade de gerar vida e produzir alimento, aproximando-a das divindades. Com o advento do modelo cis-heteropatriarcal das sociedades, inicia-se o declínio desse status sagrado atribuído à figura cis-feminina e, ao longo da história, a mulher cis passa a ser tratada como mercadoria, sujeita à compra, venda ou troca. Na Idade Antiga, discute-se a corrupção das corpas sensíveis, com a imposição da castidade feminina como forma de defesa das posses e do patrimônio, ao mesmo tempo que se desvalorizam existências que escapam ao modelo binário de homem e mulher formulado por Platão. A Idade Média, por sua vez, é marcada pelas restrições religiosas da sexualidade e dos corpos: fluxos, ritmos e corpos femininos são demonizados, considerados imperfeitos e incapazes. Já na Idade Moderna e na antiatualidade, o devir-profano enquanto potência de vida é alvo de tentativas de captura pelos discursos médicos. Esses discursos assumem a função de explicar, definir e patologizar existências não-binárias, transmasculinas, boycetas e mulheres cisgêneras, deslocando-as para regimes de saber-poder que normatizam corpos, gêneros e modos de viver.
Essa construção histórica, ideológica e filosófica evidencia que tais narrativas não são neutras: são instrumentos de poder que limitam, desqualificam e tentam inviabilizar a potência criativa e espontânea desses corpos.
Na segunda parte, Psicodrama outro, Laura inicia com Territórios de criações anticoloniais, propondo uma reflexão crítica sobre os limites e possibilidades do psicodrama diante das epistemologias coloniais que o atravessam no Brasil. Afirma: “Como psicodramatistas, talvez nosso encontro com esse outrem seja, de fato, um convite para auxiliar no corte dessas raízes, permitindo que os corpos se transformem e se conectem em harmonia com territórios outros” (Vomero, 2025, p. 91).
Ao refletir sobre os limites do corpo teórico produzido por Moreno, Laura produz ciência e provoca uma centena de perguntas, mantendo-se fiel à máxima do poema “A divisa”, de J. L. Moreno: “Mais importante que a ciência é o que ela produz. Uma resposta provoca uma centena de perguntas” (Moreno, 1975/2012, p. 3).
Essa segunda parte é de leitura obrigatória para psicodramatistas. Destaco, em especial, o conceito de conserva colonial, que amplia e aprofunda a noção moreniana de conserva cultural. Enquanto esta se refere à cristalização de formas sociais, a conserva colonial evidencia a permanência de dispositivos coloniais de poder que restringem a espontaneidade, bloqueiam a criatividade e produzem adoecimento. A ideia de conserva cultural não alcança a brutalidade das relações de poder construídas pelo colonialismo. Moreno propõe uma luta constante contra as conservas culturais em busca do paraíso perdido; Laura instiga a luta contra a conserva colonial.
Ao propor esse conceito, a autora convoca psicodramatistas a reconhecerem e enfrentarem os efeitos da conserva colonial na clínica, na teoria e nas relações sociais. Trata-se de um chamado ético e político para práticas psicoterapêuticas descolonizadas. A proposta metodológica que toma o útero como espaço de cura emerge como uma potente invenção.
A metodologia apresentada no capítulo Uterodrama: rumo ao reencantamento e à alegria das corpas é descrita como um cuidado ecológico que transcende a análise. Busca não apenas reconstruir narrativas, mas plantar sementes em experiências que, por algum motivo, não puderam florescer. O uterodrama se nutre das técnicas do psicodrama, alicerça-se em uma teoria crítica e no resgate de memórias ancestrais, visando superar a lógica hegemônica que segrega e inferioriza corpos que sangram. O útero se amplia como espaço psicodramático, e não como cavidade, favorecendo o reflorestamento da espontaneidade e da criatividade ao evidenciar os atravessamentos coloniais conservados nesses corpos.
Em Caleidoscópio vivo, temos a apresentação da prática clínica do uterodrama. A escolha por flores para nomear as(os) pacientes é mais do que uma proteção ética: é a confirmação da proposta de uma amorosidade desafiadora. Os casos clínicos, descritos com riqueza de detalhes, elucidam a metodologia, revelam sua potência e convidam a fluxos menstruais outros.
Aceito o convite para embarcar nessa jornada que Laura sabiamente define como rizomática. As imagens vão sendo construídas e, no meu caso, a desconstrução se dá pela ampliação do útero e pela confluência circular do começo-meio-começo, como afirma Nego Bispo, citado por Laura. Durante a leitura, pensei na contracolonização, conceito de Nego Bispo (Santos, 2023) que se presentifica na escrita de Laura, mas também no fato de que fomos e ainda somos colonizados, o que exige que sigamos descolonizando no sentido de produzir ciência e escritas que transcendam normatizações conservadas colonialmente.
Maria Célia Malaquias (2016, 2017, 2025), estudiosa do psicodrama e das relações raciais, afirma que Uterodrama é uma obra-prima que emociona e atravessa. Uma obra que, ao mesmo tempo, denuncia as violências coloniais que moldam corpos com útero e celebra a potência criativa, política e ancestral desses corpos. Ao abrir espaço para as vozes das experiências menstruantes, Laura propõe uma metodologia inovadora, sustentada no psicodrama e aberta ao diálogo com outras epistemologias, comprometida com a descolonização da clínica e com a luta contra as conservas coloniais. Recomendo a obra a quem busca uma leitura provocativa, que questiona práticas clínicas sustentadas por lógicas e epistemologias hegemônicas, ressaltando que exige envolvimento emocional e abertura para reflexões e confrontamentos com nossas próprias conservas coloniais.














