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Revista Brasileira de Psicodrama

 ISSN 0104-5393 ISSN 2318-0498

Rev. Bras. Psicodrama vol.34  São Paulo  2026   26--2026

https://doi.org/10.1590/psicodrama.v34.762 

RESENHA DE LIVRO

Uterodrama: reflorestando o corpo-território

Uterodrama: reforesting the body-territory

Uterodrama: reforestando el territorio corporal

1Associação Bahiana de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo - Salvador (BA), Brasil.


Quase por impulso, compro o livro. Queria entender Uterodrama. Começo a leitura de forma despretensiosa, diria até um pouco negligente. Apenas leio. Aos poucos, vou me envolvendo. Caminho distraidamente e, no primeiro tropeço, sou exigida a olhar atentamente o caminho: onde estão as pedras? As flores? Os impedimentos? As facilidades? E, principalmente, para onde esse caminho me leva?

Aceito minhas sensações e, sobretudo, o convite de Laura para compreender o sentido do uterodrama como método psicodramático. É sobre a experiência da leitura que escrevo esta resenha, com um profundo esforço de fidelidade à poética teórico-metodológica contida na escrita de Laura. Escolho chamá-la pelo primeiro nome, Laura, pois me sinto íntima. As palavras gestadas e paridas por ela revelam que sou compreendida como um ser que menstruou por muitos anos, portadora do sangue mensal divino que se torna “monstruação”.

O livro Uterodrama: reflorestando o corpo-território, de Laura de Souza Zingra Vomero, uma pessoa trans não-binária, apresenta uma escrita profunda, densa e, ao mesmo tempo, leve e fluida, produzindo uma leitura reflexiva sem ser exaustiva. Com essa combinação de profundidade e leveza, a autora aborda temas relacionados à experiência das pessoas que sangram, explorando o universo do corpo-território e as lógicas hegemônicas que incidem sobre esses corpos. Apresenta o uterodrama como uma metodologia psicodramática que toma o útero como palco psicodramático para a expansão da criatividade e da espontaneidade; uma proposta que transcende a clínica convencional e nos alerta para a responsabilidade política das intervenções no psicodrama.

O prefácio, escrito por Maria da Penha Nery, inicia-se adjetivando o livro como “desobediente”. Benditas sejam as desobediências que produzem confronto e sabedorias questionadoras dos modelos cronicamente estabelecidos. O olhar preciso de Laura para o útero, a menstruação e as relações de poder, raça e gênero que infeccionam os corpos sangrantes produz um texto atualíssimo, sustentado por uma pesquisa primorosa, aprofundada e com referências bibliográficas que dialogam entre si e se organizam em torno das ideias propostas pela autora.

Ao parir palavras que “são infinitas linhas, cordões-umbilicais que costuram sentenças e orações” (Vomero, 2025, p. 23), Laura faz poesia. Em Parindo palavras, alerta para a não linearidade de seu escrito e legitima a coerência com o que propõe no livro, pois um texto linear perde o caminho das palavras-imagens. Da leitura surge a imagem de um rio que nasce e deságua no mar, mas que, apesar de parecer seguir um único curso, a cada momento se transforma: continente e conteúdo se transmutam, despertando novas imagens. Ao subverter as encruzilhadas de tudo que se impõe como universal, inclusive as epistemologias, Laura desafia a “imaginar projetos futuros múltiplos e libertários, em direção à prática do bem viver” (Vomero, 2025, p. 23).

O livro está didaticamente dividido em três partes interligadas, não como blocos rígidos, mas como fluxos que se condensam, se aproximam e se afastam em um movimento dinâmico e ágil. Na primeira parte, Útero: uma ficção ocidental, a autora realiza um percurso histórico, filosófico e ideológico sobre as narrativas construídas em torno do útero, da menstruação e da invenção do gênero binário. Laura revela como essas construções serviram, e ainda servem, para aprisionar corpos com útero em estratégias de dominação.

Na pré-história, a narrativa ocidental, atravessada pelo binarismo, constrói a figura da mulher cisgênera a partir de sua capacidade de gerar vida e produzir alimento, aproximando-a das divindades. Com o advento do modelo cis-heteropatriarcal das sociedades, inicia-se o declínio desse status sagrado atribuído à figura cis-feminina e, ao longo da história, a mulher cis passa a ser tratada como mercadoria, sujeita à compra, venda ou troca. Na Idade Antiga, discute-se a corrupção das corpas sensíveis, com a imposição da castidade feminina como forma de defesa das posses e do patrimônio, ao mesmo tempo que se desvalorizam existências que escapam ao modelo binário de homem e mulher formulado por Platão. A Idade Média, por sua vez, é marcada pelas restrições religiosas da sexualidade e dos corpos: fluxos, ritmos e corpos femininos são demonizados, considerados imperfeitos e incapazes. Já na Idade Moderna e na antiatualidade, o devir-profano enquanto potência de vida é alvo de tentativas de captura pelos discursos médicos. Esses discursos assumem a função de explicar, definir e patologizar existências não-binárias, transmasculinas, boycetas e mulheres cisgêneras, deslocando-as para regimes de saber-poder que normatizam corpos, gêneros e modos de viver.

Essa construção histórica, ideológica e filosófica evidencia que tais narrativas não são neutras: são instrumentos de poder que limitam, desqualificam e tentam inviabilizar a potência criativa e espontânea desses corpos.

Na segunda parte, Psicodrama outro, Laura inicia com Territórios de criações anticoloniais, propondo uma reflexão crítica sobre os limites e possibilidades do psicodrama diante das epistemologias coloniais que o atravessam no Brasil. Afirma: “Como psicodramatistas, talvez nosso encontro com esse outrem seja, de fato, um convite para auxiliar no corte dessas raízes, permitindo que os corpos se transformem e se conectem em harmonia com territórios outros” (Vomero, 2025, p. 91).

Ao refletir sobre os limites do corpo teórico produzido por Moreno, Laura produz ciência e provoca uma centena de perguntas, mantendo-se fiel à máxima do poema “A divisa”, de J. L. Moreno: “Mais importante que a ciência é o que ela produz. Uma resposta provoca uma centena de perguntas” (Moreno, 1975/2012, p. 3).

Essa segunda parte é de leitura obrigatória para psicodramatistas. Destaco, em especial, o conceito de conserva colonial, que amplia e aprofunda a noção moreniana de conserva cultural. Enquanto esta se refere à cristalização de formas sociais, a conserva colonial evidencia a permanência de dispositivos coloniais de poder que restringem a espontaneidade, bloqueiam a criatividade e produzem adoecimento. A ideia de conserva cultural não alcança a brutalidade das relações de poder construídas pelo colonialismo. Moreno propõe uma luta constante contra as conservas culturais em busca do paraíso perdido; Laura instiga a luta contra a conserva colonial.

Ao propor esse conceito, a autora convoca psicodramatistas a reconhecerem e enfrentarem os efeitos da conserva colonial na clínica, na teoria e nas relações sociais. Trata-se de um chamado ético e político para práticas psicoterapêuticas descolonizadas. A proposta metodológica que toma o útero como espaço de cura emerge como uma potente invenção.

A metodologia apresentada no capítulo Uterodrama: rumo ao reencantamento e à alegria das corpas é descrita como um cuidado ecológico que transcende a análise. Busca não apenas reconstruir narrativas, mas plantar sementes em experiências que, por algum motivo, não puderam florescer. O uterodrama se nutre das técnicas do psicodrama, alicerça-se em uma teoria crítica e no resgate de memórias ancestrais, visando superar a lógica hegemônica que segrega e inferioriza corpos que sangram. O útero se amplia como espaço psicodramático, e não como cavidade, favorecendo o reflorestamento da espontaneidade e da criatividade ao evidenciar os atravessamentos coloniais conservados nesses corpos.

Em Caleidoscópio vivo, temos a apresentação da prática clínica do uterodrama. A escolha por flores para nomear as(os) pacientes é mais do que uma proteção ética: é a confirmação da proposta de uma amorosidade desafiadora. Os casos clínicos, descritos com riqueza de detalhes, elucidam a metodologia, revelam sua potência e convidam a fluxos menstruais outros.

Aceito o convite para embarcar nessa jornada que Laura sabiamente define como rizomática. As imagens vão sendo construídas e, no meu caso, a desconstrução se dá pela ampliação do útero e pela confluência circular do começo-meio-começo, como afirma Nego Bispo, citado por Laura. Durante a leitura, pensei na contracolonização, conceito de Nego Bispo (Santos, 2023) que se presentifica na escrita de Laura, mas também no fato de que fomos e ainda somos colonizados, o que exige que sigamos descolonizando no sentido de produzir ciência e escritas que transcendam normatizações conservadas colonialmente.

Maria Célia Malaquias (2016, 2017, 2025), estudiosa do psicodrama e das relações raciais, afirma que Uterodrama é uma obra-prima que emociona e atravessa. Uma obra que, ao mesmo tempo, denuncia as violências coloniais que moldam corpos com útero e celebra a potência criativa, política e ancestral desses corpos. Ao abrir espaço para as vozes das experiências menstruantes, Laura propõe uma metodologia inovadora, sustentada no psicodrama e aberta ao diálogo com outras epistemologias, comprometida com a descolonização da clínica e com a luta contra as conservas coloniais. Recomendo a obra a quem busca uma leitura provocativa, que questiona práticas clínicas sustentadas por lógicas e epistemologias hegemônicas, ressaltando que exige envolvimento emocional e abertura para reflexões e confrontamentos com nossas próprias conservas coloniais.

AGRADECIMENTOS

Não se aplica.

DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIALA autora declara que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na redação deste manuscrito.

FINANCIAMENTONão se aplica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Todos os dados foram gerados/analisados no presente estudo.

REFERÊNCIAS

Malaquias, M. C. (2016). Psicodrama e relações raciais. Revista Brasileira de Psicodrama, 24(2), 91-100. https://revbraspsicodrama.org.br/rbp/article/view/279Links ]

Malaquias, M. C. (2017). Psicodrama: apontamentos e criação. Revista Brasileira de Psicodrama, 25(2), 112-115. https://revbraspsicodrama.org.br/rbp/article/view/198Links ]

Malaquias, M. C. (2025). Kizomba Psicodramática: experiências de aquilombamento. Revista Brasileira de Psicodrama, 33, 1-14. https://doi.org/10.1590/psicodrama.v33.720 [ Links ]

Moreno, J. L. (2012). Psicodrama. Cultrix. (Obra original publicada 1975) [ Links ]

Santos, A. B. (2023). A terra dá, a terra quer. Piseagrama. [ Links ]

Vomero, L. S. Z. (2025). Uterodrama: reflorestando o corpo-território. Ágora. [ Links ]

Recebido: 18 de Janeiro de 2026; Aceito: 16 de Março de 2026

*Autora correspondente: luizaoliveiradelacerda@gmail.com

Editora de seção:

Oriana Hadler https://orcid.org/0000-0001-9736-2224

CONFLITO DE INTERESSE

Nada a declarar.

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